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Paraíso brasileiro

FEVEREIRO/12 • Edição 32 • Ano IV • Distribuição gratuita

Queda no preço dos imóveis faz investidores nacionais trocarem Rio de Janeiro e São Paulo por Miami

Espetáculo de leveza e arte

Turbinas silenciosas

Os bastidores do Varekai, apresetação do Cirque du Soleil que encantou os mineiros

Após quase um ano de negociações sigilosas, Embraer inicia em março

operações em BH


Expediente

A Revista Vox é uma publicação mensal da Vox Domini Editora Ltda. Rua Tupis, 204, sala 218, Centro Belo Horizonte, MG, CEP: 30.190-060.

“... O povo que conhece o seu Deus se tornará forte e ativo.” (Daniel 11:32) • Editor e jornalista responsável Carlos Viana • Editora adjunta Sandra Carvalho • diagramação e arte Ilder de Oliveira • Capa Schutter.Stock • Reportagem André Martins Herique André Luíza Villarroel • ESTAGIÁRIOS Fernanda Carvalho Bianca Nazaré • CORRESPONDENTES Greice Rodrigues -Estados Unidos Ilana Rehavia - Reino Unido • diretoria Comercial Solange Viana • anúncios comercial@voxobjetiva.com.br (31) 2514-0990 • ATENDIMENTO jornalismo@voxobjetiva.com.br (31) 2514-0990 www.voxobjetiva.com.br • tiragem 30 mil exemplares Os textos publicados em forma de colunas, produzidos por colunistas convidados, expressam o pensamento individual e são de responsabilidade dos autores. Todos os direitos reservados. Os textos publicados na revista Vox Objetiva só poderão ser reproduzidos com autorização dos editores.

Editorial

CARLOS viana Editor-Chefe carlos.viana@voxobjetiva.com.br

O desafio de um novo tempo O leitor de Vox Objetiva está recebendo uma nova revista. Depois de três anos de experiência na produção de notícias e no acompanhamento dos principais fatos nacionais e do nosso estado, a Vox apresenta uma nova fase, com o aprimoramento no projeto gráfico e editorial. Foram vários meses de discussões e dezenas de modificações para chegarmos a um resultado que será um novo marco em nossa trajetória. Cores mais vivas e mais agradáveis à cultura brasileira, textos cada vez mais diretos e objetivos e o encantamento necessário das imagens feitas pelo que existe de mais talentoso em fotojornalismo. Nossas editorias ganharam novos títulos e novas seções, escolhidos como forma de representar a origem de nossa língua e de nosso pensamento intelectual, naturalmente influenciado pela cultura latina e pela visão própria de uma realidade construída pelos brasileiros. Verbo, Metropolis, Kultur, Salutaris e Vanguarda passam a compor nossas páginas. As versais foram idealizadas para trazer o que existe de mais moderno, polêmico e inovador no comportamento das pessoas. Também nesta edição estreamos o trabalho de correspondentes recém-contratadas. Ilana Rehavia, do Reino Unido, e Greice Martins, de Nova Iorque, são profissionais com grande experiência na produção de reportagens especiais. Elas têm a missão de nos apresentar todos os detalhes das notícias que marcam a vida dos que vivem fora do Brasil ou que estão cada dia mais curiosos em relação ao nosso cotidiano de país em crescimento. Portanto, estamos iniciando uma fase, mas mantendo a responsabilidade de levar até os leitores todos os fatos que marcam a história de Minas Gerais e dos que escolheram viver em Belo Horizonte. O compromisso do bom jornalismo permanece: seriedade, responsabilidade e a busca por uma isenção editorial cada vez mais completa.


MetrOpolIS • OLHAR BH

Tarde de verão na praça da Liberdade

Luíza Villarroel


sumário Embraer/Divulgação

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Sandra Carvalho

METROPOLIS.............................................. Embraer inicia operações em março

Após negociações sigilosas, escritório em BH começa a funcionar

Stock xng

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VERBO............................................................. Geologia: ciência que salva

Edézio Carvalho explica por que a capital mineira não tem áreas de risco

17 CapA................................................................................... Casa própria em Miami

Imóveis estão até três vezes mais baratos que no Rio de Janeiro e em São Paulo

Artigos.............................................................................

PSICOLOGIA • Maria Angélica Falci

POLÍTICA • Paulo Filho

Para os apaixonados pelo final de semana, o melhor é esperar a

Reforma nos ministérios sem corte de pastas e baseada na política dos aliados não resolve problema............

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“dura segunda-feira” com excelentes expectativas...............

CRÔNICA • Joanita Gontijo Conto dos pares imperfeitos: trajetórias dos

JUSTIÇA • Robson Sávio Greves das polícias demadam grandes reformas estruturais em segurança pública..........................................

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Eduardos e Mônicas da vida real..........................................

VINHOS • Folia cortês

Valor do aluguel pode segurar valor venal dos imóveis,

Uma boa companhia para quem quer sossego

METEOROLOGIA • Ruibran dos Reis Brasil precisa investir mais em energia eólica.......................

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SALUTARIS........................................................................

IMOBILIÁRIO • Kênio Pereira porque os salários não acompanharam o boom imobiliário....

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nos finais de semana...........................................................

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CAVALOS • Para não cair Mercado apresenta várias opções de selas com segurança, conforto e luxo.........................................................................

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Fernanda Carvalho

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METROPOLIS.............................................. CIDADE • Mémoria

Na cidade nacional do boteco, a história desses lugares se confunde com o cotidiano mineiro

Vinnícius Silva (www.vinniciussilva.com.br)

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Divulgação

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KULTUR..........................................................

CiNEMA • Metalinguagem

“O Artista” relembra cinema mudo e impressiona comissão do Oscar

Varekai que encanta Cirque Du Soleil confirma excelência diante dos mineiros com mitologia de Ícaro

SALUTARIS.................................................. ESPORTES • Pelo título do Mineiro

Configuração dos times revela misto de crise e esperança na competição local

Divulgação

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Vanguarda.............................................. VEÍCULOS • Range Rover Evoque

Compacto, novo utilitário da Land Rover traz novidades para o motorista urbano

Fernanda Carvalho


Notas Triunfal

Fim do visto ?

Ela andou desaparecida por conta de uma operação nas cordas vocais. A volta foi em grande estilo. Adele levou para casa todos os seis prêmios Grammy que disputava. “Muito obrigada. Isso é ridículo!”, soltou a inglesinha de 23 anos com um sorriso. Com o sucesso “Rolling in the deep”, a “princesa do soul” provou que, sim, ela está recuperada.

A Embaixador dos Estados Unidos colocou em prática algumas medidas que reduziram em quase 60% as filas de brasileiros em busca de um visto para a entrada no país. O prazo para a revalidação do documento, sem a necessidade de uma nova entrevista, agora será de até quatro anos após o vencimento. A decisão reduziu de 45 para menos de 15 dias os agendamentos. As idades isentas de entrevistas também mudaram. Agora os adolescentes com até 16 anos de idade podem ser representados pelos responsáveis nas representações diplomáticas. Os idosos que têm mais de 65 anos também foram favorecidos com o mesmo benefício. Antes, somente menores de 14 e maiores de 80 anos eram dispensados. Ainda de acordo com a Embaixada, o índice de negativas caiu pra 5% do total de pedidos. Pela legislação americana, os brasileiros fazem jus ao benefício da isenção do visto para a entrada nas terras do Tio Sam. A decisão agora é política. Depende apenas do presidente Barack Obama.

Vazou na rede Saúde Cientistas descobriram uma proteína que destrói a estrutura do HIV. A proteína (SAMHD1) estaria presente em células responsáveis pela defesa do organismo. O estudo publicado na revista Nature Immonology concluiu que as células compostas por essa proteína não ficam infectadas pelo vírus. O estudo vai servir como base para a criação de mais medicamentos.

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Os vereadores de Belo Horizonte mantiveram o veto do prefeito Marcio Lacerda sobre o projeto de aumento salarial de 62% pretendido para a próxima legislatura. Não se sabe ao certo se o recuo ocorreu por pressão popular ou mero oportunismo político. No dia seguinte ao da votação, um vídeo de pouco mais de um minuto que mostra uma discussão entre colegas da casa vazou na internet. Na gravação, a vereadora Neusinha Santos ironiza a oposição, e o colega Leonardo Mattos, defensor do veto, confessa que a postura era premeditada e visava a sua permanência no poder.


ANÚNCIO


VERBO

O preço que se paga por ignorar a ciência Desconhecimento sobre a natureza geológica é o principal causador de tragédias envolvendo edificações nas grandes cidades Sandra Carvalho Nesta época do ano, com a ocorrência de fortes chuvas, assistimos em nossa cidade à erosão da terra provocada pela água, às grandes enchentes, aos desmoronamentos de encostas, a rochas rolando morro abaixo e vemos até prédios, em bairros nobres da capital, tidos como edificações sólidas e de grande valor de mercado, vindo a baixo. Seria culpa da natureza, que não dá trégua? A natureza seria responsável sim, mas em parte. A outra parcela de responsabilidade é mesmo do homem, que desconhece a geologia.

rizonte. Ele dá exemplos com bons resultados nesse sentido. O geólogo faz duras críticas às leis que regem o uso e a ocupação do solo, como o Código Florestal. Ele também polemiza, ao afirmar categoricamente que não há áreas com risco impeditivo de ocupação no território da capital mineira, embora a Companhia Urbanizadora de Belo Horizonte (Urbel) aponte, em estudo de 2009, cerca de 3,8 mil áreas com risco geológico. “Temos terrenos que, se forem corretamente trabalhados e corrigidos com base no conhecimento sobre a geologia local, podem sim ser ocupados com segurança”.

A humanidade é analfabeta em se tratando de geologia

Essa é uma das linhas de pensamentos fundamentados na ciência defendidas pelo geólogo e mestre em geologia da engenharia pela Universidade Nova de Lisboa, Edézio Teixeira de Carvalho. Segundo ele, não existe sobre a Terra nenhum processo que não seja geológico. Na entrevista a seguir, o consultor em geologia, autor de vários estudos em Minas, e ex-diretor do Instituto de Geociências (IGC) da UFMG explica que o homem não pode evitar determinados desastres naturais, mas tem como fugir deles e trabalhar melhor as áreas a serem habitadas. Basta saber ocupar o lugar certo, da maneira certa e de acordo com a geologia do local. Carvalho propõe soluções que nem sempre têm o respaldo da legislação para tornar áreas de risco habitáveis na Região Metropolitana de Belo Ho10

Vox: Professor, um mapeamento da prefeitura revela a existência de cerca de 3,8 mil moradias em áreas de risco geológico na capital. Por que o senhor defende a tese de que não há áreas de risco em Belo Horizonte? Edézio Teixeira de Carvalho - Na verdade, a Região Metropolitana tem áreas de risco sim. O que não há são áreas de risco impeditivo de ocupação, como terrenos em regiões vulcânicas e de ocorrências de terremotos, por exemplo. Então você pode ocupar qualquer área na Grande BH, desde que você trabalhe corretamente para erguer ali uma edificação. Isso significa levar em consideração as características geológicas. Você tem que erguer uma edificação compatível com o solo. Se você


Sandra Carvalho

VERBO

fizer isso, não há impedimentos. Há um exemplo mundialmente conhecido de uma grande construção em uma área que seria considerada de risco: o Palácio de Potala, no Tibet. A construção ocorreu no alto da montanha de Potala, no século XV, para ser habitada pelos Dalai Lamas. Mesmo tendo sido erguido no topo, o Potala está lá até hoje, intocável. Por quê? Porque muito provavelmente foi construído levando em consideração a característica geológica. Talvez, na época, conseguiram isso por intuição. Outro exemplo é Machu Picchu, no Peru: uma cidade feita no topo da montanha. Numa época em que em cada esquina há um prédio em construção, o conhecimento geológico é valorizado? Nem sempre. Aliás, pode-se dizer que a humanidade é analfabeta em questão de geologia. Dou um exemplo: recentemente eu vi uma notícia de que a Justiça determinou a demolição de um hotel em Campos do Jordão (SP) simplesmente porque o empreendimento ocupa uma área de topo, e a lei não permite isso. Ora, essa decisão é uma ignorância, caso a construção tenha obedecido aos princípios geológicos. Nas tragédias de Teresópolis e Nova Friburgo (RJ), no ano passado, foram exatamente as áreas de topo que escaparam. A legislação defende o topo e a beira de rio das ocupações, mas o problema maior pode estar na meia-encosta. Ou seja, mais uma vez o desconhecimento pauta a legislação e, por sua vez, as leis ditam as regras das construções.

