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Sinopse

Pairando sozinha e perdida, Amélia vive o eterno pesadelo de acordar nas águas escuras de um rio misterioso. Suas únicas certezas: ela está morta e não tem nenhuma lembrança do tempo em que era viva. Ao tentar salvar Joshua, um garoto que se afogava no mesmo rio de águas escuras que a vinha mantendo prisioneira há tanto tempo, Amélia passa ter sensações diferentes e a descobrir os segredos que rondavam sua morte. A conexão entre Amélia e Joshua ultrapassa as barreiras da vida e da morte. E eles precisam proteger essa felicidade a qualquer custo...

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Um Foi como sempre, mas diferente da primeira vez. Era como se o meu peito fosse uma porta onde alguém tinha enfiado uma chave com força e girado. A porta — os meus pulmões — queria se abrir, ceder ao movimento da chave. Aquela parte primitiva do meu cérebro, a dos instintos de sobrevivência, gritava para que eu respirasse. Mas outra parte também berrava ainda mais alto para refrear qualquer impulso que deixasse a água entrar. A água escura me agarrava e me engolia, entrando onde era possível. Fiz de tudo para ficar com a boca e os olhos bem fechados, por mais que estivesse precisando mais do que nunca da minha visão para escapar daquele pesadelo. Mesmo assim, a água não parava de entrar na minha boca e no meu nariz de pouquinho em pouquinho. Até meus olhos e minhas orelhas já não tinham mais como conter aquilo. A água se envolveu nos meus braços e nas minhas pernas como um tecido pesado, puxando e arrastando meu corpo para todos os lados. Eu me vi enterrada sob várias e várias camadas de alguma coisa viscosa e revolta, sem ter como me libertar daquilo. Eu já tinha me debatido demais, relutado demais, e meu corpo estava cada vez mais fraco pela falta de oxigênio. As batidas dos meus braços na direção do que eu presumia ser a superfície foram ficando menos frenéticas, como se a substância invisível em volta deles tivesse engrossado. Cheguei a balançar a cabeça para conter meu impulso de respirar. Não!, gritei, dentro da minha mente. Não! Mas os instintos são uma coisa complicada também — fortes e implacáveis. Minha boca se abriu e eu respirei. E como sempre, a não ser na primeira vez que vivi esse pesadelo, eu acordei. 3


Meus olhos ainda estavam fechados e eu continuava ofegante. Desta vez, minha boca e meu nariz puxaram lufadas histéricas de ar, e não aquela água suja que tinha invadido meus pulmões e feito meu coração parar naquele primeiro pesadelo. Agora, esse ar era inútil, nulo para os meus pulmões mortos. Ainda assim, sua presença me entorpeceu de alegria: por mais que meu coração não estivesse batendo, o ar era um sinal de que não estava mais me afogando. Mesmo assim, fiquei me sentindo meio boba por ter ficado com medo. Afinal, não é como se desse para alguém morrer duas vezes. E eu já estava morta, disso pelo menos tinha certeza. Levei um tempo para aceitar esse fato, talvez alguns anos — o tempo se torna uma coisa muito imprecisa depois da morte. Anos vagando sem rumo, confusa e assustada com tudo o que eu via e escutava. Gritando com as pessoas que passavam por mim, implorando para que me ajudassem a entender por que eu estava tão perdida, ou só reparassem na minha presença. Eu conseguia me ver — de vestido branco, pés descalços e com o cabelo castanho, agora seco, todo ondulado e grosso —, mas os outros, não. Nunca encontrei outra pessoa como eu, nenhum outro morto, então não tinha nem com quem me comparar. Foram os pesadelos o que finalmente me levou a entender e aceitar a verdade. No começo, eu não reconhecia nada na minha existência errante que me trouxesse memórias da minha vida, nada além da leve familiaridade que via nas florestas e nas estradas pelas quais eu vagava. Mas aí os pesadelos começaram. Eu mergulhava de repente e sem nenhum aviso em períodos de inconsciência, nos quais me afogava de novo. Foi só depois das primeiras vezes que tive esses pesadelos que percebi o que eles realmente eram: memórias da minha morte violenta. Então as memórias da minha morte tinham voltado. Mas apenas algumas memórias da minha vida vieram junto com elas: meu primeiro nome, Amélia, mas não meu sobrenome; a idade com que morri, dezoito anos, mas não meu aniversário; e claro, o fato de que eu parecia ter me jogado em um rio turbulento do alto de uma ponte. Mas não o porquê disso. Mesmo não me lembrando da minha vida e do que havia aprendido nela, eu tinha vagas lembranças de alguns dogmas religiosos. Mas não era nada que tivesse me preparado para este tipo específico de pós-vida. As 4


florestas poeirentas nas colinas de Oklahoma não refletiam bem a minha concepção de paraíso, nem as constantes repetições febris do meu afogamento. O termo ―purgatório‖ me vinha à mente sempre que acordava de um pesadelo. Eu revivia minha cena de angústia e depois acordava, toda ofegante e soluçando com um choro seco, toda vez no mesmo lugar. Independentemente do lugar onde eu estava quando perdia a consciência — uma ferrovia abandonada, uma densa floresta de pinheiros ou um restaurante quase vazio —, meu destino era sempre o mesmo. Ao fim de cada pesadelo, acordava em um campo. Era sempre de dia, e eu me via cercada por fileiras e mais fileiras de lápides. Era um cemitério. Talvez o meu. Nunca ficava por lá tempo o bastante para tentar descobrir. Acho que eu poderia até procurar minha lápide. E descobrir mais coisas sobre mim — sobre minha morte. Mas em vez disso, sempre me levantava da grama e disparava até o portão de ferro em volta do campo, correndo o mais rápido que minhas pernas fantasmagóricas permitiam. E assim era minha existência: um emaranhado de perambulações sem rumo; uma palavra ou outra dita a algum estranho que não me ouvia; e os pesadelos e as minhas fugas apressadas do lugar onde eu acordava. Até esse último pesadelo. Esse pesadelo começou como todos os outros e, como sempre, acabou com eu acordando em pânico. Mas dessa vez, quando por fim abri os olhos, o que vi não foi um cemitério abandonado, mas sim um lugar totalmente escuro. Essa escuridão repentina me deixou apavorada de novo, ofegando em desespero. Ainda mais porque depois de um breve piscar dos meus olhos mortos, reconheci onde estava. Eu estava flutuando no rio de novo. No entanto, meus fôlegos agora já não sugavam a água lamacenta à minha volta. Meu corpo continuava etéreo como antes deste pesadelo. Eu estava só flutuando, alheia à agitação da turbulenta correnteza. Desta vez, as coisas pareciam diferentes, por mais que aquela cena escura e revolta fosse quase a mesma que eu via em cada um dos meus horríveis pesadelos. Quase. Porque desta vez, não era eu quem estava se afogando. Era ele.

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Dois Minha

primeira impressão sobre a cena estava errada. A água não

estava totalmente escura. Uma luz baça reluzia sobre a superfície — talvez da lua, porque era cinzenta demais para ser do sol. Abaixo de mim, dois fachos de uma luz amarelada mortiça pareciam despontar das profundezas do rio. Não, não era bem isso. Esses fachos estavam virados para cima, mas se afastando. Olhei de relance para baixo e percebi que eles vinham de uma coisa enorme e escura sob mim. Essa coisa — um carro, com seus faróis cortando a escuridão — estava afundando com uma sinistra lentidão. Balancei a cabeça. Na verdade, eu não estava nem aí para o carro; minha atenção se focou no garoto iluminado pelos seus faróis. Seu corpo estava na forma de um X, com os braços soltos boiando para cima e seus pés ainda de tênis, esticados. Ele estava com a cabeça baixa, mas pude ver que seus olhos estavam fechados. Esse garoto não estava se debatendo, nem tentando nadar de volta para cima, e eu de repente me dei conta de uma coisa terrível. Ele estava inconsciente. Mas não era o tipo de inconsciência que atormenta os mortos, e sim aquele que mata os vivos. Se esse garoto não acordasse, ele iria se afogar. Sem pensar em mais nada, nadei até ele o mais rápido que pude. Quando cheguei mais perto, pude ver seu rosto por inteiro. Ele era jovem, quase da mesma idade que eu quando morri. Seu rosto inerte parecia tranquilo. Ele era muito bonito. Dava para ver isso bem, mesmo embaixo d’água. Seu cabelo escuro pairava sobre sua cabeça, quase lânguido, apesar da turbulenta correnteza. Uma ideia repentina e boba me veio à mente: seus braços abertos pareciam asas. Asas inúteis, agora. Comecei a me perguntar, quase sem perceber, se meus braços teriam ficado como os dele quando morri. 6


Meus pensamentos se tornaram tão rápidos quanto intensos. Aquele garoto não podia morrer. Eu não podia simplesmente ficar parada, vendo sua morte. Não ali, não daquele jeito. Fui para cima dele, tentando em desespero agarrar suas roupas e seus membros para arrastá-lo de volta à superfície. Puxei sua camisa de manga comprida, seu jeans e até seus cabelos escuros. Tentei e tentei, mas não aconteceu nada, é claro. Minhas mãos mortas inúteis não tinham como tocá-lo, como salvá-lo. Foi como quando me debati na água na noite da minha morte — nada que eu fizesse poderia evitar o resultado daquela cena. Eu me senti impotente, inútil, e mais ciente do que nunca do fato de que estava morta. Caí então no meu choro sem lágrimas e coloquei minhas duas mãos em seu peito. Enquanto afundávamos no rio, pude ouvir uma coisa com toda clareza: as batidas cada vez mais fracas do seu coração. Até onde sabia, eu não tinha nenhum sentido sobrenatural. Por mais que alguns dos meus sentidos humanos tivessem sobrevivido à minha morte — como a visão e a audição, claro —, não conseguia sentir mais nenhum cheiro, gosto ou toque de nada no mundo dos vivos. O que restou dos meus sentidos não tinha enfraquecido, mas também não tinha se aguçado. Por isso mesmo, o som do coração dele me deixou chocada. Eu não devia estar ouvindo aquilo tão bem, mas estava. Mesmo com mais de um palmo de água entre nós e minha audição normal, podia ouvir suas batidas claramente como se eu tivesse colocado um estetoscópio em seu peito. Fiquei pensando se isso tinha alguma coisa a ver com a morte. Com estar morta. Talvez os mortos pudessem ouvir seus semelhantes chegando, vindo de repente para o nosso mundo. Ou bem devagar, neste caso. Continuamos afundando, enquanto seu frágil coração batia erraticamente rumo à morte. Cada batida ecoava mais fraca do que a anterior, até que finalmente... Seu coração engasgou uma vez. Depois de novo. E então não ouvi mais nada. Uma bolhinha de ar escapou pelo canto de seus lábios e boiou água acima. Eu gritei. Gritei como nos primeiros instantes da minha própria morte, revoltada e humilhada com minha própria impotência. Gritei e bati com minhas mãos inúteis em seu peito. Foi então que seus olhos se abriram.

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Ele olhou de um lado para o outro, assimilando onde estava. E então olhou para mim. Olhou bem nos meus olhos. Fiquei paralisada. Será que ele... podia me ver? Ele sorriu e então ergueu a mão para tocar no meu rosto. Senti sua pele, quente contra a minha. Sem pensar em nada, pus minha mão sobre a sua. Seu sorriso se alargou quando fiz isso. Ele estava me vendo, sim. Ele me viu, ele me viu, ele me viu! Meu coração inerte e morto foi às alturas. E o dele também. Seu coração — que eu tinha acabado de ouvir morrer — bateu, e depois de novo. Essa nova batida ecoou fraca e irregular no começo, mas logo depois começou a se estabilizar. Ele olhou para o próprio peito e depois de volta para mim, com as sobrancelhas arqueadas e um ar de surpresa ao perceber o som que vinha ali de dentro. Em seguida, tossiu. Esse movimento sacudiu seu corpo e fez bolhas de ar escaparem de sua boca. Ele começou a se debater. Enquanto isso, percebi que não estava mais ouvindo seu coração. O som tinha sumido, pelo menos para mim. Mesmo assim, ele estava todo agitado, lutando contra a água escura. Continuou a tossir violentamente enquanto seus pulmões voltavam a funcionar. Em meio à água revolta, pude ver sua expressão. Parecia irritado, em pânico e desespero. Reconheci aquele olhar. Eu mesma já tinha sentido aquilo. Aquele garoto estava vivo. Estava vivo e não queria morrer. — Nade! — gritei, de repente. — Para cima! Para fora daqui! Ele não olhou para mim, mas começou a bater as pernas e sacudir os braços pela água sobre sua cabeça, como se estivesse tentando se arrastar para fora de um buraco. E ao contrário dos meus próprios esforços na noite da minha morte, os dele surtiram efeito. Ele começou a flutuar rumo à superfície do rio. Nunca tinha me sentido tão aliviada. Nem mesmo depois de acordar um milhão de vezes dos meus pesadelos. Nem mesmo depois de um milhão daqueles fôlegos que provavam que eu não estava mais me afogando. — Para cima! — gritei de novo, desta vez com alegria. Ele continuou a subir pela água, sem olhar nem uma única vez para mim ou reparar no som da minha voz enquanto o seguia sem esforço. Talvez para ele, eu tivesse voltado a ser diferente... morta. Mas naquela hora, aquilo 8


não tinha a menor importância para mim. Ele iria se salvar. Não iria morrer naquele abismo frio e escuro como eu. Isso já era mais do que o bastante para me alegrar. O garoto pareceu levar uma eternidade para chegar à superfície, mas chegou. Sob o ar frio da noite, ele tossiu, cuspiu e ofegou, batendo seus braços na água como se estivesse tentando alçar voo. Flutuei até seu lado, totalmente alheia à correnteza ou ao alvoroço criado por ele na água. Quando ele finalmente puxou um imenso fôlego de ar, ri alto e bati uma palma. E então tapei a boca com as mãos. Eu nunca tinha dado risada. Não desde que morri. — Josh! Josh! Aquela voz estranha me espantou. Alguém tinha gritado do outro lado do rio para nós. Bom, para o garoto, pelo menos. Dei as costas para ele, quase sem querer, e avistei um grupo de figuras na margem do rio atrás de nós. — Josh! — gritou uma menina. — Meu Deus, Josh! Por favor! Ajudem o Josh, por favor! Eu me virei para o garoto, que ainda estava tossindo e se debatendo. — Josh? — perguntei. — Você é o Josh? — mas ele não respondeu. — Bom, de um jeito ou de outro, sei que você está cansado. Nossa, e como sei. Também sei que você provavelmente não deve estar me ouvindo. Mas você precisa nadar na direção daquelas vozes. Você me entendeu? Por um instante, ele não reagiu. Mas depois, com uma dolorosa lentidão, começou a bater os braços. Não era o nado mais desenvolto do mundo, mas pelo menos já foi o bastante para que ele começasse a arrastar seu corpo pela água. Conforme se aproximava da margem, os gritos foram ficando mais altos. Em meio a todo o alvoroço, quase consegui ouvir um fio de uma conversa mais racional sobre um plano para tirá-lo do rio. Mas eu na verdade nem estava escutando as pessoas na margem. Só estava vendo aquele garoto nadar, mais concentrada nisso do que em qualquer outra coisa antes. Eu me peguei rezando pela primeira vez desde minha morte. Rezando para que ele chegasse em segurança até a margem; rezando para que ele não desistisse e se deixasse ser levado pela correnteza. — Por favor — sussurrei enquanto o seguia. — Por favor, Deus, deixe que ele se salve. O garoto acabou se mostrando muito mais forte do que eu jamais tinha sido. Durante vários minutos de angústia, ele enfrentou a correnteza 9


até, por fim, chegar perto o bastante para que alguém pudesse agarrar seu braço e nadar a muito custo com ele de volta à margem. Gritos de alegria e pânico eclodiram da multidão que havia se aglomerado na grama em volta do rio e na ponte sobre nós. Um homem, o que tinha tirado o garoto da água, o estendeu em cima de uma faixa de terra vermelha e lamacenta. Enquanto eu saía da água e andava até a margem, pude ver o homem passando as mãos pelo corpo do garoto, à procura de algum sinal de vida. O garoto se virou de lado na mesma hora, deu uma tossida e depois começou a vomitar água. Suspiros altos de alívio irromperam da multidão. Seus rostos estavam sendo iluminados pelos faróis dos vários carros parados aqui e ali na grama e na ponte também. As expressões dos curiosos eram de tensão, entusiasmo ou medo. — Josh! Josh! — gritavam em coro. Todos pareciam saber o nome do garoto. Foi então que avistei o brilho multicolorido das luzes vindo dos veículos de emergência que tinham formado sua própria aglomeração atrás dos curiosos sobre a ponte. Depois do que pareceram ser apenas poucos segundos, dois paramédicos uniformizados desceram até a margem do rio e se ajoelharam ao lado do garoto, fazendo seus próprios gestos mais eficazes com as mãos sobre ele. Menos de um minuto depois, o garoto — o meu garoto, para ser fiel à minha repentina sensação de posse sobre ele — foi posto em uma maca e então carregado encosta acima até uma ambulância. A multidão avançou junto com os paramédicos, e eu o perdi de vista. Esse deveria ter sido o fim daquele martírio. Ainda assim, não conseguia ficar parada. Não podia ficar ali, vendo aqueles estranhos levarem a única pessoa viva que tinha me visto. O meu menino. O meu Josh. Determinada, abri caminho em meio à multidão. Eles não podiam me ver, nem me sentir, é claro, mas ainda precisei de muito esforço para encontrar uma passagem livre. Por algum milagre, consegui. Me espremi entre duas pessoas e, de repente, me vi ao lado da maca enquanto os paramédicos começavam a erguer suas pernas com rodinhas para colocá-la dentro da ambulância. Me inclinei sobre o garoto. Ele parecia pálido sob o luar, com seu rosto magro e exausto. Por algum motivo, precisei conter um soluço de angústia. — Josh? — gemi, confusa sobre o que fazer. Confusa sobre tudo.

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Ele então abriu os olhos. Olhos escuros — escuros demais para que eu identificasse sua cor à noite. Ele se virou para mim e ficou me olhando enquanto os paramédicos o levavam embora, talvez para sempre. — Joshua — grunhiu, rouco depois de engolir tanta água. — Me chame de Joshua. Em seguida, a maca foi posta dentro da ambulância, as portas se fecharam, e ele foi embora. Fiquei na margem do rio, imóvel. Alguns curiosos continuaram por ali depois que a ambulância foi embora, provavelmente para discutir aquela quase tragédia. Mal percebi quando a última pessoa foi embora e os últimos faróis desapareceram em meio à escuridão da noite. Eu não estava dando a menor atenção para ouvir ou ver qualquer coisa que estivesse acontecendo à minha volta. Na verdade, tudo o que eu estava vendo eram os olhos daquele garoto, olhando bem para os meus. O que eu estava ouvindo era a sua voz... falando comigo? Sim, tenho certeza de que ele estava falando comigo. Ninguém tinha lhe pedido para se identificar enquanto o punham na ambulância. Ele não tinha nenhum motivo para dizer seu nome a qualquer outra pessoa além de mim. A maioria das pessoas ali parecia já saber quem ele era. Talvez elas já o conhecessem há muito tempo. Talvez elas sentissem, como eu tinha sentido, o quanto ele era importante. É claro que eu sabia da importância dele agora. Eu me dei conta disso bem no fundo do meu, agora bem desperto, âmago. Não sabia nada sobre ele... sua idade, seu sobrenome, como seria sua voz ao falar meu nome. Mas sabia que a minha existência tinha mudado. Para sempre.

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Três Dois dias se passaram. Apesar de provavelmente não ter sido nada demais para os vivos, esse espaço de tempo foi extraordinário para mim. Até então, nunca tinha achado nenhum motivo para contar a passagem dos dias. O nascer e o pôr do sol não tinham me afetado em nada, a não ser pelo fato de ficar mais escuro à noite. Não precisava dormir, e minha solidão durante os dias não mudava com a chegada do crepúsculo. Quando os pesadelos começaram — me arrancando da minha existência etérea para me lançar naquele horror inconsciente e então me jogar de volta naquele estranho cemitério —, eu tinha perdido toda a vontade de marcar o tempo. Até então. Agora, não conseguia parar de contar cada minuto de solidão que passava. Naquela primeira noite, enquanto via a ambulância indo embora, cheguei a pensar por um instante em segui-la a pé. Mas acabei desistindo da ideia. Por mais que pudesse me locomover de forma quase instantânea pelo tempo e espaço durante meus pesadelos, não tinha descoberto como fazer isso quando estava acordada. Eu ainda caminhava como qualquer ser humano normal e poderia levar dias até encontrar o hospital para onde a ambulância tinha levado aquele garoto. Nem me dei conta, até o último carro ter ido embora da margem do rio, de que poderia ter me enfiado em algum banco de trás vazio e talvez ido com o motorista até o hospital... mas e depois? A ideia de pegar uma carona clandestina com algum estranho vivo só pela mínima chance de chegar ao hospital e depois vagar pelos seus corredores à procura de outro estranho... bom, eu me senti boba e irracional só por ter pensado nisso.

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Mas claro, vagar pelo local onde eu tinha morrido também não me parecia lá muito racional. Da margem do rio, fiquei assistindo enquanto a polícia montava uma barricada para tapar o buraco aberto na ponte acima de mim. E continuei lá enquanto uma equipe de bombeiros, totalmente alheia à menina solitária na margem, içava o carro lamacento do garoto para fora da água. Enquanto tudo isso acontecia, nem questionei meu desejo de estar ali — afinal, quem não se interessaria por aquelas coisas? Mas depois que toda a agitação acabou, cada momento que eu passava naquele lugar fazia me sentir cada vez mais e mais tonta. Por um instante, tentei justificar minha necessidade de ficar ali. E me convenci de que só precisava de um pouco de tempo para reorganizar minhas ideias antes de voltar às minhas andanças sem rumo. Mas, no fundo, eu sabia a verdade. Sabia muito bem por que ainda estava ali. Eu não queria mais andar sem rumo. Queria encontrar um local muito específico. Queria encontrar alguém. Alguém que quase tinha morrido (ou talvez até tivesse, não tinha como saber) naquele rio. Alguém que, com isso, acabou mudando minha existência para sempre. Notei também outros sinais, fora minha relutância em ir embora, de que algo tinha mudado. Primeiro, comecei a ter o que vim a chamar de ―flashbacks‖. Eu estava andando pelo bosque ao lado do rio, ou ao longo da margem, e um flashback acontecia. Uma imagem — nítida, colorida, cheia de aromas e sabores — vinha à minha mente e então sumia tão rápido quanto tinha surgido. Como os pesadelos, esses flashbacks apareciam de repente. Mas em vez de medo e angústia, eles me traziam uma coisa infinitamente melhor: fragmentos do que eu só podia concluir que eram memórias da minha vida antes de morrer. Nada muito significativo tinha aparecido ainda: uma fita preta tremulando ao vento; o som de pneus derrapando no asfalto; o cheiro da terra depois de uma tempestade de primavera. Nenhuma pessoa, nenhum nome, nenhuma cena substancial que me desse alguma pista de quem eu era ou por que eu tinha morrido. Os sabores e cheiros que eu vivenciava também eram distantes. As coisas que aconteciam nos flashbacks me lembravam mais de fantasmas dessas sensações. Mas isso já era bom o bastante. 13


Por mais insignificantes que fossem esses momentos, eu tinha cada vez mais a certeza de que aquelas imagens eram minhas. Minhas memórias da vida, libertando-se da névoa com a qual a morte havia envolvido minha mente. E foi tudo por causa dele. Por ele ter me olhado nos olhos. Por ele ter posto a mão na minha bochecha, com um gesto tão natural e simples como se fôssemos feitos das mesmas coisas. De pele, sangue e ossos. Respirando, enxergando, tocando. A simples lembrança de sua pele contra a minha me dava arrepios. Só que não eram arrepios fugidios e distantes — era uma sensação mesmo. Uma sensação física de verdade. O que já era uma mudança milagrosa na minha existência. A primeira vez que eu senti alguma coisa foi na noite do acidente. Enquanto estava parada na margem do rio, vendo as luzes da ambulância sumindo ao longe, senti um formigamento estranho nas solas dos meus pés. Fiquei olhando para baixo, confusa e assustada. De repente, me dei conta de que podia sentir a lama entre meus dedos e a grama seca pinicando meus pés descalços. Depois, tão rápido quanto tudo tinha começado, essa sensação sumiu. Isso me deixou no mínimo surpresa. Eu estava há tanto tempo desesperada por uma sensação real, física. Queria muito sentir alguma coisa, qualquer coisa. Mas por mais que eu pusesse a mão em qualquer objeto ou me apertasse contra algo, não adiantava. Não sentia nada. Nada além de uma leve pressão que só me impedia de continuar fazendo força. Minha existência pós-vida derrubava todos os típicos estereótipos do sobrenatural. Não conseguia atravessar paredes, nem flutuar como um espectro de uma sala para outra. Os vivos que chegavam perto de mim não passavam direto pelo meu corpo; em vez disso, apenas desviavam de caminho por algum motivo, sem me dar atenção, como se fosse um obstáculo qualquer. A única coisa que eu conseguia sentir, que me afetava, era eu mesma. Podia tocar no meu cabelo, no meu vestido, na minha própria pele. Mas depois de um tempo, essa exceção deixou de me trazer qualquer conforto. Na verdade, isso acabou virando uma grande piada de mau gosto: eu estava presa em uma cadeia individual. Era como se eu só existisse na minha própria dimensãozinha, sem ser vista, nem ouvida por mais ninguém, mas com uma enlouquecedora consciência do que havia à minha volta.

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Não tenho palavras para descrever como isso fazia eu me sentir: não só invisível, mas sem olfato, paladar ou mesmo tato. Nem para descrever o que senti quando me dei conta de que minhas únicas sensações físicas ocorriam durante os pesadelos onde eu revivia minha morte. Muito menos ainda para descrever o toque daquela mão na minha bochecha depois de tanto tempo. O toque em si não foi só extraordinário, mas também abriu as comportas para uma torrente de sensações. Durante esses dois dias após o acidente, e nos momentos mais estranhos, comecei a sentir coisas do mundo dos vivos. Como o casco áspero da árvore onde eu estava apoiada, ou uma gotinha de chuva que caiu quando uma nuvem passou sobre o rio. Essas sensações surgiam e desapareciam de uma hora para outra, fora do meu controle. Ainda assim, descobri que tinha como controlar uma delas: o arrepiozinho que sentia nas minhas veias sempre que pensava na pele daquele garoto. Esse arrepio me causava uma assombrosa sensação muito parecida com uma palpitação nos pulsos e no pescoço, então tentava replicálo sempre que podia. Estava pensando na pele dele de novo quando outro flashback aconteceu. De repente, um cheiro me envolveu, me capturando por completo. Fiquei paralisada no lugar onde estava, cheirando um ramo de amoras do fim do verão que pendia de uma árvore na floresta. Eu me inclinei para mais perto, sorvendo o aroma daquelas frutinhas azedas e passadas sob o sol do meio-dia. Por mais que o cheiro logo tenha se esvaído e a dormência de sempre voltado a me engolir, acabei rindo alto. Essa foi a segunda risada do meu pós-vida, e eu queria mais. Sem nem pensar em nada, subi correndo a encosta íngreme e coberta de grama até a ponte. Transpondo colinas altas com um fôlego só. Ou sem fôlego nenhum. A “Super-menina Morta”! Ri de novo, toda empolgada assim que cheguei ao alto da colina e comecei a correr pela grama. No entanto, quando cheguei ao acostamento da estrada, tive um momento de hesitação: com um pé no asfalto e o outro na grama, e meus braços esticados como se eu fosse uma trapezista. Estrada Ponte Alta Essas palavras ecoaram como uma ameaça dentro na minha cabeça, e fui tomada na mesma hora por um desejo urgente de ir embora daquele

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lugar. Senti uma coisa estranha no fundo da minha mente, uma comichão subindo e descendo pela minha pele. Seria aquilo o começo de outro pesadelo? Não, parecia ser algo totalmente novo, uma coisa que eu nunca tinha sentido antes. Balancei a cabeça. Estava sendo ridícula. Afinal, eu estava morta. O que poderia ser mais assustador do que eu mesma? Forcei meu pé a sair da grama e o outro a ir mais adiante no asfalto. Minhas pernas agora se moviam quase sozinhas. E cada passo meu ao longo do acostamento da estrada disparava calafrios desagradáveis pela minha espinha. Isso é idiotice, pensei, endireitando as costas. Eu me recusava a esgueirar pelo acostamento feito um cachorro assustado com o rabo entre as pernas. — Vamos! — gritei para mim mesma. Marchei adiante cheia de determinação, ainda que sem muito jeito. Cada passo me arrepiava ainda mais, mas não diminuí o ritmo até chegar quase à metade da ponte. Só parei quando cheguei ao buraco aberto no parapeito de meia-altura à minha direita. Havia uma fita amarela da polícia e alguns cavaletes de madeira entre o buraco e a estrada, preparados para evitar que qualquer outra coisa caísse da ponte. As bordas retorcidas do parapeito pendiam para fora da ponte de cada lado do buraco, oscilando levemente com a brisa. O carro do garoto — de Joshua — tinha aberto um buraco de pelo menos dois metros no parapeito antes de mergulhar no rio. Estremeci só de pensar no acidente e também por ouvir o som de seu nome dentro da minha cabeça. Enquanto abraçava meu próprio corpo, arrisquei uma olhada tímida para o chão. Marcas escuras de borracha cortavam o asfalto onde os pneus tinham feito uma vã tentativa de impedir que ele voasse para fora da ponte. Foi então que ouvi o grito, um barulho medonho e escandaloso que irrompeu atrás de mim. Cheguei a dar um pulo de susto. Um palavrão, um que eu nem sabia que conhecia, escapou da minha boca quando me virei na direção desse som. Só então percebi que aquele barulho terrível na verdade não tinha sido um grito, e sim o som de pneus derrapando para frear de repente. A poucos metros de mim, um carro preto havia parado, e sua porta então se abriu. Relaxei na mesma hora. Meus instintos etéreos entraram em ação e me dei conta de que não precisava correr, nem ter medo de nada. Porque 16


qualquer um que pudesse dirigir um carro não teria como me machucar, nem mesmo me ver. Mas obviamente, apesar do que gritava meu coração, meus instintos haviam se esquecido da única exceção a essa regra. Um garoto desceu pelo lado do motorista e bateu a porta. Pelo seu perfil, pude ver que ele tinha lábios carnudos e um nariz fino com uma leve curva, como se já tivesse sofrido alguma fratura, mas se recuperado bem. Ele tinha os cabelos quase pretos e olhos grandes e escuros. Quando ele se virou para mim, me peguei pensando, sem nem perceber, que ele agora estava com uma cor bem mais saudável do que da última vez em que eu o tinha visto. — É você! É você! — gritou, apontando para mim. Sem pensar em mais nada, me virei e saí correndo.

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Quatro Eu

estava cheia de impulsos bobos ultimamente. Lá estava ele, o

garoto que eu andava tão interessada — bom, obcecada, na verdade — nesses últimos dois dias. Ainda assim, saí correndo o mais rápido que pude na direção oposta quando ele apareceu. Se eu ainda tivesse alguma gota de adrenalina, ela teria ardido nas minhas pernas enquanto eu fugia. Pelo visto, e como eu suspeitava, meus instintos na morte continuavam tão fortes quanto os que tive em vida. Fantasmas nunca devem ser vistos, por mais que queiram. Qualquer coisa que aponte para o contrário era um bom motivo para se sair correndo, e rápido. Ou pelo menos esse teria sido meu raciocínio se eu conseguisse pensar direito. Mas naquele momento, a única coisa na minha cabeça foi um pânico alucinante. O medo se espalhou pelo meu cérebro e quase bloqueou a voz que irrompeu atrás de mim. — Pare! Qual é? Calma! Por favor! Foi o tom da voz o que me convenceu — baixo, e ainda meio rouco pela água do rio que ele tinha engolido. Ao perceber essa fragilidade, senti uma dorzinha bem no meio do meu peito. Foi só uma pontada leve e discreta, mas totalmente incapacitante. Derrapei com os pés no chão até parar, já quase do outro lado da ponte. Bem devagar, me virei na direção dele. — Obrigado — gritou, rouco, enquanto se acomodava no lugar. Pela sua postura, parecia que estava prestes a sair correndo atrás de mim. Ainda tensa, acenei a cabeça para ele. Após uma pausa considerável, ele por fim perguntou: — Bom, então... você pode voltar aqui? Balancei a cabeça. Nem pensar. Mesmo de longe, consegui ouvi-lo soltar um suspiro.

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— Tu-udo bem... — ele se demorou no ―u‖, como se estivesse aproveitando esses segundos a mais de pronúncia para enfrentar com mais calma um frustrante enigma. — Bom... posso ir até aí então? Franzi a testa, sem indicar nenhuma resposta. Acho que ele entendeu minha indecisão como um sim, porque começou a vir na minha direção. Ele estava andando visivelmente devagar e com as mãos erguidas em frente ao corpo, no gesto universal de ―calma, não vou machucar você‖. — Eu venho em paz — disse, abrindo um sorrisinho. Um sorriso ao mesmo tempo seco, gentil e cauteloso. Não tive como não sorrir de volta. O garoto abaixou suas mãos e abriu ainda mais seu sorriso para mim. Em seguida, a dorzinha explodiu no meu peito como uma bomba, espalhando calor por todo o meu corpo. Quente. Eu me senti quente por dentro. De verdade, como me senti com o toque de sua mão debaixo d’água. Meu sorriso cresceu também. — Esse sorriso quer dizer que posso chegar mais perto? — Não — disse eu, baixinho. Ele parou de andar, surpreso com as minhas palavras, ou talvez só com o som da minha voz. — Sério? — perguntou, depois de um instante. — Vá para a grama — disse eu. Ele franziu a testa, juntando suas sobrancelhas escuras. — Por quê? — Eu não gosto desta estrada. Quero voltar para lá — disse eu, apontando com a cabeça para a encosta que eu tinha acabado de subir. Ele continuou franzindo a testa, mas vi seu sorriso curvando o canto de sua boca de novo. — Tu-udo bem. — Ele me olhou nos olhos com um ar pensativo. A mensagem estava clara: eu era o frustrante enigma que ele estava enfrentando com calma. Mas então ele sorriu, com os lábios fechados e uma covinha no queixo, como um garotinho, e acenou a cabeça para mim. Ele enfiou as mãos nos bolsos do jeans, virou-se de lado e começou a andar de volta até a encosta. Devagar. Devagar demais. Mexendo as pernas com um jeito lerdo e exagerado. Soltei um suspiro alto. — Dá para ir mais depressa, por favor? Ele deu risada, ainda se afastando de mim. 19


— Você é meio mandona, sabia? Parece que você não é muito de conversa... Levando em conta que você é a primeira pessoa com quem eu falo em sei lá quanto tempo desde que eu morri... — Você nem imagina — murmurei. Não sei se ele me ouviu, porque hesitou um pouco. Mas então continuou andando em frente, só que sem aquele jeito lerdo forçado. Depois que ele percorreu uns três metros, comecei a segui-lo. Mas ainda mais devagar do que ele, tentando pensar, pensar,pensar no que eu iria fazer, ou falar, quando ele parasse. Por sorte, ele continuou andando e passou pelo carro preto e pelo fim da ponte até chegar ao gramado da encosta. Estava tão preocupada com a conversa que logo iríamos ter que nem percebi quando ele parou e se virou para mim. Ergui a cabeça bem a tempo de parar de repente a apenas um passo dele, ao alcance de seus braços. Senti uma onda de pânico. Poderia ter trombado nele. Se isso tivesse acontecido, eu o teria sentido, pele contra pele em um glorioso toque, ou apenas não sentido nada além daquela mesma barreira mortiça e intransponível de sempre. De qualquer jeito, ele com certeza acabaria reparando que havia algo de errado comigo e feito exatamente o que deveria: sair correndo para longe de mim. — Bom... — começou ele, quase como se aquela fosse uma conversa normal. — Bom... — respondi, olhando para os meus pés descalços, cheia de vergonha, medo e empolgação. — Meu nome é Joshua. — Imaginei mesmo. O bom humor em sua voz me fez erguer a cabeça e por fim encarar seus olhos. Como eu já suspeitava, seus olhos eram bem escuros, mas não castanhos. Eles tinham um estranho tom de azul profundo — quase a cor do céu à meia-noite. Tinha certeza de que nunca havia visto olhos daquela cor antes, e eles causaram um efeito desconcertante em mim. Fiquei ainda mais abalada só de olhar para eles. De repente me lembrei com grande desconforto da minha aparência: dos nós emaranhados nos meus cabelos; da palidez espectral da minha pele; do meu vestido sem alça, com corpete justo e saia fina, tudo totalmente inapropriado para a situação. Devia parecer que eu estava indo para algum concurso de beleza no cemitério. Pela primeira vez em muito tempo, quis ter 20


um espelho perto de mim, por mais que isso não fosse lá muito útil para alguém que não tem reflexo, nem pode trocar de roupa. Apesar disso tudo, ele pareceu não reparar no meu desconforto. Em vez disso, me olhou bem nos olhos e sorriu para mim, por mais que seu rosto tivesse perdido um pouco da descontração de antes. Ele agora parecia mais contemplativo, como se soubesse que existiam mistérios entre nós. Questões em aberto. — Bom... — começou ele de novo. — Você já disse isso. — Sim, eu sei. — Riu um pouco e abaixou a cabeça, passando uma das mãos pelo cabelo com um ar distraído até parar com ela na nuca. Senti aquela minha dorzinha de novo, percorrendo meu corpo como um pulso. Aquele gesto distraído — a passada inocente de mão pelo cabelo — tinha sido absurdamente fofo. Ele parecia tão vibrante, tão cheio de vida, que acabei deixando escapar uma pergunta sem nem perceber. — Você quer saber o que aconteceu, não é? Fiquei assustada com as minhas próprias palavras, piscando feito uma idiota. Besta, besta, besta. — Quero, sim. Quero muito mesmo. — Ele abaixou a mão do pescoço e me olhou com mais atenção, agora já sem mais nada daquele ar brincalhão em seus olhos. Droga. — Bom, é uma questão de ponto de vista, Josh — disse eu. — Joshua. Joshua Mayhew — me corrigiu na hora. — Mas meu nome não importa muito agora. Tempo. Eu precisava ganhar tempo, e rápido, então disparei a primeira pergunta que me veio à cabeça. — Por que tenho que chamar você de Joshua se todo mundo te chama de Josh? — Você não é todo mundo — rebateu ele. — Mas enfim... Percebeu que eu estava enrolando e me trouxe de volta para o rumo original da conversa, coisa que ficou bem clara. Não tão claro, no entanto, foi se ele estava ou não sugerindo algum elogio com essas palavras. — Hum... — hesitei, e então me aconteceu uma coisa que não via desde minha morte: fiquei inquieta. Peguei a borda da minha saia e comecei a revirar as dobrinhas. Não tinha a menor ideia do que fazer. Nem ele, pelo visto. Ele viu meus dedos enrolando a saia e então olhou para o meu rosto até eu finalmente conseguir encará-lo de volta. 21


— Qual é o seu nome? — sua pergunta foi tranquila, gentil. Ele não estava tentando me levar de volta para a conversa. Ele só queria saber mesmo. — Amélia. — Qual é o seu sobrenome, Amélia? — Foi tão gostoso ouvir sua voz dizendo meu nome que acabei disparando outra resposta idiota. — Eu não sei meu sobrenome. — Ou pelo menos nunca tive a coragem de procurar descobrir nas lápides do cemitério. Ele ficou sem reação, surpreso. — Hum. E onde você mora? — Não sei também. Desarmada. Eu estava completamente desarmada. Essa era a única explicação racional para a minha idiotice. — Tu-udo bem — disse ele, com o “u” arrastado de novo, mas não de brincadeira dessa vez. Ele olhou para os seus tênis de lona, franzindo a testa e tentando enfiar a ponta de um pé na grama. Colocou as mãos de volta nos bolsos e inclinou os ombros para frente, um gesto por puro reflexo que o deixou com um ar inocente e fofo. Após mais alguns momentos de silêncio, voltou a olhar para mim. — Sabe, a gente tem muita coisa para conversar. — Seus olhos sérios e intensos se fixaram nos meus. Aquela dorzinha ardeu ainda mais no meu peito enquanto ele continuava. — Eu queria ter vindo aqui antes para encontrar você, mas eles não me deixaram sair do hospital. Pelo visto, meu coração pode ter... bom, eu posso ter... morrido por um tempo. Lá na água. Ele inclinou a cabeça de lado, claramente esperando minha reação. Estremeci, mas não desviei os olhos. Provavelmente não pareci muito surpresa pela sua escolha de palavras também. Afinal, eu estava lá quando tudo aconteceu. Meu rosto deve ter respondido alguma pergunta que ele ainda estava por fazer, porque ele acenou a cabeça de novo. — Então... — continuou — ...depois que saí do hospital, comecei a procurar você por aí. Mas parece que ninguém viu você naquela noite. Nem minha família, nem meus amigos, nem os paramédicos. Não só ninguém viu você na margem, como também ninguém viu você na água junto comigo. O que achei estranho. Porque você estava na água junto comigo, não estava? Mordi meu lábio inferior e respondi com um leve aceno de cabeça. — Eu sabia que não tinha imaginado você. Bom, talvez quando eu estava, sabe, morto — ele pronunciou essa palavra como se tivesse medo 22


dela. — Mas depois disso, não. Não quando eu nadei de volta até a tona, nem quando consegui sair da água. Ainda mordendo meu lábio, balancei a cabeça. Não. Você não me imaginou. Você me viu. — Tive que praticamente roubar o carro do meu pai para sair de casa hoje, e aí vim para cá... para a cena do crime. E cá estava você. — Sim — murmurei, sem ter nada de inteligente para dizer. — Cá estou eu. — Bom... — murmurou de volta. — A gente tem muita coisa para conversar. — Você já disse isso. Ele deu risada, um som que nos deixou surpresos. Em seguida, acenou a cabeça para mim com determinação. — Bom, é o seguinte, Amélia. A gente não precisa conversar agora. Mas tenho que devolver o carro para o meu pai logo, porque passei a manhã inteira tentando achar você. Além do mais, parece que esta não é uma conversa que você quer ter, muito menos neste lugar. Não posso dizer que não entendo você. — Ele deu uma rápida olhada para o rombo no parapeito, estremeceu, e em seguida se virou de volta para mim. — Então, amanhã vou estar no Parque Robber. Sabe onde isso fica? Por mais incrível e impossível que fosse, acenei a cabeça. Eu conhecia esse parque. De repente percebi que sabia onde ele ficava tão bem quanto sabia meu próprio nome, assim como para que lado o parque ficava de onde eu estava agora. Isso me veio à mente como uma memória, uma memória genuína que não tinha surgido e se esvaído na minha cabeça, mas que só... estava lá. O que esse garoto estava fazendo comigo? — Tudo bem, ótimo. Eu vou estar sentado no banco mais vazio que encontrar no parque. E só vou aparecer lá pelo meio-dia, porque infelizmente já estou bem o bastante para voltar à escola amanhã. Acho que consigo convencer meus pais a me deixarem faltar na quinta aula... apelando para a compaixão deles, sabe como é... mas não tenho como chegar antes. Enfim, vou estar lá no parque amanhã. E vou esperar você. — E se eu não aparecer? Ele encolheu os ombros. — Vou respeitar sua decisão. Ou talvez perseguir você por aí como venho tentando fazer desde que me deram alta no hospital. Provavelmente a segunda opção, na verdade. 23


Eu deveria ter ficado com medo. Deveria ter fugido de novo para me esconder por anos e anos até que Joshua ficasse velho e aquela névoa voltasse a engolir meu cérebro. Mas em vez disso, sorri. Ele acenou a cabeça, sorriu também, e então passou andando por mim de volta até seu carro. — Até amanhã — disse, com uma leve olhada para trás. Fiquei olhando para ele, toda confusa de novo. Mas quando ele abriu a porta do carro, aquela dorzinha incapacitante voltou a arder no meu peito. Pelo visto, meus impulsos ainda estavam fazendo coisas estranhas comigo, porque a dor parecia ter incapacitado tudo no meu corpo, menos minha boca. — Joshua? — disse eu, com um leve tropeço na voz. — Oi? — Ele se virou na mesma hora. Podia jurar que ele parecia ansioso, talvez até empolgado. — Como pareço para você? — Ele inclinou a cabeça de lado, franzindo a testa. — Como eu pareço para você? — insisti, nervosa, com medo de que se não falasse rápido o bastante, teria tempo para perceber o quanto eu estava soando feito uma absoluta e completa idiota. Joshua sorriu e então me respondeu tão baixinho que mal consegui ouvir. — Você é linda. Linda demais para as pessoas não terem reparado em você naquela noite. — Ah — foi tudo o que consegui dizer. Ele endireitou as costas e limpou a garganta. — Bom... hum... vou embora antes que diga qualquer outra coisa que me faça parecer tão idiota assim de novo. Amanhã então? Acenei a cabeça, completamente atordoada. — Amanhã. Joshua acenou a cabeça também. Em seguida, entrou no carro e deu ré para sair da ponte, passando bem longe do buraco no parapeito. Com um último movimento rápido, o carro foi embora, desaparecendo de vista ao dobrar uma curva.

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Cinco As

horas podem parecer anos quando você está ansiosa, esperando

alguma coisa, ainda mais quando essa é uma coisa que você deseja tanto quanto teme. O que eu desejava, com tanta força que quase doía, era ver o rosto de Joshua e ouvir sua voz. Enquanto eu vagava por aí, sonhando com Joshua, nunca imaginei que ele poderia me ver, ou falar comigo de novo, muito menos que ele fosse querer. Fiquei surpresa com o quanto eu mesma queria isso também. Com o quanto meu desejo de ser vista, especificamente por ele, foi se intensificando cada vez mais e mais. Mas revê-lo implicaria dizer a verdade para ele. Sentada à margem do rio após Joshua ter ido embora, tive a certeza de que não conseguiria mentir para ele no dia seguinte. Não se o meu comportamento totalmente ridículo na ponte servisse como alguma indicação da minha capacidade de enganá-lo. Se eu o encontrasse no parque, e a gente se falasse, eu sem dúvida alguma acabaria contando tudo: o que tinha visto dentro d’água, e o que eu realmente era. O que, por sua vez, sem dúvida alguma o faria sair correndo para longe de mim. Então, mesmo se eu fosse ao parque, provavelmente nunca mais o veria depois. Partindo desse pressuposto, tive que me perguntar o que seria pior: a gélida solidão da minha invisibilidade ou a ardente solidão de ser rejeitada pelo mundo dos vivos? Eu já conhecia muito bem os terríveis limites e angústias da primeira, mas não fazia ideia do quão torturante a segunda poderia ser. Seguindo essa linha de raciocínio, cheguei à conclusão do que eu faria no dia seguinte. Não iria ao parque. Iria me esconder. Só queria proteger meu coração morto de qualquer coisa que pudesse ser pior do que aquele torpor.

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Provavelmente me arrependeria disso por anos e anos. Juntei meus braços em volta dos joelhos, com uma postura derrotada. Foi então que uma coisa me fez virar a cabeça para cima e em seguida dar um pulo agachada na grama. A princípio, nem entendi o que me fez reagir assim. Quando olhei para os lados, tentando encontrar alguma pista do que tinha acontecido, percebi que o sol já tinha quase se posto enquanto eu estava sentada ali, sentindo pena de mim mesma. O crepúsculo lançava um brilho intenso sobre a água, mergulhando a floresta em sombras profundas. Mas não foram os últimos raios de sol o que me assustou, e sim a coisa que tanto contrastava com aquela luz ardente do fim do dia: um vento gelado e cortante que agora açoitava minhas pernas expostas e sacudia meus cabelos. Eu vinha experimentando tantas sensações inesperadas ultimamente que talvez nem devesse ter ficado tão surpresa com esse vento. Mas fiquei. No final do verão, era estranho sentir um vento gelado assim. Pior ainda, o vento parecia não estar afetando nada à minha volta — nem a grama alta da margem, nem os galhos dos pinheiros ali perto. O vento estava soprando em uma direção esquisita também. Em vez de vir da água atrás de mim e se espalhar pelo amplo vale aberto pelo rio em meio à floresta, o vento estava vindo direto de uma fileira de árvores bem na minha frente. Quando percebi isso, cheguei a sentir meus pelos se arrepiando. Por impulso, ergui o braço para apreciar esse fenômeno, encantada com o ressurgimento desse reflexo de proteção há tanto tempo dormente. De repente, a brisa se transformou em um vendaval, jogando meus cabelos para cima do meu rosto e tapando minha vista. Cambaleei para trás, perdendo o equilíbrio com tanta violência. O vento uivou alto entre as árvores, e eu ergui as mãos para proteger meus ouvidos do som. Então, tão de repente quanto tudo tinha começado, o vento parou. O ar voltou a ficar completamente morto. Eu ainda estava com as mãos nos ouvidos e, sem nem perceber, tinha fechado os olhos com força. Eu me vi quase toda encolhida, abraçando meus próprios joelhos. — Oi, Amélia — disse uma voz masculina, vindo languidamente de algum lugar em meio às árvores. Continuei encolhida e abri só um olho, me recusando a acreditar que poderia mesmo estar ouvindo alguém falar comigo. Alguém que não fosse Joshua. — Você me ouviu, Amélia?

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Abri meu outro olho e me endireitei devagar, ainda com as mãos nos ouvidos, como se elas pudessem de alguma forma me proteger da voz desse estranho. Eu não estava conseguindo controlar minhas cordas vocais. Ele soltou um suspiro impaciente, deixando claro que estava à espera de uma resposta minha. — É sério, Amélia, você está sendo muito mal-educada. — C-como é? — consegui gaguejar. O dono da voz estalou a língua em reprovação. — Ainda mal-educada. Aquele tom atravessou a gélida cobertura de medo que havia começado a se espalhar sobre a minha pele. Senti meu rosto quente com o calor da minha raiva, como se eu até pudesse de fato ficar vermelha de raiva. — Você está me vendo, mas eu nem sei onde você está. Não acha que você está sendo meio mal-educado então? — esbravejei. Ele deu risada; um som suave que não ajudou muito a dispersar meus calafrios. — Ah, acho que eu poderia fazer alguma coisa para remediar isso, se você quiser. Os galhos das árvores bem à minha frente balançaram enquanto algo saía de trás deles. Pude perceber que seja lá quem fosse o dono daquela voz estava vindo devagar na minha direção, talvez para me acalmar e impedir que eu saísse correndo dali. Não foi uma tática muito eficiente, porque senti os repuxões do meu instinto de fuga se espalhando pelos meus músculos. Mas antes que eu pudesse consolidar minha decisão final de fugir, o dono dessa voz emergiu das sombras das árvores, chegando à parca luz do sol que ainda iluminava a margem. Percebi na mesma hora que ele não era um ser vivo, ainda que, a princípio, não soubesse dizer bem por quê. Enquanto olhava boquiaberta para ele — outra coisa que ele provavelmente veria como uma falta de educação —, reparei em todos os detalhes de sua aparência. Ele parecia ter minha idade, ou alguns poucos anos a mais talvez, mas estava com roupas estranhas e desgrenhadas: uma camisa preta desabotoada, com as mangas arregaçadas, mostrando braceletes metálicos em seus dois pulsos; um jeans superjusto de cintura baixa; vários colares amontoados um por cima do outro sobre seu peito nu. Sob seus cabelos loiro-claros que caíam em cachos emaranhados até seus ombros, ele tinha um rosto terrivelmente pálido. Como se alguém tivesse o esfregado até arrancar toda sua cor.

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Apesar dessa palidez, acho que alguém poderia dizer que ele era bonito. Até sensual. No entanto, o contraste de seu palor contra a escuridão deixava evidente seu ar etéreo. Sua pele parecia clara demais, indiferente demais à parca claridade do crepúsculo. Ela emitia um brilho quase imperceptível, sem refletir a luz do sol, ou da lua, mas sim iluminada por sua própria natureza. Como uma fotografia em preto e branco com uma leve camada de verniz na frente de um cenário escuro. Uma figura deslocada e etérea, exatamente como eu. — O que você é? — murmurei. — Você sabe muito bem o que eu sou. Sou a mesma coisa que você. A melhor pergunta aqui, Amélia, seria: quem sou eu? — Ele parou de se aproximar, cruzou os braços em frente ao seu peito nu e abriu um sorriso para mim. Então eu estava certa. Ele era um fantasma. Um fantasma que não estava conseguindo me cativar muito. Endireitei os ombros e ergui minha cabeça. — Acho que não estou muito interessada nisso, mas obrigada. — Engraçadinha. É claro que você está interessada. — Por que eu estaria? — Porque esta é a primeira vez que você vê alguém como você mesma. Precisei conter minha reação de espanto. Como ele poderia saber disso? Pensei por um instante em rebater dizendo que isso não tinha importância, porque ele não era o primeiro a me ver. No entanto, algum instinto de proteção me aconselhou a não falar do Joshua. E até a deixar qualquer pensamento sobre ele longe da minha cabeça, se possível. Esse outro fantasma era muito esperto — ele percebeu minha hesitação e estreitou os olhos. — Entendo seu espanto, Amélia. Venho observando você há anos, sempre de longe. Você nunca me viu, nunca testemunhei nenhum encontro seu com outro de nós. A menos que você tenha saído por aí escondida — sorriu, mostrando um dente com um pedacinho lascado, um gesto que poderia ter sido até charmoso, se não fosse tão sinistro. — Mas... como você sabe meu nome? — perguntei. — Bom... — disse ele. — É que você vive gritando seu nome para os vivos, não é? Senti uma ânsia de vômito. 28


Esse fantasma, essa criatura morta, vinha me observando — há anos? Se fosse assim, todos os meus momentos particulares teriam sido expostos. Compartilhados com ele. Cheguei a outra rápida conclusão: se ele estava me observando desde o começo, ele tinha me deixado vagar, totalmente perdida e sozinha pelo mundo, durante sabe-se lá Deus quanto tempo. Tinha me deixado sem nenhum guia, sem nenhum amigo, se divertindo com a minha humilhação e o meu isolamento. O quão cruel alguém precisava ser para ficar observando em silêncio o sofrimento de outra pessoa por tanto tempo? Senti a raiva se incendiar dentro de mim, ardendo como um carvão em brasa no meu âmago. De repente, fiquei até grata por perceber que esse fantasma parecia não ter visto Joshua e eu juntos. — Por que eu nunca vi você? — consegui dizer depois de algum tempo, escolhendo com cuidado minhas palavras para revelar o mínimo possível. — Bom... — disse ele. — Você sempre esteve perdida demais também, cega demais para ver que eu estava lá, às vezes bem do seu lado. A não ser naqueles momentos estranhos, quando você de repente sumia e eu tinha que caçar você por aí depois. Soltei um leve suspiro de alívio. Ele não podia me seguir nos meus pesadelos. Era estranho o quanto eu agora estava grata pela solidão que eles me traziam. Por sorte, ele não percebeu nenhuma mudança de expressão no meu rosto por isso, e só continuou a se explicar. — Sabe, Amélia, foi uma grande surpresa ver você se virar para mim hoje. Porque veja bem, o vento que você acabou de sentir... bom, é uma espécie de anúncio sobrenatural da minha chegada. É o meu cartão de visita, por assim dizer. — Ele sorriu, quase com orgulho. — Você sempre esteve distraída demais para sentir esse vento, assim como para me ver. Mas agora, isso mudou. — Sim — disse eu, seca. — Mudou mesmo. Ele soltou um suspiro. — Então agora obviamente estou com um dilema — ele fez uma pausa, aparentemente à espera de alguma participação minha na conversa. Fiquei o encarando em silêncio, tentando conter o ódio nos meus olhos. — Meu dilema, Amélia, é bastante complexo: o que vou fazer com você agora? Fiz uma careta. — Como assim? Ele suspirou de novo, para dar mais drama ao momento. 29


— Observar suas andanças sem rumo acabou se tornando um grande passatempo meu. Mas agora que você acordou do seu torpor, não posso mais deixar você vagar perdida por aí. Regras são regras. Então, como eu disse: o que é que eu vou fazer com você agora? Contive um forte impulso de gritar que ele nunca iria fazer nada comigo. Eu já não estava mais nem um pouco irritada por ele não ter me despertado da névoa da morte e me explicado minha verdadeira natureza antes. A única coisa que eu estava sentindo agora era um gosto ruim na boca só por pensar que ele esteve tão perto de mim durante esse tempo todo. Mas em vez de expressar esses meus pensamentos, apenas perguntei com uma voz calma e baixa: — Qual é o seu nome? — Em vida, meu nome era Eli. — E na morte? — Não consegui esconder um toque de desprezo na minha voz. — Pode me chamar de Eli mesmo — disse. — Acho que tenho uma solução para o seu dilema, Eli. — Que ótimo. Que tal contar para mim então? — Bom, Eli, acontece que agora eu já posso sentir esse seu vento. Não é uma coisa lá muito fácil de esconder, não é mesmo? — Abri um sorriso meigo, mas me esforçando bastante para deixar meu desdém o menos velado possível. — Então está bem claro que você não vai mais conseguir me observar sem ser visto, certo? Eli franziu a testa. Pude perceber que ele não tinha nenhuma resposta pronta, nenhuma saída para contornar minha lógica. Soltei um grito silencioso de triunfo por dentro. Pelo visto, não havia nenhuma brecha que o permitisse continuar me observando às escondidas. Após uma longa pausa, Eli suspirou e abriu um sorriso. Pode ter sido só minha imaginação, mas seu sorriso me pareceu muito menos prepotente do que antes. — Sim, Amélia, você tem razão. Você sempre perceberá minhas visitas de agora em diante. — Ótimo. Como isso já ficou claro, gostaria que você parasse de me fazer essas visitas de agora em diante. Uma sombra pareceu passar sobre seu rosto. — O que você está querendo dizer, Amélia?

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— Estou querendo dizer que já sei o que você pode ―fazer‖ comigo, Eli — disse eu, abrindo um enorme sorriso cínico. — O que você pode fazer é me deixar em paz. Para sempre. Na mesma hora, as rugas na testa de Eli se aprofundaram, erguendo os cantos dos seus lábios até ele ficar parecendo um animal selvagem arreganhando os dentes. Quase achei que ele ia rosnar e, por reflexo, fiz uma careta. Ele claramente percebeu o medo na minha reação, porque sua boca se abriu com um grande sorriso ameaçador. Só para variar, ele não estava parecendo nada amistoso. — Você que sabe — murmurou e, milagrosamente, se virou para ir embora, pisando nas agulhas caídas no chão dos pinheiros. Mas antes de entrar na floresta, parou e se virou de volta para mim. Cruzou os braços, com seu sorriso sinistro ainda estampado no rosto. — Eu não vou mais seguir você, Amélia. Não adianta mais mesmo. — Eli abaixou a cabeça para me encarar, com as pálpebras baixas sobre seu olhar ameaçador. — Mas você virá me procurar muito em breve, disso tenho certeza. Você não faz ideia do que nós somos... do que você é. Então eu só vou te dar uma advertência. Uma amostra do lugar ao qual você realmente pertence. Do lugar no qual você cedo ou tarde ficará presa, agora que despertou, se não procurar minha ajuda. Enquanto ele dizia essas últimas palavras, senti um frio de repente, mais intenso e cortante do que qualquer outra coisa que eu já tinha sentido. Ao contrário do vento que anunciava a chegada de Eli, esse frio não era direcionado, nem passageiro. Era uma sensação que estava por toda parte à minha volta, como se a temperatura na margem do rio tivesse caído pelo menos uns quinze graus de uma hora para a outra. Fiquei boquiaberta com o choque térmico, e meu bafo se condensou à minha frente. Fiquei tão chocada com o frio que quase não percebi quando o lugar onde eu estava começou a se transformar também. Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, a margem do rio ficou escura. Em poucos segundos, parecia que o sol já havia sumido por completo, levando embora com ele todas as luzes e cores. No começo, achei que o lugar onde eu estava tinha ficado totalmente escuro, mas na verdade não era isso. Tudo à minha volta havia ganhado um tom cinzento frio e escuro. Olhei de volta para Eli, que parecia estar completamente tranquilo nesse novo ambiente, com os braços ainda cruzados casualmente. Em meio 31


a essa escuridão total, sua pele parecia ainda mais clara, ainda mais sobrenatural. — O quê...? Onde...? Meus sussurros não estavam conseguindo formular perguntas concretas. Como resposta, Eli deu uma risada sinistra, mas não disse nada. Ele passou mais um instante me encarando antes de seus olhos começarem ir da direita para a esquerda, como se estivesse procurando alguma coisa ao meu lado. Por puro reflexo, me virei para tentar ver seja lá o que parecia tê-lo distraído. Foi então que vi: diversos vultos escuros estranhos pairando ao longo do meu campo de visão periférica. Eles pareciam enormes mariposas, ou sombras, se remexendo e dardejando pelo ar, fora do meu campo de visão. Eu me virei de um lado para o outro, tentando enxergá-los direito. Mas sempre que virava a cabeça, essas sombras se moviam junto comigo, escapando dos meus olhos. Dei uma volta completa, me virando de novo para Eli e para o rio. E naquele instante, me esqueci de todas as sombras que continuavam dançando nas bordas do meu campo de visão. Há apenas alguns minutos, havia um rio normal ali atrás de mim, verde e lamacento sob o sol do final do verão. Mas agora, mesmo em meio à escuridão cinzenta daquele lugar, notei que uma mudança dramática havia acontecido naquelas águas. Havia alguma coisa correndo nessa versão do rio, mas com certeza não era nada tão inocente quanto água. Dentro desse novo rio, havia agora um líquido grosso passando por mim. Era algo mais parecido com piche, uma substância tão imunda e escura que eu mal podia perceber qualquer sinal de movimento em sua superfície. Mas aquilo estava se mexendo, sim, se arrastando na direção da Ponte Alta. Bem devagar, virei minha cabeça para a ponte, mas antes que eu pudesse assimilar sua nova forma, minha atenção foi desviada para o que havia embaixo dela — o lugar para onde o rio negro parecia fluir. Ali, embaixo do que poderia ou não ser a Ponte Alta, havia agora um enorme abismo negro. Como se fosse possível, esse buraco era ainda mais escuro do que as margens cinzentas, mais até do que o próprio rio. A parte de cima desse vazio tocava no teto da ponte, e sua parte inferior resvalava na água e nas margens próximas. Olhando lá para dentro, não consegui ver onde esse breu acabava, nem nenhum pontinho de luz em meio a toda aquela escuridão. 32


Era a coisa mais escura naquele mundo já imerso em trevas. Aquilo parecia quase pulsar embaixo da ponte, como se fosse uma criatura viva, à espera de alguma coisa. Talvez de mim. Consegui, com grande dificuldade, desviar meu rosto daquele abismo embaixo da ponte e olhar com horror para os meus pés. Meus dedos estavam avançando, por vontade própria, na direção do rio — sendo atraídos por alguma força invisível até a água. Com certo esforço, consegui afastar meus pés da borda do rio. Eu me virei de volta para Eli, realmente assustada agora. Mais assustada do que jamais tinha me sentido antes. — Onde estou? — por fim consegui perguntar. — Você quer saber mesmo? — sussurrou, com seus olhos brilhando com o que só podia ser um deleite maligno. Acenei mecanicamente. Em resposta, Eli virou sua cabeça de um lado para o outro, apontando para o sombrio cenário à nossa volta. — Esta é uma parte do além, Amélia. É para cá que os espíritos mortos devem vir. Durante seus tempos perdida, deixei você longe deste lugar. Mas agora, só uma coisa pode impedir que você acabe sendo aprisionada aqui para sempre. Ergui uma sobrancelha. Tive a sensação de que já sabia qual ―coisa‖ era essa. Ele confirmou as minhas suspeitas assim que continuou. — Sem mim, Amélia... — insistiu — ...você ficará presa aqui. Sem mim, você passará a eternidade neste lugar, sem acesso ao mundo dos vivos. Então agora você já sabe por que eu tenho a certeza, sem nenhuma sombra de dúvida, de que você acabará vindo me procurar de novo. Tudo o que você precisa fazer é me chamar da Ponte Alta... e eu sei que isso irá acontecer, e em breve. Apesar do pavor que dominava cada centímetro do meu corpo, eu me irritei com as palavras de Eli. Com essa sua ideia de que eu precisava dele, de que eu não teria como escapar deste mundo grotesco sem ele. Mesmo naquela situação, eu ainda tinha bom-senso o suficiente para suspeitar das suas motivações e para me lembrar de que esse jovem espectro não tinha nem um pouco a ver com a minha concepção de anjo da guarda. Endireitei as costas o máximo que pude e o encarei direto nos olhos. — Vamos ver, Eli — murmurei. — Vamos ver. Agora foi a vez de Eli erguer uma sobrancelha. Ele obviamente não estava esperando essa pequena demonstração de coragem. Em vez de me reprimir, no entanto, ele me deu um último aceno distraído de cabeça e se virou de novo para então desaparecer em meio ao que antes era a floresta. 33


Se um forte vento gelado anunciava a chegada de Eli, o exato oposto marcava sua partida. Por um longo instante, foi como se um vácuo tivesse sugado tudo à minha volta, inclusive aquele vento gelado. Eu não senti nada — nem o frio, nem a brisa, nem sequer eu mesma. Nunca me senti tão entorpecida em toda a minha existência pós-vida. Engasguei, pondo as mãos na garganta. Em seguida, tudo passou quase tão rápido quanto tinha começado. Os tons verdes suaves das margens reapareceram, brilhando ao meu redor, e a brisa do final do verão voltou a aquecer gentilmente meus pulmões. Enquanto tentava recuperar o fôlego, tombei de quatro na grama.

