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ARISTIDES DUARTE

MEMÓRIAS DO ROCK PORTUGUÊS

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João Manuel ARISTIDES DUARTE nasceu em 27 de Março de 1960, na aldeia de Soito, concelho de Sabugal. Desde a sua adolescência que se interessa pelo Rock português e pela música em geral. Em 1986 concluiu o Curso de p ro f e s s o r, n a E s c o l a d o Magistério Primário da Guarda. É docente do 1.º Ciclo do Ensino Básico, vindo a exercer a sua profissão em várias escolas dos distritos da Guarda e Castelo Branco. Em 1998 iniciou a sua colaboração no semanário Nova Guarda, a convite do seu Director, António Pissarra. Na secção “Em Nome das Folias”, desse semanário, tem escrito biografias das mais variadas bandas de Rock portuguesas ou estrangeiras. São essas crónicas, completadas com outras e com muitas fotografias, que são compiladas neste livro, agora dado à estampa. Em 2004 concluiu a licenciatura na área de docência do 1.º Ciclo do Ensino Básico, na Escola Superior de Educação da Guarda. Desde Março de 2005 mantém um Blog na internet, com actualizações quase diárias, que é visitado por mais de mil cibernautas, mensalmente.

PREFÁCIO DE ANTÓNIO MANUEL RIBEIRO


ARISTIDES DUARTE

MEMÓRIAS DO ROCK PORTUGUÊ


Memórias do Rock português

Título: Memórias do Rock Português Autor: João Manuel Aristides Duarte 1.ª reimpressão da 3.ª Edição (revista): Abril 2011 Depósito Legal: 270511/08 ISBN: 972-989-20-1040-3 Edição do Autor Av. São Cristóvão, 64 6320-624 Soito E-mail: akapunkrural@gmail.com Fotocomposição, Impressão e Acabamentos: Litorraia, Litografia e Publicidade da Raia, Lda. 6320-317 Sabugal Telef. 271 753 317 / Fax 271 753 327 / Tlm. 961 956 647 E-mail: litorraia@gmail.com * litorraia@clix.pt


Memórias do Rock português

A meus pais, Alice e Eugénio À Sara, Rita e Rafael para que nunca esqueçam a música portuguesa


Memórias do Rock português

PREFÁCIO Faz-nos falta a memória para sabermos do hoje Há tarefas que são profundamente necessárias à nossa vida colectiva destes dias e, no entanto, permanecem ignoradas, esquecidas, até porque os tempos de aperto aconselham a sobrevivência desesperada. Mas, como no exemplo recorrente do deserto (para mim um local sempre purificador, um espelho), a imagem que não é miragem mostra que há vida e beleza para usufruir. Tudo isto a propósito da responsabilidade que é prefaciar este compêndio do conhecimento musical português moderno do João. Era uma história que faltava fazer, com lucidez jornalística, usando os traços fortes da síntese (a crítica fica para depois, para quem adquire a obra e a ouve), delineando a história do Pop/Rock luso com raízes antes da revolução política de Abril de 1974 até aos nossos dias. Primeiro, os movimentos, as modas musicais suscitadas em cada época; depois as biografias dos artistas e dos grupos; e por fim a escolha e (aí sim) a crítica discográfica com toda a vontade de mostrar e nenhuma de destruir. Conheci o João através de uns recortes que regularmente recebia de uma empresa especializada em analisar e tratar notícias. Naturalmente o material recebido era sobre os UHF. Várias vezes parei para analisar o que um sujeito, desterrado na fria, forte e farta Guarda, escrevia sobre nós e sobre os meus colegas de aventura nos finais dos anos 70. Acreditem que, por várias vezes, fiquei espantado com a minúcia dos factos relatados. Glória a este homem que tem memória, pensei amiúde; aplausos para este melómano do Rock português e periféricos, reafirmo. Ainda bem que todo esse trabalho e toda essa paixão preocupada correram para este livro que agora começais a abrir. Mais tarde encontrei o João Aristides Duarte ligado ao mundo dos espectáculos na sua região: fazia-o por hobby; importava-lhe que o artista contratado para a festa na terrinha tivesse obra de valor e qualidade cénica. Habituei-me, nesta profissão a que pertenço há tanto tempo, que não está felizmente tudo adquirido: há sempre, um pouco por aí, como as belezas naturais que as promoções turísticas formatadas esquecem, qualquer coisa de bom, de intrinsecamente nosso, por descobrir. O João é um artífice desses. 7


Memórias do Rock português

É preciso também referir neste ponto da prosa que ele é professor primário, por isso ocupado, por isso a sentir na pele e no carácter o rebuliço destes tempos de encruzilhada social. Manter ao longo de oito anos uma crónica regular de pesquisa e análise do que se fez (história) na música portuguesa moderna, mantendo actualizada a escuta do que se faz no presente (há cada vez mais discos com edição de autor difíceis de encontrar), é obra! Tiro-lhe o chapéu, naturalmente. “Memórias do Rock Português” vem completar a amostragem da nossa música popular iniciada com “Escrítica Pop” (Ed. Assírio & Alvim, 1982, com reedição em 2003), de Miguel Esteves Cardoso; “A Arte Eléctrica de Ser Português 25 Anos de Rock'n' Portugal” (Ed. Bertrand, 1984), de António A. Duarte; “Musa Lusa” (Ed. Hugin, 1997), de Jorge Lima Barreto; “Os Melhores Álbuns da Música Popular Portuguesa” (Ed. Jornal Público, 1998), de vários autores; e “Música Ligeira Portuguesa” (Ed. Círculo de Leitores, 1998), de Luís Pinheiro de Almeida e João Pinheiro de Almeida. É, naturalmente, o mais completo de todos, não só por ser o último mas também porque cuidou de ir atrás no tempo, cruzando nomes, projectos alternativos com elementos de bandas estabelecidas (uma peculiaridade muito nossa), desenhando na areia do deserto, onde quase sempre a música vive (cada um de per si), os trilhos das fugas dos músicos em busca de novas e noivas experiências. Obrigado, senhor professor, pelo seu tempo, por este cuidado e pela coragem de reunir o seu conhecimento sobre nós em livro. António Manuel Ribeiro Músico Fevereiro de 2006

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Memórias do Rock português

AGRADECIMENTOS Para a elaboração deste livro contámos com variadas colaborações, sobretudo na cedência de fotografias e capas de alguns discos. A todos agradecemos do fundo do coração. António Manuel Ribeiro (pelo prefácio e por todos os bons momentos- O Rock vive!!!), Carlos Vilafanha, Luís Lourenço (Cesário Esmifroaço & Caos Aparente), João Carlos Callixto (um grande abraço, mestre), António Nabais, José Tomé, Tiago Comba, António Alberto Fonseca, Jorge Trindade (Iodo), Manuel Barreto (Ananga-Ranga), Luís Miguel Luz (Perspectiva), Paulo Rodrigues, Rui Maurício, Luís Miguéns (Hosanna), Rodrigo Velez, José Serra (Aqui D'El Rock), Sérgio Castro (Arte & Ofício), Aníbal Miranda, Nuno Ávila, Marta Teixeira da Silva e equipa da Cãoceito (pela disponibilidade para ajudar), André Nascimento, Alexandre Correia (dos Popeline Beije e FAS), Luís Beethoven (dos Ópera Nova e FAS), Ângelo Miguel Fernandes, Fausto de Carvalho (músico dos Mandrágora, banda Rock dos anos 80), Manelito (Alcoolémia), António Pissarra (pelo convite à escrita no “Nova Guarda”), Luís Aristides Duarte (obrigado, mano, pela foto do concerto dos Hosanna, da autoria de Viriato Louro), Maria de Deus Lousa (pela rara foto dos finalistas, em 1978), José Manuel Aguiar (pelas correcções de algumas gralhas da 1.ª edição) e todos aqueles que, por e-mail, nos incentivaram a deitar “mãos à obra” . Agradeço, também, a todos os blogs com “link” no blog “Rock Em Portugal”, da minha autoria. O Autor

Nota: Apesar dos esforços envidados, foi impossível apurar os autores de todas as fotografias incluídas nesta obra (sobretudo das mais antigas). Assim solicita-se que os autores das fotografias entrem em contacto com o autor para que o seu nome possa ser referido numa possível nova edição desta obra. Para contactar o autor : akapunkrural@gmail.com 9


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NOTA À TERCEIRA EDIÇÃO Após a segunda edição desta obra ter esgotado colocaram-se várias hipóteses: fazer uma reimpressão da 2.ª edição, actualizar a edição e revê-la ou aumentar o número de páginas, colocando novas biografias. Pensei, ainda, numa outra hipótese que seria a de não fazer uma terceira edição e avançar para um novo tomo da obra, um segundo volume, totalmente inédito. Depois de uma meditação profunda resolvi fazer uma terceira edição, actualizando as biografias das bandas e artistas e fazer uma revisão mais aprofundada da obra. Tendo em consideração a minha situação profissional, uma vez que estou colocado como professor numa escola que fica a 125 km da minha residência, onde tenho que ficar toda a semana (os Invernos aqui no meu distrito não são de molde a poder fazer-se uma tão longa viagem, diariamente) e os afazeres dos docentes que estão, constantemente, a aumentar, não me restava outra alternativa, uma vez que não tenho tempo para escrever o novo tomo da obra, nos tempos mais próximos. Assim, esta terceira edição apresenta-se com actualizações nas biografias, referentes a factos ocorridos desde a 2.ª edição, bem como na DISCOGRAFIA BÁSICA DO ROCK PORTUGUÊS e, também, uma capa remodelada. A obra foi, também, revista. O segundo tomo das “Memórias do Rock Português” poderá ver a luz do dia ainda este ano, mas só para o fim do Verão/início de Outono. Esta terceira edição será limitada, com poucos exemplares disponíveis.

O Autor

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O ROCK PORTUGUÊS

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DOS PRIMÓRDIOS À ACTUALIDADE 1- No princípio era o “yé yé” A música Rock, um fenómeno juvenil, começou nos Estados Unidos da América há mais de 60 anos.2 No início muito malvista por parte dos poderes instalados, acabou aos poucos por ser assimilada pelo sistema.3 A indústria discográfica conseguiu enormes lucros à custa desse tipo de música. A passagem do fenómeno para o Velho Continente levou à explosão de bandas como os Beatles, Shadows, Rolling Stones, etc, no início dos anos 60 do século XX. Portugal, um país pequeno e isolado, vivendo numa ditadura, não conseguiu, mesmo assim, manter-se alheio a este tipo de música. Havia sempre alguém, oriundo do meio estudantil e das classes mais favorecidas que se deslocava a Inglaterra, onde tomava contacto com o fenómeno juvenil, que estava a abalar a Velha Albion. Alguns temas de música Rock começaram, timidamente, a passar nas rádios portuguesas, embora em pequena escala. Nos anos 60, a música portuguesa resumia-se ao estafado nacionalcançonetismo, ao folclore apoiado pelo Secretariado Nacional da Informação (SNI), ao fado e ao surgimento dos “baladeiros”.4 Uma parte da juventude, normalmente a mais esclarecida ou de classes sociais mais abastadas, começou a importar o fenómeno para Portugal. O preço dos instrumentos musicais, em Portugal, também não era de molde a ser acessível a pessoas de classes sociais mais desfavorecidas. Na época eram conhecidos como “conjuntos” e a música por “yé yé”.5 Um dos primeiros, senão o primeiro, dos conjuntos a praticar esse estilo de música, em Portugal, foram os Babies, aos quais pertenceu José Cid. 1 Ao longo deste livro usaremos a nomenclatura “Rock português” para designar a música Pop/Rock que se fez (ou faz) em Portugal. Por vezes, poderá aparecer “música moderna portuguesa” mas o seu significado é o mesmo, neste livro. Bem sabemos que há música moderna que não é Rock. Por outro lado grafaremos, sempre, o léxico Rock com maiúscula inicial. 2 Cf. Livro “50 Anos de Música Rock” de Philippe Paraire (Pergaminho, Lisboa, 1992) 3 Cf. Livro “Rock & Indústria” de Reebee Garofalo e Steve Chapple (Edtorial Caminho, Lisboa, 1989) 4 O termo “balada” designava um certo estilo de música, diferente do nacional-cançonetismo, de que eram expoentes máximos nomes como José Afonso e Adriano Correia de Oliveira. Este estilo (malvisto pelo regime) era uma natural evolução do Fado de Coimbra. As letras das “baladas” nada tinham a ver com o resto. Eram letras que focavam problemas sociais (como em “Ronda dos Paisanos” de José Afonso), e cujo acompanhamento musical era, normalmente, feito com uma viola acústica. Por causa disso, durante um certo período o termo “baladeiro” teve um carácter pejorativo. No entanto no disco de Adriano Correia de Oliveira “Gente de Aqui e de Agora”, editado já nos anos 70, tocou bateria Zé da Cadela, um nome mítico do Rock português. 5 O termo “yé yé”, que também aparece, na imprensa da época grafado como “ié ié”, foi inventado, porque muitas das canções dos grupos anglo-saxónicos usavam a expressão “yeah”, que é o mesmo que “yes”

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Não tocavam grande coisa. Apenas faziam versões de músicas inglesas ou americanas, para animar os bailes, normalmente organizados por estudantes. Mas, já eram uma novidade total em Portugal. E a juventude aderiu. Outro conjunto surgido na época foi o Conjunto de Pedro Osório, que chegou a fazer uma versão intitulada “Era um Biquini Pequenino às Bolinhas Amarelas”, um tema que, se ouvido hoje soa bastante “kitsch”, mas que era, já, um grande avanço na música portuguesa. Muitos dos “conjuntos” limitavam-se a fazer versões dos grupos ingleses ou americanos que estavam em voga. Nem sequer tinham grande preocupação de cantar bem inglês. Mas, havia alguns que já apresentavam temas próprios, normalmente cantados em português, e alguns, também, em inglês. Outros faziam versões, em português, de temas de grupos como os Beatles. Zeca do Rock O disco gravado por um português, considerado hoje o primeiro de estilo “yé yé”, foi-o por um cidadão chamado José das Dores, o qual tinha o nome artístico de Zeca do Rock. Esse disco, um 6 EP que contém o primeiro “yeah” gritado por um português num disco, no tema “Sansão Foi Enganado”, foi editado em 1961. Alguns grupos limitavam-se a imitar o som da época, sobretudo os Shadows. Este grupo inglês, que foi o acompanhante musical do cantor Cliff Richard , executava uns temas instrumentais, onde os solos de guitarra eléctrica sobressaiam. Foi a imitar os ídolos da época (sobretudo Beatles, Shadows e Kinks) que apareceram “conjuntos” como os Titãs, os Rebeldes,7 Conjunto Mistério, Daniel Bacelar e os Gentlemen, os Keepers, os Plutónicos, Pop Five Music Incorporated, Grupo 5, Fernando Conde, os Conchas, os Demónios Negros, os Steamer's, FBI,8 os Ekos, os Chinchilas, os Charruas,9 os Strollers, os Jets, Conjunto Sousa Pinto, Diamantes Negros, Vítor Gomes e os Gatos Negros, os 11 10 Sharks, os Guitarras de Fogo, os Álamos, os Morgans, os Claves e os Rocks. 6 EP é a sigla inglesa de “Extended Play”. Trata-se de um disco, de formato igual ao de um single (7 polegadas), mas com mais de duas canções. Nos anos 60 usaram-se muito. O LP, que roda a 33 RPM, surgiu antes, em 1948,mas nunca foi um formato muito usado pelos grupos de “yé yé”, em Portugal. A sigla LP significa “Long Play”. Os singles têm apenas dois temas, um em cada face do vinil. 7 Grupo originário de Moçambique, que editou uma versão do popular “Tiro Liro”. O cantautor Fausto teve, também, um grupo com o mesmo nome em Portugal, nesta época, mas não conhecemos gravações suas. 8 Nome retirado de um tema dos Shadows 9 Grupo do qual fazia parte Dany Silva 10 Grupo a que pertenceu Pedro Castro, mais tarde membro dos Petrus Castrus 11 O cantor dos Rocks era Eduardo Nascimento , que passaria para a história por ser o intérprete de “O Vento Mudou” num Festival RTP da Canção

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MemĂłrias do Rock portuguĂŞs

Zeca do Rock

Daniel Bacelar

Gatos Negros

Diamantes Negros

Anos 60 15


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Alguns faziam versões instrumentais de temas da música tradicional portuguesa. Muitos destes “conjuntos” eram oriundos do meio estudantil universitário e, por isso, alguns tinham nomes como Quinteto Académico, Conjunto Académico Orfeu, Conjunto Académico Os Espaciais ou Conjunto Académico João Paulo. O regime ditatorial apenas tolerava este tipo de música. Não o incentivava, nem se opunha, abertamente, a ele. Com o início da guerra colonial muitos dos “conjuntos” tiveram que se desfazer porque os seus elementos eram chamados a cumprir o serviço militar, ou porque se exilavam. Para os grupos dos anos 60, um dos momentos maiores acontecia com a sua participação nos concursos “yé yé” que, tinham lugar, regra geral em Lisboa, no Teatro Monumental. Foi aí, nesses concursos, que muitos grupos se tornaram conhecidos do público, sobretudo jovem, que enchia as galerias da sala de espectáculos. Alguns “conjuntos” conseguiam, apesar de tudo, ter bastante qualidade. Entre eles estavam, sem dúvida, os Sheiks, grupo onde pontificavam Paulo de Carvalho e Carlos Mendes. Os Sheiks foram um caso sério de popularidade, cantando em inglês, e estiveram mesmo à beira de conseguir a tão almejada internacionalização. A exemplo do que se passou, a nível mundial com a “beatlemania”, em Portugal chegou a existir uma “sheiksmania”. No estilo musical distinguiam-se pouco dos Beatles e tinham composições próprias de grande qualidade. Um caso isolado de popularidade é o dos Jotta Herre, um grupo que conseguiu, apenas com a edição de um EP, um sucesso nunca atingido por nenhum outro grupo português, nos anos 60. Tal deveu-se ao facto de o tema título do EP “Penina”12 ter sido composto por Paul McCartney , que numa passagem por Portugal e, numa noite de inspiração compôs o tema, que ofereceu ao grupo. No entanto, o tema “Penina” é creditado nas diferentes edições discográficas como pertencendo à dupla Lennon/McCartney. Com o surgimento do Quarteto 1111, grupo que teve a sua origem no Conjunto Mistério, algo mudou na música portuguesa. Quando José Cid veio para Lisboa, tirar o curso do INEF13 juntou-se ao Conjunto Mistério e a música portuguesa nunca mais foi a mesma. A edição do LP de estreia, em 1970, do Quarteto 1111 (grupo que começou nos anos 60, e por isso figura nesta década), foi marcante, já que este 12 Nome de um hotel algarvio 13 Actual Faculdade de Motricidade Humana

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grupo era dos que apresentava melhor qualidade, tanto musical como poética. A edição de “Quarteto 1111”, o nome do álbum, foi retirada do mercado três dias depois de o mesmo se encontrar à venda. Quem fez isso foi a famigerada Comissão de Censura, uma estrutura criada pelo regime fascista para censurar ou cortar obras literárias ou de outro tipo artístico. Há quem considere este disco tão importante como “Pet Sounds” dos Beach Boys ou mesmo “Sgt Peppers” dos Beatles.14 A única diferença, segundo esses críticos, é ter sido editado e produzido num país chamado Portugal. Outro disco essencial é “Epopeia”, o único LP editado pela Filarmónica Fraude, que saiu a público em 1969. Deve-se, ainda, referir a contribuição do Thilo’s Combo, de Thilo Krasmann, para o desenvolvimento do Rock português, nos anos 60.

14 Cf. Livro “Os Melhores Álbuns da Música Popular Portuguesa” (Edição jornal Público/Fnac, Lisboa, 1998)

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2 - Os anos 70 Os anos 70, foram também muito ricos de propostas inovadoras. Logo em 1970 sai um EP de um grupo chamado Sigla, num estilo muito próximo do do Quarteto 1111. Os temas desse disco (de que se destacam “Roupa Suja” e “Barca Bela) são mais uma “pedrada no charco” no reino da música portuguesa. Mas os anos 70 foram muito mais do que isso. Desde logo porque foi durante esta década que se deu o grande salto em frente para a profissionalização de algumas das propostas musicais mais importantes. Por outro lado, porque aumentou a contestação ao regime político e isso, quer se queira quer não, teve influências na música produzida em Portugal. Embora fora do âmbito do Rock português deve referir-se que no ano de 1971 houve três discos fundamentais da música portuguesa a verem a luz do dia. Esses discos eram “Cantigas do Maio” de José Afonso, “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades” de José Mário Branco e “Gente de Aqui e de Agora” de Adriano Correia de Oliveira. Sobretudo os dois primeiros apresentavam propostas muito inovadoras. Alguns dos músicos participantes nas gravações destes discos (mesmo se estrangeiros) tiveram contactos com o Rock. No entanto, a situação em termos do Rock português mantinha-se na mesma. O que mudou foi, também uma maior exposição dos grupos de Rock, que passaram a ter acesso a maiores audiências, como aconteceu no Festival de Vilar de Mouros, em 1971. 18


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Até ao 25 de Abril de 1974 pouco se modificou. Os grupos de Rock continuavam a actuar nos locais habituais: um ou outro concerto em salas como o Coliseu dos Recreios nas primeiras partes de algum grupo estrangeiro que as autoridades autorizavam que visitasse o nosso país,15 ou actuações em Bailes de Finalistas ou recintos universitários. Foi nos anos 70 que se começou a operar, também, a qualificação dos grupos por estilos musicais. Deixou de existir a imitação dos ídolos tipo Beatles e passou a acentuar-se a criação própria. Um dos grupos fundamentais dos anos 70 foram os Petrus Castrus que começaram por editar o EP “Marasmo” a que se seguiu outro EP “Tudo Isto, Tudo Mais”. O melhor deles aconteceu no ano de 1973, quando editaram o LP “Mestre”, hoje considerado uma referência histórica de toda a produção discográfica portuguesa, não só em termos de Rock português, mas ultrapassando, mesmo, essa fronteira.16 Outros grupos como os Beatniks (uma banda sem nenhum elemento da sua fase mais conhecida e com o nome grafado mesmo assim, pelo menos na capa do single), os Kama-Sutra, os 17 Objectivo, Cid , Scarpa, Carrapa & Nabo, os Albatroz, os Sindicato,18 os 19 Smoog, os Xarhanga, os Pentágono, Evolução, etc, marcaram os anos 70. A partir de 25 de Abril de 1974 houve um evidente declínio do Rock português. As canções proibidas durante muitos anos tomaram conta das ruas e dos palcos deste país. Também tem que se reconhecer que, se calhar, muitos dos músicos de Rock português tinham mais que fazer do que se dedicar à criação de música. Afinal havia uma revolução que estava em marcha. Pouca gente (muito menos os jovens) parava em casa e tinha, sequer, tempo para ensaiar. O Rock continuou a existir, mas em circuitos mais alternativos. No entanto, foi no ano de 1975, em pleno processo revolucionário, que os Genesis, então a atravessar uma das suas fases mais criativas, vieram a Portugal para dois concertos no Pavilhão de Cascais. 15 Grupos estrangeiros que visitaram Portugal foram, por exemplo, os If ou os Wallace Collection , já para não referir as presenças de Manfred Mann e Elton John no Festival de Vilar de Mouros/71 16 Cf. Livro “Música Popular Portuguesa- Um Ponto de Partida” de Mário Correia(Centelha/Mundo da Canção, Porto , 1984) 17 Banda da qual faziam parte, entre outros, André Sarbib e Rui Pipas 18 Banda de que fazia parte Jorge Palma 19 Grupo onde pontificavam Júlio Pereira e Carlos Cavalheiro e que editou dois singles, cantados em inglês

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Com a “normalização” e o fim do PREC, o Rock português teve, novamente, espaço para se mover. Até porque as rádios passaram a proibir, outra vez, a passagem de músicas de intervenção e deram mais espaço ao Rock internacional, num fenómeno de aproximação ao mundo anglo-saxónico, visto como o ideal supremo a alcançar. O slogan, muito famoso na época “A Europa Connosco” é, apenas, um pequeno exemplo. A partir de 1976 ressurgiu em força o Rock português. Embora houvesse, ainda, muitos grupos que continuavam a utilizar a sua própria aparelhagem sonora começaram a aparecer as primeiras empresas de som e de luzes para espectáculos que os grupos alugavam, deixando assim de terem que ser as bandas a proceder à contratação de pessoal para a carga e descarga do material. Os Tantra com Pedro Mestre Logo em 1976, os Tantra lançam o seu primeiro single “Alquimia da Luz”. Trata-se de um grupo que pratica um Rock progressivo, muito próximo do que faziam os Genesis ou os Yes, mas com propostas inovadoras. No ano seguinte os Perspectiva20 estreiam-se em disco e o mesmo acontece com os Arte & Ofício.21 Os Tantra lançam o seu aclamado LP de estreia intitulado “Mistérios e Maravilhas”. No ano seguinte, um concerto desta última banda fez esgotar o Coliseu dos Recreios, um feito inédito para um grupo de Rock português. Mesmo assim, a maior parte dos espectáculos dos grupos portugueses ainda aconteciam nos chamados Bailes de Finalistas que, na realidade, eram concertos. António Garcez, dos Arte & Ofício

20 Banda do Barreiro que lançaria dois singles de Rock progressivo 21 Banda do Porto, praticante de um estilo Hard Rock , com alusões ao Jazz Rock

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AQUI D’EL ROCK

TANTRA

CIRCO DA VIDA

GO GRAAL BLUES BAND

BEATNICKS BEATNICKS

ARANHA UHF

ARTE & OFÍCIO

Anos 70 21


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Outras bandas começam a rolar no circuito. Entre elas destacam-se os Hosanna, Aranha, Rocka, Síntese, Psico, A Ferro e Fogo, Ananga Ranga, 22 23 24 25 Circo da Vida, Beatnicks, Go Graal Blues Band, Tempo e Clã, para referir só algumas. Muitos destes grupos já vinham do início desta década e regressaram com novas formações. Enquanto em Inglaterra o novo fenómeno era o Punk Rock, aqui continuava a fazer-se uma grande aposta no Rock progressivo. As edições dos discos “10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte” de José Cid ou “Changri Lá” de Carlos Alberto Vidal,26 bem como o novo LP dos Tantra intitulado “Holocausto” são a prova de que se continuava a apostar no Rock progressivo. Embora, hoje possam ser, todos eles (mais os trabalhos “Homo Sapiens” de José Luís Tinoco e o LP a solo de Very Nice intitulado “Discretamente”) considerados importantíssimos contributos para a música portuguesa, na época eram sinais de alguma estagnação. Mas esse fenómeno tinha que chegar a Portugal. Atrasado, como quase sempre, chegou em 1978 com a formação das 27 bandas Os Faíscas e Aqui D'El Rock.28 Mais tarde, juntaram-se a este duo os Minas & Armadilhas, Xutos & Pontapés e UHF. Apenas os Aqui D'El Rock deixaram dois registos em forma de single que nos podem dizer como era o Punk Rock português do início. Em 1979 os UHF gravam um EP com três temas, um dos quais,“A Caçada”, tem bastantes influências do Punk original. Do final dos anos 70 devem referir-se as edições em LP de Arte & Oficio (“Faces”), Go Graal Blues Band (“Go Graal Blues Band”) e Corpo 29 Diplomático (“Música Moderna”) A imprensa musical, que dá alguma expressão ao Rock português é constituída pelas revistas “Rock em Portugal” e “Música & Som”. Estas revistas chegam a organizar Festivais com bandas portuguesas, que foram um verdadeiro sucesso. 22 Banda de Lisboa, no qual pontificam José Carrapa e Very Nice (este último é, agora, conhecido pelo seu verdadeiro nome, Fernando Girão) 23 Banda de que fez parte a cantora Lena D'Água. Em 1978 editou um single com os temas “Somos o Mar” e “Jardim Terra” , num registo de Rock progressivo. Lena não pertencia, já, à formação que gravou o single 24 Banda apadrinhada por José Cid e da qual faziam parte Ramon Galarza e Zé Nabo 25 Banda de Coimbra que nada tem a ver com os actuais Clã 26 Actualmente conhecido como Avô Cantigas 27 Banda de que fazia parte Pedro Ayres Magalhães, actual Madredeus 28 “Há Que Violentar O Sistema” e “Eu Não Sei” foram os dois singles que gravaram 29 Banda que era formada por quase todos os elementos dos Faíscas e aos quais se juntaram Carlos Maria Trindade e o cantor Ultravioleta

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3 - O “boom” do Rock português O início dos anos 80 ficou marcado pela edição do disco “Ar de Rock” de Rui Veloso, um músico do Porto, muito ligado aos Blues, que começou por cantar as suas canções em inglês. O êxito deste disco, lançado no Verão de 1980, levou a uma verdadeira explosão de bandas, concertos e tudo o mais relacionado com o Rock português. As editoras discográficas começaram a apostar fortemente neste novo fenómeno. Tudo passou a ser relacionado com o Rock português. Começou a ser considerado importante cantar em português. As únicas excepções a isto foram os Tantra, (que resolveram editar um disco em inglês,“Humanoid Flesh”, contra a corrente e curiosamente, logo os Tantra que sempre cantaram em português), os Roxigénio, os Jáfumega (com o seu disco de estreia “Estamos Aí”, saído em 1980) e a Go Graal Blues Band. Os Arte & Ofício, embora continuassem a cantar em inglês, já tinham formado um grupo paralelo, os Trabalhadores do Comércio, para poderem cantar em português. Os Ananga-Ranga, banda vinda dos anos 70, também tiveram o seu segundo LP, lançado em 1980. Tratou-se de “Privado”, que continha alguns temas cantados em inglês, mas muitos instrumentais. Há uma verdadeira profissionalização de empresas de som e de “management” de bandas. Surgiram bandas como cogumelos, não só nas cidades, mas mesmo na mais recôndita das aldeias deste país. Muitos grupos de baile são, à pressa, e por pressão das próprias editoras discográficas, reciclados em bandas de Rock. Só para se poder ter uma ideia da quantidade de bandas ou artistas que surgiram neste período, referiremos as seguintes, que gravaram discos: Alarme,30 Manifesto,31 Novabanda, Quartzo, Stop, Tilt, Apetição, Malaposta, Grupo Parlamentar, Telavive, Siclave, Bombeiros Voluntários de Barcarena, 32 33 Vodka Laranja, Speeds, Frodo, Megahertz, Rock & Várius, Adelaide Ferreira & Preço Fixo, Holiday, Banda do Cidadão, Apocalipsis, Filhos do Presidente, 30 Banda da Nazaré, cujo vocalista era Carlos Cavalheiro, já anteriormente referido. Editou o single “Desconto Especial” 31Banda de Ançã (distrito de Coimbra) à qual pertenceram José Tovim e Aurélio Malva, actuais membros da Brigada Victor Jara. O teclista (Chico Parreiral) foi camarada de armas do autor deste livro, já que cumprimos o serviço militar na mesma unidade 32 O guitarrista desta banda era João Cabeleira, pouco depois membro dos Xutos & Pontapés 33 O alter-ego de Manuel Cardoso, líder dos Tantra, quando se estreou a solo

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5 Estrelas, Sui Generis, Discurso Directo, Damas Rock, Pé de Cabra, 37 Semáforo, Micro,36 Seilásie, Rocktrote, Brigada do Reumático, FM, TNT,, 38 Bico D'Obra, Stratus, Tânger, Ferro & Fogo, Fernando, Má Fila, Xeque Mate, Boeing, Antigo Testamento, Conjunto Pauta Livre, Iodo, Nova 40 Geração, Meninos do Coro, Puzzle, Albatroz,39 Doyo, Grupo de Baile e até Nicolau Breyner.41 As editoras surgem, também, como cogumelos, algumas sem grandes estruturas, mas prontas a ganhar dinheiro com o fenómeno. Entre elas a Roda Rock (subsidiária da Vadeca, que apesar de surgida nos anos 70, apostou forte no “boom”), Materfonis, RCS, Rotação, Star, etc. No meio deste afã surgem bandas com grande qualidade, tais como os GNR, Salada de Frutas, Taxi, Street Kids, Rádio Macau, etc, etc. Os UHF têm, finalmente, a hipótese de gravar e editar com o mínimo de condições. O mesmo acontece com os Xutos & Pontapés e com os Jáfumega. Os Festivais de Rock e Concursos surgem em todo o lado. O mais famoso deles todos aconteceu em 1981, na cidade de Coimbra. Tratou-se do Festival Só Rock que viu desfilar pelo palco do Jardim da Sereia uma série de bandas, algumas das quais verdadeiras obscuridades. Outra das curiosidades da época é o aparecimento de muitas bandas em que o nome é uma sigla. Segundo António Manuel Ribeiro, tal deve-se a uma reminiscência que ficou desde o PREC. Entre estas podemos destacar os CTT, antigo grupo de baile e cujas iniciais significavam Conjunto Típico Torreense, os CPL, os BVB, os NZZN, os GNR, os UHF, os TIR ou os TNT. 34 Primeira banda totalmente feminina de Rock português a gravar um disco, da qual fazia parte Felícia Cabrita, actual jornalista da SIC e de “O Sol” 35 Banda que nada tem a ver com outra do mesmo nome, surgida nos anos 90 36 Banda diferente daquela que existe hoje, com o mesmo nome, e pratica Hip Hop 37 Banda de que fazia parte Francisco Lundum, que é hoje o compositor dos maiores êxitos da música Pimba, sob o pseudónimo de Ricardo 38 Actualmente conhecido como Fernando Correia Marques. No “boom” do Rock português editou o single “Hey Mano” 39 Banda do Porto, que nada tem a ver com os Albatroz que existiram na década de 70. O seu maior êxito foi o single “O Júlio é um duro” 40 Uma espécie de Dexys Midnight Runners portugueses 41 O actor editou, em 1981, o single “Kiss Me La Bouche”, uma paródia ao Rock português, mas em estilo Rock

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Surgem os Heróis do Mar, o criativo António Variações e acontece a cisão na Salada de Frutas que leva à saída de Lena D'Água e de Luís Pedro Fonseca que formam a Lena D'Água e Banda Atlântida. Os Beatnicks continuam e mudam para um estilo New Wave, abandonando o Rock progressivo. Aparecem outros projectos, de que temos conhecimento através de maquetas gravadas na época: Cesário Esmifroaço & Caos Aparente ou uma segunda banda feminina, Fancy One. Seguindo a onda dos neo-românticos, protagonizada por bandas inglesas como os Spandau Ballet ou os Duran Duran, surgem os Ópera Nova e os Popeline Beije. Elementos destas duas bandas juntar-seiam, depois, para dar origem aos Fantásticos Abridões da Selva (FAS). A imprensa musical (e não só), da época, surge em força a apoiar este novo impulso do Rock português. Aparecem os jornais “Rock Week” e o novo “Musicalíssimo” que passam a fazer capas com bandas de Rock português. Até a revista “MC- Mundo da Canção”, muito crítica em relação a este fenómeno, faz entrevistas com bandas e artistas de Rock português. Gravam-se os primeiros “videoclips” para serem apresentados na televisão, no programa “Vivámusica”. Júlio Isidro, nos seus programas de rádio e televisão começa a falar da “música da pesada” e contribui, muito, para a sua divulgação. O “boom” durou, no máximo, dois anos e meio. A partir de 1983/1984 as editoras viram que o filão estava esgotado. Tal como se previra, apenas as bandas ou artistas que tinham alguma qualidade conseguiram sobreviver. De entre elas, apenas os GNR, UHF, Rui Veloso e Xutos & Pontapés chegaram até aos dias de hoje. Em 1984 é publicado o único livro, do nosso conhecimento, que se dedica em exclusivo, ao Rock português. Trata-se de “A Arte Eléctrica de Ser Português25 Anos de Rock'n'Portugal” da autoria do jornalista António A. Duarte (Livraria Bertrand, Lisboa, 1984). Mais tarde seriam publicados livros com biografias de bandas como os GNR, Delfins, Xutos ou Mão Morta. No entanto, o único livro que focava todas as épocas e bandas do Rock português era o do António Duarte. António Duarte foi jornalista do diário “Correio da Manhã” e dos semanários “Tempo”, “O Jornal” e “Se7e” e tinha sido, nos anos 70, o redactor principal 26


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da revista “Rock em Portugal”. Conclui o curso do Conservatório e, mais tarde, formaria os DWArt, uma banda que aliava a electrónica a variadas “performances” e com os quais actuaria no Rock Rendez Vous. Posteriormente à edição do livro foi para Macau e participou na gravação do primeiro disco gravado e editado por músicos ocidentais na China, o álbum “Biombos” dos Telectu. Haverá pouca gente como ele, com as vivências que essa época produziu. Esse livro, hoje descatalogado, é uma verdadeira preciosidade. Impõe-se, aliás, uma reedição para que as novas gerações tomem conhecimento do movimento Rock português. A partir de 1984/85 e até final da década de 80, surgiram projectos fantásticos de Rock português, sobretudo centrados na sala de espectáculos do Rock Rendez Vous, a qual organizou seis concursos que tiveram a designação Concursos de Música Moderna. Entre as bandas com grande qualidade dadas a conhecer pelo Rock Rendez Vous não poderão deixar de ser referidas as seguintes: Ocaso Épico, Culto da Ira, Croix Sainte, Casino Twist, THC, Dead Dream Factory, Radar Kadafi, 42 Linha Geral, Zona Proibida, Prece Oposto, M'as Foice, Balladium, Der Stil, Jovem Guarda, Pop Dell' Arte, URB, Bramassaji, Mler Ife Dada, Fist, Requiem Pelos Vivos, etc. Para além destes começam a surgir ou a ter visibilidade outros projectos como os Mão Morta, Ban,43 a Sétima Legião, Delfins ou a Quinta do Bill. O Punk tem um segundo fôlego com os Vómito, Peste & Sida, Crise Total, Grito Final, Cães Vadios ou Mata Ratos. O Rockabilly tem na banda Emílio & A Tribo do Rum o melhor exemplo, no nosso país. O Heavy Metal português avança com os Tarântula, V12, Casablanca, STS Paranoid ou Ibéria, os seus representantes máximos. 42 Antes chamavam-se Balladium Canis, tendo abreviado o seu nome 43 Banda liderada por João Loureiro. Antes chamavam-se Bananas. O disco “Alma Dorida” pode ser considerado um dos clássicos do som dos anos 80 (o disco foi editado em 1984), muito influenciado por bandas como os Joy Division ou os Echo And The Bunnymen

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4- Os anos 90 Os anos 90 viram surgir novas propostas no domínio do Rock português. Consideramos, no entanto, que do período em análise ressaltam estes importantes acontecimentos, a nível musical: 1- Os GNR terem conseguido, facto inédito num grupo de Rock português, esgotar o Estádio de Alvalade, num espectáculo a solo. Tudo isso devido à edição do disco “Rock In Rio Douro”,em 1992, um álbum que conseguiu fazer dos GNR um dos grupos mais mediáticos do início desta década. 2- O disco (e concerto) de homenagem a José Afonso,44 onde uma série de bandas da nova música portuguesa prestam o merecido tributo ao grande cantautor. Na semana da morte do poeta, Viriato Teles escreveu um texto no semanário “Se7e” onde referia que a música de José Afonso seria recuperada pelas novas gerações de músicos. Em 1994 (vinte anos após o 25 de Abril e sete anos após a morte do cantor) tal tornou-se uma realidade. E bem merecida foi essa homenagem. 3- O fenómeno Abrunhosa: desde muito jovem que Pedro Abrunhosa tentou que a sua música se tornasse conhecida. Tal só foi conseguido em 1994 com a edição de “Viagens”, um álbum com sonoridades próximas do AcidJazz e do Funk. Veterano músico vindo do Jazz, quando ascendeu ao estrelato, Abrunhosa tornou-se um dos maiores fenómenos mediáticos de que há memória em torno de um projecto de nova música portuguesa. De resto a década ficou marcada pelas edições e confirmações de bandas como os Sitiados, Braindead, Mão Morta, Major Alvega, Lucretia Divina, Enapá 2000, Duplex Longa, Capitão Fantasma, Censurados, Clã, Repórter Estrábico, Delfins, Moonspell, Três Tristes Tigres, The Gift e Silence 4, para além do surgimento de projectos de Hard Rock melódico, com grande êxito como os Joker, Íris ou Alcoolémia. Surge, também o projecto Resistência, em que grandes nomes do Rock português se juntam para interpretarem, em versão menos eléctrica, alguns clássicos da música portuguesa, de José Afonso aos Sitiados. O projecto foi, também, aproveitado para levar as novas gerações de músicos a cantar em português e a respeitarem quem o fazia, já que esse espírito se estava a perder. 44 Intitulado “Filhos da Madrugada Cantam José Afonso”

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5- O século XXI Novas propostas surgem no século XXI. As estruturas, em termos de condições técnicas e de “management” das bandas estão, totalmente consolidadas. Quão longe se está do “yé yé”! Tudo, agora, é profissional, desde um simples pormenor técnico à 45 contratação de “roadies”. Nada é deixado ao acaso. Nos concertos há uma barreira a separar o público dos músicos. Nas três primeiras décadas tal não sucedia. As bandas actuavam em palcos, por vezes bastante acanhados, mas o público podia, nos concertos, encostar mesmo e até apoiar as mãos nos palcos. Hoje são contratadas empresas de segurança para que tal não suceda. E os Xutos & Pontapés até já são “senhores comendadores”. Desde o início do século XXI poderemos considerar como importantes para a música portuguesa os trabalhos editados de bandas como os Blasted Mechanism,46 Belle Chase Hotel, More Republica Masonica, Mesa, Lupanar, The Legendary Tiger Man, Wraygunn e Bunnyranch, algumas delas tendo iniciado a sua carreira nos anos 90, mas atingido o pico criativo já no século actual. Surgem montes de bandas que praticam o chamado Punk Hardcore, com bastantes seguidores no nosso país. O legado nunca gravado por António Variações é recuperado pelo projecto “Humanos” e mostra que ele foi um dos maiores criativos da música moderna portuguesa. Os “velhinhos” UHF, Xutos & Pontapés, GNR, Rui Veloso ou Rádio Macau ainda aí continuam, lançando discos e fazendo concertos. Alargaram o seu público. A um concerto destas bandas ou artistas já assistem duas gerações e, não tarda muito, assistirão três. O Rock português morreu? Nós continuamos a achar que não. Lembramo-nos de, nos anos 70 e 80, se dizer o mesmo e ele continuar bem vivo. Haverá fases de maior expansão e outras de regressão. Como em tudo na vida… Aos poucos tem sido reeditado, em formato digital, o fundo de catálogo de muitas bandas. No entanto, algumas houve (e lembramo-nos da Go Graal Blues Band, Arte & Ofício ou Ananga-Ranga) que nunca viram o seu espólio tratado em CD. 45 Pessoal contratado que faz parte do “staff” de uma banda e trata de todos os assuntos técnicos de um concerto, desde a montagem do material de palco (“backline”), até à assistência às avarias durante o espectáculo 46 Para nós, uma das melhores bandas ao vivo