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Há exemplos na Grande BH de como intervenções geológicas podem ajudar a ocupar áreas de risco? Sim. O Brasil tem inúmeras áreas degradadas chamadas voçorocas. Somente em Contagem existem 86 voçorocas. Nós trabalhamos algumas delas. São nascentes que nós, geólogos, chamamos de tecnogênicas, resultantes do processo de degradação do solo. A erosão foi escavando, escavando até dar de cara com o lençol freático. Dali sai um filete d’água. Essas nascentes são sagradinhas na legislação brasileira. Não se pode tocar nelas. No entanto, são uma espécie de sangria precoce da terra. Aquela água que sai dali está dando tchauzinho pra gente. Está deixando o melhor abrigo natural, que é o sistema geológico, para enfrentar vicissitudes, como evaporação precoce, contaminação e sua chegada precoce ao mar. Nos casos das voçorocas, a água está sendo claramente desperdiçada na função ambiental correspondente a sua passagem pelas

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VERBO

É a lei jogando contra? É o desconhecimento jogando contra. Nossas leis são construídas sem aprofundar o conhecimento geológico. Exemplo disso é o nosso Código Florestal. Se nós o aplicarmos rigorosamente nas cidades brasileiras, você vai acertar em alguns casos e errar em muitos outros. Vai tirar a possibilidade de edificação em áreas seguras e jogar para áreas não seguras.

Fotos Edézio Carvalho/Divulgação

Erosão na BR-356. Prejuizo provocado pela enxurrada. .........................................................................................................................

áreas continentais. Daí esse recurso hídrico fica muito reduzido. Na realidade, trata-se de uma sangria da terra extraordinariamente desastrosa para o planeta. Mas os “pretensos amigos da água” não entendem isso. Não entendem que a intervenção pode, inclusive, salvar aquela água. Se utilizássemos mais águas originárias de aquíferos, por captação subterrânea, seríamos naturalmente mais exigentes quanto a sua proteção.

Já que tocou no assunto Código Florestal, como o senhor vê a nova legislação? Não mudou praticamente nada, no que se refere à fundamentação científica da lei. O conhecimento geológico não é levado em consideração. Mudou pouca coisa, como a largura da faixa de preservação permanente. Houve brigas imensas por causa de coisas de pequeno significado geológico. Muito melhor seria se o código estabelecesse percentuais mínimos não só de preservação, mas de recuperação da cobertura vegetal no Brasil, conforme a área geográfica em que isso se encontra. Seria ideal que entregasse à ciência a definição desses locais. Aplicar legislação única em um território tão grande e com características geológicas tão diferentes não pode dar certo. Cada região tem um caráter, suas especificidades. Dispensam e proíbem a ciência. Isso é muito triste.

Dispensam e proíbem a ciência. Isto é muito triste.

Mesmo com a existência das leis, há intervenções geológicas nessas áreas? E é possível, em alguns casos, obter autorização para atuar sobre algumas dessas voçorocas, para promover o seu preenchimento com entulho e fazer a água voltar naturalmente ao lençol. Com isso, torna-se possível construir edificações sobre essa espécie de aterro, sem correr riscos. Isso foi feito com sucesso em algumas áreas de Contagem e, mais recentemente, em Belo Horizonte. Entretanto, algumas dessas áreas ainda não são usadas para moradia. Mas o processo para aprovar a reabilitação dessas áreas leva até seis meses. É algo que funciona e ajuda a natureza.

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O senhor participou, em 1993, de um diagnóstico da Prefeitura de Belo Horizonte sobre áreas de risco da cidade. O estudo, naquela época, classificou em um grau de dois e três, em uma escala de quatro, a área do bairro Buritis, onde um prédio desabou e comprometeu outras edificações. Diante do conhecimento prévio, o desabamento poderia ter sido evitado? Não gosto de comentar casos que estão sub judice. O estudo classificou aquela área como de risco, mas isso não seria um impeditivo de construir. A prefeitura deve ter liberado construção ali, considerando médias ponderadas resultantes de deliberações de vários especialistas. A meu ver, a falha pode estar no tipo de construção. Naquele tipo de terreno, de encosta, o modelo de assentamento seria


VERBO

uma edificação de porte maior. Em vez de construir um edifício de três andares e seis apartamentos, por exemplo, fazer um de 20 andares, com 80 apartamentos. Num edifício maior, você tem um investimento maior em contenção e fundação.

Fábio Rodrigues PozzebomABr

Então o erro teria sido de engenheiros? Talvez de engenheiros, de construtores, da legislação e do poder público. Tudo por absoluta falta de conhecimento geológico. Mas, como eu disse, não gosto de comentar casos sub judice. Ainda falando da capital, como está a situação geológica da cidade em relação às áreas de risco? Belo Horizonte já teve situações piores. O que chama a atenção hoje é terem ocorrido episódios em áreas mais valorizadas, como o acontecido no Buritis. Mas, se voltarmos aos anos 60 e 70, vamos entender o que Ariano Suassuna quis dizer sobre a cultura média com a frase “depois de corrigir o evidente, você entra no menos evidente”. Houve problemas gritantes, como a parte alta da Raja Gabáglia e o lixão de Santa Sofia, desocupado na década de 80. Estes dois problemas foram, em grande parte, sanados. Mas a cidade precisa entrar agora na segunda etapa e começar a agir nos problemas menos evidentes. A geologia é uma ciência antiga. Fala-se dela no Egito antigo. Por que o ser humano insiste em ignorá-la? O assunto é pouco divulgado. É preciso ler a terra para entender como ela funciona geologicamente. Isso vai salvar o mundo de todas as grandes catástrofes? Não. Não vai. Mas pode instruir o homem a ocupar regiões mais seguras ou a atuar em regiões de risco para que fiquem seguras. Pode ajudá-lo a reduzir danos de ações inevitáveis da natureza. É uma ciência ignorada tanto pelo cidadão comum quanto pelas autoridades. Trata-se de um conhecimento que deveria ser iniciado na educação infantil. Porém, por ignorância, convenções, leis malfundamentadas, isso não acontece. Infelizmente, há apenas duas ou três licenciaturas na área no país. Assim fica difícil introduzi-la na escola. Isso ocorre em todo o mundo? Sim. No entanto, o desenvolvimento da geologia está presente em todos os cantos. O Brasil, inclusive, é destaque e conseguiu fazer descobertas que nenhum país conse-

Aterro de resíduos contido na Região Metropolitana de BH .........................................................................................................................................................

guiu. O Pré-Sal é uma façanha de geólogos brasileiros, que também conseguiram descobrir petróleo no campo de Majnoom, no Iraque, onde várias potências tentaram fazer isso e não obtiveram êxito. Apesar de tudo, o Brasil peca por não divulgar a geologia. Se você aprende sobre as características geológicas da cidade onde vive, dificilmente vai ocupar uma área de risco. Na Europa, esse conhecimento é mais divulgado. Em potências como o Japão – país que tem sido atingido por grandes terremotos e tsunamis, mas possui grande conhecimento geológico – como essa questão é tratada? Eu admiro muito o Japão, no que se refere ao conhecimento geológico. Mas o país cometeu um grande erro há muito tempo e pagou caro em 2011. Perdeu 20 mil vidas por uma absurda falta de atenção com a geologia que é tão conhecida lá. Terremotos e tsunamis assolaram o país recentemente. É preciso lembrar que, em 1896, o Japão perdeu 26 mil pessoas em um acidente idêntico, da mesma forma. Há mais de cem anos, isso aconteceu e deu informações aos japoneses sobre as características geológicas locais. Poderiam ter tomado iniciativas, como não ocupar com habitações a orla baixa atingida naturalmente por tsunamis. Sabendo das possibilidades, o país poderia ter ao menos trabalhado para minimizar os danos, caso o fenômeno voltasse a acontecer, mas não o fizeram. Encararam como uma espécie de fatalismo.

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ARTIGO - POLÍTICA

pAULO fILHO Jornalista e consultor de Comunicação Social paulojfilho@ig.com.br

Reforma sem mudança é igual a remendo Mesmo fazendo uma pesquisa nas informações disponibilizadas no endereço eletrônico do governo federal, não acho seguro cravar o número de ministérios do atual governo. Com a designação “ministérios” aparecem 24 órgãos e, com outros nomes, mas com status igual, são mais 15: nove secretarias da presidência e seis instituições ou entidades: Advocacia-Geral da União, Banco Central, Controladoria-Geral da União, Casa Civil, Defensoria Pública da União e Gabinete de Segurança Institucional. Então são 39 os “ministérios” responsáveis pela administração e pela implementação de políticas públicas no país. Desnecessário para uma administração eficiente, é um número demasiado que mais atrapalha do que ajuda.

e da Integração Nacional. Uma olhada mais de perto, mais minuciosa, sem dúvida pode reduzir o número de ministérios para menos da metade. Com essa estrutura de 39 “ministérios”, fica evidente que a preocupação do governo é muito mais com o jogo político do que com uma administração eficiente.

Como mostra a história, a única preocupação é com a conquista do poder

Para dar um exemplo, é difícil entender a existência dos ministérios da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), do Desenvolvimento Agrário (MDA) e da Pesca e Aquicultura (MPA). Sem fazer muito esforço, dá para juntar os três numa pasta e tocar o barco. A pasta da Justiça pode muito bem cuidar de Direitos Humanos, da Igualdade Racial e de políticas especiais para mulheres. E por que a existência de uma Casa Civil e de uma Secretaria de Relações Institucionais? A mesma pergunta serve para os ministérios das Cidades

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Como mostra a história, a única preocupação é com a conquista do poder e, a posteriori, com a manutenção desse “status quo”. Quem chega lá não quer largar o osso de jeito nenhum e faz de tudo para ficar. Eles se esquecem até de convicções ideológicas com muita facilidade. Passam a compor e a se aliar com qualquer partido que facilite sua permanência no poder.

Por isso, além de pragmatismo, não se deve esperar muita coisa da anunciada reforma ministerial do governo Dilma. Para ser minimamente séria, qualquer reforma no governo federal, nesse momento, deveria ter como alvo o modelo adotado e começar por uma redução do número de ministérios. Assim, além da óbvia redução de despesas, o resultado daria mais centralidade, objetividade e foco às ações do governo. Mas o que se observa é a montagem totalmente vinculada ao controle político do Congresso. Neste ponto, as oligarquias


Artigo - POLÍTICA

Fábio Rodrigues PozzebomABr

São pelo menos 39 pastas, em Brasília. Número que poderia ser reduzido pela metade. ..............................................................................................................................................................................................................................................................

e o coronelato, as “lideranças políticas” imortais se apoderam da máquina pública. Quantos ministérios tem o Sarney? E o Renan? E os partidos e políticos oriundos da Arena? E os novos coronéis, como Eduardo Campos e os irmãos Gomes? Na miscelânea indigesta que é o governo federal lulopetista, os cargos são preenchidos pelo viés da cooptação, da supressão de possíveis quadros da oposição, pela segurança de garantir a aprovação de qualquer matéria enviada ao Congresso – indiferentemente que seja de interesse do país ou não – e, principalmente, pela garantia de que não ocorram investigações no governo. No primeiro ano do governo Dilma, nove ministros deixaram seus cargos, sendo que sete deles foram fulminados por denúncias de corrupção. Além destes, dois subiram ao cadafalso - Bezerra e Pimentel, mas ainda se sustentam como mortos-vivos.

No início de 2012 foi o ministro da Fazenda, Guido Mantega, quem entrou na roda, com as denúncias de corrupção na Casa da Moeda. Afinal: a simples troca desses ministros não seria suficiente para configurar uma reforma no ministério? A princípio, sim, mas nada mudou. Tal como feudos, os cargos de ministro continuaram na mão dos senhores e partidos, o que garante a continuidade das práticas nefastas. Passa a impressão de que, desde o governo Lula – no qual a presidente também foi ministra e a grande coordenadora, o critério para a escolha de nomes seja a ficha-suja. Visto por esse ângulo, não é difícil prever que essa tão propalada reforma tende a ser apenas um remendo que tape provisoriamente os rombos na imagem do governo, causados pelas denúncias de corrupção e as consequentes quedas de ministros.

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Artigo • Justiça

ROBSON SÁVIO REIS SOUZA Filósofo especialista em segurança publica robsonsavio@yahoo.com.br

Greves de policiais demandam reformas na segurança pública Nos últimos anos ocorreram dezenas de greves de policiais em vários estados. Foram 150 greves organizadas por policiais civis, 34 por policiais militares (incluindo bombeiros), 18 por policiais federais, 22 por guardas civis e 60 por agentes penitenciários. Nesse período, somente Amapá e Amazonas tiveram uma greve cada. Na Bahia foram 14. Em São Paulo, 17. Essas greves explicitam a falência do sistema de justiça criminal.

sociedade incomodada com as altas taxas de crimes e com a ineficiência de todo o sistema de justiça criminal. Mesmo depois da redemocratização, as instituições policiais não superaram os modelos tradicionais de policiamento ostensivo e de polícia judiciária. Nos últimos anos, a sociedade brasileira mudou muito. A ação policial, porém, está fundada em antigos pressupostos, alguns dos quais incoerentes com a ampliação democrática do país.