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Seis Naquela

noite, não marquei as horas andando inquieta de um lado

para o outro como na anterior. Em vez disso, apenas vi o tempo passar totalmente inerte, agachada na margem do rio, sem tirar os olhos do lugar entre as árvores onde Eli tinha desaparecido. Continuei imóvel enquanto o sol nascia sobre os picos das árvores. Fiquei o tempo todo com as mãos firmes na grama, pronta para sair correndo a qualquer momento assim que sentisse outra rajada daquele vento frio. Por fim, a muito custo, consegui me mexer. Centímetro por centímetro, me levantei da minha postura defensiva, sem nunca tirar os olhos das árvores à minha frente. Arrisquei uma olhada para cima, tentando calcular quanto tempo eu tinha passado ali em alerta contra o nada. Pisquei com surpresa ao ver a claridade do dia. Embora densas nuvens cinzentas estivessem cobrindo quase tudo acima de mim, pude avistar um ou outro raio de sol furando aquela cobertura mais ou menos no meio do céu. Já devia ser quase meio-dia. Enquanto esperava ali, quase um dia inteiro já tinha se passado sem a volta de Eli. Sem a volta daquele mundo sombrio e medonho que ele tinha me mostrado. À minha frente, a floresta continuava sendo apenas o que era: uma floresta viva normal, com árvores vivas normais. Arrisquei outra olhada para trás por cima do meu ombro. O rio, agora verde e lamacento de novo, corria rápido em direção à Ponte Alta, embaixo da qual não havia mais nada além do próprio rio. Forcei meu corpo a relaxar e então espreguicei cada um dos meus membros. Foi um esforço desnecessário, já que meus músculos mortos não tinham muito como se contrair, mesmo quando eu passava várias horas em uma mesma posição. Ainda assim, aquilo me pareceu adequado. Eu queria sentir aquela nova determinação não só na minha mente, mas no meu corpo — aquela determinação de nunca deixar que Eli me controlasse.

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Essa determinação me pareceu importante — talvez até crucial —, porque eu suspeitava de que acabaria o reencontrando. Embora Eli tivesse prometido ficar longe de mim por um tempo, ele também disse que havia várias coisas sobre ele e sobre as pessoas como nós que eu não sabia, nem entendia, coisas que ele cedo ou tarde acabaria me contando. Suas palavras claramente tiveram um tom de ameaça, ainda mais por terem sido ditas naquele lugar terrível que ele me mostrou. Ainda assim, por mais que eu ignorasse muitos detalhes da minha natureza etérea, já não ignorava mais certas coisas. Não tinha dúvida de que perceberia a aproximação de Eli da próxima vez que sentisse aquele vento cortando minha pele. Ele não conseguiria me levar de volta para aquele lugar sem que eu antes percebesse sua presença. Isso me trouxe um certo conforto. Não tinha como prometer a mim mesma que não ficaria sempre atenta, alerta e assustada. Mas me recusava a ficar esperando na margem daquele rio. Porque não queria continuar sendo prisioneira da névoa da morte, ou do meu próprio medo. E porque já era quase meio-dia, a julgar pela posição do sol. Ontem, eu tinha decido não me encontrar de novo com Joshua. Estava determinada a me esconder e deixar que a solidão me engolisse de volta. No entanto, após a repentina aparição de Eli, já não tinha mais a menor intenção de voltar a me perder naquela névoa. Agora queria ficar o mais desperta e viva possível. E Joshua tinha feito eu me sentir tão viva. Ele era o motivo por trás de toda aquela mudança, daquela novidade. O motivo pelo qual eu havia emergido da névoa. Eu não sabia explicar isso, nem por que havia ficado vagando por aí após minha morte, ou mesmo por que eu não sabia de nada. Mas os novos desejos que haviam me arrebatado após aquele incidente com Joshua continuavam os mesmos. Aliás, eles tinham ficado mais fortes, mais intensos. Mais ainda do que da primeira vez que o vi, eu queria estar perto dele. Queria sentir seu toque, só mais uma vez, quem sabe. Qualquer coisa, até vê-lo fugindo de mim quando descobrisse a verdade, já valeria o risco. Agora já podia sentir um novo propósito para o dia de hoje. Olhei para o rio e sua margem mais uma vez, assimilando aquela cena com a água verde e a grama amarelada do verão. Aquele era o cenário de várias transições minhas: da vida para a morte... e talvez agora de uma volta para algum outro tipo de vida? Talvez. Valeria a pena tentar descobrir. 36


— Adeus — disse eu em voz alta para a água. E então comecei a correr, com meus pés descalços voando pelo barro e pela grama, deixando o rio e a Estrada Ponte Alta bem para trás. Cheguei ao parque quase em cima da hora. Um relógio instalado no alto de uma enorme plataforma de madeira em frente à entrada do lugar marcava 11h50. Desacelerei o passo e segui em frente quase que só caminhando pela trilha cercada de cedros que levava até a área de piquenique. Apesar de ter acabado de correr por vários quilômetros, não estava sem fôlego, nem mesmo despenteada. Ainda assim, comecei a ficar inquieta, alisando as dobras invisíveis na saia do meu vestido e passando as mãos pelas grossas ondas dos meus cabelos. Eu estava... tensa. Parece que até os mortos podem ter ataques de nervos. Quase dei meia-volta, sentindo minha determinação de antes se esvair. Meu futuro estava ligado a Joshua e ao resultado da nossa conversa. Podia sentir isso dentro de mim e agora já não entendia mais como consegui decidir enfrentá-lo com tanta ousadia. Mas meus pés me traíram. Ou me foram mais fiéis, dependendo do ponto de vista. Eles continuaram me levando pela trilha, cruzando um estacionamento e um bosque de pinheiros, alguns bancos vazios, até por fim chegarem ao único que estava ocupado. Joshua estava sentado, não no banco em si, mas na mesa de concreto à sua frente. Ele estava olhando para a esquerda, na direção das árvores que cercavam a clareira da área de piquenique. Seu rosto de perfil — com sua mandíbula reta, seus ossos altos das bochechas e lábios carnudos — me deixou arrepiada, me senti inundada por uma onda de desejo e medo ao mesmo tempo. Vi suas sobrancelhas escuras se juntarem enquanto ele continuava analisando o bosque. Talvez ele estivesse achando que eu não iria aparecer mesmo. — Oi, Joshua. Por mais que eu tivesse apenas sussurrado essas palavras, sua cabeça se virou para mim. Em seguida, um enorme sorriso radiante se abriu em seu rosto. Ele pulou de cima da mesa e veio na minha direção com um braço erguido como se quisesse tocar em mim. Por instinto, dei um rápido passo atrás. Ele parou e franziu a testa. — Ah... desculpe. Me empolguei demais? 37


É claro que não, meu Deus. Eu só não queria que tudo acabasse antes mesmo de começar. — Não — disse eu em voz alta. — Só... fiquei surpresa. Ele deu risada. — Desculpe. Acho que acabei parecendo um labrador empolgado, todo grande e bobo. Mas é que eu também fiquei meio surpreso, sabe? — Por quê? — Porque você apareceu assim, de surpresa. — Ele abriu um leve sorriso, e a sombra de uma covinha repuxou sua bochecha. Acabei sorrindo de volta um pouco também. — Bom, eu sempre tento agradar. — Então missão cumprida. — Ah. Boa, Amélia!, gritei, dentro da minha cabeça. A morte claramente não tinha aprimorado meu vocabulário. O sorriso tímido de Joshua cresceu um pouco mais, talvez como um sinal de que ele estava se divertindo com a confusão estampada no meu rosto. Infelizmente, essa nossa brincadeira não tinha como durar para sempre. Ele apontou para a mesa com uma das mãos como um garçom de um restaurante chique. — Um banco tranquilo no parque, como prometido. Soltei um suspiro. Pelo visto, eu não tinha mais como evitar aquele momento. — Sim, acho que já é hora. As sobrancelhas de Joshua se juntaram enquanto eu passava por ele para me sentar no banco. — Olha, não quero fazer isso como se fosse a inquisição espanhola, nem nada. — Eu sei — disse eu sem rodeios. Eu me sentei, sentindo a pressão do banco, mas não o banco em si, e cruzei minhas mãos em cima do colo. Joshua se virou para mim, mas não se sentou. Abaixei a cabeça, tentando me preparar para o inevitável desfecho daquela conversa. Mas tinha uma coisa que eu precisava saber primeiro. — Antes de começar com as explicações, posso fazer uma pergunta? — Claro. Ergui a cabeça e o vi pondo as mãos nos bolsos do jeans e inclinando a cabeça para o lado. A julgar pela sua postura, ele já parecia estar bastante perplexo com meu comportamento, então fiz minha pergunta com cuidado. 38


— Você... se jogou para fora daquela ponte de propósito? — Hah! — exclamou, como se fosse uma risada. — Não exatamente. Foi estranho, mas ele me pareceu quase envergonhado. Inclinei a cabeça de lado também e ergui uma sobrancelha para encorajá-lo a continuar. Ele riu de novo, meio tímido, e com um lindo rubor corando suas bochechas. — A única coisa que eu fiz de propósito foi pegar um atalho imbecil. — Como não abaixei a sobrancelha, Joshua continuou falando. — Eu estava seguindo uns amigos até uma festa. Por algum motivo idiota, decidi cortar caminho pela Estrada Ponte Alta. Não tenho a menor ideia de por que eu fiz isso. Minha família já tinha praticamente me proibido de passar por aquela ponte, porque ela é muito perigosa mesmo. Mas enfim, quando eu estava chegando perto da Ponte Alta, achei que tinha visto sei lá o que no rio. Eu me distraí, e quando olhei de volta para a estrada, vi alguma coisa vindo na minha direção... um cervo, ou um lince, não sei bem, era um bicho tão preto que eu não tinha como saber. Eu desviei para não atropelar seja lá o que fosse aquilo e aí meu carro rodou para fora da ponte. Devo ter batido a cabeça do volante, porque não me lembro de mais nada do acidente depois disso. Graças a Deus, estava com a janela aberta. Acho que foi assim que saí do carro antes de afundar junto com ele. — E seus amigos chegaram tão rápido lá por quê...? Ele encolheu os ombros com um ar envergonhado. — Porque... hã... porque a cerveja estava no meu carro. Quando ele terminou, soltei o ar bem devagar. Fiquei contente por estar errada quanto a pelo menos uma das minhas teorias por trás da nossa interação: não era o suicídio o que nós tínhamos em comum, mas apenas o fato de termos morrido naquele mesmo lugar, por mais que ele só tivesse passado alguns instantes morto. — Seria estranho, Joshua, se eu dissesse que fico feliz por isso? — Por quê? Por eu gostar de cerveja? Abri um leve sorriso. — Não, por você não ter se jogado da ponte de propósito. Ele deu risada. — Então não é nem um pouco estranho. Eu dificilmente escolheria a Ponte Alta para fazer uma coisa dessas, sabe? — brincou. Engasguei ao ouvir isso. Vendo minha reação estranha, ele voltou a falar rápido, com um ar quase culpado. — Desculpe. Eu... olha, não sei nem por que disse isso.

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Não estou querendo irritar você, nem nada. Eu acho que... enfim... você não tem por que aguentar isso. Você não tem por que me falar nada, digo. — Na verdade, tenho sim — disse eu, sem conseguir esconder a tristeza na minha voz. — Acho que não tenho outra escolha, se quiser voltar a falar com você. Isso se é que você vai querer continuar falando comigo depois. — Por que eu não iria mais querer falar com você? Seu tom gentil, e a mensagem em suas palavras, me fizeram encará-lo de frente. Ao ver seus estranhos olhos azuis fixos nos meus, senti aquela dorzinha se reacender no meu peito. — Você não vai mais querer falar comigo porque eu vou te contar a verdade. — E a verdade vai fazer... o quê? Eu decidir me afastar de você? — Ele sorriu, erguendo uma sobrancelha, claramente incrédulo. — Mais ou menos isso — murmurei. — Acho difícil de acreditar — disse ele, enquanto desviava os olhos de mim por um instante para vir até o banco e finalmente se sentar ao meu lado. — Na verdade, você provavelmente vai achar o que eu estou prestes a dizer bem mais difícil de acreditar. Mas é a verdade. Ele juntou as mãos e chegou mais perto de mim, apoiando os cotovelos nos joelhos antes de voltar a erguer seus olhos até os meus. — Ótimo. Eu quero ouvir a verdade, Amélia. Inexplicavelmente, minha respiração disparou. Um pulso, coisa que eu sabia que não tinha, começou a fluir pelos meus braços e pelo meu pescoço. Poderia jurar que até senti um calor pela proximidade de seu corpo — um calor que ameaçou corar as minhas bochechas irremediavelmente pálidas até então. Era o tipo de calor que poderia me levar a fazer ou falar qualquer coisa. Palavras começaram a escapar da minha boca quase sem que eu conseguisse pensar em nada direito. — Você disse que me viu embaixo d’água, certo? — Sim. — E você foi a única pessoa que me viu? — Sim — disse ele, todo paciente e calmo. Minha voz, no entanto, não parava de vacilar enquanto continuava. — Bom, acho que você me viu porque... enfim, porque você morreu. Ele voltou a franzir a testa.

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— Eu sei que estive morto mesmo, pelo menos por alguns segundos. Mas não sei bem aonde você quer chegar. — Você não conseguiu me ver antes, certo? Não antes de você... morrer. Quanto mais eu falava, menos eu conseguia respirar. Joshua também parecia estar confuso com o que eu estava dizendo. Ele respondia devagar, metodicamente, como se precisasse se agarrar à sua racionalidade para continuar aquela conversa. — Amélia, não consegui ver você porque estava desmaiado antes do meu coração parar. — Não. Bom, sim, você estava desmaiado. Mas não foi por isso que você não conseguiu me ver. Mesmo se você estivesse consciente, não teria conseguido me ver. Ainda não, pelo menos. — Hã? — as rugas em sua testa se intensificaram enquanto ele se aproximava de mim. De repente, percebi que eu já não conseguia mais controlar o fluxo das minhas palavras. Foi como se eu tivesse arrancado uma fita adesiva grossa que estava cobrindo minha boca. Queria me livrar daquilo e explicar tudo de uma vez só para poder respirar de novo. — Eu tenho uma teoria, ou quase isso. Não tenho como ter certeza, mas acho que ninguém pode me ver, a não ser alguém que seja... bom, como eu. É por isso que as pessoas na margem do rio não conseguiram me ver, e é por isso que o Eli consegue me ver. Porque ele é como eu. — Quem é esse Eli? Eu estava com tanta pressa para pôr a verdade para fora que quase perdi o controle das coisas que escapavam da minha boca. — Desculpe — grunhi. Abaixei a cabeça e pus as mãos no rosto, fechando os olhos com força. — Isso não está fazendo sentido nenhum, não é? A resposta de Joshua me surpreendeu. Ele não parecia frustrado, nem mesmo confuso. Em vez disso, sua voz agora estava empolgada, intensa. — Amélia, estou me esforçando muito para entender tudo isso. Sei que alguma coisa... estranha aconteceu. E está acontecendo. Acredito na sua explicação. Só vá devagar, tudo bem? Ergui meu rosto para encará-lo. Seus olhos estavam lindos, e sérios; eles me lembraram do céu à noite. Tentei expulsar essa distração da minha cabeça para conseguir me concentrar naquela conversa bizarra. — Joshua, não tenho a menor ideia de como dizer isso... 41


— Tudo bem. Vai dar tudo certo. Desviei meu rosto para o chão de terra vermelha à nossa frente com um olhar vazio. Quando voltei a falar, as palavras saíram devagar. Dolorosas. — Acho que você me viu, e ainda pode me ver, porque nós temos algum tipo de... sei lá... conexão mágica ou espiritual. Você é como eu. Ou pelo menos foi por alguns instantes. Os olhos de Joshua se estreitaram. — O que esse ―como você‖ quer dizer...? — Que você morreu. — A palavra ―morreu‖ pairou densa no ar entre nós, como uma faca só esperando para cair. A testa de Joshua se enrugou enquanto tentava entender o que eu tinha dito, enquanto tentava seguir o confuso raciocínio que eu havia construído. Ele podia não ter juntado todas as peças do quebra-cabeça ainda, mas logo conseguiria. A cada segundo que passava, podia vê-lo ligando tudo, peça por peça. Ele iria surtar a qualquer momento e me chamar de maluca ou... pior ainda... acreditar em mim. — Tudo bem — arriscou ele, hesitante. — Então você e eu, nós morremos? Eu no rio aquela noite, e você em algum momento no passado? — Sim. Naquele mesmo rio, na verdade. — Nossa. — Ele pareceu surpreso, mas depois se recompôs. — Então você está dizendo que essa ―conexão‖ explica por que eu fui o único que conseguiu ver você? Isso é algum tipo de mágica, ou coisa assim? — hesitou para dizer essas últimas palavras, como se estivesse se arriscando em alguma nova língua estranha. — Acho que sim. — Voltei a olhar para o meu colo. — E essa conexão existe porque você morreu? — perguntou ele. Apenas acenei a cabeça. — E você voltou à vida, como eu? Um instante ou dois se passaram, e então... — Não, Joshua. Isso, não. — Por um instante, ficamos apenas em silêncio. Em seguida, eu o ouvi puxando o ar com um fôlego tenso. Era agora... o grande momento. O desfecho. Terminei com um mero sussurro: — O que acontece, Joshua... é que eu nunca voltei à vida. No pior momento possível, fui acometida por uma daquelas novas sensações imprevisíveis. De repente, senti uma brisa morna contra a pele das minhas pernas e dos meus braços. O ar parecia carregado, elétrico, como se o céu cinzento estivesse para se abrir em meio a raios e trovões e

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uma tempestade fosse desabar à nossa volta. Arrepios subiram pelos meus braços. Arrepios de verdade, como os que Eli havia causado em mim. Eu não consegui erguer o rosto para olhar nos olhos de Joshua, mas pude ouvi-lo gaguejar, soltando grunhidos de incredulidade. Em seguida, ele ficou muito quieto e imóvel. Esse hiato durou talvez um minuto inteiro até que ele então voltou a falar com uma calma inexplicável. — Amélia, você está tentando me dizer que você está...? — Morta — disse eu na mesma hora, porque me pareceu inútil tentar adiar o inevitável. — Morta — repetiu ele, sem qualquer emoção na voz. Outro instante se passou e então, de repente, Joshua pulou para fora do banco. Ele se virou para mim. Fiquei olhando para ele, com certeza de olhos arregalados e com cara de assustada. Seu rosto, no entanto, estava sem expressão alguma. Era como se ele estivesse usando uma máscara — escondendo talvez medo, raiva, ceticismo, ódio? Eu não tinha a menor ideia. Eu não tinha como aguentar. Não tinha como aguentar aquele olhar vazio em seu rosto, um olhar que eu tinha causado com a verdade. Ele agora achava que eu era uma louca, ou sabia que eu estava morta. Seja lá qual fosse sua conclusão, eu com certeza perderia o pouco contato que havia conseguido ter com ele. Naquele instante, me senti mais sozinha do que nunca. Sozinha pelo resto da eternidade talvez, e agora com a dolorosa consciência de tudo o que eu jamais poderia ter. — Sinto muito — murmurei, pedindo desculpas para ele, para mim mesma, para sabe-se lá quem, e então tapei minha boca com a mão. Eu estava tão distraída sentindo pena de mim mesma que quase nem percebi uma coisa na minha bochecha. Uma coisa quente e úmida que escorreu até o canto da minha boca. Sem desviar minha atenção de seu rosto vazio, encostei um dedo na borda do meu olho e então o levei até meus lábios. Senti um gosto salgado. Uma lágrima. Meus olhos mortos haviam derramado uma lágrima. Alguma coisa naquela lágrima solitária deve ter reanimado Joshua, porque sua expressão vazia de repente se dissolveu. Seus olhos e sua boca relaxaram. — Amélia — sua voz saiu rouca e se esvaiu. Meu nome nunca soou tão lindo.

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Joshua esticou o braço, erguendo sua mão como se fosse acariciar minha bochecha. Sem dar atenção a nada além daquela dor que ardia dentro de mim, eu me inclinei para mais perto dele. Nada poderia ter nos preparado para o momento em que sua pele voltou a tocar na minha.

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Sete Não

deveria ter me surpreendido. Meu mundo já tinha mudado da

primeira vez em que ele pôs a mão na minha bochecha — e não havia nenhum motivo para não mudar de novo agora que ele tinha repetido esse gesto. Mesmo assim, quando sua mão tocou o meu rosto pela segunda vez, nós dois prendemos o fôlego e nos afastamos um do outro, chocados. Meus dedos voaram por reflexo até o ponto que ardia na minha bochecha, e ele fez o mesmo, pondo sua mão esquerda sobre a direita. Nossos gestos poderiam parecer tímidos, até defensivos, para alguém que visse de fora. Mas para mim, foi exatamente o contrário. Assim que sua pele roçou na minha, um pulso eletrizou meu corpo todo, desde minha cabeça até a ponta dos dedos. Esse pulso fez a dor no meu peito e os arrepios que se espalhavam pela minha espinha sempre que ele me olhava parecerem meras cinzas mortiças. Meu coração, meu cérebro, minha pele, enfim, meu corpo inteiro foi engolido por chamas, em um incêndio causado por apenas aquela faísca na minha bochecha. Eu nunca tinha sentido nada tão intenso. Nem em morte... nem em vida. Tive certeza disso, bem no fundo do meu âmago. Joshua ficou olhando para mim, esfregando a própria mão. Ele continuava ofegante, como se tivesse acabado de correr uma maratona. Em seguida, ainda sem fôlego, ele abriu um sorriso. Um sorriso enorme. — O que... — por fim conseguiu dizer ele — ...foi isso? — Não tenho a menor ideia — disse eu, e depois comecei a rir. — Quer fazer de novo? — Ah, claro — ronronou ele, e então se inclinou para pegar minha mão do meu colo. Como tinha acontecido com minha bochecha, nosso contato não foi perfeito, por assim dizer. Não consegui sentir a textura de sua pele, nem a força dos seus dedos nos meus, e sim apenas aquela velha pressão já familiar que eu sempre sentia quando tentava tocar em alguma coisa do mundo dos vivos. Mas não senti a dormência de sempre; aquele pulso 45


incendiário voltou a me eletrizar, tão intenso e fantástico quanto antes, sem nenhuma gota daquela velha dormência. Nós puxamos nossas mãos para trás ao mesmo tempo, perdendo o fôlego de novo. — O que... o que você sentiu? — por fim gaguejei. — Uma ardência, parece um fogo. Da melhor maneira possível. E você? — A mesma coisa. É bom. — Encolhi os ombros, quase tímida. — É muito bom. — Nossa, estou sem fôlego — confessou ele, abrindo um sorriso. — Também — disse eu, rindo. — O que não é pouca coisa para alguém que na verdade não precisa respirar. Ele parou de sorrir e inclinou sua cabeça um pouco para o lado. Me arrependi das minhas palavras na mesma hora. Eu tinha arruinado nosso momento feito uma idiota, nos jogando de volta ao pesado assunto em questão. Balancei a cabeça, enfurecida comigo mesma. É melhor parar com a brincadeira e acabar com tudo de uma vez, pensei com amargura. Respirei fundo para me endireitar e ir direto ao ponto. — Bom, Joshua, acho que então é agora que você vai sair correndo e gritando de medo noite a fora, não é? — Parei para olhar à minha volta, vendo a clareira iluminada pelo sol daquele dia nublado. — Metaforicamente, digo. — Amélia, estou correndo por acaso? Cheguei para trás, surpresa. — Bom... não. — E por que eu sairia correndo? — Porque qualquer pessoa em sã consciência acharia que estou louca... ou morta. — Não acho que você esteja louca — disse ele com uma voz tranquila e baixa. — Hum... bom, então... — meu cérebro não conseguiu formular nenhuma frase racional. — Então... — disse ele, para terminar meus pensamentos confusos. — Por eliminação, resta apenas uma conclusão possível. Continuei de boca fechada e analisei seu rosto. Seus olhos azuis, escuros como a meia-noite, estavam arregalados e um pouco surpresos. Ele parecia tão espantado quanto eu pelo rumo da nossa conversa. Ainda assim, 46


ele parecia estar totalmente sério, talvez até... levando tudo na boa? Balancei a cabeça, perplexa. — Você acredita em mim? — Acho que sim. — Você acredita que eu estou... morta? Que eu sou um fantasma? Joshua soltou um longo fôlego e passou a mão pelos seus cabelos escuros. — Sim, acho que não tenho outra opção — disse ele, encolhendo os ombros. — Porque bom, não sei como explicar o que aconteceu no rio. Nem como você poderia estar lá na água comigo, sem estar se afogando. Ou como você estava lá na margem depois, já seca, aliás, mas ninguém viu você. Nem a sensação que eu tive quando toquei em você. Enfim, a menos que você esteja viva, mas tenha guelras, consiga ficar invisível e tenha o corpo eletrificado. Encolhi os ombros também. — Sei lá. Talvez seja isso mesmo. Ele sorriu; um gesto incrivelmente casual, levando em conta nosso assunto. — Então quer dizer que você não sabe se é comum ter o corpo eletrificado entre os fantasmas? Olhei para ele, boquiaberta. Ele estava fazendo uma piada com o fato de eu estar morta? — Hum... não, Joshua, não faço ideia do que é ou não comum entre os fantasmas. Esta é a primeira vez que eu... hã... — Que você assombra alguém? — sugeriu. — Sim, é a primeira vez que assombro alguém — bufei. — Então me sinto lisonjeado. — Joshua... — disse eu, coçando a testa. — Você está encarando tudo isso bem demais. Ele suspirou, ainda sorrindo e se sentou ao meu lado de novo. Arrepios, como as pequenas labaredas que eu tinha acabado de sentir, percorreram o lado do meu corpo mais próximo dele. — Sabe, cresci ouvindo histórias de fantasmas. Especialmente sobre aquela ponte, que a minha avó contava. Eu nunca acreditei nessas coisas, é claro. Mas como eu já disse antes, agora meio que não tenho outra opção, tenho? Porque se não, sou eu quem ficou louco, e agora estou aqui, falando com uma menina linda, eletrificada e imaginária.

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— Juro que não sou imaginária. — Um sorriso incontrolável se abriu no meu rosto. — Eu saberia se fosse imaginária, não é? Ele riu, esfregando a palma da mão na perna, e então a ergueu como se fosse fazer a mesma pergunta para o céu. — Sei lá, vai saber? Talvez nós dois sejamos loucos. Mas prefiro pensar que não estou aqui falando sozinho num banco de um parque. — Bom, você provavelmente está, sabe. — Ah... — ele franziu a testa. — Não tinha pensado nisso. — Ele olhou para os lados e ficou aliviado ao ver que estávamos sozinhos. — Vamos ter que tomar mais cuidado com isso da próxima vez, não é? — Sério? — gaguejei. — Então você está pensando em conversar comigo de novo... e em público? — Claro — ele balançou a cabeça com um ar impaciente e então mudou o rumo da conversa de repente. — Mas então, sou mesmo a única pessoa que consegue ver você? — A única pessoa viva, sim — especifiquei. — Mas e quanto a outros mortos? Sua pergunta, e o fato de eu não ter a menor ideia de quais regras regiam esse tipo de coisa, me causaram um baque desconcertante. Porque eu só conhecia uma única pessoa capaz de me dar essa resposta — Eli. Eli, que claramente podia me ver, e que eu agora conseguia ver também. Ele poderia me explicar todos os ―comos‖ e ―porquês‖ do que estava acontecendo entre Joshua e eu. Mas espantei na mesma hora a ideia de falar com ele da minha cabeça. Eu tinha jurado para mim mesma nunca deixar que a profecia feita por Eli, de que eu o procuraria por vontade própria, se concretizasse. Muito menos deixar que Joshua soubesse sobre Eli se eu pudesse evitar. — Não sei muito bem — respondi, medindo as palavras. — Não tenho muita experiência com isso. — Hum... — Joshua ponderou minha resposta por um instante. Imaginei que ele poderia me fazer outra pergunta nessa mesma linha, alguma coisa com certeza mais difícil de responder, mas ele acabou desviando para algo totalmente diferente. — Só por curiosidade, por que você me perguntou como eu vejo você? Ontem, quando a gente estava na ponte, sabe? Eu não estava preparada para essa pergunta também. Tapei minha boca com uma das mãos.

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— Meu Deus, Joshua, você jura que não sabe por quê? — minhas palavras saíram abafadas e cobertas de vergonha. Mas ele ficou apenas olhando para mim, cheio de expectativa, então suspirei e abaixei minha mão. — Acho que é porque eu não tenho a menor ideia de como eu me pareço. — Sério? — disse ele, piscando. — Ah, sim... — Você não tem reflexo? — Não, não que eu tenha visto. Enfim, eu consigo ver algumas partes de mim sem precisar de um espelho. — Apontei para as minhas roupas e depois para os meus cabelos. — Mas não lembro como é o meu rosto. Acho que eu meio que... esqueci. — Nossa — bufou ele. — Eu sei — disse, suspirando de novo. — É muito humilhante, não é? Joshua não respondeu. Em vez disso, só ficou sentado ali, imóvel e em silêncio, pensando em sabe-se lá o que. Eu estava envergonhada demais para falar, e ele estava me olhando de um jeito tão intenso que, é claro, me deixou ainda mais inquieta. Por fim, ele quebrou o silêncio. — Eu não estava mentindo ontem quando disse que você é linda. Nossa. — Ah... — disse eu em voz alta, descobrindo um repentino interesse pelo tule fino na borda da minha saia. Arrisquei uma olhada rápida para ele e o vi sorrindo para mim. — Quer que eu continue? — perguntou. Eu poderia jurar que ouvi um tom quase brincalhão em sua voz. Encolhi os ombros do jeito mais casual possível, levando em conta o fato de que eu estava ao mesmo tempo querendo dar pulos de alegria e também me enfiar dentro de algum buraco. — Seu cabelo é castanho-escuro e ondulado — disse, todo tranquilo, como se estivesse catalogando o estoque de uma loja. — Você é branquinha, mas tem algumas sardas no nariz. Seus olhos são bem verdes, como a cor das folhas. E a sua boca... bom, a sua boca é... linda. Se fosse possível, eu até teria ficado vermelha. — Ah... — repeti. Essa sílaba parecia ser tudo o que eu estava conseguindo dizer naquele momento. Joshua analisou meu rosto e, talvez percebendo meu desconforto, sorriu. — Agora, seu vestido já é outra história... Torci o nariz, tentando não parecer magoada. 49


— Ah, deixa eu ver se entendi... então eu tenho uma boca linda, mas um vestido feio? Bom, vamos fazer assim, se você conseguir encontrar os fantasmas de uma blusinha e um shortinho jeans, juro que troco de roupa agora mesmo! Joshua alargou seu sorriso e balançou a cabeça. — Não, o vestido não é feio. — Ele me deu uma rápida olhada de cima a baixo e então completou: — Longe disso, na verdade. — Ah... — disse eu de novo. Voltei a baixar meus olhos para o meu vestido. Mais uma vez, quis muito que ele não me deixasse tão exposta. Fiquei pensando em que tipo de menina eu deveria ter sido para escolher uma roupa como essa: ousada e confiante? Ou exibida e manipuladora? Joshua, no entanto, claramente não parecia estar incomodado com as minhas roupas. Ele riu baixinho e se encostou para trás na mesa com os braços cruzados. Ficamos assim por um tempo, ele com sua pose tranquila, achando graça, e eu com meus olhos grudados mais uma vez na minha saia. O fato de eu estar com um vestido meio ousadinho ou não era a menor das nossas preocupações, eu sabia muito bem disso. Por fim, Joshua se inclinou para frente de novo. — Bom, e o que mais eu deveria saber sobre você? Eu não conseguia tirar os olhos da minha saia. — Bom, que tal o seguinte? Eu não consigo sentir nada que toco. A não ser você, pelo visto. — Como assim? Você não consegue sentir nada? — Não. Nem este banco, nem aquelas árvores... nada. Não consigo nem abrir portas. — Mas e as outras pessoas? Porque enfim, você e eu claramente... — Eu sei — interrompi. — Não sei explicar o que acabou de acontecer entre a gente. Você é a primeira pessoa em quem tentei encostar, mas tenho praticamente certeza de que não conseguiria tocar em mais ninguém. Não como... bom, não como foi com você, pelo menos. — E você imagina por quê? Encolhi os ombros. — Não sei. Talvez tenha a ver com o que eu já disse antes, sobre por que você conseguiu me ver. Como você passou um tempinho morto, talvez você agora possa ver fantasmas e meio que tocar neles. E talvez esse tipo de conexão possa despertar os sentidos dos fantasmas também. Pelo menos um pouco.

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— Talvez — concordou ele e, após alguns segundos, completou: — Bom, essa é uma coisa meio triste do pós-vida então, não é? Isso de você não conseguir sentir nada, a não ser alguém que já morreu também. Acenei a cabeça com vigor, ainda olhando para o meu vestido. Joshua não disse mais nada e apenas caiu em um silêncio pensativo. Por fim, olhei para ele, bem a tempo de ver o que imaginei ser uma rara expressão sombria passando pelo seu rosto. Seu olhar me espantou — era como se ele finalmente tivesse chegado ao momento crucial em que perceberia o quanto nossa situação era uma loucura. Mas em vez disso, ele só balançou a cabeça e abriu um sorriso cheio de cumplicidade. — É, Amélia, parece que estar morto deve ser... um saco. Soltei uma gargalhada surpresa. — Pois é, Joshua. É um saco mesmo. Nós rimos juntos. Nesse riso nosso, pude ouvir uma estranha mistura de alívio e tensão. Em seguida, Joshua arqueou as sobrancelhas e esfregou as mãos uma na outra. — Então... — disse, com uma voz arrastada estranha. Ele parecia cauteloso agora, talvez até com medo de continuar. Pelo seu tom, era como se ele estivesse querendo me perguntar alguma coisa, mas não soubesse bem como. Olhei em seus olhos e acenei a cabeça para encorajá-lo. — Pode falar, Joshua, não tem problema. Ele limpou a garganta e então soltou sua pergunta: — Há quanto tempo você está morta? Franzi a testa, tentando formular uma explicação que não parecesse sinistra demais. — Não sei isso direito também. Já faz um tempo, acho. Parece que passei uma eternidade vagando sem rumo por aí. É bem difícil ter noção. Acho que talvez há... alguns anos? Pelo menos. Soltando um assovio baixinho, Joshua repetiu a palavra ―anos‖ com um murmúrio. — Pelo menos — reafirmei. — E você não se lembra de nada mesmo? — perguntou ele, voltando a parecer cético. — Não. Bom, só do meu nome. — Nem onde você cresceu? Nem quem eram seus pais? — Não. Minha voz vacilou um pouco com essa resposta. Eu nunca tinha pensado nisso até então — no fato de que eu provavelmente já tive uma 51


família. Uma família que amei, ou que não me queria por perto? Talvez fosse melhor que os detalhes sobre meu antigo lar, assim como as informações da minha lápide, continuassem sendo um mistério. Por sorte, Joshua pareceu não ver nada de estranho na minha resposta, porque continuou a fazer perguntas. Perguntas que logo começaram a me afastar dos meus pensamentos sombrios com uma facilidade incrível. Continuamos assim por um tempo, ele como entrevistador, eu como entrevistada. Algumas das suas perguntas eram sérias e tristes (se me lembrava da casa onde cresci), e algumas eram só malucas e engraçadas (se já tive um iguana, porque a irmã dele sim, mas só por duas semanas, depois os pais deles fizeram a menina se livrar do bichinho). Inevitavelmente, as minhas respostas para essas perguntas eram sempre negativas, em maior parte porque eu não me lembrava de nada. Mas de um jeito estranho, cada pergunta foi me deixando menos triste com a minha falta de memória. Comecei a pensar como se eu na verdade não estivesse dizendo ―não‖ para tudo aquilo só porque tinha levado uma vida deprimente de um cadáver ambulante, mas apenas como parte de um jogo verbal que eu estava disputando com ele; como se só fosse dizer um ―sim‖ quando ele fizesse a pergunta certa. A cada pergunta, meu sorriso crescia. Em pouco tempo, o rosto de Joshua já refletia o meu, como se o meu entusiasmo com aquela brincadeira fosse contagioso. — Você lembra qual era o seu sabor favorito de sorvete? — Não — dei risada. — Não lembro nem se gostava de sorvete. Ele preparou sua próxima pergunta franzindo a testa e pondo uma das mãos fechadas sob o queixo para criar um efeito dramático. — Você se lembra de qual era o mascote da sua escola? — Não. Nem lembro da minha escola. Enfim, parece que estar morta tem pelo menos um lado positivo, não é? Ele começou a rir, mas depois se endireitou de repente como se tivesse levado um beliscão. Olhando para o relógio, ele soltou um palavrão baixinho. Ele pulou para fora do banco e começou a correr na direção do estacionamento. Se eu não estivesse tão confusa com essa reviravolta, poderia até ter dado risada quando ele parou de repente e então se virou para mim, erguendo uma dramática nuvem de poeira vermelha do chão. — Vamos! — gritou ele, e então disparou de novo até o carro de seu pai. Sem pensar em nada, obedeci sua ordem e saí correndo atrás dele. 52


Enquanto ele tentava abrir a porta do motorista, limpei minha garganta atrás dele. — Hum... Joshua? O que foi? — Vamos chegar atrasados. — Onde? Ele ignorou minha pergunta. — O horário do almoço acaba em dez minutos. — E daí? — grunhi, meio frustrada com aquele mistério. — E daí que a gente vai ter que violar umas quarenta e sete leis de trânsito para chegar lá a tempo. — Chegar lá onde? — perguntei, jogando as mãos para o alto, totalmente perdida. — Na aula. Suas palavras saíram abafadas enquanto ele se abaixava para sentar no banco do motorista. Segundos depois, ele abriu a porta do passageiro para mim e se esticou para fora. — Vamos! — repetiu. — Mas... para escola? Com você? — Claro. Quase caí para trás de surpresa só de pensar nisso. Até senti o impulso de argumentar contra essa ideia, ainda mais pela possibilidade de ir a qualquer lugar em público com ele. Mas a expressão urgente em seu rosto deixava claro que ele não estava aberto ao debate. Em seguida, também me virei — olhei para ele, depois para a segurança familiar do bosque, e então para ele de novo. — Não dá tempo para ficar aí pensando, Amélia. Entre logo. — Mas... — tentei protestar. — Nem me lembro de como é andar de carro! Ele sorriu, dando um tapinha no banco. — É igual andar de bicicleta, prometo. — Não me lembro disso também — resmunguei, mas me sentei no banco do passageiro e deixei que ele se inclinasse por cima de mim para fechar a porta.

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Oito A morte pode ter levado minhas antigas memórias de como era andar de carro, mas não teria como levar as novas. Quanto mais Joshua avançava, mais o meu medo inicial daquele passeio, e de o que poderia acontecer depois, começou a se esvair. Enquanto Joshua voava com o carro do pai pelas estradas íngremes e sinuosas que saíam do parque, eu me inclinei para frente no banco até quase me debruçar sobre o painel. Fiquei observando os densos bosques verdejantes passando por nós como um panorama do lado de fora do parabrisa. Por mais que eu não pudesse experimentar a sensação física de estar sentada no carro, não estava nem um pouco chateada com isso. Eu me senti livre e mais veloz do que nunca — como se estivesse voando. Eu me segurei na borda do banco embaixo de mim e, para a minha surpresa, senti seu couro rústico nas pontas dos meus dedos. — Amélia? A voz preocupada de Joshua dissipou meus pensamentos, e a sensação do couro se esvaiu na mesma hora. — Oi? — Mesmo o achando lindo, mal consegui desviar a atenção da longa estrada à nossa frente por tempo o bastante para olhá-lo de lado. — Não quero ser chato, nem nada, mas você pode vir um pouco para trás? Sentada desse jeito, parece que você está confiando demais na minha direção. Dei risada. — Bom, não é como se eu pudesse sair voando pelo para-brisa. — Pelo canto do meu olho, vi Joshua franzir a testa. A imagem de seu carro afundando no rio me veio à mente. Balancei a cabeça para dispersar minha própria estupidez. — Desculpe — murmurei. — Foi uma piada sem graça.

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— Tudo bem — respondeu com um leve sorriso. — Mas... mesmo assim, você está me deixando nervoso. — Desculpe — repeti, e então me encostei no banco. Continuei com os olhos grudados no cenário borrado que passava voando pelas janelas. Mas como estava sendo difícil não me debruçar sobre o painel de novo, me segurei no banco para não sair do lugar e tentei em vão voltar a sentir a textura do couro contra os meus dedos. Por fim, os bosques à nossa volta deram espaço a uma cidadezinha. A estrada desembocava em uma espécie de avenida principal, cercada por vários prédios pequenos e alguns pinheiros aqui e ali. Uma placa de madeira ao lado da estrada dizia: Bem-vindo a Wilburton, Oklahoma! Aquela cidadezinha me lembrava de uma foto vagamente familiar, uma imagem que tinha visto muito tempo atrás e agora não sabia direito onde. Será que eu já tinha passado por aqui depois de morrer? Nunca reparei muito nos lugares por onde eu andava. Não tinha como saber, mas essa estranha sensação de familiaridade me deixou inquieta. Logo depois, Joshua desacelerou para entrar em outra rua, essa mais cercada de pinheiros. Quando as árvores rarearam, avistei um conjunto de prédios baixos. Enquanto Joshua chegava a um estacionamento, avistei alguns alunos andando de um lado para o outro, ou entrando nos corredores entre os prédios. — Pronto — disse Joshua, suspirando aliviado. Estacionou o carro, tirou o cinto e então se virou até o banco de trás para pegar sua mochila. Continuei focada nos prédios de tijolos à nossa frente, assimilando aquela cena de telhados brancos retos, bancos roxo-escuros no gramado, uma placa de metal esmaecida que dizia ―DIGGERS CAMPEÃO!‖ em letras de forma. Alguma coisa naqueles prédios mexeu comigo — alguma coisa que não entendi bem o que era... — O bom e velho Colégio Wilburton. Vamos lá? A proximidade da voz de Joshua me fez pular no meu banco. Ele estava ao meu lado, mas fora do carro, segurando a porta do passageiro aberta com uma das mãos, e a alça de sua mochila em seu ombro direito com a outra. Eu estava tão distraída que nem percebi que ele tinha descido do carro, nem aberto minha porta. — Hum... Comecei a torcer a barra do meu vestido, já nervosa de novo. Antes de conhecer Joshua, um possível contato com o mundo dos vivos teria me deixado triste. Agora, só por ele conseguir me ver (e sinceramente, pelo 55


próprio Joshua), essa minha tristeza havia se encolhido em uma parte remota do meu cérebro. Ainda assim, a imagem daqueles prédios, e a inquietante sensação que eles me causavam, me deixaram com um pouco de medo. E mais do que um pouco colada no meu banco. — Vamos, Amélia. Você está me fazendo parecer um doido aqui, parado com a porta aberta para um carro vazio — suas palavras poderiam ter parecido ríspidas, mas seu tom foi de brincadeira. Mesmo sabendo que minha indecisão o faria chegar atrasado à aula, ele apenas sorriu e me estendeu a mão. Pelo visto, minha coragem era um pouco maior do que eu imaginava, porque peguei sua mão e desci do carro. Na mesma hora, um pulso incendiário subiu pelo meu braço. — Ah! — gritei e então soltei sua mão. Enquanto se inclinava para fechar a minha porta, ele conseguiu parecer espantado e dar risada ao mesmo tempo. — Depois, tem mais — ele riu. — Mas agora, vamos para a aula. Venha comigo. Ele me deu uma piscadinha e então passou apressado por mim. Um sorriso — meio sem jeito e meio empolgado — se abriu no meu rosto, e então o segui até um dos prédios menores. Enquanto a gente andava, ele continuou falando sem abrir muito a boca e sem olhar direto para mim, acho que para não parecer que estava falando sozinho. — Tudo bem com você? — Sim, acho que sim — disse eu, falando baixo como ele, por mais que não precisasse. — Este lugar me parece tão... familiar. É como se eu me lembrasse desta escola, mas não sei por que, nem de quando. — Hum. Isso pode ser... interessante. — Ele ficou em silêncio por um instante e então, com um tom inseguro, sussurrou: — Mas tudo bem então? Porque, enfim, meio que forcei você a vir aqui, né? Ele me pareceu tão genuinamente preocupado que precisei conter uma risada. Pelo visto, ele não tinha pensado em me perguntar se eu queria estar ali até o último segundo possível. — Acho que vou ficar bem — disse eu em voz alta, e em seguida, enquanto olhava para as suas costas, largas e fortes sob sua camiseta cinza levinha, acabei pondo para fora meu pensamento seguinte. — Bom, tanto faz para onde a gente está indo, só quero ficar perto de você mesmo.

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Ao ouvir minhas palavras, Joshua parou de repente com uma das mãos na porta que estava para abrir. Enquanto olhava para suas costas, mordi meu lábio inferior por frustração. Eu era mesmo tão idiota assim a ponto de dizer uma coisa dessas sem nem ter como ver a reação dele? Vi a mão de Joshua ficando tensa na maçaneta e então me preparei para o pior: iria dizer que minha simples presença ali era um perigo, como eu já desconfiava; iria me dar uma bronca por ter tocado nele em público e pedir para eu esperar do lado de fora... ou só ir embora de uma vez. Mas, é claro, estava errada de novo. Em vez de se afastar de mim, Joshua esticou uma das mãos para trás, ainda virado para frente, e apertou a minha. Em seguida, abriu a porta e entrou na sala de aula enquanto o sinal ecoava pelo gramado atrás de nós. Eu o vi abrir e fechar a mão que ele tinha usado para me tocar, talvez em resposta ao mesmo fogo que eu estava sentindo arder nos meus dedos. Respirei fundo e entrei na classe antes que ele fechasse a porta. Acho que eu não estava preparada para essa mudança de cenário, porque fiquei surpresa com a repentina penumbra da sala. A verdade é que eu não tinha muita experiência com salas de aula mal iluminadas desde minha morte, e fiquei pensando meio distraída se minhas pupilas iriam se expandir no escuro ou não. Uma tossida alta de Joshua me despertou desse pensamento na mesma hora. Essa tosse foi claramente um aviso, porque uma senhora estava bem na minha frente, com sua cara a poucos centímetros da minha. Seu rosto envelhecido combinava com seus cabelos ralos, e com o tom amarelado de seus olhos. Que estavam olhando bem para os meus. Em desespero, olhei para Joshua, que estava paralisado em frente à primeira fileira de mesas. Eu me virei de volta para a mulher, sentindo todos os meus músculos tensos. Será que ela também já tinha morrido e agora podia me enxergar, como Joshua? Ou outro fantasma maligno, como Eli? No entanto, uma segunda olhada em seu rosto me esclareceu tudo. Seus olhos não estavam focados nos meus, mas sim em Joshua, atrás de mim. Ela estreitou a vista, talvez sem conseguir ver muito bem comigo à sua frente, mas sem me enxergar de verdade. Ela estava vendo através de mim, como alguém veria alguma coisa através de um leve fio de fumaça: distraída, mas sem perceber ou se importar. Quando ela por fim falou, suas palavras confirmaram minhas suspeitas. 57


— Senhor Mayhew, o seu breve encontro com a morte por acaso o deu permissão para entrar quando bem quiser na minha aula sem pedir licença? — Não, senhora Wolters. Não cheguei antes do sinal? Ela franziu a testa, permitindo que suas rugas repuxassem sua boca com uma melancólica expressão carrancuda. — O sinal marca o começo da aula, não o limite para sua entrada. Agora, sente-se. — Sim, senhora — resmungou. Com a cabeça abaixada, Joshua entrou às pressas entre as carteiras e se sentou em uma que estava vazia; que era seu lugar, presumo. Um garoto ruivo e gordinho sentado na mesa ao lado deu um tapinha nas costas de Joshua e sussurrou: — Você devia ter matado a sexta aula também, cara. Joshua acenou a cabeça com um ar tenso. Sem olhar de novo para mim — ou através de mim, na verdade —, a senhora Wolters foi para trás de sua própria mesa. Olhei para Joshua e passei a mão na testa, dizendo, “Ufa”, só com os lábios. Ele me abriu um leve sorriso de alívio e então começou a tirar alguns livros da mochila. Nesse momento, percebi que estava diante de uma sala cheia de vivos. De repente, me lembrei do típico pesadelo adolescente: aparecer pelada na frente de uma classe com todos os seus colegas. Claro, eu não estava sem roupa, e aquelas pessoas não eram bem meus colegas, mais ainda assim, me senti terrivelmente exposta. Tive a desagradável sensação de que aqueles alunos estavam todos me encarando, por mais que a maioria parecesse estar só entediada enquanto via a professora começar a escrever na lousa atrás de mim. Só então me dei conta de que nunca tinha estado em nenhum lugar com tantas pessoas vivas ao mesmo tempo desde minha morte. Ver tantas pessoas assim, respirando, cheias de vida e com o coração batendo, fez com que eu ficasse assustada. Fez com que eu me encolhesse para me proteger. Olhei para Joshua. Ele estava olhando à sua volta pela classe com uma expressão de espanto também. Depois de analisar cada um dos colegas, ele se virou para mim e disse, “Nossa”, só com os lábios. Franzi a testa, confusa. Bem de leve, ele virou a cabeça em um círculo, apontando para toda a classe, e então acenou com um ar de cumplicidade para mim. Entendi. Ele estava chegando à conclusão de que era mesmo a única pessoa que podia me ver. No parque, ele me ouviu e acreditou na minha

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história... emteoria. Mas aqui, essa teoria tinha sido posta à prova. Uma prova que confirmou que eu era invisível... que eu era um fantasma. Acenei a cabeça. E para reiterar sua repentina descoberta, falei em voz alta: — Que estranho, né? Ninguém além do próprio Joshua olhou para mim. “Nossa”, repetiu ele baixinho, e sorriu. Aquele sorriso falou por si só, me dizendo exatamente o que ele achava sobre os poderes de sua nova amiga, o que disparou aquela dorzinha quente no meu peito, uma sensação bem-vinda em meio à minha insegurança; aquele sorriso foi todo o reconforto de que eu precisava. Já mais confiante, sorri de volta. Pus uma das mãos em frente à cintura e fiz uma reverência para aquela plateia entediada e alheia à minha presença, e então bati palmas, como se estivesse os agradecendo pela atenção dispensada. Uma breve memória me veio à mente: minha própria voz, gritando para estranhos que não podiam me ver, logo após minha morte. Alguma coisa nessa lembrança angustiante, comparada a este momento de agora, me deixou, não sei bem como, com a cabeça leve e quase eufórica. Comecei a andar de um lado para o outro na frente da classe, com os braços atrás das costas feito um general. — Vocês devem estar se perguntando por que convoquei todos vocês aqui hoje — entoei com minha voz mais séria. Joshua bufou e balançou a cabeça. — Sua louca — disse em voz alta. — Como é, senhor Mayhew? A voz aguda da senhora Wolters atravessou a sala enquanto se virava da lousa para trás. Joshua engasgou e tossiu, tentando em desespero consertar seu equívoco. Infelizmente, alguns de seus colegas, incluindo o gordinho ruivo ao seu lado, confundiram as palavras de Joshua com uma provocação intencional à professora. Começaram a rir, entrando na suposta brincadeira. A senhora Wolters, acreditando ser alvo de alguma piada que não tinha ouvido, se endireitou na frente da sala, rígida como o pedaço de giz que ela tinha na mão, e com um olhar enfurecido. — Senhor Mayhew, como você parece dominar tão bem essa matéria, por favor, venha aqui até a lousa e nos diga qual é a ordem desta equação diferencial — disse ela, praticamente cuspindo suas palavras. 59


Joshua disparou um olhar de pânico para mim. Ficou dolorosamente claro pelo seu rosto que ele não era nenhum especialista em equações diferenciais. — Ai, meu Deus — grunhi. — Desculpe. Sou uma idiota. Ele balançou a cabeça de leve, tentando me dizer que não, apesar da encrenca que eu tinha acabado de arrumar. Ele se levantou da carteira e se arrastou até a lousa, sem mal olhar para a senhora Wolters enquanto pegava o giz de sua mão magra. Corri até seu lado, agitando minhas mãos em desespero. Olhei para o complexo problema de matemática à sua frente e vi apenas um emaranhado de números, letras e símbolos. Ah, não, pensei, enquanto me esforçava para manter meus olhos focados enquanto examinava aquela equação. Só de ver todos aqueles d’s, 3’s, x’s e y’s, já senti minha respiração acelerar como a de Joshua. Ele ficou olhando para a equação na lousa também, com uma expressão totalmente perdida. Ele parecia ser muito inteligente... mas talvez não tanto. Não para algo assim de surpresa. Não para enfrentar esse monstruoso problema. — Droga — disse eu em voz alta. Não sabia o que fazer. Pelo canto do olho, pude ver a senhora Wolters sorrindo para Joshua, que tinha encostado o giz na lousa logo abaixo do problema e agora estava com ele parado ali. A expressão presunçosa da professora me enfureceu. Eu me virei de volta para o problema e o analisei com atenção, determinada a fazer alguma coisa, qualquer coisa. Nada... nada... nada. E então... — Três! — gritei. — Joshua, a derivativa mais alta é d3/dy3... a terceira! Então a ordem é três! Ele me olhou de lado com uma sobrancelha erguida, e então rabiscou o número 3 na lousa. O espectro de um sorriso se abriu em seu rosto enquanto ele se virava para a senhora Wolters, mas sem alterar sua voz tímida. — Acho que a ordem é três. A senhora Wolters ficou boquiaberta como um peixe. Quando Joshua esticou sua mão para devolver o giz, ela o pegou com um olhar distante e o guardou no bolso. — Bom... hum...

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Enquanto ela gaguejava na frente da classe, Joshua voltou para o seu lugar, desfilando cheio de pompa. Eu o segui, espremida ao seu lado no corredor estreito. Nós passamos por um garoto loiro sentado em uma carteira na frente da de Joshua, que ergueu sua mão, e Joshua fez o mesmo para dar um “toca aí!” nele. Aproveitando esse momento como uma distração, ergueu sua outra mão quase sem que eu percebesse e roçou seus dedos nos meus. A labareda que senti na minha mão já foi um belo agradecimento.

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Nove Ao

fim da aula, Joshua me levou de volta ao Parque Robber e me

guiou até nosso banco. Depois de se sentar, ele se encostou na borda da mesa de concreto e apoiou os dois cotovelos para trás. Fiquei sentada em silêncio ao seu lado, com uma perna embaixo do corpo e a outra erguida junto ao peito, com meu braço em volta. Passamos algum tempo sem dizer nada, talvez porque eu estava pensando em tudo, menos nele naquele momento. Em maior parte, só tentei ignorar os sorrisos incrédulos que ele às vezes abria para mim. Tive a sensação de que sabia no que ele estava pensando e, para minha grande vergonha, vi que estava certa quando ele por fim disse alguma coisa. — Então, Amélia... você se lembra de quando foi que você virou um gênio da matemática? Fixei meus olhos nas árvores do bosque e me esforcei ao máximo para encolher os ombros do jeito mais casual que pude. — Eu não era... não sou nenhum gênio. Acho que só estudava bastante. Como você mesmo deve fazer agora. Joshua deu risada. — Estudo bastante sim. Minha média ponderada é nove e meio... ou pelo menos era, até a senhora Wolters me ferrar. Mas que falsa modéstia toda é essa aí? Soltei uma bufada petulante e me virei com uma cara feia para ele. Ele sorriu, fingindo um ar de inocência, talvez contente por ter conseguido me provocar e fazer com que eu finalmente olhasse para ele. — Humf! — Me virei de volta para as árvores, rápido o bastante para que meu cabelo voasse junto para cima do meu rosto. Passamos mais alguns instantes sentados ali quase em silêncio, a não ser pelas risadinhas de Joshua. Ele começou a dar todo um espetáculo de tossidas dramáticas, como se precisasse disso para disfarçar o riso. 62


Essa foi a gota d’água. Joguei as mãos para o alto em protesto. — Não foi falsa modéstia, tá? — esbravejei. — Não sei se eu sou tão esperta. Claro, pelo visto entendo bem de equações diferenciais. Mas não sei como, nem por quê. Enfim, talvez meu vocabulário seja tosco... ou eu não saiba nada de geografia... sei lá — minha voz se esvaiu, perdendo toda a energia no final da minha frase já confusa. Joshua começou a rir abertamente. — Você fica muito bonitinha irritada, sabia? — Argh! — resmunguei, retorcendo o nariz de raiva. Bom, pelo menos com um pouco de raiva. — Não precisa ser condescendente assim comigo, Joshua. Mais risos. — Viu só? Seu vocabulário é ótimo. ―Condescendente‖ tem cinco sílabas! Por mais que não quisesse, dei risada também. Logo acabei perdoando sua provocação. Mas pelo resto da tarde, fiz de tudo para que quase toda a nossa conversa fosse focada nele, escapando de suas perguntas para tirar o máximo que podia sobre Joshua. Descobri que ele tinha acabado de fazer dezoito anos em agosto (estávamos em setembro, e numa segunda-feira — eu estava adorando essa minha nova capacidade de perceber o tempo, talvez por ser novidade para mim) e que Joshua morava com seus pais, sua avó e a irmã de dezesseis anos, Jillian. Apertei Joshua para saber o que ele fazia para se divertir, e a muito custo confessou que jogava beisebol no time da escola. Quando insisti nesse assunto, ele me falou sobre suas habilidades atléticas com modéstia. Mas pude perceber o orgulho em sua voz quando especulou que talvez pudesse garantir sua faculdade com uma bolsa de estudos esportiva, junto com suas boas notas. — Não é bem a coisa que mais gosto no mundo — disse Joshua. — Mas adoro beisebol. E é claro que jogar no time da faculdade também pode me ajudar nos meus planos de ser jornalista de esportes. Além do mais, acho que meus pais não estão muito a fim de bancar duas faculdades ao mesmo tempo. — A Jillian quer fazer faculdade também? — É bom que queira — disse ele, quase resmungando. Até me inclinei para trás, surpresa pelo olhar protetor em seu rosto. Ergui uma sobrancelha, exigindo alguma explicação. Joshua veio para frente, apoiou 63


um cotovelo no joelho e ficou gesticulando pelo ar com sua mão livre enquanto falava. — Acontece que a Jillian... bom, a Jillian anda meio chata esses tempos. Ela é tão inteligente quanto eu, talvez até mais. Ela é quase igual a você em matemática. — Ele então me abriu um rápido sorriso manhoso, o que me fez baixar meus olhos para minha perna cruzada, em uma vã tentativa de esconder minha vergonha pelo elogio. — Mas é que para ela é muito importante... se enturmar com os outros, ou alguma coisa assim. — Mas para você não? Não tive como evitar a pergunta. Joshua não pareceu se ofender, porque só deu risada. — Não, para mim, não. Eu até me dou bem com as pessoas na escola, o que é irônico. Mas na verdade, só faço o que eu quero, sem dar a mínima para o que os outros vão pensar. — Tipo falar com uma menina morta invisível? — Exatamente — Joshua sorriu, mas depois repuxou o canto da boca com um ar pensativo. — Sabe, isso na verdade pode até ter alguma coisa a ver com a Ruth. — Hã? — Minha vó Ruth. Era ela quem me contava as histórias de fantasmas sobre a ponte quando eu era criança. Ela adora essas coisas de se comunicar com espíritos e tudo mais... ela e um grupo de outras senhorinhas daqui. Achei aquilo estranho. — Como assim, tipo um grupo espírita? Joshua franziu a testa. Ficou evidente que a obsessão de sua avó por fantasmas nunca tinha parecido muito relevante para ele até então. Pensou no assunto por um instante e então balançou a cabeça, ainda que sem lá muita segurança. — Acho que não — disse. — Mas eu sei que elas acreditam em muitas coisas estranhas, sim. Acho que sempre achei que fosse tudo pura baboseira... até hoje, pelo menos. Joshua me encarou com um olhar avaliador, e eu abaixei a cabeça de novo. Entendi muito bem a mensagem: eu era uma dessas coisas estranhas. Hesitante, perguntei: — Será que ela encrencaria comigo? Por eu... existir? Joshua balançou a cabeça de novo, parecendo um pouco mais confiante.

