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Entrevista a um biólogo Visita ao Zoomarine a 13 de Maio de 2008 Pode dizer-nos qual é o seu nome? Chamo-me Élio Vicente. Há quantos anos é biólogo e trabalha com golfinhos? Sou biólogo há 12 anos. Trabalho com golfinhos há 17 anos. O que o levou a ser biólogo? Uma grande paixão pelas coisas do mar. Gosta daquilo que faz, sendo assim? Não gosto de tudo o que faço, mas gosto da maior parte das coisas. É bom quando se trabalha com gosto: também nos cansamos, mas mais devagar. Os golfinhos são monogâmicos? Nem pensar! Se há uma espécie liberal neste mundo, são os golfinhos. Namoram com todos os outros golfinhos, independentemente do sexo, da idade e das relações familiares. Há rapazes a namorar com rapazes, raparigas com raparigas, irmãos com irmãs e até mães com as suas crias. Não têm qualquer tipo de pudor. O que sente quando está a interagir com os golfinhos? É uma coisa um bocado difícil de definir. É sempre diferente. É a mesma coisa que perguntar como é que é estar a interagir com crianças: cada criança é uma criança, as relações são diferentes, os miúdos são sempre diferentes. Para a maior parte das pessoas que interagem com golfinhos, é uma coisa muito especial, porque há uma carga muito mítica, quase mística à volta dos golfinhos. É uma coisa muito especial: é quase como estar com crianças, ou estar com cães e com gatos. E é sempre um momento de descoberta. Há sempre coisas diferentes, nunca há uma brincadeira igual. Como reage à chacina de golfinhos no Japão? Eu acho que a chacina no japão não é diferente de outras chacinas que nós fazemos em Portugal com outros animais. Infelizmente aquilo que acontece no Japão, para mim, é só mais uma prova de quanto os humanos podem ser negativos. Mas nós fazemos coisas semelhantes em Portugal com tordos, com rôlas, com touros, com porcos, etc. O problema é que nós não temos uma relação afectiva com esses animais como temos com os golfinhos. No japão é ao contrário: eles olham para os golfinhos como nós olhamos para os porcos, para as lebres, para os coelhos, etc. Nós damos-lhes tiros, eles simplesmente cortam-nos com uma faca, como nós fazemos aos porcos e fazemos aos touros. Portanto... Para mim é negativo, mas não é por


serem golfinhos e não é por ser no Japão: é por serem animais que estão a morrer de uma forma cruel. Qual o tempo de gestação dos golfinhos? Depende. Existem muitas espécies de golfinhos. Alguns estão grávidos oito meses, outros nove, outros dez, outros doze, outros catorze... No caso da espécie que nós estamos habituados a ver nos delfinários, que é o golfinho Roaz, são doze meses, portanto mais ou menos 53 semanas. Quantas crias têm de cada vez? Têm só uma cria de cada vez, normalmente a cada 3/4 anos. Os casos de gémeos são extraordináriamente raros, implicam um aborto por volta do 5º, 6º ou 7º mês, e a própria fêmea também não sobrevive. É extraordináriamente raro. Como se comportam quando têm as crias? É como todas as fêmeas. Temos algumas que são razoavelmente protectoras, temos outras que são muito descontraídas, mas mesmo uma fêmea, de cria para cria tem comportamentos diferentes. Eles acima de tudo são animais e portanto são imprevisíveis. Há algumas que durante as primeiras semanas não permitem que ninguém se aproxime, outras passadas algumas horas já permitem que pessoas contactem com o bebé, e outros golfinhos também. Portanto não podemos dizer “ isto é o que acontece com estas fêmeas” porque varia muito de animal para animal. De uma forma geral os golfinhos tendem a ser muito protectores, e acompanham as suas crias durante mais ou menos 1 ano e meio, 2 anos e meio. A oscilação mesmo dentro da própria espécie, é muito grande de animal para animal. Quanto tempo é que os jovens dependem da mãe? Normalmente no que se refere à alimentação, o normal é entre 6, 12 a 18 meses. Há animais que são desmamados aos 8 meses e outros aos 2 anos e meio. Portanto também aqui a disparidade é muito grande. Depende muito da relação que a mãe tem com a cria. Normalmente a primeira é amamentada durante mais tempo. A última cria também é, durante muito mais tempo, porque a fêmea já não procria e, portanto, não sente necessidade de desmamar a cria. Que espécies de peixes fazem parte da sua alimentação? Os golfinhos são aquilo que nós chamamos na ideologia “oportunistas”. Comem todo o tipo de alimento que lhes passa pela frente. Nós costumamos dizer que aquilo que está mais à mão é aquilo que nós comemos, eles é o que está mais à boca. Na altura do ano e no sítio em que eles estão, se fôr o carapau, comem carapau, se fôr a lula, comem lula, e assim sucessivamente. Mas eles também podem comer outras espécies que não sejam apenas peixe. Podem comer camarões, por exemplo, podem comer lulas, que não são peixe. São muito oportunistas. Nós aqui no Zoomarine damos arenque, carapau, pota, lula, espadilha, etc. Quantos quilos de peixe comem diariamente?