Reformas estruturais de todo o aparato de Justiça criminal são impostergáveis

Vejamos alguns elementos que minaram temporariamente uma ampliação das greves das polícias: (a) pressão popular contrária ao movimento na Bahia e no Rio, com repercussões nacionais; (b) discurso afinado e firme dos governos federal, da Bahia e do Rio (com explícito apoio de outros governadores), condenando atos de vandalismo provocados por policiais, associados à forte intervenção das Forças Armadas; (c) mídia francamente contrária ao movimento; (d) associação simbólica sendo construída no imaginário social e mostrando um paradoxo: defensores da lei que utilizavam mecanismos e táticas comuns aos criminosos; (e) deslegitimação de algumas lideranças grevistas que aparentemente começaram a utilizar estratégias antidemocráticas; (f) divisão entre distintos interesses corporativos das duas polícias e (g) baixa legitimidade das instituições policiais numa

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A competição entre as duas corporações torna a atividade policial onerosa e pouco eficiente. As políticas de enfretamento das drogas (motor da criminalidade violenta nos últimos anos) são insuficientes, desarticuladas e equivocadas. De maneira geral, tais políticas estão centradas quase que exclusivamente na “guerra contra as drogas”, sem atentar para o tratamento dos dependentes.

A falta de transparência dos dados de segurança pública dificulta a produção de bons diagnósticos sobre as diferentes modalidades de crime. O quadro provoca a inibição do planejamento eficiente de prevenção. Reformas estruturais de todo o aparato de Justiça criminal, especialmente do sistema de segurança pública, são impostergáveis.


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MetrOpolIS • CAPA

O sonho da casa própria nos EUA Imóveis com preços até três vezes mais baixos que no Brasil atraem compradores tupiniquins e aquecem o mercado imobiliário americano

Greice Rodrigues Correspondente em Miami (EUA) O Brasil é o novo queridinho da América. E nao é difícil entender os motivos desse encanto. Com os bolsos cheios de dólares, favorecidos pelo bom momento econômico que o país vive, os brasileiros estão fazendo a festa nos Estados Unidos. E a diversão não se limita a passeios pelos disputados parques da Disney. Eles agora estão comprando casas, apartamentos e condomínios de luxo em regiões nobres no Sul da Flórida (EUA). A maioria em Miami e a preços bem abaixo dos encontrados em cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro. Sai em média por US$ 250 mil (cerca de R$ 428 mil) um apartamento ou uma casa com bom espaço e em ótima localização. Está tão em conta, que a maior parte

dos compradores paga à vista. O volume de negócios feitos por brasileiros nos EUA é tão expressivo que o Brasil ocupa a segunda posicão no ranking dos principais compradores internacionais, superando Inglaterra, França e Alemanha. E o rítmo das vendas continua acelerado. Dados da Miami Association of Realtors (MAR), a Associação de Corretores de Imóveis de Miami, atestam esse fenômeno. Em 2010, 9% das vendas internacionais foram para brasileiros. Em 2011, a participação do Brasil no mercado aumentou para 12%, superando o Canadá. “A expansão da economia brasileira e a valorização

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MetrOpolIS • CAPA

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da moeda têm favorecido esses investimentos. E a escolha por Miami nao é casual. Além da acessibilidade em relação ao mercado mundial e da beleza e do clima sempre agradável, a cidade oferece uma diversidade cultural que propicia um estilo de vida emocionante para quem aqui vive”, afirma Martha Pomares, presidente da Miami Association of Realtors. Isto, sem se esquecer, é claro, de benefícios importantes. A segurança pública é um deles. A sensação de proteção permite às pessoas usufruírem de seus bens de forma plena. Ninguém aqui precisa se preocupar, por exemplo, em blindar seus carros ou deixar de usar o Rolex, por medo de assaltos. Os efeitos dessas vendas têm deixado empresários e profissionais que atuam no mercado imobiliário americano bem otimistas. Pelo menos na Flórida. “Aqui o mercado vem se recuperando mais rápido, por causa dessas vendas. O volume negociado estabeleceu um novo recorde. São números que superam o boom imobiliário de 2005. Cerca de 60% dos negócios fechados em 2011 foram com compradores estrangei-

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ros”, afirma Martha Pomares. “Em 2011 foram vendidos 24.929 imóveis, contra 24.025 negociados em 2005”. O corretor de imóveis Luciano Tedesco trabalha há sete anos nesse mercado. O profissional contabiliza bons resultados. Ano passado ele vendia até três imóveis por mês para clientes do Brasil. Uma dessas vendas foi uma casa com sete quartos ao preço de US$ 4 milhões (R$ 6,84 milhões), em Golden Beach. A outra, um apartamento com três dormitórios por US$1,6 mihão (R$ 2,73 milhões), em Sunny Isles. São duas privilegiadas regiões da Flórida. E Luciano cita um novo empreendimento em Cooper City: um condomínio fechado, com estrutura de resort e toda segurança. “Ideal para quem mora no Brasil e precisa deixar o imóvel fechado por longos períodos”, diz Tedesco. Dois brasileiros “agradaram” do projeto. Um comprou uma casa com quatro quartos por US$ 450 mil (R$ 769,5 mil). O outro, uma residência menor, de três dormitórios, por US$ 280 mil (R$ 478,8 mil). Otimista, o corretor prevê


MetrOpolIS • CAPA

um ano ainda melhor. “Só em janeiro e até a metade de fevereiro, ultrapassei a marca dos três imóveis por mês”, comemora. Para Laerte Temple, diretor-superintendente do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo (Secovi-SP) e membro do Comitê Executivo do Consórcio Internacional de Associações Imobiliárias (Icrea), o mercado americano começa a viver um novo momento de euforia. “Hoje excelentes imóveis são comprados na Flórida a preços mais baixos que nas principais cidades ou praias brasileiras”, afirma Temple. De fato, a diferença é significativa. É possível adquirir um imóvel com vista para o mar por até US$ 4 mil (R$ 6,84 mil) o metro quadrado. “Por esse preço, em cidades como Rio ou São Paulo, encontram-se imóveis só em bairros periféricos; longe, muito longe do mar”, afirma Temple. No início de fevereiro, o FipeZap (índice nacional da Fipe que mede preços de imóveis) divulgou um indicador que avalia as alterações no mercado imobiliário brasileiro. O índice evidenciou esse contraste. São Paulo e o Rio de Janeiro, os dois mercados imobiliários mais importantes do Brasil, têm o metro quadrado mais caro. No Rio, o custo médio é de R$7,589 mil. Em São Paulo, R$6,135 mil. Mas se for em regiões nobres, como o Leblon (RJ) ou no eixo Ibirapuera-Vila Nova Conceição (SP), o preço dispara. No bairro carioca, o valor chega a R$17,328 mil, ou seja, quase três vezes mais. Na região paulistana, salta para R$ 9,644 mil. De acordo com o estudo da FipeZap, o custo médio do metro quadrado em sete capitais pesquisadas, incluindo Belo Horizonte, é de R$6,267 mil. O “repentino” interesse dos brasileiros pelo mercado imobiliário americano se deve ao baixo preço dos imóveis. A desvalorização é consequência da crise econômica. Desde 2007, o problema afeta o mercado imobiliário americano. O aumento da inadimplência provocado pelas altas taxas de juros e pela dificuldade de refinanciamento dos contratos hipotecários levou milhares de americanos a perderem suas casas. A situação também afetou construtoras, que tiveram centenas de contratos com clientes cancelados. Além disso, dezenas de projetos de novos empreendimentos foram engavetados. A avalanche de eventos desfa-

voráveis elevou o estoque de imóveis no mercado. A consequência direta foi uma drástica queda nos precos. “Com isso, casas que valiam US$ 500 mil, por exemplo, Artesia Gallery Bari

O metro quadrado de imóveis com vista para o mar custa R$ 6,84 mil ..................................................................................................................................

passaram a ser vendidas pela metade do preço. Em alguns casos, o ‘desconto’ foi de até 70% do valor”, afirma Frank Gomes, diretor da Ironbound Realty Professionals – uma agência de imóveis em New Jersey (EUA). Para Gomes, ainda não há motivos para comemorar. “O estoque de imóveis permanece muito alto. Há volume para os próximos cinco anos. Este é o tempo estimado para durar essa crise”, diz. RISCOS DO INVESTIMENTO Investir no mercado externo é um negócio que também envolve riscos. Mas, no caso americano, é a expectativa por dias melhores que tem atraído investidores de várias partes do mundo. Na avaliação de Temple, do Secovi, muitos desses compradores entendem que a economia americana vai se recuperar em poucos anos. Inclusive, a relação entre o dólar e o real. “É um país tradicionalmente estável e com inflação baixa. As possibilidades de ganhos no mercado imobiliário americano para quem comprou ’na baixa’ são enormes”. Mas ele recomenda cautela: “é importante procurar ajuda jurídica e de uma empresa especializada. Há mui-

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tas regras que devem ser conhecidas, como taxas e impostos altos que devem ser pagos. Para o comprador brasileiro é melhor adquirir imóveis como pessoa jurídica”, esclarece. Uma coisa é clara: o interesse dos americanos em manter as portas escancaradas para os brasileros é inquestionável. Quase todas as empresas de vendas de imóveis agora têm funcionários com o português na ponta da língua, prontos para

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atender os brasileiros. Fenômeno semelhante ocorre nos shoppings, os chamados Malls, de Miami. Em muitos deles, as vendedoras estão estudando língua portuguesa para atrair e atender melhor a essa clientela, que é cada vez maior no Balneário. Por lá, o popular “hi” vem sendo trocado pelo “oi”, assim mesmo, em bom português. Pelo que se vê, agora só falta o red carpet, ou melhor, o tapete vermelho!


Artigo • IMOBILIÁRIO

kÊNIO DE SOUZA PEREIRA Presidente da Comissão de Direito Imobiliário da OAB-MG keniopereira@caixaimobiliaria.com.br

Valor do aluguel vai segurar preço de venda Durante décadas, o aluguel no Brasil correspondia a 1% do valor venal do imóvel. Mas uma pesquisa da Câmara do Mercado Imobiliário (CMI) e do Sindicato das Empresas do Mercado Imobiliário de Minas Gerais (Secovi-MG) revela que o cenário mudou. De 2004 a 2011, o preço médio do apartamento em Belo Horizonte passou de R$ 94 mil para R$ 309 mil. O aumento corresponde a uma valorização de 228,7% nesse tipo de imóvel. A valorização efetiva mensal do apartamento no mesmo período foi de 1,27%. Este percentual representa uma elevação de 0,28 ponto percentual ao mês em relação ao juro do CDI, que chegou à valorização mensal de 0,99%. Taxas de juros nesses patamares são pagas somente a grandes investidores. Ocorre que o preço dos terrenos aumentou 600% no mesmo período. Por sua vez, prédios comerciais superaram 400% em três anos. Na capital, tornou-se comum presenciar a demolição de casas para a construção de edifícios de alto padrão. Esta foi a saída diante da ausência de áreas livres com menor coeficiente de aproveitamento.

zada no período de janeiro a julho de 2011, os imóveis de menor valor valorizam 9% ao ano. Os imóveis com valor acima de R$500 mil recebem um incremento de 22% no seu valor. Contudo, ocorreu uma queda de 30% nos lançamentos de imóveis de até R$ 250 mil. RAZOABILIDADE Os salários não acompanharam os preços do mercado imobiliário. A compra de imóveis foi turbinada pelo financiamento imobiliário, mas esse mecanismo não é aplicável a pessoas que pagam aluguel.

O valor dos imóveis vai continuar a subir. Mas o preço do aluguel não acompanha essa ascensão

O cenário continua favorável. A instabilidade econômica mundial e a baixa rentabilidade dos produtos financeiros mantêm o estímulo ao investimento em imóveis. O valor do metro quadrado construído impulsiona o preço do imóvel usado. E o custo real da construção dificulta qualquer queda expressiva de preço no curto prazo. Segundo pesquisa do Instituto de Pesquisas Econômicas Administrativas (Ipead) reali-

Tomando-se por base um apartamento novo de três quartos, na Zona Sul de Belo Horizonte, a situação fica a seguinte: o valor do imóvel gira em torno de R$1,2 milhão, e o do aluguel, R$ 4,8 mil. O que o proprietário recebe pelo aluguel do imóvel corresponde a 0,4% do valor do bem. Este cenário tem motivado uma reflexão sobre a relação custo-benefício do investimento. O retorno passa a ser frustrante.