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Biografias

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ANANGA-RANGA A primeira formação dos Ananga- Ranga surgiu em 1976. Dela faziam parte Luís Firmino (guitarras e vozes), que tinha pertencido aos Aranha, Álvaro (baixo e vozes), Manuel Barreto (piano e vozes), Necas (bateria), Rui Pedroso (órgão) e Pantera (percussão). Esta formação dedica-se sobretudo a executar música de cópia , impecável e sem paralelo na cena Rock portuguesa. Tocavam Genesis, Pink Floyd, Camel, Manfred Mann de tal maneira que soavam como os originais. Esta formação tocou no Baile de Finalistas do Externato Secundário do Sabugal, em Dezembro de 1976. Conta quem viu e ouviu que se se fechassem os olhos pensava-se estar a ver/ ouvir os músicos de grandes nomes internacionais do Rock , tal a perfeição com que os músicos tocavam. A partir de 1979 o grupo reforma-se com a entrada de Vasco Alves para o baixo e as saídas de Pantera e Pedroso. A banda consegue um contrato discográfico com uma editora e lança dois singles, no mercado: " Disco- Sound" / "Verme", como primeira amostra; a que se seguiu "Fascínio" / "Salto no Tempo". Estes dois singles são uma exigência da editora, para a banda poder continuar a gravar, já que , musicalmente deixam muito a desejar. Os Ananga- Ranga não queriam produzir este tipo de música, mas sim Jazz Rock (de que são uns dos pioneiros em Portugal). Para isso recrutam o saxofonista Manuel Garcia e gravam o LP " Regresso às Origens". Com a participação especial de Carlos Zíngaro (um violinista de excepção) no tema "Rockalhão", o grupo apresenta temas como " Joana" (dedicado à filha de Manuel Barreto), "Cúria", "América", ou "Bolero". Jazz Rock do melhor ... As guitarras de Firmino , as teclas de Barreto e o sax de Garcia marcam a melodia e a secção rítmica de Vasco e Necas acompanham , em contratempo (como mandam as regras do Jazz Rock). O grupo é convidado a participar no programa de televisão "Soltem o Rock, mas Guardem-no Bem" ao lado de nomes como Tantra, Arte & Ofício e Rão Kyao. Este programa, gravado ao vivo no Anfiteatro da Faculdade de Agronomia, em Lisboa, foi exibido na RTP-2. Em 11 de Novembro de 1979 o grupo regressa ao Sabugal , desta vez para apresentar o "Regresso às Origens", o mesmo acontecendo uma semana depois, na cidade da Guarda, espectáculo integrado num Baile de Finalistas do Liceu Nacional Afonso de Albuquerque. Em 1980 o programa de rádio "Rock em Stock", com Luís Filipe 32


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Barros ao comando, promove um concurso, durante várias semanas, com uma canção que ( saber-se-ia mais tarde) pertencia ao novo álbum dos AnangaRanga. O concurso consistia em adivinhar de quem era a canção intitulada "KissYou inThe Highway". Poucos concorrentes conseguiram adivinhar que se estava perante o novo som dos Ananga. O LP intitulado "Privado" contém mais temas cantados em inglês , tais como "Queen's Jail" e "Madness", para além de outros, na linha de "Regresso às Origens", como "Libra", "Estranha" ou "Privado". Manuel Garcia já não faz parte do "line-up" da banda, mas ainda toca como convidado, no álbum. Há, também, a participação de Alfredo Nascimento que toca cavaquinho e percussões em "Umnidade". Enfim, a banda parecia que tinha atingido a maturidade, quando Vasco Alves abandona e deixa os Ananga- Ranga sem um dos seus trunfos (tanto que o grupo se viu obrigado a anular a participação na primeira parte de um espectáculo que um grupo internacional fazia em Portugal). Com o "boom" do Rock português a banda deu por terminada a sua carreira. Firmino foi para os Estados Unidos e Necas juntou-se à Banda Atlântida de Lena D'Água, para terminar na banda que acompanha Roberto Leal, nos seus espectáculos ao vivo (como músico profissional que é não podia viver do Jazz-ele que tocou com Rão Kyao- ou do Jazz Rock, pelo menos naquela época). 33


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ANÍBAL MIRANDA Aníbal Miranda começou a ligar-se à música por volta de 1963, depois de ter sido muito influenciado por Beatles, Rolling Stones, Them, Kinks, etc. Pouco mais tarde começou a interessar-se por Blues. Sempre cativado por Pop Music aprendeu a tocar guitarra tendo formado o 1.º Grupo chamado Luv 24 na Foz (Porto). De seguida foi estudar para um colégio interno em Ermesinde e aí formou o 1.º grupo do colégio. Depois de abandonar os estudos ingressou no Scorpion Music Incorporated, grupo satélite dos Pop Five Music Incorporated (Miguel Graça Moura, Luís Vareta, Tózé Brito e Paulo Godinho) A seguir formou outro na Foz do Douro chamado Quinteto KW. De seguida foi para as Antas (zona do Porto) e entrou para os Alfas. Todos estes grupos acima mencionados só tocavam músicas de grupos estrangeiros em festas. Aos 19 anos gravou o 1.º EP com Karin Wall e Manuel Lourenço em formato acústico, para a Vadeca, intitulado “I’ve Got My Problems, You’ve Got Yours”. Em 1971 foi para Inglaterra, para fugir à Guerra Colonial, entrou para o grupo Mitzi e fez duas vezes o circuito quase inteiro dos Pubs com música ao vivo. Aprendeu bastante aí e fez bastantes conhecimentos. Foi segundo guitarrista de John Denver no princípio da carreira dele, aquando da sua vinda a Londres e fez uma “jam session” com Mark Knopfler antes dos Dire Straits terem gravado “Sultans of Swing”. Compôs e gravou pequenas peças para a London Film Institute como música de fundo de pequenos filmes e documentários, sem diálogo, de 3 a 5 minutos. Começou a gravar musicas próprias e pagas do seu bolso,entre as quais estava “7 in the Morning”. Voltou para Portugal em 1980. Lançou, na Polygram, o single “7 in the Morning” e foi convidado pelo Júlio Isidro para abrir os 3 espectáculos dos Camel, o qual só veio a acontecer em Coimbra. De rumo ao Algarve “dividiu” o terreno de Albufeira (bares, etc) com Adelaide Ferreira. Dava 3 a 4 bares para cada um. Compôs e gravou na Polygram o “Don't Shoot” que chegou a 6.º lugar dos discos internacionais do programa do “Rock Em Stock” (programa da Rádio Comercial, de Luís Filipe Barros). Voltou para o Porto e conheceu e tocou em casa do Rui Veloso algumas vezes, antes deste ter gravado “Ar de Rock”.Conheceu o grupo Pesquisa com o qual desenvolveu o projecto de os lançar no mercado nacional, como alternativa ao que se fazia no momento, tendo-se tornado seu empresário. Virados para o Ska, depois de porem letras 34


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em português, os Taxi arranjaram faixas suficientes para o disco de lançamento. Co-produziu este disco com António Pinho. Gravado por José Fortes e bem publicitado pela Polygram chegou de imediato a n.º 1. Saiu de empresário dos Taxi e começou a fazer um programa de rádio diário na Rádio Clube de Matosinhos que durou não mais de 2 meses. De seguida fez um programa de televisão para a então RTP-2 chamado “Hoje Convidamos” onde pôde convidar quem lhe apetecesse. Nesse programa entraram os Martinis (banda de que foi o fundador) nessa altura sem ele como vocalista. Rui Veloso e Carlos Tê, Rui Azul ( e o seu grupo composto pelo Carlos Araújo e Álvaro Azevedo) foram convidados do seu programa. Com os Martinis fez digressões pelo país fora e gravou um single chamado “Mini-Saia”. Como músico no activo ainda fez parte dos Atlântico. Começou, então, a dar sequência ao que já tinha feito com os Taxi. Arranjou uma audição para o João Loureiro dos Bananas (mais tarde Ban) em Lisboa. Falaram com a EMI Valentim de Carvalho e desligou-se do grupo a partir daí. Aquando do programa de televisão “Chuva de Estrelas” ficou como empresário da Paula Sá e trabalharam e gravaram um single de apresentação. De seguida tornou-se empresário de grupos como os Bad Legacy, Dr. Fausto e Paupelino Sacrilégio, Minnemann Blues Band e Tsé-Tsé, bandas de que faziam parte Pedro Jervell (agora com os Fading Commission), Miguel Araújo Jorge (agora com os Azeitonas) e Passos. Em 2006 foi editada uma compilação, em CD (intitulada “Connect / Everytime”), com quase todos os temas da sua discografia.

Aníbal Miranda numa “jam session”, no Rock Rendez Vous, com músicos dos Taxi e Rui Veloso 35


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ANTÓNIO VARIAÇÕES António Joaquim Rodrigues Ribeiro, filho de camponeses minhotos, desde muito cedo revelou propensão para a música. Nascido em 1944, abandonou a sua aldeia natal com 12 anos e foi para Lisboa, onde se dedicou a várias actividades profissionais desde empregado de escritório até barbeiro. Em 1975 viaja até Londres, onde fica durante um ano e parte, depois, para Amsterdão onde aprende a profissão de cabeleireiro. Esta aprendizagem servir-lhe-á para se instalar, novamente, na capital portuguesa; onde se estabelece com o primeiro cabeleireiro unissexo de Portugal. Esta actividade não resulta muito bem e, para ganhar a vida, abre uma barbearia na Baixa lisboeta. Em 1978 grava uma maqueta com alguns temas, que apresenta à Valentim de Carvalho, com a qual assinará contrato. Na sua própria descrição a música que produz situa-se entre Braga e Nova Iorque. É no programa "O Passeio dos Alegres", de Júlio Isidro, que António (que, entretanto, muda o nome artístico para António Variações) se apresenta ao grande público. O tema que cantou nessa emissão chamava-se "Toma o Comprimido", e permaneceu inédito, em disco, até 2006. O primeiro trabalho que gravou foi o single " Povo que Lavas no Rio", imortalizado por Amália Rodrigues . Amália era, aliás, uma das suas referências, que teve direito a uma canção de Variações (”Voz Amália de Nós"). O seu primeiro longa duração "Anjo da Guarda" é também dedicado à popular fadista. Neste disco participam Vítor Rua ( com o pseudónimo Vick Vaporub) e Tóli César Machado, músicos dos GNR. Quem não recorda "É p'ra Amanhã" ou "O corpo é que paga"? Durante o Verão de 1983 (ano da edição do trabalho discográfico) Variações é muito solicitado para espectáculos ao vivo, sobretudo em aldeias por este país fora. Em Fevereiro do ano seguinte António Variações entra em estúdio com os músicos dos Heróis do Mar para gravar o seu segundo longa duração que se intitulará "Dar & Receber". O tema mais conhecido deste disco é , sem sombra de dúvidas, "Canção do Engate" que, posteriormente, se tornará um imenso sucesso numa versão...dos Delfins. 36


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Em Maio de 1984 dá entrada no hospital e , no dia 13 de Junho, morre em consequência de uma broncopneumonia bilateral grave. Será sepultado , dois dias depois, no cemitério de Fiscal (Amares), com a presença de poucos músicos acompanhando o funeral. Com a sua morte desaparece um dos maiores renovadores da canção portuguesa das últimas décadas. No entanto o seu espólio musical foi sendo aberto e Lena D'Água edita, em 1989, o disco "Tu Aqui" que inclui nove composições inéditas de António Variações. Em Janeiro de 1994 é editado um disco de homenagem a António Variações que reúne , em torno de versões do cantor, os nomes de Mão Morta, Três Tristes Tigres, Resistência, Sitiados, Madredeus, Sérgio Godinho, Santos & Pecadores, Delfins, Isabel Silvestre e Ritual Tejo. Isabel Silvestre incluirá no seu disco de 1996 "A Portuguesa" o tema "Deolinda de Jesus" de Variações. Este tema, uma sentida homenagem de Variações à sua mãe (que se chamava exactamente Deolinda de Jesus) é o contraponto de qualidade a todas as "Mães Queridas" e quejandos deste país. Em 1997 é editado o CD "O Melhor de António Variações", o qual recupera material editado em todos os seus discos. Se Variações não tivesse desaparecido tão precocemente, a música portuguesa seria diferente? Esta é a interrogação que se impõe, tendo em conta o que o cantor/ autor fez, em tão pouco tempo, pela música portuguesa. Em 2006 é editado o duplo CD "Entre Braga e Nova Iorque" que recupera toda a discografia do cantor e inclui alguns inéditos. Há dois anos foi editada uma biografia do artista, da autoria de Manuela Gonzaga.

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AQUI D’EL ROCK Um grupo de baile com o nome Osíris , formado por 4 elementos moradores em Lisboa , transforma-se num dos primeiros grupos de música Punk , em Portugal: os Aqui D'El Rock. A sua primeira actuação como Aqui D'El Rock tem lugar no Pavilhão do CACO (Clube Atlético de Campo de Ourique), em 1978. Este concerto teve como grupos de cartaz os Elo, os Circo da Vida e os Aqui D'El Rock. Este Festival Rock foi comentado na imprensa com títulos como " Um Festival em Caco(s)", devido a uma série de peripécias com ele relacionadas, entre as quais uma tentativa de invasão de palco por parte do outro grupo Punk, os Faíscas; que conseguiram tocar apenas dez minutos. Os Aqui D'El Rock eram formados por Alfredo (guitarrista, professor de filosofia), Serra (baterista, servente de armazém), Fernando (baixista, desenhador) e Óscar (vocalista, estudante de economia). Muito famosos na época, os Aqui D'El Rock passaram por vários Festivais de Rock e tocaram em vários Bailes de Finalistas, para além de tocarem na primeira parte daquela que ficou conhecida como a estreia do Punk Rock em Portugal, através dos Eddie And The Hot Rods. Tocaram , também, na estreia dos UHF ao vivo; juntamente com os Minas & Armadilhas e os

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Faíscas, em Lisboa, assunto que António Manuel Ribeiro gravou no tema "O Primeiro Concerto" , do álbum "69 Stereo", dos UHF . Apesar de conotados com o Punk não cortaram o cabelo, não usavam alfinetes de dama espetados na boca e não exibiam símbolos nazis, como alguns grupos de Punk faziam, sobretudo em Inglaterra, no intuito de chocarem as boas consciências. O seu som era rude, bruto e puro, no estilo de "três acordes e toca a andar". Foi o primeiro grupo Punk a conseguir um contrato discográfico e gravar os temas "Há Que Violentar O Sistema", "Quero Tudo", "Eu Não Sei" e "Dedicado... A Quem nos Rouba", que ficarão para sempre na história do Rock português por terem sido os primeiros temas de um grupo Punk editados em Portugal (recorde-se que os Faíscas, apesar de moverem influências no meio musical, nunca conseguiram gravar qualquer tema em disco). Hoje os discos dos Aqui D'El Rock são das maiores raridades discográficas portuguesas, procurados por coleccionadores de todo o planeta. O grupo foi capa da revista "Rock em Portugal" (a única revista dedicada exclusivamente ao fenómeno Rock lusitano) e surgiu em publicações como a saudosa "Música & Som". A banda não durou muito tempo. O fenómeno Punk não teve grande adesão, em Portugal, e estávamos na época em que o Rock sinfónico dos Tantra (cujo líder, Manuel Cardoso, chamou músicos orelhudos aos Aqui D'El Rock por não terem formação musical) atraía multidões. Óscar, Serra e Fernando, com Carlitos “Police” e Alberto Barradas ainda pertenceram a um novo grupo, que tentou seguir um estilo mais próximo da New Wave, os Mau Mau, mas não obteve sucesso. Alfredo ainda tocou numa das inúmeras formações dos UHF, antes de emigrar. Dos Aqui D’El Rock há um "videoclip" que chegou a passar na RTP, nos anos 70. Fernando, Serra e Óscar Martins juntaram-se, já em 2006, para dar corpo ao projecto Há Alma, tentando recuperar e reinventar alguns dos originais dos Aqui D’El Rock, nunca gravados. Em Março de 2007 uma empresa discográfica italiana lançou um EP comemorativo dos 30 anos da banda, em edição limitada de vinil vermelho, contendo os quatro temas que os Aqui D’El Rock gravaram no final dos anos 70, dos séc. XX.

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ARTE & OFÍCIO A banda Arte & Ofício surgiu em 1975, quando o baixista Sérgio Castro e o vocalista António Garcez, dois antigos elementos dos Psico, decidem formar um grupo de Rock. A este núcleo inicial juntam-se Álvaro Azevedo, na bateria e os guitarristas Fernando Nascimento e Serginho. Este grupo de veteranos, todos com larga experiência na música Rock portuguesa, pretende fazer dos Arte & Ofício um grupo profissional . O seu som caracteriza-se por uma mistura de Hard Rock com Jazz Rock, na linha de uns Gentle Giant, mas com estéticas originais. O seu primeiro trabalho é um single com "Festival" e "Let Yourself Be", a que se seguirá outro single com "The Little Story Of Little Jimmy" e "Quibble". Nestes dois trabalhos é notório o profissionalismo da banda e, sobretudo, descobre-se um verdadeiro “performer” da voz, em Garcez. No ano do lançamento dos singles fazem a primeira parte dos alemães Can, no Pavilhão dos Desportos de Lisboa e conseguem ofuscar a famosa banda teutónica. A revista "Música & Som" titulará mesmo "Arte & Ofício- O êxito dos Can". Bastante solicitada para espectáculos, a banda dá um concerto na cidade da Guarda no dia 8 de Abril de 1978, com a primeira parte a pertencer ao Spartaks, a jogar em casa. Neste ano sai o máxi-single com "Come Hear The Band" e "O Cacarejo da Galinha", onde a banda revela todas as suas potencialidades. O tema com o título em português é totalmente experimental e o tema-título é um vigoroso Rock, ao qual os portugueses não estavam habituados, vindo de bandas lusas. Em 1979 é editado "Faces", o seu trabalho de longa duração, com duas faces bem distintas: uma face Rock e uma face Jazz Rock. Este disco conta com a participação de António Pinho Vargas, hoje reputado músico de Jazz, que fará parte do "line up" da banda durante algum tempo. 41


Memórias do Rock português

O grupo inicia uma Tournée nacional em teatros , com o apoio de uma marca de calças e que chega à Guarda no dia 7 de Julho de 1979. O velhinho Cine- Teatro da Guarda ,com lotação esgotada, aplaudiu o grupo de Sérgio Castro. Garcez confirma-se como um verdadeiro "animal de palco" e o som da banda está cada vez melhor. Quando se pensava que a banda estava para durar sofre um rude golpe com as saídas de Serginho e Garcez (este último para formar os Roxigénio). Nada, porém, estava perdido. A banda recruta André Sarbib e grava "Marijuana", um megasucesso nos seus espectáculos ao vivo e que lhe permite fazer as primeiras partes de Joe Jackson em vários países do sul da Europa. O "boom" do Rock português, com várias bandas a cantar na língua de Camões é que foi fatal para o grupo. O público não aderiu ao seu Rock cantado em inglês e o seu último LP "Danza" (de 1982) não se conseguiu impor. Um ano depois do lançamento do disco, e perante as poucas solicitações para concertos, o grupo dá por terminada a sua carreira. Ao mesmo tempo que mantinha os Arte & Ofício, Sérgio Castro forma os Trabalhadores do Comércio, que lhe permitem continuar na crista da onda durante uns tempos.

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BEATNICKS Os Beatnicks , um dos grupos importantes do Pop/Rock nacional, passaram pelas décadas de 60, 70 e 80. Com diferentes formações e diferentes estilos de música, os Beatnicks começaram em 1965, como um projecto incipiente. A sua primeira formação incluía João Ribeiro e Manuel Paulo, que apenas efectuaram alguns espectáculos, sem grande capacidade de surpreender. A segunda fase dos Beatnicks começa em 1971, com João Ribeiro, Rui Pipas (precocemente falecido num acidente de viação), Mário Ceia (que, mais tarde pertenceria a uma formação dos Hosanna) e José Diogo. O grupo elege o inglês como língua das suas canções. Tocam no Festival de Vilar de Mouros e em Vigo (Espanha). Gravam um EP "Christine Goes To Town" (incluído ,há anos, na colectânea editada em CD " Biografia do Pop/Rock"), que é complementado com "Little School Baby" e "Sing it Along". Ainda lançam um single que contém os temas "Money" e "Back In Town", em 1972. Nesta fase, o grupo está próximo de uma corrente Hard Rock. Ramiro (que tinha entrado no grupo algum tempo antes em substituição de Pipas) reforma o grupo (que esteve parado por problemas relacionados com o serviço militar) já depois do 25 de Abril de 1974. Entram Jorge Casanova, Tó Leal e uma jovem actriz, filha do futebolista José Águas . Esta última era Helena Águas (mais tarde conhecida por Lena D'Água). O grupo tinha 2 vocalistas e actuava, sobretudo, em Festas de Finalistas, com incidência no distrito de Castelo Branco. A partir de 1976 a banda envereda por um estilo "progressivo" , muito próximo de uns Yes , Genesis, ou , em Portugal, Tantra. Jorge Casanova começa a compor temas como "Cosmonicação", "Somos o Mar" e os espectáculos do grupo incluem projecção de slides e fumos carbónicos, uma novidade total em Portugal, só vista no concerto que os Genesis deram em 1975, no Pavilhão de Cascais. 44


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A banda actua em vários festivais ao lado de Tantra, Hosanna, Psico, Arte & Ofício e Waveband . Este último grupo constituído por músicos alemães que se radicam em Portugal, tem a participação de um membro dos Beatnicks como músico convidado. São inúmeros os espectáculos que os dois grupos fazem em conjunto. Os Beatnicks gravam , finalmente, um single com "Somos o Mar" e "Jardim Terra", durante a fase "progressiva", em 1977, mas já sem Lena. Ramiro lança-se num projecto efémero chamado Doyo , que grava um dos piores discos da fase do "boom" do Rock português, em 1981. Os Beatnicks, com Ramiro, ainda regressarão para gravar o single "Blue Jeans" / "Magia", (aproveitando a avalanche de bandas de Rock que se seguiu ao êxito de Rui Veloso), com o qual não conseguirão nenhum sucesso. Em 1982 ainda editariam um LP intitulado "Aspectos Humanos", na linha do single anterior. Completamente desactualizados e com o público mais interessado em Rui Veloso, GNR ou UHF, os Beatnicks acabam por morrer de morte natural. Importante foi, sobretudo, a sua fase "progressiva".

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CONJUNTO MISTÉRIO No final dos anos 50 , em Cascais, começa a delinear-se a história do Conjunto Mistério. Cinco rapazes formam um conjunto a que dão o nome de Nova Onda. Luís Waddington (guitarra), Gonçalo Lucena (voz), Manuel Lucena (bateria) , Edmundo Silva (baixo) e Francisco Deslandes (guitarra) formam o grupo que tinha por objectivo tocar à Shadows. Gravam um EP na etiqueta Alvorada que incluía uma versão de "Vendaval", canção popularizada por Tony de Matos. O Nova Onda muda de nome e de formação e aparece o Conjunto Mistério (assim chamado porque foi apresentado num programa de rádio, por Carlos Cruz, quando ainda não tinha nome, como o "conjunto que tem um nome que é um mistério, pois ainda não tem nome"). Para a banda entram Michel Mounier (bateria) e António Moniz Pereira (guitarra), em substituição de Manuel Lucena, Francisco Deslandes e Gonçalo Lucena (o grupo fica sem vocalista). O Conjunto Mistério ganhou um concurso, entre 19 grupos participantes, organizado pelo Cinema Roma em Lisboa; que lhe permitiu viajar até Londres, onde os seus membros foram conhecer pessoalmente os Shadows. O Mistério era um grupo que fazia música instrumental com destaque para os temas "Chapéu Preto", "Os Olhos Da Marianita", "Pauliteiros do Douro" e outros que ficaram registados em vários EP's . São convidados para serem a banda de suporte de Fernando Concha na gravação de dois EP's que incluem uma versão de "I'll Get You", dos Beatles (intitulada "Sem Ti Não Sei Viver"). 46


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Gravam , também, com o Duo Ouro Negro o famoso EP " Kwela". Edmundo Falé (antigo elemento dos Ekos) junta-se ao grupo para assegurar as vocalizações e Edmundo Silva sai para a formação dos Sheiks, entrando para o seu lugar Mário Terra. José Cid vem de Coimbra para Lisboa tirar o curso do INEF ( Instituto Nacional de Educação Física-vulgo professor de ginástica) e começa a ensaiar com os membros do Conjunto Mistério, tendo chegado a pertencer; por pouco tempo à sua formação. Com a entrada de Cid, o Conjunto Mistério começou a praticar um estilo de música mais próximo dos Beatles. Em 1967, o Conjunto Mistério acaba e, das suas cinzas, surge o Quarteto 1111, comandado por José Cid. A partir daqui a história da música portuguesa passa a ser outra: o Quarteto 1111 torna-se um dos grupos mais importantes da nova música em Portugal.

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CROIX SAINTE Croix Sainte foi uma das bandas mais originais do panorama Pop/Rock nacional, na segunda metade dos anos 80 do século XX. O grupo formou-se em 1981. Em 1984 concorrem ao 1.º Concurso de Música Moderna do Rock Rendez Vous e classificam-se em terceiro lugar. Esta participação permite-lhes integrarem o LP “Ao Vivo No Rock Rendez Vous Em 1984”, um disco que contém temas de Xutos & Pontapés, FAS, Casino Twist, etc. Editado pela Dansa do Som (editora independente propriedade dos gerentes do Rock Rendez Vous), este disco contém o tema “The Life Of He” da autoria dos Croix Sainte. A formação da banda era a seguinte: João Robert (baixo), Paulo Monteiro (guitarra), Luís San Payo (bateria), André Louro de Almeida (voz), Alexandra Louro de Almeida (piano) e Daniel (violino). Foi este “line-up” que gravou o máxi-single “The Life Of He”, o qual, para além do tema-título; incluía ainda “Everspring”, “Enabell” e “The Birthday”. Este disco saiu em 1985. Embora com influências da chamada “vaga cinzenta” de Liverpool/Manchester, representada por nomes como os Joy Division ou Echo And The Bunnymen, este disco consegue superar estas bandas inglesas. Considerado pelo jornal “Público”, um dos melhores discos de sempre da música portuguesa, num livro editado pelo matutino e pelas lojas Fnac, este EP é uma edição de autor, embora sob o nome de Alliance Records. Nesse ano a banda desloca-se a Toulouse para actuar no Festival “Les Bíceps Du Rock”. Paulo Miranda (em programações e teclas) participa como convidado em alguns concertos da banda. Em 1986 é editado o tema “We Built Cities” na colectânea “Divergências”. 48


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Em 1987 André Louro abandona a banda e este decide continuar apenas com instrumentais, prescindindo das vocalizações. Rodrigo Amaro, no saxofone, e Mário Resende (também músico dos Duplex Longa e dos Seres), no violino; participam como elementos dos Croix Sainte em diversos concertos. Em 1987 é anunciada a edição de um CD da banda , com temas gravados em 1984. Entre outros, estavam incluídos nesse trabalho os temas “Kahahan” , “Conviction” e “The Orchid”. Julgamos que tal edição nunca viu a luz do dia. Luís San Payo (irmão de João San Payo dos Peste & Sida) foi membro dos Rádio Macau, Pop Dell’ Arte e Entre Aspas, após o fim dos Croix Sainte, a sua primeira banda a sério. Paulo Monteiro foi membro de uma das formações dos Pop Dell’ Arte e produziu bandas mais recentes como os Old Jerusalem. O produtor do disco “M” de Anamar foi André Louro de Almeida.

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CTT Os CTT surgiram em pleno "boom" do Rock português, tentando cavalgar na onda de Rui Veloso, UHF e GNR. Com origens no Conjunto Típico Torreense, de Torres Vedras, um grupo de baile , a banda decidiu colocar apenas as iniciais para se lançar no Rock português. Constituídos por Luís Plácido (voz), Augusto Alves(teclas), Tozé Monteiro (guitarra), Hernâni (aka Nani) Teixeira (baixo) e Gabriel Matos (bateria), os CTT lançaram , em 1981, o single "Destruição"(com "Vai No Ar", no lado B) que teve uma razoável aceitação do público. Este era um grupo que já existia , ao contrário de muitos outros que se formaram de propósito para gravarem discos. Essa vantagem daria razões aos CTT para se manterem na crista da onda, mas tal não viria a suceder. No final do ano de 1981 lançariam novo single, desta vez com os temas "Hora de Ponta" e "A Moda Que Eu Quero". As solicitações para concertos começaram a surgir e o autor deste livro lembra-se de ver a banda ao vivo, fazendo a primeira parte das Girlschool, uma banda inglesa de Heavy Metal constituída apenas por raparigas. No concerto houve um incidente com os CTT , quando os técnicos ingleses resolveram desligar a aparelhagem e os microfones à banda, tendo esta interrompido o concerto abruptamente. Augusto Alves, que os restantes membros da banda chamam carinhosamente o "Sr. Augusto" por ser de muito mais idade que eles, colocava o som do órgão a sobressair entre aquela massa musical de maneira diferente do que faziam os restantes teclistas. Isso fazia com que os CTT tivessem um som próprio que os distinguia dos restantes grupos que pululavam por essa época. Em 1982 a banda edita o seu derradeiro testemunho musical, um LP intitulado "Oito Encomendas Discriminadas No Verso". Produzido por António José de Almeida (baterista dos Tantra) , este LP contém , tal como o título indica, 8 canções: "Ovni", "Em Terra De Cego...", "Ai Que Sina A Minha", "Uma Noite Passada", "É Bom", "Ilusão", "Há Uma Lei" e "Chapa Batida". O "design" da capa é como uma encomenda dos Correios e está muito bem conseguido. 50


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Apesar da produção de António José Almeida e de algumas das propostas musicais apresentadas no disco não serem de deitar fora, a banda não teve sucesso com este disco. Podem ouvir-se um bom vocalista, um bom baixista e o sempre presente som do órgão do Sr. Augusto a comandar as operações. Os CTT continuariam , ainda, por mais dois ou três anos como banda de Rock, regressando , como grupo de baile ( até 1994). O Sr. Augusto tem uma empresa de promoção e produção de bandas e Nani Teixeira é o único que continua como músico profissional , fazendo parte da banda que acompanha Luís Represas. Para a história do Rock português ficam os CTT , como uma das bandas que não conseguiu singrar, depois de feita a "separação das águas". No entanto, como já foi referido, tratava-se de uma banda com propostas interessantes.

Os CTT ao vivo em Caneças, nos anos 80 51


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DELFINS A história dos Delfins começa em 1981 quando Fernando Cunha (guitarra), João Carlos (baixo) e Silvestre (teclas) começaram a ensaiar, numa garagem de Cascais. O nome que então usavam era Fanfarra e a música que faziam nada tinha a ver com aquela que seria apanágio dos Delfins. Miguel Ângelo, irmão de João Carlos, entra para a banda. Estes dois irmãos são filhos do pintor Magalhães que tivemos oportunidade de conhecer há um par de anos, quando este executou uns quadros de “impressionismo à espátula” tendo como motivos alguns monumentos das freguesias de Soito e de Vilar Maior, ambas no concelho de Sabugal. Segundo ele nos contou o nome do seu filho, Miguel Ângelo, deveu-se ao facto do pai ser pintor. O seu primeiro espectáculo aconteceu em 1983 , já com Miguel nas vozes e Pedro Molkow na bateria. O primeiro disco, com a chancela da editora Fundação Atlântica, sai em 1984. Trata-se de um máxi-single (também em single normal) com os temas “Letras” e “O Vento Mudou”. Este último tema é uma versão do tema apresentado por Eduardo Nascimento no Festival RTP da Canção, em 1967. Ambos os formatos (single e máxi-single) foram lançadas ao mesmo tempo. O Festival da Canção RTP voltaria a estar na história da banda, já que ela participa na edição de 1985 com o tema “A Casa da Praia” que acabaria por se classificar em último lugar. A partir deste tema começou a verificar-se uma aposta da banda em sonoridades Pop. João Carlos abandona o grupo e é substituído por Carlos Brito de Sá, o qual por sua vez cederá, pouco tempo depois, o seu lugar a Rui Fadigas. Jorge Quadros substitui Pedro Molkow. A banda decide lançar um LP em edição de autor, gravado a expensas próprias, uma vez que, contactadas diversas editoras, nenhuma mostrou interesse no trabalho dos Delfins. Nesta gravação participa Marité (agora Maria Léon), nas vozes. 52


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Delfins ao vivo, no Sabugal, em Junho de 2003 53 CYAN

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Apesar disso e num último esforço decidem convidar representantes de várias editoras discográficas para uma apresentação ao vivo na discoteca Coconuts, em Cascais. Os representantes da EMI- Valentim de Carvalho ficam entusiasmados com a versão do tema de António Variações, “Canção do Engate” e resolvem contratar o grupo. Em Abril de 1987 sai “Libertação”, o primeiro LP da banda que incluía no seu alinhamento temas como “Baía de Cascais” e a versão do tema de António Variações, gravado já posteriormente, uma vez que não estava incluído no alinhamento original da gravação. Em 1988 Marité sai da banda e é substituída por Nicole Eitner, ao mesmo tempo que Silvestre também sai, sendo rendido por Nuno Canavarro (ex-Street Kids). “U Outro Lado Existe” é o LP editado em 1988, com produção de Carlos Maria Trindade. “Aquele Inverno”, “1 Só Céu” e “Bandeira” são temas desse disco. Nuno Canavarro sai e , para o substituir é recrutado Luís Sampaio (exRadar Kadafi). O ano de 1989 é importante para os Delfins porque actuam no Festival Printemps de Bourges, em França. Neste ano Nicole Eitner deixa de fazer parte dos Delfins. Em 1990 os Delfins mudam de editora. Deixam a EMI e abraçam a BMG, na qual lançam “Desalinhados”, o disco da consagração definitiva como super banda Pop. É neste disco que se encontram alguns dos temas mais famosos da banda como “Nasce Selvagem”, “Marcha dos Desalinhados” ou “Cartas a Portugal”. Na reedição deste disco, em formato CD, encontramos mais dois temas que na edição em vinil: “Estrada do Guincho” e a versão de “Song For Europe”, original dos Roxy Music. Dora e Sandra Fidalgo entram para a banda e acontecem as saídas de Rui Fadigas (substituído por Pedro Ayres Magalhães) e Jorge Quadros (rendido por Emanuel Ramalho). Três membros dos Delfins (Cunha, Magalhães e Ângelo) estão entre os fundadores dos Resistência. Em 1992 os Delfins são convidados a participar na Expo 92, em Sevilha. A banda constrói o seu próprio estúdio de gravação a que deu o nome de “Estúdios 1 Só Céu”. “Ser Maior- Uma História Natural” é o álbum editado em 1993. Este 54


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álbum (em formato de duplo CD e triplo LP) é já gravado no novo estúdio propriedade da banda. Rui Fadigas regressa ao grupo e Pedro Ayres Magalhães encarrega-se das guitarras acústicas. Em 1994 Carlos Avilez convida a banda a escrever a banda sonora da peça de teatro “Breve Sumário da História de Deus”. Os elementos dos Delfins participam, também, como actores na peça, representada pelo Teatro Experimental de Cascais. No mesmo ano participam no disco de homenagem a José Afonso com uma versão do tema “Vejam Bem”, tendo participado no concerto “Filhos da Madrugada Cantam José Afonso”, no Estádio de Alvalade. “Sempre Ausente” é o contributo dos Delfins no disco de homenagem a António Variações, saído em 1994. 1995 é um ano grande para os Delfins: deslocam-se a Macau e editam “O Caminho da Felicidade”, uma compilação que inclui os inéditos “A Nossa Vez” e “Sou Como Um Rio”. O sucesso deste disco é avassalador. Os Delfins conseguem vários discos de platina e tornam-se um dos maiores casos de popularidade, em Portugal. No ano seguinte editam “Saber A~Mar”, um CD que conta com colaborações como Paulinho Moska, Gabriel, O Pensador e Roberto Fréjat. Gravado no Brasil e na África do Sul, conta com a participação de um coro zulu e é um novo grande sucesso. Os apreciadores de “mainstream” (isto é, aqueles que gostam de tudo, ou melhor que não gostam de nada) vêem nos Delfins a sua banda predilecta. Está na moda… Ao vivo os Delfins tornam-se a banda com um dos maiores “cachets” e apresentam-se com uma formação de 11 músicos. As Tournées são extensas. Em 1997 recebem um “Golfinho de Ouro”, atribuído conjuntamente pela editora BMG e pela União Lisboa, por vendas superiores a 500.000 exemplares. O CD “Azul” com versões dos Delfins cantadas em castelhano é editado em vários países, no ano de 1998, quando Dora Fidalgo já não pertencia à banda. Jorge Quadros regressa à banda, após o fim dos Sitiados e substitui Emanuel Ramalho. Nicole Eitner volta, também, a fazer parte do “line-up”. “Del7ins”, o sétimo LP dos Delfins, é editado no ano 2000. Bastante diferente das sonoridades Pop a que foram habituando o público, com influências da New Wave dos anos 80, revela-se um relativo fracasso. Uma Tournée acústica, com 16 temas, escolhidos previamente pelo 55


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público, tem lugar em 2001, em salas de reduzida dimensão. Realmente, longe estão já os tempos dos 50.000 espectadores numa Festa do “Avante”, ou os 60.000 na primeira parte de Tina Turner, no Estádio José Alvalade. Em 2002 é editado “Babilónia”, um disco já mais Pop, mas que não se revela um sucesso comercial. No entanto, os espectáculos continuam. As Tournées sucedem-se, embora com menos público. Tivemos oportunidade de ver os Delfins, ao vivo, no dia 21 de Junho de 2003, num concerto no Sabugal e podemos considerar que até foi um excelente concerto, no qual foram usadas técnicas como as de “video jockeys”. “Delfins Not Dead”, saído em 2004, é o tributo aos Delfins por bandas portuguesas de Punk Rock. No ano de 2005 é editado um CD com a gravação de um espectáculo da banda no Centro Cultural de Belém. Intitulado “De Corpo e Alma”, este CD vem acompanhado de um DVD, com algumas partes desse concerto. Trata-se de um formato acústico, muito diferente dos espectáculos eléctricos que a banda dava nos anos 90. Miguel Ângelo e Fernando Cunha consideram que esta é a melhor fase que os Delfins atravessaram, ao longo de uma carreira de mais de 20 anos. Em 2007 surgiu um novo trabalho da banda, um álbum intitulado “Delfins”, com sonoridades “powerpop” e Mod.

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FAÍSCAS E CORPO DIPLOMÁTICO Rocky Tango, Dedos Tubarão, John Lee Finuras e Gato Dinamite formaram, em 1978, uma das primeiras bandas Punk portuguesas, que a par com os Aqui D'El Rock, protagonizaram alguns momentos inesquecíveis do Rock em Portugal. Se os Aqui D'El Rock chegaram a gravar dois singles, os Faíscas de Dedos Tubarão não deixaram nenhum registo discográfico para a posteridade. Começando por tocar na boite "Brown's", em Lisboa, os Faíscas tiveram como "manager" Zé Pedro que viria a formar os Xutos & Pontapés. O seu primeiro espectáculo aconteceu em Lisboa, no Festival da Revista "Música & Som", onde tocaram 13 temas (de clássicos do Rockabilly como "Roll Over Beethoven" a temas originais como "Não Perdes Pela Demora" ou "Faca Na Barriga"). O grupo dura pouco tempo, mas ainda faz alguns espectáculos pelo país, entre os quais um no dia 27 de Maio de 1978, no Cine - Teatro do Sabugal, que ficou na memória de todos quantos a ele assistiram, não tanto pela música, mas pelas peripécias associadas a tal espectáculo. Foi uma noite de Punk a valer que incluiu tudo o que se associa a um espectáculo Punk.47 Aos músicos dos Faíscas juntam-se Ultravioleta e Carlos Maria (Trindade) e surgem os Corpo Diplomático, que se estreiam ao vivo no concerto dos norte - americanos The Tubes, em Cascais. Este novo grupo era o primeiro, em Portugal, a enveredar pelos caminhos da New Wave. Apadrinhados por António Sérgio, produtor e apresentador de programas de rádio e o primeiro divulgador em Portugal da música Punk e New Wave, os Corpo Diplomático gravam o single numerado e em edição limitada "A Festa do Bruno", que inclui no lado B a versão de "Engrenagem", tema de José Mário Branco. Foi o primeiro grupo português que se atreveu a 47 Pedro Ayres usava uma T. Shirt , onde estava escrito a esferográfica “Musa, a tua ausência é o despertar da minha angústia”

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fazer uma revisão tão radical dum tema de música de intervenção. Em 1979, a banda edita o LP "Música Moderna", com uma magnífica capa cedida pela Associação de Amizade Portugal - China. Embora se trate de um disco soberbo, não obtém os favores dos programas de rádio em voga e passa completamente despercebido ao grande público. Temas como "Lisboa", "Amor de Guichet" ou "Bombista" provam bem a capacidade do grupo e a sua criatividade. O seu "calcanhar de Aquiles" são as vozes, que não resultam tão bem quanto o esperado. O grupo entra numa fase de substituições de elementos a acaba por se desfazer. Os seus elementos formam, logo a seguir, outro grupo que ficará na história do Pop/Rock português: os Heróis do Mar. De músicos Punk até aos dias de hoje, os elementos que constituíram os Faíscas e os Corpo Diplomático continuam a dar cartas na música portuguesa. Efectivamente, Dedos Tubarão é Pedro Ayres Magalhães dos Madredeus; Gato Dinamite é Emanuel Ramalho, baterista de João Pedro Pais e Rocky Tango é Paulo Pedro Gonçalves dos LX 90, dos Kick Out The Jams e dos Ovelha Negra.