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— Imagina. Por mais que ela acredite em fantasmas, não é como se ela conseguisse ver você. Além do mais, acho que ela provavelmente só ficaria empolgada ao saber que comprovei todas as teorias dela se eu contasse tudo sobre você. Meu riso dessa vez saiu mais agudo, deixando transparecer a apreensão que de repente havia me acometido pelo assunto. — Bom, só me prometa que você não vai fazer a brincadeira do copo com ela tão cedo, tá? Joshua deve ter percebido minha ansiedade, porque riu também e então se apoiou com calma na mesa de concreto. Mas ele tinha razão quanto à sua avó, claro; minha presença naquela aula hoje, ignorada por todos além dele mesmo, comprovava isso. Mesmo assim, aquele me pareceu um bom momento para mudar de assunto, então disparei outra saraivada de perguntas sobre sua vida. Continuamos conversando por tempo o bastante para que as nuvens cinzentas se dissipassem por completo no céu e o azul que veio depois ganhasse tons de rosa e roxo. Enquanto o céu mudava, Joshua falou um pouco sobre seus amigos, mas mais sobre as coisas de que gostava: filmes de terror que eu nunca tinha visto e bandas que eu nunca tinha ouvido (que surpresa, né? Mesmo porque, eu já estava morta há um bom tempo), mas também falou de literatura. Quando ele comentou o quanto gostava de Ernest Hemingway, uma resposta saltou de imediato para fora da minha boca antes que eu tivesse tempo de pensar em qualquer coisa. — Nossa, odeio o estilo do Hemingway. — Hã? Mas achei que você não se lembrasse de nada... — Não mesmo. Não lembro — hesitei. — Mas... eu acho... ou melhor, lembro, sim, que não gosto do Hemingway. Como uma reação ao simples nome desse autor, tive outro daqueles estranhos flashbacks. De repente, uma imagem surgiu clara e nítida na minha mente: um livro fino de capa mole entre as minhas mãos, uma coleção de vários contos que eu estava lendo sentada com as pernas cruzadas na grama. O sol do verão iluminava essa memória, mais brilhante do que o de agora que se punha sobre Joshua e eu. Relutei para despertar desse devaneio e, quando consegui, Joshua estava olhando para mim com uma cara cheia de expectativa, quase ansiosa. Continuei, franzindo a testa pelo esforço para me lembrar dos detalhes desse flashback.

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— Eu me lembro... me lembro mesmo de ler um conto... alguma coisa com uma mulher e um homem tendo uma conversa horrível enquanto ele está morrendo num safári. Enfim, me lembro de pensar, ―isso aqui não é para mim‖. Passamos um instante em silêncio, e então ele soltou um fôlego pesado. — Acho que vou ter que discordar do seu gosto literário, mas... enfim, que coisa estranha, Amélia. — Pois é — fiz uma pausa e então completei, admirada: — Nem me fale... Joshua deu risada e esticou a mão em um gesto distraído para passar os dedos pelas costas da minha mão, que estava sobre o banco. Aquela queimação repentina na minha pele me pareceu tão familiar agora — não menos fantástica do que antes, mas um pouco mais esperada. E muito bemvinda. Estremeci com esse toque e, sem explicação alguma, minha vista começou a ficar turva. No começo, achei que aquele arrepio tinha feito alguma coisa com meus olhos, mas logo percebi que a mudança na minha visão não teve nada a ver com isso. A julgar pela repentina mudança do ambiente à minha volta, eu estava tendo outro flashback. Esse flashback, que veio tão pouco depois do outro, parecia ter me jogado em algum lugar à noite. Agora estava ajoelhada na grama, arqueada sobre alguma coisa fria de metal. Um pequeno telescópio, acho, em cima das pernas curtas de um tripé. Mas não consegui me concentrar muito bem no telescópio, porque meu rosto estava virado para a noite lá no alto. Acima de mim, o céu era daquele tipo que você só consegue encontrar em lugares quase sem nenhuma luz artificial por perto. Eu podia ver as estrelas — todas ao mesmo tempo, ao que parecia. Milhões delas espalhadas pelo céu, reluzindo e cintilando em meio à escuridão. Quis abrir a boca em fascinação pela extrema beleza daquilo, mas não consegui; pelo visto, ao reviver aquela memória, não tinha controle sobre nada. Quando decidi simplesmente aproveitar aquela vista por seja lá quanto tempo aquilo fosse durar, de repente me espantei com um barulho atrás de mim. — Foco, Amélia — alertou uma voz de mulher. — Você não vai ganhar seus pontos extras de ciências se nem pelo menos tentar fazer esse seu trabalho. 66


Por conta própria, a versão de mim mesma dentro dessa memória soltou um suspiro. — Tá, tudo bem, mãe. E se eu não estudasse em casa, as aulas já teriam acabado umas seis horas atrás. Minha mente disparou. Aquela era minha mãe? Eu estava falando com minha mãe? Queria tanto que aquela mulher continuasse falando, que esse flashback não acabasse, que quase senti uma dor física quando essa cena se esvaiu, tremeluzindo e se perdendo à minha volta até a luz do fim da tarde inundar meus olhos de volta. Agora eu estava livre para abrir a boca o quanto quisesse. Puxei um fôlego tenso, coisa que deve ter assustado Joshua, porque ele se virou para mim na mesma hora. — Amélia? — disse. — Tudo bem? O que aconteceu? Balancei a cabeça. — Eu... não sei direito. Acho que só me lembrei de alguma outra coisa. — Do quê? Por um brevíssimo segundo, pensei até em mentir para ele. Senti um impulso inexplicável de guardar aquela memória só para mim, de protegê-la como se fosse um segredo. Mas ao olhar para os seus olhos azuis-escuros como a meia-noite, isso passou. Não queria esconder nada dele; aliás, nem sei se conseguiria. — Da minha mãe — respondi. — Eu me lembrei da minha mãe, acho. Ele se encostou com um baque contra a mesa de piquenique, claramente espantado. — Como assim? Você viu sua mãe? — Não, só ouvi a voz dela. — Hum... — disse ele, olhando com um ar pensativo para as árvores. — Acho que ainda não entendi bem como essas suas ―memórias‖ funcionam, Amélia. — Nem eu — murmurei, abaixando meus olhos para o banco. Enquanto me concentrava nas rachaduras e imperfeições no concreto, tentei me lembrar do que tinha ouvido: o tom da voz da minha mãe, o sabor de suas palavras. Será que nós estávamos brigando naquela memória? Será que ela estava brava comigo, ou eu com ela? Quando ergui a cabeça e olhei para Joshua, percebi que ele tinha se virado de volta para mim e estava esperando alguma resposta a mais. 67


Soltei um suspiro e encolhi os ombros. — Sinceramente, Joshua, não tenho a menor ideia de como estou me lembrando de todas essas coisas. Nem por quê. Acho que talvez tenha algo meio a ver com você, na verdade. Joshua pareceu se espantar. — Comigo? Por quê? — Esses flashbacks com lembranças... nunca tive isso antes de conhecer você. E agora eles estão acontecendo cada vez mais e mais. Tive dois agora mesmo, enquanto a gente se falava... então acho que talvez você tenha liberado essas memórias de dentro de mim de algum jeito. Joshua refletiu por um instante sobre o que eu tinha dito e então abriu um enorme sorriso. — Bom, mas isso é uma coisa boa, não é? Mordi meu lábio, franzindo a testa. — É, acho que sim. É só muita coisa para assimilar de uma vez, sabe? — Claro... — murmurou Joshua. No entanto, percebi pelo brilho em seus olhos que ele não estava pensando na confusão de tudo aquilo para mim; ele parecia... empolgado. E muito, aliás. Ele confirmou minhas suspeitas com um aceno enfático de cabeça. — Mas mesmo assim, Amélia, você precisa admitir que isso é bem legal. — Legal? — rebati, erguendo uma sobrancelha. — Sim, sabe... legal. Irado. Muito louco. Etcetera e tal. Não consegui não dar risada. — Joshua Mayhew, o grande otimista? Joshua sorriu. — Lógico. Mas então a gente precisa comemorar. — Como? Abrindo um sorriso ainda maior, Joshua não me respondeu. Em vez disso, se levantou e virou para mim. — Bom, preciso ir para casa jantar, porque já estou pelo menos uma hora atrasado. — Ah — disse eu, franzindo a testa. Eu tinha me esquecido totalmente de que ele cedo ou tarde precisaria voltar para casa. Ou até mesmo comer. Ele precisava fazer aquelas coisas, e teria que me deixar ali sozinha para isso, é claro. A dor no meu peito voltou a arder com a ideia de vê-lo indo embora, mas tentei não deixar que isso transparecesse na minha voz.

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— Acho que... então a gente se vê amanhã? Para comemorar e tal? — disse eu. Uma expressão estranha passou pelo rosto de Joshua, algo que não consegui entender. Como já tinha feito durante nossa conversa ontem — nossa, foi só ontem mesmo que a gente se falou pela primeira vez? —, Joshua passou uma das mãos pelos cabelos até a nuca. Após um desconfortável instante de silêncio, entendi o que estava acontecendo: Joshua estava tímido, talvez até envergonhado. Quem diria? O bravo e confiante Joshua Mayhew parecia estar nervoso mesmo com alguma coisa. Ele ficou um tempo olhando para mim, e depois deve ter conseguido arrumar a coragem que precisava para me fazer uma hesitante pergunta: — Bom, na verdade... você não quer ir lá em casa comigo hoje para conhecer minha família? Pisquei os olhos, surpresa. Era óbvio que eu não estava nem um pouco a fim de ―conhecer‖ a avó de Joshua, por mais que ela não pudesse me ver. Pouco a pouco, comecei a ensaiar uma resposta. — Joshua... bom, gostaria muito. Mas não é meio... cedo para isso? Ainda mais por eles nem terem como me ver. Joshua abaixou a cabeça, mas não antes que eu pudesse ver seu rosto corado. — É, acho que você tem razão. É meio cedo... — murmurou, deixando sua voz se esvair no final da frase. Suas sobrancelhas se juntaram enquanto um pequeno sorriso encabulado repuxava seus lábios. Uma cara que caía muito bem nele, na verdade. Eu me abaixei um pouco para observar seu rosto por mais um instante. Ele não parecia estar conseguindo me encarar e, por algum motivo, esse desconforto fez a dorzinha no meu peito arder de um jeito muito gostoso. Respirei fundo em silêncio para tomar coragem e então perguntei: — Você está preocupado com o que eu vou achar da sua família? — Bom, se fosse o contrário, não faria muito sentido, né? — Não — disse eu. — Não faria. Mas você está preocupado que eu... o quê? Que eu não vá gostar deles? — Não, você não me parece ser assim. Só queria ver o que você achava mesmo. Eu... eu só acho que isso pode ser importante. Ele disse isso como se fosse uma confissão, como se essas palavras tivessem entrelinhas. Ele não precisou explicar o que havia nelas, no entanto. Eu estava sentindo a mesma coisa.

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— Bom — disse eu, abrindo um sorriso contente. — Vamos lá ver o que acho então.

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Dez Quando Joshua deixou a avenida principal para entrar em uma trilha de cascalho, o sol finalmente já havia se posto. O céu — pelo menos a parte que eu podia ver entre os galhos dos enormes pinheiros — havia sido tomado por um degradê que ia de um azul-escuro no leste até um rosa com toques de roxo no oeste. De repente, me senti grata pelas sombras cada vez mais pesadas à nossa volta; elas ofereciam um disfarce ideal para o meu crescente desconforto. Era como se eu fosse fazer algum tipo de prova. Não que eu estivesse com medo de conhecer a família de Joshua em si; até sua avó supersticiosa não estava me preocupando muito na verdade. Mas Joshua sem dúvida estaria de olho em mim, analisando minhas reações a tudo o que eu visse. Mas mais do que isso, eu sabia que ele não poderia se comunicar comigo com sua família por perto. Sem olhares de lado, sem sussurros, sem bilhetes. Ele precisaria de muito cuidado para lidar com a minha presença, agindo como se eu sequer estivesse lá. Então, no fundo, eu provavelmente iria passar as próximas horas em meio à intimidade de uma família, mas ainda assim, basicamente sozinha. Antes que eu tivesse tempo para me lamentar mais, o carro virou uma esquina e uma enorme casa despontou à nossa frente. Não sei bem o que eu estava esperando. Talvez uma casinha modesta em um rancho, típica de Oklahoma, ou uma daquelas novas monstruosidades de pedras e tijolos que estavam começando a pipocar por toda parte naquela região. Mas todas as imagens que eu tinha na cabeça, e as preocupações que vinham me assolando, evaporaram assim que avistei aquela linda casa antiga ao longe. Era uma casa verde de madeira, com varandas de parapeitos brancos em volta do primeiro e do segundo andar. Em todos os cantos e cumeeiras, em cada espacinho livre, havia janelas: enormes janelas salientes emolduradas entre cortinas; janelinhas redondas que ofereciam uma mera 71


tentadora fração da vista lá fora; janelas com vitrais repletos de cores. De cada janela, brilhava uma luz quente que contrastava com todo charme, com o crepúsculo que agora descia sobre a casa. Mesmo em meio àquela agradável penumbra, consegui ver os contornos do jardim pelo qual Joshua estava passando; roseiras, ramos de glicínia e arbustos floridos emaranhados em um esplendoroso caos em torno da casa e dos choupos à sua volta. Era uma casa de conto de fadas. Nem me dei o trabalho de fechar a boca enquanto Joshua estacionava atrás da casa. Depois de bater sua porta, ele veio abrir a minha. Quando ele me estendeu sua mão, eu a peguei, tanto para me apoiar, quanto para sentir sua pele. Em geral, meu corpo inteiro se concentraria no contato entre as nossas mãos. Agora, no entanto, minha atenção estava focada em outra coisa. Eu não deveria ter me surpreendido ao perceber que a parte dos fundos da casa de Joshua era ainda mais linda do que sua fachada. Mas meu queixo caiu mais um pouco ainda quando vi o quintal que se estendia à minha frente. Os pinheiros e cedros, tão comuns na região sudeste de Oklahoma, tinham sido podados para formar uma espécie de muro em volta da casa. No quintal, enormes bordos e choupos se espalhavam com seus galhos entrelaçados, formando uma espécie de cobertura sobre o gramado. Através de suas folhas, era possível avistar apenas alguns fragmentos do céu escuro lá no alto. Um caminho de pedra serpenteava pela grama e em volta de cada uma dessas árvores. Mas esse não era um quintal qualquer. Essas pedras, que pareciam ser de vários tons de azul e cinza no escuro, se ramificavam por todos os lados em trilhas sinuosas, quase labirínticas. Algumas trilhas passeavam pelo gramado e depois se reencontravam, enquanto outras iam até escadinhas que davam acesso a plataformas com parapeitos de ferro. Em certos lugares, essas trilhas se transformavam em pontes cobertas, sob densas abóbadas de ramos floridos. Embaixo das partes elevadas, um caudaloso rio de hera e flores emergia do chão. Na outra ponta do quintal, ficava um belvedere de madeira, entre um círculo de ciprestes altos. A cena inteira era iluminada por enormes luminárias brancas penduradas em grossos cabos elétricos estendidos entre cada uma das árvores. A luz das lâmpadas quase escondia o tênue brilho de

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centenas de vaga-lumes do fim do verão que pairavam no escuro entre as árvores em volta do quintal. — Meu Deus — soltei em voz alta. — Pois é... — concordou Joshua. — Minha mãe é dona de uma empresa de paisagismo. Ela tem talento para a coisa, né? — Diria que sim. — Joshua se virou para mim com um leve sorriso, mas então franziu um pouco a testa, olhou para mim e juntou as sobrancelhas. — O que foi? — perguntei, sentindo uma forte onda de desconforto me invadir. — Por que você está me olhando assim? — Sabia que você meio que brilha no escuro? — Ah, isso. — Olhei para a minha mão, ainda entre a dele, e então para o seu rosto de novo. A luz das luminárias acima de nós iluminava partes do rosto de Joshua, enquanto as sombras da noite encobriam as outras. Minha pele, no entanto, continuava com a mesma aparência, inalterada pelo cair da noite. Essa era uma coisa com a qual já estava acostumada, e que me fez reconhecer Eli na mesma hora como um fantasma: o aspecto mortiço e opaco da nossa pele em meio ao escuro. Para mim, Eli parecia uma imagem em preto e branco na frente de outra tridimensional. Mas para Joshua, eu parecia brilhar. Encolhi os ombros. — Acho que é uma coisa de fantasma. É sinistro? — Um pouco — confessou, mas com um sorriso. Soltei um suspiro, grata mais uma vez pela sua aparentemente infinita capacidade para aceitar todas as coisas estranhas em mim. Mas nem tive a chance de expressar minha gratidão, porque o som de uma porta batendo fez com que nós dois virássemos nossas cabeças para a casa de Joshua. Havia agora uma figura baixinha na plataforma mais alta do quintal. Pela sua silhueta, vi que era uma mulher. Contra as luzes fortes que emanavam das janelas da casa, ela estava iluminada por trás, com seu rosto encoberto entre sombras. Pela sua postura — com as mãos na cintura e as costas erguidas —, dava para ver que, seja lá quem fosse ela, era alguém que não estava muito contente. Soltei a mão de Joshua na mesma hora e encolhi os ombros, me sentindo de repente como uma criança pega pela mãe de um amiguinho fazendo alguma bobagem. Quando a mulher falou, no entanto, eu soube que não era eu a criança prestes a levar uma bronca.

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— Joshua Christopher Mayhew! — a voz da mulher era aguda e delicada, mas agora parecia tensa de preocupação. — Será que preciso perguntar se você tem alguma boa explicação para chegar em casa assim tão tarde? — Não, mãe — grunhiu Joshua, olhando para os próprios tênis. — E será que preciso te dizer que a gente já estava quase ligando para a polícia, achando que você tinha desaparecido? — Não é tão tarde assim — resmungou Joshua, tão baixinho que a mulher na varanda nem o ouviu. Em seguida, ele disse mais alto: — Tudo bem, mãe. Desculpe. Ele então suspirou e começou a se arrastar até a varanda. Eu o segui, de cabeça baixa. — Ela é sempre assim? — sussurrei, por mais que a mãe de Joshua não pudesse me ouvir e ele não pudesse me responder. Ele me surpreendeu sussurrando de volta entre seus dentes cerrados: — Minha vó é pior ainda... ela parece um pit bull. E dos bravos. Engoli seco e balancei a cabeça. Como se eu precisasse ainda de mais motivos para ter medo da velha Ruth Mayhew. Acho que a mãe de Joshua não ouviu essa descrição pouco lisonjeira de Ruth, porque sem dizer mais nada se virou e marchou de volta para dentro, depois de abrir com força uma portinha de tela, que depois ficou quicando contra o batente. Joshua me olhou com um ar tímido antes de subir na varanda e ir até a porta. Eu o segui às pressas, como se também tivesse recebido aquela ordem para entrar logo em casa. Joshua pegou a portinha de tela enquanto ainda quicava e a segurou aberta. Em seguida, se virou para mim. — Minha mãe se chama Rebecca e o meu pai, Jeremiah, aliás — sussurrou, enquanto eu o alcançava. Dei uma risadinha tensa. — Ah, tudo bem. Só para eu já saber, por mais que eles estejam ocupados demais gritando com você e não possam me ouvir, né? Joshua revirou os olhos, mas me abriu um sorriso rápido. Em seguida, passou pela porta e fez um gesto para que eu entrasse também. Engolindo seco, cruzei a soleira e deixei que ele fechasse a porta atrás de nós. Assim que entramos, eu o segui a vários passos de distância por um corredor escuro. Ao ver sua silhueta à minha frente, senti uma onda quase incontrolável de nervosismo por um instante. Eu já tinha até aberto a boca 74


para dizer, “olha, obrigada, mas talvez seja melhor deixar isso para outra hora”, quando nós passamos por uma arcada e nos deparamos com outra cena fantástica. Era a cozinha dos Mayhew, toda iluminada e aconchegante. Todas as paredes eram feitas de madeira avermelhada, e potes e utensílios cobriam cada centímetro de sua imensa bancada. No meio desse enorme espaço, havia uma pequena ilha de madeira em cima da qual ficavam vários potes e panelas, todos pendurados em vigas rebaixadas do teto. A cozinha parecia se estender por todo o comprimento da casa, indo das janelas salientes na fachada à nossa frente até outra enorme com uma floreira à nossa esquerda. Embaixo dessa janela, um homem e uma menina estavam rindo diante de uma pia cheia de pratos. Jeremiah e Jillian Mayhew, imaginei. Atrás deles, a mãe de Joshua tinha acabado de chegar à ilha central, onde então começou a arrumar os pratos empilhados ali em cima. Por um instante, seus lustrosos cabelos escuros cobriram seu rosto; mas quando ela se virou na direção das risadas, pude ver seus lindos traços e belos olhos castanhos, que reluziram de alegria por um momento antes de se focarem em Joshua, quando então se estreitaram. — Bom, meu filho pródigo — disse. — Qual seria um bom castigo para você por ter perdido o jantar e dado um susto na sua mãe menos de uma semana depois de bater o carro? A voz de Rebecca Mayhew chamou a atenção de Jeremiah e Jillian, que se viraram para trás. Pelo canto do meu olho, pude ver Joshua inquieto pela situação. Abri um rápido sorriso de incentivo para ele e então voltei a me concentrar em sua família. Embora Jeremiah tivesse cabelos castanhos em vez de pretos, seus olhos azuis-escuros eram iguaizinhos aos de Joshua. Apesar dos pelo menos vinte anos de diferença entre um e outro, os dois poderiam ser irmãos; eles tinham os mesmos ossos altos nas bochechas e a pele bronzeada, o mesmo sorriso largo. O sorriso de Jeremiah foi muito claro: seja lá quem quisesse punir Joshua aquela noite, não contaria com seu apoio. Pelo menos não de verdade. No entanto, a julgar pela sua expressão, Jillian obviamente parecia estar tão irritada quanto sua mãe. Ela jogou seus longos cabelos escuros para trás com as duas mãos e fechou a cara. Ela e a mãe tinham rostos fortes. Jillian, no entanto, tinha traços mais retos, menos delicados. Não que Jillian não fosse bonita — ela era. Mas 75


alguma coisa no jeito com que ela repuxou a boca e inclinou a cabeça de lado a deu um ar manhoso, como se sempre tivesse algum comentário ácido na ponta da língua. — É, Josh — resmungou ela. — Que gentil da sua parte chegar bem a tempo para terminar de lavar a louça. Joshua abriu a boca para protestar, mas outra voz, essa mais velha, o interrompeu. — Acho que esse poderia ser um bom castigo para ele: arrumar essa cozinha toda sozinho. Joshua e eu nos viramos ao mesmo tempo para quem disse isso. Era uma senhora de idade, vindo de uma mesa de jantar encostada em um canto nos fundos da cozinha que eu não havia notado antes. Como ela estava com a cabeça baixa, olhando para uma pequena pilha de envelopes em suas mãos, não pude ver seu rosto. Ainda concentrada nas cartas, ela soltou um suspiro pesado e então balançou a cabeça. Seus cabelos, que desciam até o queixo, balançaram um pouco com esse movimento. Seus fios — de um branco brilhante, quase translúcido — pareciam reluzir sob a luz da cozinha. Finalmente, depois de mais alguns passos, ela olhou para Joshua. Na mesma hora, percebi de quem Joshua e Jeremiah tinham puxado aqueles olhos tão diferentes. Os olhos Ruth Mayhew, azuis-escuros como a meianoite, reluziam em seu rosto pálido e oval, sobre seus traços intensos e queixo proeminente. Quando ela juntou suas sobrancelhas, rugas profundas se formaram em volta da boca e da testa. Mas em vez de fazê-la parecer uma velhinha frágil e vulnerável, essa expressão a deu um ar forte. No meio da cozinha, os singulares olhos de Ruth se focaram nos meus, e ela ficou paralisada. — Joshua? — perguntou com um tom hesitante. — Quem é que está aí com...? Ela não terminou sua pergunta, mas se inclinou para frente, olhando para o espaço ao lado de Joshua. O lugar onde eu estava. Nesse momento, fiquei paralisada também. Tive a instantânea e desconcertante certeza de que a avó de Joshua iria perguntar a ele quem estava ao seu lado. Mas isso era impossível. Só Joshua e Eli podiam me ver. Eu tinha comprovado isso hoje mesmo naquela sala de aula. Mesmo assim, senti um impulso de sair correndo; e antes que eu pudesse raciocinar melhor, sussurrei: — Joshua, talvez seja melhor eu voltar outra... 76


A frase ainda nem tinha acabado de sair da minha boca quando Ruth se endireitou, erguendo as costas de novo. Seus olhos se focaram nos meus. Sua mão direita, que estava segurando as cartas, caiu solta ao lado de seu corpo, espalhando os envelopes com um barulhento farfalhar pelo chão da cozinha. Ainda virada para mim, ela puxou um fôlego intenso. E só com esse fôlego, ela já me disse tudo o que eu precisava saber. Ruth me ouviu. Ela me viu. Não havia nenhuma outra explicação para aquela sua repentina mudança de comportamento. Ruth podia me ouvir e me ver tão bem quanto Joshua. Ao me dar conta disso, não consegui mais me mexer. Sequer piscar. Pelo canto da minha vista, disparei um olhar arrependido para o corredor escuro que dava para a cozinha. Se eu pelo menos tivesse pensado em me esconder, talvez até me arrastar para baixo do carro de Joshua, antes que aquela mulher tivesse me visto. Olhei para Joshua e o vi empalidecer. Seus olhos dardejaram várias vezes entre sua avó e eu. — Vó... — perguntou ele com uma voz trêmula — ...o que foi? Joshua estava falando diretamente com ela, então seria de se esperar que Ruth se virasse para o neto enquanto respondia. No entanto, seus olhos continuaram fixos nos meus. E ela não os tirou de mim enquanto falava. — Quem é essa? — disse essas palavras com cuidado, pronunciando suas consoantes de um jeito como se fossem agulhadas em mim a cada som pungente. Tentei em vão me esconder entre os armários enquanto Joshua a respondia. — Quem é quem? — disse ele, dando risada, mas ansioso demais, como se já soubesse bem demais o porquê daquela pergunta. Seus olhos se viraram para os meus por um brevíssimo momento antes de se reconcentrarem em Ruth. — A senhora está bem, vó? Ao ouvir o riso nervoso do neto, Ruth finalmente tirou seus olhos dos meus. Ela se virou para Joshua com uma expressão no mínimo enfurecida. — Não banque o cínico comigo, Joshua. Por que você achou que seria uma boa ideia trazer alguma coisa da Ponte Alta para dentro da nossa casa? — Vó, eu não... — Shiu! — o interrompeu Ruth na mesma hora. Joshua franziu a testa, mas ela continuou, com seus olhos estreitos dardejando na minha direção de tempos em tempos. — Não venha me dizer que não, porque estou vendo muito bem que sim. Disse para você ficar longe daquela ponte... venho dizendo isso desde que você era pequeno. Mas você foi lá, bateu seu carro e 77


agora traz isso aí para dentro da nossa casa? Justo depois de eu ter me esforçado tanto para proteger você desse tipo de coisa? Seus olhos se focaram totalmente nos meus durante essa última frase. Eu não tive como não estremecer e então comecei a recuar, voltando na direção do corredor. — O que é isso, vó? — Joshua riu de novo, mas parecia já ter desistido de esconder a tensão em seu riso. — Todas as histórias que a senhora me contou sobre aquela ponte são só... histórias. — É verdade, mãe — disse o pai de Joshua atrás de nós, parecendo bastante nervoso com o comportamento de Ruth também. — A senhora sabe que eles só inventam essas histórias para que as crianças não cheguem perto daquela ponte, que é um perigo mesmo. Virei para trás e vi o pai de Joshua olhando para o resto de sua família. Como ele, Rebeca e Jillian também estavam concentradas em Ruth, confusas. Como se estivessem com medo de que sua matriarca — o “pit bull” da família, como Joshua havia dito — estivesse ficando maluca, levando o seu hobby paranormal meio longe demais. Ruth, no entanto, balançou a cabeça, com suas bochechas ganhando agora um violento tom avermelhado de fúria. — Não fale besteira, Jeremiah. O que sei é que aquela ponte tem um histórico péssimo. O tipo de histórico que pode transformar as energias de um lugar. Essas energias podem atrair certas... coisas. — Vó, a senhora sabe que não acredito em... Ela riu com um ar melancólico, interrompendo Joshua de novo. — Joshua — ela apenas suspirou o nome do neto, com seus olhos agora focados nos dele de novo. — Tenho certeza de que você acredita sim. Ou que pelo menos agora, você acredita. Um leve gemido escapou sem querer dos meus lábios. Tapei minha boca na mesma hora. Ruth, no entanto, nem olhou para mim. Em vez disso, ela apenas continuou concentrada em seu neto. Talvez ela não tivesse me ouvido. Talvez eu só estivesse ansiosa demais, imaginando que ela tinha me visto. Imaginando que era de mim que ela estava falando quando comentou sobre essas tais ―certas coisas‖ associadas à Ponte Alta. Talvez. Mas isso já não me parecia mais muito provável. E eu não queria me arriscar. Na verdade, de repente me senti acuada. Uma vontade de sair correndo começou a arder nas minhas pernas. Disparei

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mais um olhar melancólico para Joshua antes de me arrastar com vários passos para trás. Joshua seguiu meus movimentos pelo canto do olho. — Não...! — tentou protestar ele, mas então juntou seus lábios e abriu outro sorriso amarelo para sua avó. — Desculpe — murmurei, já na entrada do corredor. — Mas acho que é melhor dar o fora daqui. Ele franziu a testa, ainda fitando sua avó, que continuava a encará-lo. Fiquei olhando de um para o outro, enquanto mordia o canto do meu lábio. Por fim, acabei parando em Joshua. Olhei para baixo e vi sua mão mais próxima de mim, que ele estava abrindo e fechando, como tinha feito antes de entrar para sua aula de matemática naquela tarde. Apesar do medo, esse gesto me fez sorrir. Aquilo me fortaleceu, ainda que só um pouco. Tomei um fôlego e então disse: — Me encontre na sua escola amanhã, tá? Na hora do almoço, no estacionamento, pode ser? — Joshua me respondeu com um levíssimo aceno de cabeça, e então abri um sorriso. Mas foi um sorriso que logo se encolheu quando os olhos de Ruth se voltaram para os meus. Se eu não soubesse, chegaria até achar que aquela encarada poderia me matar de novo. — Me ajude a sair daqui, Joshua — sussurrei, como se meu tom baixinho de alguma forma pudesse me esconder de Ruth. Me virei e saí às pressas pelo corredor antes de descobrir se eu estava certa ou não. Chegando ao final do corredor, quase gritei de frustração. Dei de cara com a portinha de tela, que eu nunca conseguiria abrir com minhas mãos espectrais. Quase desmaiei de gratidão quando um braço passou por mim e empurrou a porta que se abriu o bastante para que eu pudesse sair. Corri até a varanda e me virei com um largo sorriso de alívio no rosto. — Obrigada, Joshua, juro que... Mas essas palavras morreram entre os meus lábios. Ruth estava olhando para mim do outro lado da porta, com sua mão ainda firme no batente, parada a poucos centímetros de mim. Ela estava sozinha no corredor. Eu não conseguia tirar meus olhos dos de Ruth. Enquanto a encarava, minha visão borrou, e pude jurar que minha cabeça chegou a doer.

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Por fim, com um angustiante esforço, consegui desviar meus olhos. Comecei a dar passos descoordenados e cambaleantes pela varanda e então escada abaixo. Achei ter ouvido alguma coisa atrás de mim — um suave murmúrio, quase como uma oração entoada. Mas não olhei para trás. Em vez disso, disparei pelo quintal até a entrada, louca para fugir. Antes que eu pudesse escapar, no entanto, o som da voz de Ruth me paralisou mais uma última vez. Ruth apenas sussurrou. Mas desta vez, alto o bastante para que eu a ouvisse, mesmo do outro lado do quintal. O mero som de sua voz ardeu com frieza e crueldade na minha nuca. — Você não era quem eu esperava... — sibilou ela para as sombras — ...mas seja lá quem você for, vá embora. E não volte mais. Meu primeiro impulso foi o de me jogar no chão, me encolher na posição fetal e rezar para ter um dos meus pesadelos. Para simplesmente desaparecer dali. Meu impulso seguinte foi o de gritar, ―Sim, senhora. Sem problema, senhora”, e obedecer na mesma hora suas ordens. Meu impulso final me pareceu um pouco menos familiar. Um pouco estranho para mim, ou pelo menos para a pessoa que eu havia me tornado após a morte. Seguindo esse meu último impulso, a única coisa que fiz em resposta a isso foi me endireitar da melhor forma que pude e virar a cabeça para trás. Em seguida, após essa parca demonstração de confiança, segui pelo menos em partes as instruções de Ruth e saí correndo em meio à escuridão da noite.

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Onze Nem sei por quanto tempo fiquei andando depois que saí da casa de Joshua. Uma hora, talvez quatro — quem vai saber? Eu só sabia que a noite tinha escurecido mais, ganhando um tom negro sinistro. Ao contrário do que eu tinha visto no meu último flashback, o céu acima de mim estava sem estrela nenhuma. A única luz vinha de uma lua mortiça. Um mero espectro, tão baço e fraco que parecia até deslocado no meio do céu. Como se aquele não fosse seu lugar. Como eu, pensei, cheia de amargor. Aqui também não é o meu lugar. Bom, talvez aqui fosse o meu lugar, neste trecho deserto de uma estrada pelo qual eu estava andando agora. Mas com certeza meu lugar não era na casa que eu tinha acabado de visitar. A casa da qual eu tinha acabado de ser expulsa sem nenhuma cerimônia. Ao me lembrar dos olhos enfurecidos e da voz fria de Ruth, fiquei pensando, Será que ela tinha razão? Eu não era o que ela “esperava” de um fantasma. Então... será que eu era algo ainda pior? Será que eu era mesmo alguma “coisa” sinistra da Ponte Alta, como Eli? Uma força maligna na vida de Joshua, que só o salvou para poder assombrá-lo? Eu com certeza não me sentia maligna. Mas não tinha como ter certeza se isso significava alguma coisa. Não sabia nada sobre mim, nada sobre minha própria natureza. Aqueles flashbacks estavam começando a me dar algumas informações, mas muito devagar e de pouco em pouco. Tudo bem, então eu tinha estudado em casa com minha mãe, com quem eu obviamente brigava bastante, sabia resolver equações diferenciais e tinha coragem o suficiente para usar vestidos ousados como este com o qual eu provavelmente irei passar o resto da eternidade. Esses detalhes, no entanto, não diziam nada sobre mim, não deixavam claro se eu era ou não uma boa pessoa.

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Até onde sabia, eu poderia ter passado a vida inteira chutando cachorrinhos ou roubando calcinhas em lojas de departamento por aí. Ou até coisa pior, é claro. Muito, muito pior. Talvez alguma coisa que fiz em vida, ou até durante a morte, me fizesse merecer o pós-vida que Eli insistia estar à minha espera. Será que eu tinha sido uma pessoa cruel? Será que tive uma vida tão terrível que acabei me matando? Eu não tinha a menor ideia. Senti uma onda repentina de frustração. Os flashbacks eram tão desconexos, tão vazios, sem nenhum detalhe importante. Talvez nunca chegasse a descobrir quem eu tinha sido ou em que poderia me tornar. Soltei uma bufada de irritação e comecei a bater os pés com mais força enquanto andava pela estrada. Acho que eu não estava prestando atenção por onde andava porque quase tropecei nos meus próprios pés. Só depois de me reequilibrar que percebi onde estava, o que me irritou ainda mais. Em meio à minha distração, tinha voltado para o lugar que mais odiava: a Ponte Alta. Eu estava bem na entrada da ponte. Suas estruturas de metal despontavam acima de mim, reluzindo sob o luar amarelado, como uma piscadela maligna. — Ah, mas que maravilha! — gritei. Minha voz soou infantil, ecoando nas vigas da ponte de volta para mim. Ainda no meu clima petulante, ergui a perna para chutar uma pedra até o acostamento da estrada. Mas antes que conseguisse dar esse chute, uma rajada de ar frio acertou minhas costas de repente, me causando um arrepio que foi do meu pescoço até meus pés. Logo em seguida, uma voz suave e familiar irrompeu atrás de mim. — Sabe, Amélia, você pode até tentar. Mas essa pedra nunca vai sair do chão. Fechei os olhos, me esforçando para não estremecer — por mais apropriado que isso pudesse me parecer —, e então me virei para trás, conseguindo abrir um leve sorriso irônico. — Eli. Essa palavra foi meu único cumprimento. O canto dos lábios de Eli se repuxou com um ar de quem estava se divertindo. — Ao que devo esse prazer, Amélia? 82


Franzi a testa. — Como assim? — Bom, claramente... — disse ele, se inclinando para frente e arqueando as sobrancelhas — ...você queria alguma coisa. Ou então não estaria aqui. — E por que você acha isso? — Você me procurou. Até agora, eu venho cumprindo minha promessa de deixar você em paz. — Em seguida, ele apontou com um braço para as estruturas metálicas e a estrada à nossa volta. — Mas foi você quem voltou para a ponte, como eu bem disse que faria. — Acredite em mim, não foi por querer — disse eu, fechando a cara. — Tudo bem, Amélia. — Ele começou a se virar para a encosta. Em seguida, ele olhou para mim e, após um instante de reflexão, apontou com a cabeça para o rio. — Não quer descer comigo? Nós podemos conversar melhor lá embaixo. Tentei não dar risada dessa sugestão. — Ah, não, obrigada, Eli. Acho que já deixei bem claro que não gosto muito de sair por aí com você para lugares escuros. Eli balançou a cabeça. — Mas você quer conversar, não quer? — Com você? Por que iria querer isso? — Vi sua cara antes de me materializar. Você teve uma noite ruim — disse, como se tivesse certeza disso. — E daí? Fui defensiva, e por um bom motivo. Não tinha a menor intenção de deixar que Eli ficasse sabendo por que minha noite tinha sido ruim. Ele não podia saber de onde eu tinha acabado de sair — não podia nem saber da existência de Joshua, aliás. — E daí... — disse Eli — ...que talvez você queira saber por que está tão frustrada desde que despertou da névoa da morte. Ou por que não consegue entender qual é o seu lugar. Fiquei sem reação. — Como você...? — arrisquei, mas então balancei a cabeça. Eli não tinha como saber no que eu estava pensando antes de aparecer. Foi só um palpite. Um palpite certeiro. Apenas encolhi os ombros. — Você tem razão. Seria ótimo saber tudo isso. Mas você está louco se acha que vou fazer seja lá o que você quer só para descobrir essas coisas. Para a minha surpresa, Eli deu risada. 83


— Tudo bem, Amélia. Então que tal se eu te der uma... como posso dizer... amostra grátis? — Como assim? — Eu posso te contar alguns detalhes sobre o pós-vida em troca apenas de um pouco da sua companhia. Ergui uma sobrancelha, cética. — E qual é a pegadinha? — Nenhuma... por enquanto. — Por enquanto? — Bom — ele soltou um suspiro. — Espero que você reflita sobre o que eu te disser hoje e entenda isso como motivo o bastante para voltar para mim depois... dessa vez em definitivo. — E se eu não quiser? — Aí poderemos lidar com esse problema quando for necessário. Mordi meu lábio, confusa com a tentadora proposta de Eli. Não achava que podia, e nem queria, confiar nele. Mas também não tinha como resistir àquela oferta de informação, não agora. Eu queria saber quem eu era, e o que iria acontecer comigo. Ou melhor, euprecisava saber. Acenei a cabeça com o máximo de determinação que pude, por mais que ainda estivesse meio desconfiada. — Tudo bem, Eli. Vamos lá. Eli pareceu surpreso com a minha decisão repentina. Ainda assim, um sorriso contente logo se abriu em seu rosto. Ele esfregou as mãos uma na outra. — Excelente. Sem esperar que eu dissesse nada, ele se virou e desceu a encosta. Respirei fundo para tomar coragem e o segui. Com cuidado, desci bem devagar pela grama da encosta. Eli estava me esperando no final da descida, com as pernas abertas plantadas firmes no chão e os braços cruzados. Parei a vários metros de distância dele e espelhei sua postura. — Bom, e aí? — disse eu. Eli sorriu, ignorando minha pergunta. — Como está a temperatura, Amélia? — Hã? Franzi a testa. Apesar do meu interesse pelo que Eli tinha para dizer, não queria cair em nenhum de seus truques. Então acabei me sentindo muito boba — para não dizer irritada — quando o cenário à nossa volta 84


mudou de repente. Sem nenhum aviso, tudo ganhou um tom cinza e escuro como carvão; e um vento gelado açoitou minha pele. Perdi o fôlego ao olhar à minha volta. As árvores e o rio haviam se transformado de novo em carvão e piche. Eli havia nos levado de volta para o mesmo lugar de ontem; o terrível submundo no qual eu supostamente estava condenada a passar a eternidade. Mesmo depois de um dia inteiro, nada havia acontecido para melhorar a aparência daquele lugar. Minha voz saiu tímida e vacilante quando protestei. — Você não tinha dito que a gente só ia conversar? — Relaxe, Amélia — disse Eli. — Vou cumprir minha promessa. Só queria estar onde me sinto mais confortável. Olhei para cima e para trás dele. O abismo negro sob a ponte e aqueles vultos estranhos que pairavam pelo ar ainda não tinham aparecido. Abracei meu próprio corpo, tentando me proteger do frio. — Tá, tudo bem. Mas fale logo e me deixe ir embora. Este lugar me dá calafrios. — Bom — disse ele. — Por que não começamos por este lugar aqui então? Você gostaria de saber onde está? Acenei a cabeça, hesitante. — Este lugar aqui é uma parte do pós-vida, como já disse. — Isso não é muito confortante — murmurei, assimilando toda aquela sombria escuridão cinzenta com uma passada de olhos. Eli balançou a cabeça. — Não é tão ruim quanto você pensa, Amélia. Sinceramente. Fixando seus olhos nos meus, Eli ergueu uma das mãos e estalou os dedos. Na mesma hora, o submundo se iluminou como se Eli tivesse acionado algum tipo de interruptor sobrenatural. Meu queixo caiu. Com apenas essa fração de luz, um cenário inteiro apareceu à minha volta. Tudo continuava tendo apenas tons de cinza. Mas foi a cena em si, e não suas cores, o que chamou minha atenção. À primeira vista, esse submundo lembrava muito a margem do rio de onde tínhamos acabado de sair. Mas as vagas formas escuras como carvão que eu tinha visto ontem, agora me pareciam mais familiares: um campo de grama alta, árvores enormes e tufos desgrenhados de flores selvagens ainda se espalhavam à nossa volta. No entanto, cada uma dessas plantas cinzentas tinha diferenças tênues, mas significativas daquelas do mundo real. 85


Aqui, os galhos das árvores eram sinistros e retorcidos, como garras e ganchos, e as flores selvagens e a grama se engalfinhavam como se estivessem no meio de uma violenta batalha. E por mais que as plantas sugerissem que nós estávamos no final do verão aqui também, cada superfície brilhava e reluzia, coberta por uma fina camada de gelo. Depois de iluminado, este submundo agora parecia muito algum tipo de terra das maravilhas sinistra. Como uma versão negativa superexposta do mundo dos vivos: frio, escuro e macabro. Mas também incrivelmente lindo. — É sempre assim por aqui? — perguntei, espantada. — Não — respondeu Eli com um tom baixo e respeitoso. — É sempre cinzento e frio. Mas posso aumentar ou diminuir a iluminação, se eu quiser. — Então você manda neste mundo? Eli riu alto, me despertando do feitiço que aquele lugar tinha lançado sobre mim. — Você está me perguntando se eu sou Deus, Amélia? — Não era bem em Deus que eu estava pensando — murmurei baixo demais para que Eli ouvisse. — Não, não sou a entidade de maior poder por aqui — disse. — Mas trabalho, sim, para eles. Tirei meus olhos daquelas árvores incríveis e me virei para Eli. — Eles? Como assim? Eli se acomodou onde estava. — Bom... — disse. — Acho melhor começar explicando o meu trabalho. — Eu ergui as sobrancelhas, e ele soltou um suspiro. — E sou o... guardião, por assim dizer, deste pedaço do além. Eu fui contratado para cuidar dele. Para cultivá-lo. — Cultivar? Para cuidar das plantas, você diz? Por algum motivo, os olhos de Eli reluziam com malícia. — Das plantas e de... outras coisas. Escute... — ordenou, colocando a mão em volta da orelha. Obedeci por impulso, fechando bem a boca e me concentrando na quietude à minha volta. A princípio, não ouvi nada, a não ser talvez o estranho eco do silêncio, como o som que você escuta quando coloca uma concha do mar na orelha. Em seguida, apenas um pouco acima do silêncio, eu os ouvi. Fracos no começo, mas ficando cada vez mais intensos. Sussurros. Um coro de sussurros.

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— Quem...? — tentei dizer, mas Eli pôs o dedo em frente aos lábios, me pedindo silêncio. Os sussurros continuaram, abafados e constantes. Eu não tinha como ter certeza, mas depois de mais alguns segundos, eles começaram a me parecer... desesperados. Frenéticos. Alguma coisa naquilo me assustou. — Que vozes são essas, Eli? — perguntei, trêmula. — Me responda. Agora. — Acho que você já sabe. — São pessoas? — murmurei. — Bom... — disse, com um sorriso malicioso. — É o que elas costumavam ser. Engoli seco, sentindo um enjoo estranho. — Qual é exatamente o seu trabalho aqui, Eli? Sério. Ele suspirou como se estivesse aliviado por eu finalmente ter feito uma pergunta importante. — Eu não sou só um guardião, mas também uma espécie de recrutador. Fui escolhido para trazer certas almas recém-mortas para este lugar. Algumas das vozes que você ouviu são de trabalhos meus... almas que recebi a ordem de trazer para cá. — Outros fantasmas? Eli acenou a cabeça. — Acho que você até viu alguns deles ontem, na verdade. Eu me lembrei dos vultos que tinha visto de relance. Olhei assustada para os dois lados de Eli, mas vi apenas a margem vazia do rio. — Onde eles estão agora? — Pedi que eles nos deixassem a sós um pouco para que a gente pudesse conversar — Eli apontou com a cabeça para a estranha fileira de árvores atrás dele. — Costumam ficar por ali até eu precisar deles. — Você é... o chefe deles, ou alguma coisa assim? Eli encolheu os ombros, mas com um ar orgulhoso. Quase satisfeito. — Eu os recruto para os meus mestres. Em troca, meus mestres me dão poder sobre este lugar. Essas almas me obedecem e me ajudam com o que preciso. Em missões importantes, elas podem ser muito úteis. Tentei não estremecer, pensando no que seria uma ―missão importante‖ para Eli. — E esses seus ―mestres‖, os que te deram esse trabalho... eles também estão entre aquelas árvores? 87


Ele riu como se eu tivesse dito algo ridículo. — Não, é claro que não, Amélia. Este reino é meu. Já ali, no entanto... — ele não terminou a frase, mas olhou por cima do meu ombro. Segui seu olhar até um ponto onde o rio se arrastava sob a Ponte Alta. O espaço onde aquele buraco negro tinha aparecido ontem. Alguns detalhes se encaixaram na minha mente, e eu soltei um grunhido. — Então você aprisiona pessoas neste mundo? Sob as ordens de seja lá quem vive naquele... buraco do inferno? — Sim, mas só porque este é o lugar dessas almas. E aquela escuridão ali não é o inferno. É só um dos lugares onde as forças maiores ficam quando não estão me dando instruções. Eli pareceu estar sendo sincero. Ainda assim, balancei a cabeça com força para rebater suas palavras. Nenhuma alma merecia ficar naquela floresta escura, aprisionada para sempre, sem poder alternar entre os mundos como Eli e eu claramente éramos capazes. Independente das ordens de seja lá quem, ou o quê. Enquanto eu tentava imaginar como devia ser ficar presa dentro daquela floresta escura ou, que Deus me livre, em algum lugar entre as trevas daquele abismo sob a ponte, um pensamento me veio à mente. Um pensamento aterrador. Ergui meus olhos novamente até os de Eli, investigando suas profundezas azul-claras. — Mas e eu, Eli? E quanto à minha alma? O canto de seus lábios se repuxou para cima. — Ah, agora sim chegamos ao verdadeiro xis da questão. Não foi por isso que a gente veio aqui na verdade? Para discutir sua natureza? — Sim, mas... — insisti. — O que minha natureza tem a ver com este lugar? Ele apontou para trás com um dos braços. — Você não está se perguntando por que eu ainda não transformei você em uma daquelas sombras? Por que deixei você vagar por aí, muito mais tempo do que em geral permitiria que qualquer alma ficasse no mundo dos vivos? Tentei em vão evitar um arrepio. — Tudo bem, tá certo. Por quê? — Porque você é especial, Amélia. — Ele começou vir lentamente na minha direção. 88


— Ah, é? — Tentei manter minha voz o mais casual possível, enquanto andava para trás, para longe dele. — Por que sou especial? — Graças à generosidade dos meus mestres... — disse, ainda avançando até mim — ...posso ficar com uma alma recém-morta para mim. Como uma... espécie de aprendiz. E quando eu vi você, quando eu comecei a observar você, logo percebi que você seria perfeita. — Por quê? — Porque você me pertence, Amélia. Seu espírito é como o meu. As palavras de Eli ecoaram pelo meu cérebro, repetindo meus medos de antes. Então eu era mesmo um ser maligno? Tudo dentro de mim relutou contra essa sugestão. Não podia acreditar naquilo. Simplesmente não podia. — Não — insisti, balançando a cabeça de novo. — Não é verdade. Aqui não é meu lugar. — Ah, é sim. — Com alguns passos rápidos, Eli chegou à minha frente e então se inclinou e pôs as mãos ao lado dos meus ombros, pairando sobre minha pele, mas sem tocar em mim. — O seu destino é me ajudar no trabalho... soube disso assim que vi você. — Ele voltou a encolher os ombros, mas esse gesto me pareceu muito menos casual dessa vez. — Você precisa me ajudar, Amélia. Porque senão, minha única escolha será prender você aqui, sem nunca mais poder voltar pro mundo dos vivos. A menos que seja obedecendo minhas ordens, como aqueles espectros que me servem ali. — Ele virou sua cabeça de novo para a floresta com um ar enfático. Raiva e pavor borbulharam dentro de mim. — Não! — gritei na cara dele. — Não vou ajudar você a trazer ninguém para este lugar. Não vou mesmo. Sem nem esperar sua reação — que com certeza seria desagradável —, me virei para sair correndo. Mas nem sabia para onde fugir, claro, sem ter a menor ideia de como me situar naquele mundo. Olhei à minha volta à procura de alguma coisa para me orientar, debatendo os braços de um lado para o outro. Em seguida, alguma coisa resvalou na minha mão — as pontas dos dedos de Eli, talvez. Seja lá o que tivesse tocado na minha pele, me causou um frio brutal, enchendo minhas veias com o que parecia ser água gelada. Esse frio me atacou com tanta brutalidade, tanta violência, que comecei a perder a visão. Ouvi Eli gritar: — Amélia! Espere! 89


E entĂŁo, a ĂĄgua escura dos meus pesadelos voltou a me envolver por completo.

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Doze Levantei de repente, quase sem fôlego. Eu não conseguia processar nenhum pensamento racional, só puxar o ar desesperadamente. Mas logo depois, meus instintos me lembraram de me proteger contra qualquer ameaça próxima. Como Eli, ou seus ―mestres‖. Após uma rápida olhada à minha volta, não encontrei nenhum sinal de Eli. Ainda assim, meu coração disparou. Estava sentada em um campo cheio de lápides, com cada uma delas projetando suas sombras contra o chão sob o sol forte. Não havia dúvida alguma sobre que lugar era aquele. Eu estava no mesmo cemitério em que sempre acordava depois dos meus pesadelos. Soltei um suspiro e fechei os olhos. Esse pesadelo — o meu primeiro desde conhecer Joshua — tinha sido diferente dos outros. Dessa vez, enquanto me debatia na água, tinha ouvido coisas. Vozes, como os sussurros desesperados daquele submundo medonho. Mas no meu pesadelo, essas vozes pareciam mais agitadas. Quase em frenesi. Balancei a cabeça. Apesar das vozes, esse pesadelo tinha me causado os mesmos efeitos de sempre. Tinha perdido um tempo valioso me debatendo naquele rio idiota. Ao abrir os olhos, percebi o quanto o dia estava ensolarado — algo muito bem-vindo após todo aquele breu gelado — e rezei para ainda ter tempo de me encontrar com Joshua como prometido. Consegui me levantar e então estiquei cada tendão do meu corpo, por mais que isso nem fosse necessário. — Rápido, Amélia — disse eu em voz alta para mim mesma. — Não há tempo a perder. Em seguida, saí correndo o mais rápido que pude na direção da escola de Joshua.

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Soltei um imenso suspiro de alívio quando finalmente cheguei ao estacionamento do Colégio Wilburton, que ainda estava lotado de carros. Passei costurando entre as fileiras de veículos para ter uma visão melhor da escola em si. Em frente aos prédios baixos, alunos andavam de um lado para o outro, aguardando o horário do almoço terminar, espero. Olhei então para os carros, procurando o de Joshua. Havia vários sedans pretos como o dele no estacionamento, mas logo encontrei um que me pareceu mais familiar. Fui até lá o mais depressa que pude, enquanto dava uma rápida checada no meu vestido. Quando consegui ter mais ou menos a certeza de que não estava parecendo uma louca que acabou de acordar em um cemitério, parei ao lado da janela do motorista do carro de Joshua, com as mãos atrás das costas. Joshua estava sentado dentro do carro, com a cabeça apoiada nos braços em cima do volante. Depois de apenas alguns segundos, ele ergueu os olhos. O sol do meio-dia iluminou seu rosto e, por um instante, cheguei a piscar de surpresa. Ele estava horrível, ou pelo menos o mais horrível que alguém como Joshua podia ficar. Estava com o cabelo todo desgrenhado, olheiras enormes e a barba por fazer. Mas assim que aqueles olhos azuis como a meia-noite viram os meus, ele sorriu, e não tive como não soltar um suspiro de alegria. — Espera — disse Joshua, só com os lábios, e então se inclinou até o lado do passageiro. Ouvi um estalo metálico enquanto ele abria a porta e então contornei o carro por trás e entrei. Joshua puxou a porta para fechá-la logo depois. Ainda inclinado por cima de mim e com sua boca perigosamente perto da minha orelha, murmurou: — Oi, Amélia. — Oi, Joshua — murmurei de volta, com as mãos firmes no meu colo e não em volta do seu pescoço, onde elas queriam estar. Joshua se encostou de volta no banco e tentou em vão conter um bocejo. Isso me fez sorrir e me ajudou a concentrar naquilo que precisávamos discutir. Aproveitando sua aparência exausta, decidi começar pelo óbvio. — Hã... Joshua? Você não percebeu que sua camiseta está do avesso? Ele olhou para sua camiseta cinza. — Hum. Mas que coisa... Com um rápido movimento, Joshua tirou sua camiseta por cima da cabeça e a virou do lado certo. Pude ver seu peito e seu abdome expostos e, 92


de repente, percebi que já não me lembrava mais de como respirar. O que não seria um problema, claro, a não ser pelo fato de que também comecei a engasgar. Joshua viu meu desconforto pelo canto do olho, sorrindo enquanto vestia a camiseta de volta. Tentei desesperadamente me recompor. Por fim, consegui me acalmar o bastante para dizer: — Bom, estou vendo que é melhor a gente conversar sobre a sua noite primeiro. Joshua deu risada e coçou a barba rala em seu queixo. — Tudo bem, eu primeiro então. — Ele esticou as pernas e depois me olhou de um jeito meio estranho, como se estivesse me avaliando. — A minha noite foi... interessante. — Por quê? — Bom, minha família teve um longo debate sobre a saúde mental da vó Ruth, o que é meio irônico, porque eu era o único ali que sabia muito bem que ela não estava maluca coisa nenhuma. Fiz uma careta. — Desculpe. — Imagine — disse ele com um sorriso melancólico. — Não foi nada comparado ao longo sermão que precisei ouvir da vó Ruth depois que ela conseguiu convencer todo mundo que estava em sã consciência. — Ela te deu um sermão por ter chegado tarde para jantar? — perguntei, na vã esperança de não ouvir a resposta que já esperava. O sorriso de Joshua ganhou um ar gentil, mas sua expressão deixou claro o que ele estava para dizer: — Não, Amélia. Ela me deu um sermão sobre você. Puxei um fôlego tenso. Calma, disse eu para mim mesma. Fique calma. Com a minha voz mais tranquila possível, perguntei: — Ah, é? E o que foi que ela disse? Joshua deu uma risada amarga. — Bom, aquilo que alguém da família sempre diz, né? ―Fique longe daquela menina, ela é encrenca‖. Claro, nesse caso, a ―encrenca‖ significa uma coisa um pouco mais estranha do que uma menina que fuma ou usa piercings demais. Fiz outra careta.

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— Nem me fale... — olhei para a maçaneta do carro, por mais que não tivesse como usá-la. — Se você abrir a porta para mim, eu posso só descer e parar de bagunçar sua vida... — Amélia — o tom de Joshua me fez virar de volta. Ele me abriu outro sorriso gentil. — Por que você não ouve a história inteira antes de sair correndo? Ainda hesitante, eu me acomodei de volta no meu banco. — Tudo bem. Pode ser. Por enquanto. Ele virou seu corpo para mim, expondo sua exaustão, e então fechou os olhos para falar. — Por uma questão de tempo, vou contar só o principal. A primeira coisa, você até já ouviu: a vó Ruth acha que a Ponte Alta e aquele rio têm energias malignas. — E têm mesmo — murmurei. Joshua abriu um olho, e então completei: —Explico isso melhor depois. Ele acenou a cabeça e fechou os olhos de novo. — Pelo que a vó Ruth disse, depois que meu pai nasceu, ela basicamente ficou insistindo para que minha família se mudasse para cá só para poder vigiar aquele rio... para proteger as pessoas de seja lá o que controla aquele lugar. Supostamente, várias pessoas já fizeram isso, inclusive amigas dela e suas famílias. Porque aquela é uma área muito ―espiritualmente carregada‖... palavras da própria vó Ruth, juro. — Joshua bufou enquanto balançava a cabeça. Após uma longa pausa, ele continuou. — Bom, essa é a segunda coisa e também o verdadeiro motivo pelo qual as amigas da Ruth sempre foram tão estranhas; elas na verdade são um grupo de... sei lá... caçadoras de fantasmas. Parece que a missão delas é ficar de vigia para banir qualquer espírito ―perdido‖. E exorcizar esses espíritos. Elas vêm caçando certos fantasmas perdidos há anos. Tipo um cara de quem a vó Ruth me falou. Mas aí, quando você apareceu lá em casa... bom, dá para imaginar o quanto ela pirou, né? Eu me acomodei no meu banco, chocada. Será que os espíritos ―encontrados‖ na verdade eram as almas que Eli havia aprisionado no submundo? E então será que Eli era um espírito ―perdido‖, capaz de alternar entre mundos? Eli só podia ser o fantasma que elas estavam caçando. Mas... então elas agora iriam vir atrás de mim também? Será que eu também era um espírito perdido? Balançando minha cabeça com um riso fraco, perguntei: 94


— Pelo menos não foi bom saber que sua vó na verdade não é louca? O canto da boca de Joshua se ergueu, mas pouco. — Não muito, Amélia. Não levando em conta a terceira coisa que tenho para dizer. Pelo visto, as Bruxas de Wilburton querem que eu entre para o grupo delas. — Como assim? — disparei. — A vó Ruth disse que isso está no meu sangue. Que é meu destino, sei lá. Venho de uma longa linhagem de ―videntes‖, e não tem nada que eu possa fazer contra isso. — Videntes? — Isso. Pessoas que podem ver seres sobrenaturais. Fantasmas perdidos, em especial. A vó Ruth me disse que provavelmente sempre fui capaz de perceber essas forças, mas sem entender o que estava sentindo. É por isso que ela me contou todas aquelas histórias de fantasmas quando eu era criança... foi tipo um treinamento. Mas o único jeito de começar a ver os fantasmas de verdade é passar por algum evento que serve como um ―gatilho‖. Alguma coisa que force você a ter uma certa consciência do mundo espiritual. — Tipo ver uma menina morta logo depois do seu coração parar de bater? — Exatamente como ver uma menina morta logo depois do seu coração parar de bater. — Ele soltou um suspiro e esfregou a testa. — A vó Ruth disse até que eu só atraí você porque... sei lá... tenho uma predisposição genética para exorcizar você. Para ela, ser um vidente implica fazer alguma coisa com esse ―dom‖, em vez de só aproveitar as partes boas, como venho fazendo. Em outras palavras, um vidente precisa usar seu dom da visão contra os fantasmas. E pelo visto, é isso o que eu deveria fazer com você. Um silêncio pesado caiu entre nós. Sem nenhum motivo, meus olhos se fixaram no painel do carro. Após alguns segundos procurando sinais invisíveis naquele revestimento de couro, acordei. Quando por fim me virei para Joshua, seus olhos ainda estavam fechados, e seu corpo ainda imóvel. — Bom — murmurei. — Então isso quer dizer que você não vai mais querer minha ajuda nas suas aulas de cálculo? Os olhos de Joshua se abriram e se fixaram nos meus. Aquele azulescuro me deixou meio atordoada, ainda mais quando percebi que ele não iria rir da minha piada idiota.