O valor dos imóveis vai continuar a subir em patamares próximos ao da inflação, porque nada muda no curto prazo. Por outro lado, o preço dos aluguéis não acompanha a ascensão exagerada do valor venal. Este fato contribui para a mudança do cenário no decorrer dos próximos meses. E a situação se agrava no momento em que está prevista a entrega de centenas de unidades em locais que vão oferecer um volume de oferta acima do que o mercado pode absorver.

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Metropolis • Cidades

São José dos Campos que se cuide Após quase um ano de negociações sigilosas, Embraer inicia em março operações de escritório regional em BH; até dezembro serão contratados 100 engenheiros para pensar e desenvolver projetos aeroespaciais Carlos Viana Sandra Carvalho General Aníbal, nascido no ano 280 a.C., é um personagem da história que até hoje instiga grandes estrategistas de guerra. Uma de suas mais importantes armas nas batalhas que travou para vencer os romanos, na época grandes dominadores do Mediterrâneo, foi o sigilo. Um dos épicos mais famosos do general foi a capacidade de partir da Hispânia transportado por centenas de elefantes, atravessar os Pirineus e os Alpes até atingir o norte da Itália e lá vencer por várias vezes os romanos, em grandes batalhas campais, como a do lago Trasimeno ou Canas. Mais inteligente ainda e também se valendo do sigilo, o Senado romano decidiu terminar com as forças de Aníbal, atacando a terra natal dele, Cartago, finalmente derrotada por Públio Cornélio Cipião Africano, na Batalha de Zama. Quase 2.500 anos depois, as grandes guerras modernas estão cada vez menos comuns nos campos de batalha e bem mais frequentes na disputa por investimentos que garantam tecnologia e conhecimento. No entanto, as táticas e os fins de cada uma podem ser similares aos das guerras da antiga Roma. O sigilo, por exemplo, é estratégia presente nos dias de hoje e, assim como para Aníbal e os romanos, o botim aos vitoriosos significa faturamento, empregos e dinheiro para manter a sobrevivência e o desenvolvimento de uma cultura. A analogia histórica serve para ilustrar um feito ocorrido recentemente em Minas: a vinda da Embraer

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para o Estado. Diante da guerra fiscal que tem sido travada pelos Estados brasileiros em busca de investimentos, é plenamente justificável o silêncio em torno das negociações entre o governo de Minas e a terceira maior exportadora brasileira, líder na fabricação de jatos executivos e aeronaves comerciais de até 122 assentos. A empresa decidiu ampliar o número de escritórios e buscou um parceiro que pudesse atender a requisitos de logística e de capacidade de formação de mão obra especializada. Coincidentemente, Minas Gerais elaborou um projeto macro para se transformar na primeira aerotrópole da América Latina. O Estado acabou sendo o principal foco de interesse da empresa. E em abril de 2011, a Embraer iniciou negociações com o governo do Estado. O protocolo de intenções foi assinado em novembro último, com pouco alarde, e as operações da empresa por aqui se iniciam em março. Mas, antes de detalhar sobre como será o funcionamento da Embraer em Minas, a Vox Objetiva aborda assuntos de bastidores. São informações que descrevem o contexto que favoreceu a escolha de Minas como foco de expansão da Embraer. Seguindo o velho e bom estilo mineiro, o sigilo foi o ponto alto dasnegociações entre empresa e Estado, ao longo do ano de 2011. Segundo fontes seguras ligadas às negociações, nos últimos dez anos, a fabricante de aeronaves vem travando batalhas internas. Tudo começou em 1999, quando dois jatos ERJ 145 foram sabotados. Nessa época, a empresa iniciou um grande processo de segu-

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rança interna e de vigilância em torno dos novos projetos e das áreas onde são produzidos os aviões. Dois chicotes elétricos foram cortados nos jatos que estavam em fase de finalização. O resultado das investigações não foi divulgado e a decisão de colocar câmeras internas gerou muita polêmica com os sindicalistas. Diante do crescimento dos pedidos em carteira e da importância que assumiu nas concorrências internacio-

poderiam causar entre clientes e acionistas. Uma das decisões incluiu a transferência do escritório de novos projetos para outras cidades, até mesmo para fora, em países como Cingapura e Índia. Porém, a oportunidade de expansão no Brasil, mas fora do centro nervoso de São José dos Campos, surgiu após o governo de Minas anunciar o plano de trans-

nais, outro fantasma também passou a rondar a Embraer. Os principais rivais começaram a investir alto em contratar e colocar em serviço espiões industriais que pudessem ter acesso a informações estratégicas dos negócios. A fabricante brasileira se viu diante de uma fragilidade interna preocupante por conta dos prejuízos que um acidente ou um malfuncionamento das aeronaves

formar o Estado na maior aerotrópole da América Latina. O projeto macro de Minas caiu como uma luva nos planos da Embraer, principamente porque o Estado dispõe de mão de obra qualificada. Em Belo Horizonte, há pelo menos três instituições de ensino que oferecem cursos na área: Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o Centro Universitário UNA e a Universidade Fumec. Em todo o Estado, são 14 instituições, entre


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universidades e escolas técnicas. Mas as intenções da empresa geraram outro reboliço entre empregados. Preocupados com uma possibilidade de esvaziamento das atividades de produção dos aviões, em São José dos Campos, funcionários imediatamente se mostraram contra e começaram uma guerra de informações no chão de fábrica. O boato era de que a produção dos jatos seria transferida para Minas, algo que também não interessava às autoridades locais, que poderiam perder arrecadação. Diante da esperada reação negativa, a Embraer decidiu aumentar ainda mais o sigilo em torno das decisões. E sem muito alarde, o acordo final foi assinado em novembro com o governador Antonio Anastasia no Palácio Tiradentes. O protocolo de intenções prevê a instalação da empresa em Lagoa Santa. As atividades da Embraer começam em março, em Belo Horizonte, onde permanecerão até 2013 que as obras em Lagoa Santa – que estão a cargo do governo de Minas – sejam concluídas. Divulgação

O diretor de estratégias da Embraer, Fernando Ranieri, negou qualquer cenário tenso de revolta de empregados como fator decisivo na escolha por Minas. “Sempre tivemos planos de expandir dentro do Brasil. Minas nos apresentou uma boa alternativa com o projeto do parque tecnológico de Lagoa Santa e a grande oferta de mão de obra qualificada. Não houve nenhum problema interno nem negociações sigilosas”, garantiu. Ranieri também garante que nem um único parafuso das linhas de produção será trazido para Minas. Procurado pela reportagem, o sindicato também não confirmou os bastidores. “Os empregados em São José dos Campos pouco sabem sobre a instalação em Minas Gerais. O assunto não foi divulgado entre nós. Mas vejo com bons olhos investimentos nacionais. O que nos preocupa é a empresa se instalar em outros países e demitir pessoas por aqui”, informa Herbert Claros, vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos. Plano de voo Mesmo com uma equipe local ainda com apenas quatro engenheiros, a Embraer inicia oficialmente em março as operações do escritório regional em Belo Horizonte. A expectativa da fabricante é de que até o fim do ano sejam contratados na capital mineira pelo menos 100 engenheiros para criar projetos e produtos nas áreas das engenharias de estruturas, aeronáutica, de manutenção e de sistemas. Os projetos vão compor o que existe de mais moderno na pesquisa aeronáutica com ações de altíssima tecnologia e sistemas de inteligência. O gerente regional do escritório, Mário Lott, não confirmou se haverá produção de um único produto ou modelo de aeronave em Minas. Por outro lado garantiu que o escritório no Estado será um braço essencial para a produção de São José dos Campos e terá grande capacidade para pensar projetos e participar de vários pacotes de serviços. “Esperamos contratar toda mão de obra necessária em Minas”. A empresa não informou números relacionados à expectativa de produção e os negócios na capital mineira. Inicialmente a Embraer vai usar parte da estrutura do Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BHTec), no bair-

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ro Engenho Nogueira. Em julho, o escritório regional deve ser transferido para o Centro Tecnológico de Minas Gerais (Cetec), no bairro Horto. A permanência no Cetec deve durar cerca de dois anos, até que as estruturas no Centro de Capacitação de Tecnologia Aeroespacial (CCTA), no complexo aeronáutico de Lagoa Santa, sejam concluídas pelo Governo do Estado. A expectativa é de que todo o projeto esteja pronto até final de 2013. Parcerias em prol do conhecimento Para a UFMG, a vinda da Embraer representa um marco na história da engenharia aeroespacial de Belo Horizonte. “Podemos dizer que é a primeira vitória, quando se fala em um plano macro de desenvolvimento da área, como propõe o governo do Estado. Realmente é algo muito bom, podendo ser comparado a um marco no desenvolvimento desse mercado”, afirma Ricardo Luiz Utsch, coordenador do curso de engenharia aeroespacial da UFMG.

O professor explica que o curso específico da área aeroespacial na Federal é novo e teve início em 2009. No entanto, desde a década de 70, a faculdade de engenharia da UFMG forma profissionais preparados para o mercado, já que aborda com muita ênfase o setor em todas as subáreas da engenharia. A UFMG é uma grande fornecedora de profissionais qualificados inclusive para a sede da Embraer, em São José dos Campos. Utsch ressalta que ainda não existe uma parceria formal entre a universidade e o escritório regional da Embraer. “Espero que essa parceria se concretize e que seja importante para desenvolver ainda mais a área aeroespacial em Minas. Instalada aqui, a empresa vai contribuir para gerar ainda mais demandas na área”, completa. Apesar de não ter firmado formalmente um acordo com escolas da capital, a Embraer informa, por meio de sua assessoria de imprensa, que pretende desenvolver cursos de mestrado em parceria com instituições locais. Essa também é a expectativa do Marcílio César de An-

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do Sul. O projeto passa pela ocupação do aeroporto de Confins e de seu entorno com empresas de alta tecnologia à construção do CCTA em Lagoa Santa. Também inclui a criação de três rotas tecnológicas no Sul (região da fabricante de helicópteros Helibrás), Triângulo (região de Tupaciguara onde está a Axis, fabricante da aeronave de seis lugares AX-Tupã) e Juiz de Fora, na Zona da Mata (área do Aeroporto Regional da Zona da Mata, que pode estar envolvido com operações aeronáuticas, de manutenção e apoio logístico).

drade, presidente do Cetec. “O Cetec é uma instituição com tradição de mais de 40 anos que tem perspectivas na área aeronáutica. Temos experiência larga na área de materiais e ensaios de calibração e já temos uma parceria tímida com a base aeronáutica de Lagoa Santa, algo que deve ser valorizado pela Embraer”. Um projeto macro A instalação da Embraer em Belo Horizonte é considerada uma grande realização do projeto macro do governo do Estado de construir em Minas o maior complexo aeronáutico da América Latina. É o que pensa o subsecretário de Estado de Investimentos Estratégicos, Luiz Athayde Vasconcelos. “A ideia é que a empresa contribua para fortalecer e ampliar o setor em Minas”. Para isso, de acordo com informações obtidas na Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Minas está fornecendo incentivos – investimentos nos locais para as instalações físicas da empresa – da ordem de R$ 38 milhões. Dentro do Projeto de desenvolvimento do Vetor Norte, que se inspira em modelos de sucesso, como Cingapura, Hong Kong, Frankfurt e Miami, o governo pretende transformar Minas na primeira aerotrópole da América

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Na análise do PhD em transportes pela University Sauder Business School, do Canadá, Hugo Tadeu, a vinda da Embraer para o Estado é uma ação fundamental para que o governo concretize o grande plano aeroespacial em Minas. “O Estado está no caminho certo quando oferece incentivos para atrair grandes empresas, como a Embraer. Não tem como fazer projeto de expansão de uma determinada área sem o fortalecimento da indústria”, conclui.

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MetrOpolis - MINAS TREND

Moda com leveza, design e sustentabilidade Delicadeza e conforto marcam a 10ª edição do Minas Trend Preview Leveza, design e sustentabilidade. Os três conceitos vão compor os ambientes que serão palco da 10ª edição do Minas Trend Preview. O evento é realizado pelo Sistema Federação das Indústrias de Minas Gerais a cada estação em Belo Horizonte. Com os desfiles previstos para iniciar em abril, o maior acontecimento da moda mineira vai antecipar as tendências da Primavera-Verão 2012/2013. Entre as novidades desta edição está a abertura de espaço para o segmento da moda infantil.