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FILARMÓNICA FRAUDE Apesar de só ter editado um LP , um single e dois EP's, a Filarmónica Fraude ficará na história da música portuguesa, como um dos grupos mais inovadores e uma referência obrigatória para qualquer melómano. O grupo (que durou apenas três anos - 1968 a 1970) foi obra de António Pinho (autor das letras e futuro Banda do Casaco) e Luís Linhares (autor das músicas e dos arranjos). Pertenceram ao "line-up" da Filarmónica Fraude, para além de Linhares (piano), Júlio Patrocínio (bateria), João Carvalho (guitarra), José Parracho ( baixo), João Brito ( vozes) e Antunes da Silva (guitarra). "O Milhões", "O Menino", "Flor de Laranjeira" e "Problema de Escolha" são os temas que fazem parte do primeiro EP da banda. O que tornava diferente a Filarmónica era o facto das suas letras serem de crítica social (muito suave, pois a censura não perdoava) e o facto da sua música ter influências da música popular portuguesa e de alguma Pop inglesa, nomeadamente dos Beatles. Na contracapa do disco estava escrito que " a única fraude que existe prende-se com o nome do conjunto". Realmente, a crítica considera o grupo como a verdadeira "pedrada no charco" da música portuguesa. João Carvalho abandona a banda e já não participará na gravação seguinte. O segundo EP confirmava tudo e trazia ainda o desbravar de novos caminhos para a música , em Portugal. "Canção de Embalar", "Orícia", "Animais de Estimação" e "Devedor à Terra", eram os temas que integravam este segundo EP. O LP " Epopeia", originalmente de 1970, em 1998 reeditado em CD (num trabalho não muito cuidado, já que se tratou de uma remasterização feita a partir do vinil e não das fitas originais), foi a sua obra-prima e um dos trabalhos de referência obrigatória na música do século XX, em Portugal. Constituído por 11 temas, dele se destacam "Digo-Dai", "Homenagem Póstuma" e "Só Marinheiros e Escravos se Afundam com a Nau". Hoje este disco é considerado um clássico do progressivo português a par de outros como "Mestre" dos Petrus Castrus ou os trabalhos da Banda do Casaco. A reedição em CD pertence à colecção "Coração Português" da Universal Music Portugal. Após algumas substituições de elementos, Luís Moutinho arranja um contrato com o grupo, para o Casino Estoril, e a banda descaracteriza-se totalmente. O seu som revolucionário nunca mais será o mesmo e a banda termina ingloriamente uma carreira que poderia ter sido bem próspera. 59


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Como curiosidade refira-se que o tema "O Menino", na versão da Quinta do Bill, é, nem mais nem menos que a canção tradicional "Quando Eu Era Pequenino", com arranjos da versão gravada pela Filarmónica Fraude. Em 2007 a banda reuniu-se, sob o nome de Nova Filarmónica, para um concerto nos Lagares D’El Rei, em Tomar, que aconteceu no dia 16 de Junho.

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GNR O Grupo Novo Rock (GNR) começou, oficialmente, em 1979, quando Vítor Rua e Alexandre Soares iniciaram os ensaios de um grupo Rock. Pouco tempo depois, entraram para a banda o baterista Tóli César Machado e o baixista Manozé. Isabel Quina chegou a ser vocalista deste projecto durante pouco tempo. Em 1980 (em pleno “boom” do Rock português) os GNR lançam o histórico single “Portugal na CEE”. As vozes eram de Vítor Rua e Alexandre Soares. Manozé, entretanto, abandona o grupo para se juntar à Banda Sonora de Rui Veloso, sendo substituído por Miguel Megre. “Portugal na CEE” consegue um enorme sucesso, tendo vendido para cima de 20.000 exemplares (um número que , na época, era um feito enorme). Em 1981 os GNR lançam o seu segundo single intitulado “Sê Um GNR”, tema que, tal como o anterior, era da autoria de Vítor Rua. Nesse ano a banda dá uma entrevista ao semanário “Se7e”, onde , a respeito de alguma crispação com a Guarda Nacional Republicana, a propósito do uso da sigla GNR, declara: “Que mudem eles de sigla”. Os primeiros dois singles dos GNR vinham com a indicação de Grupo Novo Rock, só mais tarde se passando a usar a sigla para identificar a banda. Rui Reininho, um ex- Anar Band e ex- Atitudes, entra para a banda a tempo de participar na gravação do primeiro longa duração intitulado “Independança”, que seria lançado em 1982. Com a contribuição decisiva de Jorge Lima Barreto, este primeiro LP dos GNR é radicalmente diferente daquilo que a banda tinha feito anteriormente. O lado B do álbum é, totalmente, preenchido com “Avarias”, um tema que dura 27 minutos. No lado A estão as canções mais Pop: “Dupont & Dupond”, “Agente Único” ou “Hardcore, 1.º Escalão”. Pouco depois Alexandre Soares sai da banda e os GNR actuam como um trio em Vilar de Mouros. Várias divergências sobre a estética 61


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musical a seguir levaram Vítor Rua (que , entretanto, formou os Telectu , com Jorge Lima Barreto) a sair da banda. Vítor Rua participaria , ainda nesse ano, como músico, na gravação do LP “Anjo da Guarda” de António Variações, sob o pseudónimo de Vick Vaporoub. Desta fase há um disco perdido dos GNR, nunca editado em qualquer formato, que é uma versão de “Soul Finger”. Com a saída de Vítor Rua, Alexandre Soares regressa ao grupo e , em 1983 , este lança o máxi-single “Twistarte”. O ex- Bananas Jorge Romão entra para baixista dos GNR. Em 1984 sai um novo trabalho da banda intitulado “Defeitos Especiais”, que contém temas como “Mau Pastor”, “Pershingopólis” ou “I Don't Feel Funky (Anymore)”. Num máxi-single seria , ainda , editada uma versão inglesa de “Pershingopólis”. Esta foi a fase em que a banda abandonou, definitivamente o experimentalismo de “Independança” e se virou para a música Pop. Em 1985 , os GNR regressam com um novo trabalho intitulado “ Os Homens Não Se Querem Bonitos”, onde se encontra o tema “Dunas” que se tornaria um dos hinos da banda. Outros temas como “Sete Naves” e “Santa Polónia” fazem parte deste álbum, considerado pela crítica como um dos melhores da banda. Após algumas actuações em França (nomeadamente no “Printemps de Bourges”), os GNR lançam “Psicopátria”, um disco também aclamado pela crítica e com boa recepção por parte do público. “Efectivamente”, “Pós Modernos” ou “Bellevue” são agora os novos hinos dos GNR. Refira-se que Rui Reininho, desde a sua entrada na banda tem sido o autor de todas as letras, com laivos de grande surrealismo. Zé Zé Garcia entra para a banda, após a saída de Alexandre Soares, em 1987. “Valsa dos Detectives” (de 1988) é o próximo longa duração dos GNR. “Morte ao Sol”, um tema que conta com a participação de Paulo Marinho, da Sétima Legião na gaita de foles é o tema que tem algum “airplay” nas rádios e o mais conhecido deste disco. No entanto, este LP é o mais mais mal-amado de toda a carreira dos GNR, já que a banda se encontrava numa fase menos criativa. Em 1990 sai aquele que é o álbum mais polémico dos GNR: um duplo álbum gravado ao vivo no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, intitulado “In Vivo” que teve duas edições. A primeira edição foi proibida de circular por Vítor Rua que não autorizou que os temas de que é autor fizessem parte do alinhamento. A segunda edição já não contém os temas que Vítor Rua proibiu. 62


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Nesta época, Vítor Rua e os restantes GNR entraram em rota de colisão, com acusações mútuas nos meios de comunicação social. O grande momento dos GNR em termos de exposição pública surge, no entanto, em 1991 com a edição de “Rock In Rio Douro”. Um disco com sonoridades mais Rock, onde as guitarras sobressaem e com as participações de Isabel Silvestre no tema “Pronúncia do Norte” e de Javier Andreu (dos La Frontera) em “Sangue Oculto”. Os GNR conseguem um feito inédito e juntam 40.000 pessoas no Estádio de Alvalade para ver a banda ao vivo. Era o tempo em que os GNR arrastavam verdadeiras multidões. Tal não significa, na nossa opinião, que se tratasse de um grande disco. A banda começa a banalizar-se (exemplo disso foi o concerto no estádio Municipal da Guarda, em Setembro de 1993). A crítica não perdoa aos GNR e para a contrariar a banda lança “Sob Escuta”, em 1994, um belo disco que tem em “Las Vagas”, “Dominó” ou “+ Vale Nunca” os melhores exemplos de um som Pop e próprio. Apesar da qualidade , este álbum não traz sucesso e os GNR quase param. Para manter vivo o nome da banda sai, em 1996, o duplo CD “ Tudo O Que Você Queria Ouvir- O Melhor Dos GNR”. É nesta altura que Vítor Rua faz, definitivamente, as pazes com os GNR e até toca num espectáculo ao vivo da banda. Zé Zé Garcia abandona a banda e esta passa a ser um trio sem guitarrista fixo. Alexandre Manaia encarrega-se das guitarras e , em 1998, a banda lança um magnífico “Mosquito” que contém temas Pop intemporais como “Tirana”, “Saída”, ou “Mosquito” (este com a participação especial de Janelo da Costa, dos Kussondolola). No ano 2000 novo disco dos GNR vê a luz do dia: trata-se de “Popless”, um disco com temas muito mais calmos, tais como “Asas (eléctricas)”, “Popless”, “Braço de Prata” ou “Viva a Preguiça”. A surpresa total aconteceu em 2002 com aquele que é, até à data, o último trabalho dos GNR: o longa duração “Do Lado Dos Cisnes”. Um disco com um som mais cru, como se os GNR tivessem regressado ao início da sua carreira. Tóli encarrega-se, agora, das guitarras, tendo abandonado a bateria que passa a ser executada por músicos convidados. Deste disco merecem destaque os temas “Sexta Feira(Um Seu Criado)”, “Ósculos Escuros” ou “Chino/Latino”. 64


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GO GRAAL BLUES BAND A Go Graal Blues Band forma-se em 1975, como grupo que se dedicava a tocar e cantar Blues. Após várias atribulações a formação estabiliza com Paulo Gonzo (voz e harmónica), João Allain (guitarra), Raul Barrigas dos Anjos (bateria), Augusto Mayer(harmónica), António Ferro (baixo), J. Esteves (guitarra) e José Cordeiro (voz principal). A empresa discográfica Imavox firma contrato com o grupo e edita o LP "Go Graal Blues Band", em 1979. Neste trabalho o grupo assume ,totalmente, uma postura dedicada aos Blues eléctricos, em temas como "Baby, I Wanna...", "The Fault Is Her Own" e "The Last One". Também há lugar para as baladas, tais como "Leonor's" ou " For Ma Babe... Gonzo Pleasure". O disco contém um pequeno texto onde Jaime Fernandes, produtor e conhecido radialista, se debruça sobre a carreira da banda e afirma que se trata do grupo mais "teimoso" que já conheceu. A Go Graal é um dos grupos portugueses da época que dá mais concertos, sobretudo para estudantes. Apesar de cantarem em inglês, conseguem bastante sucesso e passam, quase incólumes, o "boom" do Rock português, sem necessitar de mudar de linguagem. Em 1980, a banda lança o single "They Send Me Away", com um som mais Rock, bastante próximo de uns Dr. Feelgood. Tó Andrade entra para a banda e, com produção de Luís Filipe Barros, sai o single "Lay Down" que atinge o primeiro lugar no Top do programa "Rock Em Stock", apresentado pelo mesmo Barros. Coincidências... Em 82 sai o novo LP "White Traffic". Da formação original só já restam Gonzo e Allain. O baixo é de Fernando Delaere e a bateria de Hippo Birdie. A evolução musical do grupo é bem notória e a sua caminhada rumo ao sucesso (não tanto de vendas de discos, mas sim de espectáculos), também. Deste disco fazem parte temas como "N'Roll", "Lonely", "Ghetto Drunk" e o verdadeiro momento em que se juntam todos os amigos da banda para cantarem em coro no tema "Hot River" (fazem parte do coro João David Nunes, Frodo, Fernando Quinas e João Magalhães). No Baile de Finalistas da Escola Secundária Afonso de Albuquerque, 65


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realizado em 13 de Janeiro de 1983 , lá está como cabeça de cartaz a Go Graal Blues Band. Espectáculo magnífico , com grande participação do público... Divergências internas quanto à autoria dos temas levam à saída de Delaere e Birdie (que vão para a "trupe" de Garcez- Os Roxigénio e , mais tarde, para os UHF) e novos membros são recrutados: Mário Pereira (ou Márito) , natural de Vale de Espinho (Sabugal), exelemento do grupo Spartaks ,da Guarda; entra para a bateria e Henrique Leite vai para o baixo. Com esta formação é editado o mini-LP "Blackmail" onde se encontram temas de Blues/Rock fabulosos como "Champagne All Night", "Love Fashion"ou "Midnight Killer". Nunca a Go Graal Blues Band soou tão pesada como nesta fase. Em 85 é editado um máxi-single intitulado "Dirty Brown City"(no qual participa Tó Andrade, que regressa, novamente, à banda), com uma bonita capa (como é apanágio da banda) e actuam , no ano seguinte na Praça de Touros de Aldeia da Ponte, fazendo a primeira parte dos Xutos & Pontapés. Nova mudança na formação (tal como os UHF, a Go Graal Blues Band é dos grupos de Pop/Rock portugueses que teve mais instabilidade nos seus “lineups”) e a edição do definitivo álbum " "So Down Train", com uma sonoridade mais amadurecida e publicação das letras das canções no "encarte" do LP. Saído em 1987, longe do sucesso de outras épocas, o último disco da Go Graal traz-nos temas como "They Don't Give a Damn", "A Little Bit" ou "City Lights". Paulo Gonzo abandona o grupo e é substituído por João Melo (Fúria do Açúcar), mas, com esta formação, a banda dura muito pouco tempo. O fracasso comercial do LP “So Down Train” e posterior repercussão em termos de espectáculos, leva à extinção de um dos grupos mais marcantes da música Blues/ Rock em Portugal. Entretanto, Paulo Gonzo lança-se numa carreira a solo que teria o seu apogeu em 1997 com o CD "Quase Tudo". Infelizmente nunca nenhum disco da Go Graal Blues Band foi reeditado em CD e remasterizado, para que as novas gerações conheçam esta grande banda. 66


CYAN

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AMARELO

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Go Graal Blues Band ao vivo, em Pinheiro de Loures 67 CYAN

MAGENTE

AMARELO

PRETO


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HERÓIS DO MAR Após o fim do grupo Corpo Diplomático, em Setembro de 1980, Pedro Ayres Magalhães recruta António José de Almeida (baterista dos Tantra) e Rui Pregal da Cunha para dar corpo a um novo projecto intitulado Heróis do Mar. Continuavam com Pedro Ayres, vindos do Corpo Diplomático, Carlos Maria Trindade e Paulo Pedro Gonçalves. Após vários meses de ensaios, os Heróis do Mar lançam o seu primeiro single em Agosto de 1981. Este disco continha os temas "Saudade" e "Brava Dança dos Heróis". O grupo reflecte alguma estética nacionalista nas suas roupas e nas letras das canções. Houve , até, quem os acusasse de neofascistas ou neonazis. O seu LP de estreia contém os temas do single e outros como "Magia Papoila", por exemplo. O seu estilo musical, de início, ainda que próximo de algumas fontes portuguesas, ia beber ao fenómeno neo- romântico que despontava em Inglaterra capitaneado por grupos como os Spandau Ballet ou os Duran Duran. Em Junho de 1982 é editado o máxi-single "Amor", o seu primeiro megasucesso comercial. Este disco conta, no lado B, com uma versão em que canta Né Ladeiras , artista com a qual os Heróis do Mar tinham gravado (enquanto músicos de estúdio) o LP " Alhur". Em Agosto seguinte tocam na primeira parte do concerto dos King Crimson e dos Roxy Music, que os levam até Paris para actuarem na primeira parte da sua actuação em França.. O seu segundo disco "Mãe" tinha uma bela capa, mas apresentava fragilidades a nível das vocalizações de Rui Pregal e nenhuma canção deste disco se consegue impor com sucesso. O seu disco seguinte ("Paixão") obtém , finalmente, o êxito que tinha fugido com " Mãe" e leva a revista inglesa "The Face" a considerar os Heróis como o melhor grupo de Rock da Europa. Os músicos dos Heróis são os acompanhantes de António Variações no seu segundo disco " Dar & Receber", gravado em 1984. Neste ano , em 14 de Março, os Heróis do Mar dão um espectáculo no Salão da Escola Secundária Afonso de Albuquerque, na cidade da Guarda. Este espectáculo decorreu durante a tarde e teve pouco público a assistir. Na segunda parte actuaram os Jáfumega, espectáculo a que assistimos. Segue-se a edição do disco "O Rapto", que inclui "Supersticioso" e "Só Gosto de Ti". Os Heróis do Mar mudam de visual e apresentam-se com 68


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camisas rasgadas e tendo já muito pouco a ver com a sua estética nacionalista inicial. Após lançarem no mercado outro single virado para as pistas de dança intitulado "Alegria" e terem participado em espectáculos no país e no estrangeiro, partem para Macau onde ficam um mês. As vivências de Macau transportam-nas para o seu novo disco, justamente intitulado "Macau", gravado nos Estúdios de Paço de Arcos da Valentim de Carvalho, com quem tinham firmado contrato após divergências com a editora inicial, a Polygram. "Macau" é completamente diferente daquilo que os Heróis do Mar fizeram até então. Musicalmente muito mais avançados, os Heróis abandonam as suas vestimentas e deixam a música falar por si própria. Deste disco , o tema "Fado" teria um relativo sucesso. Pedro Ayres estava já, por esta época, com os Madredeus, o que retirava algum tempo aos Heróis do Mar. António José de Almeida abandona o grupo, em 1988, e já não participa na gravação do último disco intitulado "Heróis do Mar". A bateria é substituída por uma caixa de ritmos, nas gravações, e António Garcia (exMler Ife Dada) é convidado para novo baterista. No entanto, ele não chegará a aquecer o lugar porque o grupo dá por terminadas as suas actividades, devido a diferentes opções dos seus elementos e a diferentes projectos onde, cada um , estava envolvido. Em Março de 2007 foi estreado, nos cinemas, o documentário “Brava Dança”, que retrata a história da banda.

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HOSANNA O grupo Hosanna apareceu na cena Rock nacional em 1973, com um estilo muito próximo do Hard Rock , influenciado por grupos como os Deep Purple ou os Black Sabath. Constituídos por Virgílio (voz), Zé André (baixo), Jorge Bilas (guitarra), Dógóra (bateria), Leca (teclas) e Luís Miguéns (guitarra), os Hosanna eram dos grupos que mais actuações faziam, neste país. Passado pouco tempo a formação muda: resta Zé André e entram Alberto Gomes, João Carlos, Agnelo Monteiro, Mário Ceia e Celso. A indumentária dos membros da banda (calças à boca de sino e cabelo comprido) era uma das suas imagens de marca. Nunca chegaram a gravar qualquer disco porque, na época, tal era muito difícil; mesmo para grupos como os Hosanna que tinham público fiel. O s e u repertório era composto por temas cantados em português, dentro do estilo Rock pesado. Ficaram famosos os sons que Agnelo conseguia tirar dos seus diversos teclados (e do "Lesley" a eles associado), sobrepostos uns nos outros (e tantos eles eram 70


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que o músico tinha que usar um cavalete para conseguir tocar no mais elevado), tal como as "performances" de João Carlos. Em 1978 dá-se nova mudança no "line-up" da banda: saem João Carlos (que passa a ser vocalista dos A Ferro e Fogo) e Mário Ceia e entram para os seus lugares, respectivamente, João Teixeira e Aristides Serafim. O grupo faz muitos espectáculos nos distritos de Castelo Branco e Guarda. Em 2 de Dezembro de 1978, o grupo participa num Baile de Finalistas do Externato Secundário do Sabugal , que motivou um artigo na revista "Rock em Portugal" , à época o único meio de comunicação social que se referia, quase exclusivamente, ao Rock português. É preciso notar que Rui Veloso ainda não tinha surgido na cena musical. Das suas composições , a que ficou mais conhecida foi "Se eu Fosse Deus ou Rei", com letra de João Teixeira e música de Agnelo Monteiro. O grupo termina a sua carreira em 1980. João Teixeira consegue um contrato discográfico, em 1982, e sob o pseudónimo de JTX, chega a gravar e editar um LP, com um tipo de música próximo do Pop. Experiência que não teve continuidade e ninguém mais ouviu falar de JTX. Agnelo passa a tocar em grupos de baile e João Carlos continua, ainda hoje, com os Ferro & Fogo. Dos restantes elementos não se voltou a ouvir falar no panorama musical português. 71


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IODO Os Iodo foram um dos casos efémeros daquilo que ficou conhecido como o "boom" do Rock português, nos anos 80. Tudo começou com o "Chico Fininho" do Rui Veloso que abriu a porta a muitos grupos que não quiseram deixar de aproveitar a oportunidade. As editoras discográficas aproveitaramse (e bem) do fenómeno, tendo-o abandonado quando verificaram que já não tinha sucesso comercial. Surgidos em Almada, os Iodo iniciaram-se nas lides musicais logo após o sucesso de Rui Veloso. Eram formados por Rui Madeira (voz), Jorge Trindade (guitarras), António Pedro (baixo), Alfredo Antunes(bateria) e Luís Cabral (teclas). Com um som muito New Wave, onde as teclas tinham grande predominância, lançaram-se à conquista do seu lugar ao sol. Conseguem facilmente um contrato discográfico com a Vadeca (uma subsidiária da Valentim de Carvalho) e lançam o seu primeiro trabalho discográfico, em 1981, o single "Malta à Porta" que se torna , rapidamente, um dos grandes temas do momento. No lado dois encontrava-se o tema "Aqueles Dias". Na capa havia uma fotografia da banda dentro do mar, com vários dos seus instrumentos. Este single esteve em primeiro lugar no Top do programa radiofónico "Rock Em Stock", conduzido por Luís Filipe Barros. Conseguiu, ainda, o feito de estar 19 semanas no primeiro lugar do Top do programa da Rádio Comercial "Todos no Top" (TNT). A partir daqui começam a tocar um pouco por todo o país. Juntam-se aos UHF, NZZN e Xutos & Pontapés e formam a empresa de "management" 72


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Iodo, ao vivo, em Paivas (Seixal)

Iodo, ao vivo, no Rock Rendez Vous 73


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GRR (Grupos Rock Reunidos), no sentido de serem melhor defendidos de alguns pouco escrupulosos empresários musicais. Em 1982 lançam novo single intitulado "A Canção", com o lado B a ser ocupado por "Pedro e o Lobo". Este novo trabalho discográfico já não consegue o sucesso esperado. Apesar de ter entrado no Top do programa TNT, não esteve lá por muito tempo. A banda muda de formação e para os lugares de António Pedro e Alfredo Antunes entram , respectivamente, José Luís Barros e Raul Alcobia. Com este novo "line-up" gravam o álbum "Manicómio" que se revela um fracasso comercial. A crítica especializada também não gostou muito do álbum e ignorou-o . Algumas das canções que faziam parte do disco eram: "Ceby", "Lendas", "Foz de Um Beijo", "As Novas das Tesouras Velhas", "Ventos do Além", "Expiração de Um Louco" e "Deixo-me ir?". Após a gravação e edição do álbum e como o sucesso já era quase nulo, a banda decide terminar as suas actividades, tendo cada um dos seus elementos seguido outras profissões. Da grande vaga surgida com o "boom" iniciado por Rui Veloso (quando havia centenas de bandas a gravar e editar discos) só conseguiram vingar os UHF, GNR e Xutos & Pontapés , todos grupos contemporâneos dos Iodo, na aventura de fazer Rock português. Os Iodo não tiveram hipóteses de continuar e tiveram que ficar pelo caminho. Tinham , no entanto, algumas coisas boas. Sobretudo a forma de nunca se armarem em "vedetas" e um bom vocalista.

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JÁFUMEGA O grupo Mini-Pop esteve na origem dos Jáfumega. Os Mini-Pop, quarteto de adolescentes onde pontificavam os irmãos Barreiros (Mário, Eugénio e Pedro- mas nada a ver com o Quim), chegaram a fazer algum furor nos anos 70, em Portugal. Oriundos do Porto, os MiniPop gravaram alguns discos de sucesso como "Menina de Luto" . Os músicos do grupo foram adquirindo formação musical na área do Jazz e decidiram dar corpo a um novo projecto musical que baptizaram com o nome de Jáfumega.. Para isso, ao núcleo dos irmãos Barreiros, juntaram-se o saxofonista José Nogueira e o baterista Álvaro Marques; para além do cantor Luís Portugal. Em 1980 editam o seu primeiro trabalho, totalmente cantado em inglês e, singelamente intitulado "Estamos Aí". Neste trabalho já é possível ver algumas das pistas que irão ser exploradas em futuros trabalhos da banda. As vocalizações são repartidas entre a voz aguda de Luís Portugal e a voz grave de Eugénio Barreiros. O tema mais conhecido deste disco, gravado com poucos recursos e com uma prensagem deficiente, é "There You Are", que chegou a ter algum "airplay" no programa "Rock Em Stock", de boa memória. Em pleno "boom" do Rock português o grupo decide cantar em português e obtém um estrondoso sucesso com o single "Dá-me Lume", que contém o Reggae "Ribeira", no lado 2. Este tema, cujo refrão andava na boca de toda a gente ("A ponte é uma passagem, p'rá outra margem..."), transforma os Jáfumega num dos grupos mais solicitados para concertos em todo o país. Não é por isso de estranhar que, em Janeiro de 1982, o grupo se apresente ao vivo na cidade da Guarda, onde proporcionou um espectáculo inesquecível, não só pela qualidade da sua música, mas porque Luís Portugal estava doente e não pôde estar presente. Eugénio Barreiros substituiu-o nas vozes e ouvir a "Ribeira" na voz potente de Eugénio fica na memória. Muito tendo a ver com o Rock português, os Jáfumega tinham no seu "line up" alguns dos melhores músicos portugueses, disso não havia dúvidas. 75


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O regresso da banda dá-se com o LP "Jáfumega" que inclui "Latinamérica" e "Kashbah". Extremamente bem produzido e bem tocado, o álbum é muito bem recebido pela crítica e pelo público. Em 1983 o grupo edita o seu último trabalho de título "Recados", subdividido em "Recados da Cidade" e "Recados do Campo". Temas como "Romaria" ou "La Dolce Vita" revelam-se sucessos na rádio, mas não trazem ao grupo grandes proveitos comerciais, pelo que a banda se dissolve em 1984. Cada músico seguirá caminhos diferentes: Pedro Barreiros dedica-se ao Jazz, como baterista. Nogueira junta-se a António Pinho Vargas, no seu Quinteto; Mário toca com Rui Veloso e faz parte de uma formação dos Bandemónio de Pedro Abrunhosa, antes de seguir uma carreira como produtor de sucesso. De Eugénio Barreiros e Álvaro Marques nunca mais se ouviu falar. Luís Portugal tem prosseguido numa carreira a solo, com altos e baixos. Recordados com grande saudade por todos aqueles que os viram e os ouviram, os Jáfumega, dignos representantes da boa música portuguesa, são hoje colocados na galeria dos clássicos.

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JOTTA HERRE Os Jotta Herre, grupo que apenas gravou um disco, tem um lugar garantido na história da música portuguesa e até mundial. Tudo porque Paul McCartney lhes ofereceu a música "Penina", em 1969. Paul McCartney frequentava o Hotel Penina, no Algarve, onde os Jotta Herre, oriundos do Porto e formadas por Carlos Pinto, Aníbal Cunha, Guiseppi Flaminio e Rui Pereira; eram o grupo residente. McCartney entrou no local onde os Jotta Herre tocavam, quando estes já arrumavam os instrumentos, e disse que queria tocar com o grupo. Os Jotta Herre nem queriam acreditar... Às 4 da madrugada, após a bebida começar a surtir efeito, estava feita a canção que o Beatle ofereceu ao grupo e baptizou com o nome do hotel onde estava a passar férias. O Hotel Penina não mais largou o grupo, após perceber que, com a canção de McCartney teria ali uma "mina de ouro". O disco, um EP, com as canções "Penina", "The Needing of Love", "North" e "To Grandma" foi editado em Junho de 1969, pela Philips. Em 1992 foi editada uma colectânea intitulada "Unheard Melodies- The Songs The Beatles Gave Away", onde se inclui a canção dos Jotta Herre e uma versão gravada por Carlos Mendes, para além de "Penina" gravado numa "demo" , pelos próprios Beatles, nos ensaios de "Let It Be". A canção "Penina" foi creditada à dupla Lennon/McCartney, o que significa que é uma canção dos Beatles. Os Jotta Herre, após este grande sucesso deram por encerradas as suas actividades, em parte devido à morte de Rui Pereira, em 1972 e porque o súbito êxito e sobreexposição do grupo devido à autoria da canção "Penina" não os deixou continuar. 77


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KAMA - SUTRA Formado por Pedro Taveira (bateria), Rui Pipas (guitarra - que faleceria pouco depois num acidente de viação e é homenageado por Júlio Pereira no disco "Fernandinho Vai Ao Vinho"), Gino Guerreiro (baixo) e Carlos Barata (vozes), o grupo Kama-Sutra cotou-se durante muito tempo como um dos melhores grupos de Rock português. Estes elementos já tinham passado, antes, por formações como os Pentágono, Albatroz, Beatnicks e Ogiva. O seu estilo estava próximo do Hard- Rock , com umas pinceladas de Rock progressivo e sequências acústicas. Começaram por tocar versões de temas de grupos anglo-americanos (Gentle Giant, Yes, Jethro Tull, etc), mas depressa evoluíram e criaram o seu próprio reportório de temas originais. Em 1972 participam no III Festival Musical da Juventude, em Almada, realizando uma excelente "performance" e, no ano seguinte voltam a participar na IV Edição do mesmo Festival ; juntamente com os portugueses Heavy Band (onde pontificava Filipe Mendes, futuro Roxigénio) e os ingleses Atomic Rooster. Zé da Cadela, um baterista de renome no meio musical português (tocou com quase meio mundo artístico português dos pioneiros do Jazz aos UHF) entra para a banda , substituindo Pedro Taveira. Zé Cancela , em teclas e Jaime, em guitarra, são os novos elementos da formação. Muito por causa da inclusão do órgão , o som do grupo torna-se mais denso e mais próximo do estilo que procuravam. A banda entra no circuito habitual , em Portugal, para os grupos do seu género, e toca em vários locais do país em Bailes de Finalistas. Em 1973 actua no Baile de Finalistas do Externato Secundário do Sabugal e, diz quem viu, que foi um espectáculo de virtuosismo.

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A desmotivação e a apatia começam a apoderar-se dos elementos da banda. Estamos numa época em que o "boom" do Rock português ainda não tinha visto a luz do dia. As editoras discográficas não apostavam na chamada música "yé yé" e não havia a mediatização da música Rock. Os músicos faziam-se transportar em carrinhas, onde vinha, também, a aparelhagem sonora (imagine-se o tipo de decibéis que tais aparelhagens conseguiam transmitir e compare-se com um grupo que anima arraiais, hoje em dia. Na época o que tinham já fazia barulho a mais para muito boa gente e hoje, com 7 ou 8 vezes mais aparelhos de som, há quem se queixe que não se ouve nada...). Os Kama-Sutra dão por encerradas as suas actividades, sem que tivessem deixado algum registo sonoro para a posterioridade. Carlos Barata é, hoje, membro da Ronda dos Quatro Caminhos.

Uma foto da Ronda dos Quatro Caminhos. Carlos Barata é o segundo, a contar da direita 79


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LINHA GERAL Banda de culto dos anos 80, tida como uma das grandes promessas da música moderna portuguesa, pós-“boom”, a Linha Geral formou-se em meados dessa década, em Lisboa. Praticava um estilo musical pós-Punk, influenciada pela música tradicional portuguesa e com letras de intervenção social. Há, até, quem afirme que, se José Afonso ou José Mário Branco tivessem formado uma banda deste estilo musical estariam muito próximos da Linha Geral. A sua formação incluía Carlos Manso (voz e guitarra), Fernando Soares (bateria), Tiago Lopes (guitarra) e Pedro Alvim (baixo). A banda possuía uma das secções rítmicas mais poderosas dos grupos portugueses da época, à qual se aliava a voz de Carlos Manso, num estilo capaz de inflamar multidões. Efectivamente, o estilo épico dos temas da banda, tornava-a um caso raro entre os grupos portugueses. Certamente que teriam sido influenciados por bandas como os Skids ou os Big Country, os quais tinham na exaltação épica uma das grandes fontes de matéria-prima para a sua música. O nome da banda era o mesmo de uma revista que a UEC (União dos Estudantes Comunistas) tinha em 1976. O primeiro tema da banda a ser editado apareceu na colectânea “Música Moderna Portuguesa”- 2.º Volume”, compilação de várias bandas que passaram pelo Rock Rendez Vous. A editora era a Dansa do Som, ligada ao clube de música lisboeta. Na colectânea “Divergências”, também de 1986, está outro tema da Linha Geral, “Hino À Nossa Luta”. A editora de “Divergências”, a Ama Romana, contrata a banda para gravar um LP, o qual veria a luz do dia em 1989. A capa era de cartão, com o logótipo da banda, carimbado a vermelho, no canto superior direito. Totalmente cantado em português, este disco ainda hoje é uma referência para toda uma geração que acompanhou o fenómeno da música moderna portuguesa. Bem estruturado, com canções de luta magníficas e, até, porque não dizê-lo, actuais. O entusiasmo da banda é contagiante. 80


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Nesse disco (que só dura 20 preciosos minutos) encontram-se os temas “Porque os Outros”, “Dança de Sombras”, “Formas Estranhas”, “Coro Jovem”, “Sinais do Tempo”, “Auto de Fé”, “Ousadia” e “Riscando os Céus”. O poema de “Ousadia” tem uns versos que rezam assim: “Faremos do Medo Ousadia/Da Noite Manhã Clara/Do Fado Outro Destino/Do Terror Alegria”. Ainda estava programada a saída de um novo disco, mas entretanto a banda desfez-se e ele não chegou a ser editado. Tiago Lopes foi, posteriormente, membro dos Golpe de Estado, uma banda que lançou um máxi-single sobre a revolução do 25 de Abril, utilizando “samples” de sons da época revolucionária. Além disso, tornou-se produtor de bandas, entre as quais os Jaguar. Pedro Alvim fez parte de uma das formações dos Pop Dell’ Arte, banda de João Peste, e outra das grandes referências da moderna música portuguesa, da segunda metade dos anos 80, do século XX.

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MÁRIO MATA Mário Mata, um músico, compositor e intérprete, surgido nos anos 80 do século XX, em Portugal é natural de Luanda (Angola), onde nasceu a 2 de Setembro de 1960. Fixou-se em Portugal, após a descolonização, em 1974, indo viver para Portimão. Começa por fazer o circuito de bares no Algarve, com uma guitarra e a sua voz, cantando canções alheias e algumas já de sua autoria. Em Dezembro de 1980 participa no programa radiofónico "Febre de Sábado de Manhã",conduzido por Júlio Isidro, onde interpreta o tema "Não Há Nada P'ra Ninguém", um tema que é uma sátira a algumas posições militaristas então vigentes em Portugal. Em 1981, a Polygram, com vista ao aproveitamento lucrativo da nova música portuguesa, personificada pelo fenómeno de vendas de "Ar de Rock" de Rui Veloso, decide aceitar que o cantor lance um álbum , que teria por título "Não Há Nada P'ra Ninguém". Este disco contém temas como "Não Te Cures, Não", "Já Me Estás a Levar" , "Maria Maldiçoad"(assim mesmo, à moda do Algarve) e o Blues "Sonata nº 10 (em Azul) da Má Vida" para além do tematítulo. Na gravação do disco participam nomes como Zé Martins, Armando Gama, Bechegas, Vasco, Dudas e Jaimito. Mário Mata torna-se muito conhecido e o seu disco vende muito bem. O cantor especializou-se num tipo de música que fazia a ponte entre o Rock português e a Música Tradicional Portuguesa. Outra das características que o tornavam ímpar no panorama nacional eram as suas letras, quase todas com a sátira a certos costumes bem presente. "Não Mata Mas Mói" é o título do segundo álbum de Mário Mata, ainda na Polygram. Este disco continha o tema "É P'rá Desgraça", o qual se tornou um relativo êxito comercial. Em 1983 Mário Mata edita novo LP, desta vez intitulado "Que Grande Seca", o qual já não seria editado pela multinacional discográfica. 82


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Tendo que procurar nova editora, uma vez que o fenómeno que ele próprio protagonizou, começou a dar sinais de ter abrandado, conseguiu-o com a Discossete na qual edita "Deixa-os Poisar!" em 1986. Em 1987 participa no Festival RTP da Canção com o tema "É do Stress", classificando-se em 5.º lugar, no ano em que o vencedor foi o Duo Nevada com "Barco à Vela". Em 1988 sai novo disco, desta vez um single, com os temas "Nunca Mais É Sábado" e "Amanhã É Um Novo Dia". Sem que tenha deixado de actuar ao vivo, com a sua banda, o que é certo é que o nome de Mário Mata ia ficando esquecido pela grande maioria dos portugueses, que se colavam a novos fenómenos de moda. No entanto, Mário Mata continuou a editar discos. A sua presença mediática é que já não era a mesma de outros tempos. Em 1989 é editado novo disco (single) com "Não Sei O Que Se Passa (Estou A Ficar Sem Massa)". Após conseguir um contrato discográfico com a Vidisco edita "Somos Portugueses", um álbum onde , mais uma vez, a veia satírica tem forte presença. Em 2005 é editado, na companhia discográfica Ovação, o CD "Dupla Face", o último trabalho de originais de Mário Mata. Para além dos seus concertos ao vivo e uma ou outra (rara) apresentação televisiva, o músico mantém um blog na Internet em http://prosasquerimam.blogspot.com

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M'AS FOICE Oriundos de Coimbra, os M'as Foice (também conhecidos por É M'as Foice), foram uma das bandas mais originais do final dos anos 80, do século XX. Para além da sua componente musical, os M'as Foice eram conhecidos por utilizarem artes “performativas” nos seus espectáculos ao vivo, nomeadamente aqueles que realizaram no Rock Rendez Vous. Para além das letras com bastante humor, as “performances” tinham muito de improvisação. Uma das suas “performances” mais históricas aconteceu na sala do Rock Rendez Vous, quando Jêpê mostrou às sopeiras que estavam junto do palco como se conseguia lavar o chão da sala. Eram sete rapazes que constituíam a banda: Sérgio (guitarra), Alex (guitarra), João Paulo (bateria), Nito (voz), Miguel(baixo), Tony (coros e “performance”) e Jêpê ( “performance”). O tema “Coca Cola Billy” fala de um bar na cidade de Coimbra chamado Moçambique e inclui partes com variados tipos de música, desde a africana ao Rock, passando pela música de baile. Outro tema famoso dos M'as Foice era “Cu Nimbriga dos Morcegos”, que focava os estudantes de Coimbra e a sua boémia, no bom sentido. Outro, bastante conhecido, era “Yupiie, Yupiee, Oh La La”. Em 1989 tentaram uma edição discográfica, mas o que conseguiram foi apenas a saída de uma cassete um pouco artesanal que continha alguns temas, entre os quais “mixes” do Hino Nacional e sons de António Sala e Júlio Isidro. O nome deste registo em cassete era “Super Máxi 89”. Para além disto incluíam-se originais como “Galinheiro”, “Martelo e Foice”, “Coca Cola Billy” e “É (mas foice)”. Incluía , ainda, versões ao vivo de “Onião” e “Fado do Tony”. 84


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A banda inscreve-se no Concurso de Música Moderna do Rock Rendez Vous, mas foi, na opinião de muita gente, injustamente afastada da final. Venceram, no entanto, um Concurso de Música Moderna organizado pela Rádio Universidade de Coimbra , cujo prémio era a gravação de um máxi-single, o qual chegou a ser gravado, mas nunca foi editado. No ano de 2005, conjuntamente com um número do semanário Blitz, foi editado um CD intitulado “ Umas Fitas Perdidas dos É M'as Foice”, o qual contém quase tudo o que a banda gravou em estúdio e ao vivo e ainda dois “vídeoclips” de espectáculos. Sérgio fez parte da formação original dos Tédio Boys e , depois, foi membro dos FDP (Foragidos da Placenta). Desde 1999 é membro dos Wraygunn. Alex fez parte dos Lordose, que dariam origem aos Belle Chase Hotel e Tony Fortuna foi o vocalista dos Tédio Boys. Todas estas bandas são originárias de Coimbra, que tem uma cena própria de MMP, virada mais para sons próximos do Rythm’n’Blues, com excepções, é evidente.

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MLER IFE DADA Um dos projectos mais originais da nova música portuguesa, na sua vertente Pop/Rock teve origem em Cascais, em 1984, onde se formam os Mler Ife Dada . Inicialmente o grupo era formado por Nuno Rebelo (ex-Street Kids), Augusto França, Pedro D'Orey e Kim. Vencem o 1.º Concurso do RRV. Com esta formação, a banda edita o seu primeiro trabalho discográfico, um máxi-single intitulado "Zimpó". Este tema era cantado em português, sendo que os restantes ("Spring Swing" e "Scratch My Face") eram cantados em inglês. Neste primeiro trabalho as vozes estavam a cargo de Pedro D'Orey, que abandonará o grupo pouco depois para ceder o seu lugar a Anabela Duarte, uma figura carismática, com voz fadista e que tinha pertencido a outros projectos inovadores, como os Ocaso Épico e Bye Bye Lolita Girl. Anabela já tinha participado no tema "Apartheid Hotel" dos GNR, onde fazia um dueto com Rui Reininho. A banda, já com a nova formação, grava um single que inclui "L'amour Va Bien, Merci" e "Ele e Ela e Ele", este último uma versão do tema que Madalena Iglésias cantou no Festival RTP, nos anos 60. O jornal Blitz considera a banda como a grande revelação dos últimos tempos da música moderna portuguesa e convida-a para abrilhantar a festa do 2.º aniversário do hebdomadário, no Rock Rendez Vous, onde esgotam a lotação. Em 1987 editam o seu primeiro longa duração "Coisas que Fascinam", onde se condensam todos os estilos que o grupo pratica (desde o experimentalismo às coladeras cabo verdianas, no tema "Siô Djuzé", este com a colaboração de Rui Reininho). O tema "Alfama" é a aproximação ao universo fadista tão caro a Anabela Duarte. Este disco é considerado pelo jornal "Público" como um dos melhores de sempre da música feita em Portugal, distinção que só prova a criatividade do grupo. 86


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A vocalista da banda gravará, no ano seguinte, um disco de fado intitulado "Lisbunah" que mostra a cantora em todo o seu esplendor fadista. Em 1989, os Mler Ife Dada gravam o seu segundo LP "Espírito Invisível" que, embora aclamado pela crítica, não tem grande aceitação nas rádios. Apenas a faixa "Walkman Man" obtém algum sucesso. Com a fraca aceitação pelo público deste segundo trabalho, os convites para espectáculos começam a rarear e Anabela abandona o grupo, sendo substituída por Sofia Amendoeira que não tem o carisma e as virtudes de "performer" de Anabela. Com este "line- up", a banda ainda edita um máxisingle , mas dissolve-se definitivamente; pouco tempo depois. Os dois LP's do grupo foram reeditados há uns anos na colecção Caravela de uma multinacional da indústria fonográfica, com as capas originais e o próprio CD fazendo lembrar um velho disco de vinil.