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— Essa era a quarta coisa — disse. — Enfim, minha vó foi bem clara ao dizer que eu não deveria andar com você. — Apesar do tom tranquilo de sua voz, fiquei inquieta. Eu não queria ouvir o que ele estava prestes a me dizer, não queria mesmo. No entanto, Joshua me surpreendeu com um sorriso enquanto continuava. — Mas vou ser sincero com você, Amélia, não estou nem um pouco a fim de entrar para um grupo de bruxas. Assimilei suas palavras pouco a pouco e senti um sorriso se abrindo no meu rosto. — E eu aqui achando que elas já tinham ganhado você. — Joshua só deu risada, mas quis insistir no assunto. — Bom, só para deixar tudo claro: então você não vai se tornar um vidente para me caçar e exorcizar? — Acho que não tenho como deixar de ser um vidente — disse. — Parece que isso faz parte de quem eu sou agora. Mas quanto à parte de exorcizar fantasmas... não, muito obrigado. Aquela dorzinha no meu peito voltou a arder pela primeira vez depois de horas. Antes que eu pudesse me empolgar demais, no entanto, precisava me garantir de mais uma coisa. — Bom, só para deixar tudo, enfim, ainda mais claro... — insisti. — Você não vai aceitar essa sua herança como um exorcista por quê...? Joshua abriu um sorriso seco e gentil como da primeira vez que me viu na Ponte Alta. — Porque não posso caçar e ficar com você ao mesmo tempo, né? — Ficar comigo? — murmurei. Joshua não disse nada, apenas me estendeu a mão. Passei um instante só olhando para o seu braço estendido, sem saber o que fazer. Essa era uma ideia tão assustadora e empolgante — segurar sua mão, tocá-lo por mais do que alguns breves segundos. Ainda meio trêmula, arrisquei esticar minha mão e deixá-la cair sobre a sua. Um fogo pulsante voltou a percorrer minhas veias. Joshua e eu reagimos como da primeira vez que nos tocamos: ofegando, sorrindo e tentando nos afastar instintivamente pelo choque. Mas nós dois refreamos esse impulso e só continuamos apertando a mão um do outro com força. No começo, ele só segurou minha mão normalmente, de um jeito quase formal. Depois, bem devagar, ele virou nossas mãos para cima até ficarem erguidas, com uma palma voltada para a outra. Com um leve movimento do pulso, Joshua entrelaçou seus dedos nos meus. Então deixei que eles passassem entre os meus para se fechar contra as costas da minha mão. 96


Assim que nossas mãos se entrelaçaram, o arrepio que percorria minha pele se transformou um pouco. Agora, em vez irradiar da minha mão para o resto do meu corpo, aquela leve ardência me engoliu por inteiro, menos a mão que estava tocando na dele. Senti essa minha palma ser coberta por uma série de pontadinhas — como o formigamento de um membro dormente. Como se minha mão estivesse acordando. A analogia se encaixou ainda melhor quando as pontadas passaram e foram substituídas por outra coisa totalmente distinta. De repente, eu o senti. Não uma pressão mortiça, ou mesmo aquela deliciosa quentura, mas ele mesmo. Eu senti o calor de sua mão e a textura de sua pele contra a minha. Eu o senti de verdade, como naquela noite no rio, quando ele se tornou temporariamente um espírito como eu. Joshua também deve ter sentido o mesmo, porque seus olhos se ergueram na mesma hora das nossas mãos para o meu rosto. — Você sentiu isso? Ele parecia espantado e confuso. Acenei a cabeça, com meus olhos fixos nos seus. Quando tentei responder, minha voz saiu hesitante. — Joshua... como eu já disse, não conseguia sentir nada desde que morri. Não desse jeito. A primeira vez que senti alguma coisa assim foi quando você caiu lá no rio. E desde que a gente se viu, comecei a sentir coisas estranhas, a ter sensações estranhas. Só que elas passavam rápido. Mas isso... isso aqui parece que não vai acabar nunca. Ergui nossas mãos entrelaçadas para enfatizar minhas palavras. Ao fazer isso, senti o peso de seu braço e a pele áspera de sua palma roçando na minha. Sem soltar sua mão, Joshua chegou mais perto de mim. — Então talvez eu esteja mesmo fazendo a escolha certa — murmurou. Por impulso, sem pensar em nada, arqueei meu corpo contra ele, me curvando até nossos rostos ficarem a poucos centímetros um do outro. Essa nossa proximidade disparou um novo tipo de arrepio pelo meu corpo, um arrepio que com certeza não tinha uma origem meramente sobrenatural. Na verdade, aquilo parecia ser a coisa mais natural do mundo: uma simples atração humana. Apesar da nossa proximidade, ou talvez por causa dela, a expressão de Joshua ficou séria, e sua voz, intensa. — Isso aqui não é nada mau — sussurrou, apontando com a cabeça para as nossas mãos. 97


— Os arrepios ou só tocar em mim em geral? — As duas coisas. — Em seguida, com sua mão livre, apontou para frente e para trás entre o pouco espaço que havia entre nós. — Acho que seja lá o que estiver rolando aqui significa alguma coisa. Alguma coisa maior do que só o fato de eu ter morrido do mesmo jeito e no mesmo lugar que você. Maior do que você ser um fantasma e eu um vidente. Você não acha? Meu cérebro estava tão disparado que quase não consegui responder. — Ah... talvez. Ele sorriu, chegando tão perto que nossos lábios poderiam se tocar com o menor movimento de qualquer um de nós. — Talvez o quê? — perguntou. — Talvez sim? — soltei eu, imaginando a sensação de seus lábios contra os meus. O quanto aquilo iria arder em mim? Quanto tempo eu levaria para sentir seus lábios em si por baixo de toda a queimação? Tentei acalmar meu fôlego e me preparar para aquele momento que eu tanto desejava. Mas claro, não teria como me preparar para que aquele momento fosse interrompido por uma forte batida na janela do carro de Joshua.

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Treze Ao ouvir o som da batida na janela, ficamos paralisados, com nossos lábios a um mero fôlego de distância. — Quem é? — perguntou Joshua através de seus dentes cerrados. Sem mexer minha cabeça, tentei olhar para trás dele. — É uma menina — murmurei. Joshua soltou sua mão da minha, dando uma leve apertada nos meus dedos antes de se virar para a nossa invasora. Ele abaixou a janela do motorista e então deu risada. — Como posso ajudar, minha irmã? — perguntou para a invasora. — Para começar, você poderia parar de me fazer passar vergonha — esbravejou a garota. Era Jillian, claro. Eu me inclinei à direita para tentar vê-la melhor, mas só consegui ver suas mãozinhas irritadas firmes em sua cintura fina. — Ah, perdão, Jillian — respondeu Joshua, fingindo estar horrorizado. — Sério. Você sabe que a sua popularidade é a coisa mais importante da minha vida. — Para de me encher, Josh — rebateu Jillian. — Como se já não bastasse você ter vindo para a escola feito um mendigo, agora você ainda quer passar o almoço falando sozinho dentro do carro? — Eu estava treinando para aula de debate. Ela bufou com desdém. — Você nem faz aula de debate. E enfim, você não almoça sozinho desde... nunca. Então as pessoas estão começando a comentar. — E por que eu me importaria...? As mãozinhas de Jillian voaram para o alto e se juntaram como se ela fosse rezar.

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— Porque sua irmã mais nova quer ser a rainha da escola na festa de formatura mais do que tudo na vida, e ela nunca vai conseguir isso se você não conquistar alguns votos para ela! Joshua soltou um grunhido e se acomodou no banco. Sem se deixar abalar, Jillian se abaixou para enfiar a cabeça dentro do carro pela janela aberta. Ela não perdeu sua carinha nojenta de sempre nem quando forçou seus lábios para fazer um biquinho pidão. Para a sorte dela, Joshua acabou cedendo. Ao ver aquele rostinho triste, ele soltou uma risada genuína. Jillian riu também, e seu rosto todo mudou. Seus traços fortes se suavizaram, e seus olhos castanhos brilharam. Ela era linda quando sorria. — Tudo bem — aceitou Joshua. — Vou me socializar. Mas só porque seu futuro depende disso. Jillian bufou mais uma vez, mas percebeu que seria melhor não continuar brigando. Ela se endireitou, pôs as mãos na cintura de novo e ficou esperando enquanto Joshua fechava a janela. Assim que fechou a janela, Joshua se virou de volta para mim. — Você vem para a aula? — sussurrou. Hesitei por um instante e então sussurrei de volta: — Bom, alguém precisa impedir que você bombe em cálculo. Joshua abriu sua porta e desceu do carro, empurrou Jillian para passar e veio até o meu lado. Com uma rápida olhada para sua irmã, talvez para ver se ela estava prestando atenção, Joshua abriu minha porta e se abaixou para pegar sua mochila aos meus pés. Eu então levantei e me espremi para sair pelo estreito espaço entre seu corpo e a porta, tomando cuidado para não encostar nele. Pelo visto, ele não sentiu a necessidade de ser tão cuidadoso comigo quanto eu estava sendo com ele. Enquanto eu passava, Joshua roçou seus dedos de leve pela minha panturrilha. Uma onda instantânea de calor se espalhou pela parte de trás da minha perna. — Ei! — gritei. Ouvi Joshua dar uma risadinha enquanto fechava a porta atrás de mim. Comecei a olhar feio para ele, ou pelo menos tentei, quando Jilliannos interrompeu de novo. — Joshua, que barulho foi esse? Joshua ficou paralisado, com uma das mãos ainda na maçaneta da porta. Com todo cuidado, eu me virei devagar para trás até conseguir ver o rosto de Jillian por cima do carro. Ela parecia séria agora, com uma expressão confusa repuxando os cantos de sua boca. 100


— Você está falando da minha risada? — perguntou Joshua. — Não, foi alguma coisa mais aguda. Tipo uma voz de menina. Joshua e eu nos espantamos, mas ele se recuperou mais rápido. — Será que não foi só alguém chamando você lá do gramado? — sugeriu. Ela balançou a cabeça, com uma ruga insistente se formando entre suas sobrancelhas. — Não, Joshua, foi bem aqui. Do lado do carro. — Tá, tudo bem — Joshua ergueu suas mãos e deu uma risada nervosa e defensiva. — Mas olha, você sabe que meninas que ouvem vozes nunca são eleitas para rainha da escola, né? A expressão de Jillian se suavizou. Pelo visto, a ideia de parecer louca era mais assustadora para ela do que uma voz misteriosa. Ela balançou a cabeça de novo, talvez para afastar seja lá o que ela tinha imaginado ouvir, e abriu um sorriso. — Sei lá... talvez ser psicótica esteja na moda daqui dois anos. — Vamos torcer então, para o seu bem. Jillian revirou os olhos e apontou com o dedão para a escola. — Vá lá se socializar, Josh. Agora. Ele a respondeu com um aceno de desdém, mas Jillian parecia já estar calma o bastante para voltar até o gramado em frente à escola. Assim que ela se afastou o bastante, me virei para Joshua. — Uma voz de menina? — sussurrei. — Será que ela me ouviu? As sobrancelhas de Joshua se juntaram com um ar pensativo. Depois de ver sua irmã se afastar um pouco mais, ele virou os olhos para mim e disse, “ela também?”, só com os lábios. — Talvez — disse eu, também seguindo a figura de Jillian enquanto ela caminhava de volta até um grupo de meninas no gramado. Antes de se misturar às outras, Jillian deu uma última olhada por cima do ombro para o irmão. Ela parecia brava, mas também intrigada — como se não soubesse direito o que tinha acabado de ouvir. — Talvez sim, talvez não — sussurrou Joshua, e então pendurou sua mochila no ombro. — Vamos para a aula? Acenei a cabeça e então o segui de perto pelo estacionamento, mordiscando meu lábio inferior. Eu não conseguia esquecer aquela cara confusa e intrigada de Jillian. Quais seriam as implicações se ela também pudesse perceber minha presença? Eu adorava isso em Joshua, mas não precisava de uma nova Ruth para me atrapalhar — não agora. 101


Estava tão perdida entre os meus pensamentos que quase não percebi algo passando bem do meu lado. Só tive o tempo de gritar, “Joshua!”, antes de uma coisa grande e barulhenta o acertar pelas costas. Levei um segundo para perceber que essa figura desembestada era o garoto ruivo e gordinho da aula de cálculo de Joshua, o que disse que ele deveria ter matado a última aula ontem também. Agora pude ver que ele na verdade não tinha trombado com Joshua, apenas posto um de seus braços grossos em volta do pescoço de Joshua enquanto o puxava com um mataleão de brincadeira. — Fala aí, cara! Sempre soube que você era um gênio, mas poxa! Sua jogada na aula da Wolters ontem foi épica! Joshua tentou rir, mas seu riso saiu parecendo mais um engasgo. Com o rosto já meio rosado, Joshua começou a dar tapinhas no braço do outro garoto. — O’Reilly, meu velho, vamos soltar esse braço. — Ah... — com uma velocidade surpreendente, esse garoto, O’Reilly, soltou Joshua e lhe deu alguns tapinhas meio sem jeito nas costas. — Mal aí, cara. — Relaxe — bufou Joshua com a voz rouca. — Mas e aí... — disse O’Reilly enquanto pegava a mochila que ele tinha derrubado do ombro de Joshua. — Você ainda vai ficar preso lá na biblioteca na sétima aula? — Sim, o médico disse que eu só vou poder voltar a treinar lá pelo Natal. Pelo problema que me deu no coração, sabe? — Claro... porque você, tipo, morreu, né? As palavras de O’Reilly poderiam até ter sido ofensivas se não fossem tão ingênuas. Quando ele entregou a mochila de volta para Joshua, seus olhos castanhos estavam arregalados, cheios só de uma grande preocupação com seu amigo. Gostei dele na mesma hora. — Pois é. Porque eu morri. — Joshua riu e me deu uma olhadinha de lado antes de continuar. — Mas relaxe... já vou ter melhorado até a temporada de beisebol. — É bom mesmo, cara. Preciso do meu campista central em forma. Se você der para trás, eu mesmo vou jogar você de volta naquele rio, hein? — Ah, claro, com um jogador morto e outro preso por homicídio, aí sim a gente vai ganhar o campeonato regional! — disse alguém.

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Essa voz suave e estranha me surpreendeu, olhei para trás do corpo imenso de O’Reilly à procura de sua origem. Parado logo ali, estava o outro menino que eu tinha visto ontem na aula da senhora Wolters. Esse segundo garoto tinha mais ou menos a mesma altura e constituição de Joshua, mas tinha cabelos loiros bagunçados e olhos castanho-escuros. Quando O’Reilly se inclinou para um soquinho em seu ombro, ele apenas sorriu e curvou o corpo à frente para se defender. Esse gesto o deu um ar tímido, e me afeiçoei por ele na mesma hora também. Joshua se virou para o garoto, erguendo uma das mãos para cumprimentá-lo. — E aí, Scott, meu velho, como é que vai? Scott abriu um sorriso ainda maior. — Tudo tranquilo, Mayhew. Como você está hoje? — Ótimo. Melhor do que nunca. — Não tenho certeza, mas acho que vi a mão livre de Joshua apontar um pouco para mim. — Legal, cara — disse Scott, acenando a cabeça. Como se a declaração de Joshua sobre sua saúde fosse algum tipo de código secreto, os três saíram andando juntos pelo gramado sem dizer mais nada. Então os segui, meio intrigada com a conversa. Nós já estávamos quase na porta da classe da senhora Wolters quando risadinhas irromperam atrás de nós. Na mesma hora, O’Reilly e Scott pararam de andar e se viraram. Joshua, no entanto, soltou um suspiro pesaroso antes de fazer o mesmo. Eu me virei também e vi um grupo de meninas adolescentes amontoadas, todas usando suas blusinhas com a barriga de fora e saias de cheerleader. No meio delas, estava Jillian, cercada pelo que parecia ser seu grupo de amigas. Mas ao contrário das outras, ela parecia estar emburrada. De repente, fiquei com a impressão de que ela tinha vindo ali forçada pelas outras. — Oi, meninas — disse O’Reilly para elas, erguendo as sobrancelhas para fazer charme. Infelizmente, elas o ignoraram por completo e só deram atenção a uma única coisa: o belo garoto de cabelos escuros ao meu lado. — Não vai faltar hoje, Josh? — disse uma das meninas atrás das outras. Ao mesmo tempo, todas elas começaram a remexer seus cílios e jogar seus cabelos de um lado para o outro. Joshua inclinou a cabeça de lado e sorriu. — Hoje não. Decidi agraciar todo mundo aqui com a minha presença.

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Jillian bufou e, como sempre, revirou os olhos. Mas a maioria das suas amigas claramente não compartilhava de seu desdém; todas deram risadinhas como se Joshua tivesse feito a piada mais hilária do mundo. Algumas até ficaram com seus trejeitos mais agitados, como passarinhos exibidos em algum bizarro ritual de acasalamento. Alheia à irritação no rosto de Jillian, e no meu também, uma menina se desgarrou do bando. Assim que se afastou das outras, ela ergueu os ombros, que ainda ficaram vários centímetros abaixo dos meus, e abriu um sorriso reluzente para Joshua. — Josh... — ronronou ela com uma voz rouca e mais forte do que eu esperava. Como suas amigas, ela não parava de jogar uma mecha loira de cabelo de um lado para o outro. Mas nela, esse gesto parecia bem menos infantil, e seus olhos azuis-claros tinham um brilho de malícia. — Pode me falar... aJillian está pegando no seu pé de novo? — Bom, ela está tentando. Para o meu imenso alívio, Joshua disse isso olhando para Jillian, e não para a sua amiga bonitinha. A garota, no entanto, não se abalou. Ela veio para frente, abandonando as outras sem nem olhar para trás. — Se precisar de alguém para proteger você dessa chata, é só me avisar. — Suas palavras saíram encharcadas de segundas intenções e enfatizadas pelo jeito sugestivo como ela estava se inclinando na direção de Joshua. Quando ele se esquivou para escapar dela, senti uma estranha mistura de emoções. Primeiro, quis pular nos braços de Joshua e enchê-lo de beijos em agradecimento — uma recompensa pelo seu aparente desinteresse por ela. Depois, fiquei querendo ser concreta o bastante para me jogar em cima dessa fulaninha e arrancar seus belos cabelinhos. Balancei a cabeça, chocada comigo mesma. Que tipo de pessoa eu era para pensar uma coisa tão horrível assim? Esse impulso me deixou inquieta e me relembrou dos meus medos sobre minha verdadeira natureza. A natureza que Eli insistia tanto em dizer que me condenaria. Por sorte, Joshua balançou sua cabeça também em resposta à oferta da garota. — Obrigado, Kaylen — disse ele. — Mas já tenho meus próprios guarda-costas. Ele apontou para O’Reilly e então para Scott. Os garotos, no entanto, não pareciam estar lá muito interessados no cargo. Pelo visto, eles adorariam deixar que aquela menina os protegesse seja lá como fosse. 104


Kaylen apenas encolheu os ombros. — Você que sabe — disse ela com um sorriso, sem se afastar nenhum centímetro de Joshua. Jillian soltou um suspiro e revirou os olhos de novo, mal tentando esconder sua irritação. — Vamos embora, Kaylen. Por fim, depois de mais alguns suspiros e olhares maliciosos, elas saíram andando. Kaylen, é claro, pareceu ser a mais relutante de todas. Ela continuou olhando para trás na direção dos garotos, assim como Jillian, por mais que eu pudesse jurar que seus olhos na verdade estavam voltados para o lugar onde eu estava. Mesmo me sentindo meio boba por fazer isso, me escondi atrás de O’Reilly até Jillian sumir de vista. Assim que as meninas foram embora, O’Reilly e Scott soltaram fôlegos pesados que pelo visto estavam segurando durante toda a ceninha de Kaylen. — Cara, a KaylenPatton é uma gata — disse O’Reilly com um tom quase de adoração. Hesitante, me virei para ver se Joshua também iria proclamar sua própria reverência a ela. Sem tirar os olhos dos meus, Joshua encolheu os ombros. — Já vi coisa melhor por aí, caras. Muito melhor. Feito uma idiota, soltei uma risadinha e agarrei a borda do meu vestido para conter o impulso de erguer a mão e jogar meu cabelo de lado também. Eu me sentei na borda da carteira de Joshua, tentando não distraí-lo de uma aula especialmente chata sobre números inteiros. Pouco depois, a senhora Wolters deu um tempo para todos estudarem. Quase na mesma hora que a sala ficou em silêncio, Joshua me passou um bilhete por cima da mesa. Em um pedaço de uma folha de caderno, ele tinha escrito com letras grandes e bonitas: Tenho um plano genial. Quer saber qual é? Dei risada, mas por impulso tapei minha boca para abafar o som. Sem nem olhar para mim, Joshua abriu um sorriso e escreveu na margem do papel: Você sabe que ninguém consegue te ouvir, né? — Não tenha tanta certeza — sussurrei, me lembrando da expressão de Jillian na hora do almoço. Mas depois balancei a cabeça para dispersar meu próprio ridículo e, com uma voz mais alta, disse: — Tá, tudo bem. Qual é o seu plano genial? 105


Joshua arrancou outra página de seu caderno e começou a escrever sem parar. Assim que terminou, ele empurrou o papel para mim e então fingiu voltar sua atenção para o livro de cálculo, mas continuou concentrado em mim pelo canto do olho enquanto eu lia. Tudo bem, — dizia seu bilhete — meu plano tem a ver com uma teoria que bolei ontem à noite. A gente sabe que você morreu no rio, e você ainda está por aqui. Então talvez você seja desta área. Você disse que se lembrava destes prédios, não foi? Talvez você até já tenha sido matriculada aqui, antes ou depois de estudar em casa. Então pensei o seguinte: minha sala de estudos fica na biblioteca, onde estão os anuários antigos. A gente pode dar uma olhada em um por um, começando pelos mais novos, e ver se consegue encontrar sua foto. Ao ler essas últimas palavras, tive uma sensação muito estranha, como se estivesse perdendo o chão. — Mas você não tem que, sei lá, estudar na sala de estudos? Joshua olhou diretamente para mim por um instante e então voltou a escrever. Você acha má ideia? Parei para pensar um pouco. O que tinha me assustado tanto naquela sugestão? Afinal, isso poderia revelar algum fragmento de informação sobre minha vida. Poderia me trazer respostas para tantas das perguntas que vinham me atormentando nesses últimos dias. Quem eu havia sido? Quem eu poderia me tornar? Alguma coisa que talvez pudesse combater o que Eli e Ruth tinham visto em mim. Mas esse era o problema também. Porque assim que eu soubesse de tudo isso, assim que eu juntasse as peças faltantes do quebra-cabeça da minha identidade, eu me tornaria real. Eu passaria a ser uma pessoa real, com uma história real. Uma história que tinha chegado ao fim. Talvez fosse justamente por isso que eu nunca tinha tentado encontrar minha lápide naquele cemitério. Porque com essas informações, eu finalmente saberia, em vez de apenas intuir, com toda a certeza que eu estava morta. E Joshua perceberia isso também. Essa era uma situação para a qual eu não sabia muito bem se nenhum de nós estava realmente preparado. — Joshua — arrisquei com a voz baixa. — Você acredita... ou melhor, você sabe que estou morta, né? Que não estou viva? E que nunca vou voltar à vida?

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Enquanto olhava para mim, todo aquele bom humor e o ar tranquilo e confiante de seu rosto se esvaíram. Sua expressão se atenuou, com um jeito ao mesmo tempo triste e carinhoso. Ele acenou a cabeça para mim bem devagar. Continuei olhando para ele. Eu não tinha a menor ideia do que fazer agora. Com meus dentes cravados na pele macia do meu lábio, repuxei minha boca de lado, frustrada. Por sua vez, Joshua me abriu um leve sorriso de lábios fechados. Eu não estava imaginando a esperança que vi naquele sorriso, no qual quase pude ler seus pensamentos: sim, ele sabia que eu estava morta, mas ainda esperava que isso pudesse não ser um problema. Ou talvez ele achasse que poderia encontrar alguma solução para mim. Para nós. Aquela dor incapacitante ardeu no meu peito de novo. Ela me disse, da forma mais silenciosa possível, o que eu deveria fazer agora. O que eu sabia que sempre deveria fazer toda vez que Joshua me sugerisse alguma coisa assustadora ou inesperada. Soltei um suspiro pesado. — Tudo bem. Vamos para a biblioteca. Vamos tentar encontrar minha foto. Agora foi a vez de Joshua franzir a testa. “Certeza?”, disse só com os lábios. Comecei a responder, “Não, não sei se quero saber quem sou”. Mas então preferi não ser totalmente sincera, e revelei apenas uma parte do que estava se passando pela minha cabeça. — Enquanto você estiver comigo, não tenho o que temer.

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Catorze Depois

que a aula da senhora Wolters acabou e os outros alunos

foram para suas próximas matérias, Joshua e eu atravessamos o gramado vazio atrás da escola. Durante o caminho, Joshua não parou de resvalar sua mão na minha, disparando arrepios que subiam e desciam pelo meu braço. Apesar do meu entusiasmo pelo contato, fui andando sem pressa de propósito até o prédio principal da escola, sabendo que atrás daquela porta, ficava a biblioteca. — Olha... — disse Joshua, interrompendo meus pensamentos. — A gente não precisa fazer isso se você não quiser. Ele não alterou sua expressão, com um ar calmo. Mas eu sabia que não era bem assim. Eu só conhecia Joshua há três dias, mas já o entendia bem o bastante para conseguir perceber o tom de hesitação em sua voz. Eu podia ver todos os seus pensamentos dançando em seus olhos: ao contrário de mim, ele queria ir até a biblioteca. Ele queria aquela empolgação de descobrir alguma coisa nova sobre mim, de remontar meu passado junto comigo. E ele tinha razão em querer isso, eu sabia muito bem. Na noite passada, depois de falar com Eli, percebi que a minha verdadeira ―natureza‖ — o tipo de pessoa que fui, tanto antes quanto depois de morrer — tinha um papel crucial na definição de como eu iria passar meu pós-vida. Então eu precisava descobrir tudo o que fosse possível sobre mim mesma antes de trombar com Eli ou Ruth de novo. Na verdade, para ser bem sincera, eu sabia bem o quanto essa nossa missão era essencial. Mas também não é só por isso que eu iria me empolgar tanto quanto Joshua, claro. Enquanto ele andava ao meu lado, eu o vi todo inquieto, animado com a nossa missão. O brilho em seus olhos e a alegria com que ele balançava os braços contrastavam com a minha própria aparência, que devia estar emanando um ar mais funesto. 108


Apesar do meu incômodo, foi difícil não me sentir um pouco lisonjeada pelo comportamento de Joshua. Reprimi um suspiro antes de estampar um sorriso alegre no meu rosto. — Não, Joshua, estou pronta. Vamos lá. Acho que ele estava empolgado demais para perceber a tensão na minha voz, porque pareceu ficar totalmente satisfeito com a minha péssima mentira. Com o rosto inteiro iluminado, ele parou de andar e então chegou mais perto de mim. — Sério? Porque eu tive outra ideia. Se o lance dos anuários der certo, sabe? — Ah, é? Que ideia? — Bom, digamos que a gente ache a sua foto. Nesse caso, também vamos descobrir o seu sobrenome. Aí a gente só precisa procurar na lista telefônica para encontrar sua família. Não é como se Wilburton fosse uma cidade muito grande. Se não for nada muito comum, as chances de alguém com o mesmo sobrenome ser seu parente são bem altas, certo? Quando ele terminou sua fala empolgada, engoli seco. Essa ideia dava outra dimensão aos nossos planos para aquela tarde — um novo nível de nervosismo e medo. — Vamos... hã... vamos dar um passo de cada vez, tá? — soltei uma risada trêmula. — Claro. Claro, você tem razão. Um passo de cada vez. Ele não conseguiu me enganar de novo. Apesar de parecer estar falando sério, ele franziu a testa enquanto acenava a cabeça, com seus olhos ainda brilhando, contente com sua nova ideia. Nem tentei esconder meu suspiro dessa vez enquanto ele se apressava em direção à porta. Entramos na escola e cruzamos os corredores — que me pareciam bem familiares, como já havia acontecido com os prédios por fora antes — antes de chegarmos a uma porta dupla. Pelas suas janelas de vidro, avistei fileiras e mais fileiras de estantes cheias de livros. Agarrei a borda da minha saia e comecei a revirar o tecido loucamente. Com uma das mãos encostada na porta, Joshua olhou para mim. Mesmo parecendo estar um pouco menos empolgado agora, sua expressão continuava determinada. Querendo ou não, ele iria entrar naquela sala. — Pronta? — perguntou. Não. — Claro — gemi em voz alta.

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Ele acenou a cabeça e empurrou uma das portas. Tentei limpar a garganta com vergonha do meu gemido idiota e me recompus um pouco, e então o segui biblioteca adentro. A recepção tinha uma mesa comprida na entrada, toda coberta de livros devolvidos e vários cartazes motivacionais colados em volta. Um deles dizia VOCÊ CONSEGUE!,o que me deixou com um olhar de raiva na cara. Joshua andou determinado até os fundos da biblioteca, e eu o segui logo atrás enquanto ele trançava em meio às fileiras de estantes. Por fim, Joshua parou entre a última estante e a parede de trás da biblioteca. Nós estávamos na seção de referência a julgar pela grande quantidade de volumes esquecidos de dicionários e enciclopédias ali. Sem dar atenção a isso, Joshua se concentrou em algumas prateleiras mais baixas. Ele se agachou e então começou a passar seu indicador por uma longa fileira de livros finos, todos com capas pretas ou roxas. Estremeci. Eram anuários. Pouco depois, Joshua pareceu encontrar os livros que estávamos procurando. Começou a puxar vários deles, lendo suas lombadas antes de colocá-los de volta no lugar ou guardá-los na dobra do outro braço. Quando por fim se levantou, ele estava com uns dez anuários do Colégio Wilburton. Eu me inclinei de lado para ler suas lombadas. Impressas ali com tons diferentes de tinta metalizada, estavam várias datas, indo dos anos 1990 até o meio dos anos 2000. Eu me endireitei de volta e olhei para Joshua, aterrorizada. Joshua, no entanto, parecia estar muito sério enquanto carregava a pilha de anuários até uma mesa. Ele separou os livros em duas pilhas, puxou uma cadeira para mim e então se sentou em outra. Eu me acomodei na minha e juntei as mãos em cima do colo, sem saber direito o que fazer. Ele empurrou uma das pilhas para perto de mim e depois puxou a outra. Ele abriu o primeiro anuário da sua pilha e folheou as páginas até chegar à primeira delas com as fotos dos alunos. Pondo o dedo na página, ele começou a analisar os pequenos retratos, comparando cada rosto com o nome correspondente impresso perto das margens. Depois de alguns minutos assim, dei uma tossida. Ele olhou para mim, ainda franzindo a testa, todo concentrado. E então enrugou ainda mais o cenho e inclinou a cabeça de lado. — Por que você não está procurando nos seus livros? — sussurrou. Respondi com minha voz normal, por mais que minhas palavras estivessem saindo encharcadas de vergonha. 110


— Porque eu não consigo abrir os livros, Joshua. — Hã? Olhei para baixo e comecei a cutucar meu vestido com uma unha. — Já te falei... você é a única coisa no mundo dos vivos que consigo sentir ou tocar. Não consigo nem abrir portas, lembra? Então como é que eu vou folhear um livro? Encolhi os ombros, tímida, mas Joshua pôs um dedo embaixo do meu queixo e ergueu minha cabeça, segurando-a para me olhar nos olhos. Quando o vi, ele ainda estava franzindo a testa. — Ah — Joshua agora parecia envergonhado também. — Acho que só não pensei direito. Desculpe. Encolhi os ombros de novo, desta vez abrindo um leve sorriso. — Não tem problema. Ele balançou a cabeça, sem se deixar enganar, mas voltou ao anuário sem dizer mais nada. Ele empurrou o livro para mais perto de mim sobre a mesa e se inclinou enquanto virava as páginas, claramente querendo que eu procurasse junto com ele. Dei uma risadinha. Pelo visto, nem as minhas deficiências causadas pela morte me livrariam de investigar aqueles anuários com ele. Ficamos sentados lá, vendo página após página de livro após livro, mas sempre em vão. Nós fomos pegando os livros aleatoriamente, indo e voltando entre os anos 2000 e 1990. Nem me dei o trabalho de comentar o quanto esse processo era pouco eficiente com Joshua, porque cada virada de página fazia meu estômago se revirar de nervosismo. Em um dado momento, Joshua olhou para o relógio com um ar impaciente. Já eram quase 2h40, faltando só quinze minutos para o fim das aulas. Enquanto ele fazia isso, pude ver uma emoção tomar seu rosto por inteiro: frustração com o aparente fracasso de seu plano genial. Ele pegou um dos últimos livros da pilha, já com menos cuidado do que os outros, e o jogou em cima da mesa, aberto na primeira página. Foi então que aconteceu. Essa primeira página era igual a de todos os outros anuários. Ela tinha um desenho de um homem com uma cartola (o mascote da escola, ao que parecia) e os anos 1998 e 1999. Nada fora do comum. A segunda página, no entanto, era bem diferente. Essa página tinha uma foto colorida grande de uma menina. Embaixo dessa foto, havia uma legenda, onde estava escrito:

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Em carinhosa memória a Amélia Elizabeth Ashley 30/04/1981 — 30/04/1999 Parei de respirar. E depois comecei a engasgar. Eu me levantei com um pulo. A cadeira onde eu estava sentada voou para trás com um rangido alto antes de se estatelar contra a parede da biblioteca. Minha cabeça se virou na direção desse som. Fiquei olhando para a cadeira, boquiaberta. Ela me parecia bem comum — com um assento de plástico vermelho sobre pernas finas de metal. Era só uma cadeira velha qualquer. Mas aquela também era a primeira coisa do mundo dos vivos, depois de Joshua, em que eu tinha conseguido tocar desde a minha morte. Só de pensar na minha morte, já desviei meus olhos de volta para a foto no anuário. Para a menina naquela página, e seu nome logo abaixo. A cadeira teria que esperar. Aquela imagem me deixou apavorada. O que eu mais queria no mundo era conseguir desviar meus olhos dela. Mas estava hipnotizada. Vi aquela menina na foto me encarando com um sorriso minúsculo nos lábios. Um sorriso que se curvava só um pouco nos cantos; uma expressão contente, mas hesitante, como se ela tivesse ouvido alguma coisa engraçada, mas não soubesse bem se podia rir. Seus olhos — de um tom verde-floresta brilhante que combinava com seu vestido — reluziam de alegria. Seus cabelos castanhos e ondulados desciam até abaixo dos ombros, emoldurando seu rosto fino e oval marcado por um leve rubor que não conseguia esconder as sardinhas que se espalhavam pelas suas bochechas e na ponta do nariz. Ela parecia ser tímida e meiga, mas também intensa. E cheia de vida. Uma gota caiu do meu queixo em cima da página, formando uma manchinha escura redonda no pescoço da menina. Limpei a bochecha com a mão, percebendo por reflexo que aquilo tinha sido uma lágrima — uma lágrima minha. — Sou eu nessa foto, não é? Não consegui olhar para Joshua, nem tirar meus olhos da foto enquanto falava. Só sussurrei, como se algum som muito alto pudesse desfazer aquele feitiço que havia caído sobre nós. O silêncio foi tudo o que eu tive como resposta. Até que então... — Eu disse que você era linda.

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Eu me virei para aquela voz tão gentil. Na verdade, só minha cabeça se mexeu, porque meu corpo parecia estar ancorado junto à mesa. Só então percebi que estava segurando na borda da mesa com as duas mãos, com meus dedos brancos de tanta pressão contra a madeira. Sob minhas digitais, pude sentir a superfície lisa da madeira rompendo a barreira da minha dormência. Essa sensação física repentina não me surpreendeu nem um pouco; na verdade, estava até chocada por não ter despedaçado aquela mesa com a minha força. Mas eu não era a única em choque por ali. Joshua estava me encarando; alegria, descrença e mais um punhado de outras emoções passaram pelo seu rosto. Mas por mais drásticas que fossem as suas mudanças de expressão, todas me diziam a mesma coisa. Ele sabia. Acima de qualquer dúvida, de qualquer desejo, de qualquer esperança. Ele sabia que eu era Amélia Elizabeth Ashley. E que estava morta. Eu não disse nada. Não consegui. Joshua se levantou lentamente da cadeira. Ergueu suas mãos em frente ao corpo em um gesto de rendição. Isso me lembrou do jeito como ele tinha se aproximado de mim três dias atrás, na Estrada Ponte Alta. Como se ele esperasse que eu fosse sair correndo a qualquer segundo. Ainda se movendo com todo cuidado, Joshua pôs suas mãos de cada lado do meu rosto, mas sem tocar em mim. Olhou bem nos meus olhos e ergueu suas sobrancelhas, me alertando sobre o seu próximo movimento, ou talvez pedindo minha permissão para isso. Mesmo sem eu dizer nada, ele deve ter entendido algum consentimento da minha parte. Ele pôs as mãos nas minhas bochechas, pegando meu rosto com carinho. Fiquei completamente parada, mesmo quando comecei a sentir como se suas mãos fossem deixar marcas de queimadura na minha pele. Joshua chegou mais perto e, bem de levezinho, encostou seus lábios na minha testa, logo acima das minhas sobrancelhas. Seu beijo disparou uma descarga elétrica pelo meu corpo inteiro. Foi a coisa mais intensa que eu já havia sentido até então — uma violenta onda de choque que percorreu minha espinha e todos os meus membros. Fiquei boquiaberta com a força de tudo aquilo e puxei um fôlego que quase pareceu um grito. Reagindo a esse som, Joshua tentou afastar seu rosto para ver se eu estava bem, mas agarrei suas mãos com as minhas, segurando-as sobre

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minhas bochechas. Fechei os olhos e tentei acalmar meu fôlego errático. Balancei a cabeça, balbuciando, “não”, pedindo para ele não se mexer. Ele me atendeu e ficou junto a mim, segurando um lado do meu rosto com sua mão esquerda enquanto acariciava minha bochecha com os dedos da direita. Por fim, minha respiração começou a desacelerar, saindo um pouco menos frenética do que antes. Após alguns segundos, soltei suas mãos e acenei a cabeça para deixar claro que já estava melhor. Bom, longe de estar bem. Mas melhor. Joshua passou seus dedos pela minha bochecha uma última vez e então abaixou suas mãos. Senti seu corpo se afastando do meu, mesmo sem abrir os olhos. Pude ouvi-lo mexendo em alguma coisa um pouco atrás de mim. Bem devagar, abri um olho, depois o outro. Virei minha cabeça para espiar minha foto, que continuava a me encarar com toda inocência em cima da mesa. Eu ainda estava olhando para a foto quando Joshua chegou por trás de mim e pôs uma coisa na mesa ao lado da minha foto. Era uma lista telefônica. — Para achar os Ashleys? — minha voz saiu rouca e fraca, como se eu estivesse há horas sem usá-la, em vez de apenas alguns poucos instantes. — Só se você quiser — sussurrou Joshua. — Pode abrir — disse eu, sem tirar os olhos da mesa. Joshua passou por mim e se apoiou em cima da mesa. Ele foi virando as páginas fininhas da lista até chegar àquela que queria. Ele desceu com o dedo pela lista de nomes com A e então parou, deixando seu indicador no meio da página. Eu me inclinei por cima de seu ombro para ver o que ele estava me mostrando. Sobre seu dedo, uma linha chamou minha atenção. Junto a um número de telefone e um endereço, havia um nome. Um nome muito familiar. Ashley, E. Fiquei olhando para aquela linha por uma eternidade. Fiquei olhando para ela até o sinal tocar, marcando o fim das aulas. Fiquei olhando para ela enquanto os outros alunos pegavam suas coisas e deixavam Joshua e eu sozinhos no fundo da biblioteca. Por fim, consegui me mexer. — E. Ashley... essa deve ser a minha mãe, Elizabeth. Não sei por que a inicial do meu pai não está aí também. O nome dele é Todd. Todd Ashley. Minha voz saiu seca, sem emoção alguma. Ainda assim, comecei a tremer um pouco. 114


A imagem daquele nome impresso sem seu devido par dançou pela minha cabeça. E então, em meio a esses nomes, começaram a surgir lampejos de outras imagens mais borradas. Os rostos daqueles nomes. Os rostos da minha família. Rostos esquecidos. Perdidos há tanto tempo. Ainda assim, como meus lampejos de memória, aqui estavam — ganhando formas e cores de novo na minha mente. Pus os braços em volta do meu corpo, me abraçando com força. Joshua chegou mais perto, quase tocando em mim, mas sem encostar. Ficamos assim por algum tempo — podem ter sido tanto dez minutos, quanto dez horas — até eu, de repente, começar a me sentir... mais leve. E com essa leveza, veio uma estranhíssima, quase inexplicável, onda de alívio. Não sei como isso foi possível, mas Joshua pareceu sentir essa mudança em mim. Dessa vez, foi ele quem quebrou o silêncio. — Então, Amélia Elizabeth Ashley — disse baixinho. Com cuidado. — Você quer rever sua família... hoje? Minha resposta sussurrada me chocou, especialmente por ser a verdade. — Sim. Quero sim.

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Quize Joshua disse que a gente levaria pelo menos vinte minutos para ir da escola até o primeiro endereço que ele tinha anotado em uma folha de seu caderno. Pegou um celular minúsculo. (Eu já devia ter visto celulares antes quando era viva, tenho certeza, mas nenhum que coubesse na palma da mão de alguém assim.) Com esse aparelhinho quase invisível, ligou para a mãe dele e avisou que chegaria tarde em casa. Resolvido isso, Joshua ligou o carro e seguiu viagem em silêncio, olhando com um ar preocupado para mim de vez em quando. Tenho certeza de que ele percebeu que eu estava perdida demais nos meus próprios pensamentos para dizer qualquer coisa. Mas na verdade, o que eu tinha na cabeça não eram bem pensamentos, mas sim lembranças de imagens e sons, meros acompanhamentos para as nebulosas memórias há tanto tempo enterradas da minha família. Memórias de pessoas que tinham desaparecido por completo da minha mente até uma hora atrás. Pessoas que eu veria, pela primeira vez após mais de uma década, dentro de alguns minutos. Primeiro, para a minha angústia, vi o rosto do meu pai. Uma névoa estranha nublava grande parte da memória, obscurecendo o cenário e as outras pessoas à sua volta. Mas no centro dessa cena, nitidamente, sem dúvida alguma, estava meu pai. Pude ver seus olhos verdes enrugados nos cantos enquanto ele passava uma das mãos pelos seus cabelos loiros já rareando na cabeça. Em seguida, a imagem passou a ser de uma mulher. Minha mãe. Ela estava sentada em uma poltrona velha, a que ficava na nossa sala de estar talvez, olhando para o meu pai. Não, não era bem para o meu pai, e sim para o pequeno copo com um líquido cor de âmbar em sua mão. O papai gostava de beber no Natal, coisa que minha mãe não aprovava. Pouco depois, essas imagens se borraram junto à paisagem que passava voando pelas janelas do carro. Isso começou a me deixar tonta, enjoada. Foi uma sensação estranha, levando em conta que fantasmas não 116


conseguem passar mal. Eu me inclinei um pouco para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos e esfregando as têmporas com as pontas dos dedos. — Amélia? Tudo bem? Sem tirar as mãos da cabeça, olhei para Joshua entre meus dedos. Enquanto tentava se focar na estrada, ele também não parava de olhar de lado para mim com uma cara preocupada, tomando cuidado para não cair com o carro em algum barranco. Soltei um suspiro e me encostei de volta no meu banco. — Não, não estou bem, não — respondi com um sorriso fraco. — Só não paro de... lembrar das coisas. De pessoas, na verdade. Da minha família. Então estou apavorada, é claro. — Pois é, também estou um pouco. Franzi a testa. Joshua tinha me parecido muito confiante até então — confiante de que tentar descobrir meu nome e encontrar minha família tinha sido a escolha certa. Mas agora, sua confiança parecia abalada. — Por que você estaria com medo, Joshua? — Bom, acho que estou mais nervoso na verdade — disse. — Por você. Acenei a cabeça, rindo baixinho. — Você ficaria bravo se eu dissesse que fico feliz por ouvir isso? Joshua deu risada também. — Nem um pouco. A gente meio que está nisso tudo juntos, não é? — Acho que sim — disse eu, abrindo um leve sorriso. — Mas então... — continuou Joshua. — Você quer conversar? Sei lá, só para a gente se distrair. Pode até ser sobre coisas sérias, se você quiser. Pensei sobre sua sugestão. Na verdade, seria bom mesmo me distrair um pouco das minhas memórias. Nem que fosse falando sobre essas próprias lembranças. Pelo menos não estaria tendo que lidar sozinha com isso dentro da minha cabeça. — Sim — disse eu. — Acho que é uma boa ideia. Joshua acenou a cabeça. Ele me lançou um rápido olhar preocupado, como quando quis me perguntar uma coisa, mas não sabia se isso poderia me ofender. — O que está passando nessa sua cabeça, senhor Mayhew? — disse, tentando esconder a tensão e o nervosismo na minha voz com um tom de brincadeira. — Bom, eu só estava pensando no quanto isso é meio chato. — O que é chato? — perguntei, sorrindo. — Você ter morrido no seu aniversário. 117


Meu sorriso se esvaiu. — Ah, isso. Joshua respondeu apenas erguendo uma sobrancelha. Percebi pela sua expressão que ele não estava querendo me pressionar a dizer nada. Ele só não sabia mesmo o que dizer. — Bom, parece — disse eu, sem esperar que Joshua encontrasse suas próximas palavras. — Parece o quê? — Parece que eu morri no meu aniversário. Mas não me lembro da minha morte. — Mas você está começando a se lembrar de outras coisas? Tipo da sua família? — Sim, mais ou menos. Mas não da minha morte. Bom, a não ser de eu morrendo mesmo. Mas não me lembro por que, nem como caí na água para me afogar. — Estremeci um pouco e então continuei: — Talvez seja por eu ser um fantasma. Talvez não tenha mesmo como me lembrar de muitos detalhes da minha morte. — Mas você quer mesmo se lembrar do resto? — Olha, não sei direito. Vamos ver... — tentei encontrar a melhor analogia possível para a situação, mas só consegui pensar em uma muito boba. — Acho que é mais ou menos como quando você bate o carro, quebra a perna, ou qualquer outra coisa assim, e aí não quer olhar com medo de passar mal, mas sente uma curiosidade enorme ao mesmo tempo. Joshua ficou calado por um instante. Ele franziu a testa e então se virou para mim com um ar circunspecto. — Será que é um problema psicológico? — perguntou. — Em vez de paranormal, sabe? — Hã? — Franzi a testa também, inclinando minha cabeça de lado. — Bom, talvez você esteja criando um bloqueio subconsciente para essas memórias. Porque enfim, outras memórias estão voltando, mas essas não. Remexi minha boca, refletindo sobre essa sugestão. Após alguns segundos, acenei a cabeça. — É possível, sim. Ele olhou para mim de novo, ainda com um ar preocupado. Quando ele falou, sua voz saiu hesitante. — Mas você acha que você... hã... se matou?

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Abaixei a cabeça. É claro que ele ia fazer essa pergunta. Em voz alta, eu disse: — Sempre achei que sim, sabe. Minha morte me parecia ser bem deprimente, então não seria lá um grande exagero imaginar que talvez minha vida tivesse sido também. Mas agora, desde que eu conheci você, já não tenho mais tanta certeza. Sei que caí da ponte. Só não sei se me joguei. Joshua me surpreendeu pegando minha mão do meu colo e entrelaçando seus dedos nos meus. — Talvez não tenha mesmo. Aliás... aposto que não. Não é a sua cara. Nem um pouco. Ergui a cabeça e abri um sorriso pequeno, mas crescente. A dorzinha no meu peito irradiou deliciosos arcos de calor, como a brandura que eu agora estava sentindo na minha mão. Tudo bem, talvez Joshua estivesse errado. Mas e daí? Eu poderia ter me matado, ou não. Era bem provável que nós nunca fôssemos descobrir. Mas Joshua acreditava que não. Ele acreditava que eu era melhor do que isso, em vida e agora. Essa sua fé na pessoa que eu era despertou alguma coisa dentro de mim, alguma coisa que insistia que talvez, ao menos talvez, eu não tivesse feito nada para merecer minha morte. Antes que eu pudesse dizer isso a Joshua, ele olhou de repente para fora pela minha janela e franziu a testa. Ele desacelerou antes de entrar em uma ruazinha. Ao perceber o que estava acontecendo, olhei para Joshua, sentindo uma nova onda de terror. Eu me recusei a olhar para fora do carro por um segundo que fosse e continuei com os olhos colados em seu rosto sério. Por um brevíssimo momento, cheguei a desejar ser engolida de novo pela névoa da morte. Só para ter um pouco de paz, um pouco de tranquilidade para me preparar para o que estava por vir. No entanto, a voz de Joshua me forçou a me concentrar. — Chegamos. Para a minha surpresa, seus olhos estavam cheios de pânico também. Engoli seco, apertando sua mão com ainda mais força. Ele apertou a minha de volta para deixar claro que não se importaria se a gente ficasse sentado ali a tarde inteira, só olhando um para o outro em vez de para a casa atrás de nós. Mas a gente não poderia ficar assim para sempre.

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Com uma dolorosa hesitação quase insuportável, soltei a mão de Joshua e me virei no meu banco até conseguir olhar para fora pela janela do passageiro. Atrás de um belo gramado, havia uma casinha de madeira, com menos de cem metros quadrados de área e mais de cinquenta anos de idade. A tinta branca da fachada já tinha começado a descascar há muito tempo, e o telhado se arqueava sob as memórias do peso de meio século de neve. Atrás da casa, um terreno de grama alta se estendia até se misturar à densa mata em volta do quintal. Essa era a casa dos meus pais. A minha casa. Dois sulcos paralelos na terra demarcavam uma entrada ao lado da casa. Era o mais próximo que havia ali de uma garagem, que agora estava desocupada. — Eles não estão em casa. Essas palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse pensar em seu significado. Fiquei atônita, surpresa com a tranquilidade desse meu comentário. Fazia muitos anos que eu não via aquela casinha surrada, muito menos o carro dos meus pais parado ali fora. Ainda assim, me lembrava exatamente de como era aquela casa quando estava vazia. A voz de Joshua quase me fez pular do meu banco. — Quer descer para ver melhor? Acenei a cabeça sem olhar para ele. Não tirei meus olhos da casa nem quando Joshua desceu do carro, abriu minha porta e me ajudou a atravessar o gramado. Atordoada, cruzei o jardim de mão dada com ele. Foi só quando ele colocou um pé na varanda da frente que puxei sua mão, forçando-o a parar. — O que você vai dizer? — perguntei. — Se tiver alguém aí, sabe? — Eu estava pensando nisso mesmo. O que você acha? Que sou um vendedor ambulante? — Mas você não tem nada para vender! — rebati. — Que estou arrecadando fundos para o time de beisebol então? — É melhor. Um pouco, pelo menos. Ainda meio hesitantes, fomos até a porta da frente. Quando soltou da minha mão, Joshua se virou para mim e abriu seu sorriso mais carinhoso que, infelizmente, parecia velar quase tanto medo quanto eu mesma estava sentindo. Em seguida, ele ergueu sua mão direita e bateu na porta.

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A porta se abriu na mesma hora com o toque de Joshua. Nós dois ficamos surpresos e demos um passo atrás. Do outro lado da porta, um corredor escuro estreito ia até o fundo da casa. Levamos alguns segundos para perceber que o lugar estava vazio e que ninguém tinha aberto aquela porta por dentro. Ela já devia estar entreaberta. As batidas de Joshua apenas a empurraram para trás. Tive um breve lampejo — uma imagem daquela porta se abrindo com a mão de uma mulher. — Minha mãe vivia fazendo isso — sussurrei, acenando a cabeça. — Ela sempre esquecia a porta aberta quando saía para algum lugar. — O que a gente faz? — sussurrou Joshua de volta. — Vamos entrar. Passei por Joshua, me espremendo entre o batente e a porta entreaberta até que já fosse tarde demais para ele ou eu desistirmos daquele plano. Depois que entramos, ele fechou a porta, e então deixei que meus olhos se ajustassem à penumbra do lugar. Nós estávamos no único corredor da casa, que dava acesso a vários cômodos. Bem à minha direita, ficava a sala, abarrotada com móveis de segunda mão e uma tevê velha. A entrada para outro cômodo mal podia ser vista ao fundo, à direita. Do outro lado, havia uma cozinha minúscula, ao lado do que parecia ser um banheiro ainda menor. Eu me virei um pouco para esquerda e me deparei com uma porta ao meu lado, essa fechada. Mesmo tentando fingir que aquilo não era nada, tive que conter meu espanto com a torrente de familiaridade que aquela casa estava me trazendo: os rangidos das tábuas de madeira sob os pés de Joshua; o “plic, plic, plic” da torneira pingando na cozinha nos fundos da casa; a visão de uma letra A cor-de-rosa de papel esmaecido colada no meio da porta fechada à minha esquerda. Não consegui me segurar. Um gemido escapou da minha boca enquanto eu punha a mão no coração. Uma dor voltou a pulsar no meu peito, mas de um jeito nada agradável, diferente daquela que sentia com Joshua. Era uma dor terrível. Ardeu contra os meus pulmões até me ouvir começando a perder o fôlego. Logo depois, Joshua me pegou pela cintura e me puxou contra seu peito. A gente nunca tinha ficado tão perto um do outro assim antes, mas não consegui desviar nem um pingo da minha atenção para aproveitar esse momento.

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— A gente pode ir embora — murmurou Joshua contra os meus cabelos. — A gente pode ir embora agora mesmo. Balancei a cabeça. — Não — minha voz saiu baixa e rouca. — Ainda não. Pude sentir Joshua acenando a cabeça enquanto me puxava ainda mais para perto. Ficamos assim até eu acalmar minha respiração. Assim que me tranquilizei, Joshua me soltou. Ele me olhou de cima abaixo, dando atenção em especial ao meu rosto. — Sabe... — disse eu, com uma risada trêmula. — Talvez eu tenha sido asmática em vida. Deve ser por isso que vivo perdendo o fôlego. Joshua só balançou a cabeça para a minha tentativa fracassada de fazer uma piada. — Não quer ir embora mesmo? — disse ele. Juntei os lábios em uma linha tensa e balancei a cabeça. — Bom... o que você quer ver primeiro então? — perguntou ele. Pensei por um instante e então virei minha cabeça para a porta à minha esquerda. — Será que a gente pode entrar no meu quarto? — Tu-udo bem. Como sempre fazia quando tentava abordar algo com cuidado, Joshua estendeu seu U. Ele ainda parecia preocupado, ainda incerto se eu estava mesmo pronta para tudo aquilo. Tentei manter uma expressão tranquila e parecer preparada para qualquer coisa. Ao ver isso (mas obviamente sem acreditar muito), Joshua esticou a mão ao meu lado para girar a maçaneta do meu antigo quarto. A porta se abriu, liberando uma coisa que eu não esperava. Uma leve brisa quente roçou minha pele. Pude sentir aquilo — sentir seu movimento e seu calor. Pude sentir o cheiro daquele ar, mofado depois de sabe-se lá quanto tempo preso naquele quarto, mas com um leve toque de perfume. Era um vago aroma de frutas... talvez de pêssegos, ou nectarinas. Essas sensações se esvaíram tão rápido quanto surgiram, me deixando entorpecida. Mas eu tinha sentido tudo aquilo, o que importava era isso. Fechei os olhos por um instante para saborear o momento. Quando os reabri, fiquei surpresa ao ver que eu já tinha atravessado a porta. Eu me virei e vi Joshua hesitante do lado de fora. Sorri para ele e fiz um gesto com a mão para que ele entrasse. O quarto era minúsculo, mal tendo espaço para nós. Espremida junto a uma parede, havia uma cômoda velha e, contra a outra, ficava uma cama 122


de solteiro, coberta de travesseiros roxos e verdes. Em cima da cama, um punhado de estrelas douradas de papel pendia do teto, penduradas em barbantes. Elas combinavam com as cortinas, que alguém havia fechado, inutilizando um pequeno telescópio encostado ali junto à janela. Mesmo sob a penumbra, pude ver a única coleção que eu já tive na vida: meus livros. Pilhas de livros, espalhadas pelo chão quase até a altura da minha cintura e ocupando cada centímetro livre do meu minúsculo quarto. Eu tinha encontrado esses livros em sebos, cestas de descontos, vendas de bibliotecas. Cada um deles tinha sido lido, relido e então colocado com todo carinho no alto de uma daquelas pilhas. Pus a mão no coração de novo. Desta vez, não foi falta de ar ou um aperto o que senti. Senti... uma tristeza, sim. Uma profunda tristeza. Mas também fiquei contente por rever aquilo. Por saber que eu tinha existido. Que eu ainda existia, pelo menos de alguma forma. Abri um leve sorriso e me virei para Joshua. Apontei com a cabeça de volta para o corredor, indicando que era hora de sair daquele quarto. Ele entendeu minha mensagem e deu meia volta logo depois — ansioso, acho, para se afastar daquelas imagens. Eu sei como é, pensei enquanto saía atrás dele. Antes de deixar o quarto, no entanto, dei uma última olhada para trás por cima do ombro. Só para guardar aquele espaço minúsculo na minha mente. Foi então que reparei em uma grossa camada de poeira sobre tudo, um filme amarronzado e transparente cobrindo as estrelas, a cômoda, os livros. Parei no lugar, franzindo a testa para a cena. Mesmo não tendo mudado nada naquele quarto, pelo visto meus pais também não entravam lá há um bom tempo. Por algum motivo, isso me entristeceu ainda mais. Não pela minha mãe não se espremer todo dia dentro de um templo abarrotado em minha memória com um espanador em punho, mas porque meus pais tinham mantido aquele quarto intacto e trancado, como se aquilo fosse uma tumba cheia de memórias dolorosas demais para se chegar perto. E provavelmente era essa a verdade mesmo. Balancei a cabeça, saindo do quarto para o corredor sem olhar mais para trás. — Feche a porta, por favor — pedi para Joshua com uma voz rouca. Ele me atendeu sem dizer nada, só puxando a porta atrás de mim e trancando minha tumba de novo. Estremeci ao ouvir a porta batendo. 123


Joshua parou ao meu lado. Olhei para ele com uma expressão taciturna, abalada demais para sequer tentar sorrir. — Foi tão difícil assim? — perguntou. Só acenei a cabeça. — Se serve de consolo, acho que você tem quase tantos livros quanto eu. — Tinha — disse eu. — Eu tinha quase tantos livros quanto você. Ele franziu a testa. — Você pode ficar com todos os meus livros, Amélia. — Ah, seria legal, pena que não consigo virar as páginas, né? — Joshua abaixou a cabeça, e eu me senti envergonhada na mesma hora. Baixei a cabeça também, olhei em seus olhos, e abri um leve sorriso. — Mas enfim, Joshua, por mais que eu esteja meio mal agora, fico muito feliz em ouvir isso. — Espero que sim — disse ele com um tímido sorriso em resposta. Puxei um fôlego imenso, erguendo os ombros e então os deixando cair de volta no lugar. Eu me senti exausta, estranhamente abatida. Mesmo assim, ainda tinham coisas ali que eu queria ver. — Tudo bem se a gente der uma olhadinha rápida na sala? Acho que... minha mãe guardava várias fotos lá. — Claro — Joshua estendeu o braço, abrindo caminho, e então passei por ele e fui até a sala. Analisei a cena até encontrar: a prateleirazinha que minha mãe havia instalado na parede dos fundos. Atravessamos o labirinto de cadeiras e poltronas até chegar à frente da prateleira. Ela ainda estava entulhada com as mesmas fotos, todas em molduras baratas de plástico ou madeira. Alguns elementos novos decoravam aquele espaço, mas os que mais me chamaram a atenção foram duas fotos grandes que agora ocupavam parte da prateleira. Reconheci a foto da esquerda na mesma hora. Era o meu retrato do último ano do colégio, o que Joshua e eu tínhamos encontrado no anuário aquela tarde. Meu antigo rosto vivo estava ali, nos encarando, dentro de uma bela moldura de madeira. Para o meu horror, alguém tinha colocado fitas pretas largas em volta do meu porta-retrato. A fita da esquerda trazia meu nome em letras prateadas metálicas, e a da direita tinha as datas do meu nascimento e da minha morte. Com isso, aquela linda foto havia sido transformada em uma espécie de lembrança macabra que alguém poderia usar como um enfeite em cima de um túmulo. No entanto, não foi essa desconcertante imagem o que mais me horrorizou. Na verdade, foi a outra foto na prateleira, a que estava bem à minha direita. 124


A foto em si não me assustou. Sob quaisquer outras circunstâncias, ela teria me feito sorrir. Era uma foto do meu pai, mais ou menos de quando ele tinha se casado com a minha mãe. Naquela época, ele ainda tinha belos cabelos. Sua pele bronzeada era mais lisa do que eu lembrava, mas seus olhos verdes ainda se enrugavam nos cantos como resultado de um imenso sorriso. Ainda assim, apesar do tom feliz dessa foto, comecei a tremer sem parar. Porque como o meu retrato logo ao lado, a foto do meu pai também estava entre fitas pretas. A fita à esquerda da foto do meu pai trazia o nome Todd Allen Ashley. As letras reluziam à minha frente com o mesmo tom prateado que cercava meu próprio retrato. Não consegui ler a fita da direita muito bem, e nem queria. Mas seja lá quais fossem os números impressos naquela fita, eu sabia o que eles simbolizavam: uma data de nascimento... e outra de morte. No começo, os fragmentos individuais do que vi ali não faziam sentido. Mas quanto mais eu olhava para aquela foto, mais detalhes emergiam com uma aterrorizante clareza. Assim que tudo por fim se encaixou, o meu mundo desabou sobre mim. Mas não fiquei com medo. Eu queria isso. Queria a escuridão, o nada. Queria um pesadelo agora mesmo. Queria deixar que aquele rio me sugasse, para me afogar ou me prender naquele submundo terrível de Eli. Queria qualquer coisa menos estar ali. Mas por mais que eu quisesse, não caí na velha escuridão. Fiquei só inerte naquela sala entulhada onde minha mãe provavelmente se sentava sozinha toda noite. Sem nenhuma filha com quem brigar, sem nenhum marido para conversar. Porque eu estava morta. E meu pai também. Tapei a boca com a mão para conter um soluço de choro. Joshua tentou me pegar, mas eu me afastei e balancei a cabeça. Como se estivesse lendo meus pensamentos, Joshua sussurrou: — Não é culpa sua, Amélia. — É sim. Sei que é. — Como? — insistiu. — Olhe só para este lugar! — Apontei para a cena ao meu redor, para aquela sala cheia de móveis velhos e para o meu quarto que agora era uma

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tumba logo ao lado. — Tudo virou um caos depois que eu morri. Está tudo um caos. — Eu sei, e é terrível — a voz de Joshua saiu mais suave, mas ainda insistente. — Terrível mesmo. Sinto muito, Amélia. Mas... às vezes esse tipo de coisa acontece. E o importante é que a culpa não foi sua. As palavras de Joshua não surtiram nenhum efeito — eu não conseguia parar de tremer. — Eu não estava aqui, Joshua. Eu não estava aqui quando... quando... — engasguei no meio da frase. Joshua veio até mim com os braços abertos, mas expulsei o resto das palavras da minha boca antes que ele pudesse tocar em mim. Na verdade, eu quase as cuspi no chão. — Eu não estava aqui quando meu pai morreu. Agora, minha mãe está sozinha, e sabe-se lá onde meu pai pode estar. Ele pode estar perdido, como eu estava. Ou até... em algum lugar pior — estremeci ao me lembrar do mundo sombrio de Eli e daquelas pobres almas presas. — E não posso fazer nada agora. Meus olhos arderam. Não fiquei surpresa quando uma lágrima conseguiu descer pela minha bochecha. Mas me espantei quando uma torrente inteira de lágrimas desabou logo depois. Olhei para Joshua, boquiaberta, provavelmente com uma expressão medonha de choque no rosto. Enxuguei minhas bochechas em desespero e olhei para as minhas mãos, que estavam ficando encharcadas. — Eu... eu nunca chorei — gaguejei, olhando para ele. — Não assim. Joshua pegou meus braços e praticamente me puxou para perto dele. — Pode fazer o que você quiser, Amélia. Por mim, tudo bem — sua voz saiu rouca, intensa pela emoção. Fiquei chocada de novo ao perceber o que o som de sua voz fazia com meu corpo, por mais desolada que minha mente pudesse estar. De repente, meus braços se lançaram com ardor em volta do seu pescoço. Com o mesmo ardor, ele colocou seus braços em volta da minha cintura e me puxou para mais perto dele num piscar de olhos. Agora já não havia mais nenhum espaço entre nós. Nossos corpos estavam curvados um contra o outro e, quando ele se aconchegou mais perto ainda de mim, achei até que eu iria parar de respirar. Eu estava sentindo tudo: a pressão de seus braços em volta de mim, a força de seus dedos na minha cintura, o calor de seu hálito contra a minha pele. Tudo o que eu sabia sobre mim mesma e a minha relação com o mundo dos vivos me dizia que isso seria impossível. Mas nada disso

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importava agora. O que importava era estar me sentindo viva. Estar sentindo tudo. Joshua olhou para mim, e pude sentir o calor de seus olhos azuisescuros em cada centímetro do meu corpo. Quando enrolei meus dedos entre os cabelos na sua nuca, ele gemeu. Assim que esse som escapou de seus lábios, nem precisamos pensar em mais nada. Nós nos inclinamos um contra o outro e então nossos lábios se tocaram. O beijo desabou sobre mim, com onda após onda de puro fogo. Aquela dor explodiu no meu peito como uma bomba atômica, incinerando tudo em seu caminho. Deixei que aquilo me queimasse e me consumisse. Enquanto Joshua abria a boca e a roçava contra a minha, senti seus lábios — senti sua carne macia e quente. Naquele momento, me tornei uma bomba atômica. Uma brilhante bola de fogo alaranjada. O ponto exato onde um fósforo aceso cai em uma poça de querosene. Em seguida, senti um frio. Um frio terrível. Abri meus olhos e perdi o fôlego. Comecei a engasgar e a me abraçar, buscando em vão algo em que me ancorar. Algo que me ajudasse a sair dali. Porque de repente, me vi de volta à água negra do rio. Estava me afogando de novo.