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O presidente do Sistema Fiemg, Olavo Machado Júnior, adiantou que a criatividade e qualidade dos modelos serão bastante valorizados. “Estamos inovando em muitos aspectos e privilegiando o design, que agrega valor aos produtos feitos em Minas e desperta o desejo do consumo”, afirma. A direção criativa do Minas Trend Preview deste ano é assinada pela estilista mineira Mary Arantes. O evento promete dar foco à sustentabilidade sob o aspecto da leveza na composição da cenografia e arquitetura de todos os ambientes da festa de abertura, no Expominas. “Acredito que seja possível disseminar a leveza nas relações e no ambiente das empresas. A leveza neste contexto significa tomar atitudes, como redução de consumo e de desperdício nos processos”, afirma Mary, que trabalha em parceria com o arquiteto Pedro Lázaro. Uma das inspirações de criação de Mary Arantes foi o bambu. “O bambu cria raízes profundas, é flexível, resistente e versátil. É oco por dentro, portanto, leve. O material nos ensina muito sobre resiliência”, ressalta. Para ela, todas essas características podem ser trabalhadas dentro da indústria da moda.

Projetos Paralelo ao trabalho criativo, a designer vai desenvolver dois projetos que envolvem a atitude do setor. O primeiro será implantar a coleta seletiva do lixo da moda e fazer com que os resíduos cheguem às mãos de quem precisa. A parceria para viabilizar o projeto será proposta à Superintendência de Limpeza Urbana (SLU). O segundo projeto será implantado em escolas de moda. Trata-se do Descarte Zero. Baseado no Zero Waste, criado na Europa recentemente, o projeto tem o objetivo de reduzir o desperdício de tecidos na produção.

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De bar em bar se conta a história de BH Na capital nacional do boteco, bares, restaurantes e cafés misturam suas trajetórias à do povo mineiro; JK parece estar em todas elas Texto e fotos Fernanda Carvalho Por lá passaram artistas, políticos, famosos e pessoas de várias gerações. Nesses espaços, decisões históricas foram tomadas entre um copo de cerveja e outro; reuniões importantes foram feitas com um prato de comida à frente e muita prosa se misturou à poesia do artista que pertence a cada um. Na capital do boteco, onde há o maior número de bares per capita no Brasil, as histórias desses estabelecimentos se confundem à da cidade e contribuem para a biografia do povo mineiro. O ano marcado pelas ações do tenentismo que culminaram na Revolução de 30, no Brasil, foi também assinalado pelo surgimento do que hoje é considerado o bar mais antigo de Belo Horizonte, no bairro de Lourdes. Em 1929 era fundado o Tip Top pela tcheca Paula Huven e pelo marido dela, o romeno Adolfo Huven. Frequentado geralmente por pessoas com mais de 30 anos, o ambiente é afável e familiar. Por lá passaram artistas e políticos. Um dos personagens famosos era o ex-governador Hélio Garcia, que não

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JK era frequentador assíduo do Maria das Tranças ...................................................................................................................................


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Cozinha do Bolão. Mistura de pratos mineiros e italianos ..............................................................................................................................................................................................................................................................

gostava de ser chamado de doutor. “Ele falava que aqui ele era apenas Hélio Garcia, porque se sentia em casa”, conta sorrindo a gerente Zenilda Paiva. Por dia, o número de fregueses se alterna entre 80 e 120. “Os fregueses se sentem tão em casa que muitas vezes eles chegam, comem e vão embora sem pagar a conta. Depois voltam no final de semana e pagam tudo. É uma intimidade e uma confiança muito grande. A gente fala que o nosso freguês é escolhido a dedo”, brinca Zenilda, que trabalha há 17 anos no estabelecimento. Do outro lado da cidade, há 61 anos, Maria Clara Rodrigues, com o cabelo grande e penteado com trança, abriu um restaurante homenageando o gênero musical da época: Bolero. Mas a razão social não durou muito tempo. Na região da Pampulha, no terreiro de uma casa de fazenda onde frangos eram criados, a clientela escolhia a ave que gostaria de comer e esperava até que a apelidada Maria das Tranças surgisse com um prato.

Depois de pouco tempo com novo endereço, o restaurante, considerado mais antigo da capital, passou a ter o nome dado pelos próprios clientes. De acordo com o atual gerente e neto de Maria, Ricardo Rodrigues, o Maria das Tranças servia diversos pratos, mas resolveu definir um foco: o protagonista passou a ser o frango ao molho pardo, prato tantas vezes requisitado pelo ex-presidente Juscelino Kubitschek. JK se tornou amigo de Maria. Quando ele não ia ao restaurante, ela mandava um frango para a casa dele. Ou então, como a intimidade com a família era muita, JK ia até a residência da dona degustar o prato favorito. Mas não foi somente a história desse local belo-horizontino que o ex-presidente marcou. Ele também frequentou o Tip Top e se deliciou com o “passado na hora” Café Nice. Entre 1940 e 1945, o então prefeito de BH costumava sair do gabinete a pé e ir, sem guarda-costas, até o Café Nice. “Eram outros tempos. Foi na época do meu pai. Ele (JK) vinha, tomava café, parava na

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Kaol. Nos anos 80, quando os mineiros ganhavam o Parque das Mangabeiras e faziam das ruas palcos de manifestações pelas eleições diretas. O torresmo incrementava o prato do Palhares. Atualmente o “carro-chefe” do lugar pode ser “escoltado” por pernil, dobradinha, carne cozida, peixe e língua. Localizado na rua dos Tupinambás, o Palhares era frequentado pelos fãs de futebol. “Colocavam uma televisão para passar esporte. Antes da TV tinha um rádio que transmitia ao vivo. A gente também incluía todos os placares. Por causa disso, o café ganhou o apelido de Quartel General dos Esportes”, explica Luiz Fernando Ferreira, filho do Seu Neném, criador do Kaol. porta e batia papo com todo mundo”, conta Renato Caldeira, da segunda geração da família dos donos. Fundado em 1939 por Heitor Resende, o café passou por dois donos, antes de chegar às mãos do tio de Renato, três anos depois. Casa de Chá e Leitaria Nice: este era o nome que ilustrava a fachada naquela época. A cidade era pequena, e tudo o que todos precisavam era feito no Centro, na praça Sete de Setembro. O café fica no coração da capital. No final da década de 50, três vezes por dia, o médico José Mauro ia ao lugar para fumar um cigarro e tomar café. De acordo com ele, existe uma “retórica” de que todo político, para ser eleito, tem que passar pelo Nice. “É verdade isso. Depois que o JK se tornou cliente, os outros também vieram. A última candidata que esteve aqui para ser eleita foi a Dilma, com o Pimentel, o Temer e o Eduardo Azevedo. Eu estava aqui na hora”, narra o médico. Assim como o Nice, outro também tem “Café” no nome, mas o prato principal da casa mostra algo diferente. “Kachaça”, Arroz, Ovo e Linguiça. Juntam-se as iniciais e pronto: está formado o Kaol o “chefe” do Café Palhares, desde a década de 40. Com a década de 70 e um milhão de habitantes na capital, foram incorporadas couve e farofa ao

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JK era uma figura repetida na época. Ele também foi cliente no Café. “Isso foi na época do meu pai. Ele sempre ficava no mesmo lugar do balcão”, conta Luiz Fernando. “Tem história demais. Teve uma mulher que levou a filha grávida, porque a gestante estava com desejo de comer o sanduíche de pernil do Palhares. O engraçado é que a mãe dela também teve a mesma vontade, quando estava grávida dela”. Histórias curiosas ocorrem sempre. Afinal, são quase 3 mil pessoas que passam por lá todos os dias, de acordo com Ferreira. Ainda no Centro de BH, ao entrar no Edifício Maleta pela avenida Augusto de Lima, a impressão que se tem é de atravessar os limites do tempo e retornar ao passado. Com grades verdes e vermelhas e paredes nos mesmos tons como na bandeira italiana, garrafas colocadas de cabeça para baixo no teto e uma iluminação aconchegante, o restaurante é um dos mais tradicionais da capital. Há quase 50 anos, a Cantina do Lucas dá boas-vindas a quem adentra o Maleta. Em 1997, a tradicional Cantina foi tombada como patrimônio histórico e cultural da cidade. As cores da bandeira italiana demonstram o que o cliente vai encontrar: deliciosas massas e variados pratos de carnes, peixes, cremes e porções. Também de muita história vive o famoso Bar do Bolão, em Santa Tereza. Vinte e quatro horas diárias de um clássico espaguete à


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bolonhesa: a marca do local. Nascido em 1961, no berço da família Rocha, o bar está nas mãos da terceira geração. São 14 familiares no comando. Só na cozinha, quatro senhoras, que trabalharam muito por ali, ainda ficam na vigia. De acordo com Silvio Rocha, pertencente à segunda geração, 500 clientes vão ao Bolão por dia. E além dos Rochas, cerca de 60 funcionários circulam pelos aproximados 500 m² de bar. Para chegar a esse tamanho foram muitas ampliações. Afinal, tudo começou com uma portinha de, mais ou menos, 60 m². O bar funcionava no lado oposto da praça Duque de Caxias, “muro com muro” com o saudoso Cine Santa Tereza. A história familiar revela que, nas primeiras horas em que esteve aberto, todos os 35 pastéis feitos foram vendidos.

Cantina do Lucas: o cartão de visita do Edifício Maleta ...................................................................................................................................

O bar foi ampliado, cresceu, aumentou a clientela, mas sempre dentro do bairro Santa Tereza. E não fez mal. Esse continua sendo um dos bairros mais sedutores e ricamente culturais da capital. O reduto da boemia mineira. Nas paredes do Bolão, numerosos relógios pendurados são presentes de clientes, muitos deles famosos: Skank, Sepultura, Pato Fu e Lô Borges, junto do Clube da Esquina. Até mesmo a Polícia Civil colaborou com a coleção do Seu Rocha e ganhou uma pilastra somente para ela. Em cada cantinho, um pouco da história da capital. O Bar do Bolão é o ponto certo para reviver a tranquilidade do passado boêmio, com um tradicional espaguete às mãos. Na Cantina do Lucas, artistas famosos despertaram para ideias de obras artísticas. O Café Palhares foi marcado por inúmeros gritos de gol e por euforia. Várias foram as vezes em que JK utilizou salas reservadas do Maria das Tranças para modificar o contexto da capital. Mas somente o Café Nice pode determinar o futuro do candidato a político. E o mais antigo dentre eles, o Tip Top... Este tem o aconchego ideal de um seio familiar. Em Belo Horizonte, as histórias da cidade e dos cidadãos se entrelaçam em mesas de botecos. Nesses lugares, o tempo não tem limites, e o espaço... É todo seu.

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SALUTARIS • RECEITA

Risoto de Funghi Chileno ao Vinho e Escalopini ao Pesto ingredientes Meia xícara de chá de água Meia xícara de vinho branco (seco) à escolha 1 colher de sopa de vinho tinto à escolha 130 gramas de arroz arbóreo pré-cozido (ao dente) 10 gramas de manteiga 2 colheres de chá de azeite extravirgem 1 colher de sobremesa de funghi chileno 1 colher de sobremesa de queijo parmesão ralado 1 colher de chá de cebola batida 200 gramas de filé-mignon em escalopes (cortes finos) 100 ml de creme de leite

(Restaurante Villa Madalena)

Para o pesto 1 colher de sopa de manjericão 1 dente de alho 2 colheres de sopa de queijo parmesão ralado Meia xícara de chá de azeite extravirgem 30 gramas de nozes

Agilberto Martins/Divulgação

Modo de preparo

Para preparar o molho pesto:

Para desidratar o funghi: Lave o funghi cru em água corrente para retirar as impurezas. Coloque-o em uma frigideira com meia xícara de chá de água e uma colher de sopa de vinho tinto. Deixe em fogo baixo até que o funghi fique macio.

Pegue o manjericão, o alho, as duas colheres de sopa de queijo parmesão ralado, as nozes, o azeite e bata tudo no liquidificador até que fique homogêneo.

Para preparar o risoto:

Tempere os cortes finos de filé-mignon com sal a gosto. Grelhe a carne no ponto desejado.

Em uma frigideira, refogue a cebola batida no azeite. Adicione o funghi desitratado, refogue por cerca de um minuto. Adicione o arroz arbóreo, o vinho branco, a manteiga e deixe cozinhar por cerca de três minutos. Finalize com uma colher de sobremesa de queijo

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parmesão ralado.

Para preparar o filé-mignon:

Para montar o prato: Disponha o risoto ao lado do filé-mignon em um prato. Regue a carne com o molho ao pesto.