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NZZN Em 1980, a banda NZZN (iniciais de Necas, Zica e Zé Nuno, aos quais se juntaria o vocalista Armindo) lança-se na cena musical portuguesa, fazendo versões de temas de Led Zeppelin, AC/DC, Van Halen ou Black Sabath. Eram, portanto, cultores do género Heavy Metal. Aproveitando a boleia do “boom” do Rock português (que ainda não tinha nenhuma banda expressando-se nessa linguagem tão pesada), abandonam as versões e começam a compor material cantado na língua de Camões. A estreia dos NZZN, ao vivo, aconteceu no “Festival Rock Em Stock”, em substituição dos Taxi, que estavam programados, mas não puderam comparecer por motivos não previstos. Nunca se chegou a saber a razão porque o Heavy Metal , cantado em português, nunca tinha pegado, uma vez que havia muitos seguidores dessa corrente, no nosso país. Lembre-se que apareceram outras bandas no “boom” com este estilo, mas também não singraram. Falamos dos Xeque-Mate (que gravaram discos cantados em português, tendo ramificações nos Tarântula que se viraram para o inglês) ou mesmo dos Bico D'Obra. No final de 1980 lançam o seu primeiro disco, um single, que continha os temas “Vem Daí” e “Deixa Arder”, o qual atingiu o primeiro lugar no Top do programa “Rock Em Stock”. A banda passou a ter nova formação: Zica (bateria- autor do tema “Shuy The Shock”, gravado pelos Salada de Frutas no LP “Sem Açúcar”), Necas (guitarra), Armindo (voz) e Paulo (baixo). 1981 é o ano de ouro da banda, com muitos concertos e participações em programas de rádio e televisão, como “Febre de Sábado de Manhã” ou “Passeio dos Alegres”. Os NZZN correm o país em concertos, de Norte a Sul, muitas vezes fazendo as primeiras partes dos UHF, outras vezes como cabeças de cartaz. 88


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Nesse ano gravam um novo single com os temas “Trip Fixe” e “Gajo de Sorte”. O tão esperado LP surgiu em 1982 e intitulou-se “Forte e Feio”. Neste LP estão temas bem fortes como “Desgoverno Nacional”, NZZN ao vivo, em Caneças “Morde Aqui A Ver Se Eu Deixo”, “Paga E Não Bufes” ou “Participe No Concurso”. No entanto, o público dos concertos, a que Júlio Isidro chamava o “pessoal da pesada”, não demonstrou grande interesse por estes genuínos representantes do Rock “da pesada”. Apesar de terem adquirido um PA novo com vista à realização de concertos, os mesmos começaram a escassear e, até à dissolução foi um pequeno passo. Hoje os discos dos NZZN não são fáceis de encontrar e nunca foram objecto de reedição em formato CD.

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OBJECTIVO O grupo Objectivo formou-se a partir da extinção de grupos como os Ekos e os Showmen, nos anos 60.Era um grupo português, mas que tinha a particularidade de incluir no seu seio músicos norte-americanos e ingleses. A sua primeira formação só tinha músicos portugueses: Mário Guia (bateria), Zé Nabo ( baixo), Tó Gândara (guitarra) e Luís Filipe (guitarra e teclas). Passado pouco tempo Gândara e Filipe seriam substituídos por Mike Sergeant e Kevin Hoidale. Sergeant era escocês e tinha pertencido ao grupo Hedghoppers Anonymous, chegando a gravar vários discos em Inglaterra, antes de se radicar definitivamente em Portugal. Hoidale era norte-americano. O nome do grupo foi escolhido por votação dos telespectadores do lendário programa de televisão " Zip- Zip". O seu primeiro EP incluía os temas "At Death's Door", "A Place In The Sky”, "Gin Blues" e "I Know That". Mário Guia abandona a formação para dar lugar a Zé da Cadela, um lendário baterista do meio musical português que já tocou com quase toda a gente . Em 1970 foi gravado o primeiro disco estéreo em Portugal e os autores foram os Objectivo. O disco, um single, continha os temas "Dance of Death" e " This Is How We Say Goodbye". O grupo toca no Festival de Vilar de Mouros, em 1971,e obtém muito boas críticas da imprensa especializada (com destaque para a revista " Mundo da Canção") e uma grande adesão do público às suas propostas musicais.

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As mudanças de "line-up" voltam à ordem do dia e Mike Sergeant abandona , entrando para o seu lugar Dick Stubbs, que sairá , também, passados três meses. Para o seu lugar entra Bas Riche, que não ficaria muito tempo na banda. Finalmente, adere ao grupo o guitarrista Jim Cregan, que seria mais tarde membro dos Cockney Rebel, de Steve Harley e músico da banda de Rod Stewart. Esta formação ainda gravará o single "Gloria", com "Keep Your Love Alive" no lado B. Cregan parte para Inglaterra (o grupo colocava anúncios na imprensa inglesa, tentando recrutar músicos, mas eles não paravam cá muito tempo porque o meio musical português, bem ao contrário do inglês, não lhes permitia a sobrevivência) e será substituído por Terry Thomas, ao mesmo tempo que Zé da Cadela sai para dar lugar na bateria a Guilherme Inês. Mike Sergeant ainda regressaria à banda para gravar o seu último disco "Music" / "Out Of The Darkness" e pouco depois o grupo daria por terminada a sua actividade. Hoje todos os seus registos discográficos são consideradas verdadeiras raridades e procurados por coleccionadores.

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OCASO ÉPICO Os Ocaso Épico formaram-se em 1981 e marcaram a música Pop portuguesa dos anos 80. O Rock Rendez Vous, a emblemática sala de espectáculos de Lisboa, conheceu muitas "performances" desta banda. Foram das bandas que mais concertos deram na sala. Eram comandados por Carlos Cordeiro (mais tarde Farinha Master), um músico e "performer" que estudou engenharia no Instituto Superior Técnico. Este homem, desaparecido do mundo dos vivos no dia 18 de Fevereiro de 2002, estudou flauta, guitarra e voz no Hot Club de Portugal e participou em diversas actividades artísticas em vários cenários, incluindo o Chapitô e o Teatro da Comuna. Influenciado pela cultura oriental, estudou yoga e filosofia yin-yang. Quando se começou a dedicar à música formou os WC, uma banda que integrava Anabela Duarte e Manuel Machado. Esta banda surgiu em 1980. Em 1984, em resultado das suas diversas "performances" no Rock Rendez Vous, um tema chamado "Intro" é incluído na colectânea "Ao Vivo No RRV Em 1984", álbum nos quais há participações de Xutos & Pontapés, FAS, Crise Total, Casino Twist, etc. Já nesse tema, cantado por Anabela Duarte, no seu estilo meio afadistado se podem observar influências orientais e, sobretudo do Norte de África. Anabela Duarte sairia da banda para se juntar aos Mler Ife Dada e Farinha continuou com o projecto tendo lançado, pela editora Dansa do Som, ligada ao mítico clube de Rock lisboeta, o álbum "Muito Obrigado", em 1988. Verdadeira "pedrada no charco" na música Pop nacional, o disco continha temas como "Tinto If", "O Camelo", "Cafécucerto", "Desoriental", "Da Beira Baixa à Extremadura" ou "Cortar ou Cortar-se". Trata-se de um disco fabuloso, no qual participam Pedro Barrento, Rui Moreira, Zé Nabo, Alberto Garcia, Rui Fingers , Ricardo Camacho e José Carrapato. 92


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A banda continua em actividade e na colectânea "Insurrectos" seria incluído o tema "Uma Bica e Um Neubaten", outro original de Farinha. Em 1989 foi divulgada uma maqueta com o título "Desperdícios", resultante de diversas sessões de gravação, que, no entanto; não veria a luz do dia em edição comercial. Em Junho de 1993, após um interregno de alguns anos, quando o Rock Rendez Vous já não existia, a banda regressa aos palcos para uma apresentação na sala da Caixa Económica Operária. Neste concerto, no entanto, não participou Farinha. Farinha continuou a actividade musical participando em diversos projectos dos quais se destacam os K4 Quadrado Azul ou os The Pé. Participou, também, em projectos ao lado de Carlos Zíngaro, um dos maiores violinistas portugueses "underground". À data da sua morte, Farinha tinha uma banda chamada Angra do Budismo, de que era o líder. Fundada por si , esta banda surgida em 1999, tinha como membros Luís Bernardo, Sabini e Sara Belo.

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OPINIÃO PÚBLICA Os Opinião Pública formaram-se em 1981 como consequência do "boom" do rock português que teve o seu início com o "Chico Fininho" do Rui Veloso. Eram oriundos da zona de Lisboa. A banda era constituída por Carlos Estreia (voz e guitarra), Pedro Lima (guitarra), Luís Fialho (baixo e teclas) e Carlos Baltazar (bateria). Em 1981 concorrem ao Festival Só Rock, realizado na cidade de Coimbra, onde obtêm um dos primeiros lugares. O Festival foi ganho pela banda Alarme, da Nazaré, comandada por Carlos Cavalheiro. Esta boa classificação no Festival Só Rock (onde participaram bandas de quase todo o país) permitiu-lhes um contrato discográfico com a editora Rotação. Nesse ano é editado o single "Puto da Rua", que contém no lado B o tema "Ela é Tua". Após ter sido incluída na agência de espectáculos GRR (Grupos Rock Reunidos) na qual participavam os UHF, Xutos & Pontapés, NZZN e Iodo, a banda faz alguns espectáculos, nomeadamente efectuando as primeiras partes de vários concertos dos UHF (na época a banda com mais espectáculos em Portugal). Desse caminho conjunto entre os UHF e os Opinião Pública surge a ideia de convidar António Manuel Ribeiro para produtor do primeiro álbum da banda. Esse disco, intitulado "No Sul da Europa" mostra-nos uma banda com um som muito próximo da New Wave e com algum potencial para vingar. Contém temas como "Na Terra", "Duplo Controle", "Ritmo de Vida", "Walkman", "Cumprindo as Regras", "Subúrbio", "No Sul da Europa" e o tema "Puto da Rua" já anteriormente lançado em single. Para além da preocupação com a produção do disco, na sua componente musical, a banda preocupava-se em apresentar umas letras que revelavam uma forte consciência social e crítica a um certo estado de coisas em Portugal. O tema "Puto da Rua" conseguiu algum sucesso nas rádios nacionais e os Opinião Pública conseguiram, assim, alguma projecção. Tal facto não contribui, contudo, para que a banda tivesse continuidade. No mesmo ano de 1982 dava por terminadas as suas actividades, tal como aconteceria como muitas das bandas que surgiram nesta época. O mercado discográfico e de concertos começou a ressentir-se e a crise não tardaria. Apenas três ou quatro bandas conseguiram sobreviver. 94


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Desses músicos que passaram pela banda houve apenas um que continuou na música durante uns tempos, tendo pertencido a uma das formações dos algarvios Entre Aspas. Trata-se de Luís Fialho. Hoje os Opinião Pública são quase desconhecidos para a maioria do público português , o que não significa que a sua música não seja procurada por especialistas em "powerpop", uma das diversas correntes musicais pósPunk. A banda é, aliás, considerada uma das grandes pérolas deste tipo de música, sendo, inclusive, referida em diversos sites da Internet, ligados a esta corrente musical. Os seus dois discos, em vinil (já que nunca foram reeditados em CD) são procurados como das grandes raridades musicais do Rock português dos anos 80.

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PERSPECTIVA A partir do grupo Plexus, banda que tocava Rock copiando os ídolos da época, formaram-se os Perspectiva, uma importante banda no panorama do Rock português, na segunda metade dos anos 70 do século XX. O núcleo da banda era constituído por Tó Pinheiro da Silva (guitarra , flauta e voz) e Carlos Viana (piano eléctrico). Os restantes membros do grupo eram: Luís Miguel (baixo), Raul Rosa (bateria), Vítor Real (voz). A estes juntarse-iam, mais tarde, José Firmino (percussões e voz), Vítor Ferrão (bateria) e José Manuel (guitarra). A banda, uma das primeiras a enveredar pelo estilo "sinfónico" e "progressivo" (a par dos Tantra), formou-se no Barreiro. Tó Pinheiro da Silva era membro de outra banda muito importante, nessa época, a Banda do Casaco. Depois de tentarem contrato com a Valentim de Carvalho, através da entrega de uma maqueta a Mário Martins, começam a ensaiar a sério (após terem sido expulsos de um local na sua cidade-natal porque faziam muito "barulho", passaram a fazê-lo num velho moinho abandonado) e a participar em muitos espectáculos pelo país. Em 1976 conseguem um contrato discográfico com a Imavox, onde pontuavam como directores António Pinho e Nuno Rodrigues. O primeiro disco gravado pela banda foi o single intitulado "Lá Fora A Cidade", que continha no lado dois o tema "Os Homens Da Minha Terra". Estes temas tiveram acompanhamento de uma orquestra sinfónica, para dar um tom mais "sinfónico" à música da banda. Muito elogiado pela crítica, este disco é hoje uma das raridades discográficas portuguesas. Em 1977 gravam novo single com o título "Rei Morto, Rei Posto" em que o lado B era ocupado com o tema "O Oitavo Sorriso". O letrista ao serviço da banda era José Beiramar que escrevia os poemas com grande intensidade, revelando grandes sentimentos humanísticos e apontando problemas sociológicos comuns ao povo português. A revista "Rock Em Portugal", à época o único meio de comunicação social a interessar-se pelo fenómeno do Rock cantado ou feito por portugueses, foi desde sempre defensora acérrima da qualidade da banda, 96


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tendo-a destacado como uma das "Bandas do Ano" em 1977. Foi também a "Rock Em Portugal" que convidou os Perspectiva a participarem na festa de lançamento da revista, através da participação num Festival Rock no pavilhão do Clube Atlético de Campo de Ourique, em Lisboa, onde os Perspectiva foram os grandes vencedores. Participaram também os Kontrol e os Hosanna. Em Maio de 1978 a mesma revista produz uma longa entrevista com os membros da banda, que são capa da edição. Nesta entrevista ficou a saberse as dificuldades que os músicos de Rock passavam na altura. O mercado estava virado para o que vinha do estrangeiro (e ainda não havia Play-Lists nas rádios) e o que era português não era muito bem aceite pelo mercado. A curiosidade desta entrevista foi a presença numa fotografia do "Nacib" da telenovela brasileira "Gabriela", após o entrevistador ter solicitado a Armando Bogus (infelizmente já falecido) a sua autorização para posar junto com os Perspectiva. Num dos espectáculos ao vivo, realizado nas ruínas do Convento do Carmo, a banda chegou a actuar com a orquestra sinfónica da RDP, mas a experiência não foi muito bem sucedida e acabou por ser abandonada. Outro tema da banda, tornado conhecido através dos seus concertos, era "A Quinta Parte Do Mundo"(um longo poema/hino à liberdade) para além de "Sul", "Norte" ou "A Primeira Flor". Esteve programada a gravação daquele que viria a ser o primeiro LP da banda que até tinha título. Seria intitulado "A Quinta Parte Do Mundo", mas nunca chegou a ver a luz do dia, porque a banda deu por terminada a sua actividade musical. Tó Pinheiro da Silva continuou nas lides musicais, não só como membro da Banda do Casaco, até ao seu desaparecimento, mas, também, como técnico de gravação em estúdio e técnico de som. Com esta última especialidade teve oportunidade de correr o mundo, já que foi técnico de som dos Madredeus até 1997. Como técnico de estúdio gravou com uma infinidade de artistas portugueses alguns discos importantíssimos do nosso panorama musical. 97


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PESTE & SIDA O grupo Peste & Sida formou-se no Verão de 1986, em Lisboa. A sua formação era constituída por João San Payo (baixo), Luís Varatojo (guitarra) e Raposo (bateria). João Pedro Almendra junta-se ao grupo para se encarregar das vocalizações, em Setembro do mesmo ano. Participam no Concurso de Música Moderna do Rock Rendez Vous, mas entretanto conseguem contrato de gravação com a independente Transmédia e editam o LP "Veneno" (reeditado em1990, em LP e CD). Este disco revela uns Peste & Sida próximos da estética Punk em temas como "Veneno", "Furo na Cabeça", "Gingão" ou "Carraspana". Nas gravações do disco participa Orlando Cohen, que tinha entrado pouco antes para a banda, como segundo guitarrista. A capa do disco é uma imitação de "London Calling" dos Clash, na disposição das letras, embora a imagem seja de uns cães moribundos (o disco dos Clash já era, por sua vez, uma imitação de um disco de Elvis Presley , na disposição do "lettering"). O som do grupo começa a ultrapassar as fronteiras do Punk e alarga-se a outros géneros como o Reggae, o Rock e o Rap. Esta evolução nota-se no segundo disco "Portem-se Bem", um LP que tem no tema "Sol da Caparica", uma versão de um tema americano dos anos 60, o seu maior sucesso. Outros temas são "Chuta Cavalo...E Morrerás", a versão do tema popular alentejano "Vamos Lá Saindo" e "Paulinha". A banda começa a dar muitos espectáculos e faz as primeiras partes dos ingleses PIL (liderados por John Lydon, aliás Johnny Rotten, vocalista dos Sex Pistols). Após a saída de Orlando Cohen, entra como segundo guitarrista, (vindo dos Vómito), Nuno Rafael , ao mesmo tempo que João Pedro Almendra abandona. Como vocalistas estão, agora, João San Payo ou Luís Varatojo. É editado o máxi-single "Homem da Sorte/Reggae Sida", ao mesmo tempo que prosseguem as apresentações ao vivo. A banda prepara o seu novo trabalho discográfico , que sai em Abril de 1990, com o título "Peste & Sida é Que é...". Este disco inclui uma versão do 98


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tema "A Morte Saiu à Rua" de José Afonso e outros temas como o apelativo "Vamos Ao Trabalho" e "Maldição". Em Agosto de 90 a banda apresenta-se ao vivo na Rapoula do Côa (Sabugal) , num espectáculo com a primeira parte a cargo dos Rádio Macau, mas que teve muito pouca adesão do público. Raposo abandona a bateria e para o seu lugar entra Marco, ainda a tempo de participar nas gravações do próximo álbum do grupo: "Eles Andam Aí". Editado pela BMG, este disco é o último da carreira dos Peste & Sida, antes de uma paragem que durará mais de 10 anos. Nele se encontram temas como "No Meu Tempo Não Era Assim" e "RFM (Rock Faz Mal)", uma crítica à estação de rádio RFM que se recusava a passar os temas do grupo. Em 1993 é editado o disco " O Melhor dos Peste & Sida", que é um somatório dos dois discos gravados para a editora Polygram. Para o grupo entram João Cardoso (teclas) e Sérgio Nascimento (bateria), este último a substituir Marco. O grupo, com esta nova formação, toca no Terreiro do Paço, em Lisboa, nas comemorações do 25 de Abril e apresenta uma versão de "Bully Bully", clássico do Rythm'n'Blues que intitulam "Bule Bule". Em 1994 participam no disco intitulado "Filhos da Madrugada Cantam José Afonso" e concerto (este perante um Estádio de Alvalade cheio) de homenagem ao cantor de "Venham Mais Cinco" com a sua versão de "O Homem da Gaita" (pertencente ao disco "Com As Minhas Tamanquinhas", editado em 1976 por José Afonso). Na gravação deste tema participa Zé Vilão, antigo membro dos Vómito. O grupo começa a ter uma actividade paralela sob o nome de Despe & Siga, interpretando versões em português de clássicos do Rock. Durante algum tempo existiriam os Peste e os Despe, até que a saída de San Payo (que queria manter os dois grupos) leva à extinção dos Peste & Sida. Os Despe & Siga gravaram , até agora, três discos: "Despe & Siga", "Os Primos" e "99.9". Alguns dos músicos desta banda juntaram-se para serem a banda de suporte de Sérgio Godinho, tendo abandonado os Despe & Siga. Em 2003 aconteceu o regresso dos Peste & Sida aos discos e concertos, agora comandados por João San Payo. Em 2007 a banda regressou com um novo trabalho intitulado “Cai No Real”. 99


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2004- O REGRESSO DOS PESTE & SIDA Os Peste & Sida regressaram em força na Primavera deste ano. Um novo disco foi editado com o sugestivo título de "Tóxico". Desde "Eles Andam Aí!" de 1992 que os Peste & Sida não editavam nenhum disco de originais. O último tema lançado pelos Peste & Sida foi "O Homem da Gaita" de José Afonso incluído na colectânea "Filhos da Madrugada". Após ter mantido o projecto Despe & Siga ,durante algum tempo em paralelo com os Peste & Sida, João San Payo abandonou os Despe e ,há uns anos, lançou um disco com os Los Tomatos( intitulado "Ganda Flash"), dos quais era membro. Mas ele falou sempre num regresso dos Peste & Sida. Foi neste ano que isso aconteceu. A formação da banda é, agora, para além de João San Payo (voz e baixo), Orlando Cohen (guitarra, voz), João Alves (guitarra, voz) e Marte Ciro (bateria e voz). Orlando Cohen tinha sido, já, membro da banda numa das suas formações anteriores. Como convidados especiais participam , ainda, em "Tóxico" Nuno Reis (trompete), Luís Silva(saxofone), Tó Bravo (trombone), João Gomes (teclas), Sarrufo (baixo), Filipe Melo (teclas) e como "special guest star" José Mário Branco (voz). O disco, editado pela Compact Records, numa edição em formato "digipack", conta com 13 temas. A abrir aparece "Peste Até Ao Fim", um tema muito na linha do que faziam os anteriores Peste & Sida: Punk Rock “speedado”. O CD continua com temas como "Funky Riot", "Ter Alguém", "Ska Core Eco", "Trash Metal", "Década de Salomé", "Deixa de Filosofar", "Acorda", "Trash Core", "Continuo a Cantar", "Crime e Castigo", "Ska Cáustico" e "Traz Tudo". Apesar de este novo disco conter mais temas de Ska e Funky do que era habitual nos Peste & Sida, o que é certo é que este trabalho está muito mais maduro e apetecível do que tudo o que a banda fez anteriormente. A voz principal continua a ser assegurada por San Payo, tal como acontecia nas formações anteriores. Esta "imagem de marca" torna reconhecível o som dos Peste a quem ouvir o novo trabalho discográfico. E, depois, há as letras. Grupo Punk que se preze tem que criticar a situação, por muito que isso custe ao "establishment". É o que acontece, por exemplo, no tema "Ska Cáustico" em que San Payo canta: "Durão, Leite, Bagão- Olha que três; Com estes o guito nunca chega ao fim do mês; Sampaio acorda, tu que és presidente, Não vês que a malta já não atura esta gente". Ou 100


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no tema "Ska Core Eco" onde a letra tem uma parte que reza: "Oslo, Quioto, Rio de Janeiro, Joanesburgo- Cimeiras p'ró galheiro; Os ricos estão-se nas tintas p'rá questão; Riem-se e compram quotas de poluição". Outra curiosidade deste disco é a fantástica versão de "Década de Salomé", um tema de Zeca Afonso que o grande poeta e cantor editou no disco "Galinhas do Mato", de 1985, o seu último trabalho antes de morrer. Nesta versão participa José Mário Branco, que no disco original já tinha emprestado a voz ao mesmo tema. José Afonso já tinha, aliás, outra sua canção em versão Peste & Sida. Trata-se de "A Morte Saiu à Rua", versão gravada pelos Peste & Sida no disco "Peste & Sida É Que É", de 1990. Viriato Teles, que tinha escrito aquando da morte de José Afonso, que a sua música seria recuperada pelas novas gerações ,não se enganou. Os Peste & Sida estão de regresso também aos concertos. Para além da edição do disco preparam uma Tournée para darem a conhecer a sua música ao vivo. Saudamos o regresso dos Peste & Sida ao convívio com os melómanos porque a banda era uma das que fazia falta no panorama musical português. E, quando o regresso é com um bom trabalho, ainda há mais motivos para festejar.

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PETRUS CASTRUS Formados em 1971, os Petrus Castrus eram constituídos pelos irmãos Pedro Castro (voz e guitarra) e José Castro (baixo). Recrutam dois antigos membros dos Playboys, Júlio Pereira (guitarra) e João Seixas (bateria), e o teclista Rui Reis, de formação clássica, e começam a ensaiar Rock sinfónico e psicadélico, então muito em voga. Conseguem um contrato discográfico com a Valentim de Carvalho e editam dois EP's com os títulos “Marasmo” e “Tudo Isto, Tudo Mais”, que foram muito bem recebidos pela crítica. Desvinculam-se da Valentim de Carvalho e passam para a Sassetti, onde editam o seu álbum de estreia, “Mestre”, em 1973, hoje considerado um dos melhores discos portugueses de todos os tempos. O disco foi gravado em França, no mesmo estúdio onde José Afonso gravou o essencial “Cantigas do Maio”. “Mestre” é constituído por músicas com poemas de Bocage, Alexandre O'Neill, Ary dos Santos, Fernando Pessoa e Sophia de Mello Breyner, e o facto de terem musicado estes poetas vale-lhes a confiscação do disco por três meses, pela famigerada Comissão de Censura. Ainda antes da edição do LP, Júlio Pereira sai para formar os mais “rockeiros” Xarhanga, com Carlos Cavalheiro. Júlio Pereira, o autor do aclamado “Cavaquinho”, abandonará, definitivamente, o Rock uns anos mais tarde. Antes do 25 de Abril de 1974, os Petrus Castrus gravam o single “A Bananeira”, só editado após essa data histórica para Portugal. Em 2007 foi, finalmente, reeditado em CD, o LP “Mestre”, num cuidado “digipack”, com inéditos, da responsabilidade da Companhia Nacional da Música. A atitude de sátira social, desde sempre assumida pelo grupo, não tinha nada a ver com as propostas surgidas no pós-revolução, em que se tentava dizer de uma só vez o que esteve escondido durante muitos anos, através da chamada música de intervenção. Como a banda não se sentia bem nesse papel, dá por suspensas as suas actividades. 102


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Os irmãos Castro partem para o estrangeiro e regressam apenas em 1976, já licenciados em economia e engenharia. Gravam dois singles, “Cândida” e “Agente Altamente Secreto”, mas só o primeiro deles veria a luz do dia em edição discográfica, de vinil. Em 1978 dá-se o regresso dos Petrus Castrus aos LP's com “Ascensão e Queda”, reeditado em CD não oficial por uma companhia sul-coreana. Agora constituídos em trio, com os irmãos Castro e Urbano Oliveira, na bateria, são acompanhados na gravação por Lena d'Água e Nuno Rodrigues (da Banda do Casaco), sendo algumas das músicas escritas em parceria com Fernando Girão. Os Petrus Castrus foram-se apagando, gradualmente, até desaparecerem por completo da cena musical.

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OS PLUTÓNICOS Pertencentes à mesma geração dos Sheiks, Chinchilas, Conjunto Mistério e outros, os Plutónicos formaram-se em 1962, na Pontinha. Começaram por ser um conjunto de baile que tocava os êxitos do momento, para as pessoas dançarem. Uma das suas formações era composta por Zé Pimentel (guitarra), Vítor Alves (guitarra), Gino Garrido (voz), António Fernando (baixo) e Vítor Capela (bateria). Esta formação chegou a gravar um EP, com alguns temas cantados em português. Gino Garrido era, aliás, um vocalista conhecido no meio musical, na época. A banda foi sofrendo variadas mudanças de "line-up", até que estabiliza, já nos anos 70, com Necas (guitarra), Alfredo Azinheira (baixo), João Seixas (voz), Óscar (piano) e Mário Rui (bateria). Alguns destes músicos tinham passado por grupos como os Petrus Castrus (que gravou um disco fundamental da música portuguesa "Mestre"). Em 1977 o grupo passa a ser conhecido pelo nome de A Ferro e Fogo/Os Plutónicos e o seu circuito habitual são os Bailes de Finalistas e um ou outro concerto. Para além disso, eram obrigados a tocar em bailes das Festas Populares, para conseguirem sobreviver como profissionais. A sua música, nos anos 70, estava próxima do Hard Rock, com umas pequenas pinceladas de sinfonismo. Compuseram temas que apresentavam nos seus espectáculos. Desses temas houve dois que se destacaram: "Timor" (o primeiro tema de um grupo português a falar sobre a ex-colónia portuguesa, muito antes dos Trovante) e "Pássaro de Fogo" (um tema longo, ao estilo de Opereta-Rock que nunca chegou a ser 104


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representada, por falta de condições financeiras e técnicas), mas nunca foram gravados em disco. Há mudanças na formação e João Seixas é substituído por João Carlos, vindo dos Hosanna. Os Plutónicos mudam definitivamente de nome e passam a ser apenas Ferro & Fogo, quando o "boom" do Rock português teve o seu início, através de Rui Veloso. A banda consegue contrato discográfico e edita dois singles (um deles com o tema "Santa Apolónia") e um LP (intitulado "Vidas"). A gravação era má e o estilo musical estereotipado (baseado nos velhos "clichés" do Hard Rock), mas a experiência voltou a ser repetida com o single "Oxalá". João Seixas vai tocar bateria com o Novo Grupo de Júlio Pereira (com quem já tinha tocado nos Petrus Castrus) e Alfredo Azinheira recruta outro elemento e participa no Festival da Canção da RTP, em 1987; com o Duo Nevada (e não é que a canção "Barco à Vela", que era um perfeito exemplo do mais puro neo- nacional-cançonetismo foi a apurada para ir à Eurovisão representar Portugal!!). Os Ferro & Fogo ainda hoje continuam em actividade, tocando música de cópia em Festas Populares. Da formação dos anos 70 ainda conservam João Carlos. Os Plutónicos/Ferro & Fogo são, pois, uma das formações com maior longevidade no panorama do Rock nacional. Desde os tempos do "yé yé" até hoje, 46 anos de música. Convenhamos que é obra!!

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POP FIVE MUSIC INCORPORATED No Porto , em 1967, formam-se os Pop Five Music Incorporated. A banda era constituída por David Ferreira (órgão Hammond, piano, guitarra e voz), António Brito (baixo, guitarra e voz), Paulo Godinho (voz, teclas e guitarra-irmão de Sérgio Godinho), Álvaro Azevedo (bateria) e Luís Vareta (baixo e voz). Gravam e editam dois EP’s em 1967 e 1968. O estilo da sua música era caracterizado por ter grandes influências "jazzísticas", próximas da fusão. No final de 1969 gravam o seu primeiro álbum com o título "A Peça", para a editora Arnaldo Trindade, que incluía algumas versões de temas dos Beatles, Creedence Clearwater Revival, Traffic, Bee Gees e um tema de Bach, "Jesus Alegria dos Homens". Foi um dos primeiros discos portugueses a ser gravado em estereofonia, quando isso era raro pelas bandas deste jardim à beira-mar plantado. O grupo começou a actuar em Festas e Bailes de Finalistas e resolveu modificar o seu repertório, passando este a incluir temas de Jeff Beck, Chicago e Blood, Sweat And Tears, ou seja, passou a estar mais próximo de um tipo de música mais pesado; que viria a ser chamado Hard Rock. António Brito (mais tarde conhecido por Tozé Brito) saiu da banda para o Quarteto 1111 e David Ferreira também a abandonou. Para os seus lugares entrou Miguel Graça Moura, pianista com formação clássica e que determinou os novos rumos da banda. Este Miguel Graça Moura é o mesmo que, nos anos 70 faria parte do grupo Smoog. Com a entrada de Miguel, a banda começou a escrever e interpretar originais que começaram por ser cantados em português. Desta fase foram editados "Menina" e "Homens do Mar" que não tiveram grande aceitação pública. A banda resolveu regressar em força com um tema original cantado em inglês "Page One" que ficaria conhecido como o indicativo do programa "Página Um" da Rádio Renascença. Este single incluía no lado 2 uma ária de Bach. Em 1970 gravam novo tema de sucesso: "Orange", um tema que incluía um longo solo de órgão tocado por Graça Moura. Em 1971 sai "Stand 106


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By", um tema de Rock pesado, muito semelhante aos que faziam grupos como os Uriah Heep, Deep Purple ou Led Zeppelin. O lado B deste single era o tema "Golden Egg", composto por Miguel Graça Moura. Actuam na edição de 1971 do Festival de Vilar de Mouros e obtêm grande sucesso , uma vez que o público gostava da banda. Foi neste Festival que o público pôde apreciar as "performances" dos dois melhores teclistas da época: Miguel Graça Moura e José Cid (que actuou com o Quarteto 1111). Um dos sonhos da banda tornar-se-ia realidade com a ida a Londres para gravar vários temas que seriam, posteriormente, editados em single: "Take Me To The Sun", "No Time To Live", "That's The Way", etc. Em 1972 a banda separa-se. Álvaro Azevedo fará parte dos Arte & Ofício e Trabalhadores do Comércio. Graça Moura viria a dedicar-se à sua faceta de músico com formação clássica, após abandonar o Rock e Paulo Godinho participaria nas gravações de vários discos de músicos portugueses, incluindo os do seu irmão, até emigrar. Em 2004 foi editado o duplo CD “Odisseia - Obra Completa 1968 1972”, que contém toda a discografia da banda.

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POPELINE BEIJE E FAS Os Popeline Beije tiveram o seu início no ano de 1981, em Cascais. O nome da banda era uma metáfora, já que não se referia ao tecido chamado popelina, mas sim a "pop line" ou "linha pop". Apresentaram-se como uma banda com influências da corrente futurista e neo-romântica, cujos principais mentores eram os Duran Duran, Classix Noveaux ou Spandau Ballet. A formação da banda era: Alexandre Correia (guitarra), João Barros (baixo), Luís Filipe Valentim (teclados, futuro Rádio Macau), Ramalho (bateria, ex-Faíscas, exCorpo Diplomático e membro dos Street Kids, futuro Delfins) e José Braz (violino). No ano da sua formação conseguem um contrato discográfico com a Polygram e editam um single com os temas "Coisas Bravas" e "Pop Snob". Produzido por António Pinho (membro da Banda do Casaco e produtor de muitas bandas nos anos 80), este single dava apenas uma pálida ideia das potencialidades da banda. Aliás, o produtor exigiu mesmo que a banda fizesse um som muito comercial, quando tal não era a intenção dos membros dos Popeline Beije. Apesar de tudo, o disco conseguiu uma boa projecção mediática e chegaram a vender-se bastantes exemplares. Em 1982 será lançado um novo single com um som muito mais elaborado, dentro daquilo que a banda queria mesmo fazer. Esse single incluía os temas "Chama de Outono" e "Delírio". Muito mais elaborado, com menos preocupações de ser comercial, este disco era mesmo o que a banda precisava para calar algumas críticas que colocavam os Popeline Beije como representantes portugueses do pior que vinha dos futuristas ingleses. A banda conseguiu, ainda assim mais alguma projecção a nível nacional ao fazer a primeira parte dos ingleses Duran Duran, quando estes tocaram em Portugal e foram presenciados por 8.000 pessoas, no primeiro dia e 5.500 no segundo dia. Segundo dados da editora a banda conseguiu vender 5.000 exemplares dos dois singles. 108


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Infelizmente, a partir do lançamento do segundo single a banda deu por terminada a sua actividade. Em Portugal existia outra banda com características semelhantes aos Popeline Beije, embora sem tantas preocupações de qualidade. Eram os Ópera Nova que editaram , também, discos no início dos anos 80. Esta banda ficou conhecida, também, por ter feito algumas primeiras partes dos UHF, numa mistura de estilos musicais bem diferentes. Em 1984, quando uma nova vaga de bandas portuguesas mais "underground" começou a surgir, após o fim do "boom" do Rock português, Alexandre Correia e João Barros resolveram concorrer ao Concurso de Música Moderna do Rock Rendez Vous. Para isso foram recrutar membros dos Ópera Nova, entre os quais o teclista Pedro Veiga e o vocalista Luís Beethoven e surgem os F.A.S. (Fantásticos Abridões da Selva, nova metáfora referente desta vez à selva urbana), uma das bandas mais inovadoras do panorama da nova música moderna portuguesa. A banda concorreu e classificou-se em 6.º lugar no Concurso de Música Moderna do RRV. Os vencedores desse ano foram os Mler Ife Dada. Através da sua participação no Concurso, tiveram direito a figurar no disco "Ao Vivo no Rock Rendez Vous Em 1984" com o tema "Modernos Europeus", ao lado de Xutos & Pontapés, Croix Sainte, Ocaso Épico, Casino Twist ou Crise Total. O tema "Modernos Europeus" era uma "pedrada no charco" na música portuguesa. A utilização de caixa de ritmos não era muito usual, nas bandas portuguesas de música moderna. Os seus espectáculos ao vivo, principalmente na sala do Rock Rendez Vous também ficaram na memória pela utilização de dois ecrãs de computador que emitiam imagens em tempo real e um jogo de luzes fantástico. Enfim, tratava-se de uma banda que, para além do aspecto musical, não descurava a utilização de artes "performativas". Infelizmente apenas o tema "Modernos Europeus" foi dado a conhecer aos melómanos que não tiveram oportunidade de ver a banda ao vivo. Sabemos, no entanto, que outro tema intitulado "Outono em Pequim", um Reggae bastante "underground" fazia parte do alinhamento da banda nos seus espectáculos ao vivo. 109


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PSICO Das cinzas do Conjunto Académico Os Espaciais, comandado por Tony Moura, nascem , em 1969, no Porto; os Psico. Tony Moura era considerado o melhor vocalista português, na época. Os Psico enveredaram pelo Rock , cantado em inglês , praticando uma espécie de Hard Rock. Do "line-up" da banda faziam parte, para além de Moura na guitarra e vozes, o baterista Álvaro Marques (futuro Jáfumega) e o guitarrista Amílcar. Em 1970 fazem a primeira parte dos belgas Wallace Collection, no Coliseu do Porto, naquele que é considerado o primeiro espectáculo de "yé yé" fora dos circuitos até então habituais: ginásios dos liceus e outros locais improvisados. Em 1971 a banda participa no Festival de Vilar de Mouros. Foram os quartos no alinhamento das bandas, logo depois dos Sindicato, Celos e Pop Five Music Incorporated. Os Psico terminaram a sua prestação no Festival com o clássico "Rock Around The Clock", de Bill Halley And The Comets e foram muito aplaudidos pelo público. No início de 1973 os Psico resolveram juntar-se aos Pentágono e formar os Psicágono. Esta banda durou pouco tempo, com este nome. Em 1974 os Psico regressaram com Tony Moura, António Garcez (voz), Fernando Nascimento (guitarra), Álvaro Marques e Zé Martins (baixo). Continuaram a tocar em Bailes de Finalistas e noutros eventos estudantis. Pouco depois entrariam Sérgio Castro, Gino Guerreiro e Zé Carlos. Em 1976 os Psico mudaram a sua orientação musical e passaram a produzir um som muito próximo do Rock progressivo, com pequenas pinceladas de Hard Rock. Foi neste ano que os Psico actuaram no Liceu da Guarda, no Baile de Finalistas, espectáculo que teve uma boa aceitação do público presente. Já nesta época Garcez, Nascimento e Castro tinham abandonado os Psico para fundarem os Arte & Ofício de tão boa memória.

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Em 1977 Gino Guerreiro viria a falecer, vitimado por um cancro. Em memória do companheiro falecido, os Psico compuseram o longo tema "Epitáfio Sinfónico", do qual seria retirado o extracto "Al's", que seria editado no único disco (um single) gravado pela banda. Na contracapa do disco, os Psico aparecem sob os nomes de Al Tony, Al Marcus, Al Meida e Al Mendez (Filipe Mendes). A banda terminaria pouco tempo depois da edição do disco, em 1978, após a sua participação no Festival "Música & Som" ao lado dos A & O e dos Faíscas, naquele que foi um dos primeiros Festivais de Rock português com algum nível de profissionalismo na sua organização. Neste espectáculo Tony Moura apareceu a tocar guitarra, vestindo um lençol que lhe cobria o corpo todo, excepto os olhos e a boca, numa figuração de fantasma. Tony Moura tornase membro convidado dos espectáculos dos Tantra (e participa na gravação do LP "Holocausto"). Filipe Mendes viria a formar os Roxigénio, juntando-se a Garcez, que tinha abandonado os Arte & Ofício. Hoje Filipe Mendes é membro convidado do colectivo Ena Pá 2000, comandado por Manuel João Vieira. 111


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PSP Muitos leitores ficarão admirados com o nome desta banda. Toda a gente sabe que existem os GNR (Grupo Novo Rock), mas poucos saberão que existiu uma banda chamada PSP. O que é certo é que essa banda existiu mesmo. A comandá-la estava Vítor Rua, ex- elemento dos GNR (um dos fundadores do grupo de Rui Reininho e autor dos temas "Portugal na CEE" e "Sê Um GNR"). Os PSP (cujas iniciais significam Projecto Som Pop) formaram-se no Porto e constituiam-no, para além de Rua (que tocava baixo, guitarra e cantava), Dom Lino (bateria) e Luís Carlos (sintetizador e computador de ritmos). Gravam o seu único disco para a editora Ama Romanta, uma etiqueta independente que apareceu nos anos 80, da qual era gerente João Peste (dos Pop Dell’ Arte). O disco tem por título "Pipocas" e , no "encarte" do LP ( este disco nunca seria reeditado em CD) Jorge Lima Barreto (companheiro de Rua no projecto Telectu) escreve que o disco foi editado pela Ama Romanta "com independência em relação ao totalitarismo que controla o mercado musical, com as suas inevitáveis extensões nos mass-media". Vítor Rua saiu dos GNR em rota de colisão com a orientação da banda, que ele queria mais experimental e menos Pop. No LP "Independança" os GNR tinham seguido várias orientações de Rua, incluindo um tema que ocupa todo o lado B do disco e se chama "Avarias". Este tema tem a duração de 27 minutos e é, totalmente, experimental. Foi essa faceta que o músico tentou explorar no disco "Pipocas", de tal maneira que um dos temas se chama "Avarias 2". Do alinhamento do disco fazem parte "Pico Fininho", "Oh, So Much Love", "Fadó- Samba", "Pi Pi Pi Pá", "Toillet Zone" , "Portugal Na CEE" (uma nova versão muito mais lenta que a original) e ainda os temas "Instrumental n.º2", "Instrumental n.º3", "Instrumental n.º 4", "Instrumental n.º 5" e "Instrumental n.º 6". Recorde-se que o "Instrumental n.º1" era o lado B do single "Sê Um GNR". Neste trabalho Vítor Rua conseguiu, finalmente, ter liberdade total 112


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para fazer o que queria, sem estar condicionado aos ritmos do mercado discográfico. É por isso que este disco, "Pipocas", ficará nos anais da música moderna portuguesa como um dos seus discos mais experimentais. O estilo de música do disco varia entre o Samba, a Pop, a canção latina, etc, sendo as canções cantadas em português e inglês e até em castelhano, com sotaque português. Após a edição deste disco a banda terminou. Rua continuou com os Telectu e regressaria com os Pós-GNR e o novo LP "Mimi Tão Pequena E Tão Suja", um disco que revela, também, uma grande dose de experimentalismo. As coisas estiveram azedas entre Rua e os GNR com processos em tribunal e registo do nome por parte de Rua, e a tentativa de interdição do uso do nome pelos restantes. Estes incidentes levaram à 2.ª edição do disco "In Vivo" dos GNR. A primeira edição continha temas de Rua que este obrigou a serem retirados do alinhamento do disco. As divergências entre Vítor Rua e os membros dos GNR só foram sanadas com a edição da compilação "Tudo O Que Você Queria Ouvir- O Melhor Dos GNR" , quando Rua fez as pazes com os restantes membros da sua banda original. Chegou, inclusive, a tocar com eles ao vivo no concerto de lançamento do disco.