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Dezesseis Quando

aquela sufocante água negra por fim desapareceu, acordei,

tossindo e cuspindo sob o sol da manhã. Eu me vi de joelhos, caída de quatro e agarrada à terra no chão como se fosse um colete salva-vidas. O que, em certo sentido, até era verdade. Fiquei uma eternidade assim, curvada e olhando para o chão. Meus cabelos pendiam como grossas cortinas de cada lado do meu rosto, tampando toda minha vista, a não ser pela grama seca e a terra vermelha embaixo de mim. Em seguida, virei minha cabeça apenas alguns milímetros para a direita. Através dos meus cabelos, pude ver de relance o que havia à minha volta. O campo. As árvores. As lápides. Então me sentei sobre meus calcanhares descalços e me abracei. Só depois de me garantir essa parca proteção, joguei meus cabelos de lado para conseguir analisar melhor meus arredores. Eu tinha tido outro pesadelo, o pior de todos até então. Tudo começou como sempre: com eu me debatendo e engasgando em pânico. Mas depois de me acalmar, após o choque inicial da água, ouvi vozes estranhas de novo, gemidos roucos que me lembraram muito do submundo de Eli. Mas dessa vez, além das vozes, ouvi risadas. Gargalhadas enfurecidas e violentas que vinham do que parecia ser uma festa. Quando ergui a cabeça para procurar a origem desse som, me deparei com uma multidão de figuras em cima de mim, na Ponte Alta. Assistindo ao meu suplício. Antes que eu pudesse ver seus rostos, afundei de novo na água. Foi só então que acordei naquele cemitério. Quem eram aquelas pessoas na ponte? E por que elas estavam me vendo com tanta histeria?

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Essas eram perguntas que eu não tinha como responder. E é claro, isso levantou ainda mais questões sobre por que eu sequer consegui ver aquelas figuras. Será que eu havia as ouvido e visto porque estava mais atenta agora? Ou talvez fosse por algo a ver com o que Joshua disse: eu poderia estar reprimindo as memórias da minha morte, e agora elas estavam ressurgindo com detalhes ainda vagos, mas dolorosos. Muito obrigada, meus pesadelos, pensei, amarga, por serem sempre tão divertidos. E isso, é claro, me levou a outro pensamento. Um padrão parecia estar se formando entre os meus pesadelos, em especial quanto à forma como eles começavam. Talvez tivesse algo a ver com o meu estado de espírito. Afinal, o último tinha começado quando Eli me irritou aquela noite dizendo que eu não tinha outra escolha a não ser me juntar a ele naquele submundo. E este de agora começou com o beijo de Joshua. Não, pensei, balançando a cabeça. Não foi pelo meu primeiro beijo com ele. Na verdade, foi quando achei que ia explodir — com a angústia pela perda do meu pai e ao perceber a solidão da minha mãe; com o meu desejo, deflagrado pela sensação dos lábios de Joshua nos meus. Pensando nos lábios de Joshua, peguei impulso contra o chão e me levantei com um pulo. Eu poderia me preocupar com meus pesadelos depois. Agora, tinha problemas mais importantes para resolver. Como o fato de que já havia se passado um dia inteiro desde meu beijo com Joshua, o que devia tê-lo deixado bem confuso quanto ao meu paradeiro. Sem nem olhar de novo para aquele lugar horrível, saí correndo. Talvez meia hora depois — não tenho certeza —, cheguei ao estacionamento do Colégio Wilburton. Eu estava ofegante, não pelo esforço de correr, mas pelo medo de que eu tivesse chegado tarde demais para encontrá-lo ali. Por sorte, uma rápida olhada pelo lugar me mostrou que não. Do outro lado do gramado, os alunos estavam reunidos em grupinhos enquanto almoçavam, dando risada e curtindo o sol. Passei às pressas por eles, analisando cada rosto enquanto andava. Sem encontrar o que queria, não tive opção a não ser esperar do lado de fora do refeitório, batendo o pé e remexendo os dedos até alguém por fim abrir a porta. Dei uma olhada por cima nos alunos que estavam entrando e saindo, sem sucesso de novo, então me espremi entre eles antes que a porta se fechasse. Assim que entrei, examinei a sala inteira já impaciente e depois comecei a andar entre as mesas. 129


Estava tão concentrada na minha busca que nem o vi até quase trombar bem no peito dele. Nós dois paramos de repente antes do impacto, a poucos centímetros um do outro. Uma leve onda de seu cheiro — doce, almiscarado, quente — quebrou sobre mim e então se esvaiu. Ergui a cabeça, lentamente, até encontrar seus olhos. Eu tinha achado Joshua. Senti uma explosão de alegria. Joshua, no entanto, não me pareceu tão feliz assim. Aliás, ele só me encarou com uma expressão vazia, com seus olhos azul-escuros indecifráveis. — Joshua... — comecei, mas outra voz me interrompeu. — O que é que foi, cara? — Nada — disse Joshua para O’Reilly sem olhar para trás. — Você está na frente da porta, gatão — disse uma garota, a tal de Kaylen, acho, do meio da turma atrás de Joshua. Mas Joshua não se mexeu. Ele só ficou me encarando, estático, sem sair do lugar. Por fim, ele saiu andando, ainda com seus olhos nos meus, mas se virando um pouco para trás. — Acabei de lembrar... — disse ele para os amigos. — Deixei uma coisa no carro. — Então será que, tipo, você pode ir lá pegar? — resmungou Jillian. — Porque os seus problemas não servem como desculpa para o resto da gente chegar atrasado. — Nem para mim, na verdade. Pergunte para a senhora Wolters. — Ele se virou por inteiro para a turma atrás dele e abriu seu sorriso largo de sempre. Mas quando ele se voltou para mim, seu sorriso sumiu e seus olhos finalmente brilharam com alguma emoção de verdade. Ele encolheu os ombros e passou por mim, saindo do refeitório. Senti um frio terrível. Pior até do que aquele ar gelado que cortou minha pele no submundo. Foi fácil reconhecer a emoção que havia incendiado os olhos de Joshua, mesmo sem nunca ter visto nada parecido antes. Era raiva. Joshua estava furioso. Toda trêmula, encontrei um espaço vazio entre alguns dos alunos que estavam saindo pela porta e os segui. Chegando ao lado de fora, olhei para os lados, procurando Joshua. Eu o avistei, já bem à frente dos seus amigos, e avançando a passos largos em direção ao estacionamento da escola.

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Por fim, consegui abrir caminho em meio à multidão e corri para alcançar Joshua. Mas uma breve olhada para os músculos tensos em seu pescoço me fez hesitar. Parei alguns metros atrás dele, com um pé na calçada e o outro pairando sobre o asfalto. Joshua chegou ao seu carro, abriu a porta do passageiro e então começou a fingir que estava procurando seja lá o que teria esquecido lá. Ele se levantou, me lançou um olhar de lado e apontou com a cabeça para a porta aberta. Os dois gestos emanaram um ar claramente irritado. Engoli seco ao pôr o pé no asfalto. Passei por ele e me arrastei para dentro do carro. Joshua bateu minha porta e, assim que entrou no carro, fechou a sua também. Estremeci só com o barulho. Joshua nem olhou para mim. Ele só ficou sentado lá, com as mãos firmes no volante e seus olhos colados no painel. Um silêncio pesado caiu entre nós, parecendo sugar todo o ar de dentro do carro, me esmagando como um vácuo. Seria melhor ouvir infinitas batidas de porta do que isso. — Eu tive um pesadelo... — comecei, sem jeito. — Foi por isso que você sumiu do nada? — disparou ele, me interrompendo sem tirar seus olhos do painel. — O que foi que eu fiz? — perguntei. — Você sumiu. Logo depois de eu te beijar. Ou de você me beijar. Tanto faz. A gente estava se beijando, mas quando abri os olhos, você tinha sumido. — Joshua, eu... eu não sabia que tinha sido assim — gaguejei. — Que eu sumi desse jeito. Só sei que estava beijando você e de repente tive um pesadelo. Acordei menos de uma hora atrás e vim correndo direto para cá. Ele finalmente se virou para mim, com a cara fechada. — Como assim teve um ―pesadelo‖? Você teve um sonho ruim, é isso? — Não exatamente. — Olhei em seus olhos enquanto explicava. — Toda vez que tenho um pesadelo, na verdade não durmo. Só perco a consciência e, pelo visto, sumo de seja lá onde estiver antes do pesadelo começar. É como se eu apagasse e aí, quando menos percebo, já estou me afogando de novo. Só chamo isso de pesadelo porque depois eu acordo. Joshua ficou em silêncio por um bom tempo. Quando por fim falou, suas palavras ainda soaram céticas. Mas ouvi outra nuance em sua voz também... um quê de mágoa. — Mas você só acordou uma hora atrás? — perguntou. — Já faz quase um dia inteiro desde que você sumiu. Como isso é possível? Fiz de tudo para respirar normalmente. Com calma. 131


— É como falei, às vezes só apago do nada. Depois, acordo em algum outro lugar, e pelo visto, um bom tempo mais tarde. — Então... na verdade você não fugiu de mim? Agora, o tom de mágoa em sua voz foi bem claro. Percebi então que toda a sua raiva devia estar escondendo um simples fato: meu sumiço repentino o havia chateado. E muito. Ainda assim, joguei as mãos para o alto, irritada pela sua teimosia em não acreditar em mim. — Por que iria fugir de você, Joshua? — Porque beijei você. — Mas eu beijei você também — disse e então acenei a cabeça. — Eu também queria. Joshua franziu a testa, mas quando falou, sua voz saiu bem mais calma. — Tem certeza, Amélia? Acenei a cabeça com vigor. — Sim! Sim, certeza absolutíssima! É só que... bom, fiquei muito abalada com o lance dos meus pais e acho que acabei me perdendo. Porque enfim, sou um fantasma. Você sabe. — Na verdade... — disse ele, hesitante. — Eu até achei mesmo que tivesse alguma coisa a ver com isso. Sei lá, que você podia ter ficado com medo de que eu fosse te exorcizar. Fiquei espantada. — Q-quê? Você estava pensando em fazer isso? — Não! — Ele balançou a cabeça, parecendo surpreso. — Claro que não. Só pensei que talvez você tivesse ficado com medo disso. — Bom, agora estou — rebati. — Relaxe — disse ele, agora determinado. — Não faria isso, de jeito nenhum. Ninguém conseguiria nem me forçar a isso. Soltei uma bufada de frustração. — Bom, é que a gente tem alguns problemas para resolver, né? Joshua deu uma risadinha amarga. — Eu sei, e não são poucos. — Tipo os pesadelos — comentei. — E também o fato de que tecnicamente você precisa me exorcizar. Isso sem falar de Eli, pensei comigo mesma. Ou de não ter como ajudar minha mãe, nem salvar meu pai das trevas. Também não sei o que vai

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acontecer quando você envelhecer e eu não, ou quando sua avó finalmente decidir vir atrás de mim... Por enquanto, preferia guardar essas coisas só para mim. Em voz alta eu disse apenas: — Só queria poder voltar à vida para que tudo fosse mais fácil para a gente. Queria mesmo. Joshua me pareceu estar pensando mais ou menos a mesma coisa. Ele franziu a testa e então passou a mão pelo cabelo e a desceu até a nuca. — Isso vai ser complicado, né? — perguntou. Acenei a cabeça. — Parece que sim. Sei lá, não tenho a menor ideia de como isso funciona. Os pesadelos, ou essa história toda de ―eu e você, um vidente e um fantasma‖. Só não sei quais são as... regras. Essa última palavra escapou da minha boca, caindo como uma pluma dos meus lábios. Ela pairou no ar sob o peso de algo maior, algo que tinha acabado de me ocorrer. Duas pessoas — bom, uma pessoa e um espírito — conheciam essas regras e poderiam me ajudar. Poderiam nos ajudar. Enquanto eu formulava meu plano, fixei meus olhos em um ponto invisível do lado de fora do carro. Comecei a falar metodicamente para me desviar do caminho sombrio que a nossa conversa tinha tomado. — É o seguinte, Joshua. Acho que conheço alguém que poderia explicar o que está rolando. Alguém que poderia nos ajudar de verdade a entender como eu... funciono, acho. Mas preciso ir a um lugar esta tarde para ver se essa minha ideia é mesmo viável. Então será que você pode me encontrar lá depois da escola? E confiar em mim se eu disser que vou estar lá? — Acho que sim. — Ótimo — disse eu. Mordi meu lábio inferior e acenei a cabeça, determinada. — Então, você sabe onde a sua vó está agora? Não demorou muito para eu conseguir chegar à maior igreja da cidade, nem para que alguém abrisse uma das portas para eu poder entrar. Como Joshua havia falado, a igreja estava lotada de pessoas se preparando para a missa de quarta-feira à noite. Encontrar Ruth dentro da igreja também foi fácil: ela estava na frente da capela, comandando uma pequena tropa de mulheres com uma voz firme. Sempre que balançava a cabeça — para rejeitar a sugestão de alguém abaixo 133


dela na hierarquia da igreja, imagino —, ela me lembrava de Jillian, e era difícil não achar isso engraçado. Mas qualquer traço de sorriso desapareceu do meu rosto assim que Ruth se virou e me viu. Ao fixar seus olhos nos meus, ela parou no meio de uma ordem e soltou um grunhido abafado em protesto. Em seguida, sem tirar seus olhos de mim ou terminar sua frase, Ruth abriu caminho entre suas assistentes e veio marchando pelo corredor central da igreja. Ela só desviou seus olhos gelados dos meus quando passou batendo os pés por mim e esbravejou: — Fora daqui! Já! Segui Ruth para fora pela porta dupla da igreja até o pé da escadaria da frente, onde ela ficou me esperando, de costas para mim. — Ruth... digo, senhora Mayhew... — arrisquei, mantendo uma voz calma. Confiante. — Sei que a senhora não quer falar comigo, mas... — Você não deveria chegar perto de um lugar sagrado — me interrompeu Ruth, virando-se para mim, mas seu olhar não se concentrou no meu, e sim na igreja, como se fosse aquele prédio, e não um fantasma adolescente, quem tinha falado com ela. — Você não é digna de estar aqui, muito menos de existir. De repente, eu já não estava mais com medo, nem submissa. Estava irritada. Tão irritada, aliás, que até me esqueci o que com certeza havia aprendido em vida sobre respeitar os mais velhos. — Bom, não é como se eu tivesse me desintegrado numa pilha de sal quando cruzei aquelas portas — esbravejei. — Então acho que algum ser divino aqui não se incomoda com a minha presença. Ruth balançou a cabeça com um ar teimoso. — Se você está morta e ainda vaga por este mundo, você é uma abominação. Tentei não gritar, mas não consegui. — Uma abominação? Como assim?! Você não sabe nada sobre mim. — O que sei já me basta — disse ela. — Sei que você ainda vaga por aqui e que é bem provável que você tenha vindo daquela ponte. Nisso ela tinha razão. Só consegui gaguejar: — Bom, sim... mas... — Não me interessa. Mesmo que você não seja um espírito maligno agora, você, na melhor das hipóteses, é um receptáculo vazio que o mal cedo ou tarde irá preencher... e usar. Tenho certeza de que ele está atrás de você... o rapaz que assombra aquele lugar. O que eu venho perseguindo há 134


tantos anos. E agora que você está aqui também, nosso trabalho só ficou ainda mais complicado. Eu me lembrei dos alertas de Eli sobre minha natureza — e meu futuro — na mesma hora. Em seguida, me dei conta de outra coisa. Como eu já tinha suspeitado quando Joshua me descreveu os videntes, Ruth e suas amigas sabiam sobre Eli, pelo menos um pouco. Elas vinham o caçando há anos, aparentemente sem sucesso. — Como você sabe tanto sobre fantasmas, e sobre a Ponte Alta? — perguntei. — Porque venho estudando o sobrenatural pela maior parte da minha vida e vigiando aquela ponte há décadas. Sei o que acontece com as poucas almas que continuam neste mundo. Sei o que acontece com as almas que assombram a Ponte Alta. Elas viram escravas daquele lugar, como aquele rapaz que estamos caçando há tanto tempo. — Mas eu não assombro a Ponte Alta — protestei sem muitas forças. Ruth por fim olhou nos meus olhos e me abriu um gélido sorriso. — Você está assombrando meu neto. Isso já basta para mim. Então devia ser disso que ela estava falando aquela noite na casa de Joshua quando disse que eu não era quem ela esperava: por mais que eu fosse um fantasma errante, não era o ―rapaz‖ que ela vinha tentando pegar. Ainda assim, Ruth obviamente estava disposta a me tratar da mesma forma que Eli. Como se eu fosse algum espírito maligno e perigoso. Mantive minha cabeça erguida até onde pude, por mais que agora estivesse tremendo. — Ele gosta de mim também, sabe. Não estou assombrando o Joshua à força. — Isso não importa. Ele logo entenderá seu papel como vidente, e então fará a escolha certa. Ruth acenou a cabeça, como se quisesse enfatizar a inevitabilidade daquela conclusão. Mas alguma coisa em suas palavras me deixou intrigada. Inclinei minha cabeça de lado, pensativa. — Deixa só eu ver se entendi direito todas as regras: os videntes podem escolher se vão ou não participar dessa batalha? Ela desprezou minhas palavras com um gesto de mão. — Isso na verdade nem importa, porque todo vidente sempre cumpriu sua função depois de passar pelo evento que ativa seu dom. — Até agora, a senhora diz — ressaltei.

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Ruth hesitou, claramente surpresa. Mas ela se recuperou rápido e então balançou a cabeça. — Joshua ainda não fez sua escolha. Ele nunca faria isso sem me consultar primeiro. — Não tenha tanta certeza — respondi, tranquila, mas com uma certeza da qual nem Ruth teria como duvidar. Por mais bravo que Joshua tivesse ficado (e talvez ainda pudesse estar) comigo, acreditei quando ele prometeu que não usaria seu dom contra mim. Ruth olhou para mim como se acreditasse nisso também agora. Ela ficou olhando para um ponto atrás de mim, encarando o nada. Pensando. E então, mais para si mesma do que para mim, ela começou a murmurar: — Eu estava dando tempo ao Joshua. Esperando o momento certo para contar a ele sobre seu dom. Mas talvez isso tenha sido um erro... Ela não terminou a frase, e então aproveitei sua distração para insistir no assunto. — Se o Joshua fez uma escolha que a senhora não imaginava, por que não posso fazer o mesmo? Por que eu posso escolher não ser um espírito maligno? Juntando seus lábios com uma expressão presunçosa, Ruth se empertigou toda no lugar. — O Joshua pode negar o quanto quiser sua natureza, mas cedo ou tarde vai perceber o que é certo. É isso é o que ele tem que fazer. Ergui uma sobrancelha. — Então a senhora está dizendo que nenhum de nós tem livre arbítrio? Ruth estreitou seus olhos que, apesar de bonitos, de repente me pareceram ameaçadores. — O Joshua é livre para cometer seus erros... — disse ela — ...por enquanto. Mas não quero que você pense, nem por um segundo sequer, que nós vamos dar a você essa mesma oportunidade. Senti um calafrio sinistro subir pela minha espinha. — O que a senhora está querendo dizer? — murmurei. — Estou dizendo que é melhor você ficar alerta, porque seus dias no mundo dos vivos estão contados. Nós temos planos para você, e namorar meu neto não está entre eles. O calafrio sinistro escapou da minha espinha e se transformou em uma tremedeira completa, ameaçando quebrar meus dentes. Precisei me 136


esforçar para conseguir manter uma expressão fria e tranquila e meus braços ao lado do corpo em vez de me abraçar em busca de proteção. Tinha que ir embora dali antes que acabasse mostrando a Ruth o quanto ela me apavorava. — Bom, obrigada pelo aviso — murmurei, praticamente pulando dos últimos degraus da escada. Saí de perto de Ruth o mais rápido que pude, procurando o caminho mais curto em meio ao estacionamento da igreja até o bosque ali em volta. Eu mal tinha chegado perto das árvores quando Ruth gritou comigo. — Nós vamos acabar com você daqui dois dias, quando a lua estiver minguante e os nossos feitiços de banimento estiverem mais fortes. Então, esteja preparada. De repente, tive a sensação de levar uma pontada no crânio. Por puro reflexo, arqueei meus ombros e curvei o pescoço em desespero. Virei minha cabeça de um lado para o outro, tentando em vão me livrar daquela dor. E então, como um aterrador acompanhamento para a dor nas minhas têmporas, uma série de imagens borradas inundou minha mente. Elas passaram a uma velocidade tão atordoante pela minha frente que eu mal conseguia perceber seus detalhes. Essas imagens relampejaram pela minha mente com tanta brutalidade que acabei sentindo uma ânsia de vômito muito real nas minhas entranhas. A força dessa sensação foi tão desorientadora que cambaleei, tropeçando nos meus próprios pés e caindo de quatro no chão. Minhas mãos bateram com força contra o chão do estacionamento e, de repente, pude sentir as pontas afiadas das pedrinhas de cascalho. Elas cortaram a pele das minhas palmas e dos meus joelhos, atravessando minha dormência fantasmagórica da pior maneira possível. Logo depois, a dor passou — tão rápido que quase fiquei na dúvida se tinha mesmo sentido aquilo. Ainda curvada, balancei a cabeça, confusa. Mal tive tempo para me perguntar o que poderia ter causado aquela dor antes de ouvir uma risada suave de mulher atrás de mim. Naquele instante, soube exatamente o que tinha me atingido. Enquanto me esforçava para me levantar do cascalho que eu já não podia mais sentir, fingi não ter ouvido os avisos de Ruth, nem sentido aquela brutal dor de cabeça. Pelo menos por fora. Em vez disso, saí correndo na direção do bosque, esperando até me ver entre as árvores para só então me entregar a uma violenta tremedeira de medo.

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Dezessete Muito tempo depois de Ruth ter voltado para dentro da igreja, ainda fiquei andando de um lado para o outro em meio às árvores na borda do estacionamento. Era bem provável que ela ainda pudesse me ver pela janela se quisesse, mas eu não estava pensando racionalmente o bastante para me importar. Na verdade, durante um bom tempo, não consegui pensar em nada, só sentir o embrulho espectral do medo no meu estômago e ouvir minha própria respiração descontrolada. Mas por fim, me acalmei o bastante para tentar fazer meu cérebro funcionar de novo. Assim que me livrei daquele terror paralisante, no entanto, não tive como não imaginar todos os possíveis futuros que eu tinha à minha espera: um exorcismo — algo com certeza nada agradável — nas mãos das senhoras da Igreja Batista de Wilburton; ficar presa para sempre na floresta escura do submundo, como cortesia de um fantasma de calça colada; ou então trabalhar como uma espécie de ceifadora para esse tal fantasma e seus mestres malignos. E é claro, a pior coisa em cada uma dessas possibilidades era que Joshua não fazia parte de nenhuma delas. — Estou perdida — disse eu em voz alta, soltando uma risadinha histérica. — Por que você está dizendo isso? Ao ouvir essa voz de repente, eu me virei, erguendo as mãos em um reflexo defensivo. Mas uma rápida olhada para aqueles cabelos escuros e olhos azuis profundos logo fez toda a minha fúria, ainda que não o meu medo, evaporar. — Joshua, desculpe. — Abaixei os braços, derrotada. — Achei que teria como ajudar, mas só acabei deixando tudo um milhão de vezes pior. — Tudo bem, Amélia. Vai dar tudo certo — disse ele baixinho, tranquilo.

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— Como? — perguntei, com aquele tonzinho histérico voltando sorrateiramente à minha voz. — Como é que vai dar tudo certo? Como você sabe que não sou um espírito maligno que precisa ser destruído? Nem eu sei disso, e eu sou eu! — Porque sei, só isso. Joshua ficou ali, com um pé no asfalto do estacionamento e o outro na borda da grama que dava para o bosque. Com seus braços cruzados em frente ao peito e um ar tranquilo, ele não parecia nem um pouco preocupado. Quando ele me abriu um sorriso reconfortante, a dor no meu peito ardeu um pouco. Mas tive que ignorá-la, pelo menos por enquanto. — Você não tem ideia do quanto isso é importante para mim, Joshua, sério. Mas mesmo com o que a gente descobriu sobre a minha casa e a minha família, ainda sei muito pouco sobre mim mesma... pouco demais para saber qual é o meu lugar ou o que mereço. — Como assim, ―merece‖? Abaixei a cabeça entre minhas mãos. — Bom, sua vó basicamente acabou de me dizer que mereço ir para o... inferno, acho. E que se eu não fosse, ela e as amigas dela iam vir atrás de mim. Daqui a dois dias. — Espera aí... como assim? Soltei um suspiro, ainda sem olhar para Joshua. — A Ruth e o grupinho dela vão vir me exorcizar daqui a dois dias. — Não vão, não — rebateu Joshua. Ergui a cabeça na mesma hora. Antes que eu pudesse perguntar como ele pretendia impedi-las, Joshua veio para frente, diminuindo a distância entre nós. Ele se inclinou até mim, me encarando com aqueles seus lindos olhos de cor tão diferente. — Venha comigo — murmurou. — Agora. Tentei me concentrar, tentei ignorar a intensidade em seus olhos. — Para onde? Por quê? — Para a minha casa. Vamos tentar entender algumas coisas sobre você. — Mas a Ruth disse que... — Dane-se o que a Ruth disse — rebateu. — Moro naquela casa também e, para mim, você será sempre bem-vinda. Mais do que bem-vinda, aliás. — Ah.

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Várias emoções estavam se digladiando dentro de mim: medo, raiva, incerteza. Mas agora, uma trêmula labareda de alegria havia eclodido entre elas. Joshua tinha esse efeito em mim. — E então... — disse ele, estendendo sua mão. — Quer vir para casa comigo? Abri um sorriso e estendi minha mão para pegar a dele. Durante o trajeto, contei sobre minha conversa com Ruth com todos os detalhes. Terminei a história bem quando chegamos à entrada da casa de Joshua, e ele então desligou o motor. Ele ficou olhando em silêncio para o jardim da frente. Em seguida, franzindo a testa, apoiou um braço no volante e se virou para mim. — Acho que eu deveria pedir desculpas pela minha vó ter sido tão... — Preocupada com você? — sugeri, antes que Joshua pudesse dizer algo de que pudesse se arrepender. Joshua apenas sorriu, percebendo na mesma hora meus esforços diplomáticos. — Preocupada — concordou, rindo. — Claro. — Ele se inclinou para abrir minha porta e então voltou, parando por um instante ao meu lado. — Você me promete uma coisa? — perguntou Joshua, ainda bem perto de mim. Apenas acenei a cabeça, atordoada demais por estar tão perto dele assim para dizer qualquer coisa com o mínimo de coerência. — Me prometa que a gente só vai curtir hoje aqui, tá? E sem se preocupar com a vó Ruth, pode ser? — Ela não vai facilitar isso muito para a gente, né? — respondi, fazendo uma careta. Joshua balançou a cabeça. — Ela vai ficar quase a noite inteira na igreja. Depois que a gente passar pela minha família, vamos ficar só eu e você juntos. Fiquei com o rosto quente só de cogitar essa ideia. Mas não perdi mais do que um segundo pensando em como uma menina morta poderia sentir um calorão desses. Sinceramente, por que eu iria ligar para isso se estava prestes a passar uma noite inteira com ele? — Vamos lá — consegui dizer. Joshua acenou a cabeça e, logo depois, descemos do carro e cruzamos o jardim até a varanda dos fundos. Chegando à entrada, Joshua foi a frente até a porta e a abriu para mim.

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Enquanto eu passava, ele encostou a mão na parte de trás da minha cintura para me guiar. O mero toque de sua mão causou um violento furacão dentro de mim, mas só tive mais alguns passos para curtir essa sensação. Poucos segundos depois, chegamos à cozinha da casa. Como da última vez, a cozinha estava movimentada. Para o meu grande alívio, Ruth ainda não tinha voltado para o jantar, como Joshua havia previsto. À nossa esquerda, o pai de Joshua e Jillianestavam rindo enquanto preparavam uma salada. À nossa direita, a mãe de Joshua estava com uma panela nas mãos, colocando o que parecia ser uma quantidade enorme de macarrão dentro de uma tigela. Ela pôs a panela de lado e passou a mão pelos cabelos, um gesto que eu conhecia muito bem de seu filho. Depois, ela foi até a bancada e começou a separar uma pequena pilha de pratos para levá-los até a mesa de jantar. — Só três pratos hoje, mãe — disse Joshua para mostrar que estava ali. — Hã? — a mãe de Joshua pareceu curiosa, mas não ofendida pelo comentário. — Não vai comer com a gente? — Tenho muita lição de casa — disse Joshua, encolhendo os ombros, e então me deu uma piscadela de lado. — Mas eu não vou ter que lavar a louça sozinha depois, né? — resmungou Jillian, olhando primeiro para sua mãe, que não a deu atenção, e depois para as costas de seu pai. Quando os dois ignoraram suas súplicas, Jillian fez uma careta para Joshua e então se virou de volta para a salada, puxando as folhinhas soltas, toda irritada. Joshua ignorou sua irmã e atravessou a cozinha para dar um tapinha no braço do pai. — Sabe... — disse Joshua em tom de brincadeira. — O bom é que já inventaram uma coisa mágica chamada ―lava-louças‖. Ouvi dizer que é revolucionário. — Pois é — seu pai riu. — O nome dela é Jillian. — Não tem graça — protestou Jillian, ainda olhando para a salada. Com a palma da mão, ela empurrou a bacia para longe sobre a mesa. Ela se virou para sua família, abrindo a boca para soltar o que só poderia ser outro comentário petulante. No entanto, ela a fechou com um estalo alto na mesma hora quando seus olhos se fixaram no lugar onde eu estava — no lugar que deveria parecer vazio para ela. 141


Como com Ruth ontem, seus olhos não se concentraram em mim. Não exatamente. Mas ela estava olhando na minha direção, como se estivesse tentando, com certa dificuldade, ver através de uma cortina de fumaça. Ainda sem o poderoso dom da visão de sua avó, o olhar de Jillian não tinha como me enxergar... nem me atingir. Mas isso me deixou nervosa e me fez olhar pela cozinha com medo de que Ruth pudesse aparecer ali a qualquer momento. Como Joshua tinha prometido, no entanto, Ruth não chegou de surpresa, berrando ameaças e me fazendo tombar de joelhos com aquela dor lacerante. Até que por fim, Jillian desistiu de olhar na minha direção. Ela se virou de volta para seu irmão, com apenas um leve ar desconcertado no rosto. — Nada nessa casa é justo — reclamou. Joshua começou a dar risada, o que sem dúvida teria irritado Jillian ainda mais, se uma ordem firme da mãe dos dois não tivesse silenciado todos na cozinha. — Chega! Todo mundo, inclusive eu, se virou para a bancada onde Rebecca Mayhew ainda estava. Ela acenou a cabeça, primeiro para Jillian, depois para Joshua. — Você aí, termine a salada. E você, vá estudar logo para evitar mais encrenca antes que eu faça você subir à força. Com um grunhido de protesto, Jillian se virou de volta para a mesa e começou a remexer nas folhas, toda enfezada, resmungando alguma coisa sobre injustiças. Joshua deu um rápido aceno para sua mãe e então abaixou a cabeça, como se estivesse tentando se esquivar da sua cara de reprovação. Atrás de nós, ouvi seu pai conter uma risada. Quando Rebecca se virou para encarar o marido, Joshua aproveitou o momento para chamar minha atenção. Ele apontou com a cabeça para a arcada do outro lado da cozinha. Entendi seu gesto como uma indicação de que deveríamos sair dali. Com o máximo de graça que consegui evocar, passei entre Jillian e seu pai, tomando cuidado para não tocar em nenhum dos dois. Quase sem pensar, parei ao lado de Jillian, esperando... não sei bem o quê. Quando seus olhos não se voltaram na minha direção, fui até a arcada pela qual Joshua já tinha passado e então me virei para dar uma última olhada na cozinha. Rebecca tinha acabado de pôr a mesa, passando a mão sem parar pelos seus lindos cabelos. Jeremiah estava ao lado do balcão, olhando para 142


sua filha com uma paciência incrível enquanto sua filha terminava a salada. Quando ela começou a resmungar de novo, ele só pegou um pedacinho de alface da tigela e jogou nela. Jillian olhou para ele, toda indignada, mas logo depois se acalmou. Ela abriu um sorrisinho e, sem desviar seus olhos, pegou o pedaço de alface de seu ombro e o jogou de volta nele. Sorri para todos eles e então me despedi com um breve aceno por puro impulso. Naquele momento, senti uma vontade tão grande estar ali com eles que até doeu. A não ser pela presença sempre ameaçadora de Ruth, aquela família representava uma coisa que eu desejava, uma coisa que eu claramente tinha perdido. Uma família. Imaginei minha própria mãe, sentada sozinha naquela casa minúscula; imaginei meu pai, vagando perdido pelo submundo. Enquanto eu continuava ali, observando os Mayhews, uma névoa melancólica começou a me envolver. Meus pensamentos então se tornaram tão repentinos quanto sombrios. Se Eli conseguir o que quer, pensei, você nunca mais poderá ver essas pessoas a menos que esteja tentando arruinar suas vidas após a morte. E se Ruth tiver razão, você tem menos de quarenta e oito horas para ficar com Joshua. Então, menina fantasma, é melhor nem perder tempo sonhando em fazer parte dessa família; você não conseguiu nem salvar a sua própria. Balancei a cabeça com força, como se isso pudesse dispersar meus pensamentos amargos. Eu não queria pensar nisso hoje, como também tinha prometido para Joshua. Então, só me virei e passei pela arcada, ansiosa para que o rosto de Joshua melhorasse um pouco o meu humor. Como eu esperava, Joshua estava ali, encostado em uma parede entre a passagem e a escada. Com um sorriso alegre, ele se desencostou da parede e chegou mais perto de mim. Fiquei quieta e parada, por mais que a parte racional do meu cérebro soubesse que não era preciso. Agora a nem um passo de mim, Joshua chegou para frente, bem perto do meu rosto, e então ficou ali por um instante. Após dez segundos de uma deliciosa tensão, Joshua se inclinou de lado. Mesmo não conseguindo sentir sua respiração na minha orelha, fechei meus olhos e fingi que podia sentir seu hálito quente e aveludado na minha pele. Pela primeira vez naquele dia, senti um arrepio de alegria. — Você ficaria ofendida... — sussurrou —, ...se eu te convidasse para subir até meu quarto comigo? 143


Abri os olhos e tentei não engasgar. Eu não sabia nada sobre minha vida, mas tinha certeza que nenhum garoto tinha me convidado para o seu quarto desde que morri. Mas é claro, há uma primeira vez para tudo. Então respondi com a voz mais firme que pude. — Imagine, claro que não. Quero subir, sim. Mas só desta vez. Não vá achando que vai ser sempre assim. — Não apostaria nisso se fosse você — Joshua se afastou e disparou um sorriso malicioso para mim. Revirei os olhos, mas pensando comigo mesma, Não fique de boca aberta. Não dê nenhuma risadinha. Só finja que não é nada. — Vamos lá, Joshua. — Soltei um suspiro, me esforçando ao máximo para projetar uma aura de tranquilidade. Ele deu risada e se virou para subir a escada. Nem toda a ―tranquilidade‖ que tentei passar foi o bastante para evitar que eu sentisse outro arrepio enquanto o seguia.

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Dezoito Meu primeiro passo dentro do quarto de Joshua me transformou em uma massa atordoada e pulsante de nervosismo. Mesmo com a porta entreaberta, o quarto inteiro estava totalmente escuro a não ser pelo meu sinistro brilho. Então, enquanto Joshua tateava entre as suas coisas, escondi minhas mãos inquietas atrás das costas e rezei para que o meu desconforto não ficasse visível ali no escuro. Ouvi um clique e então a penumbra de uma lâmpada iluminou a sala. Joshua estava do outro lado do quarto, com sua mão em uma pequena luminária de vidro que parecia um antigo lampião de minerador. Ele olhou para mim com um sorriso ansioso, mas sua expressão logo ganhou um ar mais descontraído quando viu minha postura. Eu estava com as mãos quase coladas atrás do corpo, balançando de leve para frente e para trás na ponta dos pés. Abri um sorriso tenso para ele. Um sorriso bem pouco convincente, imagino. — Tudo bem com você? — perguntou. — Tudo. — Por algum motivo, minha resposta saiu parecendo um gemido agudo. Por puro instinto, comecei a tossir para abafar esse som, e Joshua caiu na gargalhada. — Olha, Amélia, não estou acreditando muito em você. — É só que... bom, é a minha primeira vez no quarto de um garoto. — Em seguida, encolhi os ombros, tentando me justificar. — Eu acho... Ele deu risada de novo e, com alguns poucos passos, atravessou o quarto e me abraçou. Pegou minhas mãos, que ainda estavam atrás das minhas costas, e me puxou para mais perto dele até ficarmos colados um no outro. Agora estávamos tão juntinhos quanto na vez em que nos beijamos. Talvez até mais. Meu corpo todo parecia estar prestes a explodir, incendiado

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por um fogo delicioso e incontrolável. Minha respiração acelerou até ficar quase ofegante; e então, uma coisa totalmente inesperada aconteceu. Respirei fundo e então fiquei quase tonta com uma repentina sensação física de verdade. Um cheiro. Um cheiro fantástico — doce e almiscarado — me invadiu. Não era um aroma delicado, mas agradável mesmo assim. E vagamente familiar. Levei um momento até perceber que esse cheiro era o mesmo que eu tinha sentido naquela tarde quando quase trombei com Joshua no refeitório. Olhei para ele, encantada. Fiquei surpresa ao ver um sorriso tímido como resposta. Com todo carinho, desenlaçou suas mãos das minhas e me soltou. Na mesma hora, o cheiro desapareceu. Respirei fundo de novo. Nada. Só o vazio. Um vácuo. Expirei devagar, tentando guardar a memória daquele aroma e ao mesmo tempo não deixar que meu fôlego saísse parecendo o suspiro de decepção que estava ameaçando se tornar. Por sorte, Joshua não notou. Ele se apoiou em um poste da cama e então cruzou seus braços de novo. Mais uma vez, ele pareceu ansioso, talvez esperando um comentário meu sobre seu quarto. Juntei minhas mãos, com menos força desta vez, e comecei a olhar à minha volta. Como seria de se esperar em uma casa antiga assim, o quarto de Joshua era pequeno, mas confortável. A maior parte do espaço era dominada por sua cama escura de quatro postes. À minha frente, havia uma grande janela voltada para o sul, com uma vista para a noite lá fora. Logo abaixo dessa janela, ficava uma bancada larga de descanso, coberta com aconchegantes almofadas azuis. Vi também a coisa mais marcante do quarto: várias estantes de madeira escura cheias de livros que cobriam as paredes. Elas ocupavam todo o perímetro do quarto a ponto de ser impossível ver um centímetro sequer da parede, a não ser em cima da cama e uma bordinha estreita em volta da janela. Apesar da quantidade de móveis ali dentro, o quarto parecia estranhamente desentulhado. A única bagunça de verdade estava nas estantes, que estavam literalmente transbordando, cheias de livros enfileirados, com outros em cima dessas fileiras e mais outros ainda na frente. Livros com capas de couro junto com outros de capa mole. Livros de

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páginas gastas e já muito lidas ao lado de livros novinhos em folha. Uma biblioteca inteira dentro do quarto de um garoto adolescente. Fui até a estante mais próxima de mim e me virei para Joshua, erguendo as sobrancelhas. Ele continuou só me observando em silêncio, mas com um leve sorriso repuxando seus lábios. Sua cara serviu como uma permissão para que eu passasse meus dedos pelas lombadas de alguns volumes. — Você tem muito mais livros do que eu tinha, Joshua. Ele encolheu os ombros com um ar modesto. — Só alguns. — Eu conheço esses livros — murmurei, encantada. — Vários deles. — Imaginei que sim. Alguma coisa em seu tom fez com que me virasse de volta para ele. Sua expressão havia se acalmado, especialmente seus olhos. O jeito que ele estava olhando para mim agora... me deixou desconfortável e feliz ao mesmo tempo. Não consegui pensar em nenhuma palavra para descrever como eu estava me sentindo. Extasiada, talvez fosse a mais próxima. Antes que eu pudesse perguntar no que ele estava pensando, Joshua limpou a garganta e se acomodou melhor contra o poste da cama. Ele descruzou os braços e enfiou uma de suas mãos no bolso do jeans enquanto passava a outra pelos seus cabelos; sua clássica pose de desconforto. Essa visão foi totalmente encantadora, assim como o rubor que de repente dominou suas bochechas. — E aí, o que você achou? — apontou com uma das mãos para o quarto. Eu, por minha vez, abri um sorriso enorme e consegui arrumar coragem o bastante para fazer uma confissão: — Antes de dar minha opinião, só queria dizer que... bom, o seu quarto nem se compara, na verdade. — Não se compara com o quê? — perguntou, franzindo a testa. Abaixei a cabeça e soltei um suspiro. Em seguida, olhei bem em seus lindos olhos para responder. — Com você — disse com uma voz firme surpreendente, até para os meus ouvidos. O rosto de Joshua foi tomado de novo por aquele olhar intenso. Vários instantes se passaram, um mais tenso do que outro sob aquela atmosfera carregada. Em seguida, ele ergueu seu braço bem devagar e me estendeu sua mão. Estiquei a minha também e peguei a dele.

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A sensação de seu toque incendiou minha pele. Desta vez, o calor se espalhou mais rápido, como se cada novo toque intensificasse o efeito. E desta vez, esses arrepios incendiários chegaram a lugares estranhos da minha pele, a lugares que aceleraram minha respiração até ficar audível. Joshua deve ter sentido algo parecido, porque fechou seus olhos e soltou um gemido baixinho. Essa foi a gota d’água para mim. Agarrei sua mão com força, quase com violência, querendo que aqueles arrepios passassem. Após apenas alguns segundos, comecei a sentir sua pele de verdade, áspera e quente contra a minha. Fechei meus olhos também. Ainda o segurando, soltei minha mão da sua e a subi pelo seu braço até o ombro. Comecei a puxá-lo para mais perto de mim até chegar a poucos centímetros do seu corpo. Por fim, repousei minhas mãos em seu peito. E assim que perdi o contato com sua pele, voltei a sentir apenas a dormência de sempre. Mas desta vez, valeu a pena, só por ficar tão pertinho assim dele de novo. Continuei com os olhos fechados, mesmo quando ele colou seu corpo ainda mais no meu. — Amélia? — sussurrou, mexendo seus lábios bem ao lado da minha orelha. — Posso perguntar uma coisa? — Sim — disse, quase gaguejando. Pode me perguntar qualquer coisa. Qualquer coisa!, gritei dentro da minha cabeça. Eu quero beijar você de novo, sim. Não estou nem aí para os riscos. Joshua fez uma breve pausa e então... — Você quer ouvir música? Não era bem isso que eu estava esperando. Puxei a cabeça para trás e olhei para ele. Joshua estava com um sorriso malicioso no rosto, como se tivesse lido minha mente e evitado de propósito a pergunta que eu queria que ele tivesse feito. Fechei a cara um pouco. — Seu chato — murmurei. O sorriso de Joshua apenas cresceu. Eu já estava quase dando um tapinha no peito dele por me provocar, mas então reparei que sua respiração estava tão acelerada quanto a minha. Soltei um suspiro. Enquanto ele continuasse se mostrando pelo menos um pouco desnorteado com o nosso contato, acho que eu poderia perdoá-lo. Tirei minhas mãos com todo cuidado de seu peito e me afastei. Quando já estávamos a mais do que alguns centímetros um do outro, dei um show de espreguiçadas e bocejos exagerados. Tentei parecer bem entediada,

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toda indiferente. Joshua, é claro, não se deixou enganar, porque riu baixinho da minha performance. — Então a gente finalmente vai ser divertir um pouco? Ouvindo música, né? Joshua se sentou na cama e então deu um tapinha no lugar ao seu lado sobre a colcha azul. Fiquei meio empolgada com a ideia de me sentar... em sua cama... junto com ele, e então tentei ir até lá com o máximo de calma possível. Nem imagino quanto eu estragaria todo o clima se escorregasse por acidente de cima da cama e caísse no chão. — Na verdade... — disse Joshua. — A música faz parte do meu plano infalível. Ergui uma sobrancelha. — Seu ―plano infalível‖? Ele acenou a cabeça e seu rosto se iluminou, todo empolgado. Ele puxou uma das pernas para baixo do corpo e se virou mais para mim. — A gente precisa saber mais sobre sua personalidade, certo? — disse. Acenei a cabeça e então continuou. — Bom, o que poderia revelar mais sobre sua personalidade do que seu gosto musical? Repuxei o canto da minha boca, meio cética. — Isso não parece meio simples demais? Joshua balançou a cabeça, ainda sorrindo. — Na verdade, não. A não ser que a gente encontre uma máquina do tempo e volte pra 1999, nunca vamos ter como descobrir quem você era. Então talvez seja melhor só descobrir quem você é agora. Afinal, não é isso o que mais importa de qualquer jeito? Pisquei os olhos, surpresa. — Olha... bom, essa pode mesmo ser uma ideia genial, Joshua. Ele encolheu os ombros de novo. — Não é só porque eu não sei resolver equações diferenciais que sou um inútil também! Dei risada e então espelhei sua postura, cruzando minhas duas pernas sob meu corpo. — Mas e aí? Como a gente vai fazer? — Bom, vou dar uma de DJ e você vai me dizendo do que gosta. — Entendi — disse com um aceno firme, refreando arrepiozinhos de empolgação.

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— Sei lá... talvez você reconheça alguma coisa. Desde que a gente não descubra que você curte death metal, acho que dá para descartar a hipótese de você ser uma satanista em potencial. — Tá bom, só não me julgue se eu curtir! — disse, rindo. Ele deu risada e então se inclinou até seu criado-mudo para mexer em alguma coisa. Estiquei o pescoço para ver melhor o que era. Parecia ser uma caixinha de plástico com uma tela brilhante em cima de um pequeno aparelho de som. — Que coisa é essa? Joshua parou o que estava fazendo sem soltar daquela caixinha e então me olhou com um ar intrigado por cima do ombro. — Você nunca viu um MP3 player antes? — Um o quê? — um tom defensivo irrompeu na minha voz. — Morri em 1999, lembra? — Tudo bem — Joshua me abriu um sorriso reconfortante e voltou a mexer no aparelhinho. — Não lembro se essas coisas faziam muito sucesso nessa época. — Provavelmente não entre meninas pobres de Oklahoma — resmunguei. Joshua apenas acenou a cabeça, distraído demais com o que estava fazendo para responder em voz alta. O aparelho fez uns zunidinhos sob as mãos de Joshua e então as notas cristalinas de uma música ecoaram pelo quarto. Concluí que aquilo estava vindo dos alto-falantes e do ―MP sei lá o quê player”. — Me diga o que você acha — murmurou Joshua enquanto se encostava em seu travesseiro. A música começou com uma guitarra tranquila, dedilhando uma melodia triste. Em seguida, a voz de um jovem entrou no ritmo, com um sotaque sulista e meio arrastado. Enquanto ele cantava, batidas de uma bateria e uma guitarra mais intensa se fundiram com sua voz. A canção foi ganhando corpo até eclodir em uma explosão de melancolia: como os lamentos de alguém triste, mas também enfurecido ao mesmo tempo. Por fim, a música foi chegando ao final, e eu soltei um leve suspiro. — Nunca ouviu essa? — perguntou Joshua. — Não, nunca. Mas gostei. — É uma das minhas favoritas. — Joshua ficou com uma expressão estranha enquanto me via ouvir aqueles últimos acordes. Parecia estar quase orgulhoso por a gente ter o mesmo gosto. Abri um leve sorriso ao pensar nisso. 150


— O que mais você tem aí? — perguntei. — Vamos ver... — ele mexeu no aparelhinho de novo até encontrar algo interessante. — Isso é do começo dos anos 2000. A Jillian gosta de ouvir essa quando a gente sai de carro. É o que ela chama de ―clássico‖, o que é meio irônico, se você parar para pensar. As caixas de som retumbaram com um baixo. Depois de algumas batidas fortes de bateria, a voz de uma garota entrou com uma melodia quase inaudível sob os outros instrumentos. Ela não era a melhor cantora do mundo, mas tinha uma voz rouca que alguém poderia até chamar de sexy. Torci o nariz cada vez que ela saía do tom. — Não — disse eu após algumas repetições do refrão. — Não conheço e não gostei. — Graças a Deus — bufou Joshua, pulando para o final da música para o meu alívio. — Pior que death metal, né? — comentei com um sorrisinho brincalhão. — Pois é. — Ele deu risada. — Se você tivesse gostado disso, acho que eu poderia até acabar entrando para a campanha exorcista da vó Ruth. — Engraçadinho — disse eu, enquanto Joshua tentava encontrar alguma outra coisa em seu MP3 player para a gente ouvir. — Vamos lá. Esta é do final dos anos 90. É de uma banda de rock que eu ouvia quando era criança. Gosto muito dessa música, mas era novo demais na época para lembrar se ela fez sucesso ou não. — Joshua deu mais um clique no aparelhinho e então se virou de volta para me observar. Essa começou mais ou menos como a primeira, com alguns acordes repetidos de guitarra. Logo depois, a bateria e a voz de um homem — mais velho do que o da outra, mas com o mesmo tom arrastado — entraram na música. Quando o homem cantou mais alto, a guitarra o acompanhou. A melodia foi ficando intensa e alegre. Com isso, me lembrei de como tinha me sentido no carro de Joshua enquanto íamos até sua escola. Livre, como se estivesse voando. Em seguida, aquilo me lembrou de outra coisa. Lá pela metade da música, bem no clímax, o cenário à minha volta começou a reluzir e então se transformou. Quando a imagem se estabilizou, eu já não estava mais no quarto de Joshua. Estava em algum outro quarto, de frente para uma janela aberta com vista para um quintal iluminado pelo sol. Minhas mãos estavam apoiadas em um batente de madeira, sentindo a textura rústica das lascas 151


de sua tinta branca descascando. Uma brisa morna que vinha de fora banhou meu rosto, com um leve arzinho frio, prometendo o outono que estava por vir, mas ainda cálida pelo fim do verão. Em algum lugar atrás de mim, um rádio estava tocando a mesma música que eu tinha acabado de ouvir no quarto de Joshua. Enquanto o homem entoava sua alegre canção, abri um sorriso, balançando ao som da melodia. Livre, como se estivesse voando. De repente, essa memória se esvaiu. Vestígios da luz desse flashback continuaram dançando pelos meus olhos, criando manchas escuras estranhas, como se eu tivesse olhado direto para o sol. Levei alguns segundos para conseguir voltar a ver direito — a ver Joshua me observando com um ar ansioso. Quando meus olhos voltaram ao normal, um sorriso começou a se abrir no meu rosto. — Conheço essa! — exclamei. — Conheço essa música! Já ouvi uma vez, dentro de uma casa... da minha, acho. — Legal! — comemorou Joshua, batendo as mãos nos joelhos. Em seguida, se inclinou mais para perto de mim e sussurrou: — Sabe, acho que uma menina que gosta tanto das mesmas músicas que eu não pode ser tão má assim. — Vamos torcer para que não — murmurei em resposta. — Não preciso torcer. Tenho certeza. Eu estava só brincando — nós estávamos brincando — , mas então percebi que acreditava do fundo do meu coração no que ele tinha acabado de dizer. Eu não era má. Ruth estava errada. Eli estava errado. Não que eu tivesse muitas provas: só uns acordes de guitarra, algumas memórias desconexas e um punhado de momentos com aquele garoto. Mas então tive essa mesma certeza. Acreditei. Me concentrei melhor em Joshua. Mesmo não tendo como saber no que eu estava pensando, ele olhou bem nos meus olhos. Depois de mais alguns segundos desse silêncio ensurdecedor, Joshua abaixou a cabeça e ficou olhando para sua colcha. Ele começou a parecer nervoso, puxando um fio solto do seu jeans. Sentindo essa mesma tensão, fiquei remexendo na minha saia. Mas nesse silêncio, percebi algumas mudanças sutis. Eu não conseguia falar com Joshua, mas era como se tivéssemos acabado de compartilhar um momento muito íntimo. Mais íntimo do que qualquer coisa pela qual já tínhamos passado até então. 152


Joshua limpou a garganta e se virou para mexer em seu aparelhinho de novo, talvez em uma tentativa de aliviar a tensão. Ele pôs para tocar uma música que reconheci quase na mesma hora: uma suave melodia de violino. Vivaldi. Abri um leve sorriso enquanto Joshua se virava para se acomodar na cama de novo. — Gostei dessa. — Pois é, imaginei, porque gosto muito também. — Ele me abriu um sorriso tímido. — É legal para dormir. Ao ouvir isso, franzi a testa e esbocei levantar da cama. — É para eu ir embora...? — Não — disse Joshua, estendendo a mão para mim. — Fique aqui. Converse comigo. Fiquei mais do que feliz em aceitar seu convite. Me acomodei melhor em cima da colcha e puxei minhas pernas embaixo do meu corpo. Passamos horas conversando, sentados juntinhos na cama, parando apenas quando ouvíamos alguém de sua família passar pela porta. Ao longo da conversa, começamos a mudar de posição. Em um certo momento, ele tirou os tênis e se esticou inteiro na cama. Eu me deitei ao seu lado, apoiada em cima do meu cotovelo, enquanto suas pálpebras começavam lentamente a pesar. Por fim, já bem depois das duas da manhã, Joshua se virou para desligar sua luminária na mesinha ao lado da cama e então encostou a cabeça no travesseiro e fechou os olhos. Eu ainda podia ver seu rosto no escuro, só o bastante para observá-lo quase caindo no sono. Antes que Joshua apagasse de vez, queria perguntar uma última coisa para ele. — Joshua? — sussurrei. — Hum...? — Você nunca me explicou por que preciso chamar você de Joshua se todo mundo chama você de Josh. — Não? — sua resposta saiu abafada, em grande parte porque, enquanto falava, ele se virou de lado para mim. Só precisaria chegar um pouquinho mais perto para se encostar em mim, para incendiar toda a minha pele de novo. Balancei a cabeça, me esforçando para não pensar naquilo. — Não, não explicou. Por sorte, Joshua já estava quase dormindo, porque claramente não percebeu o tom agudo ridículo com o qual minha voz saiu. Dei uma bronca

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em mim mesma dentro da minha cabeça, me mandando parar de agir feito uma idiota sempre que ele chegava perto de mim. A resposta murmurada de Joshua dispersou meus pensamentos. — As pessoas que mais gosto no mundo... elas me chamam de Joshua. — Então... sou uma dessas pessoas? De quem você mais gosta? Aquele tonzinho agudo idiota voltou a se manifestar nesse meu sussurro ansioso. — Aham... — um leve sorriso repuxou os lábios de Joshua. Ainda de olhos fechados, ele pôs um braço em volta da minha cintura. Não senti nada além de uma pressão fraca, mas... ainda assim, nossa! Joshua estava com seu braço em volta de mim. Na cama. Dei uma tossida para melhorar minha voz e então me preparei para disparar a pergunta mais idiota que eu poderia fazer. — Hã... tenho mais uma pergunta. Uma meio estranha. — Pode falar — disse ele, sem abrir os olhos. — É bem estranha mesmo — alertei. Ele grunhiu e abriu um olho para mim. Ergueu uma sobrancelha com um ar sonolento, como se estivesse cansado demais até para fazer só isso. Soltei um suspiro e fiz logo a pergunta. — Só queria saber... você sente o meu cheiro? — Hã? — Ele abriu os dois olhos agora, ainda que não muito. — É que... eu não sinto o cheiro de nada em geral — gaguejei, envergonhada. — E eu, hã... senti seu cheiro hoje. Duas vezes. — Sério? — Ergueu a sobrancelha de novo. — E como é? — É gostoso. — Hum... sabe de uma coisa estranha? — bocejou, fechando os olhos de novo. — Não sinto seu cheiro quase também. Só de vez em quando. — E como é? — repeti sua pergunta, tentando manter o tom tranquilo enquanto rezava para não feder a ectoplasma, árvores mortas ou qualquer coisa assim. — É gostoso — murmurou. — Docinho. Tipo pêssego, ou nectarina. No escuro e com os olhos fechados, Joshua não conseguiu ver o enorme sorriso que se abriu no meu rosto. — Que legal — sussurrei antes de me acomodar ao seu lado, ainda aconchegada sob seu braço.

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Dezenove Enquanto a noite

se transformava em manhã, e Joshua continuava

dormindo, voltei a pensar, ainda que contra minha própria vontade, em Eli. Levei Ruth bem a sério quando ela disse que iria ―acabar comigo‖. Ela e suas amigas — outras videntes, sem dúvidas — queriam pôr um fim no meu pós-vida e eu sabia disso. Então precisava encontrar um jeito de me defender delas, e rápido. Mas eu estava com a estranha sensação de que não conseguiria fazer nada até descobrir mais informações sobre a minha natureza espectral. Precisava entender como os fantasmas interagiam com o mundo dos vivos. Precisava entender meus pesadelos, e talvez minha própria morte. Precisava saber se Eli tinha aprisionado meu pai no submundo junto com aquelas outras almas desesperadas. Como Ruth não tinha me explicado nada ontem, me restava uma única outra fonte. Por mais que eu odiasse admitir, e apesar de todo o cuidado que eu precisaria ter ao abordá-lo, Eli devia ter as respostas para algumas das minhas perguntas mais urgentes. As que eu precisava responder antes que Ruth e suas amigas tornassem essa tarefa simplesmente impossível. Quanto mais pensava nisso, mais se firmava minha determinação. Quando já estava quase amanhecendo, cheguei perto do ouvido de Joshua. — Joshua? — sussurrei. — Hum...? Ao ver seu rosto tão tranquilo, decidi arriscar uma abordagem mais carinhosa. — Joshua, querido, preciso fazer uma coisa hoje. — Hum...? — Preciso descobrir mais algumas coisas. Não sei quanto tempo essa... coisa... vai levar, mas acho que é importante. A gente não tem como enfrentar os outros videntes se não souber tudo o possível, não é?

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— Claro — grunhiu. Apesar disso, no entanto, ele claramente ainda estava dormindo. — Que bom que você concorda — sussurrei, sorrindo. — Você pode me encontrar aqui, hoje à noite, mais ou menos quando estiver escurecendo? — Aham... Meu sorriso cresceu enquanto ele franzia a testa. Com esse gesto, pareceu ter levado a promessa a sério, mesmo dormindo. Passei mais um instante olhando para ele e então cheguei mais perto. Com todo cuidado, dei um beijo em sua testa, bem acima das sobrancelhas. O calor desse leve toque se espalhou pelos meus lábios, transformando-os em dois carvões em brasa. Fechei os olhos por um instante, me deliciando com essa sensação. Em seguida, levantei da cama. Atravessei o quarto e parei na porta, que Joshua tinha deixado aberta, e então olhei para ele. — Até mais — sussurrei. Mordi meu lábio e, em um instante da mais pura impulsividade, complementei: — Aliás... acho que eu... tipo... amo você. — Também — murmurou Joshua, todo grogue. — Amo. Ele estava dormindo, e essas palavras não significavam nada, sabia muito bem. Mas isso não me impediu de abafar um gritinho de alegria enquanto saía do quarto. Precisei me esforçar para não descer a escada pulando até a cozinha. Foi só quando cheguei à porta da cozinha que meu humor afundou. Na verdade, ―afundou‖ seria uma expressão meio delicada demais. Acho que ―mergulhou‖ seria a palavra mais adequada à situação. Porque curvada sobre uma revista em cima da bancada, folheando as páginas tranquilamente, estava Ruth. Quando entrei na cozinha, a cabeça de Ruth continuou abaixada, enquanto os raios brilhantes do começo da manhã iluminavam seu cabelo. Ela parecia não ter reparado em mim. Minha esperança era que se eu conseguisse atravessar a cozinha na ponta dos pés até o corredor dos fundos, talvez pudesse passar despercebida. Mas não fiquei nada surpresa quando a voz de Ruth me deteve. — Sabe... — disse ela, sem tirar os olhos da revista. — Achei que tinha deixado bem clara minha opinião sobre sua amizade com meu neto. — Mordi meu lábio inferior com força, sem dizer nada. — Mas mesmo assim... — continuou Ruth sem esperar qualquer resposta. — Aqui está você.

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Ela virou a última página para fechar a revista e então por fim ergueu a cabeça, concentrando seus gélidos olhos em mim. Por um instante, não fiz nada. Não reagi. E então, bem devagar, acenei a cabeça. — Sim. Aqui estou. Ruth soltou um suspiro. — Posso saber por quê? Armei minha cara com o que eu esperava ser uma expressão firme. — Porque fui convidada, Ruth. — Não pelas pessoas que importam. — Não tenho medo de você — disse eu, me dando um gigantesco parabéns por dentro por não ter gaguejado. Ruth se levantou na mesma hora, com as mãos firmes na borda da bancada e um sorriso seco nos lábios. — Mas deveria ter — sussurrou. De repente, senti uma violenta dor de cabeça, parecida com a que tinha sentido ontem em frente à igreja. Parecida, mas não idêntica. Porque dessa vez foi muito, muito pior. Minha cabeça quase explodiu, e uma dor brutal desceu pelo meu pescoço e se espalhou atrás dos meus olhos, que fechei com força para me defender, mas esse esforço não me trouxe nenhum alívio. Depois de mais alguns segundos, não aguentei e acabei caindo de joelhos, com as duas mãos nas têmporas, como se eu pudesse conter aquela dor à força. A dor de cabeça continuou a piorar enquanto me encolhia, explodindo em clarões ofuscantes de luz atrás dos meus olhos. Esses clarões pulsavam como luzes estroboscópicas no meu cérebro, um após o outro até que então, de repente, eles se transformaram. Em vez de clarões de luz, comecei a ver imagens, passando de novo em rápida sucessão sob minhas pálpebras, como uma espécie de montagem, indo tão rápido de uma imagem para outra que mal conseguia ver seus detalhes: as rugas no canto dos olhos do meu pai; um campo de grama alta balançando ao vento; um fio do cabelo escuro da minha mãe; o brilho de um raio reluzindo contra alguma coisa de metal. As imagens continuaram a passar zunindo pela minha cabeça até eu não conseguir entender mais nada. — Pare... — gemi, cravando os dedos com força entre os meus cabelos, me causando dor também.