SALUTARIS • VINHOS

Descanso de Baco: o deus do vinho Danilo Schirmer Finais de semana em sítios, fazendas, casas de campo e de praia. Essa é uma ótima oportunidade para reunir amigos. E por falar em boa companhia, vamos continuar o habitual foco enogastronômico. Há algumas situações em que podemos combinar os prazeres do vinho com os sabores da comida e, de preferência, com ótimas companhias e muita alegria. Um exemplo é o churrasco. Devido à sua versatilidade, o churrasco é uma ótima opção de encontro entre os amigos e familiares. Você pode fazer um churrasco tradicional ou um gourmet. Este último está cada vez mais constante. Ao escolher uma carne vermelha suculenta, a melhor opção é um vinho estruturado, potente e com boa graduação alcoólica (acima de 13°GL). A intenção é equilibrar comida e bebida para que nenhum sabor sobressaia. As uvas Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Tannat e Arinarnoa são bons exemplos. As carnes vermelhas menos gordurosas são ideais com vinhos tintos mais leves (não confunda com suave) e menos encorpados (corpo médio). Mais uma vez a graduação alcoólica (entre 12 e 13°GL) deve ser observada. As uvas Malbec, Merlot, Pinot Noir e Shiraz representam bem esse grupo. Carnes brancas e crustáceos são bem-vindos com vinhos brancos, rosés, espumantes ou, dependendo do tipo da carne, tintos leves. As uvas Chardonnay, Sauvignon Blanc, Riesling e Gewurztraminer são as indicadas. Para a sobremesa, como banana assada com leite condensado, mas sem a canela, o espumante Moscatel fica bem interessante.

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SALUTARIS • ESPORTE

Nosso terreiro Campeonato Mineiro deste ano vem recheado de crises, expectativas e comemorações Henrique André Após um 2011 desastroso para América, Atlético e Cruzeiro, é hora de trabalhar pesado para que 2012 seja um ano bem melhor. O primeiro passo é encarar o campeonato estadual e ser o melhor time de Minas Gerais. Para isso, Coelho, Galo e Raposa entram com força total e apresentam as principais armas que têm à disposição.

rica) e Jackson (Dallas FC, EUA), os zagueiros Mateus (Portuguesa) e Thiago Carvalho (Boa Esporte), os volantes Rudnei (Ceará), Diego Árias (Paok, da Grécia), Amaral (América) e Marcelo Oliveira (Atlético-PR), e os atacantes Fábio Lopes (Cerezo Osaka, Japão) e Valter (Porto, Portugal). A principal perda para 2012 foi a do volante Fabrício, negociado com o São Paulo.

Se “a primeira impressão é a que fica”, os torcedores do Cruzeiro, atual campeão mineiro, devem estar bastante preocupados. A estreia com derrota em casa para o Guarani de Divinópolis acendeu o alerta na Toca da Raposa. Talvez seja reflexo da crise financeira vivida pelo clube – que culminou no atraso dos salários dos jogadores e na novela para segurar o meia argentino Montillo –, da dificuldade para contratar reforços “de peso” ou, apenas, da falta de ritmo de jogo. Gilvan de Pinho Tavares, novo presidente do clube, assumiu o mandato em janeiro. Desde então, o dirigente trabalha para dar uma nova cara ao Cruzeiro. Após o “desmanche” de 2011, quando se desfez de suas principais contratações, a Raposa anunciou contratos com dez novos atletas: os laterais Gilson (Amé-

O Atlético, primeiro campeão mineiro (1915) e recordista de títulos estaduais (40), ao contrário do arquirrival Cruzeiro, valorizou a base formada em 2011. Mesmo com a má campanha no nacional do ano passado, o time comandado pelo técnico Cuca – treinador que conquistou o último campeonato mineiro pelo Cruzeiro – iniciou a competição com vitória sobre o Boa Esporte e vive a expectativa de um ano bem mais produtivo. O atacante Danilinho (Tigres, México), o meia Escudero (Grêmio), o volante Leandro Donizete (Coritiba), o lateral Marcos Rocha (América) e o zagueiro Rafael Marques (Grêmio) foram as contratações que chegaram para reforçar o plantel atleticano, em 2012. O meia Daniel Carvalho, negociado com o Palmeiras, foi a principal baixa do elenco alvinegro.

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SALUTARIS • ESPORTE

O último título estadual do Galo foi em 2010, quando venceu o Ipatinga na final. Aquele jogo marcou o último gol do atacante Marques como profissional.

Decacampeão mineiro (1916 a 1925), o time do América começou com o pé direito o ano do centenário do clube, estreando com vitória sobre o Democrata de Governa-

dor Valadares e se mostrando forte na luta pelo título que não conquista desde 2001. Apesar de ter perdido jogadores importantes, como o atacante Kempes e os laterais Gilson, Marcos Rocha e Thiago Carletto e de ter sido rebaixado para a segunda divisão do campeonato brasileiro, a equipe do técnico Givanildo Oliveira recebeu alguns reforços: o volante Gilberto (Atlético), os atacantes Bruno Meneghel e Adeílson (ambos do Criciúma), os laterais Rodrigo Heffner (Náutico) e Pará (Avaí) e o meia argentino Sciorilli (Independiente Rivadavia, Argentina). Além destes jogadores, Givanildo poderá contar também com a força da base americana, que venceu o campeonato brasileiro sub20 (no início do ano) e do time que chegou às quartas de final da Taça São Paulo - ambos comandados pelo ex-goleiro e atual técnico, Marco Antônio Milagres.

E o que esperar dos times do interior? Será que vem algum azarão por aí? América-TO – Busca repetir o bom feito do ano passado e brigar pelo título na fase final. O goleiro Fábio Noronha e o lateral esquerdo Leandro Smith são os destaques do time de Teófilo Otoni.

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Boa Esporte – Campeão do Módulo II e sétimo colocado da Série B do Brasileirão, o time de Varginha vai tentar surpreender os grandes da capital. O volante Radamés e o atacante Pedro Paulo são os destaques.

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Caldense – Sétima colocada na última edição, a equipe de Poços de Caldas tem como destaque o meia-atacante Renatinho, de 30 anos.

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Democrata–GV – Décima colocada no ano passado, a Pantera aposta no atacante uruguaio Luís Oyarbide, de 25 anos, e no técnico Márcio Máximo para fazer uma campanha melhor em 2012.

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Guarani – O Tamanduá de Divinópolis (oitavo colocado na edição passada) apostou suas fichas na experiência do lateral Luizinho e dos meias Valter Minhoca e Leo Medeiros.

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Nacional – Vice-campeão do módulo II em 2011, o time de Nova Serrana tenta ser o ‘azarão’ de 2012. O atacante Kerlon ‘Foquinha’ é o grande destaque do Nacional.

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Tupi – Atual campeão brasileiro da série D e sexto colocado no Mineiro passado, o Tupi vem com tudo para uma boa campanha. O meia Léo Salino e o atacante Ademilson são os principais jogadores.

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Uberaba – Nono colocado em 2011, o Zebu tenta driblar as dificuldades financeiras para fazer um bom campeonato e não correr o risco de ser rebaixado. O armador Thiago Marin é o principal destaque do time.

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Villa Nova – O centenário Leão do Bonfim, quinto colocado no ano passado, aposta no meia Francismar e no atacante Eliandro para repetir a boa campanha. Fotos: Vinnícius Silva (www.vinniciussilva.com.br)/Divulgação

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SALUTARIS • CAVALOS

Segredos de uma boa sela Além de dar segurança e conforto, o acessório passou a ser sinônimo de luxo André Martins São 68 anos dedicados à arte da fabricação de selas. Dono de uma das mais simples e tradicionais selarias de Contagem e no auge dos 86 anos de idade, Longino Marques da Silva trabalha com a mesma vontade de quando abriu a Selaria dos Pampas. Corta o couro, faz ajustes, toma medidas, costura e, de sobra, atende aos muitos telefonemas da clientela fiel. O filho, Sebastião Carlos da Silva, de 61 anos, ajuda o pai e resume o que o ofício, aprendido quando ele era ainda jovem, significa para a história da família. “Tudo que temos hoje damos graças a esse negócio”, resume. Pai, filho e dois funcionários produzem cerca de 15 diferentes tipos de sela – todas voltadas para atividades de lazer. Nos 18 anos de profissão, muitas peças passaram ou tomaram forma pelas mãos do funcionário Elenildo Carneiro. O profissional sabe como poucos que uma boa sela reúne dois elementos básicos: segurança e conforto. São atributos que não existiam antes do surgimento dos primeiros arreios. Na época era comum se aventurar, montado “no pelo” e a coluna doer após a montaria. Mas o desconforto vem sendo minimizado com o lançamento de selas cada vez mais aconchegantes. Durante muitos anos, a madeira, o ferro, o aço e o couro bovino foram as matérias-primas mais trabalhadas nas selarias. Continuam a ser empregadas, mas hoje são opções diante do desenvolvimento da técnica de produção e da descoberta de outros materiais. Muito utilizado na indústria da moda, o couro de boi começa a ceder espaço para o de búfalo. E as pesadas estruturas de madeira e ferro perdem espaço para as armações de fibra de

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André Martins

vidro, que deixam as selas bem mais leves. A variedade e os diversos adereços que foram incorporados aos modelos mais tradicionais e comuns no Brasil – como o australiano e o americano – impressionam pelo luxo, pela elegância e a comodidade para quem cavalga, passeia, trabalha ou pratica esportes de montaria. Não é só o cavaleiro quem sai ganhando. O animal hoje pode ser poupado, tendo o esforço recompensado com menos peso e mais conforto. (veja quadro) O processo produtivo é trabalhoso e praticamente manual. Prontas mesmo, só chegam as armações e as partes de ferro (fivelas, argolas, estribos). É preciso moldar, costurar, colorir e cortar os couros. Os tipos vão desde o mais ma-


SALUTARIS • CAVALOS

cio, usado nos assentos, até o couro mais rígido e resistente, que reveste quase toda a peça. “Um bom seleiro é um artífice que consegue fabricar praticamente todo tipo de artesanato com estrutura de couro”, explica Elenildo. O tempo de produção de uma boa sela varia de uma a duas semanas. E o preço vai dos R$ 900 a R$ 2,5 mil. Entretanto, é possível encontrar no mercado de luxo objetos que chamam a atenção

não só por uma miríade de detalhes, mas pelo preço “salgado”. O valor de determinadas selas pode ultrapassar a casa dos quatro dígitos. Mas de forma alguma é um dinheiro jogado fora. Se for bem cuidada, uma sela pode irromper o tempo. Enquanto cavalos e cavaleiros saem de cena, uma peça bem-feita e trabalhada pode permanecer por gerações e gerações, agregando valor simbólico.

Montaria arrojada Sela Australiana Gel SV1292 Produzida artesanalmente, possui estofamento de espuma gel no assento, abas e sobreabas. Indicada para longas cavalgadas, esse tipo de sela oferece um assento ideal, com a combinação de componentes altamente macios e duráveis: gel, látex e espuma D60. Sela Quarto de Milha SV1504 Sela com acabamento profissional fabricada em couro de búfalo, mais macio e durável. Indicada para passeios, é acompanhada de porta-bebidas e alforje, ambos em couro legítimo. Outro diferencial é o assento, composto de espuma D60. Sela Coqueluxe Marcha Profissional SV1293 Fabricada em armação de fibra de vidro e couro de búfalo, esta sela recebe o título de “Coqueluxe Marcha Profissional” devido ao luxuoso acabamento que recebe e por ser indicada em concursos de marcha. Seu tamanho mais compacto permite que o cavaleiro se ajuste de forma segura e justa. Sela para Prova de Laço Profissional SV1291 Produzida em legítimo couro de búfalo criteriosamente selecionado e tratado com óleo de mocotó. A sela para prova de laço tem armação de madeira reforçada e enervada com couro cru. Destaque para o Píton parafusado e enervado na armação, propiciando maior resistência e possibilitando a atividade em provas de laço profissional. Arreio Chapeado SV1311 Durante muito tempo, os arreios eram produtos rústicos voltados somente para o trabalho. Por isso, não tinham um acabamento mais detalhado e luxuoso. Hoje é possível a fabricação de arreios como este, que esbanjam luxo, conforto e resistência. Indicado para passeio e para trabalho. Fonte: Selaria Vertentes

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Artigo

Ruibran dos Reis Doutor em meteorologia e coordenador do Minas Tempo ruibrandosreis@gmail.com

Energia Eólica no Brasil O relatório publicado no dia 7 de fevereiro pela Global Wind Energy Council (Gwec) mostra que a produção de energia eólica no Brasil é pequena em comparação com outros países. Atualmente 75 países utilizam a energia dos ventos na sua matriz energética, com capacidade total instalada globalmente de 238 mil MW. Talvez para para diminuir sua dependência do carvão, a China está disparada na produçao de energia eólica. A produção atual é de 62 mil MW. Outro país grande produtor de energia eólica é a Índia, com capacidade instalada 16 mil MW. As iniciativas do governo indiano são para aumentar a produção de energia eólica nos próximos anos. Segundo Denise Bode, da American Wind Energy Association, a energia eólica produzida atualmente nos Estados Unidos é suficiente para atender a uma cidade de 2 milhões de habitantes. A produção de energia eólica no Brasil ainda é pequena: 1,5 MW. Os baixos investimentos em energia éolica no Brasil podem ter uma explicação: o país tem

80% de energia renovável gerada por meio da hidroeletricidade. Entretanto, dado o crescimento nos próximos anos e o impacto causado na área alagada pelas usinas, a energia eólica começa a ser muito atrativa. Os grandes parques geradores de energia eólica no Brasil estão localizados nas regiões Nordeste e Sul. Em 2010, a Cemig lançou o Atlas Eólico de Minas Gerais para determinar as áreas mais promissoras do estado para a instalação de usinas eólicas. A massa de ar quente do Atlântico-Sul, denominada Tropical Marítima, atua praticamente durante todo o ano. Os ventos da massa de ar são normalmente fracos, pois a variação da pressão atmosférica é pequena. Assim os locais mais promissores para a instalação de usinas eólicas estão situados nas regiões mais altas da Serra do Espinhaço. Em 1994, a Cemig instalou, em caráter experimental, uma usina eólica no Morro do Camelinho, município de Gouveia, com capacidade de 1 mil KW.