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QUARTETO 1111 A história do Quarteto 1111 começa no Estoril, em 1967, quando Michel Silveira (cujo número de telefone termina em 1111) se junta a José Cid, António Moniz Pereira e Jorge Moniz Pereira. Estreiam-se com um EP, "A Lenda de El-Rei D. Sebastião", que consegue ser o primeiro disco português a tocar no programa de rádio "Em Órbita", até aí só acessível à música anglosaxónica. Em 1968 concorrem ao Festival RTP da Canção interpretando "Balada para D. Inês", que se classifica em 3.º lugar. Algumas das canções do grupo tinham uma forte carga política, o que lhe valeu bastantes problemas com a censura. Em 1968, Mário Rui Terra substitui Jorge Moniz e gravam o primeiro LP , simplesmente intitulado "Quarteto 1111". Este álbum foi mandado retirar do mercado, pela censura, por conter temas como "Maria Negra" e "A Lenda de Nambuangongo". Tozé Brito (vindo dos Pop Five Music Incorporated; outro dos nomes grandes do Pop/Rock nacional) entra para a banda substituindo Mário Rui. Começam a cantar em inglês e tentam a internacionalização com temas como "Back to The Country" e "Ode to The Beatles" Em Agosto de 1971, o grupo actua no Festival de Vilar de Mouros, com um José Cid de barba e chapéu. José Cid (que era o teclista do grupo) fica encantado com os sons que ouve no "moog" de Manfred Mann (também presente em Vilar de Mouros) e não descansa enquanto não arranja um. Em 1973, José Cid toca "moog" no disco “A Bruma Azul do Desejado", gravado com Frei Hermano da Câmara e o Quarteto 1111. Este foi o último disco que Cid gravou com o Quarteto, antes de abandonar. Mas, em 1974, o grupo já estava de novo reunido para gravar 114


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"Onde, Quando, Como, Porquê, Cantamos Pessoas Vivas". Agora , para além de Cid, eram membros da banda o baterista Vítor Mamede, Mike Sergeant, Tozé Brito e António Moniz Pereira. Este disco será, brevemente, reeditado em CD. A banda dura pouco tempo com esta formação e aparecerá uma formação totalmente nova (sem nenhum dos elementos originais) que usará o nome de Quarteto 1111 e editará discos. O grupo ainda se reagrupará em 1987, para gravar o single "Os Rios Nasceram Nossos", mas não tem continuidade. Em 2007 saiu a biografia da banda, num livro da autoria de António Pires

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QUINTA DO BILL O grupo Quinta do Bill aparece na cena musical portuguesa em 1987, quando Carlos Moisés, Rui Dias e Paulo Bizarro começam a ensaiar na Quinta do Sr. Guilherme (Bill), em Tomar. No ano seguinte fazem alguns concertos e concorrem ao Concurso de Música Moderna do Rock Rendez Vous, onde se classificam em quinto lugar. Esta participação permite-lhes gravar a faixa "ZéZé" na colectânea "Registos" editada pela Dansa do Som (editora do Rock Rendez Vous). Esta faixa , ouvida hoje, não tem nada a ver com a música da Quinta do Bill, tal como é conhecida, agora. Apenas em 1990 se dá a opção pelo Folk Rock, que passará a ser a imagem de marca da música da banda. Nesse ano ganham o concurso "Aqui D'El Rock", promovido pela RTP. Esta vitória permite ao grupo a gravação do seu primeiro longa-duração que se intitulará "Sem Rumo". Rui Dias abandona o grupo, para ingressar numa das inúmeras formações dos UHF e Nuno Flores (violino) e Pedro Miguel (acordeão) vão moldar a música da banda , mais ao estilo Folk Rock. Em 1993 o grupo assina contrato discográfico com a multinacional Polygram e começa a rodar nas rádios o tema "Filhos da Nação", que se tornará o hino oficial da Quinta. O segundo álbum intitulado "Os Filhos da Nação", inclui ; para além do tema-título , outros êxitos como "Menino" (a "Canção da Beira-Baixa", recriada pela Quinta, numa versão retirada da Filarmónica Fraude) e "Senhora Maria do Olival". Este disco conquista o galardão de Disco de Ouro e lança, definitivamente, a Quinta do Bill na senda do sucesso. "No Trilho do Sol", o novo disco da Quinta do Bill , é editado em 1996 e tem misturas da responsabilidade de Juan Ignácio Quadrado, produtor dos Celtas Cortos (uma referência incontornável do Folk Rock da nossa vizinha Espanha). Este disco é dedicado aos índios norte- americanos. Em 1998 sai o álbum "Dias da Cumplicidade". No ano de 1999 é editado um "Best Of", que inclui temas desde o início da carreira do grupo, até à actualidade. Este CD inclui dois temas inéditos. No ano 2001 a Quinta do Bill edita um novo álbum intitulado “Nómadas”, com produção de Mário Barreiros; onde são notórias grandes influências árabes e orientais. No ano 2004 sai um disco gravado ao vivo na Queima das Fitas de 116


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Quinta do Bill, ao vivo, em Soito (Sabugal), em Agosto de 2001


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Coimbra, no ano anterior. Este disco, cujo título é “Ao Vivo Tour 2003” inclui todos os temas mais fortes da banda. Em 2006 foi editado um novo trabalho de originais, em que já não participou Nuno Flores que, entretanto, abandonou a banda, sendo substituído por uma violinista chamada Dalila. Quinta do Bill ao vivo em Soito (Sabugal), em Agosto de 2001 Este novo álbum, intitulado “A Hora das Colmeias”, traz, como novidade, letras das músicas escritas por nomes consagrados da canção portuguesa e não só por João Portela, como até aqui acontecia. Grupo de enorme comunhão com a audiência, é ao vivo que a Quinta do Bill melhor consegue fazer funcionar a sua música.

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RADAR KADAFI Os Radar Kadafi , um dos grupos de estética mais acentuadamente Pop em Portugal, surgiram no ano de 1984 , em Lisboa. A formação original era constituída por Luís Gravato (vozes), Tiago Faden (baixo), Fernando Pereira (guitarra), Luís Sampaio (teclados), tendo entrado, depois, José Bruno para o saxofone. O nome do grupo foi escolhido para a participação do mesmo na edição desse ano do Concurso de Música Moderna do Rock Rendez Vous. O grupo começou por se chamar, apenas, Radar; mas como o líder líbio Kadafi estava a aparecer muito na televisão; alguém sugeriu que fosse acrescentado ao nome. A banda classificou-se em terceiro lugar no referido Concurso. Essa classificação permite-lhes participar na colectânea editada pelo Rock Rendez Vous, com o tema "La Maquina", cantado em italiano. Uma das características deste grupo, para além da sua veia melancólica e assumidamente Pop, eram as suas " performances" ao vivo. A componente cénica (que chegou a compreender a presença de um bailarino) era muito importante para a banda e, simultaneamente, distinguia este projecto de outros da mesma área. Em 1987 assinam um contrato discográfico com a editora multinacional Polygram e gravam o disco "Prima Donna". Ao mesmo tempo, assinam um contrato de agenciamento com a empresa Malucos da Pátria . A edição original do único longa duração do grupo, em vinil, contém um lado A inteiramente composto por canções cantadas em português e um lado B com temas em espanhol, italiano e francês. Produzido por Ricardo Camacho, o LP contém os temas "40 Graus À Sombra" e "Sei que Não Sou Sincero", para além de "Maria" e "Romance da Sereia e do Cupido". As canções que não são cantadas na língua de Camões têm títulos como "Le Rasoir Qui Tue", "Brigite Bardot", "Balade de Torero e Danzarina" ou "La Calle". No "encarte" do disco pode ler-se que "Este álbum é aconselhados a todos aqueles que estão tocados pela fremência da paixão, sendo próprio para acompanhar os momentos inebriantes na presença do ente amado". 119


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O disco foi, em 1998, reeditado em formato CD, para que todos possam comprovar se o que está escrito é verdadeiro ou não. A banda não conseguiu sobreviver muito tempo porque o sucesso estava a mexer com as personalidades dos músicos. No final do ano de 1987 o grupo dá o seu último concerto e encerra-se o capítulo da música melancólica e das letras apaixonadas. Dos músicos dos Radar Kadafi, apenas Luís Sampaio continuou no meio musical , sendo hoje o teclista dos Delfins.

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RÁDIO MACAU O grupo Crânio formou-se em Sintra, em 1977. Era constituído por Uriel (voz e guitarra), Alexandre (baixo), e Flak (bateria). A banda chegou a ter direito a referência na revista “Música & Som”, com fotografia e tudo. Alexandre (ou Alex) recruta uma nova cantora, Alexandra Barbosa (Xana) e um novo baterista. Mudam de nome para Local 13 e, finalmente, para Rádio Macau. Muitos bateristas passam pela banda (entre os quais José Salgueiro, futuro Trovante) e o que acaba por conseguir ficar como membro é Emanuel Ramalho (ex-Faíscas e ex-Corpo Diplomático). O grupo consegue um contrato discográfico com a Emi Valentim de Carvalho e, em 1984, lança o seu primeiro LP, “Rádio Macau”, no qual estão os temas “Bom Dia Lisboa”, “Um Dia A Mais” e uma surpreendente versão do tema de José Afonso (com letra de Fernando Pessoa) “No Comboio Descendente”. “Spleen”, o segundo álbum da banda é lançado no ano seguinte e consegue convencer os críticos musicais que o elegem como uma das obras mais importantes do Pop/Rock português. Ramalho abandona a formação e é substituído por Alberto Garcia. Em 1987 lançam “O Elevador Da Glória”, um disco mais Rock, abandonando as sonoridades mais Pop. Com este disco, a banda consegue finalmente, algum sucesso junto do público “mainstream”, sobretudo devido ao tema “O Anzol”. O grupo sai para a estrada e roda o novo material em muitos concertos. Um deles aconteceu na cidade da Guarda, em 2 de Agosto de 1988. Podemos dizer que gostámos muito dos Rádio Macau, ao vivo. Curiosamente, quem fez a primeira parte foram os GNR. Ficou provado que, nesta época, era ao vivo que os Rádio Macau tinham o seu maior trunfo. “O Rapaz do Trapézio Voador” é o álbum que se segue. Editado em 1989, é o disco que contém aquele que será, porventura, o maior sucesso da banda: “Amanhã É Sempre Longe Demais”. Uma versão deste tema seria realizada pelos Resistência e, embora muita gente não associasse este tema aos Rádio Macau, por só conhecerem a versão dos Resistência, a verdade é que o tema é deles. 121


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Em Agosto de 1990 tivemos oportunidade de ver, novamente, a banda ao vivo e podemos referir que não teve nada a ver com o concerto a que assistimos na outra vez. Não gostámos, francamente, do espectáculo dos Rádio Macau em Rapoula do Côa (Sabugal), onde estivemos. Os elementos da banda começam a dispersar-se por variados projectos e abandonam a formação. Antes, porém, sairá um disco ao vivo intitulado “Disco Pirata”, numa edição de autor, embora sob a etiqueta de Alcobia Records. Esse disco, na sua versão CD (com mais temas que o formato de vinil, incluindo duas canções de José Afonso) foi, em 2005, reeditado numa edição conjunta com o semanário Blitz. Em 2002 a banda regressa com um disco novo, “A Marca Amarela”, que traz sonoridades novas, entre as quais alguns temas próximos de “World Music”. Talvez as vivências individuais dos membros da banda, aquando da sua hibernação, tenham conduzido a esse resultado. Apesar do álbum só ter um “hit”, conseguiu o galardão de disco de prata, o que mostrou que o público não tinha esquecido a banda. Uma nova paragem da banda leva os seus elementos a formarem ou integrarem-se em outros projectos: Xana editará dois álbuns a solo: “As Meninas Boas Vão Para O Céu, As Más Para Toda A Parte” e “Manual Da Sobrevivência” e outros elementos da banda estão com os Cães de Crómio, Palma's Gang ou A Máquina Do Almoço Dá Pancadas. Após uma ausência de 8 anos, a banda volta em 2000 com o álbum “Onde O Tempo Faz A Curva”, em que explora novas sonoridades, mais electrónicas, abandonando a estética Rock. Em 2001 é editada uma colectânea dos Rádio Macau, em CD duplo, com o título “A Vida Num Só Dia”, a qual inclui, para além dos temas mais conhecidos algumas versões regravadas de temas como “Amanhã É Sempre Longe Demais” ou “Entre a Espada e a Parede”. Já em 2003 há um novo lançamento da banda: trata-se do álbum “Acordar”, bastante elogiado pela crítica, mas não capaz de fazer regressar os Rádio Macau ao primeiro plano das bandas nacionais. 122


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ROQUIVÁRIOS Os Roquivários formaram-se em 1981, aproveitando a boleia do emergente Rock português, sobretudo após o grande sucesso que foi o LP “Ar de Rock”, de Rui Veloso. Quando começaram chamavam-se Rock & Várius e o seu nome reflectia aquilo que a banda pensava fazer: uma música que passava por variados estilos , desde o Pop ao Reggae e ao Ska e não só pelo Rock puro e duro. A banda era formada por Midus (voz e baixo), Mário Gramaço (saxofone e voz), Rabanal (bateria), Luís Loução (guitarra) e Paulo Corval (guitarra). Gramaço era um saxofonista que vinha do Jazz e tinha tocado com grandes nomes desse estilo , em Portugal. Rabanal tinha sido baterista de um grupo muito famoso, uns anos antes, chamado Aranha, que era liderado por Luís Firmino, um guitarrista que gravaria, posteriormente; dois álbuns ao comando dos Ananga-Ranga. No ano da sua fundação conseguem contrato discográfico com a Rádio Triunfo e editam o LP “Pronto a Curtir” que é um disco onde os vários estilos da banda se encontram presentes. O Reggae surge com “Kaya Ou Não Kaya”, o Rock com “Betty Punk”, “Ela Controla” e “Rock E Polivinil” e o Pop em vários outros temas. Este disco, no entanto, não trouxe nada de novo ao panorama Rock nacional. Tratava-se de uma música muito comercial e com pouca inovação (além disso o disco foi gravado em muito pouco tempo, com pouco cuidado na produção). A crítica arrasou-o. O público achou alguma piada e a banda manteve-se à tona com bastantes concertos. Em 1982 lançam o single “Totobola” cujo refrão rezava “ Dizem que o treze é o número do azar, mas este jogo dá dinheiro até fartar”. Este tema, num estilo 123


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Reggae/Ska já é melhor produzido e consegue agradar a muito público. A banda muda de editora (para a EMI) e lança o disco “ Roquivários” que contém êxitos como “Mês de Abril” e “Cristina (Beleza É Fundamental)”. Este disco já não conta com a participação de Paulo Corval que abandonou a banda. A produção do disco é entregue a Moz Carrapa, membro dos Salada de Frutas. Por esta época a banda toca num Baile de Finalistas realizado na Escola Comercial e Industrial da Guarda. Apesar de todo o sucesso comercial , a banda não conseguiu impor-se, num meio onde as bandas Rock nascidas com o “boom” começaram a ser seleccionadas. De todas as que havia (e chegaram a ser para cima de uma centena) só ficariam os GNR, UHF e Xutos & Pontapés . Pouco tempo depois , os Roquivários davam por terminadas as suas actividades. Midus partiria para a Inglaterra , onde tentou continuar a carreira com uma banda feminina, mas sem grande sucesso. No entanto, hoje, Midus toca com grandes nomes da cena Rock internacional. Gramaço continuaria ligado profissionalmente à música, até hoje. Jorge Loução formou os Graffiti que chegaram a editar um álbum homónimo em 1988, mas pouco tempo depois deram por finda a sua actividade musical.

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ROXIGÉNIO Os Roxigénio iniciam as suas actividades em 1980, tendo ao comando António Garcez (vindo dos portuenses Arte & Ofício). Com 33 anos, Garcez era uma figura do Rock português que não passava despercebida, devido às suas "performances" em palco e a algumas declarações polémicas que produzia em palco ou em entrevistas a órgãos de comunicação social. Após ter passado pelos Pentágono e Psico, para além dos Arte & Ofício, Garcez recruta o guitarrista Filipe Mendes (que vinha dos Psico e tinha passado pelos Heavy Band e os Chinchilas), o brasileiro Betto Palumbo, na bateria e o baixista José Aguiar para dar forma a um projecto musical muito próximo do Heavy Metal, sem influências da New Wave. No final de 1980 sai o seu primeiro LP "Roxigénio", com uma bela capa, mas cujo conteúdo musical deixava algo a desejar. Cantando em inglês, o grupo tem muitas limitações a nível da pronúncia do idioma, apesar de Garcez ter cantado em inglês nos Arte & Ofício. O disco consegue algum socesso no programa radiofónico "Rock em Stock" e o grupo alcança alguns dos seus objectivos. Apesar disso, o seu sonho de internacionalização esfumase com este disco pobre musicalmente e sem hipóteses de passar além de Portugal. Em 1981, os Roxigénio lançam o single "Song at Middle Voice", que atinge o primeiro lugar no top do "Rock em Stock". No lado 2 deste single encontra-se o tema "My Vocation". Neste disco o som Heavy é mais notório e Garcez melhora o seu sotaque inglês. O ex-Mini Pop Abílio Queiroz entra para a bateria e Garcez dá uma entrevista ao "Se7e" onde declara que os Roxigénio estão 20 anos à frente de Rui Veloso. Em 1982 a banda lança o seu segundo disco de longa duração "Roxigénio 2" que inclui o "hit" "Stiff Nicked Obstinated". Muito solicitados para espectáculos, os Roxigénio visitam o Sabugal para darem um concerto no dia 13 de Novembro de 1982, onde todas as capacidades do grupo 125


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puderam ser vistas e ouvidas. O concerto não desiludiu quem esteve atento. Garcez continuava a ser um verdadeiro "animal de palco" e Filipe Mendes um guitarrista multifacetado. Em 1983 sai o terceiro disco, "Rock'n'Roll Men", que nada acrescenta de relevante em relação ao que se conhecia. Da actual formação fazem parte dois ex-Go Graal Blues Band (Hipo Birdie e Fernando Delaere), para além de Frederic, nas guitarras, fazendo acompanhamento a Filipe Mendes.

Este disco revela-se um fracasso e surgem os Transatlântico, com Garcez e Mendes, cantando em português. Gravaram um single, nesta nova fase, com uma formação que incluía saxofone e apresentaram-se num programa de música da RTP-2. Garcez ainda se juntará aos Stick (banda efémera), onde encontra companheiros dos Arte & Ofício e gravará em português. Filipe Mendes parte para o Brasil e regressará, já nos anos 90, como Phil Mendrix para participar em espectáculos com os Irmãos Catita. 126


Memórias do Rock português

RUI VELOSO Não consideramos Rui Veloso o pai do Rock português, porque antes dele já muitos outros grupos tinham cantado Rock em português. Só que esses grupos nunca conseguiram ter o impacto que Rui Veloso conseguiu com o seu disco de estreia. Veloso nasceu em Lisboa, mas foi viver com três meses para o Porto. Com apenas quinze anos começa a tocar guitarra como autodidacta e em 1976 (com 19 anos) conhece Carlos Tê e forma um grupo de Blues chamado Magara Blues Band. No ano de 1979 grava uma maqueta que a sua mãe se encarrega de levar à editora Valentim de Carvalho. Esta maqueta incluía temas em inglês e em português. Os elementos da editora interessaram-se pelos temas em português e contratam Rui Veloso . Em Setembro desse ano, o músico muda-se para Lisboa e forma a Banda Sonora, com Ramon Galarza e Zé Nabo. Em Julho do ano seguinte é editado o disco "Ar de Rock" com os grandes sucessos "Chico Fininho" e "Rapariguinha do Shopping". Este sucesso levou ao aparecimento de uma grande quantidade de bandas de Rock a cantar em português, a maioria de qualidade mais do que duvidosa (e do qual só conseguiram sobreviver os GNR, os UHF e os Xutos & Pontapés), no que ficou conhecido como o "boom" do Rock português e, daí, o título de pai do Rock português para Veloso. A Banda Sonora é muito solicitada para actuações ao vivo, durante o ano, e parte para Espanha a fim de gravar um novo disco que será editado no ano seguinte. Trata-se do single "Um Café e Um Bagaço". Rui Veloso começa, entretanto, a ter problemas com as cordas vocais, que o levarão a interromper por várias vezes a sua carreira. Uma nova Banda Sonora (com Mano Zé e António Pinho Vargas, este último vindo da formação dos Arte & Ofício e, hoje, reputado pianista de Jazz) grava o novo LP "Fora de Moda", um disco completamente diferente do anterior e que tem alguns temas antológicos como "A Gente Não Lê" e "Sayago Blues". 127


Memórias do Rock português

O terceiro álbum de Veloso (que entretanto deixou de ter banda fixa) chama-se "Guardador de Margens" e tem no hino anti-militarista "Eu não Quero Ir à Máquina Zero" o seu tema mais divulgado. Após novas interrupções é editado, em 1986, o longa-duração "Rui Veloso" que inclui "Porto Covo", "Porto Sentido" e "Cavaleiro Andante", um dos grandes sucessos da sua carreira. As letras de Carlos Tê encaixam muito bem nas músicas de Veloso e, ainda que a uma escala caseira, e salvaguardando as devidas distâncias, estamos perante a dupla Lennon / McCartney. Após "Rui Veloso Ao Vivo" sai o muito aguardado disco conceptual "Mingos e os Samurais" , que retrata a vida de um grupo musical de província durante os anos 60 e 70. O disco atinge a astronómica cifra de 80 000 exemplares vendidos (160 000 por ser duplo), o que equivale à quádrupla platina, um número sem precedentes no mercado nacional. Este duplo sai em 1990. A seguir editará outro disco duplo ("Auto da Pimenta"), uma encomenda da Comissão para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, o qual se revelará um fracasso na opinião da crítica (para quê um disco destes se já havia o "Por Este Rio Acima" de Fausto?) e terá pouco impacto comercial, se comparado com o seu antecessor. Em 1996 sai o CD "Lado Lunar" que é o 13.º Disco de Platina recebido pelo autor e este junta-se ao projecto Rio Grande. Um dos últimos disco de originais do artista, "Avenidas", mostra-nos um Rui Veloso mais calmo e com mais vagar ("Do meu Vagar" é o tema emblemático deste disco). Gravado em Inglaterra, com músicos ingleses e produção de Luís Jardim, este disco contém, como curiosidade, um tema cantado em inglês. Rui Veloso é hoje uma espécie de instituição da Pop Nacional. Já nada tem a ver com o magrinho de bigode que cantava o "Chico Fininho". O seu último álbum saiu em 2005 e intitula-se "A Espuma das Canções". Em 2006 foi publicada a sua biografia, com o título "Os Vês Pelos Bês", livro da autoria de Ana Mesquita.

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MemĂłrias do Rock portuguĂŞs

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Memórias do Rock português

SALADA DE FRUTAS Em Setembro de 1980 Lena D'Água (que vinha dos Beatnicks), Luís Pedro Fonseca (ex-Chinchilas) e Zé da Ponte (ex-Saga) formam o grupo Salada de Frutas. Estes três músicos já tinham estado juntos no projecto Dia D'Água. O seu primeiro disco intitulado " Sem Açúcar" é editado pela empresa discográfica Rossil. Tinha um som muito próximo do praticado por nomes anglo-saxónicos nos anos 60, mas uma prensagem muito deficiente. Neste disco é possível escutar faixas como "Shuy The Shock" (uma crítica à polícia de choque que carregava sobre os espectadores nos concertos de Rock), " Bolonha" (tema que fala do atentado à bomba na estação de BolonhaItália) e "Como Se Eu Fosse Tua" (que se tornaria um sucesso na posterior carreira a solo de Lena D'Água). Como convidados, neste disco , surgem Guilherme Scarpa Inês e Zé Carrapa; os quais dão um acentuado colorido ao som da banda. Estes dois músicos convidados tornam-se membros efectivos da banda, passado pouco tempo. Em 1981 o grupo (já com a nova formação) lança o megassucesso "Robot" (que venderia para cima de 30.000 exemplares e foi das primeiras canções do emergente "boom" do Rock português a ser caricaturada por Tony Silva, "o grande criador de toda a música Ró"). Após uma actuação na Festa do "Avante" em Setembro desse ano Lena D'Água é expulsa do colectivo, alegadamente por não se mostrar capaz de integrar uma formação de música Rock. Luís Pedro Fonseca abandona, também , o grupo e forma (com Lena) a Banda Atlântida. Zé Nabo, vindo da Banda Sonora de Rui Veloso, entra no grupo e reencontra os seus antigos companheiros do Cid, Scarpa, Carrapa & Nabo (excepto, é claro, o próprio Cid). Com esta formação (mais a entrada de Quico para as teclas), o grupo parte para a Holanda para registar, nos estúdios onde os Police tinham gravado "Zeniatta Mondatta"; o disco "Se Cá Nevasse". Neste LP podemos escutar temas como "Se Cá Nevasse", "Nampatess", ou "Histórias (Campanha Orquestrada)". O novo som da banda (muito próximo do Reggae/ Rock produzido pelos Police) teve no dedo de Ton Van Der Bremmer (produtor executivo) um dos seus grandes trunfos. Em 1982 o grupo abrevia o nome para Salada e grava o disco "Crime Perfeito". Neste trabalho os, outrora, temas mais comerciais dão lugar a um som mais experimental, mais elaborado e mais instrumental. 130


Memórias do Rock português

Salada ao vivo no Rock Rendez Vous

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O disco, talvez pelas suas características um pouco vanguardistas, é um quase "flop" comercial. Este disco é hoje considerado um clássico e visto como um dos grandes discos de Rock progressivo português. As novas músicas dos Salada recebem títulos como "Scoubidou", "On Voit La Mer D'ici" ou "Los Bandidos (Chica)", este último um Rock/ mariachi cantado em castelhano com sotaque mexicano e dos únicos temas que teve algum "airplay" nas rádios, a par com a canção-título "Crime Perfeito". A seguir à edição deste trabalho, em 1983, o grupo anuncia a sua dissolução . Os membros da banda dispersam-se por vários projectos: Quico colabora com os Frei Fado D'El Rei e formou a banda Plaza, Carrapa tornou-se membro da Ala dos Namorados (tal como Zé Nabo), Guilherme Inês está ligado à produção (produziu um dos últimos trabalhos dos Quadrilha, nomeado para o Prémio José Afonso e colaborou com Dulce Pontes) e Zé da Ponte continua ligado a variados projectos como produtor. Inês e Zé da Ponte juntaram-se a Formiga e formaram os Zoom, grupo que teve uma existência efémera.

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SÉTIMA LEGIÃO Em 1982, três amigos resolvem formar uma banda. Eram eles: Rodrigo Leão (baixo), Pedro Oliveira (voz e guitarra) e Nuno Cruz (bateria). Começam a ensaiar e decidem chamar-se Sétima Legião (que era o nome da Legião romana que veio à Lusitânia). Nesta altura a música da banda era muito influenciada pelos sons que vinham de Manchester, nomeadamente Echo And The Bunnymen e Joy Division. Concorrem à Grande Noite do Rock, mas não são classificados. Susana Lopes (violoncelo) e Paulo Marinho (gaita de foles) juntam-se ao colectivo, ao mesmo tempo que Francisco Menezes começa a escrever letras para as canções. A banda chega a actuar com todos os elementos envergando gabardinas, como era usual nas bandas de Rock inglês , praticantes do som de Manchester. A Fundação Atlântica (editora discográfica de Pedro Ayres Magalhães, Ricardo Camacho e Miguel Esteves Cardoso) contrata a banda, em 1983, ano em que gravam o single “Glória” com letra de Miguel Esteves Cardoso. Este disco recebe grandes elogios da crítica , mas não obtém grandes favores da rádio e passa quase despercebido. Susana Lopes abandona o projecto, ao mesmo tempo que entram em estúdio para gravar o novo disco: um LP que sairá em Julho de 1984 e se intitulará “ A Um Deus Desconhecido”, considerado ainda hoje um marco da nova música portuguesa. Como a Fundação Atlântica fechou , a EMI , que fazia a distribuição das suas edições, contrata a banda para o seu próprio catálogo. Ricardo Camacho (futuro produtor de muitos discos e médico de profissão) junta-se à banda, ficando encarregado dos instrumentos de teclados, ao mesmo tempo que Rodrigo Leão começa a ensaiar com Pedro Ayres num novo projecto que ficaria conhecido como Madredeus. O novo disco da banda só sairia em 1987 e intitulava-se “Mar D'Outubro”. Continha os temas “ Sete Mares”, “Reconquista” e “Além- Tejo”. Este disco torna-se um grande sucesso, atingido o galardão de Disco de Prata e sendo o grande trampolim para a ribalta. À custa deste disco, a banda 133


Memórias do Rock português

conseguiu fazer muitos concertos. Entre eles, um no Castelo do Sabugal. O colectivo já contava com novos elementos quando o disco foi gravado: Gabriel Gomes (acordeão) e Paulo Abelho (percussões). Em Novembro de 1989 é editado um novo LP da banda “De Um Tempo Ausente” que conta com vários convidados, entre os quais Flak, Francis (ex-Xutos & Pontapés), Luís Represas, Pedro Ayres e Teresa Salgueiro. Contendo os temas “ Por Quem Não Esqueci” e “Porto Santo”, este disco é, outra vez, um sucesso de vendas e de crítica. Apenas em 1992, a banda regressa às edições com o novo disco “O Fogo” que já não é muito bem recebido pela crítica e não obtém o desejado sucesso comercial. Em 1993 actuam no MegaConcerto “Portugal Ao Vivo” no Estádio de Alvalade, onde gravam a quase totalidade do disco ao vivo “Auto de Fé” que será editado em 1994, contando com a participação especial dos Gaiteiros de Lisboa (de que Paulo Marinho era , também, um dos fundadores). Rodrigo Leão afasta-se da banda, por não poder continuar nos Madredeus e nos Sétima Legião . Em Julho de 1996, o baixista Lúcio Vi e i r a e n t r a p a r a a b a n d a , substituindo Rodrigo Leão, nos espectáculos ao vivo. Em 1998 , após se pensar que a banda tinha terminado, é editado o CD “Sexto Sentido” , um disco muito diferente dos anteriores, onde a electrónica é dominante e os “samplers” de temas recolhidos por Michel Giacometti e Ernesto Veiga de Oliveira têm um destaque até aí nunca lhes dado por uma banda Pop em Portugal. Este disco, apesar das boas críticas (foi, inclusivamente, considerado um dos melhores desse ano pela secção do jornal “Nova Guarda”), revela-se um verdadeiro “flop” comercial. Em 2001 é editado “O Melhor da Sétima Legião”, um disco que faz a retrospectiva da banda e contém ainda dois temas inéditos. Julga-se que a banda poderá regressar aos discos, mas o facto de Ricardo Camacho se ter dedicado a 100% à medicina e Rodrigo Leão manter o seu projecto a solo, poderão ser entraves a que isso aconteça proximamente. 134


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SHADOWS PORTUGUESES Nos anos 60, em Inglaterra, o fenómeno Rock teve um grupo com grande sucesso com temas como " Guitar Tango", "FBI" ou "Kon Tiki". Esse grupo tinha a formação base de um grupo Rock: duas guitarras, baixo e bateria e tornou-se famoso pelos temas instrumentais. Os Shadows conseguiram ter bastante sucesso a nível internacional e fazer sombra aos Beatles e Rolling Stones, na terra de Sua Majestade, Isabel. Em Portugal começaram a aparecer grupos que tentavam imitar o que vinha das Ilhas Britânicas (os Sheiks que imitavam os Beatles ou os Beatnicks que imitavam os Rolling Stones). Os Shadows tiveram, também, seguidores em Portugal. Para além dos Telestars, Os Espaciais, Os Morgans ou FBI (que retiraram o nome de um tema dos Shadows), cuja existência foi efémera, surgiram os Titãs. Este grupo forma-se em 1963, com Fernando Costa Pereira, João Lourival, Simões Carneiro e João Braga. A sua formação era idêntica à dos Shadows e os temas tinham, também, semelhanças com o grupo inglês. Os Titãs já tinham qualidade acima da média, para o meio português , da época. Gravam o seu primeiro EP com temas populares como "Canção da Beira Baixa" e "Vira da Nazaré", para além de "Menino D'Oiro" de José Afonso; todos instrumentais e tocados à moda dos Shadows. Gravam ainda outro EP que inclui "Tema Para Titãs". Quem ouvir, hoje, estes temas recorda-se logo do grupo inglês. O grupo sofre uma evolução, em 1967, com a entrada de instrumentos de sopro e vocalista. Um dos membros que entra para o grupo é José Lello (actual deputado do PS). José Lello toca saxofone e canta. O grupo começa a cantar temas em inglês, tais como "One Way Love", ao mesmo tempo que continua com os instrumentais. Um dos instrumentais é "Mira-me Maria", uma canção tradicional de Trás-os-Montes, adaptada pelo grupo, no seu estilo característico. Os Shadows Portugueses, apesar de tudo, durarão pouco mais tempo, já que a separação acontece ainda antes do início da década de 70. Com o fim dos Titãs, termina a imitação dos Shadows em Portugal. O próprio grupo inglês, durante os anos 70, começa a ter menos sucesso, reaparecendo com interpretação de temas de filmes, mas já sem a aura de novidade que tiveram nos anos 60.

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SHEIKS Os Sheiks foram um caso raro de sucesso, nos anos 60, em Portugal. Estiveram mesmo à beira da internacionalização. Nascidos em 1963, os Sheiks eram constituídos por Paulo de Carvalho, na bateria; Carlos Mendes, no baixo; Fernando Chaby, na guitarra solo e Jorge Barreto, na guitarra ritmo. Como gostavam do ritmo shake mudam o nome do grupo (Windsors) para Sheiks e gravam o seu primeiro disco, em 1964, o qual incluía uma versão de "Summertime" de Gershwin. Nesse mesmo ano, em Setembro, Jorge Barreto abandona e é substituído por Edmundo Silva. Em 65 o grupo lança em disco "Missing You" e "Tell Me Bird", duas das suas canções mais emblemáticas. Este disco acaba, mesmo, por ser lançado em Inglaterra, Brasil e França. Neste último país, o grupo faz uma série de espectáculos e é convidado pelo representante dos Rolling Stones, em França, para continuar e se lançar numa carreira internacional. No entanto faltava a autorização de um dos pais de um membro do grupo e foi aí que residiu a sua não internacionalização. Apesar disso o grupo grava um EP intitulado "Sheiks Em Paris", com canções feitas num estúdio de gravação francês. A banda regressa a Portugal e Carlos Mendes abandona, para seguir os seus estudos de arquitectura. Fernando Tordo foi escolhido como substituto de Mendes e gravam o seu último disco, que inclui "That's All". Os Sheiks separam-se definitivamente, já que cada músico seguiu a sua carreira a solo. Devido a uma onda revivalista, em 1979 o grupo regressa e grava "Pintados de Fresco", uma colectânea dos seus maiores êxitos, com novas roupagens musicais. Em 1980, depois de um convite para um programa de televisão, o grupo grava um disco de originais, totalmente cantado em português, com o 136


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título "Sheiks Com Cobertura", que inclui preciosidades como "Rockinho Mandado", uma canção que é uma tentativa de aproximação entre a música tradicional portuguesa e o Rock. Em 2007 a editora Som Livre reedita, em CD, toda a obra gravada pelos Sheiks na Valentim de Carvalho, num CD intitulado “Missing You Integral 1965 -1967”. No final de 2007, os Sheiks regressaram para espectáculos no Teatro São Luiz, em Lisboa.

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SITIADOS Os Sitiados retiraram o seu nome de um tema dos Mão Morta. Em 1987, José Resende(guitarra), João Aguardela (voz), Mário Miranda (baixo) e Fernando Fonseca(bateria) formam a banda. Concorrem ao 5.º Concurso de Música Moderna do Rock Rendez Vous e classificam-se em segundo lugar. Com este prémio conseguem lugar na compilação “Registos”, editada pela Dansa do Som. O tema que gravam é “A Noite” (mais conhecido pelo refrão “Aqui Ao Luar Ao Pé de Ti…”). Muita gente, aliás, não identifica este tema como sendo dos Sitiados, não só pela sonoridade, mas também porque a versão mais conhecida é a dos Resistência. Manuel Machado, um acordeonista, entra para a banda. É substituído passado pouco tempo por Sandra Baptista. João Marques entra para substituir o baixista Mário Miranda e Jorge Buco é o novo elemento, encarregado do bandolim. Em 1992, após assinarem contrato com a editora BMG lançam o disco “Sitiados” que contém o grande sucesso “Vida de Marinheiro”. A partir deste disco os Sitiados tornam-se uma das bandas com mais actuações ao vivo, em Portugal. Ani Fonseca (guitarra acústica) e Jorge Quadros (bateria) entram para a banda, este último substituindo Fernando Fonseca. Como membros convidados aparecem, nos espectáculos e em estúdio, Jorge Ribeiro (trombone), João Cabrita (saxofone) e João Marques(trompete). Este trio de sopros tinha pertencido a um grupo de baile chamado San Diego, que tivemos oportunidade de ver ao vivo e podemos considerar dos melhores na arte de pôr as pessoas a dançar. Em Setembro de 1993 é editado o novo álbum “E Agora?” com o tema “Vamos ao Circo” a ser a principal música, pelo menos a mais popular. O disco de homenagem a António Variações “As Canções de António” tem a participação dos Sitiados, no tema “ O Corpo É Que Paga”. Mais tarde participam, também, no disco de homenagem a José Afonso “Filhos da Madrugada” com a sua versão de “A Formiga No Carreiro”. 138


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“O Triunfo dos Electrodomésticos” é o CD que segue na história dos Sitiados. Editado em 1995 conta com uma versão de “Lá Isso É” de Sérgio Godinho, para além de temas bastantes fortes da autoria dos membros da banda. Para nós é mesmo o disco mais potente da carreira dos Sitiados, embora outros críticos não o vejam como um trabalho fundamental da banda. Em 1996, a banda volta a editar um disco com o mesmo título do primeiro (“Sitiados”). Numa edição em cartão, trata-se de um disco bastante diferente daquilo a os Sitiados nos habituaram, já que há recurso a muitos instrumentos electrónicos. Neste disco há uma versão de “A Menina Yé Yé”, um tema do Conjunto António Mafra. A influência que o velho grupo portuense teve nos Sitiados ,João Aguardela sempre fez questão de a frisar, chegando a afirmar que o Conjunto António Mafra era a maior banda de Portugal. Em 1997 Aguardela decide entrar num projecto novo em que ele era o mentor principal. Tratava-se do projecto Megafone que pretendeu fazer a ponte entre alguma electrónica e a música tradicional portuguesa, nomeadamente as recolhas de Michel Giacometti ou José Alberto Sardinha. Os Megafone editaram, pelo menos, dois álbuns onde a linguagem de mistura das músicas electrónicas e populares é muito bem explorada. “Para Ti Maria” é a participação dos Sitiados no disco de homenagem aos Xutos & Pontapés (“XX Anos, XX Bandas”), em 1999. Samuel Palitos, ex-Censurados, entra para a banda em substituição de Jorge Quadros, que vai para os Delfins. Em 2001 sai “Mata-me Depois”, um disco que não traz quase nada de novo, em relação à produção anterior da banda. Como o disco, até devido à sua fraca divulgação, não teve o sucesso esperado, os Sitiados decidem terminar as suas actividades. João Aguardela fundou depois os Linha da Frente e, mais recentemente, A Naifa, que já editou dois álbuns. 139


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TANTRA O grupo Tantra iniciou as suas actividades em 1976, quando Manuel Cardoso e Armando Gama se juntam e formam um duo. Manuel Cardoso (guitarrista) tinha tocado, esporadicamente, com Ramiro Martins, na época, dos Beatnicks; onde a vocalista era Lena D'Água. Armando Gama, que é o mesmo que hoje faz duo com Valentina Torres, tocava teclas. O nome Tantra foi escolhido por Manuel Cardoso, que andava a praticar yoga . A este núcleo inicial juntam-se o baixista Américo Luís, o baterista Rui Rosas e o percussionista Firmino. Com esta formação gravam o single "Alquimia da Luz", que permite que o grupo se afirme como um dos primeiros grupos portugueses a seguir a corrente progressiva praticada pelos Yes ou os Genesis. A banda estreia-se ao vivo juntamente com os Beatnicks e, após a saída de Rosas e Firmino, entra um novo baterista , Tozé Almeida, famoso por tocar, quase sempre, em contratempo; com uma bateria que era um "monstro". Com esta nova formação o grupo grava, em 1977, o seu primeiro LP "Mistérios e Maravilhas", hoje considerado, mesmo a nível internacional, um "clássico" do Rock progressivo. Ao contrário do que acontecia na Inglaterra, onde o progressivo estava em declínio, os Tantra arrastavam multidões em Portugal. Tanto assim que conseguiram encher o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, um feito inédito, para um grupo de Rock lusitano. Tony Moura (vindo dos Psico) entra na formação do grupo, para reforçar as vozes e o grupo começa a ensaiar os primeiros passos dum espectáculo com muito de teatral. Manuel Cardoso começa a usar a máscara de um velho no tema "À Beira do Fim", nos espectáculos ao vivo. Armando Gama abandona e, para o seu lugar, entra Pedro Mestre que, logo depois; seria substituído por Pedro Luís. Em 1978 os Tantra editam "Holocausto", um disco mais amadurecido, em que as vozes já começam a sobressair. Nova Tournée nacional e o sucesso continuou, só que o rumo musical mudou. Manuel Cardoso aproveitou os novos ventos que sopravam de Inglaterra e começou a enveredar pelo estilo New Wave. 140


CYAN

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AMARELO

PRETO

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Tantra ao vivo, na “tour” de “Humanoid Flesh” 141 CYAN

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AMARELO

PRETO


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Em 30 de Maio de 1980, integrado num tour nacional, com publicidade nas rádios nacionais, o grupo visita a cidade da Guarda, para promover o seu novo disco de originais. Esse espectáculo, no qual o teatro era uma presença constante, mostrava bem que os rumos musicais dos Tantra já estavam muito longe do progressivo, embora os velhos êxitos não fossem esquecidos. A língua portuguesa, usada até aqui nas canções do grupo ,cedia lugar à língua de Shakespeare , numa tentativa frustrada de internacionalização. O novo disco intitulado "Humanoid Flesh" revelou-se um fracasso. Neste disco já não participa Américo Luís que é substituído no baixo por Dedos Tubarão (Pedro Ayres Magalhães). Atacados pela crítica e desprezados pelo público, os Tantra terminam a sua carreira em 1981, sem honra nem glória. Tozé integra-se nos Heróis do Mar e Manuel Cardoso (que, entretanto, se metamorfoseou em Frodo) ainda grava dois discos a solo, sem grande sucesso. Em 2003 os Tantra regressam com nova formação, comandados por Manuel Cardoso e editam o álbum “Terra”. Em 2005 sai um novo CD intitulado “Dellirium”, no qual participa Pedro Luís.