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Para o meu espanto, a dor de cabeça passou na mesma hora. As imagens desapareceram e a dor evaporou de repente, como se nunca tivessem sequer me atingido. Sem tirar minhas mãos da cabeça, abri os olhos e me virei para Ruth. Ela ainda estava me encarando com seu sorriso tenso, mas agora, seus olhos escuros reluziam com uma energia potente e maliciosa. — Sua vida acabou de passar diante dos seus olhos, minha querida? Isso é só um gostinho do que está à sua espera amanhã à noite — sussurrou. Ruth apontou com sua cabeça para o corredor atrás de mim. — Sua presença não será mais permitida nesta casa. Agora, suma daqui. Nem precisei ouvir mais nada. Eu me levantei em desespero, quase caindo no chão, e fugi às pressas pelo corredor. Tive um breve momento de pânico, sem saber como iria sair daquela casa sem a ajuda de ninguém. No entanto, ao olhar para o pé da porta dos fundos, me dei conta de que essa ajuda já tinha sido providenciada. No chão, apoiado de pé entre a porta e o batente, estava um livro enorme. A julgar pela sua capa surrada de couro, devia ser um livro antigo e provavelmente valioso. Havia uma coroa de ervas e flores secas enrolada à sua volta para fechá-lo. Em letras douradas, pude ler de relance as palavras A BÍBLIA SAGRADA rabiscadas na capa. Obra de Ruth, sem dúvida. Algum tipo de talismã de proteção contra qualquer coisa sinistra que eu pudesse ter planejado. E do jeito que estava agora — encostado contra a porta, deixando só o espaço suficiente para alguém passar —, aquele livro também passava uma mensagem bem clara. Suma daqui, menina morta. — Seu pedido é uma ordem, Ruth — murmurei, trêmula, e então escapei pela abertura. Cheguei à margem do rio e fiquei andando de um lado para o outro, sem querer chegar perto demais da água, mas também sem querer ficar muito longe também. A área em si estava vazia a não ser por mim e alguns poucos grilos que trilavam aqui e ali. — Estou aqui — gritei para o alto, ouvindo minha voz ecoar contra a superfície do rio. — Você disse que eu iria voltar para conversar, e você tinha razão. Então vamos conversar logo. Fui respondida apenas pelo farfalhar das folhas. Soltei um suspiro e comecei a marchar com mais força de um lado para o outro.

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— Oi? Tem alguém aí? Vou ter que fazer uma dança da chuva ou alguma coisa assim? — Só se você quiser que chova. Um ar gelado caiu sobre mim como uma onda, subindo pelo meu corpo até por fim chegar à pele mais sensível dos meus ombros e do meu pescoço. Quase estremeci, mas minha vontade de mostrar uma postura confiante a Eli foi maior, então tentei manter meu rosto sem expressão alguma, apesar de tudo, enquanto me virava. Eli estava ao lado do rio, onde até instantes atrás, não havia nada além de grama e barro. Ele cruzou os braços — espelhando a posição que eu sem querer havia assumido assim que ele surgiu — e se inclinou para frente com um sorriso conspiratório. — Oi, Amélia. — Oi, Eli — respondi com um tom claramente menos descontraído. — E então... — disse, mal contendo a diversão em sua voz. — O que eu posso fazer por você nesta bela manhã? Ao ver seu sorriso presunçoso, perdi minha última gota de confiança. Mas me forcei a limpar a garganta e endireitar as costas antes de falar. — Tenho algumas perguntas para você. — Como quais? A curiosidade genuína em seu tom, que em geral era todo arrogante, me surpreendeu. Será que nem ia ser tão difícil quanto eu imaginava? Essa reviravolta inesperada me desnorteou, e então disparei a primeira pergunta que veio à minha mente. — Como você chegou aqui tão rápido? Não tinha ninguém aqui até segundos atrás. Eli encolheu os ombros. — Eu só me materializei. — Você o quê? Ele pôs as mãos nos bolsos de seu jeans apertado e chegou mais perto de mim. — Você nunca reparou no que acontece quando fica muito nervosa ou empolgada? Que você pode viajar pelo tempo e pelo espaço à vontade? Franzi a testa. — Hum... não exatamente. Ele parou a um só passo de mim, fazendo “tsc, tsc”. — Você deveria tentar reparar mais nessas coisas, Amélia.

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Fechei um pouco a cara. Lá estava aquele tom arrogante que eu já conhecia tão bem. — Por que você não tenta ser um pouco menos metido, Eli? Porque senão, vou embora. Ele fez “tsc, tsc” de novo. — Você não me chamou aqui? — Sim, mas também posso mandar você embora. — Não duvido disso. — Em seguida, seu sorriso se esvaiu, e ele inclinou sua cabeça para me encarar com uma expressão um tanto intrigada. — Sabe, estou bem interessado mesmo em ver do que você é capaz. — Como assim? — Bom — disse ele. — Todos nós temos poderes... e quando digo ―nós‖, estou falando dos mortos. Você não é nenhuma exceção, tenho certeza. — Poderes? Tipo conseguir viajar pelo tempo e pelo espaço à vontade? Ele acenou a cabeça. — Sim, esse é um dos poderes mais comuns. Mas na verdade, Amélia, isso não deveria ser nenhuma novidade para você. Já vi várias desmaterializações suas, sempre que você sumia. Pisquei os olhos, totalmente surpresa. Do que diabos ele estava falando? Nunca tinha me ―desmaterializado‖, ou seja lá do que ele estivesse falando. Mas em seguida, de repente me toquei. Os pesadelos. Será que meus pesadelos na verdade seriam desmaterializações? Algo talvez até controlável por meio de emoções extremas? Essa poderia ser uma das respostas que eu procurava então. Olhei para Eli, sem conseguir esconder minha empolgação. — O que mais a gente pode fazer? Amaldiçoei na mesma hora minha própria estupidez. Ao ver o brilho em meus olhos, Eli sorriu. E então, naquele instante, algo ficou muito claro em seu rosto: ele sabia que estava por cima. Eu queria seu conhecimento, desesperadamente, e então dependia dele. Pelo menos por enquanto. — Se você quiser mesmo que eu responda suas perguntas... — disse ele com aquele tonzinho arrogante ainda em sua voz — ...minha ajuda obviamente virá sob certas condições. 160


— Obviamente. Eli acenou a cabeça, e de repente senti que esse gesto havia selado algum tipo de acordo. Um que eu não sabia bem se queria mesmo fazer. Mas já era tarde demais. Eli juntou as mãos atrás das costas e se virou para sair caminhando em direção ao bosque. — Calma — gritei, apesar dos meus receios. — Achei que a gente tinha um... trato? Eli riu alto, mas não parou de andar. — É claro que temos. E esse trato acabou de ganhar uma cláusula de mobilidade. Então é melhor me acompanhar. Enquanto Eli entrava entre as árvores, a margem do rio escureceu na mesma hora atrás dele. Aparentemente sem nenhum comando seu, o lugar se transformou no submundo. Mas, por enquanto, as figuras negras esvoaçantes e as almas angustiadas ainda não apareceram, deixando só um gélido cenário reluzente à minha volta. Lancei um olhar hesitante por cima do ombro para o rio escuro como piche que se arrastava até a ponte. A princípio, achei que aquele buraco negro não estava visível hoje. No entanto, ao olhar melhor agora, vi um pontinho de escuridão surgir embaixo da ponte e então começar a crescer, com suas bordas negras se desdobrando para todos os lados. Por fim, o abismo parou de se expandir, mas mesmo parado, aquilo pulsava e se remexia como uma criatura agachada, pronta para atacar. Depois de uma última temerosa olhada para trás, estremeci, e então me virei para frente de novo. — Amélia Elizabeth Ashley — sussurrei para mim mesma. — Você é uma idiota. E então, segui a figura mais sinistra que já tinha visto para dentro daquela floresta escura e sombria do submundo.

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Vinte Quer ouvir uma história, Amélia? Já estávamos andando em meio àquele bosque coberto de gelo há pelo menos vinte minutos, trilhando um caminho torto e aparentemente errático entre as árvores. O cenário foi ficando cada vez mais estranho — arbustos congelados e espinhentos como garras arranhavam meus calcanhares; um musgo quase roxo cobria todas as superfícies expostas; e enormes flocos borralhentos, que poderiam ser tanto neve, quanto de cinzas, começaram a pairar à nossa volta — no entanto, Eli ainda não tinha dito para onde estávamos indo. Na verdade, Eli não tinha dito nem uma palavra sequer durante essa caminhada, nem mesmo em resposta às minhas perguntas iniciais. Enquanto eu observava suas costas — sempre viradas para mim e um metro e meio à minha frente — , fui ficando cada vez mais irritada. Soltei alguns suspiros de incômodo e até fiz um ou outro “aham”. Ainda assim, minha performance não arrancou nem um pio de Eli. Por isso mesmo, quando ele por fim se pronunciou, cheguei a dar um pulinho de surpresa. Levei um instante até me recompor o bastante para responder sua pergunta, mas quando consegui, minhas palavras saíram abertamente carregadas de impaciência. — Depende, Eli. Essa história é relevante? — O que seria relevante para você? — rebateu Eli. Soltei um suspiro tão alto que pareceu mais um grunhido. Eli parou de andar e se virou para mim. Ele pôs as mãos nos bolsos e me encarou nos olhos só por um instante. Em seguida, desceu seu olhar até meus pés e então voltou a erguê-lo lentamente, analisando meu corpo, me fazendo remexer de desconforto. — Tudo bem, me conte a história — disse, seca. — Quem sabe assim você para de ser tão inconveniente. 162


Ele ergueu a cabeça com um gesto rápido e então me olhou bem nos olhos. — Ah, mil perdões. Eu estava sendo inconveniente? — ainda olhando feio para ele, repuxei o canto da boca com um ar de reprovação. — Tudo bem. — Voltou a me analisar, mas dessa vez, com um ar menos malicioso. Em seguida, acenou a cabeça para mim. — Bom, como deixei você incomodada, que tal se me desculpar te contando uma coisa sobre mim? — Só se isso tiver alguma coisa a ver com o que quero saber. Um sorriso repuxou seus lábios, e ele então se virou para continuar andando em frente pelo bosque. Hesitei um pouco, ainda incerta, antes de começar a segui-lo de novo. — Eli? — disse. Ele continuou calado por um instante e então respondeu: — Você nunca se perguntou por que estou vestido assim? Com o que eu trabalhava? Analisei as costas de sua camisa preta esvoaçante. — Bom, pelo visto, parece que você não era um contador. Quando lançou um rápido olhar para trás sobre seu ombro, Eli pareceu estar rindo. — Nisso você tem razão. Enfim, se eu soubesse o que iria acontecer comigo na noite em que morri, teria posto uma calça mais confortável. Ou pelo menos abotoado a camisa. — Levando em conta a minha própria roupa, nem podia dizer nada. Limpei um floco cinzento que tinha caído na minha saia, que não era bem de cinza, mas sim de neve mesmo, acho, e então acenei a cabeça para Eli. — Mas quando você acaba de sair de um show em 1975... — continuou — ...a última coisa que passa pela sua cabeça é trocar de roupa, isso posso te garantir. — Você morreu depois de ver um show? — Na verdade, Amélia, morri antes de fazer um show. Cambaleei um pouco de surpresa e então parei por completo. — Como é que é? Eli parou também. Depois de se virar para mim, ele me abriu um sorriso convencido. — Quando vivo, eu era vocalista de uma banda de rock. A gente estava indo muito bem, aliás. Começando a ganhar fãs... e até negociando com uma gravadora.

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Só meus olhos se mexeram, analisando as roupas de Eli de novo: aquela calça superjusta, o cabelo desgrenhado, os vários colares sobre seu peito nu. — Então... você era um roqueiro famoso? — Eu estava a caminho de me tornar um roqueiro famoso. Eu até já tinha minhas próprias groupies. — Seu sorriso se alargou. — A gente chegou a ser contratado para um show bem grande na Cidade de Oklahoma, mas nosso ônibus acabou quebrando aqui em Wilburton antes de chegar lá. — Nossa — disse, impressionada, ainda que a contragosto. Fiz uma pausa e então disse: — Bom, imagino que você nunca tenha chegado a fazer esse show. Eli não disse nada, só ergueu uma sobrancelha, confirmando meu palpite. Nesse instante, sua fachada orgulhosa vacilou. Não tenho bem certeza, mas acho que foi a primeira vez vi Eli com um ar melancólico, como se estivesse chateado mesmo pela fama e a fortuna que poderiam ter sido suas. — Mas e aí... o que aconteceu? — perguntei. Eli fez uma careta ao relembrar o corrido. — Nosso motorista insistiu em cortar caminho no meio da noite, passando por uma ponte velha e vagabunda. — Franziu ainda mais a testa, como se estivesse tentando se lembrar de tudo. — E enfim, quando o ônibus enguiçou no meio da ponte, a gente decidiu descer para ajudar o sujeito com o motor. Mas a gente não tinha muito o que fazer. Todo mundo já tinha bebido muito, é claro, e usado algumas outras coisinhas também. Não demorou muito para a gente... ficar bem louco. Até que alguém teve a brilhante ideia de pular do alto da ponte. — Você o quê? — perguntei, surpresa. — Você pulou do alto daquela ponte? Eli riu alto, em um estranho contraste com sua história. — Bom, Amélia — disse. — Obviamente não saí voando. E esse foi o desagradável desfecho da minha vida, por assim dizer. Passamos mais alguns instantes em silêncio enquanto nós dois assimilávamos suas palavras. Minha repulsa por Eli diminuiu um pouco graças a essa última revelação: ele tinha morrido no mesmo lugar terrível que eu. E agora, nós dois estávamos presos entre o mundo dos vivos e seja lá o que existisse fora deste limbo escuro e gelado. Franzindo a testa, olhei para o musgo congelado sob meus pés.

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— Sabe, Eli, não me lembro de muita coisa. Mas vou ser sincera com você... não me lembro mesmo de nenhuma história sobre algum roqueiro que morreu pulando daquela ponte. Eli bufou com um ar orgulhoso, e eu ergui a cabeça. Pelo canto repuxado de sua boca, notei que eu o tinha ofendido. — Como disse, Amélia, eu estava a caminho de me tornar um roqueiro famoso — explicou, falando rápido. — Quando morri, poucas pessoas me conheciam ou eram minhas fãs. Mas é uma coisa que ia acontecer... tenho certeza. Por algum motivo estranho, fiquei me sentindo meio culpada por ter ferido seu orgulho, pelo menos nesse assunto. A história da vida de Eli era a única coisa que o fazia parecer... bom, humano. — Desculpa, Eli, sério — disse com um levíssimo sorriso. — Aposto que você ia estourar mesmo. Ficar superfamoso e tudo. — Quando ele pareceu se acalmar um pouco, voltei a pressioná-lo. — Mas continue, Eli. Me conte o que aconteceu depois que você morreu. Ele soltou um suspiro e voltou a concentrar seus olhos nos meus. — Acredite se quiser, os primeiros anos do meu pós-vida foram muito menos tranquilos do que os seus. Esses anos foram meu castigo, tenho certeza. Morri com raiva... não do mundo, mas de mim mesmo, por ter perdido todo aquele sucesso. Todo aquele poder. Eu queria atacar os vivos em vez de pedir a ajuda deles, como você fez. Acho que acabei virando uma assombração. Descobri que se eu usasse minhas emoções mais fortes, podia afetar o mundo dos vivos. Mexer nas coisas até. Conseguia quebrar janelas, derrubar luminárias. Enfim, infernizar as pessoas em geral. — Quem diria, né? — murmurei. — Pare de me interromper — rebateu Eli, mas com um leve sorriso. — Passei uns anos assim. Até eles virem atrás de mim, claro. — Alguma coisa no jeito como ele disse ―eles‖ me deu um calafrio. — Não sei o que viram em mim para achar que eu era digno — continuou Eli, sem perceber meu desconforto. — Mas um belo dia, enquanto estava andando de um lado para o outro pelo rio, eles apareceram para mim. Me explicaram todas as coisas o que eu sempre quis saber; minha natureza enquanto um fantasma, meus poderes e o meu objetivo. Eles me disseram que eu era especial... talvez até essencial para a missão deles. Como já disse antes, eles me contrataram para um trabalho muito importante e me deram controle sobre este lugar. Eles fizeram com que eu voltasse a serpoderoso. — Apontou com um gesto

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grandioso para as árvores tortas e reluzentes à sua volta e para o céu escuro e mortiço sobre nós, e então estremeci. — Um campo gelado só para você? — O frio faz parte do mundo deles, Amélia. E do nosso. — Do seu — o corrigi com cuidado. — Nisso, você está errada — rebateu. — Ah, é? E quanto ao que exatamente estou errada? — Quanto à solidão deste lugar. Ele foi feito para ser compartilhado, sabe. — Com quem? — Meus mestres sempre quiseram que dois fantasmas trabalhassem juntos, trazendo almas para este mundo. — Dois fantasmas? — ergui uma sobrancelha e olhei com um ar preocupado para o bosque à nossa volta, onde não havia mais ninguém. Eli queria que me juntasse a ele, é claro, mas só então me dei conta de que ele devia estar cuidando desse trabalho há muito tempo sem ajuda nenhuma. Um olhar estranho iluminou o rosto de Eli, um que não consegui entender muito bem. Várias emoções poderiam explicar sua expressão: hostilidade, arrogância... e talvez até um pouco de medo. Antes que eu pudesse concluir se era uma dessas opções ou todas ao mesmo tempo, Eli me deu uma resposta seca: — Tive um mentor antes. E agora não tenho mais. Ele virou seu rosto para que eu não pudesse ver sua expressão direito. Estava claro que ele queria mudar de assunto, e logo. Pisquei os olhos, surpresa com sua reação. — Hum... e onde está esse seu mentor agora, Eli? Com seu rosto ainda virado, Eli encolheu os ombros. — Foi embora. Só isso. Percebi que essa história era mais complicada... muito mais. De repente, senti um impulso irrefreável de descobrir o que tinha acontecido com o antigo mentor de Eli. Meu palpite era que não devia ter sido nada muito agradável. Abri a boca para insistir no assunto, mas Eli me deteve com um aceno em negativa. — Não vou falar sobre meu tempo de aprendiz, Amélia, então é melhor nem perguntar. Estou mais interessado em ter meu próprio aprendiz. — Ah, e eu sou a principal candidata no momento, é isso? — repuxei a boca com um ar de desprezo para mostrar bem a Eli o que eu achava dessa honra. 166


— Na verdade... — disse Eli, me lançando outro olhar estranho — ...você não foi a primeira assistente que escolhi entre as almas que trouxe para este mundo. — Hã? — rebati. — De quem você está falando? Seu rosto então se alterou, perdendo seu ar presunçoso para ganhar outra expressão, uma que não consegui identificar a princípio. Em seguida, percebi... era tristeza. Seu olhar não era irônico, nem de desprezo, ou mesmo de raiva. Apenas triste. Ele foi lentamente até um galho baixo de uma árvore — um que descia, se virava para o lado e então voltava a subir contra o ar cinzento como um J torto — e então se sentou nele como se fosse um banco improvisado. Eli tirou as mãos dos bolsos e as colocou sobre os joelhos. Quando voltou a falar, seus olhos não saíram de um ponto fixo no musgo sob seus pés. — Da Melissa — disse esse nome com uma voz terna e melancólica, como se cada uma de suas três sílabas fosse muito preciosa. — Quem é Melissa? — Ela é... foi... meu primeiro gostinho verdadeiro de vida depois da morte. Eli ergueu a cabeça de repente e então me encarou. Pude ver seus olhos brilhando com uma intensidade quase brutal. Me senti hipnotizada pelo poder daquele olhar. Eli não piscou nem quando cruzei minhas pernas sob meu corpo e me sentei no chão coberto de musgo à sua frente. — Foi a melhor noite da minha morte — murmurou Eli, ainda me encarando com firmeza. — Estava na ponte, me preparando para colher uma alma. Seria a mesma coisa de sempre. Eu só precisava esperar que ela caísse lá do alto. Soltei um leve som de engasgo, mas Eli pareceu não me ouvir. — Enquanto eu esperava, fiquei observando-a — continuou. — Ela era linda. Tinha um cabelo castanho brilhante que pairava em volta do rosto como uma auréola. Ela parecia um anjo em chamas. Tentei tocar nela, mas não consegui, é claro. Estava morto, e ela ainda estava viva. Parte da minha missão era ficar ouvindo, esperando até seu coração bater pela última vez e então tirar sua alma do rio e levá-la para as trevas. Mas pouco antes de cair da ponte, olhei nos olhos dela. Eles eram verdes, brilhantes como os seus. Ela olhou bem para mim, e pude jurar que ela me viu, mesmo antes de morrer. Naquele instante, ela me conquistou. Na mesma hora, completamente. 167


Eli fez uma pausa, analisando meu rosto — à procura de não sei bem o quê. Em seguida, ele voltou a olhar para o chão, com aquele quê distante de nostalgia em seus olhos enquanto falava. — Precisava ficar com ela. Simplesmente precisava. Depois que ela morreu, eu a tirei do rio e implorei aos meus mestres para ficar com ela como minha assistente. Para minha surpresa, eles aceitaram. Como eu a despertei logo depois da morte, ela nunca esteve perdida naquela névoa como você e eu. Ela não perdeu suas memórias da vida e parecia estar mais do que disposta a dividir isso comigo. Ela me contou que se chamava Melissa e que estávamos em 1987. Quando viva, Melissa tinha sido estudante. Ela estava fazendo enfermagem em uma faculdadezinha perto da estrada. E mesmo tendo passado por uma morte violenta, ela ainda me parecia... alegre. Às vezes até bem feliz. Ela era tudo o que eu queria numa companheira; inteligente, bonita, intensa. Eu me apaixonei por ela na mesma hora. Mas talvez pela sua própria natureza, a Melissa logo começou a ficar infeliz com a nossa existência. Ao contrário do que fiz com você, não expliquei para ela exatamente qual era o meu trabalho. Mas ela não demorou muito para entender no que consistia minha missão, nem para expressar sua repulsa por isso. Ela passou algumas semanas tentando me convencer a abandonar meu trabalho... a abrir mão do meu poder e libertar todos os meus servos. Mas quando percebeu que essa abordagem não iria funcionar, ela começou a passar vários dias sumida, desaparecendo e depois voltando sem dizer o que tinha feito. Até que então, numa certa manhã de outono, menos de um ano após sua morte, ela apareceu... diferente. A pele dela ainda emanava um brilho como a nossa, mas um brilho agora mais intenso, mais quente. Como fogo de verdade... Eli não terminou, franzindo a testa enquanto olhava para o musgo que vinha revirando entre seus sapatos com um ar distraído. Pequenas fagulhas de gelo subiam pelo ar com os movimentos de seus pés. Esperei quase um minuto para que Eli continuasse, mas minha impaciência por fim acabou superando minha compaixão. — E aí, o que ela disse para você? — cutuquei. Ele balançou a cabeça. — Ela me disse que eu não podia prender as almas nas trevas para sempre. Ela disse que os mortos deveriam decidir sozinhos seus destinos. Ela me disse que, ao trazer essas almas à força para este mundo para me servir, eu não as estava ajudando em nada. E que o certo seria deixar que os

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recém-mortos vagassem a esmo, porque só depois de despertarem da névoa, eles deveriam escolher em qual dos pós-mundos iriam ficar. — Pós-mundos? — rebati. — Que outros mundos existem? Eli encolheu os ombros, mas não me enganou com sua tranquilidade forçada. — A Melissa me disse que conheceu um lugar... diferente. Melhor. Ela me chamou para ir com ela, mas eu não quis. Tenho coisas demais a perder por aqui. Sou importante demais. Sou respeitado aqui. Aquele brilho orgulhoso voltou a iluminar seus olhos, cintilando com uma intensidade quase insuportável. Foi muito fácil ler os pensamentos em seus olhos: Eli era obcecado por este lugar. Faria qualquer coisa que seus mestres pedissem, capturaria e comandaria qualquer alma, só para não abrir mão de seu suposto poder. — O que aconteceu com a Melissa depois disso? — perguntei com cuidado. Eli me olhou com desprezo. — Ela desapareceu de vez. Nunca mais a vi desde então. Mas não que eu quisesse. Cuspiu essas últimas palavras, com seus lábios repuxados, cheios de desdém. Ele agora parecia uma criatura selvagem, quase bestial. Mas pude ver emoções humanas se esgueirando nos cantos de sua boca e de seus olhos. Enterrados embaixo daquele olhar de repulsa, havia um quê de desamparo e uma profunda e intensa solidão. Perdida entre os meus pensamentos, passei meus dedos em círculos pelo estranho musgo sob mim. A história de Eli tinha tantos detalhes importantes. Tantas coisas que explicavam melhor o que eu era, e o tipo de escolhas que eu tinha. Mas um outro aspecto de sua história me entristeceu — a parte que não tinha absolutamente nada a ver comigo. Porque por mais que eu o odiasse, não tinha como ignorar uma parte muito importante de sua narrativa: apesar da paixão de Eli por este mundo e seus poderes sombrios, ele não queria ficar sozinho. Ao ver a tristeza em seu rosto, voltei a sentir pena dele. Senti uma compaixão muito estranha e um impulso para ajudá-lo, para melhorar seu humor, então fiz a única pergunta em que consegui pensar para mudar o rumo da conversa. — Você meio que deu a entender que acabou superando o assunto quando a Melissa sumiu da última vez. Mas e depois, o que você fez? 169


Seus olhos se voltaram para os meus, e o espectro de seu velho sorriso malicioso repuxou os cantos dos seus lábios. — Bom, encontrei uma nova bela assistente. — Que sou eu, é isso? Eli acenou a cabeça devagar, ainda sorrindo. — Como foi isso? Você me achou depois que morri e decidiu que eu ia ser sua assistente? — Não, Amélia. — Seu sorriso cresceu, ganhando um ar estranho, meio bestial. — Escolhi você antes de você morrer.

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Vinte e Um Senti minha visão se estreitar até um mero pontinho escuro e então se expandir de volta para o meu grande desconforto. — Você estava lá quando morri? Eli se levantou de repente, pulando do galho em minha direção. Seus olhos ardiam com intensidade, cheios daquele seu fervor de novo. Começou a disparar um turbilhão atordoante de palavras. — Estava sim, Amélia. Eu estava lá quando você morreu, mas não acordei você como fiz com a Melissa. E também não levei você para as trevas como faço com todas as outras almas. Você não entende o que isso significa? Não entende o que eu fiz por você? Deixei que você escapasse por um tempo. Permiti que você tivesse sua liberdade. E você agora me deve por isso. Eli tentou pegar minha mão, mas me esquivei. Eu não conseguia pensar, não conseguia respirar. Ainda assim, de algum jeito, soltei algumas palavras pelos meus lábios. — Como assim, você ―estava lá‖? Há quanto... quanto tempo você estava lá? — Como com a Melissa, eu estava lá antes mesmo de você cair — disse com um sorriso carinhoso que me deu um calafrio. — Vi você cair na água e perder a consciência. Vi seus olhos se abrirem e vi você se debater contra a corrente. E depois ouvi seu coração parar. Mas depois dessa última batida, fui embora. Não podia deixar que você me visse. Tive que sair dali para que sua morte tivesse sentido. — Sentido? Que sentido? — fiquei olhando para ele, confusa e horrorizada. — Obviamente, fiz algo de errado com a Melissa, ou então ainda estaria com ela. Eu tinha que agir de outro jeito no seu caso para não perder você. Se eu acordasse você na mesma hora, como fiz com a Melissa, você poderia não dar o devido valor à minha misericórdia ao deixar que você seja 171


minha assistente. Você ainda se lembraria da sua vida, e talvez até sentisse falta desse tempo. Então você precisava ficar perdida na névoa para agradecer de verdade quando eu despertasse você dela. O rosto de Joshua passou de novo pela minha mente. — Mas não foi você quem me despertou — murmurei. Eli abriu um largo sorriso, com uma expressão empolgada de repente. — Não, não mesmo. E nem precisei. Você fez isso sozinha — explicou Eli. Eu só balancei a cabeça, confusa. — Eu estava na Ponte Alta semana passada, esperando para ceifar mais uma alma — continuou. — Foi então que vi você no rio embaixo de mim. E quando um carro estava vindo, você começou a se debater, distraindo o motorista para que eu o pudesse espantar e fazer com que ele caísse na água. Quase engasguei. Joshua. Eli estava falando de Joshua, e do seu acidente de carro. — Você... você fez o quê? — por fim consegui perguntar. — Não, o que nós fizemos. Juntos — disse Eli com um brilho empolgado em seus olhos. — Como uma dupla. Mas enfim, a gente não teve muito sucesso, claro, porque vi o garoto sair vivo da água. Mas mesmo assim, vi você ir atrás dele, ainda tentando ceifar sua alma. Eli parecia extasiado, como se estivesse orgulhoso de mim por sua interpretação equivocada do ocorrido. — Você é muito talentosa, Amélia. Sua distração foi perfeita. Minha cabeça girou, e então tive a desagradável sensação de que poderia desmaiar se não conseguisse me recompor. Então... como assim? Eli achava que eu tinha distraído Joshua de propósito para ele cair da Ponte Alta, enquanto na verdade estava só revivendo minha morte no rio? E depois, quando fiz de tudo para encorajar Joshua a sair da água com vida, Eli achou que eu no fundo estava mostrando sinais de um dom nato para o mal? Precisei me esforçar para me ater ao detalhe mais importante dessa revelação: durante esse tempo todo, o verdadeiro observador — o verdadeiro vilão — tinha sido o próprio Eli. A ideia de que Eli teve um papel ativo no acidente de Joshua me fez repensar minha própria morte, inserindo agora a figura de Eli sobre as águas verde-escuras daquele rio, vendo eu me debater e me afogar, com seu sorriso arrogante no rosto. Talvez até com uma multidão de vultos escuros ao longe, o observando enquanto me esperava morrer.

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Essa nova imagem fez minha morte parecer ainda mais terrível, como se isso fosse sequer possível. Mas na verdade nem deveria ter ficado surpresa, levando em conta o que ele acabou de me contar sobre seu papel na morte de Melissa. — Você disse que... v-viu minha morte também — gaguejei, engolindo uma imensa onda de raiva que ameaçava transbordar para fora de mim. Não tive outra escolha. Esse seria o único jeito de conseguir mais informações sobre minha morte da única pessoa, ou criatura, que a testemunhou. — Pulei da ponte, igual a você? Ou caí, como a Melissa? Ele ergueu uma de suas pálidas sobrancelhas. — Você não lembra? Apenas balancei a cabeça. De repente, Eli se sentou de volta no galho da árvore. O ar fanático se esvaiu de seus olhos, e aquele sorriso malicioso de sempre voltou ao seu rosto. Então entendi que expressão era aquela: a cara de alguém que achava estar com o jogo ganho. — Talvez eu conte para você algum dia como foi — disse, e então se inclinou para frente e passou seus dedos magros pelo ar sobre a minha bochecha. — Mas quero que isso continue sendo um mistério por enquanto. Só para você entender o quanto precisa de mim. Estremeci e então me afastei como se ele tivesse tentado me tocar um ferro em brasa. — Nunca vou ―precisar‖ de você de novo, Eli — grunhi. O sorriso de Eli desapareceu. — Como assim, Amélia? Temos que ficar juntos. É o nosso destino. — Nós. Não. Vamos. Ficar. Juntos — pronunciei cada palavra com cuidado, uma a uma, para ele entender muito bem o que eu estava dizendo. — Mas eu... salvei você — disparou. Essa simples palavra, ―salvei‖, implodiu os últimos resquícios de autocontrole que vinham contendo minha fúria. Apoiei minhas mãos no chão para me empurrar e levantei com um pulo. — Me salvou?! — gritei. — Você não me salvou coisa nenhuma! Você fez exatamente o contrário, aliás. Sei muito bem que você poderia ter me ajudado. Você poderia ter feito alguma coisa antes do meu coração parar. Mas não fez nada. Só me deixou morrer — esbravejei. Eli tentou se explicar, mas continuei falando, enfurecida, aos berros. — Não estou nem aí se isso fazia parte da sua ―missão‖. Porque não foi só isso o que você fez comigo. Mesmo depois do seu papel nojento na minha morte, você não parou por aí. 173


Você ficou esperando esse tempo todo, enquanto eu vagava perdida e assustada pelo mundo, pronto para me atacar. E tudo isso só porque seus mestres disseram que você podia ficar comigo? — Amélia, eu... — E aposto que você não tentou ―salvar‖ meu pai, não é? — disparei, o interrompendo com um grunhido, sentindo minha raiva crescer. — Aposto que você o jogou naquela floresta com o resto das suas vítimas. Eli teve a audácia de parecer confuso. — Seu pai? — Ah, me poupe — disse, rindo. — Você não tem mais como se fazer de inocente. E não estou nem aí para os grandes planos que você tinha para o nosso futuro. Ou melhor... para o meu futuro. Seja lá quais forem os seus planos, eles não têm nada a ver com omeu futuro. — Seu futuro é ficar comigo — grunhiu, agora sem carinho nenhum em sua voz. — Não. Não é mesmo. Agora foi a vez de Eli se levantar com um pulo. — Você é minha! — gritou na minha cara. Ele tentou me agarrar com sua mão, que não parava de tremer, mas dei dois rápidos passos para trás. Nem olhei para ele uma última vez antes de me virar sobre meus calcanhares descalços e sair correndo pelo bosque. Não sabia para onde meus pés iriam me levar, e nem me importava. Só queria que eles disparassem sobre aquele musgo roxo gelado o mais rápido possível. Infelizmente, por mais rápido ou longe que eu corresse, o tenebroso cenário à minha volta não mudava nunca. Eu não parava de passar pelo que pareciam ser os mesmos arbustos retorcidos, as mesmas árvores reluzentes cobertas de gelo. Enquanto corria, vi outras coisas também: vultos escuros em meio à floresta, dardejando entre os troncos e galhos como animais selvagens me seguindo. Talvez eu tenha ficado tão assustada que comecei a ter alucinações, mas poderia jurar que esses vultos tinham rostos. Rostos humanos, que me observavam enquanto eu corria pela floresta, mas sem tentar me deter. Seriam as almas perdidas, só esperando uma ordem de Eli para me atacar? Será que meu pai estava entre elas, me observando também? Uma parte de mim queria parar e tentar encontrá-lo, mas outra não deixava que minhas pernas parassem de correr, me lançando à frente em pânico.

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Em seguida, quando eu já estava prestes a ser dominada pelo medo, o ambiente cinzento ao meu redor começou a reluzir e se transformar. Como uma imensa cortina sobre um cenário de teatro, aquele lúgubre submundo começou a tremular e cair até eu me ver parada, toda ofegante, no meio de um bosque iluminado pelo sol do mundo dos vivos. Alguma coisa uns cem metros à minha frente chamou minha atenção. Estreitei os olhos e me dei conta de que era o rio, reluzindo com um tom alaranjado que devia ser pelo sol do fim da tarde. Comecei a correr de novo, como se minha própria existência dependesse disso. Quando cheguei ao topo da encosta sobre o rio e pisei no asfalto da Estada Ponte Alta, parei só por tempo o bastante para fazer uma oração. — Por favor, meu Deus — implorei em voz alta. — Se o senhor gostar um pouquinho que seja de mim, por favor, me mostre o caminho de volta para a casa do Joshua. Preciso muito da sua ajuda. Acenei a cabeça para dizer amém e saí correndo de novo pela estrada. Meu senso de direção ainda iria acabar me matando. Pelo menos metaforicamente. Ao cair da noite, eu já tinha errado o caminho tantas vezes que a minha confiança evaporava cada vez mais a cada centímetro que o sol descia no horizonte. Por fim, no final do que parecia ser a centésima rua pela qual passei, avistei a varanda da frente de uma casa inconfundível. Corri pela entrada até o quintal, sentindo meus pés voarem sobre o cascalho. Mas assim que cheguei ao gramado, encontrei o quintal da casa vazio e escuro. Todas as luminárias, agora apagadas, pareciam cinzentas em meio à noite. Nenhuma luz iluminava as janelas dos fundos, e Joshua não estava me esperando sob a penumbra na varanda. Eu me encostei no tronco de um dos choupos, exausta e derrotada. — Amélia? A voz murmurada veio de algum lugar nos fundos do quintal, longe da varanda. — Joshua? — sussurrei. Ouvi um leve clique, e então um pequeno círculo de luz apareceu uns quinze metros atrás da casa. Dentro desse círculo, estava Joshua, parado na entrada do belvedere que eu tinha visto da primeira vez que ele me trouxe ali.

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Sem ouvir mais nada, saí correndo pelo quintal, subi pulando a escadinha do belvedere e me joguei em seus braços, tudo isso antes mesmo que Joshua pudesse se mexer. Depois de um segundo de hesitação, ele me puxou para mais perto, pondo uma das mãos na minha nuca e enlaçando seus dedos entre os meus cabelos. Como quando nos beijamos, consegui sentir tudo: seu braço em volta da minha cintura, seus dedos tocando a minha pele. — Graças a Deus que você chegou. Está tarde. Estava preocupado... — murmurou. Joshua abaixou a cabeça contra o meu pescoço e roçou os lábios logo abaixo da minha mandíbula, espalhando um incêndio pela minha pele. — Desculpe. Desculpe — ofeguei. — É que demorei uma eternidade para fazer o que eu precisava e depois não conseguia mais encontrar sua casa. Acho que passei por um milhão de outras erradas até chegar aqui — expliquei. Joshua deu risada; um som rouco e baixinho que reverberou na base da minha garganta. — Você não está bravo comigo por eu meio que ter sumido de novo, né? — perguntei, meio hesitante. Joshua balançou a cabeça, roçando a ponta de seu nariz na pele sensível do meu pescoço. — Não. É claro que não. Desculpe por aquele dia, sério. Fui muito estúpido. Se eu tivesse parado para pensar no que você é e em como são as coisas para você... — Não! — o interrompi. — Não é assim! A culpa foi minha também. Eu poderia ter... E então foi a vez de ele me interromper, chegando seus lábios à minha orelha. — Vamos só combinar de fazer alguma coisa legal um para o outro para compensar, pode ser? — sussurrou. — Ah, por mim, tudo bem — sussurrei em resposta. Joshua subiu e desceu seus dedos lentamente pelas minhas costas, e eu o abracei com mais força, me deliciando com os arrepios que pareciam ter se espalhando por cada centímetro da minha pele. Essa sensação abafou todos os outros pensamentos na minha cabeça, o que até me impediu de terminar o que tentei dizer: — Sabe, tenho tanto para contar sobre o meu dia hoje... — Quero escutar tudo, quero mesmo — disse, todo intenso, recuando a cabeça para me olhar nos olhos.

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Dessa posição — ele com uma das mãos ainda enlaçada entre os meus cabelos e a outra em volta da minha cintura, eu com meus dois braços em volta do seu pescoço, e os nossos corpos juntos um do outro —, nossos lábios estavam a meros centímetros de distância. Nós dois devemos ter percebido isso juntos, porque começamos a tremer ao mesmo tempo. A respiração de Joshua acelerou, e eu a senti, quente e suave, contra os meus lábios. Nossos olhos ainda estavam fixos uns nos outros, e eu comecei a ficar meio atordoada. — Eu... eu ainda quero beijar você — sussurrou ele com uma voz rouca. — Eu também — Posso...? A gente pode...? — Acho que sim — acenei a cabeça. — Só preciso me concentrar bastante para não sumir. Os dedos de Joshua se enlaçaram com mais força entre os meus cabelos, e ele puxou meu rosto para mais perto do seu. — Se concentre então — murmurou, e em seguida encostou seus lábios nos meus. Assim como antes, nosso beijo ameaçou derreter todas as partes do meu corpo. Ondas de chamas ardentes desabrocharam como pétalas dentro do meu cérebro. Mas desta vez, não foi só na minha paixão que me concentrei. Quando senti a escuridão começando a borrar os cantos da minha vista e uma leve fisgada em uma partezinha dentro de mim, relutei o máximo que pude e me ancorei no presente, me segurando em Joshua e me focando na sensação de sua boca contra a minha. Não desapareci. Não afundei na água. Em vez disso, apenas beijei Joshua de volta, com mais vontade do que poderia jamais imaginar. Abri meus lábios e passeei com eles pelos de Joshua, respirando fundo, quase sentindo seu gosto. Por fim, tivemos que parar para respirar. Ainda relutantes, nos afastamos um do outro, mas continuamos com nossos corpos colados. — Isso foi incrível — ofegou Joshua. Mesmo se eu quisesse dizer qualquer coisa, seria impossível. Só consegui murmurar: — Sim, foi... — Lindo — disparou uma voz atrás de nós.

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Ainda abraçados, Joshua e eu nos viramos para um mesmo ponto em meio às árvores. Quem disse isso continuava invisível, escondido entre a escuridão. — Quem foi que...? — começou a dizer Joshua, mas eu já sabia a resposta. — Eli — disse, seca. — Quem é Eli? — perguntou Joshua, se virando para mim. — A coisa que eu tinha que fazer hoje. — Ah, então sou uma coisa, é? — Eli saiu do meio das sombras, com sua pele emanando um brilho estranho sob o escuro da noite. — Já é mais do que um elogio para você — disse eu entre meus dentes cerrados. — E você sabe muito bem. — Não sei de nada disso — rebateu. — Como você me seguiu sem eu perceber? — Só precisei manter uma boa distância. E aí, no momento certo, eu me materializei. — Já disse para você me deixar em paz. — Não vou, nem agora, nem nunca, obedecer a ordens suas. — Enquanto Eli avançava, a palidez mortiça de sua pele deixava rastros de luz pela escuridão à sua volta. — Amélia, estou vendo o que acho que estou vendo? — perguntou Joshua, franzindo a testa. — Esse é... outro fantasma? Os olhos de Eli se voltaram para os meus. — Esse garoto... ele não pode me ver, pode? Encolhi os ombros, irritada. — Ele é um vidente, Eli. É isso o que eles fazem. — Bom, então o faça parar. Eu não poderia ter ficado mais orgulhosa quando Joshua ergueu seus ombros e encarou Eli com firmeza. — Eu posso ver você, sim. Mas independente de seja lá quem você for, não gostei do jeito que você está falando com a Amélia. Então dê o fora da minha casa. Eli bufou. — Da sua casa? Que engraçado. Você não quis dizer ―da casa dos seus pais‖, garoto? — Vá embora. Antes que eu faça você ir à força — grunhiu Joshua.

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— E como você pretende fazer isso? Estou morto. Você não pode nem tocar em mim. — Eli abriu um sorriso malicioso, juntando as mãos atrás das costas. — Você está vendo esta menina linda nos meus braços? — disse Joshua baixinho, com um tom ameaçador. — Ela está morta também. Mas dá para ver que estou tocando nela, não é? Pela primeira vez, a expressão de Eli realmente me assustou. Linhas severas cruzaram seu rosto, estreitando seus olhos e repuxando seus lábios com um sorriso agressivo. Nesse instante, ele pareceu um morto mesmo. Uma criatura morta maligna que de repente focou seus olhos nos meus. — Amélia, tenho que admitir que estou impressionado. Você esteve se fazendo de inocente esse tempo todo enquanto tentava roubar o que é meu? — Do que você está falando, Eli? Ainda com aquele sorriso tenebroso, Eli apontou com a cabeça para Joshua. — Achei que a gente estava trabalhando juntos quando você o fez cair daquela ponte. Achei que tinha sido essa ação conjunta o que por fim despertou você. Mas agora ele está aqui, e bem vivo, com você. Então... você quer ficar com ele só para você, é isso? A capacidade que Eli tinha de sempre pensar o pior de mim era impressionante. Ele agora estava achando que eu queria ser dona de Joshua, como Eli queria ser meu dono? Até parece. Fechei a cara só de pensar nisso e abri a boca para dizer isso a ele. No entanto, foi Joshua quem respondeu Eli primeiro. — O que a Amélia quer não é da sua conta, porque você vai embora daqui. Agora. E eu não vou repetir. — Por favor, entenda, garoto... — disse Eli, sem olhar para Joshua — ...o que eu vou falar agora não é para você. Vou até fingir que você nem está aqui de agora em diante. — A voz de Eli ficou mais baixa, ganhando um tom gélido enquanto falava comigo. — Amélia, você sabe o que eu quero. E você nem imagina do que sou capaz. Meu poder de me materializar não é o único truque que tenho. Nossa natureza tem lados sombrios, lados que você ainda não compreende. Eu disse a você que controlo os mortos, mas posso fazer muito mais do que isso. Tenho várias formas de... atacar... um ser vivo também. — Seus olhos se desviraram por um instante para Joshua e então se voltaram para mim. — Ainda mais um vivo capaz de ver os mortos. Tenho certeza de que alguém assim poderia me ser muito útil. Uma belíssima adição para o meu pequeno exército. 179


Um som gutural emergiu da minha garganta. Com um pouco mais de força, esse som poderia facilmente ter saído como um rosnado. Aturdido, Joshua olhou para mim, mas Eli apenas deu risada. — Amélia, Amélia. Presenciei seu segundo nascimento... você acha que um barulhinho desses vai me assustar? — Ele ergueu uma sobrancelha, mas depois sua expressão se tranquilizou de repente. As estranhas rugas bestiais em volta de sua boca e de seus olhos se atenuaram, e seu sorriso relaxado de sempre voltou ao seu rosto. — Então... — disse Eli, pondo as mãos nos bolsos. — Pense no que eu disse. Você só tem uma única forma de passar seu futuro. Isso, é claro, se você quiser que esse garoto tenha algum futuro. — Comecei a rosnar, mas Eli me interrompeu. — Quero que você me encontre amanhã, ao anoitecer. No seu cemitério. Ele me deu uma última piscadela sinistra e então desapareceu, deixando apenas a escuridão da noite para trás.

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Vinte e Dois Joshua estava arqueado sobre sua caneca de café — com o restinho do bule que ele tinha entrado às escondidas em casa para preparar, várias horas depois de sua família ter ido para cama. Nenhum de nós dois estava muito a fim de dormir esta noite, mas ao contrário de mim, Joshua não tinha o luxo de nunca sentir sono. Ele teria que se virar à base de cafeína. — Não, Amélia... — murmurou com a boca colada na caneca e então esfregou seus olhos exaustos. Balançou a cabeça com o máximo de firmeza que alguém poderia demonstrar às quatro e meia da manhã. — Ainda acho essa uma péssima ideia. — Você tem alguma melhor? — rebati, mas me arrependi na mesma hora do meu tom e então passei a mão pelo seu braço com carinho para me redimir. — Desculpe, Joshua, sério. Mas eu não vejo nenhuma outra opção. Sendo sincera, parecia que nós estávamos sem nenhuma opção em vários sentidos. Para começar, em vez de estarmos deitadinhos juntos na cama de Joshua, nós estávamos sentados e encolhidos na escadinha do belvedere no quintal. Depois que Eli desapareceu, Joshua e eu quisemos entrar na casa, mas alguma coisa me detinha sempre que eu tentava. Uma rápida olhada no chão revelou o motivo: havia agora um fio de um pó cinzento e esbranquiçado em volta de todas as entradas da casa, provavelmente deixado ali por Ruth hoje mais cedo, que impedia minha entrada como uma parede invisível. Mesmo quando Joshua varreu o pó, a barreira mágica continuou intacta. Como se eu precisasse de ainda mais um lembrete incômodo — e talvez definitivo — do exorcismo que me aguardava aquela noite. Infelizmente, Eli agora era um problema maior do que Ruth para mim, porque eu não duvidava nem um pouco da sinceridade de suas ameaças contra Joshua. Expliquei tudo para Joshua: a obsessão de Eli em ser meu 181


dono, sua insistência de que meu destino era me voltar para o mal e servi-lo, e até seu papel no acidente quase fatal de Joshua. Joshua, no entanto, continuava irredutível. — Como você pode dizer que se encontrar com aquele cara, sozinha, num cemitério, é nossa única opção? — insistiu. — E como você pode sequer cogitar a ideia de dar a ele o que ele quer? — O que mais você quer que eu faça? — grunhi enquanto me deitava de lado nos degraus do belvedere. Fiquei olhando para Joshua, que tinha se encostado em um poste de madeira. — Você sabe que o Eli nunca vai deixar a gente em paz até eu falar com ele de novo. — E daí? Ele que tente se meter com a gente. — Joshua, isso é muito corajoso da sua parte e tudo mais, mas acho que é melhor a gente não arrumar encrenca com um espírito que pode desaparecer do nada quando bem quer, não é? Só Deus sabe do que ele é capaz. — Ah, ele desaparece. Que sinistro, né? — bufou Joshua com desdém. Mas mesmo sob todo o sarcasmo de Joshua, pude sentir uma leve hesitação. Aproveitei para insistir no assunto. — Sim, ele desaparece. Quando bem quer. Essa é uma coisa que não consigo fazer ainda. E não acho que ele estava mentindo quando disse que tinha ainda mais truques na manga. De repente, Joshua pareceu alerta. Ele veio para frente e me pegou pela cintura, me puxando para mais perto dele. Quando nossos joelhos estavam quase se tocando, ele parou de me puxar, mas continuou com suas mãos em volta da minha cintura. — Então, Amélia! — exclamou. — Você não entende? É por isso que você não pode ir lá sozinha se encontrar com ele. A gente não tem a menor ideia do que ele pode fazer com você. Como você mesma disse, até a minha vó e as amigas dela não conseguiram impedir que ele atacasse outras pessoas antes. Então por que você acha que com você seria diferente? A preocupação de Joshua me emocionou, muito mais do que o deixei perceber. Mas apesar do seu carinho, apesar do meu iminente exorcismo prometido por Ruth, ainda precisava encerrar essa disputa com Eli; precisava fazer alguma coisa com ele antes que Joshua fosse afetado. Então continuei com a minha expressão determinada, firme. — Não vou mais discutir isso. Vou lá para o cemitério. E pronto, acabou. Joshua soltou um suspiro alto e fechou os olhos. 182


— Amélia, Amélia, que menina teimosa você é. — Ele suspirou de novo. — Mas se você vai até lá, então você não vai sozinha. Arregalei os olhos e me soltei de seus braços. Joshua caiu um pouco para frente, cansado demais para reagir a tempo ao meu gesto. Ele se endireitou e me fez uma cara feia. Só o ignorei e balancei a cabeça, determinada. — Nem pensar — disse eu. — Você não vai lá comigo. Nós já resolvemos isso, Joshua. — Mas... — Nada de mas — o interrompi. — Não vou mudar de ideia, Joshua, desculpe. O Eli está interessando em mim. Só em mim. Ele quer me amar, ou ser meu dono, ou sei lá o quê... mas eu não acho que ele tenha como me machucar de verdade. Ou pelo menos não muito, imagino. Mas ele não hesitaria em machucar você só para me atingir. Então você não pode estar lá. Ponto final. — Você tem razão — murmurou Joshua. — Eu sei que você tem razão. — Ele franziu a testa e ficou olhando para o próprio colo. Sua resignação me pegou de surpresa, o que me deixou um tanto sem reação. Mas quando Joshua voltou a olhar para mim, percebi que ele não tinha desistido. Longe disso. Seus olhos não mostravam nada além da mais absoluta determinação. — Você tem razão, Amélia — repetiu com um ar decidido. — E é por isso mesmo que eu vou fazer seja lá o que for preciso para garantir que nenhum de nós vá lá ver aquele cara. Joshua juntou as mãos atrás da minha cintura. Não consegui sentir seus braços, mas pude vê-los se fechando à minha volta. Seu abraço me prendeu, e seu olhar decidido deixou sua mensagem bem clara: ele estava disposto a fazer tudo o que fosse humanamente possível para que eu ficasse com ele, e longe daquele cemitério. Então eu teria que recorrer a táticas inumanas. Abri um leve sorriso para ele. — Você pode me prometer uma coisa? — perguntei baixinho. — Só se não se tiver a ver com você tentar ir naquele cemitério. Balancei a cabeça, ainda sorrindo. — Joshua, por favor. Só me escute. Preciso que você me prometa uma coisa. Se você não me vir mais, preciso que você me prometa que não vai tentar me encontrar, pode ser?

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— Amélia, o que você...? — começou a dizer com uma voz angustiada, mas eu o detive com um forte beijo. Esse beijo foi totalmente diferente dos nossos primeiros dois. Agora o beijei com força, roçando meus lábios contra os deles com uma intensidade que camuflava meu desespero. Joshua ficou tão surpreso com esse ataque que não teve outra reação a não ser me beijar de volta. E é claro, sua reação me fez beijá-lo com ainda mais vontade. E então, sem nenhum aviso, me afastei, fechando bem os olhos. Antes que Joshua pudesse me puxar de volta, me concentrei em pensamentos difíceis. Pensei na minha mãe, solitária dentro daquela casinha velha. Pensei no rosto do meu pai — um rosto que eu nunca mais veria, em qualquer um dos pós-mundos. E pensei em Joshua. Não nas coisas boas dos últimos dias, mas sim na eternidade, como só alguém na minha situação conseguiria compreender. Pensei na eternidade, em uma eternidade sem ele. Além de todos esses pensamentos tristes, me concentrei em uma imagem: no cemitério onde eu sempre acordava depois dos meus pesadelos. Fechei meus olhos com mais força, queimando essa imagem na parte de trás das minhas pálpebras. E de repente, parei de sentir a pressão dos braços de Joshua à minha volta. Meus olhos se abriram na mesma hora. A princípio, não consegui sentir, nem ver nada. Tudo estava parado e escuro. Em seguida, meus olhos começaram a se ajustar dolorosamente ao novo cenário à minha volta. Seja lá onde eu estivesse agora, não era um lugar totalmente escuro, como imaginei. Esse novo lugar era só muito, muito mal-iluminado. Um pássaro grasnou em algum lugar à minha direita, e minha cabeça se virou na direção do som. Com esse movimento, notei que estava cercada por várias formas escuras. Quando meus olhos se ajustaram mais, pude ver melhor a estrutura delas. As mais altas eram árvores, que pendiam até o chão. Já as baixas eram mais variadas: algumas delas, apesar de largas na base, se estreitavam como obeliscos na parte de cima, enquanto outras formavam meias-luas atarracadas sobre a grama. De um jeito ou de outro, pude ver que todas essas formas menores eram lápides, sem dúvida alguma. Tinha conseguido. Eu havia me materializado no cemitério, algumas horas antes do amanhecer. 184


Um vento gelado cortante me acertou em cheio, açoitando minhas bochechas e levantando meu cabelo pelos ares. Quando a ventania se acalmou, uma voz seca emergiu da escuridão. — Você chegou cedo, Amélia Ashley. — Bom — disse, trêmula, me esforçando ao máximo para soar calma e manter a cabeça erguida. — O que posso dizer? Sou uma menina pontual. — Em seguida, fiz uma pausa e franzi a testa. — Espera aí... você acabou de dizer meu sobrenome, não foi? Eli saiu da sombra de uma árvore, agora visível sob a penumbra. — Disse sim, Amélia — respondeu. — Agora, como sei seu sobrenome? E como sei que este é o cemitério onde você acorda depois das suas desmaterializações acidentais? Senti um frio no estômago. Na minha pressa para ir embora logo, e também poupar Joshua, não tinha pensado nesse detalhe na hora. No seu cemitério, disse Eli. Ele não tinha como saber que aquele era meu cemitério. A não ser que... — Você mentiu de novo para mim, não foi? Você sabe mais da minha vida do que me disse. — Só um pouquinho. — O quanto é um pouquinho? — insisti. — Bom, por que você não se vira e dá uma olhada na lápide que está praticamente atrás de você? Isso deve explicar algumas coisas. Não queria tirar os olhos de Eli. Não queria perdê-lo de vista, sabendo que ele devia ter alguma outra surpresa nada desagradável planejada para mim. Ainda assim, minha cabeça parecia estar sendo movida por outras forças. Ela se virou lentamente até eu ficar olhando para uma faixa de grama e terra no chão logo atrás de mim. Nunca me dispus a ficar tempo o bastante naquele cemitério para analisar suas lápides ou procurar meu próprio túmulo. Só pressupunha que tinha sido enterrada ali, uma coisa que sempre foi motivo o bastante para me fazer sair correndo daquele lugar sempre que eu acordava. Também pressupunha que, se por acaso encontrasse meu túmulo, ele provavelmente estaria abandonado. Não sei por que eu achava isso. Mas ao longo dos vários anos desde a minha morte, acabei me esquecendo dos meus pais e de seu amor por mim. Na minha cabeça solitária e deprimida, fazia todo o sentido achar que seja lá quem eu tivesse deixado para trás não se lembraria mais de mim, nem do meu túmulo.

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Mas a pequena faixa bem cuidada de terra que eu estava vendo me mostrou que essa minha última pressuposição estava errada. Apesar disso — apesar de todo o carinho claramente dedicado a esse túmulo —, essa cena partiu meu coração em um milhão de pedaços. Atrás de mim, havia uma placa de concreto no chão. Sim, de concreto, imagino, porque os meus pais não teriam como pagar por coisa muito melhor. Alguém tinha cortado com todo cuidado a grama em volta da placa e tirado as folhas mortas de cima. Um vaso de cerâmica com margaridas de seda enfeitava a base da lápide. Letras de forma simples identificavam a placa. Além do epitáfio, o que havia escrito ali era muito parecido com a inscrição do meu anuário: AMÉLIA ELIZABETH ASHLEY 30/04/1981 — 30/04/1999 FILHA ETERNAMENTE AMADA Ao ver essas palavras, só consegui imaginar o rosto do meu pai enquanto ele escolhia essa placa em uma casa funerária, e as mãos da minha mãe, pegando aquelas. Pelo visto, meu coração morto e inerte ainda doía por tristeza. E como. Enxuguei uma única lágrima que desceu pela minha bochecha e me virei para Eli. Até seu rosto desagradável seria uma visão melhor do que a dolorosa cena dos últimos presentes que meus pais haviam me deixado. Ao me olhar nos olhos, Eli acenou a cabeça com um ar sinistro. — Então, Amélia Ashley, entendeu agora como sei seu sobrenome? — Como você encontrou isso aqui? — perguntei. — Eu estava passeando por aqui coisa de um mês atrás, andando um pouco e pensando. E para minha surpresa, adivinha quem apareceu aqui do nada? Minha pequena Amélia, engasgando e tossindo bem em cima desse túmulo. Você deve ter se materializado aqui sem querer. Mas ao fazer isso, você resolveu um grande mistério: para onde a Amélia vai quando desaparece? Depois de me responder esse enigma, você saiu correndo, sem me ver, nem me sentir. Acenei a cabeça com um ar distante, processando essa informação. Então Eli tinha me visto acordar de um pesadelo. Isso explicava por que ele sabia que este era o ―meu‖ cemitério e como ele tinha descoberto meu sobrenome. Mesmo assim, ainda restava uma questão. — Mas por que você estava aqui para começo de conversa, Eli? 186


Eli franziu bem a testa. — Você pode até ficar surpresa, Amélia, mas também não gosto deste lugar. Assim como você, volto para cá de tempos em tempos, por motivos que nem eu mesmo entendo direito — disse. Juntei minhas sobrancelhas com uma expressão confusa. Em resposta, Eli estendeu sua mão. — Venha. Vou te mostrar — disse. Fiquei olhando, hesitante, para sua mão estendida. Eli soltou um suspiro impaciente e remexeu seus dedos para mim. — Relaxe, não é uma cobra, Amélia. Não vou te machucar. — Não, mas bem que poderia. Eli suspirou de novo e abaixou sua mão. — Tudo bem. Você pode pelo menos só vir comigo, então? Pensei por um instante nesse pedido e então me levantei, tentando evitar a ideia de que eu estava em cima do meu próprio túmulo, e de que cheguei a pisar na minha própria lápide enquanto seguia Eli cemitério adentro. Eli andou lentamente pela grama por um tempo até chegar a uma lápide velha e surrada. Ele parou à sua frente e ficou olhando para o túmulo, sem expressão alguma no rosto. — É por isso... — disse, apontando para a lápide — ...que eu venho para cá. As inscrições na lápide eram simples e genéricas, talvez de propósito. Lia-se apenas: ELI ROWLAND 1956 — 11/07/1975 SUBINDO A ESCADA PARA O CÉU — Nossa... — murmurei. Eli bufou, concordando com o meu espanto. — Meus colegas de banda obviamente não se lembravam do meu aniversário. Acho que eles nem avisaram minha família que morri. Mas a referência à StairwaytoHeaven do Led Zeppelin até que é bem legal, não é? — É bonito. — Eu me virei para ele. — Então... a gente foi enterrado no mesmo cemitério? Ele acenou a cabeça, e então um minúsculo sorriso se abriu em seu rosto. Quando ele voltou a falar, seu tom havia perdido um pouco daquele tom de amargura. — Mais uma prova de que o nosso destino é ficar juntos, não acha? 187


— Se fosse assim, Eli, acho que eu poderia ficar com qualquer um deste cemitério, não é? Eli deu uma risada sinistra, mas depois se virou de volta para sua lápide sem dizer mais nada. Ele nem olhou para mim quando saí de perto dele. Segui caminho em meio ao mato, voltando à área relativamente bem cuidada onde ficava a minha própria placa de concreto. Chegando lá, me ajoelhei em frente à minha lápide e apoiei as mãos na grama. A terra ali parecia bem firme sob meu peso. Aquele túmulo não era nenhum sonho, nenhum pesadelo. Tive então um pensamento repentino e perturbador: o que haveria agora naquele túmulo, sete palmos abaixo das minhas mãos? Não sabia, mas já podia imaginar. Uma imagem grotesca veio à minha mente, quase vomitei. Virei meu rosto contra o ombro para não precisar mais ver aquela faixa de grama, que agora me parecia tão repulsiva. Infelizmente, percebi tarde demais que não deveria ter me virado. Ao fazer isso, outra lápide entrou no meu campo de visão: a que ficava logo ao lado da minha. O sol do início da manhã havia começado a despontar no horizonte, iluminando por trás a lápide vizinha com seus suaves raios cor-de-rosa. Essa luz era quase forte o bastante para encobrir o túmulo entre sombras e esconder suas inscrições. Mas apenas quase. Em uma lápide alta, que era só um pouco melhor do que a minha, a seguinte inscrição me encarava: TODD ALLEN ASHLEY 05/06/1960 — 29/03/2006 IREMOS NOS REENCONTRAR Todo o ar simplesmente sumiu dos meus pulmões. Enquanto estava ali, tentando recuperar o fôlego — com as mãos firmes no chão e os olhos fixos no epitáfio do meu pai —, a leve melodia de uma canção ecoou nos meus ouvidos. Fechei os olhos e imaginei a cena que parecia ter sempre acompanhado aquela música. Meu pai e minha mãe, em um de seus dias felizes. Um daqueles dias em que as preocupações com dinheiro ou com o trabalho não os incomodavam tanto, e eles se lembravam da importância um do outro. Nesses dias, meu pai entrava na nossa minúscula cozinha e pegava minha 188


mãe no colo. Mesmo que ela estivesse coberta de farinha do nosso jantar, ou de sabão da louça. Ela enganchava os braços em volta do pescoço do meu pai e encostava a cabeça em seu ombro enquanto ele cantava uma música antiga para ela, uma que prometia um reencontro, algum dia, em algum lugar. A música ecoou tão alto na minha cabeça que nem ouvi Eli chegar por trás de mim. — Você não precisa mais ficar triste pela sua morte, Amélia — a voz de Eli abafou a música bem na hora do clímax. — Estou aqui para ficar com você agora — completou ele, pondo a mão no meu ombro. Afastei a mão de Eli, talvez com mais força do que o necessário. — Não estou triste pela minha morte, Eli. Estou triste por isto aqui. — Apontei para o túmulo do meu pai, com o dedo esticado em um gesto acusatório, como se a culpa de todo o meu sofrimento fosse daquela lápide. — Ah... e quem é esse? — Meu pai — murmurei. — Essa lápide? — Eli se abaixou para ler a inscrição. — Todd Ashley? Esse é o seu pai? — S-sim. Minha voz se partiu enquanto eu falava. Coloquei a mão na boca em um esforço de conter a torrente que estava por vir, mas já era tarde demais. Meus soluços ofegantes de angustia cortaram o ar da manhã, arrancando de mim não só meu fôlego, mas uma violenta tempestade de lágrimas. Desmoronei em frente ao túmulo do meu pai. Continuei com as mãos apoiadas na grama e encostei a cabeça nelas. Deixei as lágrimas caírem do meu rosto em cima das minhas mãos e depois no chão. — Você está... chorando — exclamou Eli, espantado. — Sim — gemi, mas depois soltei uma risadinha bizarra. Eu me levantei um pouco para me sentar, enxugando em vão minhas bochechas e meu queixo. — Eu meio que faço isso de vez em quando. Eli me pegou pela cintura e, antes que eu percebesse o que estava acontecendo, me levantou e me virou para ele. — Você nunca mais vai chorar de novo. Não enquanto estiver comigo. Seus dedos se embrenharam entre o pano do meu vestido. Com um fôlego profundo — para ganhar coragem, talvez —, ele me puxou e encostou seus lábios nos meus. Sua boca abafou meu grito de protesto. Eu o empurrei com tudo pelo peito, mas isso só o fez me segurar com ainda mais força. 189


Enquanto ele continuava me beijando, gritei de novo, mas não em protesto. Dessa vez, foi de medo. Porque enquanto Eli forçava sua boca contra a minha, senti uma violenta ardência, como se alguma coisa tivesse rasgado a pele delicada do meu lábio inferior. Os cantos dos meus olhos se enrugaram de dor. Quando Eli se afastou um pouco em uma tentativa de pôr a mão na minha bochecha, por fim consegui me libertar. Ao me soltar de seus braços, acabei dando vários passos para trás sobre o meu próprio túmulo. Mesmo sem a pressão da boca de Eli na minha, meu lábio inferior continuou latejando de dor. Minha língua procurou um ponto mais macio no meu lábio e então, nem sei como, senti um gosto férreo. — O que você fez comigo? — ofeguei, erguendo meus dedos até a boca, mas sem tocar no meu lábio ainda. Eli teve pelo menos a decência de parecer confuso. — Tenho quase certeza de que só te dei um beijo, Amélia. Passei as costas da minha mão na boca e então olhei. Sobre a minha pele, havia agora um rastro de alguma coisa vermelha e brilhante. Sangue. — O s-seus dentes — gaguejei. — Acho que você me cortou. Eu... estou sangrando. Eli balançou a cabeça, sem entender. — Não. Não, isso é impossível. — Ah, é? — disse, passando a mão de novo na boca onde ainda podia sentir um inchaço morno de sangue. — Então o que é isto aqui na minha boca? — Não sei. Mas seja lá o que for, você está errada — protestou Eli. — Nunca machucaria você, Amélia. Não assim. Além do mais, nem teria como, mesmo se quisesse... nós dois estamos mortos. — Tanto faz — disse eu, quase gritando. — Você nunca mais vai me beijar de novo. — Ah, acho que vou sim, Amélia. Nosso destino é ficar juntos. — Pare de dizer isso! — esbravejei. — Digo o que eu bem quiser. Você está destinada a me servir, lembra? Dei risada e balancei a cabeça. — Ah, lembro, sim, Eli. E obrigada por me relembrar de que eu não deveria ter confiado em você, nem por um segundo sequer. A boca de Eli se repuxou como se ele tivesse sentido um gosto azedo.