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vanguarda - TECNOLOGIA

Exército na guerra digital Para assegurar a defesa de sites institucionais contra grupos, como Anonymous e LulzSec, o exército brasileiro anunciou a compra de um antivírus e um software de simulação de ataques cibernéticos. O simulador serve para o treinamento de oficiais para possíveis ataques de hackers. Os dois programas serão desenvolvidos pelas empresas brasileiras Decatron e BluePex. O simulador vai custar R$ 5,1 milhões, e o antivírus, R$ 800 mil. O prazo de entrega dos softwares está estimado em um ano, segundo o Exército.

Bala que persegue alvo Militares americanos estão criando uma bala que persegue o alvo. O projétil é capaz de corrigir a própria trajetória e atingir alvos com até dois quilômetros de distância.

Kinect para Windows A Microsoft lança o Kinect, agora para Windows. O dispositivo, que estreou no game Xbox, possibilita ao usuário jogar qualquer game sem usar controles manuais. Como vários desenvolvedores tentaram copiar o sensor do Kinect para outros fins – como na medicina e na robótica –, a empresa está correndo para recuperar o mercado.

Galaxy Tab A Samsung promete lançar a segunda versão do Galaxy Tab, em março, no Reino Unido. O novo tablet vem mais potente, com sistema Android 4.0 (a primeira versão vinha com Android 2.2) e função Face Unlock, que permite o desbloqueio por reconhecimento facial. Além de permitir a leitura de livros e revistas, o Galaxy Tab vem com processador Dual-Core de 1 GHz, 1 GB de memória RAM, câmera traseira de 3 megapixels, câmera frontal para videochamadas em VGA e muitos outros itens. A chegada do Galaxy 2 nos demais países acontece semanas após o lançamento no Reino Unido.

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Vanguarda • VeÍculos

Evoque: alvo é o motorista urbano Utilitário esportivo da Land Rover é um modelo compacto e se apresenta como mais uma opção para o trânsito nas grandes cidades Bianca Nazaré A Land Rover mira um novo perfil de clientes, com a estreia do Range Rover Evoque. Lançado na Inglaterra em agosto passado e no Brasil recentemente, o utilitário tem o visual totalmente novo, diferente do look robusto, próprio da marca. Agora o público-alvo é o motorista urbano. Para conquistá-lo, a Land Rover criou um veículo forte como os primeiros, mas com design delicado e tecnologia de ponta capaz de fazer do “Baby Rover” um carro ecológico e econômico. O Land Rover Range Rover Evoque veio para concorrer com o BMW X1, que dominava o cenário dos utilitários compactos até então. Porém, o Evoque veio para superar o primeiro. O carro é vendido em três versões: Pure, Prestige e Dynamic – todas com transmissão automática de seis marchas, 240 cv de Fotos Divulgação

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potência e motor a gasolina, na versão brasileira. O primeiro é mais “simples” e vendido com quatro portas ou na versão coupé, além de rodas aro 18 e sistema para troca de marcha manual. O Prestige é a versão de luxo do Evoque, vendido somente na versão quatro portas. O Prestige vem com o Park Assist, sistema que ajuda o motorista nas manobras de estacionamento, além de rodas aro 19, faróis de xênon e sistema de navegação por GPS. A última versão, a Dynamic, tem todas as características do Pure, porém, com estilo esportivo, rodas aro 20 e Park Assist. Entre os modelos da Land Rover, o Evoque é o único que pode ser personalizado de acordo com o gosto do proprietário. São várias opções de cores, rodas, acabamento interior, acessórios para compor a parte interna ou externa do veículo e


Vanguarda • VeÍculos

as rodas. É possível, ainda, incluir teto fixo solar panorâmico. O Evoque também chama a atenção pelos gadgets (recursos tecnológicos) adicionados ao veículo para entretenimento. Todas as versões vêm com Paddle Shift (botões atrás do volante para troca de marchas), bancos em couro com ajustes elétricos e memória, sistema de som Meridian de 380 Watts e 11 alto-falantes, uma entrada para Ipod e duas para USB. Outros brinquedinhos são a tela touchscreen de 8’ e Bluetooth com áudio streaming. A versão Prestige, além de tudo isso, possui sistema de navegação HDD com tela de 8’’ e armazenamento de até dez CDs. Quem não estiver satisfeito com todos estes itens do Range Rover Evoque, há mais duas opções de luxo: o Range Rover Evoque Prestige Tech e o Dynamic Tech. Segundo informações obtidas na Terra Nova – representante da Land Rover em Belo Horizonte, o Prestige Tech tem toda a parafernália do Pure, porém o sistema de som Meridian tem 825 Watts, 17 alto-falantes, sistema de entretenimento traseiro com duas telas de 8’’ (com transmissão de vídeos via USB) e sistema de

câmeras 360º. Já o Dynamic Tech tem tudo, além de bancos esportivos com aquecimento, sistema de som Meridian 825 W, 17 alto-falantes, tela dual view de 8’’, sistema de TV analógica e digital, Adaptive Dynamics e o sistema de câmeras 360º. Mesmo potente, o Evoque foi projetado para consumir pouco combustível. Em estradas urbanas, o veículo consome 11,9 L de gasolina a cada 100 km. Fora da estrada, são 6,9 L para 100 km rodados. O tanque de gasolina tem capacidade para 70 L. O modelo emite 199 g de CO2 /km, ao passo que os outros modelos da montadora emitem uma média de 249,6 g/Km. ESTRADA Embora tenha sido pensado para rodar na cidade, o Evoque também é capaz de rodar fora das estradas, assim como os ‘irmãos’ mais velhos. Vários itens contribuem para que o motorista experimente a pegada off-road do bebê. Na versão brasileira, o Evoque tem tração nas quatro rodas e sistema Terrain Response (botão em que o motorista adapta a situação em que o carro vai rodar, como estrada, cascalho, neve, etc.).

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ARTIGO • PSICOLOGIA

maria angêlica falci Psicóloga Clinica e especialista em Saúde Mental angelfalci@hotmail.com

Bendita segunda-feira O fim de semana retrata bem sentimentos de euforia e melancolia em curto período. As pessoas se sentem mais ambientadas a partir da quarta-feira. Em geral, na quinta e na sexta elas tendem a ficar mais eufóricas, com forte sensação de relaxamento e prazer. Nesses dias, o sistema neurológico libera uma grande dose de dopamina – substância precursora natural da adrenalina responsável por transmitir ao cérebro sensação de prazer e motivação. A sensação é mantida talvez em doses menores durante o sábado. Mas, no “domingão”, eis que chega aquele momento de baixa emocional, principalmente se você executa atividades desprazerosas.

de não sabermos como venceremos aquela semana. São sentimentos irracionais, sem lógica, dos quais geralmente não temos consciência dos motivos. A maioria das pessoas relata sensações físicas desconfortáveis e, muitas vezes, com pânico. Os adolescentes são os que mais sofrem. Em processo de maturação emocional, os jovens vivem numa montanha russa, oscilando com esses sentimentos, sem entender por que ficam ora eufóricos, ora tristonhos. Nos adultos, os sintomas também se manifestam, mas, em virtude da vivência e da maturidade, eles aprendem a controlar melhor os sintomas.

O importante é termos consciência da raiz desses setimentos, aprender a controlar e encarar essas reações

Sentimos satisfação, quando estamos próximos de uma finalização da semana. Mas por que sentimos desânimo, insegurança e até mesmo tristeza, quando estamos para começar uma semana? Estudiosos apontam que a sensação negativa tem relação com a questão existencial primitiva que existe em nosso inconsciente.

Trata-se de um sentimento aflorado pelas incertezas do porvir. Muitas vezes esse sentimento nos remete a uma angústia existencial ou a um forte medo sobre o que não temos controle. Abrir a porta de um lugar desconhecido é um exemplo. A ação nos remete ao medo e ao mistério do que pode ser encontrado no local. É uma sensação parecida com a

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Podemos ir mais longe. O problema não é só com relação aos domingos. Muitas pessoas ficam mais melancólicas e algumas até com pensamentos mais sombrios, quando estão em véspera de fechamento e de início do ano. Há quem apresente sintomas depressivos, negativos e desesperadores diante do que está por vir. O importante é termos consciência da raiz desses sentimentos, aprender a controlar e encarar essas reações com naturalidade, sem muito pesar, e retirar das falas jargões do tipo “lá vem a maldita segunda-feira”, porque isto só ajuda a potencializar na mente a sensação de desprazer, de inércia. Portanto, ter uma atitude mais positiva em seu âmbito mental é muito importante para vencer a angústia da segunda-feira.

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KULTUR • CiNEMA

Uma ode ao cinema Saudosista, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood dá sinais de que pode premiar, em pleno século 21, um filme mudo e em preto e branco Fotos Divulgação

André Martins Há 84 anos, as grandes estrelas do cinema ganhavam voz. O som chegava causando grande frenesi. A indústria se animava, pois a associação de som e imagem prenunciava contratos milionários entre os magnatas do entretenimento da primeira metade do século XX. Mas havia discordâncias. Diretores e teóricos de peso, como Charles Chaplin e André Bazin, viam na “descoberta” uma verdadeira ameaça à arte que se afirmava por meio do olhar. O som também traçou destinos. Determinou a ascendência de estrelas e selou o fracasso dos que tinham a imagem como “muleta”. Não se adaptar ao novo significava ter de deixar o palco após a exibição do filme sem as costumeiras honrarias. Forte candidato ao Oscar 2012, “O Artista” traz uma cena alusiva a esse momento. Na última cena de “Lágrimas do Amor”, película produzida e atuada por George Valentin (Jean Dujardin), um astro do cinema mudo em plena decadência, o persona-

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gem se afunda na areia movediça, enquanto é observado pela donzela em prantos. É a irônica alegoria da ruína de um ícone. Dentre os poucos espectadores do filme, quem chora é Peppy Miller (Bérénice Bejo), a bela e promissora atriz e dançarina descoberta de forma acidental e, que por intermédio de Valentin, seu grande amor, sai do anonimato para ganhar os holofotes da mágica Hollywood do fim da década de 20. Entre o ostracismo e a fama estão a força arrebatadora do amor e o desafio de encontrar um caminho alternativo a ser seguido pelos dois protagonistas. Eis aí o eixo central do filme mudo e em preto e branco que pode surpreender na maior festa do cinema mundial em tempos de revolução 3D. O longa de Michel Hazanavicius recebeu dez indicações para o Oscar, um verdadeiro e sonoro “feito” para um longa não americano. O crítico


KULTUR • CiNEMA

KULTUR • CiNEMA

tanto, é a trilha sonora de Ludovic Bource que chama a atenção. É nela que reside a vida de “O Artista”. Há uma benfazeja alternância do jazz dançante, característico dos anos que antecederam a era de ouro do cinema americano, com violinos e pianos predominando com o adensamento e a dramaticidade dos acontecimentos. O elenco também entrega um trabalho preciso. Dujardin e Bejo se destacam com uma atuação levemente teatral. Com a ausência do som, os atores de cinema daquela época recorriam à expressividade e a um trabalho corporal intensos que lembram os trabalhos característicos do teatro. E é justamente o que faz a dupla. Em quase 120 anos de cinema, “O Artista” surge como uma grande homenagem à sétima arte. Um filme belíssimo para ser visto e revisto como se fosse a primeira vez. Racha? Outro filme que pode ser considerado um tributo à história do cinema e continua vivo na briga pela principal estatueta é “A Invenção de Hugo Cabret”, dirigido por Martin Scorsese, que se rende à tentadora terceira dimensão.