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2003- O REGRESSO DOS TANTRA Os Tantra, uma das mais importantes bandas de Rock progressivo dos anos 70 em Portugal, regressaram ao convívio dos amantes da música, no início de 2003. De uma penada foram logo editados dois CD's da banda, um ao vivo e um novo ,de material original. O primeiro é um registo da sua estreia ao vivo, em 1977. Intitulado "Live Ritual" , este disco foi gravado directamente da mesa de mistura de 16 canais para um gravador Revox de 2 canais. A banda era formada por Manuel Cardoso (voz e guitarra), Armando Gama (piano e teclas), António José de Almeida (bateria) e Américo Luís (baixo), ou seja a mesma formação que gravaria o aclamado "Mistérios e Maravilhas". No "encarte" do CD não está escrito o local onde o disco foi gravado, mas presume-se que seria em Lisboa. Constituído por 5 temas, 3 dos quais completamente inéditos na discografia da banda ("Ritual", "Vida" e "Sonhar"), esta gravação mostrava já uns Tantra totalmente profissionais e com um som revelador de uma nova abordagem do Rock progressivo. Sobretudo ao nível de uma secção rítmica avassaladora com Tozé Almeida a dominar completamente o seu enorme "Drum Kit". As vozes, que foram sempre o grande "handicap" da banda, também neste disco não deixam de ter alguma carga negativa. Exceptuando isso, trata-se de um registo que, para além de histórico, mostra uns Tantra altamente entrosados (os músicos ensaiavam 12 horas por dia) e com capacidades para evoluírem, o que fariam em trabalhos posteriores como "Holocausto". Os temas conhecidos, registados neste disco são "Máquina da Felicidade" (do LP "Mistérios...") e "OM" (do LP "Holocausto"). O segundo CD editado é "Terra", um novo disco de originais, constituído por 10 temas e a recriação de "À Beira do Fim" do álbum "Mistérios...". Manuel Cardoso tentou reformar os Tantra com os músicos dos anos 70, mas nenhum se mostrou interessado num regresso. Resolveu então recrutar novos membros. Entre aqueles que deram forma à nova formação destaca-se Zé da Cadela, um baterista mítico no Rock português, que já toca 143


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com bandas desde os anos 60. Mesmo assim , por indisponibilidade do músico, não foi possível ser ele a gravar o novo disco. A formação que gravou "Terra" é constituída por Manuel Cardoso na voz e guitarra; Bruno Silva na guitarra; Guilherme da Luz nos sintetizadores; Pedro Condinho no baixo; Bebé na bateria e Luís Ramos nas teclas. Trata-se de um regresso aos bons tempos do Rock progressivo, embora se note que a secção rítmica já não se revela tão arrasadora e as guitarras estão mais planantes e com solos mais demorados, facto que não acontecia na formação dos anos 70. O tema "À Beira do Fim" já nem parece o mesmo, nesta nova versão. Com as novas técnicas de gravação, a voz de Manuel Cardoso tornouse, no entanto, mais perceptível. Os temas novos são "Kali", "Estrada Sensível", "Solidão"; "Terra", "Regresso à Maquina da Felicidade", "Manhã Submersa", "Escorpião", "Vertigem", "Teatro Burlesco" e "Zephirus II". Saúda-se este regresso da banda e só se espera que comecem a tocar ao vivo, para que muito "teenager" possa comprovar como era alguma da melhor música dos anos 70 , em Portugal. Só é pena que todo o "encarte" do CD esteja escrito em inglês (as próprias letras das músicas cantadas em português estão escritas apenas na língua de Shakespeare). No entanto, o mesmo "encarte" inclui muitas pinturas e fotografias que nos transportam para aquilo que os Tantra faziam nos anos 70. Resta dizer que os novos discos da banda se encontram à venda no site www.tantra.web.pt e não são editados por nenhuma editora, sendo ambos edições de autor.

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TÁRTAROS Oriundos do Porto, os Tártaros , foram um dos conjuntos portugueses que (juntamente com os Titãs e o Conjunto Mistério) adaptaram alguma música popular portuguesa ao estilo "yé yé". Formados nos anos 60, participaram em vários concursos "yé yé" organizados no antigo Cinema Monumental, em Lisboa (verdadeiro acontecimento para a juventude da época, que via estes concursos não só como uma contestação ao regime vigente, mas como afirmação de uma contracultura em oposição à cultura dominante, que na música era representada pelo nacional-cançonetismo, pelo fado e pelos Ranchos Folclóricos uniformes, com os acordeões a dominarem- pelo menos aqui havia guitarras eléctricas e cabelos um pouco compridos). Para António Duarte, os Tártaros estariam incluídos na categoria de "yé yé" populista. Em 1964 editam o seu mais famoso disco, um EP, totalmente instrumental que inclui "Serei Feliz Com O Teu Amor", "Oh Rosa Arredonda A Saia", "Tartária" (que era uma espécie de hino oficial da banda) e "Valsa da Meia Noite". António Duarte considera o tema "Tartária" como um dos temas que ficará na história do Rock português por ser o Twist mais "speedado" e louco, servindo a muita gente para bater o pé até à exaustão. Os Tártaros ainda gravam mais três EP's que contêm os temas "Magic Moment", "Não Quero Ir À Tua Festa", "Since I've Lost My Mind (For You)", "Não Quero Nada", "Pistoleiro", "Beijos Teus", "Engano", "Sonho Dum Poeta", etc. Em 1997, a editora portuense Edisco lança um CD com variados temas da banda , cujo título é "Valsa Da Meia Noite". Numa época em que o Rock português se reduzia a uma meia dúzia de grupos que existiam no Porto e em Lisboa, quando as condições técnicas deixavam muito a desejar e o Rock (ou "yé yé") não era muito bem visto por uma certa camada de público mais idoso, os Tártaros deram cartas e foram dos poucos que conseguiram alguma notoriedade. 145


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TAXI Em 1977, no Porto, surge o grupo Pesquisa, formado por Henrique Ferreira (guitarra), Rodrigo Freitas (bateria), Rui Taborda (baixo), João Carvalho (voz) e Luís Ruvina (teclas). Gravam o single "Dude's Serenade", prensado na Bélgica, e fazem espectáculos ao vivo, onde utilizam fumos carbónicos e outros artifícios. O seu estilo musical anda próximo dos Yes ou dos Genesis. Dão entrevistas a vários órgãos de comunicação social, entre as quais uma à revista "Rock em Potugal". Luís Ruvina, herdeiro da Casa Ruvina (uma das maiores casas de instrumentos musicais do país ) abandona a formação. Os elementos da formação original, com excepção de Ruvina, ressurgem em 1979; sob o nome de Taxi e gravam o disco "Taxi" em 1981. Fazem a primeira parte dos britânicos Clash, em Cascais e o seu disco de estreia torna-se um grande êxito com temas como "Chiclete", "Vida de Cão" e "Rosete" a serem conhecidos pelo grande público. Estávamos em pleno "boom" do Rock português e o grupo tem a agenda de concertos completamente preenchida. A sua mistura de Reggae e Ska, influenciados pelos The Police e os Specials, resulta como uma novidade total em grupos portugueses. O disco de estreia vende mais que o de Rui Veloso, um feito difícil de igualar. O segundo disco da banda intitulado "Cairo" é um clássico do Rock português, não tanto pela qualidade musical, mas pela capa de formato original, com o disco dentro de uma caixa cilíndrica de lata. O Jornal "Público" considerará este disco como um dos melhores de sempre da música portuguesa. Estão, neste disco, temas como "Páginas Amarelas", "Cairo" e "1, 2 Esquerdo Direito". No dia 7 de Agosto de 1982 o grupo dá um espectáculo para apresentação do disco no Castelo do Sabugal, com a primeira parte a cargo de Aníbal Miranda. Deu para perceber que o grupo, com a sua música comercial de apelo imediato não teria grande futuro. O terceiro disco, "Salutz", editado em 1983, confirma a quase decadência do grupo que, apesar disso, actua em Espanha, França e Luxemburgo. Deste disco, mais dançante e mais calmo, surge o relativo êxito "Sing Sing Club". 146


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Em 1987 surge o álbum "The Night", totalmente cantado em inglês, que não lhe garante a almejada internacionalização (sonho de todos os grupos portugueses e que quase sempre se esfuma por este ou aquele problema). Os Taxi terminam porque a sua música não tinha futuro e a repetição de velhos "clichés" tornava os músicos prisioneiros. Em 1999 foi editado o conteúdo de quase toda a sua obra num CD com o título "O Céu Pode Esperar - O Melhor dos Taxi". Ocasionalmente o grupo reuniu-se, nos anos 90, para fazer alguns espectáculos com os velhos temas. Henrique Ferreira, o guitarrista do grupo, foi um dos responsáveis pelas sequências animadas da série de televisão "Major Alvega". Já em 2006, os Taxi regressaram para o espectáculo ao vivo, comemorativo dos 25 anos do programa “Febre de Sábado de Manhã”, que teve lugar no Pavilhão Atlântico, em Lisboa e tocaram no Festival de Vilar de Mouros.

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TRABALHADORES DO COMÉRCIO Em 1979 , Sérgio Castro e Álvaro Azevedo (membros dos Arte & Ofício) dão corpo a um projecto paralelo a que chamam Trabalhadores do Comércio. A característica principal do grupo era o facto de cantar em português, com sotaque à moda do Porto, enquanto os Arte & Ofício construíram toda a sua carreira cantando em inglês. Também havia a questão das letras das músicas, que tinham um certo humor. O seu disco de estreia , editado em 1980, foi o "single" "Lima 5", cujo refrão rezava : "Eu só paro lá no Lima 5 , Sou um meu de grabatinha e brinco". A voz do grupo era a do sobrinho de Sérgio Castro, João Luís Médicis, então com 7 anos. O grupo faz algumas primeiras partes dos Arte & Ofício e edita um novo " single" : "A Cançõm Quiu Abô Minsinoue" (traduzindo: A Canção Que o Avô Me Ensinou). O primeiro álbum " Trip's à Moda Do Porto" foi gravado em Londres, e contém o tema mais conhecido da banda: "Chamem A Polícia". Outros temas, onde o humor tem lugar marcado são "Atão Munsiê Coman Talê Vous" ou "Puanque Roque", para além de "Birinha" e "Quem Dera". O álbum é dedicado à memória de António Mafra, um "gajo do Porto" e trabalhador do comércio, segundo se pode ler no "encarte" do LP. O grupo toca muito num bar do Porto chamado Chico's e tenta a edição de um EP " Alaibe At Chico's Bar" que nunca verá a luz do dia. Em 83, os Arte & Ofício terminam e ficam só os Trabalhadores do Comércio, ao mesmo tempo que é editado o segundo LP, " Na Braza", que não conseguiu penetrar no grande público e o grupo suspende as suas actividades. Temas deste disco são "Haxixa na Braza" e "Taquetinho Ou Lebas No Fuchinho". Em 1986 , os Trabalhadores concorrem ao Festival RTP da Canção com o tema "Tigres De Bengala", que se classificaria em segundo lugar. Esta classificação faz reacender a vontade de voltar a gravar um novo disco. Sérgio Castro, que entretanto se mudara para Vigo ( Galiza) , onde se dedica à produção de grupos no seu próprio estúdio Planta Sónica , reagrupa a banda e grava "Mais Um Membro Para A Europa" que inclui o tema "Molharei La Farture Dans Ta Tasse Chaude", como se fosse uma canção de Adamo. Depois de uma paragem de 4 anos o grupo volta a ressurgir em 1990, com João Luís Médicis já contando 17 anos e tocando baixo , e grava o disco "Sermões A Todo O Rebanho" que inclui os temas "Aim Beck USA", "Omo 148


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Sexual", "O Boto Útil (com essa nos bais fadando)", "Quem Toca Assim Num É Manco" (um solo de bateria de Azevedo) e uma versão de "Sex and Drugs and Rock'n' Roll" do falecido Ian Dury, justamente intitulada "Fado, Sexo e Vacalhau". Novamente o humor a ser a imagem de marca dos Trabalhadores do Comércio, que veriam editado, em 1985 um CD Duplo intitulado "O Milhor Dos Trabalhadores Do Comércio", que inclui um "Bónus Traque" de uma gravação renovada de "Chamem A Pulíssia". Em 2007 foi lançado um novo álbum dos TC, intitulado “Iblussom”. Esporadicamente o grupo tem-se reunido para fazer espectáculos, sobretudo na sua cidade natal. PS: Algumas palavras deste texto não estão e português- padrão, porque estão escritas com "sotaque" do "Puerto", tal como a banda fazia nas suas canções.

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UHF Tendo como primeiro nome À Flor da Pele, os UHF formaram-se em 1978, em Almada. Embora tenham começado antes, são hoje um dos sobreviventes do “boom” do Rock português, já que foi a partir daí que o seu sucesso junto do público foi granjeado. Américo Manuel (bateria), Renato Gomes (guitarra), Carlos Peres (baixo) e António Manuel Ribeiro (voz e guitarra) foram os fundadores. O seu primeiro concerto foi no dia 20 de Novembro de 1978, juntamente com os Minas & Armadilhas, Aqui D'El Rock e Faíscas. Em 1979 gravam o seu primeiro disco, um EP, com os temas “A Caçada”, “Jorge Morreu” e “Aquela Maria”. Este disco teve duas edições, uma com uma capa a cores e outra com uma capa, diferente, a preto e branco. Américo Manuel abandona a banda e é substituído por Zé Carvalho. António Manuel Ribeiro torna-se um dos mais carismáticos elementos daquilo que ficaria conhecido como o Rock português. Antigo jornalista, Ribeiro é o autor da quase totalidade das letras e das músicas da banda. No ano da edição do seu disco de estreia são convidados para fazerem as primeiras partes dos concertos dos Dr. Feelgood, em Lisboa e no Porto. Fazem, também, a primeira parte dos concertos de Elvis Costello And The Attactions, em Portugal. Em 1980 tocam, juntamente com os Skids, 999, Original Mirrors e The Tourists no Festival Rock da Praça de Touros de Cascais. Começam a tornar-se muito mais conhecidos e fazem as primeiras partes dos concertos dos Ramones em terras lusitanas. A força da banda, aliada às líricas de Ribeiro, leva à assinatura de um contrato com a editora Valentim de Carvalho e à edição do single “Cavalos de 150


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UHF ao vivo, em 1992, em Soito (Sabugal) 151 CYAN

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Corrida”, com o lado B a ser ocupado com o tema “Palavras”. Os concertos começam a ser muitos. Juntamente com os Iodo, Opinião Pública, NZZN e Xutos formam a agência de espectáculos GRR (Grupos Rock Reunidos). Como os UHF eram a banda que tinha mais concertos agendados, os restantes grupos faziam as primeiras partes. Foi o que aconteceu com os Xutos que chegaram a fazer as primeiras partes de UHF, o que deve deixar, hoje, muita gente admirada. Num desses concertos vimos os Xutos a fazer a primeira parte dos UHF. Após a explosão do disco “Ar de Rock” de Rui Veloso, os UHF tornam-se, ainda, mais famosos e editam o LP “À Flor da Pele”, cujos primeiros dez mil exemplares traziam, como oferta, um single com dois inéditos. O LP era uma verdadeira “bomba” e depressa atinge o galardão de disco de ouro. Entretanto, os concertos aumentam num ritmo alucinante. Em 1982, os UHF lançam um mini-LP, “Estou de Passagem” e depressa entram na lenda do Rock português. O LP “Persona Non Grata” é editado no final de 1982, após uma mudança para a editora Rádio Triunfo, num contrato discográfico dos mais remunerados de sempre, em grupos de Rock. Este disco continha o grande sucesso “Um Mau Rapaz”. Em 1983 Carlos Peres abandona e entra para o seu lugar Zé Matos. Antes disso, porém, ainda foi editado o mini-LP “Ares e Bares de Fronteira”. Os UHF estavam a soar cada vez melhor. “Devo Eu” e “Eu Sei Recomeçar” são dois dos temas deste disco que provam a força dos UHF. 1984 é marcado pela edição do single “Puseste o Diabo em Mim”. Os UHF começam, a partir desse ano, a entrar numa sucessão de substituições de músicos, após a saída de Zé Carvalho. Para se ter uma ideia, pelas várias formações dos UHF passaram músicos como Alfredo (ex-Aqui D'El Rock), Francis (ex-Xutos & Pontapés), Paleka, Zé da Cadela, Xanna Sinn, Luís Espírito Santo, Hippo Birdie (ex-Go Graal Blues Band e ex-Roxigénio), Fernando Delarea (ex-Go Graal Blues Band e ex-Roxigénio), Marco Cesário (ex-Braindead), Toninho (ex-Ibéria), etc. 152


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UHF ao vivo, em 2004, em Aldeia Velha (Sabugal) 153 CYAN

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Em 1985 sai o disco “Ao Vivo Em Almada (No Jogo da Noite)”, gravado no Centro Cultural do Alfeite, uma das maiores raridades da banda, já que nunca foi reeditado. Novo contrato, desta feita com a Edisom, leva à edição de “Noites Negras de Azul”, que sai em 1988 e é considerado um dos melhores discos da banda. No mesmo ano sai, ainda, o mini-LP “Em Lugares Incertos” , no qual já participa Renato Júnior, em teclas e saxofone. Em 1989 sai o máxi-single “Hesitar” e, em 1990, outro máxi com os temas “Amélia Recruta”, “Este Filme”, “No Portugal dos Pequeninos” e “Rock de Cá”. No final de 1990 é editado um novo LP, o duplo “Julho, 13”. Nova mudança de editora (agora a BMG) e novo LP intitulado “Comédia Humana”, no ano de 1991. É deste LP o tema” Brincar no Fogo”. “Santa Loucura” sairá no ano de 1993. Com este disco dá-se o regresso dos UHF ao convívio com o grande público, já que é nele que está a versão de “Menina Estás à Janela”. Mas, também lá se encontra “Sarajevo”, um tema com uma grande intensidade política e logo em duas versões: uma eléctrica e outra acústica. Em 1994 os UHF são convidados a participar no disco e no concerto de homenagem a José Afonso. Escolhem o tema “A Morte Saiu à Rua”. Em 1996 é editada a colectânea “Cheio- O Melhor dos UHF”, com seis gravações inéditas, algumas das quais vêm da sua fase inicial. No final desse ano é lançado novo disco de originais, “69 Stereo”, um disco que era a prova provada de que os UHF há muito tinham ultrapassado a fase de sobreviventes do “boom” do Rock português. A partir deste disco, os UHF passam a ser uma instituição. Em 1998 o grupo encontrava-se à beira de um milhar de concertos, um feito de que poucas bandas se podem orgulhar. Nesse ano é editado novo CD “Rock É- Dançando Na Noite”, numa nova editora, a AMRA Records, propriedade da própria banda. Nova compilação é editada em 1999, através do CD duplo “Eternamente”. A maior curiosidade é mesmo a inclusão de uma versão muito Rock do tema “Angie” dos Rolling Stones. Ultrapassados os mil concertos, a banda continua a apresentar, nos seus espectáculos ao vivo, os temas de sempre e temas de discos editados recentemente. Os UHF têm um repertório tão grande que se podem dar ao luxo de, num concerto que esteja a correr bem, poderem chegar às 2 horas e tal de 154


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espectáculo. “La Pop End Rock”, um duplo CD, em forma de Ópera-Rock é o disco que sai em 2003. Nele se encontra um tema que presta homenagem ao falecido Joey Ramone. Esse tema é “Joey Ramone (Tributo)” e fala do concerto que os UHF deram na primeira parte dos Ramones, em Cascais. Todo o disco é, no entanto, uma espécie de autobiografia dos UHF na estrada, contando as vivências de uma banda de Rock em Portugal. À venda, apenas, nas concentrações motards e no seu site há, ainda, um CD que contém seis temas e se intitula “Harley Jack”. Desde “La Pop End Rock” a formação dos UHF tem estabilizado e é composta por António Manuel Ribeiro (voz e guitarras), António Corte-Real (guitarra-filho de AMR), Fernando Rodrigues (baixo) e Ivan Cristiano (bateria). Uma verdadeira máquina de fazer Rock é o que apraz referir sobre esta nova encarnação dos UHF, sempre sob a batuta de António Manuel Ribeiro. No início de 2005 sai o novo álbum da banda. Um disco que é uma espécie de regresso às origens, com temas muito rápidos. O nome do disco é “Há Rock No Cais” e contém o grande sucesso “Matas-me Com o Teu Olhar”. Em 2007 foram lançados dois CD’s com raridades da banda de Almada.

A capa do, talvez, mais raro vinil português: edição pirata com apenas 15 cópias 155


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XUTOS & PONTAPÉS Os Xutos & Pontapés tiveram o seu início em 1978. A sua estreia ao vivo aconteceu nos Alunos de Apolo, em Lisboa, na Festa comemorativa dos 25 Anos do Rock'n'Roll. Nesta Festa deu-se a despedida dos Faíscas, banda de que Zé Pedro foi o “manager”. Nessa noite foi apresentada a nova banda sob o nome de Xutos & Pontapés Rock'n’Roll Band, pouco depois abreviado só para Xutos & Pontapés. A primeira formação da banda incluía Zé Pedro (guitarra), Tim (baixo), Zé Leonel (voz) e Kalu (bateria). Os primeiros concertos da banda eram em conjunto com os UHF, Minas & Armadilhas e Aqui D'El Rock, nalguns locais de Lisboa, para além de alguns concertos esporádicos que os elementos da banda conseguiam arranjar e em que tocavam sozinhos. Entretanto, Zé Leonel (que mais tarde formaria os Ex-Votos) abandona a banda e Francis entra para segundo guitarrista, ficando Tim encarregado do baixo e vozes. Durante dois anos andam por esse circuito , até que , em 1981, quando já tinha começado o “boom” do Rock português conseguem um contrato discográfico com a editora Rotação e lançam o seu primeiro disco: um single com os temas “Sémen” e “Quero Mais”. Estes temas denotam já uma grande maturidade da banda e tornam-se hinos. O tema “Sémen” é proibido de passar em algumas rádios, devido a uma letra que algumas mentes mais conservadoras consideram inapropriada. No mesmo ano ainda é editado outro single, seguindo a mesma linha estética, com os temas “Papá Deixa Lá” e “Toca e Foge”. A banda consegue rodar os 156 temas em alguns concertos, principalmente fazendo as primeiras partes dos UHF. Como os UHF eram de todas a banda mais conhecida e a que mais concertos dava, 06464

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convidavam as restantes bandas para lhes fazerem a primeira parte. Foi assim, que no dia 2 de Maio de 1981 assistimos a um concerto com UHF e Xutos & Pontapés, em Soito (Sabugal) numa altura em que pouquíssima gente conhecia ou sabia sequer da existência dos Xutos. Claro que , nessa noite, as estrelas principais eram os UHF. Em 1982, os Xutos lançam o seu primeiro LP intitulado “1978/1982”, já que continha temas que foram compostos desde a formação da banda. Esse trabalho, que contém temas antológicos como “Avé Maria”, “Medo”, Mãe” ou “Leo” é um disco muito duro para a época. Talvez um dos trabalhos mais duros dos Xutos, com os solos de guitarra de Francis e Zé Pedro a tocar muito bem guitarra ritmo. Não foi com este trabalho que os Xutos conseguiram a fama, mas granjeou-lhes um número maior de adeptos, transformando-os numa banda de culto. As portas das casas discográficas começaram a fechar-se na ressaca do “boom” do Rock português, a Rotação vai à falência e os Xutos ficam sem editora. Francis abandona a banda e esta lança-se como trio em vários concertos, dos quais o mais famoso é um em Tróia, no Festival “Dêem Uma Oportunidade À Paz”. A banda consegue , através do culto gerado à sua volta, lotar a sala do Rock Rendez Vous, de cada vez que lá se apresenta. João Cabeleira, vindo dos Vodka Laranja, entra para guitarrista da banda, passando esta, novamente, a ser um quarteto. Um dos concertos do Rock Rendez Vous é gravado, e numa colectânea ao vivo, são editados dois temas do grupo: “1.º de Agosto” e “Esquadrão da Morte”. Neste disco participam outras bandas como os Ocaso Épico, os Crise Total, os Casino Twist, os FAS, etc. Este disco é editado pela própria casa discográfica da sala lisboeta, a Dansa do Som. A luta dos Xutos não parou: em 1984 lançam na editora Fundação Atlântica o single “Longa Se Torna A Espera”. Como as editoras grandes já não estavam interessadas no Rock português foi esta editora independente que os apoiou. Carlos Guilherme (Gui), ex-elemento dos Casino Twist, entra para a banda , encarregando-se do saxofone. Em 1985 , novamente na Dansa do Som, lançam um LP intitulado “Cerco”, hoje um disco de culto, dos melhores que os Xutos produziram. Nele podemos encontrar temas como “Sexo”, “Barcos Gregos” ou “Cerco”. A fama dos Xutos e do seu grupo de fãs iam crescendo e, em 1987, 157


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assinam com a multinacional Polygram para a edição daquele disco que os tornaria conhecidos em todo o país : “Circo de Feras”. Trata-se de um LP , com um som mais amadurecido, mas também um pouco mais comercial. “Contentores”, “N'América” ou “Sai P'ra Rua” são temas que até já passam nas discotecas e deixam de ter qualquer conotação negativa, como tinham antes, devido ao nome da banda. Ainda nesse ano seria lançado o “7.º Single” (também editado em cassete com 2 temas extras gravados ao vivo, em Ovar), que continha “A Minha Casinha”. Aí , foi o delírio. Os Xutos alcançam um estatuto que nunca nenhuma banda Rock tinha alcançado em Portugal. A partir deste disco, os Xutos entram numa espiral louca de concertos por todo o país. No seguimento do grande sucesso de “Circo de Feras” é lançado, em 1988, outro LP intitulado “Álbum 88”, com temas como “Torres de Cinciberlândia” ou “À Minha Maneira”. Em 1989, a grande Tournée levada a cabo culmina com dois concertos no Pavilhão de Os Belenenses, onde é gravado um triplo álbum ao vivo (a reedição em CD contém menos temas que a edição em vinil). Após um estafante percurso com concertos e solicitações para tudo, a banda resolve seguir para o Brasil para gravar o novo LP que intitulou “Gritos Mudos”. Este é um disco que teve pouca divulgação e ficou como um dos mais esquecidos da carreira da banda. Após este disco os Xutos , praticamente, terminaram. Gui abandonou mesmo a formação e juntou-se aos Despe & Siga que, então, despontavam. Zé Pedro formou os Cavacos e Kalu juntou-se à banda Palma's Gang. Tim pertence aos Resistência e os Xutos hibernaram. Em 1992, no entanto, regressaram em força, com um dos melhores discos de sempre: “Dizer Não De Vez”. Neste disco encontramos temas como “Dia de S. Receber” ou “Estupidez” que é uma música baseada no Rap. Um disco muito mais duro e mais interventivo socialmente do que aquilo a que os Xutos nos tinham habituado, ultimamente. Ao vivo, a banda está melhor que nunca. Conseguimos comprovar isso mesmo num concerto dos Xutos no Parque Municipal da Guarda, em Maio de 1993. Os Xutos recuperaram muitos dos seus fãs de longa data, tornam-se, outra vez, um grupo de culto, mas alargando o seu público. Em 1993 lançam “Direito Ao Deserto”, um novo álbum, que não contém nenhum “hit” potencial, mas é a afirmação da coesão e do espírito de resistência. 158


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Em 1995, para terminarem o seu contrato com a Polygram é lançado o disco “Ao Vivo Na Antena 3”, em formato acústico. Os concertos da Tournée de 96 são divididos em duas partes: uma eléctrica e uma acústica, seguindo a linha do disco gravado para a Antena 3. Em 1997 assinam contrato com a Emi- Valentim de Carvalho e editam “Dados Viciados”, um disco produzido por Ronnie Champagne. Lá estão temas como “Manhã Submersa”, “Dados Viciados” ou “Cowboy Cantor”. No ano seguinte compõem , a convite de Joaquim Leitão, a banda sonora do filme “Tentação”. O disco com a banda sonora contém versões com a utilização de técnicas de “samples” ou da estética “techno” em temas como “Enquanto A Noite Cai”, mais tarde usadas nos espectáculos ao vivo e alargadas a canções como “Contentores”. No ano 2000 é editado o disco “1.º de Agosto no Rock Rendez Vous”, que se julgava perdido, já que as bobines originais nunca mais apereciam. Gravado em 1986, este é um dos discos que melhor retratam a banda ao vivo, numa das suas fases mais criativas. Em 2001 sai “XIII”, o décimo terceiro LP da banda. “Fim do Mês”, “Conchita Morales” ou “Inferno” são temas deste álbum que nada de novo veio acrescentar. “Sei Onde Tu Estás” é o disco que sai em 2002. Trata-se de um registo ao vivo, gravado na Festa do “Avante”, em Coimbra (na recepção ao caloiro) e no LX MusicFest. Gui regressou à banda como elemento integrante da mesma. Este disco, ao vivo, mostra-nos uns Xutos & Pontapés coesos, mas não traz nada de novo. 2003 vê surgir uma nova edição dos Xutos: um CD intitulado “Nesta Cidade”, também gravado ao vivo, no Teatro Villaret, em Lisboa, num formato acústico e contando com as participações especiais de Camané em voz e de Pedro Gonçalves em contrabaixo. Uma das novidades deste álbum é uma versão de “Sopram Ventos Adversos” de José Mário Branco, recriada pela banda, com a voz de Camané (que também canta em “Circo de Feras”). Em 2004 os Xutos voltam à carga com um novo álbum intitulado “O Mundo Ao Contrário”. Quanto a nós, uma das piores fases criativas da banda, de que o tema “Ai Se Ele Cai” é o melhor exemplo daquilo que os Xutos nunca deveriam fazer. Nesse mesmo ano, no dia 10 de Junho, são condecorados pelo Presidente da República Jorge Sampaio e tornam-se “senhores comendadores”. 160


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No final de 2004 é lançada uma caixa, a fingir uma “flight case”, daquelas que se usam para transportar o material de som das bandas, com todos os 25 singles remasterizados , em formato digital. Em 2005 sai um DVD (com 2 CD áudio) do concerto do Pavilhão Atlântico, referente aos 25 anos de carreira. Gravado em finais de 2004, nele se encontram todos os temas antológicos da banda. Há, ainda, a participação especial de João Paulo Entrezede ( “roadie” e membro dos Tributo Aos Xutos) que toca bateria nalguns dos temas, enquanto Kalu passa a vocalista. Em Novembro de 2005, a grande novidade são três concertos em Lisboa, relativos ao final da Tournée desse ano, com três alinhamentos diferentes (um para cada dia). Em 2006 foram editados o triplo DVD “Ai a P... da Minha Vida” e o single “Sexta-Feira 13”. No final de 2007 os Xutos comemoraram os vinte anos da edição do LP “Circo de Feras”, com concertos no Campo Pequeno, em Lisboa.

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REVISTA "ROCK EM PORTUGAL" A revista "Rock em Portugal" (REP) foi a única revista que se dedicou ao fenómeno do Rock português, antes do "boom" acontecido nos anos 80 do século XX. Começou a sua edição em Janeiro de 1978, ao preço de 15$00 e com uma tiragem de 10.000 exemplares (na foto pode ver-se a reprodução da capa do número 8). O seu director era António José, antigo músico do grupo FBI e , na época, proprietário de uma agência de espectáculos de bandas Rock. O chefe de redacção era o jornalista António Duarte que seria o autor do livro "A Arte Eléctrica de Ser Português - 25 Anos de Rock'n'Portugal". A revista apresentava um formato A5, com um papel de fraca qualidade. Algumas das secções da revista eram: "Feedback", onde se contavam pequenas histórias de bandas portuguesas ou "Notícias do Pequeno Mundo", que, como o nome indica, se dedicava a explicar aos leitores as novidades relacionadas com as bandas. Além destas secções habituais havia, ainda, entrevistas com as bandas mais "up- to-date". As entrevistas incidiam em nomes como Os Plutónicos, Arte & Ofício, Tantra, Os Faíscas, Aqui D'El Rock, Ananga-Ranga, Hosanna, Perspectiva, José Cid, Pesquisa, António Victorino de Almeida, etc. "Frescas & Boas" era outras das secções da revista que informava os leitores sobre as últimas notícias relacionadas com o fenómeno do Rock português. A secção "Ao Vivo" dava conta dos concertos das bandas um pouco por todo o país. É curioso que, nesta época, as grandes bandas portuguesas tocavam em variadas localidades, sobretudo em Festas e Bailes de Finalistas de Liceus. A revista contou com vários colaboradores ao longo da sua existência, 162


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tais como António Sérgio, Hermínio Clemente, João Filipe Barbosa, Miguel C. Monteiro (de quem era publicada uma banda desenhada sobre um "Rocker" intitulada "Quico") e Picâpe Roque (o homem da secção "Discocrítica"). Para além da participação destes havia, também, a colaboração de diversos leitores da revista que enviavam as suas crónicas sobre concertos a que tinham assistido. Devido à falta de apoios de qualquer espécie (apenas alguma publicidade a discos ou a instrumentos musicais a mantinha de pé) a revista não foi saindo com a periodicidade mensal inicialmente prevista e começou a atrasar a sua publicação (por vezes o número que saía referia-se a um período de três meses). No entanto a tiragem inicial de 10.000 exemplares manteve-se até ao seu final. "Os Mais 77" e "Os Mais 78" eram uma espécie de "prémio" atribuído pela REP aos discos mais representativos da corrente Rock portuguesa. Grupos como os Arte & Ofício, Tantra , Perspectiva , Psico e Beatnicks foram contemplados com o "prémio". Na secção "Os Poetas Rock" eram publicados poemas de bandas portuguesas e até alguns poemas enviados por leitores que mantivessem uma linha coerente com o fenómeno Rock. Havia, até, uma secção chamada "Um Pouco de História..." onde eram publicadas biografias de bandas já extintas, mas que tinham sido fundamentais para a divulgação do Rock em Portugal. "Pizzicato" era a secção dedicada ao correio dos leitores que merecia resposta por parte dos responsáveis da revista. Na parte final da sua existência a revista começou a ter uma secção intitulada "Pé Na Tábua" que se dedicava ao automobilismo. Segundo foi explicado pelos responsáveis da revista havia muitos leitores que se interessavam por este assunto. O responsável por esta secção extra-musical era Paulo da Cruz Sabino. A REP chegou a organizar Festivais com a participação de diversas bandas, um pouco à semelhança do que fez a revista "Música & Som". Nos últimos números a REP começou a ter menos páginas e menos secções e devido à crise que a assolou terminou a sua publicação em Maio de 1979, no número 11. Passado um ano surgiria em Portugal o "boom" do Rock português através de nomes como Rui Veloso, UHF e GNR. A revista REP foi uma antecipação a esse fenómeno. Quando muitos portugueses descobriram que se fazia Rock em Portugal, devido à "mediatização" do fenómeno, já a REP tinha feito muito pela divulgação do mesmo. 163


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NO SABUGAL: CONCERTO COM OS HOSANNA

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Realizou-se no dia 2 de Dezembro de 1978, no Sabugal, um Baile de Finalistas em que esteve presente uma das bandas mais representativas do Rock português, Hosanna, de Lisboa. Esse tal Baile acabou por se transformar num concerto Rock, já que não houve nada para ninguém no aspecto de dançar (apesar da teimosia de alguns para que os Hosanna tocassem tangos e valsas, estes recusaram-se, desde o início a tal…). Num palco acanhado, mas onde já actuaram boas bandas como os Kama-Sutra, Ananga-Ranga e uma boa banda de Salamanca (Espanha) chamada Nueva Democracia, os Hosanna não puderam mostrar, totalmente, a sua energia Rock, mas fizeram o que era possível, naquelas condições. A música que eles tocaram, Hard Rock, é uma música bem aceite nesta zona. Impressionou-nos, sobretudo, o teclista Agnelo e o guitarrista Beto, este último pelos solos ponderados que conseguia tirar da sua guitarra. O vocalista João cantou em português temas com forte mentalidade Rock, mas que acabariam por, em grande parte, não se perceberem, devido às fracas condições acústicas do recinto. No aspecto cénico, impressionou o público, sobretudo na composição “Se Eu Fosse Deus Ou Rei”. Quanto ao público, este não reagiu como seria de esperar, às propostas musicais do Hosanna, mas estava na dele. Pavilhão cheio, sobretudo de malta nova e esfomeada de Rock pesado, que o Hosanna forneceu. Resta, por fim, acrescentar, que o Rock se manifestou numa zona de província que, como tantas outras por esse país fora; são pouco privilegiadas em realizações deste tipo.

48 Artigo na revista “Rock em Portugal”, edição n.º 11 de Abril/Maio de 1979

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Público aguardando o início do concerto dos Hosanna, no Sabugal. Os Punks iam a todos... 165


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GODINHO E CLÃ - AS AFINIDADES

De gerações muito diferentes, Sérgio Godinho e o grupo Clã têm muitas afinidades que, juntos, mostram num espectáculo que se estreou na Expo/98 e abriu as Festas da Cidade da Guarda. Sérgio Godinho , com 54 anos, iniciou-se nas lides das cantigas há 30 anos, enquanto que o grupo Clã surgiu na cena musical nacional há 7 anos. Sérgio já editou 19 discos de longa duração e os Clã só ainda têm dois trabalhos no mercado. O que é curioso é que os músicos dos Clã e o cantor de "Rivolitz" conseguem funcionar muito bem em conjunto. O espectáculo que se apresentou no grande palco da Praça Velha estava concebido para ser realizado só em salas com lugares sentados, mas não fica nada mal (antes pelo contrário) num espaço como aquele onde teve lugar, na Guarda. Desta vez, e ao contrário do ano passado, o palco já estava colocado 50 no lugar certo. O público tem uma visão perfeita do palco, esteja onde estiver; já que o espaço tem características de anfiteatro. O som perfeito também se deve destacar. As afinidades entre as diferentes gerações em palco passaram por canções do grupo que Sérgio Godinho cantou e canções de Godinho a que a banda deu uma interpretação muito própria. Desde "Pois É" até "GTI" que Manuela Azevedo e Sérgio cantaram, passando por versões dos Xutos & Pontapés ("Conta-me Histórias"), Bob Dylan ("Lay, Lady Lay"), Rolling Stones ("I'm Free") interpretadas pelo grupo, enquanto Sérgio descansava, até à versão de "L'Anamour" de Serge Gainsbourg, tudo foi a prova provada de que o conflito de gerações não existe entre os bons músicos. Houve ainda tempo para uma versão de "O Homem Fantasma" do disco "Pano Cru" que Godinho nunca cantou ao vivo, excepto neste espectáculo. Um dos momentos altos aconteceu quando Sérgio interpretou a solo (acompanhado pela sua guitarra acústica) o tema " Balada da Rita" (como fez questão de referir, porque estava na Guarda e no refrão está "põe-te em guarda"), e quando Manuela Azevedo interpretou, acompanhada apenas pelo guitarrista do grupo o tema "Espalhem a Notícia" que Sérgio publicou no disco "Canto da Boca". 49 Artigo publicado no Jornal “Nova Guarda” de 11 de Agosto de 1999 50 Referência a um concerto da banda Folk Quadrilha efectuado em 31/07/98, no mesmo espaço, mas com outra localização do palco

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A formação dos Clã, grupo do Porto, que esteve presente no espectáculo foi a seguinte: Manuela Azevedo (voz), Fernando Gonçalves (bateria), Pedro Biscaia (teclas), Miguel Ferreira (teclas), Pedro Rito (baixo) e Hélder Gonçalves (guitarra). Neste espectáculo participou como músico convidado José Salgueiro que tocou percussões e é, nem mais nem menos, que o ex-baterista dos Trovante e dirige actualmente o projecto O Adufe. Uma boa aposta, a da Câmara da Guarda, para abrir as Festas da Cidade...