Nós não fazemos a gestão por quilo, fazemos a gestão por quilocalorias. Um quilo de lulas não tem o mesmo valor de energia que um quilo de carapau ou de arenque. Peixe mais gordo tem mais calorias, peixe mais magro tem menos calorias. O que nós fazemos é: consoante a idade e o tamanho, se é uma fêmea que está a amamentar ou não, se tem algum problema de saúde ou não, nós adaptamos a dieta às necessidades do animal. Mas fazêmo-lo por valores energéticos. Portanto uma fêmea hoje pode comer 2 quilos de carapau e 3 quilos de lula, mas amanhã por exemplo pode comer 6 quilos de capelim ou 9 quilos de arenque. Nós temos vários lotes de peixe, fazemos análises e vemos quais são os constituintes desse peixe e o seu valor energético, e fazemos as contas para ver quais são as necessidades do animal ao longo do dia. Quantos golfinhos existem actualmente aqui no Zoomarine? Temos neste momento à volta de 14, 17 golfinhos. Quantas horas diárias treinam os golfinhos? Por incrível que pareça, não são muitas horas de treino. Cada golfinho deve ser treinado por dia, talvez de 20 a 45 minutos. Nós treinamo-los de manhã talvez dois minutos, depois à hora do almoço mais dois a três minutos, e à tarde mais cinco minutos. Evitamos sempre que a hora do treino seja uma coisa aborrecida, tal como não se põe uma criança a fazer um ditado durante quatro horas. As sessões diárias devem atingir, no total, cerca de meia hora. Juntando todas as actividades, sessões ao público, etc, eles estão envolvidos com os nossos treinadores cerca de duas horas por dia. De resto são brincadeiras em que eles participam ou não, conforme as suas vontades. Sendo assim, os golfinhos são fáceis de treinar... Os golfinhos são tão fáceis de treinar como um cavalo, como um cão, um gato ou qualquer tipo de animal. Mas é assim: são muito fáceis se nós soubermos comunicar com eles, podem ser extremamente difíceis, e mais ainda: não são máquinas. Os golfinhos são espécies muito sociais, gostam de acção, portanto pode ser fácil. É preciso é saber descobrir o que é que motiva cada um dos animais, envolvê-los no treino, e depois saber aquilo que mais os recompensa. E tem algum que seja especialmente brincalhão? Normalmente as crias são muito mais interactivas do que os adultos. Mas é como tudo na vida, alguns são extremamente tímidos e não são tão brincalhões quanto isso. Quantas espécies de golfinhos existem? Existem no mundo cerca de oitenta espécies de golfinhos e baleias. No grupo dos golfinhos existe um grande discussão entre os vários especialistas sobre o número de espécies de golfinhos que há. A maior parte dos especialistas diz que, em termos de golfinhos, existem cerca de vinte espécies, mas alguns acham que, dentro desse grupo de vinte, alguns não são propriamente golfinhos, já que pertencem a outro grupo de animais dentro das baleias, dos golfinhos e dos botos.


Qual a média do tempo de vida dos golfinhos? Depende das espécies: diferentes espécies têm diferente longevidade. Para a espécie que nós temos no dolfinário, o golfinho Roaz, estima-se que em estado selvagem eles vivam à volta de 20, 25 anos. Sabemos que a longevidade pode ser muito superior a isso, porque temos nas nossas instalações um golfinho com 48 anos. Está neste momento referenciado a nível nacional como o mais velho da espécie. Como comunicam os golfinhos entre sí? De muitas formas, mas são essencialmente animais acústicos. Comunicam principalmente através de sons e do tacto. Na qualidade de biólogo, consegue interpretar alguns dos sons dos golfinhos? Definitivamente não. Desde os anos cinquenta que alguns especialistas tentam fazer um dicionário interpretando os sons dos golfinhos, mas até à data não foi possível. Quais são os maiores inimigos dos golfinhos? O Homem, principalmente. Os golfinhos morrem pela poluição marinha (descargas de produtos tóxicos, metais perigosos), emissões acústicas (sonar de navios de guerra), etc. Porque lhes chamam delfins? Basicamente porque a palavra delfim tem origem na palavra grega que deu origem à espécie. Os golfinhos são úteis nas terapias, nomeadamente com crianças deficientes. Como é que eles se comportam? Eu discordo que eles sejam úteis nas terapias, ou então serão tão úteis como qualquer outro animal. Podem ajudar nas terapias da mesma forma que um cão, um gato, um cavalo. Tem algum episódio curioso com golfinhos que nos possa contar? Vou contar uma história que, por acaso, não aconteceu connosco, mas com uns colegas nossos: Os golfinhos são treinados para quando encontrarem algum objecto estranho na água entregarem aos treinadores. Até porque se uma cria engolir um objecto estranho pode ser perigoso. Então houve um golfinho que encontrou um bocado de plástico e foi entregá-lo ao treinador, recebendo elogios e uma recompensa em troca. Durante esse dia voltou a entregar mais pedaços de plástico, todos da mesma cor, recebendo sempre uma recompensa. Esta actitude repetiu-se nos dias seguintes e os treinadores resolveram investigar a piscina, tentando encontrar o objecto. Nada! O golfinho continuava a trazer pedacinhos de plástico e a receber a respectiva recompensa. Então descobriu-se que ele tinha escondido um saco de plástico, que ia entregando aos pedacinhos, pois chegou à conclusão que se entregasse o saco inteiro recebia só uma recompensa, enquanto assim...

Fim


Entrevista Zoomarine  

Entrevista com o biólogo do Zoomarine Élio Vicente

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