de cinema André Miranda acha plausível que o império cinematográfico hollywoodiano se renda à obra, concedendo o prêmio mais cobiçado da noite a uma produção francesa. “Se quisermos ser maldosos, podemos brincar dizendo que até Hollywood se cansou dos filmes produzidos lá. Então foi só aparecer uma obra feita no formato do antigo cinema mudo para que ela se destacasse”, observa. Em “O Artista” são as aparentes deficiências técnicas que elevam o filme e se transformam em seus maiores trunfos. A fotografia de Guillaume Schiffman apresenta uma leve granulação, é ainda estourada e leitosa nas tomadas externas. O tom sépia da imagem preta e branca proporciona um acabamento ainda mais envelhecido. A montagem também se destaca, com recursos utilizados na década de 20. Dentre todos os elementos de linguagem cinematográfica, entre-

“Não haveria circunstância mais adequada para o primeiro filme em 3D de Scorsese: a atuação do protagonista da história. O menino Hugo cruza o caminho de Georges Méliès, o legítimo mago dos efeitos visuais do cinema, reconhecido como um dos pioneiros da história da sétima arte”, detalha a doutora em Cinema pela UFMG, Erika Savernini. Os rumores de uma possível divisão por parte da academia só crescem. A exemplo do que aconteceu em 2001, 2003 e 2006, é provável que o melhor filme não seja propriamente do diretor premiado na cerimônia. Para Erika, talvez o longa de Scorsese não seja coroado, mas é possível que a estatueta de direção vá para as mãos dele, como aconteceu em 2007. Outro provável ganhador é o também veterano de peso Woody Allen, que comanda “Meia-Noite em Paris”. “Não são os mais integrados ao sistema”, explica a professora, mas são adorados em Hollywood, o que é suficiente para suspeitar que um dos dois possa dar rasteira no francês Michel Hazanavicius, vencedor do prêmio do Sindicato dos Diretores (DGA).

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KULTUR • CIRQUE DU SOLEIL

Insustentável leveza do ser Do Canadá para o mundo, o mais importante espetáculo circense confirma excelência na capital dos mineiros Texto e fotos Fernanda Carvalho É hora de dormir. Está no momento de ir para o mundo dos sonhos. É nesse período do dia que a imaginação se aflora. Apesar de na Terra aparentemente não existir nada que imite a sensação, há um espaço com magia semelhante a essa. Palhaços, malabarismos, acrobacias, danças, saltos, voos, cores, músicas, sorrisos, brincadeiras. Nesse pequeno espaço circular coberto por uma grande lona, tudo parece possível. Basta se envolver na fantasia. Olhando de fora não parece tão diferente. Talvez um pouco maior, mas o modelo é parecido. A organização, sem dúvida, é impecável. Não há como comparar com as tendas da época da infância de cada um. Nas bandeiras, a primeira grande diferença: com mais de 20 pendões representando países de diversas partes, o Cirque Du Soleil comprova sua nacionalidade: o mundo. Se existisse um Oscar para circos, este seria o ganhador de todas as estatuetas. A maquiagem é impecável. Tão profissional quanto de qualquer dos fil-

mes vencedores do prêmio. O figurino, a fotografia, as atuações, a direção, as canções originais, todas as categorias levam nota máxima quando o assunto é Cirque Du Soleil. Não é para menos. Atualmente a instituição conta com 5 mil funcionários distribuídos por todo o mundo, com mais de cem tipos de cargos diferentes. Somente os artistas somam um número de 1,3 mil, representando cerca de 50 nacionalidades. Apenas na sede internacional de Montreal, no Canadá, aproximadamente 2 mil pessoas trabalham diariamente pelo sucesso dos shows. Aonde o itinerante Cirque for, todo mundo vai entender. Nos bastidores, 25 idiomas diferentes se traduzem em apenas um: a linguagem universal do circo. O Varekai também segue a tradição. “Pra gente não tem língua. E a razão principal é tornar genérico. Todo mundo vai entender e assumir o papel de compreender na cabeça dele o que quiser”, elucida Cynthia Clemente, Relações Públicas do Cirque.

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KULTUR • CIRQUE DU SOLEIL

Originária de 23 nacionalidades, uma equipe bastante mesclada compõe a turnê, assim como a maioria dos shows. Os brasileiros também estão no elenco deste “filme”. Segundo Cynthia, eles são três. As paulistas Natália Presser e Michele Ramos, que honraram o país de origem com um show de trapézio triplo, e o ágil Rafael Botelho, no solo de muletas. Os outros artistas vêm de vários países, como Rússia, Ucrânia, Itália e Espanha. O circo se traduz por meio do próprio circo. Uma metalinguagem circense. “Onde quer que seja”, ou

melhor, Varekai é uma homenagem à vida cigana. “Este espetáculo é, para o Cirque Du Soleil, uma afirmação do que é a vida em turnê. Porque, independentemente de onde a família vai, estar junto é o mais importante. E o Varekai é isso: levar todas as criaturas juntas a qualquer lugar”, explica Cynthia. O espetáculo é uma turnê, uma família de 150 integrantes que está sempre viajando junta. São técnicos, artistas e a parte do escritório que cuida da mobili-

zação local. Em cada cidade que vai, além de todos os funcionários fixos, o show contrata pessoas localmente para trabalhar na organização e montagem. O processo de criação do Varekai começou em 2002. Foi nessa época que Guy Laliberté, criador do circo, chamou Dominique Champagne, artista famoso no Canadá, e contou a ideia de fazer a história em uma floresta. “Então ele começou a absorver tudo o que queria, quando pegou a história tradicional do Ícaro e misturou de um jeito que a transformou em mais uma turnê do Cirque”. De acordo com Robert Mackenzie,

diretor-geral do circo no Brasil, foram dois anos de trabalho para que Varekai tomasse forma. No original da mitologia grega, Ícaro, filho de Dédalo, foge com seu pai do labirinto onde Minos os havia aprisionado. Porém, antes de ele ir embora com as asas feitas por Dédalo, o pai lhe recomenda que não voe nem muito alto nem muito baixo. Mas o filho não o obedece. Sobe mais do que deveria, perde suas asas no sol e cai. Em Varekai, o fim desta história é apenas o início do espetáculo.

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KULTUR • CIRQUE DU SOLEIL

Ícaro cai do céu diretamente para Varekai: uma floresta misteriosa no interior de um vulcão, onde, assim como nos sonhos, tudo pode acontecer. Seres voadores, rastejantes, elásticos, equilibristas, pequenos e grandes e de variadas cores são habitantes do magnífico lugar. O jovem passeia pela floresta, onde descobre palhaços, trapezistas, malabaristas, dançarinos e acrobatas, até que se apaixona pela bela e elástica La Promise. Ao longo desses dez anos, desde que estreou, o espetáculo não passou por grandes modificações. A história permanece. Segundo Cynthia, a cada dois anos os criadores do show visitam os espetáculos para ver se a maquiagem precisa de retoques, se a cor do figurino poderia ser melhorada, “enfim, para mudar alguns detalhes”. “Uma criatura não seria uma criatura sem uma maquiagem completa”, afirma a relações públicas. Nas faces dos “atores”, os traços são fortes e marcantes. As cores vibrantes estão tanto na pintura quanto no figurino. As roupas são peças únicas, feitas sob medida para cada integrante da equipe. Todos os itens são produzidos, conforme o necessário para cada artista e função. Quando as vestes caem, os artistas são apenas pessoas comuns com dons especiais. Além do trabalho, a equipe estuda. “Tem uma escola dentro do circo, certificada

pelo governo do Canadá, para eles estudarem e depois fazerem o show. Então, se em um momento, no futuro, a criança decide que não quer ser artista, ela ainda tem um certificado do governo para continuar as atividades”, explica Cynthia. Os personagens que configuram a história do Cirque são selecionados em audições realizadas em todas as partes do mundo. Somente para o Brasil estão marcadas quatro para 2012, com seleção prevista para diferentes cargos artísticos. Qualquer pessoa que tenha algum dom, ou que tenha treinado muito, e que seja criativa, pode se inscrever. Atualmente o circo canadense conta com 22 espetáculos, 12 deles em turnês pelo mundo e dez residentes, fixos em algum lugar. Os shows são implantados em arenas, salas ou na famosa Big Top, como o que ocorre com Varekai. Além desta, outras três turnês passaram pelo Brasil: Alegria, Saltimbanco e Quidam. O que faz com que este circo tenha encantado cerca de cem milhões de pessoas e continue trazendo sempre mais público para os shows são dois elementos básicos: criatividade e paixão. Ele não se contenta com o “permanecer”. O objetivo é sempre se renovar e ser melhor. Não é à toa que o grande “Circo do Sol” é o mais aclamado e ovacionado do mundo. A grande busca é por ser, para sempre, o número um!

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CRÔNICA

Joanita gontijo Jornalista e autora do blog tresoumais.blogspot.com joanitagotijo@yahoo.com.br

Romeu e Julieta, não... Prefiro Eduardo e Mônica Chegaram mais cedo para o show. No salão, uma dezena de casais se contorcia num bailado gostoso de ver. Tocava forró. Jamais baixaria esse ritmo para ouvir no ipod, mas, olhando assim de perto, era irresistível não se encantar. Passos miúdos, cadenciados e braços em volta das cinturas aconchegando corpos delirantes. Encostada na beirada do palco, ainda vazio, Laura apenas balançava a cabeça, conformada com suas limitações no quesito “dançar”. Foi quando, de repente, João a pegou pela cintura e a conduziu para a pista. Mesmo insegura, ela se arriscou a acompanhar a ginga e a malemolência do namorado com quem estava há poucos meses. Dois pra lá, dois pra cá, fechou os olhos pra tentar não se perder no ritmo... Mas, numa volta mais ousada, Laura não conseguiu retornar os pés para o lugar devido, perdeu o tempo da música, pisou em falso e por pouco não cai. Foi o bastante para que ela recuasse para o seu humilde posto de espectadora. Uma estranha sensação de angústia a consumiu. A frustração a devorava por dentro, enquanto tentava esconder os sentimentos com sorrisos impostores. João ainda insistiu que deveriam dançar mais uma vez... O medo de não corresponder às expectativas dele, porém, a paralisou. Queria fugir dali, fingir e acreditar que não se interessava, mudar de assunto, focar em temas que ela dominava... Qualquer coisa que a levasse de volta ao seguro terreno da perfeição. Laura perdeu uma ótima oportunidade de continuar abraçada por aquele corpo que ela tanto adorava, de se jogar na imprecisão de passos que ela não tinha a obrigação de conhecer e de rir dos próprios tropeços. O que a impediu? Algo que está na lista negra dos efeitos colaterais da paixão: o medo de decepcionar. As diferenças de personalidade e de talentos entre os casais não são tão palatáveis quanto na canção. Eduardo e Mônica “eram nada

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parecidos”, mas se “completavam que nem feijão com arroz”? Renato Russo não incluiu esses detalhes na letra, mas aposto minha coleção de vinis que, pelo menos uma vez, Mônica se sentiu velha demais para aquele adolescente. E Eduardo? Quanto constrangimento no cinema... Nem sabia quem era Godard! Paixão no berçário é assim. Tudo tem o poder de enfeitiçar. O balanço do andar, o sorriso – escancarado ou não, o jeito de cruzar as pernas, o barulho que se faz ao dormir... Quem não gostaria de eternizar essa sensação de deslumbramento? Mas ainda não inventaram poção capaz de vencer o torpor provocado pela rotina. De repente, as gracinhas de antes não fazem rir mais; a respiração durante o sono passa de um doce ressonar para um ronco irritante; a charmosa timidez vira fragilidade excessiva e a alegria vive uma crise de identidade, perde a dose exata e, por vezes, é chamada de extravagância. Ser reprovado por quem ama dá medo. Nada me tira da cabeça que Romeu e Julieta se mataram não somente por causa de um bilhete extraviado, mas porque a cicuta e o punhal pareciam caminhos mais fáceis para eternizar um amor que as diferenças e imperfeições julgavam impossível. Ah se pudesse aconselhar todas as “Lauras” que existem por aí... Queremos ser ideais para o outro, mas será que suportaríamos conviver com alguém tão rematado? Acho que não. O que é inexato me seduz bem mais... A perfeição é cabal, definitiva como uma rocha sedimentada. Prefiro a argila, menos nobre, mais plástica e com enorme capacidade de ganhar novas formas. Aprenda a dançar forró esbarrando nos pés de quem te quer bem. Ensine a cantar, mesmo que os primeiros sons provoquem dores nos seus ouvidos. Faça como Eduardo e Mônica. Afinal, “quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não...”?



Vox 32