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ENTREVISTA COM OS CLOCKWORK BOYS E JC SERRA (dos AQUI D'EL ROCK) A: Foi difícil convencer o JC Serra a tocar convosco as versões dos Aqui D'El Rock? Jay Cobra: Antes de mais, um grande obrigado por esta entrevista e por todo o apoio prestado à banda desde o início. Quanto a convencer o Serra a vir tocar connosco, tenho de dizer que fiquei surpreendido por ele ter aceite o convite, foi de todo inesperado e só tenho a dizer que nos temos divertido imenso, e que é com grande honra e prazer que temos um dos membros e mentor dos Aqui D’El Rock a tocar connosco. A: Qual é a sensação de estar a tocar uma versão dos Aqui D'El Rock, com o próprio autor do tema tocando bateria? Zé Abutre: É muito bom poder tocar uma versão de um tema que gosto com o próprio compositor....faz com que a versão seja muito mais "verdadeira"! A: O que é que sentes passados tantos anos depois, verificando que as novas gerações apreciam o trabalho dos Aqui D'El Rock? JC Serra: Sinto-me finalmente entendido e de algum modo recompensado pelo trabalho feito nessa ocasião. Creio que essa apreciação é só agora feita e compreendida porque estes são de novo tempos de “apunkulturar” o sistema, quer ele seja entendido de uma forma global politicamente falando, quer ele seja aquele que diz respeito ao mundo da música, dos instalados, dos que tendem a dominar e a impor os critérios para o consumismo das modas acéfalas. A: Já há contactos com editoras para editar o disco com a participação de JC Serra? O disco será editado em suporte vinil ou CD? Jay Cobra: Nós queremos gravar em vinil à moda antiga, e quanto à editora por quem vai sair o nosso 2.º disco ainda não sabemos, é um caso a ver. Posso adiantar que as primeiras 50 cópias vão ser autografadas pela banda. Temos o disco “Rock nas Cadeias” já gravado e à espera de sair num EP Vinyl Picture, por uma editora de amigos da banda. A: Na tua geração há apreciadores de old school Punk Rock. Podias dizer-nos quais são as tuas bandas preferidas desta corrente? Zé Abutre: Tenho muitas bandas de quem gosto, nessa corrente da primeira geração do Punk Rock como os Dead Boys, Pagans, Gizmos, Crime , Skuddur, Dogs (Ohio), Victims (Austrália), Dogs (Detroit), Rings e Cock Sparrer. 168


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A: Quais serão, em princípio, os temas que sairão neste disco? Jay Cobra: Os temas que temos tocado até agora são: ”Solta a Cobra que Há em Ti”, ”Há Que Violentar o Sistema”, e “Teenage Kicks” dos The Undertones, que devem ser as faixas a sair no próximo disco. Pelo menos as duas primeiras é dado adquirido que vão sair no segundo disco. Também temos tocado algumas músicas antigas com o Serra, tais como “Fernando Chalana era Rock 'n' Roll” e “Rock nas Cadeias”. A: Qual é, verdadeiramente, a sensação de voltar a tocar bateria, para mais tocando versões de temas da tua autoria? JC Serra: A sensação foi mesmo muito boa. Nas duas sessões em que participei, apesar de todo o speed e do cansaço da mais de hora e meia de ensaio, diverti-me imenso, mas isso só foi possível porque os meus camaradas de armas me puseram completamente à vontade. Quero no entanto acrescentar que não deixei de me sentir mexido ao voltar a pegar nas baquetas, mais de 20 anos depois de ter feito a minha última verdadeira performance. A: Conheces a história do punk Rock português. Qual o lugar que atribuis aos Aqui D'El Rock nessa história. E outras bandas dos primórdios, de quais gostarias de fazer versões? Jay Cobra: Aqui D'El Rock foram os impulsionadores do Punk em Portugal nos anos 70, tinham qualidade acima da média e uma grande atitude . Eu vejo os Aqui D'El Rock como a melhor banda Punk portuguesa de todos os tempos. Depois de Aqui D’El Rock acho que os Parkinsons fizeram também algo de muito bom. Quanto a tocar mais versões de bandas antigas, gostava de fazer uma dos belgas The Kids, com uma letra minha em português - “This is Rock 'n' Roll”, uma dos UHF, talvez “A Caçada” ou “Cavalos de Corrida”, uma dos Damned - “New Rose” e talvez também “Not Anymore” dos Dead Boys. A: Sabias que os Faíscas, a vossa banda concorrente nos idos de 78, vão aparecer este ano, pela primeira vez em disco, num DVD de recordação dos Heróis do Mar? JC Serra: Não sabia mas registo; mas já agora… quem são os Faíscas?! Se isso é uma provocação respondo de imediato aqui e agora, em 1ª e com ambas as mãos que vou responder a essa e todas as outras eventuais provocações com um projecto de cantigas D'al-zheimer (D'al-zheimer songs) onde a apunkultura dos Aqui D’El Rock'n'Clock irá de novo trazer os temas “Há Que Violentar o Sistema” e “Eu Não Sei”, para além de outros igualmente contundentes, que irão ajudar a abandalhar esta porra. Haja uma editora à altura do acontecimento e esperem p'la punkada onde as faíscas serão apenas 169


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meros enfeites das bombas que rebentarão. A: Se pudesses, quem convidarias para tocar contigo em novas sessões de gravação (músicos portugueses)? Jay Cobra: Convidava todos os Aqui D'El Rock eheheh e o Adolfo Luxúria Canibal dos Mão Morta, para cantar comigo uma música que tenho idealizado e em construção chamada "A Barbie Morreu". Internacionalmente chamava o Jeff Clayton dos Antiseen também para um dueto. Do mundo dos mortos trazia o Stiv Bators para bebermos uns copos juntos e a Wendy Williams para lhe fazer um filho. Hahahahahahahah!!!

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OS MELHORES DA MÚSICA PORTUGUESA EM 1999 No último ano do século XX, a música portuguesa (nas suas várias vertentes) não deixou de nos surpreender. Surgiram novos projectos e alguns dos consagrados continuaram a surpreender-nos com a sua imensa criatividade. 1999 não é um ano para esquecer em termos de música portuguesa, mas sim um ano para recordar. Discos editados neste último ano do milénio ainda continuarão a ouvir-se no próximo século, e para muitos será a tardia descoberta de que, em Portugal, se faz música de excelente qualidade. Quanto a nós foram estes os melhores discos editados em 1999, na música portuguesa: "Plasma" de Blasted Mechanism - Um disco soberbo e um projecto sólido, com pernas para andar. O grupo de Karkov e Salvatore Tiliba faz a revisão de toda a música popular do século XX, na sua vertente humana. Para além de cantarem em inglês, os Blasted também utilizam um dialecto próprio, nalguns dos temas. O grupo que fechou as Festas da Cidade da Guarda, em 1998, ao vivo é melhor do que em disco. Fixem este nome. "Sexto Sentido" de Sétima Legião - Totalmente diferente do que fizeram até este disco, os Sétima Legião abalançam-se a rever todas as recolhas de Giacometti e Sardinha, com a utilização samples e predomínio da electrónica. A subversão total do som do grupo e um disco controverso, com acusações dos puristas e contra - acusações dos menos puristas. "Canções Proibidas - Cancioneiro do Niassa" de João Maria Pinto e convidados - As canções que se cantavam às escondidas, na Guerra Colonial. Canções de protesto pela situação a que estavam sujeitos os militares obrigados a ir à Guerra. Com participações de Rui Veloso, Carlos do Carmo, Janita Salomé e Tetvocal, entre outros, este era o disco que faltava para se ter uma compreensão melhor do que se passava na Guerra Colonial. "Quarto Crescente" de Quadrilha - "Se a vida fosse como a gente quer", como o título de uma canção deste disco, a música portuguesa teria menos "kitsch" e mais qualidade. Este é o quarto disco dos Quadrilha e aquele onde se nota uma preocupação de mais originalidade. Os espectáculos ao vivo, que os Quadrilha deram no Distrito da Guarda, em 1999, são mais uma prova da boa forma da banda. Com discos assim, os Quadrilha estão quase a entrar na divisão maior do Folk português. "Novas Vos Trago" de Brigada Victor Jara, Gaiteiros de Lisboa, Amélia Muge e João Afonso - Um disco conceptual, dedicado aos romances 171


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tradicionais. As músicas são da autoria dos artistas e as letras são do cancioneiro. A Brigada convida Lena D'Água para cantar "Parto em Terras Distantes", um dos grandes temas deste disco. Os Gaiteiros continuam a subverter a música tradicional q.b.. Um disco indispensável para se ter uma ideia do que é a música portuguesa, tão longe dos fenómenos mais ou menos mediáticos dos Big Shows. "Antologia da Música Tradicional de Portugal" de Michel Giacometti - Trata-se da reedição em seis CD's dos discos esgotados, com edição original dos anos 60. Para se compreender o que é a música portuguesa de tradição oral é necessário ouvir esta Antologia. Indispensável, portanto. "XX Anos XX Bandas" de Vários - O disco de homenagem a essa verdadeira instituição do Rock português que são os Xutos & Pontapés. Com as participações de Clã, Ornatos Violeta, Sitiados, Ex-Votos, Paulo Gonzo, Rui Veloso, GNR, etc, etc. A recriação do legado dos, ainda activos, Xutos & Pontapés é feita de forma a que o som do grupo homenageado se impregne no som das bandas convidadas. "Crítica Mente" de Pedro Barroso - O regresso do trovador com um disco magnífico. A melhor maneira de provar que a música portuguesa tem autores e poetas de qualidade. O reverso da medalha das cançonetas de faca e alguidar que surgem nos ecrãs de televisão. "Primeiro Canto" de Dulce Pontes - A cantora passa a autora de músicas e de letras. A World Music passa a ocupar um espaço importante no repertório de Pontes. Acabou-se a Dulce Pontes, artista de música ligeira. Nasceu a Dulce Pontes, cantora do mundo. Só se pode saudar vivamente tal mudança. "Ao Vivo no CCB" de Fausto - Reposição integral do espectáculo de Fausto, um cantautor que dá poucos espectáculos. As versões ao vivo de canções que fizeram história na música popular portuguesa. Uma verdadeira antologia do melhor da música portuguesa, dos últimos 25 anos, feita por um compositor que nasceu no Distrito da Guarda.

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OS MELHORES DA MÚSICA PORTUGUESA NO ANO 2000 O ano 2000 foi fértil em boa música portuguesa. Felizmente que , no aspecto musical, Portugal não é um país a preto e branco. A música portuguesa tem várias cores e variados estilos. Quanto a nós foram estes os melhores discos editados no ano 2000, em Portugal: "Por Sendas, Montes e Vales" da Brigada Victor Jara- Mais uma vez a Brigada Victor Jara faz parte da nossa selecção e com toda a razão. O disco em apreço (um CD duplo) é a prova de que a Brigada Victor Jara está cada vez com mais força. Gravado ao vivo, em estúdio (o único senão é mesmo o facto de não ter sido gravado perante uma audiência), este disco é uma espécie de "Best Of" da banda de Coimbra. Nele se encontram quase todos os temas da banda , regravados com novos arranjos e a participação de convidados especiais. Com a Brigada, a música portuguesa está sempre bem servida. "Ao Vivo no Rock Rendez Vous" dos Xutos & Pontapés - Um registo histórico, que já se julgava perdido, finalmente colocado em suporte digital. Uma das melhores fases dos Xutos ,numa sala emblemática para a banda. O público conhece as músicas de cor e salteado e a banda de Zé Pedro e Tim não deixam os seus créditos por mãos alheias. "Dança Chamas -Ao Vivo" dos Gaiteiros de Lisboa - Gravado ao vivo no Centro Cultural de Belém , este disco comprova como os Gaiteiros de Lisboa são uma das verdadeiras "coqueluches" da nova música portuguesa, de inspiração tradicional. Participam no disco, como convidados, José Mário Branco, Vozes da Rádio, Danças Ocultas e o grupo de percussões Tocá Rufar. Novas versões dos temas dos seus álbuns de estúdio e novas músicas fazem parte deste imprescindível CD duplo. Os Gaiteiros estão sempre a fazer a ponte entre a tradição e a modernidade. "Watch It Grow" dos Feed- Um grupo praticamente desconhecido do público português apresenta-se com um disco onde as influências Funky são bem notórias. Destaque , também para a participação de músicos dos Clã e de Raul Marques (dos "salseros" Raul Marques e os Amigos da Salsa, em trompete). Pena que este disco não tenha a divulgação necessária nos grandes meios de comunicação de massas. Um agradecimento à pequena editora Numérica que apostou nesta banda. "Clássicos Açorianos" de Carlos Alberto Moniz- Um disco que recria a música tradicional açoriana, com novas roupagens. Carlos Alberto 173


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canta ( com verdadeiro sotaque açoriano) temas como: "Lira", "Pezinho da Vila", "As Velhas", etc. O acompanhamento musical é feito por um grupo de câmara com violino, viola de arco e violoncelo. É a primeira vez que um projecto de recriação da música tradicional recorre a este tipo de tratamento sonoro. Só por isso e pela evidente qualidade dos arranjos, este disco merece figurar nesta lista. "Lupa" de Sérgio Godinho - O cantautor voltou a rodear-se músicos mais jovens (dos Despe & Siga e dos Clã) para fazer um disco espectacular. Sérgio Godinho gosta de inovar (e os arranjos mostram isso mesmo). Não é com Sérgio Godinho que a música portuguesa não evolui. Destaque para os temas "Estou Com os Azuis" (uma homenagem à dupla Carlos Tê/ Rui Veloso) e "Maçã com Bicho (Acho eu da Praxe)", um verdadeiro libelo acusatório contra os atentados que em nome da "tradição" são aplicados aos caloiros das universidades. Talvez Godinho perca alguns contratos para as Queimas das Fitas, mas ganha a admiração de muitos portugueses que gostam de música e de letras que não sejam ocas. "La Toillette des Étoiles" dos Belle Chase Hotel- O regresso em força da banda de Coimbra, comandada por J. P. Simões. Ainda mais inovador que o disco anterior intitulado "Fossanova". Desta vez o grupo canta , também, em francês e em português (com sotaque brasileiro à Chico Buarque). A música de vaudeville, os tangos, a chanson e a Pop estão neste disco. Uma verdadeira "bomba". "Ar de Rock - Vinte Anos Depois" de Vários Artistas- A homenagem , merecida, ao disco e ao músico que iniciou o "boom" do Rock português. Rui Veloso e Carlos Tê não se poderiam sentir melhor representados do que pelos artistas que participam neste disco /homenagem: Xutos & Pontapés (com uma versão fantástica de "Chico Fininho") , Clã, Ala dos Namorados, Sara Tavares, os brasileiros Barão Vermelho, Mão Morta, Danças Ocultas, Belle Chase Hotel, Da Weasel , etc. Quase a nata da música portuguesa a render homenagem ao "grande criador de toda a música ró" (como diria o Tony Silva).Convém , também, ouvir o disco original para se perceber como nele já estavam lançadas pistas que só foram exploradas muitos anos depois. "Onde O Tempo Faz A Curva" dos Rádio Macau- O regresso da banda de Xana, Flak e Alex às gravações, oito anos depois de "A Marca Amarela". Mais amadurecidos e mais velhos, os Rádio Macau não deixam de explorar novos sons. Quem estava à espera de uns Rádio Macau "rockeiros" (como o foram no disco "O Elevador Da Glória") apanhou uma grande desilusão. Este disco é a continuação de muitas das ideias já expostas no disco 174


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anterior. Embora , quase de certeza, o público "mainstream" (que se colou ao grupo devido a um ou outro sucesso) não adira ao som dos Rádio Macau, estes estão bem e recomendam-se. "Optimus 2000- We've Been Watching You" de Vários ArtistasEste é o disco onde estão representados os novíssimos grupos portugueses de Rock e Pop alternativo. Neste disco há lugar para os projectos de Balla, Pee Wee Montana, Plástica, Pukaroo, Slamo, Rollana Beat, Atomic Bees, etc. Muitos destes grupos têm estado presentes nos palcos alternativos dos grandes Festivais como os do Sudoeste, Vilar de Mouros, Paredes de Coura, etc. Verdadeiras pérolas da nova música moderna portuguesa. "Lustro" dos Clã - Um disco que revela uns Clã cada vez mais na onda Rock e Pop, abandonando certos tipos de experimentalismo que não resultaram bem no seu disco anterior "Kazoo". O tema "Curioso Clã" é de uma rara qualidade musical e poética. Os Clã, banda do Porto que tem uma vocalista com uma voz formidável (Manuela Azevedo), estão ao nível do que de melhor se tem feito nos últimos anos , em Portugal, na sua área musical. Aliás, as parcerias dos Clã com nomes como Sérgio Godinho ou as suas participações em colectâneas de homenagem a Rui Veloso ou aos Xutos só revelam a sua importância no panorama actual.

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OS MELHORES DA MÚSICA PORTUGUESA EM 2001 2001 foi o ano que viu nascer e morrer o fenómeno Zé Cabra . Alguém sabe que , recentemente, o "artista" lançou um novo disco intitulado "Malas À Porta"? Apesar de ter sido um mau ano para a indústria discográfica, em virtude da generalização do MP3 e dos gravadores de CD, o primeiro ano do século XXI trouxe algumas confirmações e novos talentos à música portuguesa. Quanto a nós , foram estes os melhores discos da música portuguesa, editados em 2001: "Jorge Palma" de Jorge Palma- A confirmação do talento enorme do criador de "Deixa-me Rir", aqui num registo mais eléctrico. Produzido por Flak , dos Rádio Macau, este é o disco mais maduro de toda a carreira de Palma. Inclui um tema com letra de Bertoldt Bretch e participações de Kalu, José Salgueiro, Zé Pedro, Flak, Carlos Barreto, Greg Moore, Michel ,etc, etc. Tudo gente de primeira , no disco de consagração de Jorge Palma. "Ao Vivo" de Clã e Sérgio Godinho - As afinidades entre dois estilos de música . Sérgio Godinho e os Clã funcionam em perfeita sintonia . Gravado ao vivo no Teatro Rivoli, no Porto, terra de naturalidade de Godinho e dos Clã. Manuela Azevedo , com a sua voz potente dá novas cores aos temas de Sérgio Godinho. Destaques para "O Homem Fantasma" e " Lá Em Baixo", dois temas de Sérgio e "Pois É", um tema dos Clã a que Sérgio Godinho dá novas roupagens. Este espectáculo foi apresentado nas Festas da Cidade da Guarda , em 1999 e foi motivo de comentários elogiosos em coluna do "Nova Guarda". "Crónicas da Violentíssima Ternura" de Pedro Barroso - O regresso do nosso melhor trovador , em mais um disco arrebatador. Pedro Barroso tem sempre lugar cativo em qualquer retrospectiva anual pela sua garra, determinação e convicção. Com Pedro Barroso não há facilitismos. A sua música e os seus poemas saem das entranhas . Pena é que Pedro Barroso seja conhecido apenas por minorias. "Austin" dos Austin - Uma nova banda do panorama musical português. O facto de cantarem em inglês não é relevante na análise que fazemos. Oriundos de Palmela, com uma formação base de Pop , os Austin poderão continuar a dar cartas na música portuguesa, assim os deixem voar. Destaques para os temas " One Stage" e "Order, Order". "Nómadas" de Quinta do Bill- A banda de Tomar, comandada por Carlos Moisés, atreveu-se a fazer um disco com grandes influências árabes e indianas. A maturidade dos elementos da banda é notória. A faceta Folk Rock 176


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da banda está um pouco esbatida , mas este disco é mesmo bom. Ouçam “Dizme Lá", "Todo o Fogo Que Me Ateias" ou o instrumental "Anoitece No Mouchão" e digam se a Quinta do Bill não merece figurar nesta lista. Ao vivo , então , a Quinta do Bill é um verdadeiro espectáculo. Que o digam as milhares de pessoas presentes no concerto da banda , no dia 14 de Agosto em Soito (Sabugal), que vibraram de princípio a fim . "A Vida Num Só Dia" dos Rádio Macau- O "Best Of" da banda de Xana e Flak. Desde o início (nos anos 80)que os Rádio Macau são uma referência incontornável da música portuguesa. Neste Duplo CD estão as melhores canções da banda e , ainda, algumas remisturas de "O Anzol", "A Vida Num Só Dia" ou "Amanhã É Sempre Longe Demais". Definitivamente, os Rádio Macau fazem parte das bandas que não devem desaparecer. "Some Of Us..." dos Primitive Reason- Agora radicados nos Estados Unidos, onde tocam em clubes , como o saudoso CBGB , os Primtive Reason estão cada vez melhores... Reggae, Ska e muito "speed" fazem parte deste disco. Oportunamente a editora Jah Notion (especializada em Reggae) editou este disco , que nada fica a dever a qualquer disco do género editado por grupos anglo-saxónicos. "Mundo Catita" dos Irmãos Catita - Manuel João Vieira, alma dos Enapá 2000 tem , simultaneamente, este projecto mais "soft". Um disco de puro gozo e grande diversidade de estilos. Aqui cabe a canção ligeira, o Mambo, a Country e tudo mais que se possa imaginar. Os Irmãos Catita vieram para ficar... "Rio Abaixo" de António Garcez- O regresso do ex-vocalista dessa banda mítica que foram os Arte & Ofício. Cantando em português, Garcez demonstra ainda ter "pedalada" para o Rock. Porque é Rock que este disco nos traz. Destaques para "O Café Mudou", "Vinde Ver Isto" e a balada "Como Um Herói". Sérgio Castro (companheiro de Garcez nos Arte & Ofício) participa, também , neste regresso do "herói". "Al Çude" de Ronda dos Quatro Caminhos - Duplo CD, gravado ao vivo no Teatro Garcia de Resende, em Évora, este segundo registo ao vivo da banda é mais intimista, mas mesmo assim suficientemente arrojado para poder figurar entre os melhores do ano. Para além de incluir a quase totalidade dos êxitos do grupo , tem a curiosidade de incluir, como ironia, um tema "Pimba" intitulado "Avó Querida (Parenta Preferida)", a prova de que qualquer um pode fazer um grande sucesso com uma canção que nada tem para dizer. A Ronda, a par da Brigada Victor Jara e dos Vai de Roda são dos que, em Portugal ; mais preservam as tradições genuínas do povo português. "Optimus 2001" de Vários Artistas- Um disco que revela novos 177


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nomes da música portuguesa, tais como Gomo, André Indiana, Toranja, Buena, Terrakota, etc. Alguns dos grupos são verdadeiramente originais, outros nem tanto. Apesar de tudo, este disco comprova a vitalidade dos novos autores de música feita em Portugal. Estas bandas participaram no Festival de Vilar de Mouros no Palco 2, dedicado aos novos valores que estão a surgir , constantemente, em Portugal. "Rituais" de Júlio Pereira- O regresso do homem do cavaquinho, com um projecto mais electrónico e as participações, nas vozes; de Teresa Tapadas, Mariana Abrunheiro, Ana Brandão e Olga Cerpa. Alguns dos temas deste disco são de tradição oral, outros são da autoria de Júlio Pereira. Há, ainda, a versão de "Era Um Redondo Vocábulo" de José Afonso. Depois de "Acústico", um disco em que Júlio tocava instrumentos acústicos, surge este "Rituais", com uma componente mais electrónica, sem que tal signifique qualquer cedência ao artificialismo e à descaracterização da música tradicional. Antes pelo contrário... Vamos esperar para ver o que o ano 2002 nos reservará em termos de música portuguesa.

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OS MELHORES DA MÚSICA PORTUGUESA EM 2002 O ano 2002 foi o ano da crise e da contenção. Apesar de ser , também, o ano em que mais protestos se fizeram ouvir por causa da fraca percentagem que as rádios portuguesas passam de música lusa (o que levou a um Manifesto em Defesa da Música Portuguesa , recentemente publicado nas páginas do “Nova Guarda”), tal não significou que fosse um ano de crise de talentos e de contenção na criatividade. Na nossa opinião foram os seguintes os melhores discos portugueses, publicados no ano corrente: “Cabeças No Ar” dos Cabeças No Ar (Ed. EMI) O regresso dos Rio Grande, após uns anos de ausência, agora sem a presença de Vitorino, o que se justifica porque este disco é de música mais urbana. A banda de Tim, Jorge Palma, Rui Veloso e João Gil, todos pesos-pesados da música portuguesa; conta a história dos estudantes de liceu, suas aventuras e frustrações. Vários estilos de música urbana, desde o Rock ao Gospell, passando pela Pop estão presentes neste disco fundamental. “A Monte” de Amélia Muge (Ed. Vachier & Associados) A cantora regressa com um álbum magnífico, onde não só recria a música tradicional portuguesa, como se aventura por terrenos de World Music. Tradição e modernidade fazem parte deste disco com poemas de José Mário Branco, Mário Cesariny, José Eduardo Agualusa, Sophia de Mello Breyner, etc, etc. Participam nas gravações membros dos Gaiteiros de Lisboa e o coro Pirin da Bulgária. A produção coube ao ex- Trovante António José Martins, mais outro motivo para realçar a sua qualidade. “Macaréu” dos Gaiteiros de Lisboa (Ed. Aduf)- Disco que marca, definitivamente, a entrada dos Gaiteiros de Lisboa na idade adulta. Aqui tudo é subvertido. Tradição e modernidade cruzam-se sem qualquer fronteira. Com os Gaiteiros de Lisboa, a música tradicional não é de qualquer país ou região. É do mundo inteiro. Depois há os poemas de O'Neill e de Pessoa, sempre com muito surrealismo musical à mistura. Resta dizer que os “ macaréus são umas ondas muito altas, da família das pernaltas e maiores do que um pardal”. “Uma Guitarra Com Gente Dentro” de Carlos Paredes (Ed. Universal)- A antologia mais completa de Carlos Paredes, até hoje publicada. Aqui se encontram os temas intemporais de Paredes, desde “Verdes Anos” ao “Fado Moliceiro”. O estilo incomparável de Paredes e a música que se identifica com Portugal, em qualquer parte do mundo. É natural que haja portugueses no estrangeiro que chorem quando ouvem tocar Paredes numa 179


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rádio ou num espectáculo. A gente de Portugal está mesmo dentro daquela guitarra. “Linha da Frente” dos Linha da Frente (Ed. Mercury)- Uma banda e um disco formados especificamente para darem vozes aos grandes poetas portugueses. Há poemas de António Aleixo, Ary dos Santos, Fernando Pessoa, Manuel Alegre, Alexandre O'Neill, António Botto, António Ramos Rosa, etc, etc. A banda é formada por Luís Varatojo (Despe & Siga), João Aguardela (Sitiados), Viviane (Entre Aspas), Janelo da Costa (Kussundolola), Prince Wadada e Rui Duarte (Ramp). Uma das grandes surpresas deste ano. “Raia Lounge” de Vários Artistas (Ed. Revista Raia)- Uma compilação de temas de grupos oriundos da região da Beira Interior, tais como os Factor Activo, Kubik, Alien Picnic, Jaguar, Dead Meat, Moços do Adro, etc. Com os apoios da Câmara de Idanha-A-Nova e Junta de Freguesia de Castelo Branco, para além de outras entidades oficiais, consegue-se provar que em qualquer ponto do país se pode fazer boa música com algum experimentalismo. Quem sabe se desta fornada de bandas não sairá alguma que consiga furar o isolamento. Qualidade e capacidades não lhes faltam. O CD foi distribuído com a revista Raia e não teve edição comercial. “Sei Onde Tu Estás” dos Xutos & Pontapés (Ed. EMI) Um disco ao vivo dos Xutos & Pontapés e está tudo dito. A mais antiga banda (a par dos UHF) prova mais uma vez que ser “velhinho” não quer dizer que não se seja activo. Gravado na Festa do “Avante”, Queima das Fitas de Coimbra e LX Musicfest com todos os grandes sucessos da sua longa carreira. “Babilónia” dos Delfins (Ed. BMG) Música simplesmente Pop e sem grandes rasgos de originalidade. Os Delfins estão nesta lista porque merecem. Depois de um disco menos feliz, há dois anos ( “Del7ins” ); editam ; este ano, um disco que marca o regresso da banda às canções Pop que fazem falta à música portuguesa. Só por isso se deve saudar a nova edição da banda de Cascais. “Marcha Dos Foliões” da Brigada Victor Jara (Reedição EMI) Disco original de 1983, num estilo Folk muito acústico, esta reedição faltava na música portuguesa porque o original de vinil há muito que está esgotado. Só falta editar “ Quem Sai Aos Seus” para que toda a discografia (fundamental) da Brigada esteja no suporte digital. Este disco contém temas de várias regiões do país , recriados pela banda no seu estilo muito próprio e marcante. “Do Lado Dos Cisnes” dos GNR (Ed. EMI) Rui Reininho e Companhia gravaram um disco de canções de três minutos, com muitas 180


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guitarras e poucos efeitos especiais. Um regresso ao passado (sobretudo a “Defeitos Especiais”) e um abandono de um estilo mais calmo. Mais uma vez, ser “velhinho” não significa que não se seja bom. Curiosa é a mudança de Tóli César Machado, que passa da bateria para as guitarras. As letras ambíguas de Reininho voltam a marcar os GNR. “Qualquer Coisa Pá Música” de Jorge Palma (Reedição Movieplay) Muita gente garantirá que o disco de Jorge Palma que deveria figurar nesta lista é “No Tempo Dos Assassinos”, editado, também este ano. Escolhemos o “Qualquer Coisa Pá Música” por se tratar de um registo histórico, em que Jorge Palma surge acompanhado por uma banda fabulosa e por conter alguns dos temas mais marcantes da sua carreia como “Na Terra Dos Sonhos”, “Vivo Em Lisboa” ou o antológico “Qualquer Coisa Pá Música” cujo refrão é “ Qualquer coisa pá música, Cinco mil reis, uma coroa ou um tostão, Mas se não tens dinheiro deixa lá meu irmão; Se a nossa companhia te animou, Valeu a pena a canção”. A edição original é de 1979. “Voar No Fole” dos Roldana Folk (Ed. Açor)- Uma nova banda no panorama Folk português em que a ênfase é colocada no acordeão (o tal instrumento do fole de que fala o título). Quase totalmente instrumental (apenas 4 temas são cantados), este disco revela-nos uma banda com um nível bem acima da média e com uns arranjos com cabeça , tronco e membros. Contém temas da própria banda e algumas recriações de temas tradicionais portugueses e irlandeses. A verdadeira revelação da música Folk portuguesa no ano 2002, apesar de quase desconhecidos. O acordeão nunca conheceu um protagonismo tão grande em bandas Folk portuguesas, como neste disco. Com os Roldana Folk a música está entregue em boas mãos. Alegremo-nos por isso.

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OS MELHORES DA MÚSICA PORTUGUESA EM 2003 Durante o ano de 2003 a música portuguesa continuou a dar sinais de vitalidade. Apesar da crise, a falta de criatividade não se manifestou. Na nossa opinião foram estes os melhores discos do ano que termina: "A Ópera Mágica do Cantor Maldito" de Fausto (Ed.Sony Música) - O regresso tão aguardado de um dos maiores cantautores portugueses. Fausto regressou em grande, com um disco cheio de qualidade. Este disco, com 16 temas, renova muitas das opções estéticas do autor e consagra-o definitivamente. As letras exploram , de algum modo, as temáticas dos músicos de intervenção. Há participações de Amélia Muge, João Afonso, José Manuel David e Amadeu Magalhães que dão uma mais-valia ao disco. "O Irmão do Meio" de Sérgio Godinho (Ed.EMI-V. Carvalho)Sérgio Godinho resolveu fazer um disco que retrospectiva a sua carreira. Para isso recriou os seus temas em duetos com Teresa Salgueiro, Xutos & Pontapés, David Fonseca, Tito Paris, Caetano Veloso, Carlos do Carmo, Camané, José Mário Branco e Gaiteiros de Lisboa, entre outros. Os temas tomam novas tonalidades e são antológicos. Mais uma vez Godinho prova que consegue abranger várias gerações de artistas com a sua música. Fundamental. "...Vivos. E Ao Vivo" de José Barros e Navegante (Ed. Ocarina)- Os Navegante gravaram este disco duplo ao vivo no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra e no Fórum Romeu Correia, em Almada. Trata-se de um disco (com um arranjo gráfico muito cuidado, em embalagem digipack) que coloca os Navegante e José Barros na linha da frente dos projectos consistentes da música tradicional portuguesa. As participações especiais da cantora galega Uxia, de Pedro Jóia, de Rui Vaz, de José Martins e de José Manuel David enriquecem , ainda mais, este disco imprescindível. "Terra" dos Tantra (Ed. Autor) - O regresso dos Tantra , após mais de 20 anos sem gravar. Com uma nova formação, na qual apenas Manuel Cardoso permanece; os Tantra demonstram estar entre os grandes nomes do Rock progressivo, mesmo a nível internacional. Neste mesmo ano os Tantra lançaram, também, o disco que contém a gravação ao vivo do seu primeiro concerto, em 1977. Enfim, um regresso que muito se saúda. "Namaste" de Blasted Mechanism (Ed. EMI- V. Carvalho)- Os Blasted Mechanism aplicam , neste disco, mais electrónica que nos registos anteriores. A sua imagem mudou também. Agora estão mais cibernéticos. A Bigodes Band participa na gravação deste disco, para além de Fred Stone, Virgul, Salvatore Tiliba, Castora e Pantera, entre outros. A banda de Karkov e 182


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Valdjiu prova, com este disco estar entre os grandes nomes da Pop portuguesa. "Do Lado de Cá de Mim" de Pedro Barroso (Reedição Movieplay)Finalmente editado em CD , este disco de Pedro Barroso, originalmente de 1983, contém "Viva Quem Canta", "Ai Consta" e mais cinco temas , todos na linha a que o cantautor nos habituou. A sua inclusão nesta lista era pois necessária, já que Barroso é daqueles que contam (e muito) para a edificação de um música portuguesa com grande autenticidade. "A Cor Da Vontade" de Quadrilha (Ed. Vachier & Associados)Após mais de dois anos sem gravar, os Quadrilha regressam com um disco soberbo, talvez o mais bem elaborado da sua carreira. Agora já não é só a sonoridade Folk a comandar. Há lugar para o Reggae, a música árabe e todas as misturas musicais, além do habitual lugar para as lindíssimas baladas, apanágio da banda. O grupo de Sebastião Antunes está mais coeso e pronto a entrar para a 1.ª divisão das bandas de música tradicional. "La Pop End Rock" dos UHF (Ed. Capitol) - A ópera Rock que conta , de uma maneira quase autobiográfica, a carreira de 25 anos da banda de António Manuel Ribeiro. Trinta e cinco temas com espírito Rock, a provar que os "velhinhos" ainda sabem fazer as coisas "à maneira". Um dos grupos importantes do Rock português regressa em força , em 2003. Em 2004 será a vez da Tournée de promoção deste disco, com algumas datas no distrito da Guarda, para os seus habitantes poderem comprovar do que eles são capazes. "Terra de Abrigo" da Ronda dos Quatro Caminhos (Ed. Ocarina)Um disco que recria o cante alentejano, com uma ousadia como poucos ainda o fizeram. A Ronda socorreu-se de vários cambiantes e artistas para dar novas roupagens aos sons alentejanos: a Orquestra Sinfónica de Córdoba, as cantoras Esperanza Fernandez e Amina Alaoui, o guitarrista Jose António Rodriguez, o Grupo Coral de Moura, o Grupo de Cantadores de Saias de Campo Maior, o Grupo Coral de Baleizão e o Grupo Coral de Serpa, entre outros. O resultado está neste disco que é diferente de tudo o que a Ronda fez até aqui. No dia 24 de Janeiro, a Ronda fez a apresentação ao vivo, deste disco, no Centro Cultural de Belém. "A Porta do Mundo" de Filipa Pais (Ed. Vachier & Associados)- A voz cristalina de Filipa Pais mostra todas as suas capacidades neste registo de 14 temas. Com produção de Ricardo Dias (da Brigada Victor Jara) e João Paulo Esteves da Silva e participações de Manuel Rocha e Quiné (ambos membros da Brigada Victor Jara), Yuri Daniel, Eduardo Miranda e Mário Delgado, além da música este disco tem um óptimo grafismo com as letras escritas em português e em inglês. Filipa Pais prova, com este trabalho, porque é uma das grandes intérpretes da lusitanidade. A não perder... 183


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“At Tambur" dos At Tambur (Ed. At Tambur)- Uma nova banda de recriação da música tradicional portuguesa, com propostas bastantes sérias e que consegue fundir a tradição com alguma modernidade. Além de temas tradicionais , este disco contém originais da banda e tradicionais irlandeses. Descobre-se uma bela voz feminina (convidada) e um excelente violinista. Uma aposta nova que foi ganha. "Babalu" de Os Cardosos (Ed. Discos Mula)- Neste país , com os habitantes mais tristes da Europa, segundo uma recente sondagem; é bom ver surgir projectos como este que vêm alegrar os portugueses. Os Cardosos são uma banda constituída por Paulo Cardoso, Zé Cardoso e Hugo Cardoso e tocam uma espécie de Rock'n'Roll com letras humorísticas. Destacam-se os temas "Babalu", "Canto Como o Toy", "Grande Manso", "Dia de Borrifar" e "Chihuahua Loco". Com os Cardosos é "sempre a abrir". Este até poderá ser um projecto falhado por falta de apoios, mas, se tal acontecer; os rapazes não merecem...

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CURIOSIDADE Apresentamos, nesta página, uma curiosidade do Rock português. Trata-se da letra do tema “Rockolagem”, cantada num estilo mais ou menos Reggae, por João Moutinho. O disco, um single, saído em 1981, contém no lado A o tema “A Pastilha”. A curiosidade desta letra é o facto de se referir, a variados temas, tipos e bandas de Rock (dos anos 80). A itálico estão assinaladas as expressões, temas e bandas do Rock português. Rockolagem Mastigando uma chiclete As Damas chegam de máxi Não estava lá a Rosete E regressaram de Táxi Sobem a Rua do Carmo Com o Frodo na garupa A reboque do robot Vai a Salada de Frutas O Rock também é riso Que faço com muito gozo Mas não perco é o juízo Por causa do Rui Veloso Trabalhadores do Comércio É um puto e dois com vício Um Rock com muitos Várius Será que é Arte & Ofício? 185


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O pagode anda guloso Jáfumega na ribeira Desde o fininho Veloso À suicida Ferreira O Rock anda com febre São os putos no recreio O Stock está mais alegre Mas não vai nesse passeio O que vês, ó espelho meu? Portugal na CEE Ó meu, o que é que te deu? Ó pá, eu Seilasié Foram os berros do Barros Que criaram as raízes Cuidado, que o Pizo é Lizo Não se gastem as matrizes

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CYAN

MAGENTE

AMARELO

PRETO

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FOTOS DE CONCERTOS

Alcoolemia, em Setúbal, em 1995

Beatnicks, ao vivo, no Rock Rendez Vous

Ferro & Fogo, ao vivo, no Rock Rendez Vous

Blasted Mechanism, em Benquerença (Penamacor), em Julho de 2004

Quinta do Bill, ao vivo, no Sabugal, em 2005

Cesário Esmifroaço, ao vivo, em Lamego

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MAGENTE

AMARELO

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CAPAS DE DISCOS

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CAPAS DE DISCOS

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FOTOS DE CONCERTOS

5 Napolitanos,ao vivo, em 1976, em Fazendas de Almeirim. O vocalista era Carlos Cavalheiro

The Symph0nyx, ao vivo, no Sabugal, em 2003 190


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FOTOS DE CONCERTOS

Ex-Votos, ao vivo, no Sabugal, em Julho de 2003

Moonspell, ao vivo, em Benquerença (Penamacor), em Julho de 2004 191


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MEMORABILIA

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Novas Biografias

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CENSURADOS Os Censurados são recordados por uma grande legião de fãs como um dos mais importantes grupos da segunda vaga de Punk Rock, surgida em Portugal, nos anos 80 do século XX. Se nos anos 70 tinham sido os Faíscas e os Aqui D'El Rock a dominarem a cena Punk portuguesa, no final dos anos 80, serão os Peste & Sida e os Censurados que poderão ser consideradas as bandas mais importantes desta corrente do Rock português. Em 1989 formam-se, em Lisboa, os Censurados. Do “line-up” inicial fazem parte João Ribas, que veio dos Ku de Judas, Samuel, vindo dos Overdose, Fred (ex- Trip D'Axe) e Orlando Cohen (exMorituri e ex- Peste & Sida). A receita da banda é simples: canções muito rápidas, próximas dos Ramones, e letras de combate. Em Dezembro do ano da formação lançam a sua primeira maqueta com os temas “Tu Ó Bófia”, “Srs. Políticos”, “Tá a Andar de Mota”, “É Difícil” e “Não Vales Nada”. Passado um ano sobre a edição da maqueta sai o seu primeiro álbum intitulado “Censurados”. Este disco era para ser editado pela independente Ama Romanta (de João Peste dos Pop Dell’ Arte), mas devido a desentendimentos entre os membros da banda e os responsáveis da editora, será a El Tatu (editora de Tim dos Xutos & Pontapés) a fazer a edição e comercialização do álbum. Tim conhecia bem os Censurados, já que estes fizeram inúmeras primeiras partes dos Xutos (a uma dessas primeiras partes tivemos oportunidade de assistir, na Tournée de promoção de “Dizer Não de Vez”, na cidade da Guarda, quando os Censurados se encontravam já em final de carreira). A banda efectua inúmeros concertos, sobretudo no Johnny Guitar (o tema “Todos no Mesmo Barco” fará, depois, parte do alinhamento da compilação “Johnny Guitar”). Tocam, também, em Festivais e concertos contra a violência dos “skinheads” ou organizadas por associações como a SOS Racismo. Em 1991 sai “Confusão”, o seu segundo álbum, gravado nos Estúdios 194


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Tcha Tcha Tcha, com produção de Cajó, técnico de som dos Xutos. A edição é, novamente, da El Tatu. Deste disco fazem parte temas como “Quero Ser Eu”, “Venenosa” ou “Americano Gordo”. Devido ao conteúdo das suas letras são colocados no “índex” da Rádio Renascença e banidos das suas emissões. Tocam na primeira parte do concerto de Bob Geldof e, também, na abertura do concerto dos Xutos, no Campo Pequeno, em Lisboa. Os Censurados são convidados para integrarem o elenco do concerto de solidariedade com Timor- Leste, ao lado dos Delfins, Xutos e Rádio Macau, entre outros. A edição da gravação deste concerto em CD levantou grande celeuma entre Zé Pedro, dos Xutos e Miguel Ângelo, dos Delfins. Em 1992 os Censurados participam na edição do Festival Printemps de Bourges (França), na secção “Découverte”. Em 1993 é editado o seu último álbum de estúdio, com o título “Sopa”. A banda termina a sua carreira em 1994, com a sua participação no concerto de homenagem a José Afonso, no Estádio de Alvalade. Tinham participado no disco homónimo “Filhos da Madrugada Cantam José Afonso” com a versão de “O Que Faz Falta”, que tocaram no palco do estádio. Em 1999 voltam a reunir-se (em estúdio) para gravarem a sua versão de “Enquanto a Noite Cai” dos Xutos, no disco-tributo à banda de Zé Pedro, intitulado “XX Anos, XX Bandas”. Em 2002 as lojas Carbono, através da sua etiqueta discográfica, lançam o CD “Censurados Ao Vivo”, gravado na Queima das Fitas, em Coimbra em Maio de 1999, num concerto final. João Ribas formou, depois, os Tara Perdida, uma banda com um som menos “apunkalhado” que o dos Censurados. É, também, membro dos Kamones, uma banda de “covers” dos Ramones, juntamente com Paulinho (dos MAD). Orlando Cohen voltaria a ser membro dos Peste & Sida, após João San Payo ter reformado a banda, em 2004. Foi editada em 2006 uma biografia dos Censurados, um livro que vem colmatar a falta de edições bibliográficas sobre bandas portuguesas, principalmente daquelas que têm uma grande quantidade de apreciadores incondicionais, como são os fãs da banda de João Ribas. 195


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CONJUNTO (ACADÉMICO) JOÃO PAULO No Portugal dos anos 60 surgiram muitos Conjuntos Académicos: Conjunto Académico Os Espaciais, Conjunto Académico Orfeu, Conjunto Académico Ruy Manuel, Quinteto Académico, etc. Um dos mais famosos foi o Conjunto Académico João Paulo, assim chamado no início da sua carreira. Lá mais para o final da sua existência já só era Conjunto João Paulo, tendo retirado o “Académico” do seu nome. O Conjunto Académico João Paulo formou-se na Madeira, tendo como membros João Paulo (falecido em 2007), Sérgio Borges, Carlos Alberto, Rui, Moura e Gualberto (este último falecido em 2004). Sérgio Borges era o vocalista. Por serem um grupo de jovens estudantes e pela alegria das suas canções, como “Hully Gully do Montanhês” ou “Milena (A da Praia)”, tornaram-se famosos não só na Madeira, mas, também, no Continente. Foram contratados pelo empresário Vasco Morgado para realizarem espectáculos no Teatro Monumental. Ainda fora da época daquilo que ficaria conhecido como o “yé yé”, este conjunto começou por gravar versões de grandes êxitos da canção francesa e italiana, na época muito conhecidos. Entre outros, o Conjunto Académico João Paulo, gravou versões de Adamo, Gilbert Bécaud ou Charles Aznavour, um pouco antes da verdadeira explosão do Rock português por nomes como os Sheiks ou os Ekos. O Conjunto Académico João Paulo passou, várias vezes, em programas da RTP, por ser uma banda que não punha quase nada em causa, sendo mais para puro entretenimento. Em 1966 o Conjunto concorre ao Festival RTP da Canção com o tema “Nunca Direi Adeus”. 196


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Sérgio Borges concorreu, também ao Festival RTP com o tema “Onde Vais Rio Que Eu Canto”, em 1970. Este foi o ano em que a RTP resolveu não participar no Festival Eurovisão da Canção. O Conjunto Académico João Paulo gravou também com a cantora sul-africana Vicky dois singles, que tiveram edição comercial. Após Sérgio Borges ter ganho o Festival da RTP, os EP's do grupo passaram a ser em nome de Sérgio Borges e o Conjunto João Paulo, como no EP “Nascer”. Apesar de não terem ganho o Festival RTP da Canção editaram um EP com o título “Eurovisão” (em 1966). Foram inúmeros os EP's que o Conjunto Académico gravou, tais como “Conjunto João Paulo” (1965), “De Novo com João Paulo e o Seu Conjunto Académico” (1966), “Poema de Um Homem Só” (1968), “Kilimandjaro” (1968) ou “O Louco” (1967). A parte final da carreira desta banda é, musicalmente, mais interessante, notando-se uma aproximação a estéticas musicais mais avançadas. Até a capa do EP “O Louco” já está mais próxima de uma estética psicadélica. Em 1993 a EMI- Valentim de Carvalho editou algum do espólio do grupo num CD intitulado “Os Grandes Êxitos do Conjunto Académico João Paulo”. Mais tarde, a mesma editora reeditaria uma antiga colectânea do grupo, intitulada “Antologia da Música Popular Portuguesa” (1998). No entanto, muitos temas gravados em EP, na sua fase mais criativa, não conheceram nunca edição em formato digital.