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— E em quem você confia, Amélia Ashley? Naquele garoto? Naquele garoto vivo? Ergui meus ombros. — Isso não é da sua conta, Eli Rowland. A careta de Eli ganhou um sorriso desdenhoso. — E o que exatamente você acha que vai fazer com ele? Levar uma vida longa e feliz? — Vou fazer o que eu bem quiser com ele — gritei, mas Eli apenas riu de mim, um som cruel que arrepiou minha pele. — Você está se esquecendo de um detalhe muito importante, Amélia — disse. — Você não pode dividir seu futuro com aquele garoto porque você não tem futuro. Ele vai envelhecer, mas você vai continuar a mesma, morta para sempre... inalterada. Sem futuro nenhum. — Eu não preciso ouvir esse tipo de coisa — disparei. — E não vou mesmo, aliás. Eu me virei para sair dali, para ir a qualquer outro lugar, e rápido. No entanto, antes que eu pudesse sair correndo, Eli me pegou pelo pulso e me virou de volta para ele. Na mesma hora, senti uma violenta ardência no meu pulso onde os dedos de Eli haviam me pegado. Olhei para o meu braço e quase perdi o fôlego. Embaixo dos dedos de Eli, marcas rosadas tinham aparecido na minha pele: queimaduras, causadas pela sua pegada forte demais. Como Eli disse, isso era impossível. Ainda assim, enquanto eu tentava me soltar, as marcas sob seus dedos na minha pele foram ficando mais brilhantes, mais inflamadas. — Eli, meu braço! — olhei para ele em pânico. Eli, no entanto, não pareceu me ouvir. Seus olhos, reluzentes e frenéticos, se fixaram nos meus. Tentei em vão me soltar enquanto atacava seus dedos com minha mão livre. — Pare! — gritei. — Você está me machucando! Eli ignorou minha ordem e me puxou para ainda mais perto. — Mas talvez eu também esteja me esquecendo de uma coisa, Amélia. Afinal, sua morte não foi um dos motivos pelos quais você veio me ver? Você não queria saber mais sobre sua morte? — Aquele seu sorriso malicioso de sempre se transformou em algo mais sombrio, mais selvagem. — Bom, minha querida, vamos realizar esse seu desejo. — Não! Me solte! — gritei enquanto perdia o cabo de guerra com meu braço. Eli por fim conseguiu me puxar para perto dele, com seu rosto a apenas alguns centímetros do meu. 191


— Tarde demais, Amélia. Já é tarde demais. — Por favor! — gritei, perdendo o fôlego e sentindo a pressão de seus dedos nos ossos do meu pulso. — Não implore assim. É deselegante — sussurrou Eli. Em seguida, ele me puxou para ainda mais perto, forçando seu corpo contra o meu. — Agora, vou te dizer uma coisa muito importante, mas depois preciso ir para o meu segundo compromisso de hoje. Não tenho muito tempo, então escute bem: você não caiu daquela ponte. — Não... — gemi. — Eu caí. Sei que caí. Eu não pulei. — Cale a boca! — rebateu Eli. — Você não caiu. E nem pulou também. — Q-quê? — balancei a cabeça, sem conseguir pensar direito, sem conseguir entender. Eli se inclinou até encostar seus lábios frios na minha orelha. Bem baixo, quase até demais para que eu conseguisse ouvir, ele sussurrou: — Você foi empurrada. E então, de repente, Eli soltou meu braço. Eu ainda estava tentando me desvencilhar, então voei para trás com o impulso. Caí no chão, olhando em desespero para o rosto macabro de Eli. A última coisa que ouvi, antes da minha visão se apagar, foi o baque alto da minha cabeça contra minha própria lápide.

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Vinte e Três Foi como em todas as outras vezes. Abri os olhos em meio àquela água terrível de sempre, que se revirava e borbulhava à minha volta, talvez pela corrente do rio ou pela minha própria agitação, não sei bem. A água turvava minha visão, engolia meus membros cada vez mais fracos e avançava contra meus lábios, tentando abri-los para me invadir. Meus pulmões ardiam pela falta de ar, e meus braços doíam de tanto se debater. Manchas escuras — um efeito da falta de oxigênio — começaram a dançar pela minha vista. Outro pesadelo. Eu estava em outro pesadelo. A parte racional do meu cérebro percebeu isso e sussurrou com calma para a outra que esse horror logo chegaria ao fim, que eu sempre acordava no final dessa cena grotesca, ainda que como uma garota morta. Sabia pelo menos que se parasse de relutar, o pesadelo cedo ou tarde acabaria e eu acordaria no cemitério. E assim que eu acordasse, poderia voltar para Joshua. Só de pensar em seu nome, já ganhei novas esperanças. Foi isso o que me deu motivos para desistir de relutar, por mais que essa decisão fosse contra o meu um tanto irônico instinto de sobrevivência. Parei então de me debater. Soltei meus braços e minhas pernas. Deixei a corrente me puxar, deixei a água me envolver e me arrastar. Fechei os olhos só para não precisar assistir a essa parte do pesadelo, e abri a boca, esperando sentir o inevitável ar do meu cemitério. No entanto, em vez de ar, fui invadida por água quando abri a boca. Engasguei, engolindo mais água sem querer. Abri os olhos, mas ainda vi aquele rio escuro ao meu redor, e não o cemitério ensolarado de sempre. Alguma coisa estava muito errada.

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Nunca tinha engasgado antes. Em nenhum outro pesadelo, a água tinha chegado a entrar de fato nos meus pulmões. Eu sempre acordava logo antes de morrer. Sempre. Mas agora não, pelo visto. Meus pulmões berraram porque a água causou uma dor muito pior do que a falta de ar. Meu corpo inteiro começou a se debater como uma resposta frenética à ardência no meu peito, sacudindo meus braços e agitando minhas pernas como uma tesoura abaixo de mim. Eu me debati, me debati e então... Não sei como, comecei a subir. Em poucos segundos, minha cabeça emergiu da água. Senti o vento e gotas pesadas crivando minha pele. A chuva vinha de todos os lados, caindo sobre mim em uma torrente e respingando na água do rio de volta contra o meu rosto. Meu corpo começou a reagir de novo. Tossi duas vezes e cuspi um pouco da água dos meus pulmões. Minhas mãos bateram sem força na superfície do rio em uma inútil batalha para me manter boiando. Enquanto me debatia, tive uma sensação estranhíssima nos pulsos, embaixo da mandíbula e no peito: uma batida pesada que reverberava pelo meu corpo todo. Sem saber lá muito bem o que eu estava fazendo, pus uma das minhas mãos sobre o meu coração. Só então, com a mão firme contra o peito, me dei conta do que era aquilo: meu coração estava batendo. Era uma pulsação, correndo pelos meus pulsos e pelo meu pescoço. Eu estava viva. Abri a boca para gritar — de medo, de alegria. E para pedir socorro. Se eu estivesse mesmo viva, precisava de ajuda, e rápido. Mas outro som abafou meu grito: risos, altos e ensandecidos, vindo de algum lugar acima de mim. Vozes distintas se misturavam a essas gargalhadas frenéticas, entre um grito ou outro. Mesmo sendo muito parecidas, todas essas vozes me soavam muito familiares. De quem elas eram? De onde elas vinham? Estreitei os olhos sob a chuva. Bem acima de mim, consegui avistar os contornos da Ponte Alta e de uma multidão de figuras em sua borda. Você não se lembra dessa cena, Amélia? Não é tudo tão terrivelmente familiar?, sussurrou uma voz aveludada — uma versão mais sombria da minha — dentro da minha cabeça. Franzi a testa enquanto continuava a tossir, cuspindo mais água. O que estava acontecendo? 194


Olhei de volta para a ponte e as figuras em cima dela. — Socorro! — implorei. Minha súplica saiu como um frágil gemido que mal conseguiu chegar à ponte. Ao ouvir minha voz, uma das figuras se afastou do bando. Ela virou sua cabeça e seus olhos se fixaram nos meus. Mesmo embaixo da chuva, pude ver que essa figura era de um garoto. Talvez eu não tenha conseguido ver seu rosto direito, mas naquele momento, pude identificar com facilidade sua mandíbula quadrada, seu nariz retinho perfeito e seus cabelos loiros curtos. Porque eu conhecia aquele garoto que estava olhando para mim da Ponte Alta. Na verdade, só o conheci um pouco antes da minha morte. Só no meu último ano do colégio, quando praticamente forcei minha mãe a deixar que eu estudasse no Colégio Wilburton. O garoto que agora olhando para mim teria se formado comigo, se eu tivesse chegado a me formar. Eu me lembrei dele. Eu me lembrei de tudo sobre Doug Davidson. Doug, o menino mais popular do colégio. O que tinha mais amigos, o carro mais rápido e os pais mais ricos. O que tinha virado meu amigo assim que pisei no Colégio Wilburton. O que tinha... o que tinha... Eu estava me esforçando para vasculhar minha memória, tentando lembrar, quando outra figura se aproximou dele na borda da ponte e pôs o braço em volta do pescoço de Doug. Quando ela se inclinou para frente, pude ver seu rosto. Era Serena Taylor. Serena sempre foi minha melhor amiga, desde criança. A menina que eu tinha conhecido nas infinitas partidas de futebol no quintal de casa, forçadas pelos nossos pais em uma tentativa de que a gente se socializasse. A menina que havia me ensinado a passar batom, beber escondida as garrafas de bebidas do armário do meu pai, e como convencer meu pai a deixar que eu estudasse num colégio público pouco depois de ela ter se matriculado lá também. A menina que era tão loira e linda quanto o próprio Doug e que tentou fazer todo o tipo de coisa para conquistá-lo assim que eu a apresentei a ele, inclusive forçá-lo a ajudá-la a organizar uma festa. A festa que eles tinham dado juntos para o meu aniversário de dezoito anos. O dia em que morri. Minha cabeça se voltou para Doug e Serena de novo. Os dois estavam debruçados sobre o parapeito da ponte, com seus rostos à mostra agora. 195


Mesmo de longe e embaixo da chuva, pude ver que havia algo de errado com eles. Seus olhos azuis quase idênticos pareciam escuros demais, desfocados demais. Comecei a tremer não sei por quê. Ao ver aqueles rostos conhecidos — que não deviam mais parecer ter dezoito anos a esta altura, não é? —, senti uma tontura. Naquele instante, Serena gritou para mim. Sua voz aguda cortou o ar da noite, toda arrastada e bêbada, completamente fora de controle. — Amélia! Amélia. Feliz aniversário, menina! Ela ergueu um braço e, abrindo um sorriso absurdamente largo, me fez um aceno frenético. Antes que eu pudesse responder, ou gritar alguma coisa tipo, ―Socorro, pelo amor de Deus!‖, tive um flashback repentino e incontrolável. Foi muito parecido com os outros flashbacks que eu vinha tendo desde que conheci Joshua — imagens e sons do passado, memórias das quais tinha esquecido quando morri, voltaram com tudo à minha mente. De repente, me vi de frente para o meu armário no corredor todo iluminado do Colégio Wilburton. Colado na porta, havia um cartãozinho enfeitado com bexigas desenhadas. Nem precisei abri-lo para saber quem o tinha posto ali. E nem fiquei muito surpresa quando a autora do cartão deu um gritinho para me cumprimentar atrás de mim. — Feliz aniversário, minha amiga! Com um largo sorriso, me virei. — Serena, você já chegou atrasada umas noventa vezes neste semestre. Você não acha que já deveria estar na sua sala a esta hora? Ela sorriu de volta para mim e então soprou uma mecha loira de cima do seu olho com uma bufada. — Não no aniversário da minha melhor amiga. — Ela se apoiou contra os armários, batendo nas portas com uma sacola de papel que estava na sua mão. — O que tem nessa sacola aí? — perguntei. — E que sobretudo é esse? Com sua mão livre, Serena puxou o cinto de seu sobretudo cáqui, que se abriu. Por baixo, ela estava usando um vestido rosa que ficava no tênue limite entre o sensual e o vulgar. Seu corpete bem justinho era decotado um pouco baixo demais para o meu gosto, e a saia meio curta demais. — Nossa, que gata! — exclamei.

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— Que bom que você gostou. — Ela me jogou a sacola, e eu a peguei no meio do ar. — Aí tem um vestido para você usar hoje à noite. Espero que você goste de tomara que caia. — Serena, não posso... — Ah, pode sim — resmungou se fingindo de irritada. — Tudo bem, tudo bem. — Dei risada. — Mas como assim, ―hoje à noite‖? — Você não achou mesmo que ia escapar de uma das minhas famosas festas, não é? Ainda mais no seu aniversário de dezoito anos. É tipo, obrigatório. Grunhi, mais para concordar do que para reclamar. — Tudo bem. Quando e onde? Ela me abriu um sorriso malicioso — um sorriso que, por algum motivo estranho, me deixou desconfortável. — Não posso falar, Amélia querida. Mas às oito vou te pegar e te levar para a melhor festa do ano. Depois de convencer sua mãe a deixar você voltar bem tarde para casa, é claro. — Isso só vai me render mais uma daquelas nossas brigas épicas. Serena, no entanto, apenas encolheu os ombros, indiferente ao meu drama familiar. Dei risada de novo, mas me sentindo mais hesitante dessa vez. — É sério, Serena. Preciso saber onde vai ser essa festa. Ela balançou a cabeça e piscou para mim. — Não. Agora, fique quietinha aí para eu poder ir encontrar o Doug e ver se ele aprova o meu vestido também. De repente, o flashback avançou para várias horas depois. Imagens borradas passaram à minha volta até minha visão clarear de novo, então me vi na frente de uma multidão enorme. Uma multidão imensa, aliás. Havia dezenas de pessoas à minha volta, sorrindo, dando risada e se amontoando em volta do que parecia ser um pequeno barril de cerveja. Vi que alguns ali eram meus amigos de quando estudava em casa e outros do Colégio Wilburton. Mas nunca tinha visto a maioria das pessoas naquela festa antes. — Serena — disse, entre meus dentes cerrados. — Quem são essas pessoas? Serena pulou para o meu lado, hiperativa e provavelmente já meio alta. Ela me entregou seu copo, e eu virei um gole nervoso.

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— São amigos — disse Serena, dando uma risadinha. — Ou melhor, o Colégio Wilburton inteiro. Então... são amigos em potencial, né? — Isso é coisa do Doug? — perguntei, enquanto devolvia o copo para ela e começava a alisar dobras imaginárias no meu vestido branco. O traje escolhido por Serena para o meu aniversário na verdade nem me surpreendeu. Era um vestido absolutamente lindo — sem alça e justinho na parte de cima, com camadas de um tule todo delicado embaixo —, mas também totalmente inapropriado. Fiquei vermelha de vergonha ao olhar para ele. Eu devia estar parecendo alguém que estava indo para algum baile de formatura. Um braço forte se apoiou no meu ombro, me fazendo soltar um grito de surpresa. — Mas é claro — disse Doug, me puxando mais para perto. Deu uma olhadinha de lado para mim. — Aliás, belo vestido. Encolhi os ombros para me soltar de seu braço. — Aposto que você gostou mais do da Serena. — Pode ser — disse, e então me empurrou para se aproximar dela. Segundos depois, eles já tinham dado os braços e sumiram em meio à multidão, me deixando sozinha ali, com o meu lindo, mas embaraçoso vestido, na minha própria festa de aniversário. Olhei para a multidão, à procura de algum amigo, mas não tive sucesso. Um estrondo me distraiu, e olhei para o alto. Acima de mim, a noite parecia escura e limpa, mas sabia que não era bem assim; nuvens pesadas e cinzentas haviam passado o dia todo ameaçando desabar uma tempestade. Agora, raios cortavam o céu com clarões ofuscantes que se refletiam nas vigas metálicas da Ponte Alta. Eu odiava aquela ponte, odiava mesmo. Ela era muito frágil e velha e já tinha sido cenário de acidentes e suicídios demais para o meu gosto. Mas eu podia imaginar por que Serena havia escolhido aquele lugar para dar a minha festa: graças à sua má reputação, a estrada era praticamente abandonada, o que a tornava um local perfeito para festas épicas. Aliás, eu devia ser a única pessoa de Wilburton que não gostava da ideia de encher a cara na Ponte Alta. E continuava não gostando. Ficar pensando nisso, no entanto, não iria melhorar muito o meu humor. Então olhei para os rostos à minha volta, à procura de alguém para conversar. Mas todo mundo me ignorou totalmente. Bom, todo mundo menos uma pessoa. Um garoto, bem à minha frente, no meio da multidão e apenas 198


parcialmente visível, chamou minha atenção. Ele pareceu ficar espantado por um instante, como se algo em mim tivesse o surpreendido, mas depois sorriu e me fez um leve aceno de cabeça. Esse gesto deveria ter me deixado feliz, mas na verdade me irritou. Não sei bem o porquê, já que o menino era muito bonito: ele tinha uma estranha pele brilhante, longos cabelos loiros, olhos azuis-claros e estava com uma camisa preta, aberta com um ar todo provocador sobre seu peito nu para revelar um amontoado de colares. Mas alguma coisa em seu sorriso tinha um quê de malícia. Eu me inclinei de lado até uma garota que me pareceu vagamente familiar e gritei por cima de todo o barulho: — Oi! Está vendo aquele menino todo roqueirinho ali? Você sabe quem ele é? — Quem? — berrou ela. Quando me virei para apontar na direção dele, não consegui mais vêlo em meio àquele mar de rostos. Será que ele tinha saído do lugar? Franzi a testa e comecei a abrir caminho entre a multidão, de repente determinada não sei bem por que a encontrá-lo. As pessoas iam e vinham à minha volta, às vezes bloqueando minha passagem, às vezes me empurrando para frente. Analisei cada um dos convidados, mas não consegui encontrar o roqueirinho, nem Doug ou Serena. Enquanto me espremia ponte à frente, gotas de chuva começaram a cair do céu, fracas no começo, mas que depois começaram a engrossar. — Que maravilha — murmurei, enxugando um pingo grosso no canto do meu olho direito. Mas por mais que eu passasse a mão, esse pingo não saía. Irritada, virei minha cabeça com toda força para a direita. Foi então que eu os vi. Eles deviam estar na borda da minha visão periférica, quase fora de vista: vultos escuros pairando em meio à multidão, rodando em volta da cabeça das pessoas. Essas formas negras e espectrais se moviam como um líquido, ondulando e serpenteando de um lado para o outro. Ainda assim, elas pareciam densas, quase como nuvens, ou... — Fumaça! — gritei, me espremendo contra um garoto que estava especialmente bêbado. Continuei gritando essa mesma palavra e abrindo caminho entre as pessoas, mas a multidão respondia aos meus gritos apenas com gargalhadas e olhares vazios, como se não pudessem ver que eu estava ali, muito menos os vultos estranhos pairando sobre suas cabeças.

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Comecei a entrar em pânico. Senti uma descarga de adrenalina e então tentei me espremer em meio à densa massa de corpos alheios à minha presença. De repente, meus braços escaparam da multidão. Minhas mãos se debateram no ar por um instante até encontrarem alguma coisa sólida: uma superfície lisa, fria e molhada de metal. Eu me agarrei a ela e a usei para me arrastar para fora daquela muralha de corpos. Olhei para baixo e vi minhas mãos firmes na borda do parapeito de metal da estrada, uma estrutura frágil feita para impedir que os carros caíssem no rio lá embaixo. Com a multidão se remexendo atrás de mim, me abracei ao parapeito em uma tentativa de escapar da massa. Mas sinceramente, escapar para onde? Arrisquei olhar para baixo, para o rio. O rio pareceu saltar contra mim, caudaloso após três semanas das fortes chuvas de primavera de Oklahoma. Nunca tinha visto aquelas águas tão altas assim, ou tão turbulentas com a violenta corrente. Uma espuma parecia contornar as bordas do rio, como um cão raivoso babando. Essa cena me causou um profundo calafrio cortante na espinha. Mas... E se eu simplesmente... pulasse? Eu me debrucei mais sobre o parapeito, olhando para a água. Claro, eu estava a vários metros de altura, e o rio parecia mais perigoso do que nunca. Mas será que eu conseguiria escapar da festa se me inclinasse só um pouquinho mais para frente...? Quase perdi o fôlego e me afastei do parapeito, balançando a cabeça de medo. O que diabos tinha me dado aquela ideia? O que me fez achar que eu poderia simplesmente pular e sair nadando? De onde aquela ideia tão obviamente perigosa tinha vindo? Naquele instante, senti um impulso mais forte do que qualquer outra coisa na minha vida: eu queria ir embora daquele lugar. Para longe daquela multidão de estranhos e daquela fumaça bizarra que pairava — aparentemente sem origem alguma — sobre todos. Para longe daquele rio. Olhei de volta para a multidão, desesperada à procura de alguém que eu conhecesse. Alguém que pudesse me tirar dali. Foi então que o avistei de novo. O roqueirinho. Ele me viu de trás de um bando de rostos, agora com um inconfundível sorriso malicioso no rosto. Não sei como, mas na mesma hora, tive a certeza de que ele pôde ver o medo nos meus olhos. E de que ele estava gostando. 200


Antes que eu pudesse gritar para ele me deixar em paz, outro rosto apareceu à sua frente. Quando Serena me abriu um largo sorriso, quase desmaiei de alívio. Ela passou entre os outros convidados, abrindo caminho até chegar à minha frente. — Serena, graças a Deus... — Amélia! — me interrompeu com um gritinho todo alegre, e então lançou os braços em volta do meu pescoço para um forte abraço. O movimento foi violento demais e quase me derrubou por cima do parapeito. Consegui me segurar na borda metálica curva, me agarrando em desespero à sua superfície lisa. — Serena, cuidado! — gritei. Na mesma hora, ela me soltou, e eu consegui me apoiar no parapeito de novo. Mas em vez de ver se eu estava bem ou sequer me acalmar, Serena só se virou de volta para a multidão em festa na ponte. — Oi, pessoal, escuta aqui! — disse ela, arrastando cada palavra. Nunca a tinha visto tão bêbada assim. — Vocês sabiam que hoje a Amélia está fazendo dezoito anos? Em resposta, a multidão inteira se virou para nós. O resultado disso foi perturbador, como se centenas de olhos tivessem se focado ao mesmo tempo em mim. Então consegui avistar os olhos azuis de Doug a uns seis metros de mim. Os olhos do roqueirinho também reapareceram, emanando um leve brilho, perto dos de Doug. Acima de todos ali, ainda pairavam os vultos escuros, circulando em cima e em volta de cada pessoa. De repente, todos voltaram a falar, mas desta vez, dizendo uma única palavra. Uma mesma palavra, sendo repetida várias e várias vezes por uma centena de vozes diferentes. Meu nome. Ainda olhando para as pessoas, Serena se apoiou de costas em mim, e seu peso me empurrou ainda mais contra o parapeito. Meus pés chegaram a sair do asfalto e balançaram um pouco pelo ar. Isso deveria ter me apavorado. No entanto, quando Serena se virou de volta para mim, fiquei espantada ao ver seus olhos. Eles estavam desfocados, como os de qualquer pessoa bêbada estariam. Eu já tinha visto os olhos de Serena turvos pela bebida antes, várias vezes, aliás. Mas seja lá o que estivesse enevoando seus olhos agora, com certeza não era o álcool. Seus olhos estavam arregalados e vazios demais, com suas pupilas tão dilatadas que restava agora apenas um fino círculo branco à sua volta. 201


Serena parecia estar possuída. Quando ela se inclinou para perto de mim, eu recuei. Mas minha reação não deteve Serena. Ela se aproximou de mim, me empurrando mais e mais sobre o parapeito até eu ficar em paralelo ao rio. Em seguida, Serena me pegou pelos ombros e, com um sussurro rouco, disse: — Feliz aniversário, amiga. Com um estranho sorriso largo até demais, ela soltou meus ombros. Esse foi o movimento fatal. Meu parco equilíbrio sobre o parapeito se perdeu. Rolei para trás e pairei pelo que pareceu ser uma eternidade sobre a borda. Em seguida, caí, rolando por cima da estrutura metálica. Ouvi a água agitada borbulhando lá embaixo, enquanto o rio avançava contra mim. Um pouco antes de cair na água, escutei um coro de gritos acima de mim. Naquele momento, o flashback acabou. Por um instante, quase me esqueci de que aquilo era só um flashback. Mas a memória perdeu o foco e se esvaiu. Voltei a me ver no rio, olhando para a ponte lá no alto. Percebi então uma coisa terrível. Não sabia como, nem por que, mas quando esse último flashback acabou, não me vi de volta ao presente na relativa segurança do meu cemitério. Em vez disso, eu ainda estava me debatendo no rio, ainda passando pelo que no começo achei ser só mais um dos pesadelos de sempre. Então, o flashback não tinha acabado. Na verdade não. Porque eu ainda estava lá, em certo sentido. Ainda estava no rio, na noite do meu aniversário de dezoito anos. De repente, percebi que Doug e Serena ainda estavam olhando para mim, com seus olhos arregalados. — Doug, ela viu a gente! — gritou Serena. — A Amélia viu a gente! Doug não respondeu aos gritos de Serena, nem tirou os olhos de mim. Ele apenas abriu um sorriso ensandecido e, como Serena já tinha feito no flashback de antes, acenou para mim. Eu ainda podia ver aquelas mesmas sombra escuras, dançando em volta dos meus amigos. Eu sabia o que elas eram agora. Elas só podiam ser as almas aprisionadas do submundo. Os servos de Eli. Os espectros que estavam por trás de toda esta noite. — Doug, Serena, por favor! Eu não consigo... Minha voz saiu ainda mais fraca do que no outro flashback. Pude sentir meu corpo perdendo a batalha contra a corrente. Estava fragilizada

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demais para sair nadando daquela água turbulenta agora, sabia muito bem disso. Eu precisaria da ajuda dos meus amigos. Uma ajuda que talvez eles não estivessem dispostos a me oferecer. Doug e Serena pareciam duas estátuas, totalmente inertes em cima da ponte. — Por favor — gritei mais uma vez, o mais alto que pude. Ao ouvir minha voz cheia de angústia, Serena se virou para a multidão de convidados atrás dela e gritou para eles, erguendo sua voz com um berro histérico por cima de todas as risadas. — Ei, pessoal! Vamos cantar ―parabéns‖! Balancei a cabeça, exausta. Queria gritar para aquelas pessoas. Para implorar que elas não ouvissem Serena. Para dizer que elas estavam todas sendo controladas por espíritos sombrios que as levaram à loucura e as deixaram fora de si. No entanto, minha voz, assim como meus braços, parecia prestes a entrar em colapso. Então, só me virei para Serena e implorei em silêncio com meus olhos. Serena olhou de volta para mim com um repentino ar determinado. Soltei um imenso suspiro de alívio. Sua expressão só podia significar uma coisa: ela tinha decidido chamar socorro. A polícia, uma ambulância, talvez até meus pais. Enfim, tanto faz, eu não estava nem aí, desde que alguém me tirasse daquela água. Mas quando Serena finalmente falou, sua voz saiu calma, calorosa, sem nenhuma urgência. — Essa é para você, Amélia, minha querida! — disse, e então se virou para a multidão. — Todo mundo pronto, pessoal? Vamos lá! Um uníssono de vozes irrompeu da ponte, como um coral. — Parabéns pra você, nesta data querida... — Não! — gritei, tentando relutar de novo contra as ondas. Mas é claro, meu grito não saiu mais forte do que um sussurro rouco, e meus esforços não foram nada em comparação ao controle que a corrente agora tinha sobre meu corpo. Eu não estava mais conseguindo boiar direito, muito menos escapar da força da correnteza. Com uma clareza angustiante, entendi o que estava acontecendo. As pessoas na ponte em cima de mim estavam enlouquecidas demais, bêbadas demais, para me ajudar. Nunca conseguiria recobrar minhas forças. E continuaria a perder mais e mais energia na minha batalha contra o rio. Essa cena só tinha um único desfecho possível.

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Não!, gritei dentro da minha cabeça. Isso não precisa acontecer de novo. Posso mudar essa situação. Não preciso morrer desta vez! Não mesmo! — Socorro! — gritei em voz alta, mas já quase totalmente sem forças, então o grito ecoou só na minha mente. Minha cabeça afundou e ficou embaixo da água por alguns segundos. Quando a corrente me empurrou de volta até a superfície, arquejei em pânico. Mas meu arquejo não durou muito, porque a correnteza me puxou de volta para baixo quase que na mesma hora. Quando afundei, ainda estava tentando respirar, então acabei engolindo água. A corrente me fez girar e por fim me levou para o outro lado da ponte, antes de me erguer para fora da água de novo. Tossindo e cuspindo, olhei para o alto da ponte, agora do outro lado de onde eu tinha caído. Pude ver de relance as silhuetas borradas pela chuva de Doug e Serena correndo até o parapeito atrás de mim. Tentei erguer a mão até eles, mas não consegui nem tirar meu braço da água. Só então percebi que Serena estava me estendendo alguma coisa. Era sua mão, esticada mais uma vez sobre o parapeito até mim. Ela me deu outro aceno, toda alegre, agitando seu braço com um ar alegre sob a chuva pesada. Seu enorme sorriso foi a última coisa que vi antes da minha cabeça afundar de novo pela terceira e última vez. Não consegui ver mais nada depois disso.

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Vinte e Qyatro Acordei,

ainda ofegante e tossindo. Meus dedos se remexeram

freneticamente à procura de algum apoio à minha volta. No começo, não consegui sentir nada, o que só me aterrorizou ainda mais. Mas então, senti a pressão mortiça de alguma coisa embaixo de mim — uma coisa sólida. Virei a cabeça o máximo que pude para a direita e vi algo meio amarelado e sujo a poucos centímetros do meu rosto. Estreitei os olhos, focalizando melhor a cena. Pude ver então fios marrom-escuros entre esse amarelo. Levei um instante para me dar conta de que os fios marrons eram meus cabelos, espalhados pela grama seca e amarelada embaixo da minha cabeça. Acima de mim, tudo o que podia ver eram as estrelas. Eu me levantei e olhei à minha volta. Bem longe, ao oeste, o céu estava com um leve tom de violeta, onde o sol tinha acabado de se pôr entre as montanhas. Do outro lado, a noite já havia começado a escurecer, ganhando profundos tons de roxo e azul. Ainda assim, mesmo sob a escuridão, reconheci as curvas e contornos de lápides familiares à minha volta. Eu estava no meu cemitério de novo. Ergui a mão e toquei com cuidado na parte de trás da minha cabeça, no ponto onde ela tinha batido contra minha lápide. Nada. Nenhum sinal de sangue ressecado, nem qualquer ferimento, mas por algum motivo, minha cabeça ainda latejava um pouco. Coloquei a mão no peito, logo acima do coração. Não senti nenhuma batida. Nenhuma pulsação. Estava morta de novo. Pela primeira vez, isso na verdade me deixou até feliz. Ainda sentada, me virei para a minha lápide. Mesmo sob a penumbra da noite, pude ver uma enorme rachadura que agora a cortava bem no meio. Por mais que ela não tivesse me machucado, eu com certeza lhe causei um belo estrago. 205


Bom, o papai sempre disse que eu tinha a cabeça dura. Ao pensar no meu pai, olhei na mesma hora para sua lápide. Ela ainda estava intacta, e então, não sei bem por que, soltei um suspiro de alívio. Em seguida, ergui a cabeça de novo à procura da próxima ameaça mais perigosa do meu pós-vida. No entanto, uma breve olhada pelo cemitério me mostrou que Eli Rowland havia sumido. Olhei para o meu braço, onde um leve hematoma parecia ter se formado em volta de onde Eli tinha me agarrado. Com cuidado, toquei no meu lábio inferior e notei um corte enorme. Nenhum dos dois ferimentos doía. Ainda assim, por mais impossível que fosse, eles eram muito reais. Soltei outro suspiro e me sentei no chão, puxando minhas pernas junto ao peito e laçando os braços em volta delas. Eu tinha que sair daquele lugar, e logo. Mas antes, precisava pensar. Vamos por partes: agora me lembrava da minha morte, é claro. De cada terrível detalhe. E sabia onde meus pesadelos começavam. Era sempre no momento em que eu caí no rio, no momento em que o rio sugou minhas energias, antes de eu voltar à superfície só por tempo o bastante para ver meus amigos — controlados por alguma força sombria, e claramente maligna — assistindo à minha morte. De certa forma, meus pesadelos vinham sendo até piedosos. O universo, o destino ou até minha própria mente tinham me forçado a reviver minha morte várias vezes, mas não tinham, ao menos até agora, me feito passar pela pior parte de tudo. Essas novas memórias perturbadoras trouxeram outra coisa à tona também. Eli esteve lá, observando tudo, só esperando com uma alegria maligna. O roqueirinho, com seu sorriso malicioso e olhar frio. Serena não me empurrou, nem Eli, é claro. Mas Eli com certeza teve algo a ver com minha queda. Ele estava controlando aqueles vultos escuros (tão iguais àqueles do submundo que só poderiam ser os mesmos) que pairavam em volta das pessoas e as possuíram, evitando que elas me ajudassem. Enquanto esfregava meu pulso, distraída, fiquei pensando no que Eli tinha feito: será que ele tinha me irritado tanto, me deixado tão enfurecida, que acabei me transportando de volta justo para a memória de que ele estava falando? Se fosse isso mesmo, a potência dessa materialização forçada tinha me dado outra ideia. Eu claramente era capaz de viajar pelo tempo e pelo 206


espaço, por mais que ainda não tivesse um controle total sobre isso. Mas também estava certa de que eu tinha outros poderes ainda desconhecidos. E agora, acreditava na alegação de Eli de que os fantasmas eram capazes de coisas extraordinárias, em especial sob o efeito de emoções muito intensas. Meus ferimentos eram uma prova clara disso. Lembrei então da cadeira que tinha sido empurrada para trás quando me levantei rápido demais na biblioteca do Colégio Wilburton. Isso aconteceu logo depois de eu ter visto minha foto no anuário, logo depois de uma forte descarga emocional. Isso sem falar nos meus vários anos de materializações após meus pesadelos, ou na rachadura na minha lápide. Pelo visto, Eli não era o único com esse tipo de poder. Eu também conseguia me materializar e afetar objetos físicos. Mas do que mais eu era capaz? De que outras formas eu podia influenciar o mundo dos espectros e o mundo dos vivos? Essas perguntas me lembraram da melhor parte do mundo dos vivos que eu já tinha experimentado até agora. Joshua. Se eu fosse capaz de influenciar os dois mundos, talvez pudesse proteger Joshua de Eli. E se eu pudesse impedir Eli de tocar em mim — de me machucar ou me irritar a ponto de fazer com que me desmaterializasse sem querer —, talvez tivesse alguma chance contra ele. Será que eu era capaz de atacá-lo? De machucá-lo de verdade, de fazê-lo sangrar, como ele tinha feito comigo? Nem que fosse só o bastante para impedir que ele chegasse perto de Joshua. Talvez, se eu me concentrasse o bastante, poderia fazer... alguma coisa. Seja lá o que essa coisa pudesse ser. — Amélia! Esse grito inesperado me fez dar um pulo e cair agachada no chão, me segurando à grama e rosnando na direção da voz. A simples ideia, a mera insinuação, de que Eli poderia ter reaparecido foi o bastante para me deixar totalmente enfurecida. E eu também devia estar parecendo uma maluca quando Joshua, e não Eli, veio correndo até mim, porque ao me ver com aquela postura agressiva, ele parou de repente. — Amélia? — perguntou de novo, mais tímido dessa vez.

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Me acalmei um pouco e me ajoelhei no chão. Estava me sentindo humilhada, apavorada, confusa. Os olhos de Joshua também estavam arregalados de medo. — Você está aqui de verdade? — sussurrou. — Não estou ficando louco, estou? Não estou, tipo, só imaginando você, não é? — Não — disse, me soltando para estender um braço para ele. — Você não está ficando louco. Sou tão real quanto um fantasma pode ser. Joshua me surpreendeu dando um pulo na minha direção. Ele caiu de joelhos e então me puxou para um abraço com uma velocidade atordoante. — Meu Deus, Amélia — murmurou contra os meus cabelos. — Será que tenho como ficar muito bravo com você e totalmente aliviado ao mesmo tempo? — Acho que sim — dei risada, abraçando-o com força. Aconcheguei meu rosto contra sua camiseta azul-clara e suspirei. — Desculpe, Joshua. Desculpe mesmo. Enfim, estou contente por ter feito tudo sozinha, mas não estou nem um pouco contente com o jeitoque fiz isso. — Mas o que foi que você fez? — Eu me materializei no cemitério. Me encontrei com Eli, e algumas coisas aconteceram... coisas ruins, inclusive um pesadelo... e aí acordei. Peço desculpa mesmo por não ter te explicado o que eu ia fazer. Só não queria que você viesse atrás de mim se desse certo, para que você não se machucasse. Mas pelo visto, você me seguiu, porque enfim, aqui está você, e eu também... Joshua interrompeu meu tagarelar com uma risada tensa. — Você tem ideia de quantos cemitérios existem em Wilburton? Não são poucos... — Ai, nossa, me desculpe — gemi de novo. Joshua pegou meu rosto com suas duas mãos e o ergueu com carinho, mas também firmeza até nossos olhos se encontrarem. — Amélia, nunca mais faça isso, tá? A não ser que você queira me matar também. — Desculpe — repeti mais uma vez. Em seguida, balancei a cabeça. — Estou sempre pedindo desculpa, não é? — Se você prometer que vai pelo menos me avisar quando for fazer alguma coisa assim de novo, não vai ter pelo que se desculpar. Ergui uma das mãos em um gesto de juramento. — Prometo. Sempre, sempre vou avisar você antes de fazer alguma coisa idiota de agora em diante. 208


Joshua acenou a cabeça, parecendo um pouco mais calmo. — Tudo bem. Agora me prometa outra coisa: você nunca mais vai falar com Eli sozinha. — Que tal se nenhum de nós nunca mais nunca mais falar com ele? Joshua pareceu surpreso. — Bom, por mim, seria ótimo. Mas como a gente vai fazer isso? — Descobri algumas coisas hoje — disse eu. — Tenho muito para te contar. Mas antes, acho que tenho alguns poderes também, como os do Eli. Não sei bem quais ainda, mas acho que se eu ficar irritada o bastante, tenho como usar isso contra ele. Joshua arqueou uma sobrancelha. — Então você acha que ele vai aparecer de novo? — Com certeza, mas sei lá quando... Não terminei minha frase e então franzi a testa e olhei para a grama, pensativa. Ao relembrar minha conversa com Eli no começo daquela manhã, algo me pareceu estranho. Só então me dei conta do que Eli tinha falado logo antes do meu empurrão para fora da Ponte Alta. Que ele tinha outro compromisso ainda hoje. Uma canção de repente invadiu minha cabeça, abafada e distante. Iremos nos reencontrar... Senti um arrepio sinistro percorrer minha pele, mas não teve nada a ver com Joshua. — Joshua, o Eli não passou na sua casa hoje, passou? — Não que eu saiba. — Tem certeza? Ele deu risada. — Tenho sim, claro. — Você falou com o resto da sua família? — insisti. Joshua ficou sério na mesma hora. — Bom, não, mas... — Quanto tempo fiquei sumida? — o interrompi. — O dia inteiro. Ainda é sexta-feira. Mas agora já é de noite. — Onde está o resto da sua família? — Minha mãe e meu pai saíram juntos. E a Jillian aproveitou isso para sair também. — Para onde ela foi? — A Jillian voltou para casa toda empolgada com uma festa que ia rolar hoje à noite. Ela me zoou por eu não querer ir... não quis, porque achei 209


que ia passar a noite inteira procurando você... e aí ela chamou todas aquelas amigas babacas dela lá em casa para se arrumarem. Acho que eu devia ter ido atrás delas para saber onde era a festa, mas eu estava mais preocupado com você. Essa história me incomodou, especialmente a parte da festa. Ergui a cabeça na mesma hora e voltei a olhar nos olhos de Joshua. — Eu... acho que a gente devia ir atrás da Jillian — disse. — E é melhor a gente correr. Ainda sem entender minha preocupação, Joshua deu risada. — Acho que a Jillian não ia gostar muito se eu aparecesse nessa festa assim, sabe. — Eu sei, mas... — disse, mordendo meu lábio, enquanto debatia comigo mesma dentro da minha cabeça. Por fim, acenei a cabeça. — Joshua, na noite em que morri, eu estava numa festa na Ponte Alta que fizeram para o meu aniversário. Essa festa... bom, tenho quase certeza que foi por causa dessa festa que morri. E foi tudo obra do Eli e dos servos dele. Pude praticamente ouvir os pensamentos de Joshua se conectando. — O que exatamente isso significa agora? — perguntou baixinho. — Não faço ideia. Talvez nada. Mas estou com um pressentimento estranho sobre isso. E se o Eli tentasse atacar a gente de outro jeito? Sei lá, talvez com essa festa. O que ele poderia fazer com as pessoas lá? — Você acha mesmo que ele faria isso? — Não sei... nada me parece impossível a esta altura. De repente, um barulhinho eletrônico interrompeu as minhas preocupações. Joshua pareceu ficar surpreso com o barulho também, porque se levantou rapidamente e se atrapalhou todo comigo em seus braços. O barulho trilou de novo, insistente, então ele pôs a mão dentro do bolso e pegou o celular. Abriu o aparelhinho e começou a apertar alguns botões. — É uma mensagem da Jillian, me convidando para a festa. — Uma mensagem? — É tipo um e-mail, mas pelo telefone — murmurou, claramente não muito interessado em me explicar novidades tecnológicas no momento. Mas não me incomodei. Nem fiquei surpresa quando, depois de ler a mensagem seu rosto ficou todo sério, e ele me soltou.

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— Onde é essa festa? — perguntei, fechando os olhos de medo. Senti uma dor estranha de repente nas minhas têmporas, como se já fosse uma resposta aos meus temores. — Na Estrada Ponte Alta. O mundo inteiro parou. Nada tinha saído do lugar, nada tinha mudado, mas me senti como se estivesse bem no meio de uma explosão nuclear. Ele fechou a cara ainda mais antes de olhar para mim. Foi fácil entender as emoções em seus olhos: incerteza, claro, mas também um medo profundo e crescente. Continuamos olhando um para o outro, ambos ainda paralisados. Em poucos segundos, uma enxurrada de pensamentos passou pela minha cabeça. Será que Joshua sabia dirigir rápido? Será que Eli tinha alguma coisa a ver com isso? E se tivesse, o que nós poderíamos fazer para detê-lo? Minha cabeça começou a latejar forte agora. Só a voz de Joshua conseguiu me tirar daquele transe. — Quer ir numa festa comigo, Amélia? — sussurrou, com um quê de pânico na voz. — Acho que seria uma boa — sussurrei de volta. Sem dizer mais nada, saímos correndo até a entrada do cemitério. — Eu dirijo — disse Joshua para mim. — Então é melhor você... Um clarão flamejante a menos de quinze metros de nós interrompeu minha frase e nos fez parar de repente.

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Vinte e Cinco Por um instante, achei que alguma coisa dentro do cemitério — talvez uma árvore — tivesse pegado fogo, mas então percebi que os sons que acompanhavam aquele clarão não eram apenas o sibilar de labaredas. Eram murmúrios humanos. Cânticos. O brilho das chamas era forte e o sol já tinha quase se posto, então tive que estreitar os olhos para ver melhor as silhuetas das figuras que estavam entoando esses cânticos logo em frente à cerca de ferro do cemitério. Mas quando olhei para o céu escuro, para a lua minguante lá no alto, todas as peças começaram a se encaixar... — Joshua, o exorcismo! — exclamei. — Era para ser esta noite. Na minha pressa para dar um jeito em Eli, tinha me esquecido totalmente do exorcismo. Mas Ruth e os outros videntes, não. Eles provavelmente deviam ter seguido Joshua até ali, sabendo que ele os levaria direto até mim. O latejar nas minhas têmporas agora pulsava no mesmo ritmo daquelas vozes; a dor devia ter começado junto com os cânticos, antes que eu mesma percebesse. Joshua grunhiu e pegou minha mão para me arrastar pelo cemitério até uma pequena colina, perto dos portões. Lá no alto, havia umas dez pessoas reunidas, homens e mulheres. Fora Ruth, cada uma das outras estava segurando uma tocha acesa, em volta do que parecia ser um círculo de um pó cinzento — idêntico àquele que havia em frente às portas da casa de Joshua — sobre a grama. No meio dessas pessoas, pude ver um pequeno objeto retangular no chão. A bíblia amarrada com ervas de Ruth, provavelmente. Todos os videntes estavam concentrados no centro desse círculo improvisado, menos Ruth, que estava mais ao lado, olhando para Joshua e eu.

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Joshua deu um aceno seco de cabeça para sua avó. — Tochas, vó Ruth? Será que usar umas lanternas não teria sido um pouco mais prático? O canto da boca de Ruth se repuxou de irritação. — As tochas dão um toque mais cerimonial, Joshua. Ao ouvir a conversa, os outros videntes finalmente olharam na nossa direção. Fiquei surpresa com seus rostos: a maioria daquelas pessoas era mais velha, mas outras eram jovens, mais ou menos da idade de Joshua e eu. Mas apenas algumas — em geral as mais velhas — estavam olhando direto para mim. Como Jillian tinha feito no estacionamento da escola e depois na cozinha de sua casa, os videntes mais jovens pareciam estar olhando para onde eu estava, mas sem conseguir ver nada muito bem. — Por que nem todos eles estão olhando para mim? — consegui sussurrar, por mais que todo o meu corpo, inclusive minhas cordas vocais, parecesse estar paralisado. — Nem todos eles passaram pelo evento que ativa seu dom — explicou Ruth, voltando seus olhos penetrantes contra mim. — Alguns deles não podem ver você... ainda. — Então não deixe que isso aconteça — pediu Joshua. Agradeci a Deus por isso, porque acho que não teria forças para dizer mais nada. Não sabia se aquele grupo de videntes tinha poder o bastante para me expulsar deste mundo, mas sabia que essa dor de cabeça (ainda não tão debilitante, mas cada vez pior) não era um bom sinal. Seja lá o que os videntes pretendiam fazer comigo, com certeza não era nada que eu fosse querer. Assim como não queria que esta fosse minha última noite no mundo dos vivos. Minha última noite com Joshua. No entanto, Ruth balançou a cabeça, negando seu pedido. — Nem pensar. Se ela está vagando entre nós, perdida entre um mundo e outro, ela só pode ser maligna. E não podemos correr o risco de que ela se junte àquele outro espírito para atacar mais pessoas naquela ponte. Joshua se inclinou para frente, me puxando sem querer junto com ele. — Vocês estão atrás do fantasma errado, é sério — gritou. Ruth balançou a cabeça, mas Joshua a cortou: — Não, me escute, vó Ruth. A Amélia não tem nada a ver com as mortes na Ponte Alta. Na verdade, ela foi

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uma vítima do cara que vocês estão caçando... o tal de Eli. Eu sei. Eu já vi esse cara, e ele é muito sinistro. Ruth deu um passo hesitante atrás, como se as palavras de seu neto a tivessem deixado confusa. Joshua se aproveitou do momento e avançou, enfiando sua mão livre no bolso. Ele pegou seu celular, o abriu e então o segurou bem na frente de Ruth. A princípio, ela até tentou ignorá-lo, mas logo depois seus olhos foram atraídos pela tela iluminada do celular. Ela franziu a testa, ainda olhando para o aparelho. — O que isso, Joshua? — perguntou. — É uma mensagem de texto da Jillian — disse, erguendo o celular para mais perto de Ruth ainda. — Ela e os nossos amigos estão numa festa lá na Ponte Alta, e a gente tem quase certeza de que é o Eli quem está por trás de tudo isso. — Como você sabe? — Sabendo, oras — quase gritou, já perdendo a paciência. Cada segundo perdido poderia custar a vida de sua irmã, e Joshua sabia muito bem disso. Ruth ainda parecia não estar acreditando, com sua boca repuxada com um ar cético. Mas em seus olhos... percebi um quê de dúvida. Uma hesitação que ficava clara sempre que ela desviava seu olhar para mim. — Ruth — disse, baixinho, dando um passo adiante com a mão de Joshua ainda firme na minha. A dor nas minhas têmporas piorou quando cheguei mais perto dela, mas continuei em frente. — Ruth, sei que você não confia em mim e, no fundo, nem tenho como culpar você por isso. Mas você tem razão quanto a uma coisa: esse tal Eli Rowland não presta mesmo. Ele controla aquele rio, e depois do que ele me mostrou sobre minha morte hoje à tarde, tenho quase certeza de que ele está por trás da festa desta noite. — Eu ainda podia ver um quê de incerteza nos olhos de Ruth, então me inclinei para mais perto ainda. — Por favor — murmurei. — Deixe essa história de exorcismo de lado por enquanto. Pelo menos até eu conseguir dar um jeito no Eli e ter certeza de que a Jillian está bem. Ruth olhou para o seu grupo de videntes, que estavam todos nos observando atentamente, e então se virou de volta para nós. — Por favor — repeti. Bem devagar, quase sem se mover, Ruth acenou a cabeça para mim.

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— Posso segurá-los um pouco — sussurrou. — Não estou prometendo nada definido, um dia, duas semanas, enfim, mas você precisa garantir a segurança da minha neta. Porque se não... Ruth não terminou a frase, mas eu não precisava ouvir mais nada. Se eu não salvasse Jillian, nada poderia me salvar. Mordi meu lábio, acenando a cabeça também. Eu me virei para Joshua, que ainda estava pálido, com medo. — Joshua? — disse. Por fim, ele acordou e desviou seu olhar de sua avó para mim. Quando percebi que ele estava concentrado nos meus olhos, apertei sua mão com força, disparando uma corrente de fogo que subiu e desceu pelos nossos braços. — Joshua, a gente tem que ir — ordenei. — Agora! Essas palavras foram o bastante para motivar Joshua. Ele soltou minha mão e saiu correndo até seu carro, tirando suas chaves do bolso. Já estava quase abrindo a porta quando percebeu que eu não estava atrás dele. Só então ele se virou para mim. — Amélia? — Pode ir sem mim. Consigo chegar lá muito mais rápido se me materializar só. — Boa ideia — Joshua acenou a cabeça. — Faça o que você puder. Eu vou bem rápido. Sua expressão me disse que ele estava aturdido demais para perguntar o que exatamente eu poderia fazer quando chegasse antes dele ao rio. Em seguida, entrou no carro e ligou o motor. Enquanto saía derrapando pela entrada de cascalho, me virei de volta para Ruth. Ela continuou parada, ainda me observando. Seus olhos se desviaram rapidamente na direção dos videntes, que estavam todos esperando ansiosos — quase enraivecidos, ao que parecia — pela sua decisão. Quando Ruth voltou a se concentrar em mim, pude ver diversas emoções se digladiando em seus olhos: a preocupação com Jillian; a frustração pelo impasse em que ela estava; e é claro, um ódio profundo. De mim. Todo esse seu ódio me irritou, especialmente porque aquela dor de cabeça ainda latejava nas minhas têmporas, ameaçando se transformar em mais uma daquelas terríveis e incapacitantes séries de imagens. Estava prestes a arriscar minha existência, meu próprio pós-vida, só para salvar

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sua neta, então acho que um pouco de gratidão, ou pelo menos uma breve trégua, não seria pedir demais. No entanto, apesar da minha irritação, minhas emoções não estavam fortes o bastante ainda. Precisaria ficar muito mais agitada para conseguir me desmaterializar. Então, em vez de pensar em Ruth, me lembrei de Serena Taylor e Doug Davidson. Meus melhores amigos em vida. As duas pessoas, de fora da minha família, que mais amei no mundo. Imaginei seus rostos insanos e possuídos na noite em que morri: distorções medonhas das boas pessoas que eles na verdade eram. Fantoches, manipulados com uma crueldade indiscriminada por Eli em seu joguinho à procura de almas. Nem Eli, nem seus mestres sombrios, jamais chegaram a cogitar que nossas próprias vontades deveriam definir nossos futuros. O que explicava a minha falta de futuro no momento. Essa ideia me deixou irritada na mesma hora. E muito. Minha raiva começou a borbulhar em algum lugar dentro do meu estômago, ameaçando chegar à minha garganta e sair como um rosnado. A força dessa emoção me deixou atordoada. Estiquei os braços, mas não encontrei nada em que me apoiar. Enquanto tateava pelo nada, senti de repente algo passando pela minha palma: era o ar — frio, como uma brisa vinda de um rio gelado —, se agitando com os movimentos do meu braço. Abri os olhos e vi minha mão. Ela ainda estava se debatendo, em meio apenas à escuridão e pairando vários metros acima do asfalto. Lá embaixo, fora do meu alcance, o asfalto acabou, sendo substituído por grama. Mas não era a grama de fora do cemitério, e sim uma mais densa e grossa que descia sobre uma encosta íngreme até um corpo de água. Até um rio. A Estrada Ponte Alta — era onde eu estava agora. Eu poderia ter passado algum tempo contente com essa minha segunda materialização e maravilhada com o fato de que a minha dor de cabeça tinha passado de repente, mas minha atenção foi chamada por um coro de vozes. Minha cabeça se virou na direção delas. Uma enorme multidão — todos alunos do Colégio Wilburton, ao que parecia, pelas suas camisetas e casacos roxos — estava ocupando a Estrada Ponte Alta. Alguém tinha parado o carro no meio da ponte, com as portas abertas, de onde saía uma música alta. Logo ao lado do carro, pude ver a forma metálica reluzente de um barril de cerveja.

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Uma cena bastante normal. Só uma festa de estudantes em uma sexta-feira à noite, cheia de pessoas se divertindo. Mas essa era uma festa que estava acontecendo em cima da boca do que eu agora tinha a certeza que era uma gélida sucursal sem fundo do inferno. Passei pela massa de corpos, analisando os rostos de cada estudante, mas sem encontrar nada fora do comum. A não ser pelo efeito da cerveja, todos me pareciam relativamente normais: nenhum olhar vazio e possuído, nenhuma gargalhada demoníaca. Será que eu tinha exagerado? Talvez essas pessoas não estivessem correndo nenhum perigo a não ser o de acordar com uma bela ressaca. Mais adiante, entre eu e o parapeito reconstruído da ponte, avistei alguns rostos conhecidos. O’Reilly estava ao lado do barril, com um braço em volta de Kaylen, tomando cerveja de seu copo enquanto apontava para Scott e Jillian. Kaylen parecia estar um pouco entediada, mas Scott não parava de lançar olhares para Jillian, que ficava vermelha sempre que seus olhos se encontravam. Soltei um suspiro de alívio, em maior parte porque eles não pareciam possuídos. Talvez eu tivesse exagerado mesmo. — Tudo tranquilo no fronte oeste — murmurei, balançando a cabeça para a minha própria paranoia boba. Mas então um sussurro familiar, tão perto do meu ouvido que quase me pareceu uma gélida carícia, me fez gritar. — Ah, talvez nem tudo, Amélia.

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Vinte e Seis Eu

já deveria estar preparada para isso desde quando vi todas

aquelas pessoas na ponte. Deveria ter feito a conexão e confiado nos meus instintos. Porque Eli nunca me deixaria escapar tão fácil assim. Não depois da nossa discussão de hoje no nosso cemitério. Ele queria outro confronto comigo e, como já tinha feito antes, usou todos os fantoches que pôde para me provocar. — Oi, Eli — sussurrei. A uma desconfortável curta distância de mim, Eli me contornou até ficar bem de frente para mim. Ele sorriu, claramente cheio de si. — Bela festa — disse eu. — Parece até que já vi isso antes. O sorriso de Eli cresceu. — Ah, então você lembra? — Sim. Agora lembro. Enquanto eu falava, dei alguns passos cuidadosos bem devagar na direção de Jillian e seus amigos, tentando contornar Eli para ficar entre eles. A cada passo, rezava para Eli não perceber nada até que eu chegasse perto o bastante para fazer... sei lá o que. Eli continuou sorrindo, ainda alheio aos meus movimentos. Ele provavelmente achou que eu estava só tentando evitá-lo, e até certo ponto, estava mesmo. Mas então, seus olhos se desviaram para os meus pés. Parei de andar, mas já era tarde demais. Eli percebeu meus movimentos, e seu rosto se fechou. — Pare — ordenou. — Por quê? — perguntei, tentando parecer valente. Eli me abriu outro sorriso. — Porque sim, oras.