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CRISE TOTAL Banda pertencente à segunda vaga do Punk português, os Crise Total formaram-se em Algueirão, em 1983. Inicialmente eram constituídos por Manolo (voz), Paulo Ampola (baixo), Rui Ramos (guitarra) e João Filipe (bateria). O seu estilo era caracterizado por textos bastante agressivos e música muito simples. No ano de 1984 participam no Concurso de Música Moderna do Rock Rendez Vous e o seu tema “Assassinos no Poder” é incluído no LP “Ao Vivo no Rock Rendez Vous Em 1984”, editado pela Dansa do Som. Em 1985 voltam a participar no mesmo Concurso, numa altura em que Ampola já não fazia parte da banda, tendo sido substituído por Pêjó. No ano seguinte participam num Festival Punk, na cidade do Porto, juntamente com os Ku de Judas, Cagalhões e Cães Vadios (na época ainda chamados Os Cães, A Morte e o Desejo). A banda termina passado pouco tempo. João Filipe emigra e Manolo abandona a banda. Em 1987 há uma nova formação dos Crise Total: entram Tiago (voz), e Rui Barata (bateria). Em 1988 Manolo regressa aos Crise Total. Apesar disso, a banda continua sem contrato discográfico e a situação leva, novamente, ao terminus do projecto. Apenas em 1995 os Crise Total voltam a dar sinais de vida. Desta vez alinham na formação Xico(voz, ex- Subcaos) e Libelinha (baixo). João Filipe e Rui Ramos continuam e Pêjó passa a tocar guitarra. A ideia era continuar a tocar material antigo da banda e conseguir um contrato discográfico. Caso os intentos tivessem sucesso, a banda estava disposta a compor novo material e manter-se. 198


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A editora Fast'N'Loud contrata a banda e é editado o CD “E A Crise Continua”, contendo 16 temas, todos eles da primeira fase. Entre outros, entram neste CD temas como “Queremos Anarkia”, “Porquê”, “Opção Final” ou “A Crise Continua”. Após a edição há nova mexida no “line-up” da banda: Daniel substitui Pêjó. Xico (conhecido no meio musical como Xico Punk) abandona o grupo. Em 1997, Miguel (vindo dos MAD), entra para vocalista da banda e são realizados alguns concertos. Um novo álbum intitulado “Suicídio Involuntário” é editado em 2003 (apesar de gravado em 1997), através da editora Zero Works Records, com Miguel nas vozes. Alguns dos elementos da última formação dos Crise Total pertenceram, depois, aos Rolls Rockers e aos Feijão Freud. Ampola, após ter abandonado a música abraçou a carreira militar, pertencendo à Armada Portuguesa, como sargento.

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MÃO MORTA Em Novembro de 1984 formam-se, em Braga, os Mão Morta com Joaquim Pinto (baixo), Miguel Pedro (guitarra) e Adolfo Luxúria Canibal (voz). A banda utiliza programações rítmicas para substituir a bateria. Em Janeiro de 1985 estreiam-se ao vivo, com um concerto na Foz (Porto). Zé dos Eclipses entra para o grupo, como guitarrista e Miguel Pedro passa para a bateria. Joaquim Pinto toca baixo e teclas. Em Outubro dão um famoso concerto em Braga, onde Adolfo encena a amputação de uma mão. Em 1986 concorrem ao 3.º Concurso de Música Moderna do Rock Rendez Vous e ganham o prémio de originalidade. Num concerto em Maio desse ano, Joaquim Pinto e Miguel Pedro não comparecem, tendo os restantes membros improvisado com elementos dos Ocaso Épico. Carlos Fortes entra para a banda, como segundo guitarrista. Em Junho de 1987 tocam no Rock Rendez Vous, no concerto de primeiro aniversário da editora Ama Romanta, de João Peste. Em Agosto de 87 editam uma cassete, na editora Malucos da Pátria, com o título “Mão Morta”, uma edição que é hoje uma grande raridade. Em Março de 1988 gravam o seu primeiro disco que sairá pela Ama Romanta, com o título “Mão Morta”. Em Junho de 1989, num concerto antológico e inesquecível, Adolfo corta-se numa perna com uma faca, tendo corrido perigo de vida se não tivessem estancado a hemorragia. A Câmara Municipal de Braga edita a compilação “À Sombra de Deus”, na qual os Mão Morta participam com o tema “1.º de Novembro”. No final de 1989 Joaquim Pinto abandona os Mão Morta. Na compilação “Ama Romanta 86-89”, os Mão Morta participam com o tema “Oub'lá”. Gravam o segundo LP “Corações Felpudos”. O ex- Pop Dell' Arte José Pedro Moura estreia-se como baixista dos Mão Morta, num concerto em Aveiro, em Março de 1990 e, pouco tempo depois, António Rafael é membro da banda como teclista. 200


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Em Outubro de 1990 a editora da cidade da Guarda, Área Total, edita a compilação “Insurrectos”, na qual os Mão Morta participam com o tema “Véus Caídos”. Como veremos à frente ainda haverá mais ligações dos Mão Morta à cidade mais alta ou ao seu distrito. O terceiro LP “O.D. Rainha do Rock & Crawl” é lançado, em Dezembro de 90 pela editora Área Total. Este disco seria, depois, reeditado (em 1992) pela editora alemã Big Noise e teria distribuição na Suiça, Áustria, Alemanha e República Checa. Zé dos Eclipses parte para os Estados Unidos para terminar a sua tese de doutoramento (lembremos que Adolfo é, ele próprio, advogado) e é substituído por outro ex- Pop Dell'Arte, Sapo. “Mutantes S.21” é o nome do novo álbum dos Mão Morta, lançado pela Fungui. Neste disco está o tema “Budapeste” que, depressa, se transforma no maior êxito dos Mão Morta, com passagem em várias rádios ligadas ao “mainstream”. “Visões-Ficções (Nostradamus)” é a versão dos Mão Morta do tema de António Variações incluída na compilação “Variações - As Canções de António”, editada em 1994. “Vénus Em Chamas” é o novo disco da banda, editado pela BMG, o quinto da sua discografia. Este disco sai em Março de 1994 e é votado o disco do ano pelos ouvintes da Antena 3. Os Mão Morta participam no concerto e no disco de homenagem a José Afonso intitulado “Filhos da Madrugada Cantam José Afonso” com uma versão de “ O Avô Cavernoso”, uma das melhores versões deste duplo CD. Em 1995 é editada a compilação de regravações de temas dos Mão Morta intitulada “Mão Morta Revisitada”. Vasco Vaz, ex-guitarrista dos Braindead e com raízes no distrito da Guarda (o pai é natural de Soito- Sabugal) entra para os Mão Morta. Em 1996 é editado o CD single “Chabala”. Em 1997 apresentam, durante três noites consecutivas, em Lisboa, no CCB, o espectáculo com poemas de Heiner Muller que intitulam “Muller no Hotel Hessischer Hof”. Este concerto é gravado e será, depois, editado em CD e DVD. 201


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Em 1998 é editado um novo álbum dos Mão Morta: “Já Há Muito Tempo Que Nesta Latrina O Ar Se Tornou Irrespirável”. Marta Abreu entra para os Mão Morta, como baixista, em 2000. Pouco tempo depois seria substituída por Joana Longobardi. Ambas as baixistas tinham vindo das Voodoo Dolls. Em 2001 são editados dois discos dos Mão Morta. Um de estúdio (“Primavera de Destroços”no qual ainda participa Marta Abreu) e outro ao vivo (“Ao Vivo Na Aula Magna”). Em 2003 a editora Quasi edita o livro “Narradores da Decadência” da autoria de Vítor Junqueira (com ligações ao concelho de Trancoso e autor do blog “Juramento Sem Bandeira”) onde são contadas todas as peripécias por que a banda de Adolfo Luxúria Canibal passou, desde a sua formação. “Carícias Malícias” é o nome do novo álbum dos Mão Morta, saído a público em Maio de 2003. No ano de 2004 surge uma compilação intitulada “Três Pistas” onde os Mão Morta participam. Um dos temas dos Mão Morta, neste disco, é uma versão de “Kayatronic”, dos Corpo Diplomático (incluída no álbum “Música Moderna” de 1979). Em 2004 os Mão Morta editam “Nus”, o seu novo álbum.

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OS CLAVES Os Claves foram um dos mais famosos conjuntos do “yé yé” português, nos anos 60 do século XX. No Verão de 1965 formam-se os Saints, um trio comandado por Luís de Freitas Branco, filho do musicólogo João de Freitas Branco. Luís tocava viola e era o vocalista dos Saints. Os restantes membros eram o baixista João Valeriano e o baterista Alexandre Corte Real. Corte Real partiu para o estrangeiro e entraram Luís Pinto de Freitas (viola solo e vozes), João Ferreira da Costa (teclas) e José Athouguia (bateria). Os Saints ficaram, então com uma formação de quinteto. Nos anos 70 do século XX houve uma famosa banda australiana, praticante de um certo estilo de Punk Rock, que tinha o nome de Saints. Com certeza que não imaginavam que esse nome já tinha sido de uma banda portuguesa, dos anos 60. Decidem concorrer a um dos famosos Concursos de música “yé yé”, que tinham lugar no Teatro Monumental, em Lisboa. Concorrendo, na meia-final, com Os Jets, Os Tubarões, Os Cometas, Os Kímicos e Os Boys, chegam à final; mas, antes disso, mudam o nome para Os Claves. A fama do grupo leva-o a fazer a abertura dos espectáculos das vedetas Romano Mussolini e Richard Anthony, nas suas apresentações em Lisboa. Actuam, também, várias vezes, em programas da RTP. Vencem o Concurso no qual tiveram como rivais Os Rocks (do cantor de “ O Vento Mudou”, Eduardo Nascimento), Os Night Stars, Os Jets, Os Ekos, Os Chinchilas e Os Tubarões, que foi organizado pelo jornal O Século, a Emissora Nacional, o Rádio Clube Português e o Movimento Nacional Feminino. Talvez, devido à participação desta última organização, conotada com o Estado Novo; no palco do Teatro Monumental havia um grande cartaz que continha uma série de regras para os espectadores que terminava com esta fantástica frase “A juventude pode ser alegre, sem ser irreverente”. A foto histórica de Os Claves com esse cartaz está aqui reproduzida. Nada de levantar grandes ondas, já se sabia… 203


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O jornal organizador titulou “Explosão Juvenil no Monumental” e o Diário de Notícias colocou em caixa “O melhor entre 100: o conjunto “Os Claves”. O prémio para os Claves foi no valor de 15 contos, uma pequena fortuna para a época, se tivermos em conta que a aparelhagem e o instrumental do grupo custou 180 contos. Ainda em 1966 conseguem contrato discográfico com a etiqueta portuguesa Alvorada e editam o seu primeiro EP que inclui os temas “California Dreaming” dos Mamas And Papas, “Somebody Help Me” de Spencer Davis Group, “Daydream” dos Lovin' Spoonful e “Sha La La Lee” dos Small Faces. O segundo EP, editado pela espanhola Marfer, contém versões de “Keep On Running” de Spencer Davis Group, “Where Have All The Good Times Gone” dos Kinks, “Fare Thee Well” de Chad & Jeremy e uma composição original, intitulada “Crer”, da autoria de Luís Pinto de Freitas. Como o disco foi editado depois de terem vencido o Concurso, apareceu uma tarjeta, na parte inferior onde estava escrito “Vencedores do Grande Concurso de Yé Yé”. Por baixo do nome do conjunto estava escrito entre parêntesis “Campeões do Yé Yé”. Os Claves continuaram a dar espectáculos em vários locais de Portugal, onde eram solicitados, mas o facto de serem estudantes, impediu-os de continuarem a sua carreira musical. Passados poucos anos a banda terminou.

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OS EKOS Formados em 1963, em Lisboa, Os Ekos são uma das referências mais importantes daquilo que ficou conhecido como o “yé yé”. Na origem d' Os Ekos esteve o vocalista Edmundo Falé, vindo dos Baby Twisters, outro grupo lisboeta, e as suas raizes estavam na zona de Campo de Ourique. A formação inicial incluía , ainda, Mário Guia (bateria), António Joaquim Vieira (baixo), Joca Santos (guitarra ritmo) e João Camilo Júnior (guitarra solo). Em 1964 conhecem o cantor dos britânicos Shadows, em Albufeira. Cliff Richard (que ainda hoje mantém residência no Algarve e se encontra ligado ao negócio dos vinhos dessa região) torna-se amigo dos membros do grupo. Como Os Ekos gostavam muito dos temas de Cliff e dos Shadows, contrataram um segundo vocalista, Zé Luís, que cantava todas as canções da banda inglesa, que o público pedia nos seus espectáculos. Edmundo Falé abandona Os Ekos, ainda em 1964, e juntase ao Conjunto Mistério, outra famosa banda da época, que estaria na origem do Quarteto 1111. Em 1965 editam o seu primeiro EP, após conseguirem contrato discográfico com a etiqueta Alvorada, que contém o tema “Esquece”, uma versão de “Hold On” de P. J. Proby. O disco ainda continha os temas originais “Os Tristes Olhos”, “Lamento Aos Céus” e “Ilusão”. Nos espectáculos, ao vivo, prara além de tocarem alguns originais, Os Ekos faziam versões dos Rolling Stones, Beatles ou Animals e tornaram-se 205


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muito famosos por isso mesmo. Um novo EP, que incluía os temas “Diz Que Me Amas”, “O nosso Amor Terminou”, “Hoje, Amanhã E Sempre” e “Mentira” é lançado em 1965. Em 1966 sai novo EP , desta feita com temas totalmente originais da banda: “Só”, “Oh! Isabel”, “Vou Ficar Sem Ti” e “À Espera Da Nossa Vez”. Em 1966 a banda sofre remodelação de elementos devido ao serviço militar obrigatório relacionado com a guerra colonial e apenas restam, da formação original, Mário Guia e João Júnior. Para os lugares dos restantes elementos entram Zé Nabo, Luís Paulino e Tony Costa. Este último fica encarregado das teclas e a banda sofre, também, uma evolução no seu estilo musical enveredando por temas originais cantados em inglês e uma sonoridade mais “beat”. Em 1966 é editado um novo EP com 4 temas , entre os quais “Secret Love” e “Baby On My Mind”. Em 1967 editam outro EP com os temas “I Saw That Girl”, “A Place In Your Heart”, “Nova Geração” e “We're Gonna Be Free”. Após terem aceite acompanhar Magdalena Pinto Basto, uma nova estrela da sua editora, nas gravações do EP de estreia da cantora, João Júnior decide ir viver para Angola e apenas Mário Guia ficou como elemento da formação original, tendo decido terminar com a banda. Pouco depois tornarse-ia empresário dos Objectivo, uma das bandas mais importantes do cenário Rock português. No início dos anos 70, alguns elementos de Os Ekos resolveram reformar a banda e incluir nela uma secção de metais, à maneira de bandas como os Chicago ou os Blood Sweat And Tears. Mário Guia não aceitou participar nesta nova aventura. A banda é , agora, constituída por Joca Santos, António Vieira, Zé Luís, Carlos Teixeira e Franklin Simões. Em 1970 gravam o último EP do grupo, o qual inclui os temas “Sol E Paz”, “Ardentemente”, “Habitat 736” e “Verdade”. Mário Guia ainda estaria ligado à música por longos anos , já que foi ele o homem que abriu o Rock Rendez Vous, durante muito tempo a sala mais importante do circuito Rock nacional.

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POP DELL' ARTE A história dos Pop Dell' Arte começa, em 1985, em Lisboa. A formação original da banda era constituída por João Peste (voz), Zé Pedro Moura (guitarra), Paulo Salgado (baixo) e Ondina Pires (voz e bateria). Nesse ano concorrem ao 2.º Concurso de Música Moderna do Rock Rendez Vous e ganham o prémio de originalidade. Em 1986, na editora Dansa do Som (ligada ao Rock Rendez Vous), é editado o tema dos Pop Dell' Arte “Bladin”, na compilação “Música Moderna Portuguesa 1.º Volume”. Noutra colectânea intitulada “Divergências”, o grupo vê incluído o tema “Máscara”. Esta colectânea é editada pela nova editora Ama Romanta, criada por João Peste e Maria João Serra. Em nome próprio, ainda em 1986, editam o máxi-single “Querelle”. Em 1987, Ondina Pires abandona a banda e é substituída por Sapo (mais tarde membro dos Mão Morta). Sapo abandonaria, pouco depois, sendo substituído por Luís San Payo, um ex- Croix Sainte e irmão de João San Payo dos Peste & Sida. Após vários concertos, e uma boa rodagem dos temas gravam o seu primeiro LP “Free Pop”, com produção de Nuno Rebelo. Antes da edição do LP é editado o single “Sonhos Pop”. “Free Pop” contém uma nova versão de “Bladin” e um tema com a participação de Adolfo Luxúria Canibal (“Juramento Sem Bandeira”). A capa da reedição em CD, deste disco é diferente da da edição original, em vinil. Hoje este disco é considerado um clássico da música moderna portuguesa. Em 1989 é editado o mini-LP “Illogik Plastik”, que vários críticos consideram uma nova obra de referência. 207


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A partir desta edição, o grupo resolve parar. João Peste forma, então, o Acidoxibordel, que chega a editar um mini-LP. Entretanto a editora Ama Romanta acaba e, em edição de autor, é lançada (em 1990) a compilação, já em formato CD, intitulada “Arriba Avanti! Pop Dell' Arte”. Em 1991 o grupo reaparece e faz uma longa série de concertos pelo país e pelo estrangeiro. Em 1992, após um contrato discográfico com a Variodisc, editam o máxisingle “2002/MC Holly”, numa aproximação à música de dança. Em 1993 é, finalmente (após vários adiamentos), editado o novo álbum “Ready Made”, com produção de Rafael Toral e João Peste. Em 1995 conseguem a contratação pela “major” Polygram (actual Universal) que se propõe fazer uma boa promoção do próximo disco da banda. A banda é, agora, constituída por João Peste (voz), Paulo Monteiro (guitarra), João Paulo Simões (guitarra- futuro Belle Chase Hotel) e Luís San Payo (bateria). O novo álbum, intitulado “Sex Symbol” é produzido por Amândio Bastos e Luís San Payo e recebe críticas muito elogiosas da imprensa especializada. Os jornais “Público” e “Diário de Notícias” consideram-no, mesmo, o melhor disco nacional do ano. A editora Música Alternativa reedita em formato CD os álbuns “Free Pop” e “Arriba Avanti!”, em 1999 e, em 2000, reedita “Ready Made “ e “João Peste & o Acidoxibordel”. “So Goodnight”, o novo CD da banda, é editado em 2002. Em 2004, João Peste participa, a solo, no espectáculo “AVariações”, dedicado a António Variações, com o tema “Linha Vida”. Um concerto da banda, em Julho de 2005, sob o signo “Make It Or Break It” é muito elogiado pela crítica. Nesse concerto emergiram sons novos e temas inéditos que a banda resolveu gravar. Em Janeiro de 2006 sai uma nova colectânea da banda, numa edição da editora Different Star, que contém três temas inéditos. Este disco tem por título “PopPlastik-1985-2005”. Nesta colectânea encontram-se, também, os temas de referência de vinte anos de Pop Dell' Arte e do seu mentor, João Peste. Sonhando Pop, Sempre sonhando Pop… 208


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STREET KIDS Os Street Kids foram uma das bandas mais promissoras nascidas com o “boom” do Rock português, nos anos 80. Constituídos por Nuno Canavarro, Nuno Rebelo, Emanuel Ramalho (ex-Faíscas, ex- Corpo Diplomático), Eduardo Sobral e Luís Ventura, os Street Kids surgiram em Cascais e tiveram uma carreira efémera. Antes de formarem os Street Kids, Nuno Rebelo, Luís Ventura e Eduardo tiveram outra banda chamada Plástico. Apenas Emanuel Ramalho (ou Flash Gordon) era músico profissional, tocando bateria, sendo que os restantes membros eram estudantes. Conseguiram um contrato discográfico com a Vadeca e editam o seu primeiro single, “Let Me Do It” , com o lado B a ser ocupado com “Spy”. Este disco obtém um grande sucesso nas rádios portuguesas da época, apesar de ser contra a corrente (1980 foi o ano da afirmação do Rock cantado em português, através do sucesso de Rui Veloso e do seu “Ar de Rock”). Em 1981 editam novo single com os temas “Super Wen” e “Secondary Effects” (o single tem o título de “Hospital Reports”, referindo-se a questões hospitalares) e actuam na festa de aniversário do programa radiofónico “Rock em Stock”, ao lado dos UHF, NZZN, Roxigénio, Jáfumega e Arte & Ofício. Os direitos de autor do single de 1981 são doados à Liga Portuguesa Contra o Cancro. Os Street Kids eram das poucas bandas portuguesas que não cantavam na língua de Camões, mas, mesmo assim, conseguiam realizar muitos concertos pelo país. Em 1982 a banda decide-se pelo português e lança o seu único LP, “Trauma”, produzido por Manuel Cardoso (também conhecido por Frodo). Ao abandonarem o inglês começaram a fazer poemas com maior intervencionismo social. 209


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Do LP fazem parte temas como o hino anti-militarista “Tropa Não”, “Propaganda”, “Nunca Pensei Que Te Anulasses Tão Bem” ou “Tubo de Ensaio”. A música continua muito próxima da estética New Wave que foi apanágio da banda desde o seu início. Em 1983 lançam um novo disco. Trata-se de um máxi-single intitulado “So Far For So Long”. A banda decide voltar ao inglês, mas terminaria pouco tempo depois. Emanuel Ramalho liga-se a outros projectos, como os Rádio Macau. Nuno Rebelo formaria, pouco tempo depois, os Mler Ife Dada e Nuno Canavarro ligar-se-ia a projectos mais experimentais, como o disco que gravou com Carlos Maria Trindade intitulado “Mr.Wologallu”. Luís Ventura formaria, mais tarde, os Lobo Meigo, com os quais ganharia um dos Concursos de Música Moderna do Rock Rendez Vous e que gravariam um LP, em 1990.

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MEMORABILIA

Rui Reininho com a 1.ª edição desta obra

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MEMORABILIA

O logótipo do jornal Rock Week

Foto do final do Baile de Finalistas, em 2 de Dezembro de 1978, no Sabugal, com os Hosanna. Atrás, no palco, do lado direito, Agnelo Monteiro, teclista dos Hosanna

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FOTOS DE CONCERTOS

GNR, ao vivo, no Sabugal, em Junho de 2006

José Cid, ao vivo em Rapoula do Côa (Sabugal), em Agosto de 2006 213


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FOTOS DE CONCERTOS

Rui Veloso, ao vivo na Festa do Avante, de 1982

Ananga-Ranga, ao vivo em 1979, no Anfiteatro da Faculdade de Agronomia, em Lisboa 214


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FOTOS DE CONCERTOS

Pizo Lizo, ao vivo em 1981

Os Espaciais, ao vivo, nos anos 60, no Teatro Monumental

Heróis do Mar, ao vivo, em Paris, em 1981

Hosanna, ao vivo, em 1978, em Lisboa 215


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CAPAS DE DISCOS

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CAPAS DE DISCOS

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POSFÁCIO Em nome das folias e da música portuguesa Conheci o Duarte passaram já mais de 20 anos. Fomos colegas na extinta Escola do Magistério Primário da Guarda e desde cedo apreciei o especial interesse que ele manifestava pelo mundo da música. De facto, o Duarte não era um curioso qualquer. Sabia muito do universo musical português e internacional, estava sempre actualizado relativamente a novos intérpretes e grupos e não lhe passavam ao lado as novas tendências. O conhecimento do Duarte era apreciado por todos os colegas, sendo carinhosamente conhecido como o “Punk Rural”, não em sentido depreciativo, mas como reconhecimento pelo seu enciclopedismo na área da música e devido às suas origens nas terras raianas do Soito, concelho do Sabugal. Era frequente, em encontros de colegas, em tertúlias ou noutras actividades, testarmos o conhecimento do Duarte e bastava dizer uma palavra que logo vinha um tema musical, de grupo português ou estrangeiro, na nossa língua ou em qualquer outra; numa espécie de jogo que o Duarte apreciava. Com a amizade que fomos cimentando enquanto colegas estudantes, e após terminado esse período, resultou natural o convite para que o Duarte tivesse uma coluna no jornal “Nova Guarda”, de que entretanto me tornei director, relacionada com o imenso conhecimento que sabia nele existir sobre música e, nomeadamente, sobre a importância que a memória tem na construção do futuro. Foi assim que apareceu a rubrica “Em Nome das Folias”, com o sentido de realçar o papel da música no nosso bem-estar individual e colectivo. No ano em que o “Nova Guarda” completa dez anos, nove sobre a minha direcção e oito com as crónicas do Duarte, a colaboração prestada serviu também para o reconhecimento do Jornal, bem patente nas muitas referências que recebemos, principalmente por correio electrónico; comentando os citados textos. Uma parte da posição de líder destacado que o “Nova Guarda” tem no distrito da Guarda é também da responsabilidade do Duarte, razão suficiente para lhe manifestarmos o nosso agradecimento público e sentirmos um orgulho especial pela edição desta obra.

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Com oito anos de crónicas regulares e o profundo conhecimento que o Duarte possui este “Memórias do Rock Português” surge naturalmente e manifesta-se de grande utilidade para todos os amantes da música. São certamente muitas horas de agradável trabalho que resultaram num importante documento que agora se edita, devidamente ilustrado, pois o Duarte possui uma autêntica fonoteca. Certamente que todos os envolvidos na História do Pop/Rock português das últimas décadas se sentirão satisfeitos pela profundidade com que o tema é tratado. Também todos os que vivemos tempos maravilhosos, tempos de mudança, tempos de novidade, lembramos grupos que fazem parte do nosso imaginário e recordamos tantos deles que fizeram dos Bailes de Finalistas do antigo Liceu Nacional da Guarda momentos inesquecíveis. Obrigado, Duarte, por este privilégio que nos deste de alargar o nosso conhecimento à custa da tua sabedoria. Aguardamos pela próxima investida, pois aí ainda há muito para contar. António Pereira de Andrade Pissarra Director do Jornal “Nova Guarda” Abril de 2006

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DISCOGRAFIA BÁSICA DO ROCK PORTUGUÊS Singles, máxi -singles e EP's (vinil) Zeca do Rock - Menina / Sansão Foi Enganado / Nazaré Rock / Dezassete Alvorada / Rádio Triunfo (1961) Daniel Bacelar e os Gentlemen - O Tema dos Gentlemen / Sem Ti / My Babe / Olhando Para o Céu - Alvorada / Rádio Triunfo (1963) Tártaros - Serei Feliz Com o Teu Amor / Oh Rosa Arredonda a Saia / Tartária / Valsa da Meia Noite - Rapsódia / Discos Rapsódia (1964) Os Ekos - Esquece / Os Tristes Olhos / Lamento aos Céus / Ilusão - Alvorada / Rádio Triunfo (1965) Conjunto Académico João Paulo - O Louco - Columbia / Valentim de Carvalho (1967) Os Jets - Let Me Live My Life - Tecla (1967) Quarteto 1111 - A Lenda de El-Rei D. Sebastião - Columbia / Valentim de Carvalho (1967) Os Tubarões - Poema do Homem Rã - Alvorada / Rádio Triunfo (1968) Jotta Herre - Penina - Philips (1969) Os Titãs - One Way Love / Mira-me Maria / Janela Aberta / We Gotta Make Love - Clave / Castro, Paz & Cia (1969) Sigla - Roupa Suja / Barca Bela / 80% Improviso I / À Espera do Paraíso Riso & Ritmo (1970) Pop Five Music Incorporated - Orange / Mission Impossible - Orfeu / Arnaldo Trindade (1971) Smoog - Smoogin' / What's Going On - Orfeu / Arnaldo Trindade (1973) 220


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José Cid - A Festa do Zé [contém “Rock Rural”] - Decca / Valentim de Carvalho(1975) Perspectiva - Lá Fora a Cidade - Imavox (1977) Prólogo - Evolução / Eureka!!! - GAF / A. Fonseca Guimarães (1977) Psico - Al's / Epitáfio - Alvorada / Rádio Triunfo (1978) Aqui D'El Rock - Há Que Violentar o Sistema- Metro Som (1978) Arte & Ofício - Come Hear the Band / O Cacarejo da Galinha - Orfeu / Arnaldo Trindade (1978) Beatnicks - Somos o Mar / Jardim Terra - Alvorada / Rádio Triunfo (1978) Corpo Diplomático - Festa / Engrenagem - Da Nova / Nova (1979) UHF - Jorge Morreu - Metro Som (1979) Rui Veloso - Chico Fininho - EMI / Valentim de Carvalho (1980) GNR - Sê um GNR - Valentim de Carvalho (1981) Go Graal Blues Band - Touch Me Now / Lay Down - RCS (1981) Jáfumega - Dá-me Lume / Ribeira - Metro Som (1981) Heróis do Mar - Amor - Philips / PolyGram (1982) GNR - Twistarte - EMI / Valentim de Carvalho (1983) UHF - Puseste o Diabo em Mim - Orfeu / Rádio Triunfo (1984) Xutos & Pontapés - Remar, Remar / Longa Se Torna a Espera - Fundação Atlântica (1984) Croix Sainte - The Life of He - Aliance Records (1985) In Loco - Já Não Há Heróis / Lobisomem - RM Discos / Dansa do Som (1987) 221


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Xutos & Pontapés - 7.º Single - Polydor / Polygram (1987)

Álbuns (LP's e CD's) Filarmónica Fraude - Epopeia - Philips (1969) - reedição em CD PolyGram (1998) Pop Five Music Incorporated - A Peça - Orfeu / Arnaldo Trindade(1969) reedição em CD Movieplay integrada na colectânea “Odisseia - Obra Completa 1968-1972” (2004) Quarteto 1111 - Quarteto 1111 - Columbia / Valentim de Carvalho (1970) reedição em CD EMI Valentim de Carvalho (1998) Petrus Castrus - Mestre - Guilda da Música / Sassetti (1973) - reedição em CD CNM - Companhia Nacional da Música (2007) Saga - Homo Sapiens - Movieplay (1976) - reedição não oficial em CD M2U Records (2003) Tantra - Mistérios e Maravilhas - EMI / Valentim de Carvalho (1977) reedição em CD EMI Valentim de Carvalho (1998) Very Nice - Discretamente - Imavox (1977) José Cid - 10000 Anos Depois Entre Vénus e Marte - Orfeu / Arnaldo Trindade (1978) - reedição em CD Movieplay (1998) Arte & Ofício - Faces - Orfeu / Arnaldo Trindade (1979) Corpo Diplomático - Música Moderna - Da Nova / Nova (1979) Go Graal Blues Band - Go Graal Blues Band - Imavox (1979) Roxigénio - Roxigénio - GAF / A. Fonseca Guimarães (1980) Rui Veloso - Ar de Rock - EMI / Valentim de Carvalho (1980) - reedição em CD EMI Valentim de Carvalho (2001) 222


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Taxi - Taxi - Polydor / PolyGram (1981) - reedição em CD PolyGram (1998) UHF - À Flor da Pele - EMI / Valentim de Carvalho (1981) - reedição em CD EMI Valentim de Carvalho (1993) Jáfumega - Jáfumega - Polydor / PolyGram (1982)- reedição em CD PolyGram (1998) GNR - Independança - VDC / Valentim de Carvalho (1982) - reedição em CD Som Livre (2007) NZZN - Forte e Feio - Vadeca (1982) Street Kids - Trauma - Vadeca (1982) António Variações - Anjo da Guarda - EMI / Valentim de Carvalho (1983) reedição em CD EMI Valentim de Carvalho (1998) Vários - Ao Vivo no Rock Rendez Vous Em 1984 - Dansa do Som (1984) Xutos & Pontapés - Cerco - Dansa do Som (1985) - reedição em CD Movieplay (1993) Mler Ife Dada - Coisas Que Fascinam - Polydor / PolyGram (1987) reedição em CD PolyGram (1998) Peste & Sida - Veneno - Schiu! / Transmédia (1987) - reedição em CD PolyGram (1990) Pop Dell' Arte - Free Pop - Ama Romanta (1987) - reedição em CD Música Alternativa (1999) Linha Geral - Linha Geral - Ama Romanta (1988) Mão Morta - Mão Morta - Ama Romanta (1998) - reedição em CD Norte Sul (1998) Ocaso Épico - Muito Obrigado - Dansa do Som (1988) Censurados - Censurados - El Tatu (1990) reedição em CD El Tatu (2005) Lobo Meigo - Lobo Meigo - Dansa do Som (1990) 223


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Mata Ratos - Rock Radioactivo - EMI / Valentim de Carvalho (1990) Tarantula - Kingdom of Lusitania - Polydor / PolyGram (1990) Sitiados - Sitiados - BMG Ariola (1991) Pedro Abrunhosa & Bandemónio - Viagens - Polydor / PolyGram (1994) Vários - Filhos da Madrugada Cantam José Afonso - BMG Ariola (1994) Vários - Biografia do Pop/Rock - Movieplay (1997) The Gift - Vinyl - Edição de Autor (1998) Vários - Rock do Porto - 1965/1968 - Edisco (1998) Quinta do Bill - Best Of - Polydor / Universal (1999) Belle Chase Hotel - La Toilette des Étoiles - Norte Sul (2000) Tantra - Live Ritual - Edição de Autor (2003) Clã - Rosa Carne - Capitol / EMI Valentim de Carvalho (2004) Blasted Mechanism - Avatara - Mercury / Universal (2005) M'as Foice - Umas Fitas dos É Mas Foi-se - K7s Perdidas - Lux Records (2005) The Legendary Tiger Man - Masquerade - CDR Recordings / NorteSul (2006) UHF - Há Rock no Cais (reedição) - Farol Música (2006) Sheiks - Missing You - Integral 1965 / 1967 - Som Livre (2007) Wraygunn - Shangri-La - Som Livre (2007) Miosótis - Risco - Edição de Autor (2007)

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BIBLIOGRAFIA ALMEIDA, Luís Pinheiro e ALMEIDA, João Pinheiro, Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa, Lisboa, Círculo de Leitores, 1998 ALMEIDA, Luís Pinheiro e LAGE, Teresa, Beatles Em Portugal, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002 CARDOSO, Miguel Esteves, Escrítica Pop, Lisboa, Assírio & Alvim, 2003 (reed.) CORREIA, Mário, Música Popular Portuguesa - Um Ponto de Partida, Porto, Centelha/Mundo da Canção, 1984 DAUFOUY, Philippe e SARTON, Jean-Pierre, Pop Music/Rock, Porto, A Regra do Jogo, 1974 DUARTE, António A., A Arte Eléctrica de Ser Português - 25 Anos de Rock'n'Portugal, Lisboa, Bertrand, 1984 FERRÃO, Ana Cristina, Conta-me Histórias, Lisboa, Assírio & Alvim, 1991 FIGUEIRA, Augusto e CONTEIRO, Renato, Censurados Até Morrer, Lisboa, Sete Caminhos, 2006 GAROFALO, Reebee e CHAPPLE, Steve, Rock & Indústria, Lisboa, Caminho, 1989 GONZAGA, Manuela, Entre Braga e Nova Iorque, Lisboa, Âncora, 2006 JUNQUEIRA, Vítor, Narradores da Decadência, V. N. Famalicão, Quasi, 2003 MAIO, Luís, Afectivamente GNR, Lisboa, Assírio & Alvim, 1989 MESQUITA, Ana, Os Vês Pelos Bês, Parede, Prime Books, 2006 PARAIRE, Philippe, Cinquenta Anos de Música Rock, Lisboa, Pergaminho, 1992 PIRES, António, As Lendas do Quarteto 1111, Lisboa, Ulisseia, 2007 SIMÕES, José Manuel, Delfins, Mem Martins, Europa-América, 1998 VÁRIOS, Os Melhores Álbuns da Música Popular Portuguesa, Lisboa, Jornal Público/FNAC, 1998 Revista “Rock Em Portugal”, colecção completa do nº1 (Janeiro de 1978) ao nº 11 (Abril/Maio de 1979) Director: António José 225


MemĂłrias do Rock portuguĂŞs

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ÍNDICE Prefácio..............................................................................7 Agradecimentos................................................................9 Nota à 3ª edição................................................................11 O Rock português............................................................13 1 - No princípio era o “yé yé”.......................................... 2 - Os anos 70................................................................. 3 - O “boom” do Rock português.................................... 4 - Os anos 90................................................................. 5 - O século XXI............................................................. Biografias.........................................................................31 Ananga-Ranga..................................................................32 Aníbal Miranda.................................................................34 António Variações.............................................................36 Aqui D’El Rock................................................................38 Arte & Ofício....................................................................41 Beatnicks..........................................................................44 Conjunto Mistério.............................................................46 Croix Sainte......................................................................48 CTT...................................................................................50 Delfins..............................................................................52 Faíscas e Corpo Diplomático............................................57 Filarmónica Fraude...........................................................59 GNR..................................................................................61 Go Graal Blues Band........................................................65 Heróis do Mar...................................................................68 Hosanna............................................................................70 Iodo...................................................................................72 Jáfumega...........................................................................75 Jotta Herre........................................................................77 Kama-Sutra.......................................................................78 Linha Geral.......................................................................80 Mário Mata.......................................................................82 M’as Foice........................................................................84 Mler Ife Dada...................................................................86 NZZN...............................................................................88 Objectivo..........................................................................90 Ocaso Épico......................................................................92 227


Memórias do Rock português

ÍNDICE Opinião Pública................................................................94 Perspectiva........................................................................96 Peste & Sida......................................................................98 2004 - O Regresso dos Peste & Sida..............................100 Petrus Castrus.................................................................102 Os Plutónicos..................................................................104 Pop Five Music Incorporated.........................................106 Popeline Beije e FAS......................................................108 Psico................................................................................110 PSP..................................................................................1 12 Quarteto 1111..................................................................114 Quinta do Bill.................................................................116 Radar Kadafi...................................................................119 Rádio Macau...................................................................121 Roquivários.....................................................................123 Roxigénio........................................................................125 Rui Veloso.......................................................................127 Salada de Frutas..............................................................130 Sétima Legião.................................................................133 Shadows portugueses......................................................135 Sheiks..............................................................................136 Sitiados...........................................................................138 Tantra..............................................................................140 2003 - O Regresso dos Tantra.........................................143 Tártaros...........................................................................145 Taxi.................................................................................146 Trabalhadores do Comércio............................................148 UHF.................................................................................150 Xutos & Pontapés............................................................156 Revista “Rock em Portugal”........................................162 No Sabugal: Concerto com os Hosanna......................164 Godinho e Clã - As afinidades.....................................166 Entrevista com os Clockwork Boys e JC Serra..........168 Os melhores da Música Portuguesa em 1999.............171 Os melhores da Música Portuguesa no ano 2000.......173 Os melhores da Música Portuguesa em 2001.............176 Os melhores da Música Portuguesa em 2002.............179 228


Memórias do Rock português

ÍNDICE Os melhores da Música Portuguesa em 2003.............182 Curiosidade...................................................................185 Fotos de concertos.........................................................187 Capas de discos.............................................................188 Fotos de concertos.........................................................190 Memorabilia..................................................................192 Novas Biografias...........................................................193 Censurados......................................................................194 Conjunto (Académico) João Paulo.................................196 Crise Total.......................................................................198 Mão Morta......................................................................200 Os Claves........................................................................203 Os Ekos...........................................................................205 Pop Dell’ Arte.................................................................207 Street Kids......................................................................209 Memorabilia..................................................................21 1 Fotos de Concertos........................................................213 Capas de discos.............................................................216 Posfácio..........................................................................218 Discografia Básica do Rock português.......................220 Bibliografia....................................................................225 Índice..............................................................................227

229

Memórias do rock português em pdf 1 º volume  

Livro Memórias do Rock Português- 1.º Volume

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