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O brilho presunçoso em seus olhos me fez querer arrancar à força aquele sorriso de seu rosto. Tentei endireitar minha espinha e ignorar os calafrios que subiam e desciam por ela. — Não tenho medo de você, Eli. — Bom, mas deveria, Amélia. — Ele apontou com a cabeça para alguma coisa atrás de mim. Sem perdê-lo de vista, olhei por cima do meu ombro para Jillian e seus amigos. Fiquei horrorizada ao perceber que, durante esses meus poucos segundos de distração, toda a cena tinha mudado. O’Reilly ainda estava com seu braço em volta de Kaylen, mas as expressões em seus rostos tinham passado por uma dramática alteração. Os dois agora estavam com sorrisos idiotas na cara e com os olhos estranhamente vidrados e vazios. Até os olhares meigos de Scott para Jillian agora tinham um vago quê de psicopatia. De todas as pessoas nesse pequeno grupo, apenas Jillian permanecia inalterada. Ela estava nervosa, olhando de um amigo para o outro, claramente perturbada pelos seus repentinos ataques histéricos de riso. À sua volta, a festa inteira tinha ficado mais frenética, mais descontrolada. Ela se deu conta disso, assim como eu na noite da minha morte. Em seguida, em meio à festa, avistei alguns novos convidados: os vultos negros sem forma haviam chegado, pairando e se esgueirando entre as pessoas como fumaça. Sempre que uma dessas almas negras passava por alguém, a pessoa ficava toda rígida e então começava a rir mais alto, com um ar mais perdido. Eu me virei por inteiro para Eli. Por mais que já soubesse a resposta, perguntei: — Quem é a sua próxima vítima? — Bom, Amélia, é ninguém menos do que a irmãzinha caçula do seu amigo. — Por que você acha que ela é irmã do Joshua? — perguntei com desdém, mas o despeito na minha voz acabou saindo hesitante demais. Nada convincente. Eli sorriu em resposta. — Porque andei de olho na casa do irmão dela a tarde inteira. E não é que acabei chegando a uma candidata perfeita para convidar a uma festa? Depois de alguns sussurros nos ouvidos de certos jovens e algumas promessas aos meus mestres, prontinho... estava preparada a grande festa do ano — Eli apontou cheio de pompa para a turba à nossa volta. — Eu poderia ter escolhido provocar um suicídio, como fiz com a Melissa, ou 219


causado um acidente de carro, como fiz com seu namoradinho, mas levando em conta o público em questão, achei que seria melhor só repetir uma velha estratégia. A mesma que usei mais de uma década atrás quando estava precisando achar uma nova assistente. Perdi o ar, e quase até gritei, ao ouvir as coisas que Eli tinha acabado de me revelar: ele tinha matado Melissa de propósito, e atraído meus amigos para uma festa naquela ponte para fazer que um deles morresse. Ou que eu morresse? Será que ele tinha orquestrado aquela festa toda há mais de dez anos pensando só em mim? — Você deveria saber, Eli... — disse com uma voz ainda trêmula, tentando distrair não só Eli, como eu mesma também — ...que a JillianMayhew é uma vidente, como o irmão dela. Eles são exorcistas natos, e a família deles vem mandando fantasmas para o inferno há várias gerações. Eli bufou, inabalado. — Isso não me assusta, Amélia. Aquela menina claramente não está me vendo agora. — Mas ela vai ver, sim... — insisti — ...se você continuar com esse seu plano hoje. E a vó dela, que também é vidente, é bem linha-dura, confie em mim. Eli apenas sorriu, sem ligar para as minhas ameaças. Sem ligar para os videntes que o vinham caçando sem sucesso há tanto tempo. Quando seus olhos se desviaram rapidamente para a multidão atrás de mim, fiz o mesmo. Quando vi as expressões cada vez mais vidradas nos rostos daquelas pessoas e ouvi suas gargalhadas histéricas, percebi que me restava muito pouco tempo. Eu precisava pensar, pensar, pensar em algum jeito para deter Eli. — Que tal uma troca? — gritei de repente. Por fim, Eli olhou de volta para mim, perdendo seu sorriso. — Uma troca, Amélia? Dei uma rápida olhada em Jillian e a vi sendo prensada contra o parapeito por O’Reilly, com Kaylen e Scott rindo e se abaixando para segurar suas pernas. Qualquer um poderia confundir essa cena com uma brincadeira inofensiva entre amigos. Mas eu sabia que não era bem assim. O’Reilly estava segurando Jillian, mas parecia forçá-la para frente, como se em vez de impedir que Jillian caísse para trás, na verdade quisesse que ela não escorregasse do parapeito de volta para a 220


estrada. A mesma coisa estava acontecendo com Kaylen e Scott, que pareciam estar tentando prensar as pernas de Jillian contra o parapeito, em vez de segurá-las. Enquanto isso, Jillian estava com seus dedos tensos, cravados nos braços de O’Reilly. — Gente — disse ela com uma revirada aparentemente casual de olhos. — Estou curtindo muito a festa e tal, mas sério, isso parou de ter graça há uns vinte segundos. Seus amigos apenas deram risada e a forçaram ainda mais contra o parapeito. Eu me virei de volta para Eli. — Sim, uma troca — disse, agora desesperada. — Eu, por eles. A minha vida pela deles — Eli ficou sem reação, claramente surpreso pela minha disposição em negociar. — Mas você tem que me responder uma pergunta antes — completei, às pressas. — Bom... acho que eu poderia fazer isso, sim — disparou. Em seguida, seu rosto ficou mais sério, quase agressivo. — Desde que você cumpra sua parte do acordo, é claro. — Claro — concordei, acenando a cabeça. — E isso significa ficar comigo. Pela eternidade. — Sim, sim — disse, impaciente. — Por seja lá quanto a eternidade durar. Eli ficou sem reação de novo. Em seguida, um largo sorriso começou a se abrir em seu rosto, um sorriso com um leve toque de incredulidade. — Qual é a sua pergunta, Amélia? Hesitei por um momento, sabendo que agora não era a melhor hora para discutir esse tipo de coisa, mas eu não tive como evitar. — Por que eu? — perguntei. Eli inclinou sua cabeça de lado, confuso. — Como assim? — Por que você matou justo eu? O que eu tinha de tão... especial para que você me quisesse tanto como sua assistente? Enfim, fora você ter achado que eu estava tentando matar o Joshua. Para a minha surpresa, Eli deu risada. — Eu simplesmente soube que nós tínhamos sido feitos um para o outro. Tive essa certeza assim que vi seus olhos verdes do outro lado da ponte na festa do seu aniversário. Nem sabia que você era a convidada de honra até começar a pôr meu exército atrás de você. Só percebi que seus olhos eram iguais aos dela. Aos da Melissa. 221


Meu queixo caiu de espanto. Meus olhos? Minha morte, meu pós-vida, meus confrontos com Ruth e Eli — então isso não tinha nada a ver com minha suposta natureza maligna? Toda essa tragédia tinha começado só por causa dos meus olhos? Balancei a cabeça, desnorteada, me esforçando para me lembrar do meu objetivo ali. Para me lembrar da minha promessa de ajudar Jillian. — Ah... — por fim consegui dizer. — Mas enfim, o que fez você tomar essa decisão? — perguntou Eli, sem perceber o quanto tinha me abalado. — Não que eu esteja decepcionado. Encolhi os ombros do jeito mais casual possível, dadas as circunstâncias, e me esforcei para conseguir falar de novo. — Bom, se você parar de agir assim, se você desistir de atacar a família do Joshua, talvez eu possa ver você de um jeito melhor. Talvez eu consiga aprender a sentir que nós fomos feitos um para o outro mesmo. Afinal, você está morto, eu estou morta. Por mais estranho que seja, isso meio que faz sentido, não faz? — É claro que faz — disse Eli. — Mas e quanto àquele garoto vivo? — O que tem ele? — rebati, tentando fingir um sorriso. — Bom, se eu deixar essa garota ir embora, se eu deixar que ela e o irmão vivam em paz, é claro que você precisa me prometer que nunca mais irá falar com ele. Mesmo depois que ele morrer, quando ele se tornar um fantasma como nós. Você pode me prometer isso, Amélia? — E-eu... prometo. Além de gaguejar, minha voz falhou durante o ―prometo‖. Por puro impulso, fiz uma careta ao ouvir esse som. Os olhos de Eli se estreitaram com um ar ameaçador. Ele claramente se deu conta de que eu estava blefando, e a raiva começou a fervilhar em seu rosto. Sem dizer mais nada, Eli apontou seu braço para o grupo de pessoas em volta de JillianMayhew. De repente, suas gargalhadas ganharam um tom bestial, como uivos de animais em ataque. Os vultos negros amorfos começaram a se aglomerar em volta deles, se debatendo freneticamente. Em resposta, os amigos de Jillian começaram a sacudir seus braços, balançando-a para trás e para frente contra o parapeito. Seus olhos se arregalaram de pânico, e sua boca se abriu para soltar um grito mudo. — Parem com isso! — gritei. Pulei para cima de Eli, agarrando seu braço estendido, e cravei minhas unhas em sua pele morta. 222


Por um momento de silêncio, Eli ficou olhando para o seu braço e para as pequenas meias-luas de sangue que minhas unhas tinham arrancado. Nós dois sabíamos que ele não devia — que ele não tinha como — sangrar. Ainda assim, eu o feri, como ele mesmo tinha feito comigo no cemitério. — O que foi isso? — disparou Eli enquanto um rangido estranho começava a ecoar embaixo de nós. Parecia um barulho de metal raspando contra metal, rangendo ao ser dobrado. Eli soltou seu braço de mim, e nós dois olhamos com espanto para a estrada sob nossos pés. No chão, formando um ziguezague no asfalto grosso entre nós, havia agora uma rachadura fina. Ela ia de um lado ao outro da estrada, como se alguma força colossal tivesse rachado a própria ponte. — Amélia, o que foi que você fez...? — murmurou Eli, mas o som de pneus cantando cortou sua frase. Todos nós, Eli, Jillian e eu, nos viramos na direção desse barulho. A princípio, tudo o que vi foram as imagens negativas de dois faróis, dois pontos escuros de luz contra a parte de dentro das minhas pálpebras. Enquanto piscava para me livrar delas, a porta de um carro se abriu, e eu ouvi uma voz maravilhosamente familiar. — Pare agora mesmo, Eli, ou juro que vou matar você de novo. — Joshua! — gritei ao mesmo tempo queJillian. Eu me virei para Eli com um sorriso triunfante. Eli olhou para Joshua atrás de mim. — Esse é o seu príncipe num cavalo branco então? — perguntou baixinho, com um tom ameaçador. — Sim — sussurrei, empolgada de repente. Agarrei Eli pela sua camisa aberta. — Por favor, Eli. Eu amo o Joshua. Amo mesmo. E eu não acho que você seja mau também. Você está só... perdido. Então prove que eu tenho razão e deixe a Jillian em paz. Deixe todo mundo em paz. Faça eu gostar de você, Eli. Por um inacreditável instante, Eli titubeou. Pude ver uma guerra de emoções em seu rosto, uma batalha entre sua sede de poder e seu desejo de alguma outra coisa... — Amélia — sussurrou, erguendo a mão para acariciar minha bochecha. Mas assim que seus dedos tocaram na minha pele, eu me afastei. Eli grunhiu, de raiva, mas também — tenho certeza — de mágoa. — Eu não aguento mais isso — murmurou para si mesmo.

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De repente, todo mundo ali se endireitou e parou onde estava. Todos ficaram completamente inertes, com os olhos arregalados agora imóveis, vazios. Em seguida, todos começaram a se revirar, tendo convulsões. Logo em seguida, os espectros se afastaram das pessoas como se a força de seus movimentos involuntários tivesse assustado os espíritos. Elas se debatiam tanto que pareciam estar entrando em ebulição, ondulando como o ar sobre o asfalto quente em um dia de verão. Pelo que vi, todas as pessoas vivas estavam tendo convulsões, sem nenhuma exceção. O que significava que... Minha cabeça se virou para Jillian e seus amigos bem a tempo de ver O’Reilly tombar feito um marionete ao ter suas cordinhas cortadas. Seus dois braços caíram ao lado do corpo, inclusive o que estava, até agora, sendo uma das únicas coisas a manter Jillian de pé. Quando as convulsões de Kaylen e Scott jogaram os dois para trás, as pernas de Jillian também perderam esse tênue apoio. Depois disso, tudo pareceu acontecer em câmera lenta. Os olhos de Jillian se desviaram por um instante na direção de seu irmão, que ainda estava abrindo caminho em meio à multidão que não parava de se debater, e então se voltaram para os seus amigos. Jillian ergueu seus braços como uma trapezista enquanto seu corpo pendia mais para trás. Ela soltou um único grito, que chegou abafado e distante aos meus ouvidos, como o berro de Joshua atrás de mim. Mas eu ouvi com toda clareza o som seguinte, que cortou o grito e Jillian. Um baque alto, seguido por um zumbido reverberante, enquanto a cabeça de Jillian batia contra uma das vigas de apoio que sustentavam a ponte. Na mesma hora, a boca de Jillian ficou mole e seus olhos se reviraram até ficarem totalmente brancos. Sua cabeça escorregou da viga, deixando uma mancha vermelho-escura para trás no metal. Durante menos de um segundo, o corpo inteiro de Jillian relaxou. Parecia tranquila. Linda. Em seguida, sem nenhum outro ruído, ela tombou por cima do parapeito contra as trevas lá embaixo. Capítulo VINTE E SETE

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Corri

até o parapeito, mas já era tarde demais. Antes mesmo de

firmar minhas mãos no metal, ouvi um baque alto contra a água embaixo da ponte. Logo depois, Joshua chegou com tudo ao parapeito ao meu lado, e nós nos inclinamos juntos para olhar. Apenas um círculo de espuma branca nos dava alguma indicação de onde Jillian tinha caído. Joshua soltou um grito de angústia. Por baixo desse grito, ouvi um murmúrio tímido de um garoto atrás de nós. — O q-que aconteceu? Mayhew? — gemeu O’Reilly. — Cara... acho que vou vomitar. Eu o ignorei e puxei Joshua de cima do parapeito, onde ele tinha começado a subir. — Não, Joshua, pare! Você vai se machucar! — Tanto faz! — gritou, tentando tirar minha mão de seu ombro. — Mas aí como você vai ajudar a Jillian? — supliquei. Ele me deu um brevíssimo olhar. A angústia em seus olhos me comoveu. — Desça pela encosta — comandei. — É melhor você entrar na água lá por baixo, aí você pode nadar até ela. Eu vou pular daqui mesmo para ver o que posso fazer. — Não. Você também não vai pular. — Não tenho como morrer, Joshua! — gritei, sacudindo-o. — Agora desça logo, antes que seja tarde demais. Ele se remexeu por um instante como se fosse gritar de novo. Mas em seguida, ele se virou e saiu correndo. Eu o vi pegando seu celular, provavelmente para chamar ajuda enquanto corria. Foi só quando ele sumiu de vista encosta abaixo que me virei de volta para a multidão. O’Reilly agora estava com o rosto meio esverdeado, prostrado de quatro no chão. O pobre rapaz parecia estar sem fôlego. Ao seu lado, Kaylen e Scott estavam ofegantes, com a mão nos rins. — Caramba, O’Reilly — grunhiu Scott. — O que foi que rolou? Por que estou assim? Olhei por cima de suas costas arqueadas para Eli. A julgar pela sua expressão, as coisas não estavam mais correndo conforme seus planos. Ele parecia ter se entrincheirado entre a multidão de pessoas passando mal, olhando de um lado para o outro enquanto tentava pensar no que fazer. Meus lábios se repuxaram de asco. — Depois cuido de você — grunhi. Em seguida, dei as costas para ele e me curvei por cima do parapeito de metal de novo. Lá embaixo, avistei a silhueta de Joshua na margem escura do rio, enquanto ele tirava seus tênis às pressas. 225


Assim que ele conseguiu, entrou na água. Quando chegou a uma profundidade suficiente, começou a nadar com toda força contra a corrente, indo até onde Jillian tinha caído. Agora era a minha vez. Não deveria ser muito difícil. Eu só precisaria usar as vigas de metal para subir no parapeito e depois mergulhar. Mole, mole. Mas em vez disso, comecei a tremer. Não tinha como mentir para mim mesma: a ideia de pular da Ponte Alta me apavorava, independentemente das circunstâncias. Olhei por cima do parapeito mais uma vez para a água escura lá embaixo, que parecia rodopiar em estranhos círculos nauseantes, se aproximando e depois se afastando de mim. Tive uma vertigem. Uma sensação forte e debilitante. Fiquei ofegante e vim para trás, soltando do parapeito. Fechei os olhos e tentei forçar minha respiração de volta ao normal. Eu precisava fazer alguma coisa, eu precisava. Mas pelo visto, Não iria conseguir pular daquela ponte. Não tinha como mergulhar naquele rio onde, em outro mundo, uma força sombria e maligna me esperava; onde, em outra existência, eu tinha morrido. Foi então que tive uma ideia. Tinha um jeito muito mais fácil de fazer aquilo, um que não exigia que eu pulasse da Ponte Alta de novo. Eu podia descer até Jillian em um piscar de olhos se desejasse isso com força o bastante. Eu podia me materializar. Repeti essa palavra na minha cabeça enquanto pensava no rosto de Jillian. Para a minha imensa surpresa, deu certo, e muito mais rápido do que antes. Alguns segundos depois, abri meus olhos em meio àquela escuridão esverdeada tão familiar. Dessa vez, não entrei em pânico ao ver aquela água revolta à minha volta. Graças a Deus, a essa altura eu já sabia navegar bem pelo rio, porque dessa vez eu tinha um objetivo bem claro ali. Eu me virei de um lado para o outro, procurando Jillian. Por fim, avistei uma figura borrada flutuando a vários palmos de mim, com seus braços finos e longos cabelos pairando na água. Jillian. Ela lembrava seu irmão flutuando ali, inconsciente e com um sinistro ar tranquilo. Um fio escuro do que só podia ser sangue subia pela água acima dela. Virei minha cabeça à procura de Joshua. Sabia por experiência própria que não teria como fazer nada por ela, e até me perguntei por que eu 226


não tinha pensado melhor nisso antes, quando disse a Joshua que poderia chegar ali primeiro. — Joshua? — gritei, com minha voz espectral perfeitamente clara, inalterada pela água. Ninguém respondeu. Quando olhei de volta para Jillian, vi sua cabeça oscilando de leve com a corrente. Isso a fez soltar algumas bolhinhas, que escaparam de seus lábios até a superfície. Franzi a testa, sem saber o que fazer. Em seguida, ouvi um tênue barulho. Um tum, tum, tum, a alguns palmos de mim. Uma batida rítmica, constante e viva. A batida do coração de Jillian. Se eu estava ouvindo seu coração, isso só podia significar uma coisa: JillianMayhew estava para morrer, e em breve. — Joshua! — gritei, me virando em desespero pela água de novo. Depois de alguns giros, eu o avistei, mas então percebi que ele não teria como ajudar muito. Ele estava dentro da água, mas bem acima de nós, e com a cabeça para fora da água, então não teria como ouvir meus gritos. O pior, no entanto, era que ele estava nadando na direção errada, indo para longe de nós, rio acima. A corrente devia ter arrastado Jillian pelo menos uns seis metros para longe do lugar onde ela tinha caído — do lugar para onde Joshua estava nadando agora. Se continuasse naquela direção, ele nunca iria nos encontrar. Não a tempo de salvar Jillian, dadas as batidas audíveis de seu coração. Nadei a curta distância até Jillian e comecei a tateá-la, tentando em vão agarrar as dobras de sua jaqueta. Ao perceber que não ia conseguir, me estiquei na direção do capuz atrás de seu pescoço e rezei para que a minha habilidade de tocar em seu irmão se manifestasse com ela agora. Mas não funcionou. Minhas mãos não agarraram nada. Senti apenas a leve pressão de suas roupas, mas não elas em si. Era como se Jillian estivesse cercada por um campo de força invisível contra as minhas mãos mortas. Por mais que eu pudesse tocar em Joshua, ou atacar Eli, não tinha como interagir com Jillian. Eu não tinha como ajudá-la. Essa conclusão me devastou. Fiquei com vontade de jogar minha cabeça para trás e gritar em meio àquela água escura. Uivar de angústia pela minha própria impotência. 227


— Por favor! — gritei em meio à escuridão. — Por favor, me ajude. Eu... eu não sei o que fazer. Por favor, me ajude. Jillian afundou um pouco mais na água enquanto seu coração continuava a bater, agora com um ritmo claramente mais lento, mas cada vez mais alto para os meus ouvidos espectrais. Cobri meu rosto, tapando meus olhos com as mãos em uma tentativa covarde de impedir que eles vissem Jillian morrendo. Nesse instante, alguma coisa — ou alguém — atendeu às minhas súplicas. No começo, nem vi nada; eu estava envolvida demais na minha própria angústia, perdida demais no meu próprio sofrimento. Mas um brilho vermelho começou a cintilar em frente aos meus olhos, luminoso e insistente, chamando minha atenção. Tirei minhas mãos do rosto e vi com espanto a pequena luz que parecia ter se formado entre elas. Era um brilho que se movia como uma labareda, pulsando e tremeluzindo sobre minha pele. Parecia que eu estava com uma chama dançando nas minhas palmas. Isso não fazia nenhum sentido, é claro. Mesmo assim, a luz continuou a dançar, se espalhando até as pontas dos meus dedos e pelos meus braços. Pouco depois, meus braços inteiros ficaram vermelhos e alaranjados, crepitando como fogo embaixo da água. O que estava acontecendo? Será que o meu pânico pela situação de Jillian finalmente tinha chegado à superfície da minha pele, todo brilhante e agora visível de repente? Podia ser. Mas eu não estava só com medo. Estava frustrada, triste, e até esperançosa de que ainda pudesse ajudar Jillian. Um turbilhão de emoções estava ardendo dentro de mim. Era tudo muito forte. Doloroso. Mas essa luz flamejante, não. Ela não ardia nem um pouco. Apenas brilhava. Virei minhas mãos para cima e depois para baixo, observando a luz se espalhar e subir pelos meus cotovelos até meus ombros. Ergui uma das minhas pernas e vi o brilho sobre ela também. Em pouco tempo, pude ver meu corpo todo irradiando aquela luz. Eu havia me tornado um ponto luminoso no meio do rio escuro. E então, como se por um milagre, Joshua apareceu, nadando ao meu lado. Por um brevíssimo instante, ele olhou para mim. Seus olhos, mais arregalados do que nunca, reluziram com o reflexo dos meus tons vermelhos e alaranjados. Ele fez um gesto para trás e para frente, entre seus olhos e meu brilho; ao que parecia, ele tinha avistado minha luz da superfície e 228


então desceu nadando até nós. Seu rosto agora estava tomado por uma expressão de espanto e, talvez, um pouco de medo. Em seguida, Joshua deixou isso de lado com um rápido aceno de cabeça. Nenhum de nós precisava de qualquer lembrete do motivo pelo qual estávamos ali naquele rio de novo. O brilho da minha pele podia ficar para depois. Joshua enganchou um braço em volta da cintura de sua irmã. Ele então pegou minha mão e começou a puxar nós duas até a superfície. Apertei sua mão com força antes de me soltar; sem mim, eles conseguiriam subir mais rápido. Fui atrás deles, tentando empurrar Jillian como fosse possível, mesmo sabendo que meus esforços seriam inúteis. Depois do que pareceram ser horas, por mais que devam ter sido apenas alguns segundos, Joshua por fim ergueu Jillian para fora da água. Só depois disso, o próprio Joshua emergiu, tossindo e ofegante. Ele abraçou a irmã enquanto batia as pernas para boiar. Infelizmente, apesar de viva, ela agora era praticamente um peso morto para ele. Sua cabeça tombou solta contra o ombro do irmão, enquanto, já quase sem vida, seu coração agora batia cada vez mais devagar. — Joshua! — gritei sobre a balbúrdia das águas. — Estou ouvindo o coração dela. — Que bom! — gritou ele. — Não, Joshua. Se estou ouvindo o coração dela, isso não é um bom sinal. — Por quê? — Eu ouvi seu coração também logo antes de parar. Foi assim que soube que você estava morrendo. Joshua não disse nada, mas começou a nadar com mais ímpeto ainda até a margem. Sem poder fazer nada, fiquei vendo seu esforço, tanto para levar sua irmã até a margem, como para manter sua cabeça acima da água, enquanto as vacilantes batidas do coração de Jillian iam ficando cada vez mais altas para mim. Eu ainda estava as ouvindo quando nossos pés tocaram no leito do rio e nós começamos a correr até a margem; as batidas ficaram tão altas que mal percebi os gritos das pessoas na ponte enquanto elas começavam a ir embora correndo daquela desastrosa festa. Mesmo não tendo como ouvir o coração de Jillian, Joshua também ignorou o alvoroço na ponte. Ele deitou Jillian na margem e então se jogou 229


no chão ao seu lado. Eu me ajoelhei junto a ele na lama, ainda ouvindo aquelas batidas altas, apavorada. As batidas só pararam quando as pálpebras de Jillian começaram a se abrir. Uma onda de alegria me invadiu em resposta a esse pequeno sinal de vida. Eu me virei para Joshua, querendo comemorar, mas a voz fraca de Jillian me deteve. — Quem é você? — sussurrou. Olhei para Jillian e, para a minha surpresa, ela olhou de volta para mim. Seus olhos castanhos estavam fixos nos meus. Fiquei boquiaberta. Olhei para Joshua, mas ele parecia não ter ouvido nada. Ele checou a pulsação de Jillian e então se abaixou para ouvir sua respiração, passando a mão pelos seus cabelos esparramados sobre a lama. Assim que ele fez isso, os olhos de Jillian se fecharam, e as batidas de seu coração ficaram mais erráticas. Minha cabeça começou a girar. Se ela me viu... se ela está me vendo agora... — Joshua! — gritei. — Você precisa fazer alguma coisa e rápido. Acho que ela não está muito bem. — Meu Deus — grunhiu Joshua. Ele olhou para a estrada lá em cima, onde nenhum veículo de emergência havia aparecido ainda. Em seguida, ele se curvou sobre o corpo inerte de Jillian. — Eu antes sabia fazer respiração boca a boca, só não sei se ainda lembro. — Ele puxou a cabeça de Jillian para trás e começou a murmurar. — Como era mesmo? Sopra e depois massageia o peito, ou é o contrário? O que eu faço primeiro? O que eu faço primeiro? Ao ver Joshua pôr suas mãos sobre o peito de Jillian, claramente sem a menor ideia de como salvá-la, senti um aperto forte e dolorido no meu próprio peito. Ignorei essa sensação e decidi fazer a única coisa que veio à minha mente. Firmei minhas mãos na lama e cheguei mais perto do ouvido de Jillian. — Jillian — sussurrei. — Eu sei que você não me conhece, mas eu amo o seu irmão, e sei que você gosta dele também. Então... será que dava para você acordar? Será que dava para pelo menos você tentar, por favor? Depois de um bom tempo, ela não disse nada. Eu já estava quase desistindo, e até abaixei a cabeça, me preparando para o inevitável e impossível trabalho de consolar Joshua, quando Jillian me respondeu aos sussurros. 230


— Pode ser. Já que você pediu com tanta educação. Apesar de toda a situação, uma risadinha escapou dos meus lábios. — Graças a Deus. Porque acho que seria uma baita falta de educação você morrer. Um leve sorriso repuxou os lábios de Jillian. Em seguida, ela tossiu. Foi um esforço quase nulo, que mal abriu seus lábios. Mas acho que Joshua o ouviu, ou pelo menos sentiu sua vibração, porque se afastou do corpo de Jillian e ficou olhando para ela. — Jillian? — perguntou. Em resposta, ela tossiu de novo. Dessa vez, a tosse saiu mais forte, alta e clara, e ecoou pela margem do rio. As costas de Jillian se arquearam com a força do engasgo, e suas mãos se cravaram na lama abaixo dela. Tossiu uma terceira vez, virou de lado e começou a vomitar a água do rio. — Isso! — gritou Joshua. Ele pôs uma das mãos nas costas de Jillian e estendeu a outra para mim. Eu me agarrei a ele, enlaçando meus dedos entre os seus e enganchando meu braço livre à sua volta. Encostei minha testa em seu ombro e senti seu corpo estremecer com uma risada. Nossas gargalhadas começaram a sair em rompantes que beiravam a histeria. Nem imagino o que Jillian deve ter achado que era aquele barulho todo saindo de seu irmão, ou se ela sequer podia ouvir aquilo direito. A pobre garota encharcada continuou a tossir e, milagrosamente, percebi que não estava mais escutando as batidas do seu coração. Joguei minha cabeça o máximo que pude para trás. — Obrigada! — gritei para o céu escuro. — Muito obrigada... O som de outra voz, bem acima de mim, interrompeu meus agradecimentos. — Viu só, Amélia? Ela está viva, como prometi. Agora podemos fazer nossa troca... a sua vida pela dela. Minha cabeça se virou na direção da voz. Pude ver Eli, parado na ponte agora vazia, falando comigo. Exigindo minha alma. Embora a margem do rio ficasse longe demais da ponte para que eu pudesse ver o rosto de Eli com clareza, não foi difícil identificar sua expressão. Não precisei de nenhum binóculo para ver a petulância em seu sorriso medonho. Por mais que Eli tivesse duvidado de si mesmo antes, isso claramente havia passado. Aliás, ele parecia mais cheio de si do que nunca. Como se Jillian só tivesse sobrevivido por um gesto de sua própria generosidade. Como se ele mesmo não tivesse participado em nada do incidente que quase 231


a matou. Como se ele não tivesse possuído uma imensa multidão de inocentes só para tentar me capturar. Não sei por que, mas não conseguia tirar os olhos do rosto convencido de Eli. O asco que sentia por ele me hipnotizou. Soltei meus braços do pescoço de Joshua e me levantei lentamente. Eu tinha uma vaga noção de que aquele estranho brilho na minha pele havia se apagado em algum momento entre a hora em que Joshua encontrou Jillian na água e quando eu a vi voltar à vida na margem. Ainda assim, quando me levantei para me concentrar em Eli, aquela luz radiante voltou a brilhar. Ela pareceu emergir da minha própria pele, eclodindo em tons intensos de vermelho, laranja e amarelo. Nunca tinha visto cores tão fortes, nem tão lindas antes. Talvez minhas luzes tivessem parecido mais fracas ou obscurecidas dentro da água. Ou talvez nunca tivesse me sentido tão irritada assim antes... tão defensiva. Seja lá qual fosse o caso, meu corpo agora estava iluminando toda a margem do rio. — Amélia? — disse Joshua atrás de mim. Ele obviamente estava vendo meu brilho de novo, porque sua voz se partiu com um quê de medo ao dizer meu nome. Quis me virar para ele e dizer, Não se preocupe, querido. Tenho certeza de que arder feito uma tocha humana deve ser normal para os mortos. Mas antes que eu pudesse fazer isso, Eli falou com Joshua primeiro. — Não ouse falar diretamente com ela, garoto — rosnou Eli. — Ela é uma serva deste lugar agora, e ela é minha. E essa foi a gota d’água. Ao ouvir essa palavra — ―minha‖ —, o mundo inteiro explodiu à minha volta.

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Vinte e Oito Achei

que tinha incendiado todos eles, incinerando os vivos e os

mortos em uma última explosão implacável. Do meu ponto de vista, a explosão lembrou a imagem que eu tinha do inferno: fogo ardendo para todos os lados, encobrindo minha visão. Eu não conseguia ver nada além de ondas alaranjadas brilhantes, e tive uma estranha sensação de que chamas estavam saindo dos meus olhos e das pontas dos meus dedos. Por instinto, fechei as mãos e os olhos com força. Fiquei assim por um instante, rezando, implorando para que tudo ficasse bem. Com meus olhos ainda fechados, relaxei minhas mãos e afastei lentamente meus dedos uns dos outros. Em seguida, abri os olhos e olhei para a minha mão. Finalmente voltei a enxergar, mas para o meu espanto, o fogo ainda estava lá, brilhando sobre a minha pele, mais reluzente do que nunca. Mas a explosão não tinha incinerado nada. Tudo parecia estar igual a antes: nenhuma árvore queimada, nenhum metal retorcido, nenhuma labareda dançando ao vento. Eu era a única que parecia estar em chamas, como antes. Pelo visto, na verdade não havia acontecido nenhuma explosão. O lugar onde eu estava era a única coisa que tinha mudado desde a pseudoexplosão. Em vez de estar na margem do rio ao lado de Joshua e Jillian, eu agora estava de volta à ponte — materializada ali, imagino, pela força do brilho na minha pele. Meus olhos se viraram na mesma hora para a direita, na direção da margem do rio abaixo de mim. Para o meu infinito alívio, Joshua ainda estava agachado na lama, ileso, e com Jillian em seus braços. Talvez ele a tivesse apoiado assim para ela poder tossir melhor a perigosa água para fora de seus pulmões. Independentemente do motivo disso, Joshua parecia ter se

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esquecido momentaneamente de sua missão. Ele estava embasbacado e boquiaberto, olhando para a ponte. Para mim. Pelo canto do olho, pude ver outra figura embasbacada e boquiaberta a alguns passos de mim na estrada. Só depois de ter certeza de que Joshua e Jillian estavam em segurança, consegui me virar e olhar direto para Eli Rowland. Seus cabelos loiros tremulavam com a brisa, e seu rosto já pálido havia ganhado um tom ainda mais intenso de branco. Embora parecesse espantado — ou até aturdido pelo brilho da minha pele —, ele ainda estava com sua expressão presunçosa de antes. Como se tivesse a plena certeza de que, apesar dessa minha nova habilidade, ele ainda seria meu dono. A visão de seu rosto horrível me fez querer rosnar, urrar para ele feito um animal. Precisei de todo meu autocontrole para me conter. Dei as costas para ele e vi o resto da estrada deserta. À minha frente, duas marcas recentes de pneus cruzavam o asfalto. Atrás de mim, o rastro de borracha queimada desviava para perto do carro de Joshua e depois seguia adiante pela estrada escura. Pelo visto, durante os poucos minutos de caos que eu tinha testemunhado lá de baixo, o dono do carro com o som alto tinha fugido do local, como o resto dos alunos do Colégio Wilburton. Balancei a cabeça ao ver aquelas marcas. Eu não podia culpar ninguém por ter fugido, muito menos O’Reilly, Scott e Kaylen. Eu não achava que eles iriam conseguir, nem querer, se lembrar de nada por um bom tempo. Eles não deviam ter se envolvido nesse perverso jogo sobrenatural. Assim como Jillian, que provavelmente carregaria para sempre uma pavorosa memória desta noite. Isso sem falar em Joshua, com quem eu mais tinha me preocupado durante tudo aquilo. A última — e para mim, a mais importante — pessoa viva no mundo que iria sofrer muito, caso os planos de Eli tivessem acabado de um jeito mais sinistro. Eu sabia que todo aquele pânico e aquela imensa tragédia em potencial só tinham acontecido porque Eli Rowland estava atrás de mim. Eli só pararia depois de se tornar meu dono. Ainda agora, Eli estava com aquele brilho nos olhos — catalisado não só pela necessidade de obedecer às ordens de seus mestres, mas também pela sua insana e implacável necessidade de me dominar. De me possuir.

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E graças a uma simples semelhança com sua antiga namorada morta, havia me tornado o objeto de sua obsessão. Uma Obsessão que poderia durar para sempre, se eu não agisse rápido. Essa consciência ardeu dentro de mim, muito mais forte do que qualquer fogo no mundo. Dei uma última olhada para o rosto de Joshua entre as sombras. Ele estava com seu celular na orelha de novo. E ainda com Jillian em seus braços, de poucos em poucos segundos, ele olhava com um ar preocupado para ela e depois para mim. Quando os olhos de Joshua se focaram nos meus mesmo de tão longe, meus vagos planos se consolidaram. Eu precisava dar um jeito em Eli imediatamente, se quisesse passar meu pós-vida em paz. Precisava fazer que Eli tivesse mais medo de mim do que agora. Mais medo do que ele tinha de qualquer outra coisa neste mundo. Só assim eu teria alguma chance de existir sem sua constante e ameaçadora interferência. Eli só aumentou ainda mais minha determinação quando por fim se pronunciou. — Seja lá o que for isso, Amélia... — disse, apontando para o meu brilho — ...acho que poderia ser algo muito útil para mim. Eu me virei de volta para ele. Mas Eli não me olhou direto nos olhos, porque estava ocupado demais observando meu brilho. Analisando-o com toda atenção. — Ah, você acha mesmo, é? — perguntei baixinho. — É claro. — Eli acenou a cabeça, e eu quase pude ver as ideias se formando em sua cabeça. — Você vai ser a melhor de todas as minhas assistentes. Imagine só do que essa sua luz será capaz... quantas novas almas isso me ajudará a capturar, como mariposas sendo atraídas por uma chama. Inclinei minha cabeça de lado. — E se eu não quiser servir você? Ele finalmente me olhou nos olhos. Um sorriso incrédulo começou a se abrir lentamente em seu rosto. — Se você ―não quiser?‖ — repetiu. — Você ainda acha que tem alguma escolha aqui? Fechei meus lábios com força, refreando a fúria dentro de mim. Foi só quando consegui me acalmar um pouco que o respondi: — Todo mundo tem escolhas, Eli. E não me importo em ter que repetir isso quantas vezes for preciso: eu também tenho uma escolha. Mesmo estando morta. 235


Eli balançou a cabeça. — É isso o que venho tentando te explicar esse tempo todo: eu escolhi você. Isso já basta. Balancei a cabeça. — Não basta, não. Porque não escolhi você. Ele rosnou e, de repente, a multidão de vultos escuros se reuniu à sua volta. Eles pareceram surgir do meio do nada, apenas se manifestando ali. Os vultos se moviam sem parar, dardejando o tempo todo pelo ar, então não tive como reconhecer suas formas quase humanas, muito menos seus rostos. Eli nem olhou para eles, mas seu sorriso cresceu. — Tem certeza que quer brigar, Amélia? — sussurrou com um tom ameaçador. Engoli seco e cerrei meus punhos ao lado do meu corpo. — Tenho sim. Eli acenou a cabeça de novo. Não para mim, reparei, mas para os vultos escuros à sua volta. Em resposta, os espectros avançaram, me cercando com uma velocidade que eu nunca tinha imaginado. Eles se amontoaram ao meu redor, se aglomerando até bloquearem quase toda a luz, e então começaram a chegar mais e mais perto de mim. Agora cercada pelos vultos, virei minha cabeça para um lado e depois para o outro, à procura de alguma brecha entre eles. Algum raio de luz que fosse. Meus braços, estendidos para os lados, se debateram junto comigo. Quando uma das almas negras se esticou para me pegar, soltei um grito. Mas a alma não conseguiu me pegar. Assim que ela tentou se envolver como uma cobra em volta do meu braço, o brilho da minha pele cresceu e se intensificou. Minha luz brilhou forte contra o espectro, cortando as sombras escuras à sua volta e revelando sua forma quase humana. O espectro se afastou por um instante, dardejando enfurecido para fora do alcance da luz. Em seguida, como se fosse um contra-ataque, os outros espectros vieram todos ao mesmo tempo para cima de mim. Antes que eu pudesse reagir, antes que eu pudesse sequer gritar, o brilho explodiu à minha volta. Em vez dos tons quentes de laranja e amarelo de antes, a luz agora reluziu com um branco tão intenso e puro que precisei cobrir meus olhos. Essa era uma luz diferente de qualquer outra que eu já tinha visto antes, mais forte e ardente do que o brilho que a minha pele em geral emanava no escuro; esse novo brilho era glorioso e aterrorizante ao mesmo tempo. 236


Por fim, a luz se atenuou o bastante para que eu pudesse abaixar minha mão a tempo de ver os espectros se dispersando, voando para trás pela estrada e para longe daquela luminosidade branca protetora que reluzia à minha volta. Assim que eles sumiram, eu finalmente pude ver Eli, parado no mesmo lugar de antes. Ele estava de braços cruzados, tranquilo, e com uma expressão que beirava o tédio. Esperando que seus servos terminassem seu trabalho sujo, sem dúvida alguma. Mas quando ele viu seus espectros se dispersando e fugindo para o outro lado da ponte, sua expressão mudou. Ele franziu a testa para eles, fechando a cara mais e mais enquanto cada um deles desaparecia. Só depois que o último vulto negro deixou a ponte, Eli olhou para mim. Seu rosto agora mostrava um ar bestial. Violento. Ao olhar em seus olhos cheios de fúria, senti a sombra de um sorriso sarcástico repuxar meus lábios. — O que mais você tem na manga, Eli? — murmurei. Em seguida, rosnando como uma criatura selvagem, Eli pulou para cima de mim.

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Vinte e Nove Eu devia ter ficado com medo. E fiquei. Mas em vez de me acovardar, ou mesmo pular para bater de frente com Eli, só fechei os olhos. Eu podia não entender a origem da luz sobrenatural à minha volta ou como controlá-la, mas sabia de uma coisa que com certeza poderia deter Eli. Então, com os olhos bem fechados, imaginei uma série de imagens: a cadeira da biblioteca voando para trás, para longe de mim; a rachadura que agora cortava minha lápide. Imaginei a ponte, se curvando com a força da minha raiva. Em seguida, imaginei a ponte se partindo ao meio. Ao ouvir um rangido metálico sob mim, abri os olhos. Olhei para baixo e vi a fissura na ponte se alargando. Acima de mim, os cabos de metal entre as vigas começaram a se debater de um lado para o outro, e a ponte rangeu de novo, urrando sob a força do movimento. Voltei minha atenção para a estrada, abrindo os braços e firmando os pés no chão. Eli, no entanto, foi pego de surpresa. Quando a ponte em si começou a balançar, ele perdeu o equilíbrio no meio de seu ataque e caiu de joelhos. Fixei meus olhos em Eli, ainda me concentrando enquanto via a estrada rachar e estremecer à sua volta. Fiz um minúsculo gesto com a cabeça e então um buraco enorme se abriu no asfalto, através do qual pude ver de relance a água do rio lá embaixo. Eli tentou se levantar, mas não conseguiu. Enquanto ele tentava se equilibrar sobre a estrada que não parava de tremer, seus olhos se focaram nos meus. Finalmente, vi em seu o rosto aquilo que eu queria: medo. Em seguida, no meu momento de maior poder, o cenário à nossa volta foi engolido por uma escuridão total. Aquele breu pairou no ar, pesado e denso, antes de se iluminar um pouco, revelando as cores familiares da floresta do submundo abaixo de mim. 238


Na ponte, por outro lado, as coisas estavam bem diferentes do que eu poderia imaginar. Nunca tinha visto a Ponte Alta em sua versão do submundo tão de perto assim, e essa foi uma cena que me chocou à primeira vista. Sobre a ponte, bem em cima daquele buraco negro medonho, as cores do submundo tinham um quê quase violento e selvagem. Tons de vermelho-sangue contra outros de preto lustrosos; toques de roxo como hematomas sobre matizes densos de cinza. O lugar era incrível, lindo. Mas também terrivelmente sombrio. Como um enorme animal ferido. A estrutura dessa ponte do submundo parecia muito mais precária também. Suas vigas se curvavam umas contra as outras de um jeito estranho e sua superfície era toda cortada por profundas e irreparáveis rachaduras. Seja lá o que eu tivesse feito no mundo dos vivos devia ter afetado esta ponte também. Franzi a testa, já pronta para transformar aquele lugar em uma pilha reluzente de destroços, quando um sibilar ao longe me fez erguer a cabeça na direção das vigas tortas. Bem acima de mim, dois vultos escuros estavam pairando ali em volta, dardejando ao redor da estrutura da ponte. Seus movimentos cortavam a escuridão com um leve assobio. A princípio, achei que deviam ser apenas outras almas a serviço de Eli, sendo forçadas a me enfrentar. Mas quando olhei melhor, percebi que elas não eram negras, e sim de um tom vermelho-escuro profundo como sangue. Elas também se moviam com muita habilidade, soltas demais, como se ao contrário dos servos de Eli, tivessem vontade própria. Olhei para Eli, tentando ver sua reação a essas criaturas, e fiquei surpresa. Ele agora parecia estar ainda mais aterrorizado do que antes. Ele chegou a se encolher, e até escondeu a cabeça sob os braços quando, com um leve zunido, os vultos ganharam forma e pousaram um de cada lado dele na superfície rachada da ponte. Agora, no lugar dos dois vultos, havia duas pessoas. Ou o que pelo menos pareciam ser duas pessoas. Ambas as figuras estavam com roupas escuras: um homem, com um belo terno preto, e uma mulher, com um lindo vestido preto. Os dois tinham cabelos loiro-claros: os dele eram curtos, e os dela, longos e soltos sobre seus ombros pálidos. Algo neles emanava um quê funesto. Era uma visão sinistra, com certeza, mas não mais do que qualquer outra coisa que eu já tinha visto aquela noite. No entanto, foram seus olhos — sombrios e etéreos — que me fizeram ficar boquiaberta e dar um passo involuntário para trás no asfalto rachado. 239


Aqueles olhos perturbadores, negros e sem pupilas, me analisaram por mais um instante, e então, ao mesmo tempo, as duas figuras sorriram. — Ah, mas que coisinha interessante, não? — comentou o homem. — Eli... — ronronou a mulher, sem tirar os olhos de mim — ...onde você andou escondendo esse tesouro? Eli continuou de cabeça baixa enquanto lhe respondia. — Eu estava tentando capturar essa jovem para a senhora, juro, mas... — Pare de inventar desculpas — o interrompeu a mulher, com sua voz firme de repente. — Você está me dizendo que ela ainda não está sob seu controle então? A mulher se virou para ele e, mesmo sem poder vê-la com sua cabeça abaixada, Eli tremeu. — Eu ainda... ela não... — gaguejou, mas sem conseguir terminar sua explicação. — Acho que é exatamente isso o que Eli está nos dizendo, minha querida — disse o homem, ainda olhando para mim. — O que significa que, como aconteceu com seus antecessores, Eli acabou perdendo sua utilidade para nós. O homem apontou com sua cabeça para a mulher. — Pode levá-lo embora. Ao ouvir essa ordem, a mulher voltou a sorrir. Até eu estremeci com essa cena. Apesar do seu rosto gélido e lindo, ela parecia estar morta de verdade. Mais morta do que Eli e eu. Eli ergueu a cabeça, e seus olhos se desviaram brevemente para mim. Ao vê-los totalmente em pânico, senti um aperto no peito. Apesar de tudo que ele tinha feito aquela noite, apesar de tudo que ele já tinha feito comigo antes, de repente senti pena de Eli. — Não...! — gritei, mas já era tarde demais. Com um rápido movimento, a mulher se fundiu de volta em um vulto negro-avermelhado e engoliu Eli. Antes que outra palavra pudesse escapar dos meus lábios, eles saíram voando e sumiram pelo outro lado da ponte do submundo. Durante alguns segundos, ouvi um grito angustiado e bestial. Percebi então, com espanto, que esse era o som de Eli berrando de horror. Em seguida, seu urro foi cortado abruptamente. Eu me virei de volta para o homem. — Para onde vocês o estão levando? — disparei com um tom firme, apesar do perigo que claramente estava enfrentando. 240


O homem ergueu suas sobrancelhas com um leve ar de surpresa. — Para a nossa casa, é claro. — Sua ―casa‖? — Meus olhos se desviaram por um instante para a borda da ponte, como se eu pudesse ver aquele buraco negro através de sua superfície rachada. Enquanto eu fazia isso, o homem não tirou os olhos de mim. Quando me virei de volta, ele inclinou sua cabeça de lado e continuou me analisando, mesmo enquanto falava. — Estou falando do lugar de onde eu e a minha companheira vivemos, é claro — disse ele. — A entrada para lá fica logo embaixo desta ponte. — Por que lá? — perguntei, ainda sem saber o que tinha me dado toda aquela coragem. — Por que viver nas trevas? O homem riu, mas sem sorrir. — Seria difícil nos imaginar vivendo aqui, com aquelas patéticas criaturas das sombras. Ou com os vivos, em seu mundo. Além do mais, nós preferimos ficar entre seres como nós mesmos. Tentei não tremer ao imaginar o tipo de ser que escolheria viver naquela escuridão medonha. Apesar de conseguir manter minha fachada tranquila, precisei engolir o medo que estava começando a crescer dentro de mim. — E o que vocês vão fazer com Eli na sua casa? — Vamos aplicar algumas medidas punitivas. — Ele suspirou enquanto balançava a cabeça em uma mistura de irritação e tédio. — Já tivemos que fazer esse tipo de coisa antes com os outros. É uma pena que tenhamos que fazer o mesmo com Eli agora. Bom, isso explicava o que havia acontecido com o antigo mentor de Eli, e por que ele foi tão cauteloso com esse assunto ontem, na floresta. Não que essa descoberta pudesse me trazer algum conforto, ainda mais levando em conta que, a julgar pela frieza no rosto daquele homem sinistro, a piedade não devia ser nem de longe seu forte. O homem continuou me analisando por mais um instante, e então, com um genuíno tom de curiosidade, me perguntou: — Você por caso se importa com ele? Parte do meu cérebro estava ensandecida, gritando para eu parar de agir feito uma maluca e sair correndo dali. Mas outra me fez endireitar os ombros e responder. — Me importo, sim. Eu me importo com todo mundo que vocês machucaram. Todo mundo que vocês aprisionaram aqui. Inclusive o Eli. 241


O canto da boca do homem se repuxou com um sorriso. — Mas que... interessante. Qual é o seu nome, menina? Balancei a cabeça, sentindo minha coragem vacilar um pouco. — Isso não importa. O que importa é que você precisa libertar todas as almas deste lugar, inclusive o Eli... e o meu pai. Ele ergueu as sobrancelhas de novo. — Por que você acha que seu pai está aqui? — Eu... eu não sei direito. Mas se você libertar todas elas, provavelmente vou descobrir. O homem deu risada, mas seu riso foi seco demais para mostrar qualquer traço de humor. — Que tal eu fazer uma coisa melhor? Que tal eu lhe oferecer um trabalho? — Como assim, o que Eli fazia para vocês? — perguntei, aturdida. Ele acenou a cabeça. — A julgar por aquela sua luz e pela redecoração que você fez neste lugar, acho que você poderia ser muito valiosa para nós. Além do mais, essa vaga agora está aberta mesmo. Precisei me segurar para não dizer o que eu realmente queria que ele fizesse com aquela proposta e apenas perguntei: — No que consiste exatamente esse trabalho? — Nós precisamos de um intermediário para construir o nosso mundo, uma alma humana que ainda não tenha encontrado seu rumo. Uma alma que ainda possa transitar entre os mundos e influenciar os vivos... para fazê-los se juntar a nós, de um jeito ou de outro. Franzi a testa, examinando os suaves contornos de seu rosto inumano. — Por que vocês mesmos não fazem isso? Por que vocês precisam do Eli, ou de mim? — Nós não sentimos a menor necessidade de deixar nossa casa para cuidar desse trabalho... nós temos tudo o que precisamos lá. Todo o tipo de conforto. — Ele me abriu um leve sorriso sinistro e então continuou. — Não precisamos nos dar o trabalho de vir até aqui, a não ser em situações muito extraordinárias. Como para punir alguém. Ou capturar uma alma. Ao dizer a palavra ―capturar‖, ele inclinou sua cabeça, me analisando de novo. Tentando definir quem eu era e que utilidade eu poderia ter para ele, sem dúvida alguma.

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Tentei esconder minha repulsa pela ideia de servir alguém assim. Não, ele não era alguém, e sim alguma coisa. Algum demônio, tenho certeza. Eu tinha que fugir dali. Imediatamente. No entanto, por mais que essas criaturas sombrias não estivessem interessadas em me seguir para fora de seu mundo, eu também não tinha a menor ideia de como ir embora. Algo me dizia que esse homem — esse ser — não me deixaria simplesmente sair andando para procurar uma saída. Tentando ganhar tempo, tentando pensar em alguma solução para esse impasse, perguntei então com a voz trêmula: — Por que vocês precisam construir um mundo então? Se já têm tudo o que precisam na... sua casa? O homem me abriu um sorriso desdenhoso. — Você não acha mesmo que é assim que o pós-vida funciona, acha? Foi isso o que você aprendeu sobre todo o jogo cósmico das coisas? Que o céu e o inferno ficam simplesmente parados, só esperando? Ao ouvir essas duas palavras, tão carregadas de significados e mitos, finalmente estremeci. Tive a certeza de que não estava sobre uma das entradas para o céu agora. — Então o que vocês querem fazer? — perguntei. — Ganhar o jogo? — Sim — disse, abrindo mais e mais seu sorriso até seus dentes aparecerem, afiados e brilhantes, como um monte de facas. — O meu lado quer ganhar. E você vai nos ajudar nisso. Seus olhos reluziram de repente, tomados por um brilho frio e vazio, enquanto analisavam meu corpo. Esse seu olhar me deu um arrepio — um arrepio de verdade que espalhou calafrios pelos meus braços. Como se tivesse sentido o perigo que eu corria, minha luz incandesceu de repente, crescendo junto com o meu medo, brilhando contra o homem, como se quisesse me proteger. Vi seu brilho ser refletido nas profundezas de seus olhos negros, e reluzir nas pontas de seus dentes. O submundo inteiro deve ter percebido meu medo, porque a estrada abaixo de nós começou a ranger, como se fosse se partir ao meio, logo atrás do lugar onde o homem estava. Ao contrário de Eli, esse homem sombrio não pareceu se amedrontar com isso. Seus olhos se desviaram até o asfalto trincado, e então de volta para a luz que me protegia dele. Quando voltou a me encarar, ele parecia satisfeito — ou melhor, extasiado — com o que eu tinha acabado de fazer. Ele deu um passo na minha direção, e depois outro. Seus olhos se arregalaram, tomados por uma empolgação ensandecida, e ele ergueu uma 243


de suas mãos pálidas até mim. Para me pegar e me puxar para as trevas junto com ele, sem dúvida. Para me aprisionar ali para sempre. Meus olhos se desviaram para as árvores na borda da floresta do submundo, onde meu pai poderia estar preso, andando de um lado para o outro junto com todas as outras almas condenadas. Essa visão deteve meu olhar por um breve segundo de angústia, e então fechei os olhos com força. — Preciso me desmaterializar — sussurrei em desespero. A ponte rangeu embaixo dos meus pés de novo. Em seguida, por baixo desse rangido, ouvi um leve zunido de ar passando por mim. Meus olhos se abriram de repente. A princípio, tudo o que vi foi uma ofuscante luz branca. Quando o brilho diminuiu, no entanto, pude ver os leves contornos do cenário à minha volta. Minha visão foi ficando cada vez mais clara, e comecei a olhar em desespero de um lado para o outro. Mas não encontrei mais nenhum homem demoníaco, nenhum submundo reluzente. Apenas as vigas de metal retorcidas e o asfalto revirado da Ponte Alta de verdade. Olhei para o ponto escuro onde aquele homem sinistro estava até agora há pouco. Não confiava naquela escuridão; ainda não acreditava que aquele lugar estava vazio. Mas quando me dei conta de que ele tinha sumido — sumido de verdade —, suspirei. Ao som do meu suspiro, o brilho à minha volta se apagou com um leve pop. — Hum... — murmurei, erguendo os braços e olhando para o meu corpo. — Que coisa... Não havia nenhuma marca em mim. Nenhuma brasa, nenhuma queimadura, nem qualquer mancha de cinzas no meu vestido branco. Será que eu sou flamável, ou inflamável então? Ou será que é a mesma coisa? Apesar de todo o horror daquela noite, ouvi uma risadinha histérica escapar dos meus lábios. No entanto, o alarido repentino de uma sirene interrompeu minhas divagações. Esse barulho me lembrou de onde eu queria estar, e com certeza não era naquela ponte. Fechei os olhos e os reabri rapidamente, me deparando com Joshua e Jillian aos meus pés. O som da sirene ainda ecoava, agora acima de mim. Pelo visto, essa tinha sido minha materialização mais fácil até agora. Joshua não tinha me visto chegar, então me ajoelhei ao seu lado e pus minha mão de leve nas suas costas. Ao sentir meu toque, ele se virou com uma das mãos fechadas. A agressividade em sua reação me assustou, e 244


quase dei um passo atrás. Mas antes que eu pudesse me mexer, os olhos de Joshua brilharam ao me reconhecer. Ele pegou minha mão e me puxou. Com sua outra mão ainda segurando a de Jillian, Joshua pôs seu braço livre em volta do meu ombro. Eu me aconcheguei nele, fechando os olhos e encostando minha cabeça em seu peito. — Não tenho a menor ideia do que aconteceu aqui — disse Joshua. — E quero que você me explique tudo. Mas não temos muito tempo para conversar, os paramédicos já estão chegando. Abri meus olhos e me virei para o alto da encosta. A ambulância tinha parado em frente à ponte rachada, e um grupo de paramédicos estava descendo com cuidado a íngreme colina até o rio. — Ainda bem que eles chegaram — disse, olhando para o rosto branco de Jillian. Joshua devia tê-la estendido na margem de novo, porque ela estava deitada mais uma vez na lama, pálida e de olhos fechados. — Pois é. Ela vai ficar bem, acho — Joshua olhou para sua irmã, franzindo bem a testa. Mas então ele riu de repente e se virou para mim. — Acho que ela vai acordar de muito, muito mau humor. Ri com ele, mas nossa descontração pareceu um tanto inapropriada. Joshua deve ter sentido isso também, porque seu rosto voltou a ficar sério. — Tudo bem com você, Amélia? — perguntou, tentando olhar nos meus olhos. — Tudo. — Dei um suspiro e, não sei bem por que, encostei meu rosto de volta em seu peito e me abracei com mais força a ele. Talvez tenha sido o som de sua voz forte o que por fim derrubou as minhas defesas, ou talvez só o fato de estar parando para descansar pela primeira vez naquela noite. De um jeito ou de outro, só sei que me senti completamente exausta de repente. Joshua tirou seu braço do meu ombro para pôr a mão na minha nuca, onde então passou seus dedos pelos meus cabelos. Pensei então, e não pela primeira vez, no quanto eu adorava aquilo. Um leve sorriso se abriu no meu rosto, e suspirei de novo. — A gente não precisa falar sobre isso agora — murmurou Joshua. — Mas pelo menos uma coisa preciso perguntar... você... salvou a gente? — Acho que ―salvar‖ talvez não seja a melhor palavra — disse, aconchegando meu rosto ainda mais em seu peito. — Só dei um jeito de... espantar nossa ameaça, talvez. — Então você espantou o Eli? Abri um sorriso determinado, por mais que Joshua não pudesse ver meu rosto. 245


— Eu, não. Mas ele foi espantado, sim. E de uma vez por todas, acho. — Ótimo. O som que ouvimos em seguida nos pegou de surpresa. Uma voz fraca — rouca de exaustão e por ter engolido água demais — irrompeu da margem do rio abaixo de nós. — Amélia? Olhei para Jillian. Ela tinha se erguido alguns centímetros, apoiada sobre seus cotovelos, e agora estava olhando diretamente para mim. Seus olhos castanhos — quase ardentes no escuro — se focaram nos meus. A intensidade em seu rosto pareceu me hipnotizar. — Oi — sussurrei, mais por impulso do que qualquer outra coisa. — Ele já foi embora? — Sim, o O’Reilly já foi embora. — Não, não o O’Reilly. Aquele cara loiro. Fiquei surpresa. Jillian estava falando de Eli. Como ela sabia dele? Ela nem o tinha visto, ou tinha? — Ah, s-sim... — gaguejei. — Também já foi embora. — Então... obrigada. Ela me deu um leve aceno e, em seguida, fechou seus olhos e deitou sua cabeça de volta no chão lamacento.

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Epílogo – Eu pararia de insistir se você parasse de ser tão estúpida. — Bom, não precisaria ser estúpida se você parasse com essa sua maluquice bizarra. Soltei um suspiro profundo, apoiei as costas na parede e estendi meus dedos à minha frente, à procura de alguma sujeira invisível nas minhas unhas. Eu já tinha escutado essa briga tantas vezes nas últimas duas semanas que já sabia todas as frases de cada lado dessa discussão ridícula de cor. Ainda assim, Joshua e Jillian pareciam dispostos a repetir tudo pelo menos mais uma vez. Enquanto eu esperava no alto da escada — mais do que pronta para pôr logo um fim nessa baboseira sem sentido e ir embora —, Joshua estava de frente para o quarto de Jillian, com sua mão apoiada firme no batente da porta. — Olha — esbravejou ele. — Depois de tudo o que a Amélia lhe fez, você está sendo... muito sem educação. Jillian apenas abriu um sorriso seco para o irmão e cruzou os braços. — Até onde sei, Josh, você foi o único que me ajudou, e não vou mostrar minha gratidão fingindo que acredito numa amiga imaginária sua. — Ah, pelo amor de...! — Joshua soltou do batente e jogou as duas mãos para o alto. — A Amélia não é imaginária! Você mesma viu que ela existia, na noite em que ela salvou você. Você falou com ela, Jillian. E você pode ver que ela existe agora mesmo, como eu. Joshua apontou para mim. Os olhos de Jillian seguiram o gesto do braço do irmão até o meu rosto. Tive só um microssegundo para sorrir antes que os olhos de Jillian se desviassem de novo. — Não, não tem ninguém aí — entoou ela, como se estivesse cantarolando. 247


Soltei um grunhido e revirei os olhos. — Joshua, não adianta. Assim como não adiantou ontem, nem anteontem, nem... — Adianta, sim, porque a Jillian vai sair com a gente hoje. — Não sei quantas vezes vou ter que repetir isso — disse Jillian, entre seus dentes cerrados. — Eu não vou perder minha noite de sexta com você e a Gasparzinha, sua namoradinha camarada. Joshua abriu a boca, provavelmente para gritar de novo, mas o interrompi. — Olha, Joshua, está na cara que ela não vai mudar de ideia hoje de novo, então será que dá, por favor, por favor, para a gente ir embora? — Pois é, Josh, vê se escuta essa sua amiga imaginária e dá o fora daqui — disparou Jillian. Joshua se empolgou na mesma hora e começou gritar e bater a mão na porta, todo triunfante. — Ahá! — berrou ele. — Eu sabia! Você consegue ouvir a Amélia, sua mentirosa! Jillian ficou boquiaberta feito um peixe. Ela olhou bem para mim de novo por um instante. Em seguida, balançou a cabeça com força, como se isso pudesse me tornar invisível para ela de novo. Ela pegou a porta, fazendo uma última careta, e então a bateu na cara de Joshua. Mesmo com a porta fechada, Joshua continuou dando risada. Ele se virou para mim com um sorriso enorme no rosto. — Viu? Eu disse que ela ia admitir. — Amor... — disse, revirando os olhos de novo — ...ela não admitiu nada que você já não saiba. Além do mais, a Jillian é uma vidente plena agora, queira ela ou não. E eu tenho bastante certeza de que ela não vai começar a fazer umas camisetas, tipo, ―Exorcismo Não!‖, quando a Ruth decidir encerrar nosso acordo de paz. Por mais que a Ruth tenha me deixado entrar aqui de novo. — Tanto faz — insistiu. — A Jillian e a vó Ruth vão gostar de você. Cedo ou tarde. Apesar das minhas fortes dúvidas, acabei dando risada. — Ai, Joshua, como você é otimista... — Claro, porque meus planos sempre dão certo. Você vai ver. — Falando em planos misteriosos... — disse eu, enganchando meu braço no de Joshua. Seu sorriso cresceu enquanto ele me puxava mais para perto e me guiava escada abaixo. 248


— Já falei... é surpresa. — Como assim, você vai tentar me trazer de volta à vida por acaso? — disse, fingindo um tom de esperança. Bom, pelo menos tentei fingir. Joshua, no entanto, só deu risada. — Só me dê um tempo, Amélia. Só me dê um tempo. Balancei a cabeça. — Joshua, as pessoas normais só fazem surpresas assim no aniversário umas das outras, e a gente sabe muito bem que essa é uma coisa que eu não tenho mais. — Tudo bem. Então em vez de te dar um presente, que tal eu só pedir para você destruir uma propriedade pública de novo? Fiz uma careta e me remexi contra ele, incomodada. — Olha, já disse que não gosto de falar sobre isso. Os olhos de Joshua reluziram com um brilho malicioso. — Só estou falando que a prefeitura provavelmente vai levar anos para reformar a Ponte Alta. — Por mim, podiam nem reformar — murmurei. Em seguida, abri um sorriso e encolhi os ombros. — Enfim, já disse, não vou mais falar sobre isso. Ponto final. Fim de papo. Pronto, acabou. Só não havia dito que tinham também vários outros assuntos que eu vinha tentando evitar. Como a nem tão velada hostilidade de Ruth contra a minha presença à noite em sua casa; a eminente iniciação de Jillian na comunidade de videntes de Wilburton, o que para mim seria inevitável; ou a quase insuportável preocupação que eu sentia pelo meu pai quando pensava em onde, e por quem, sua alma poderia estar aprisionada. E é claro que eu também não estava exatamente pronta para discutir todas as dificuldades do meu relacionamento com o próprio Joshua. Afinal, nós éramos um casal que envolvia um vidente e um alvo em potencial para um exorcismo. Um garoto cheio de vida, e uma menina morta. Nossa compatibilidade não era lá muito óbvia, nem simples. Alheio aos pensamentos sombrios que me atormentavam, Joshua me deu outro sorriso cheio de malícia. Nós chegamos à porta da cozinha, e ele então me empurrou para fora de brincadeira. Pouco depois, já estava bem acomodada em seu novo carro — uma caminhonete usada, preta e reluzente —, enquanto ele nos levava a algum destino não revelado. Às suas ordens, tive que ficar encostada no meu banco (depois de resmungar em protesto por uns bons cinco minutos) e com as mãos tampando os olhos. Sempre que eu tentava espiar por entre os dedos, 249


Joshua me pegava no flagra e me ameaçava, dizendo que ia me fazer passar o resto da viagem ouvindo as músicas de hip-hop de Jillian. Por fim, Joshua parou a caminhonete. Ficamos sentados ali em silêncio por um momento, e um ar tenso começou a cair entre nós. Podia sentir o nervosismo que irradiava de Joshua como as vibrações de um diapasão. — Joshua? Você está muito quieto. — Acho que só estou nervoso pela surpresa. Espero que goste, mas não quero que fique triste. — Triste? — perguntei. — Por que eu ficaria...? Não terminei minha frase, deixando a pergunta no ar. Fiz isso porque esse mesmo ar estava me trazendo um cheiro familiar, mas há muito tempo esquecido. Madressilva. Seja lá onde Joshua tivesse parado a caminhonete, eu não deveria estar sentindo esse cheiro. Nós agora estávamos no frio do outono, e as primeiras geadas já tinham destruído a maior parte das flores de Oklahoma. Ainda assim, senti aquele perfume, forte, floral e adocicado. A família de Joshua não tinha pés de madressilva no quintal, e eu também não me lembrava de ter passado por nenhum deles durante as andanças do meu pós-vida. Mas reconheci aquele cheiro na mesma hora, em maior parte porque a cerca da casa onde cresci era toda coberta dessas flores com suas pétalas cor de âmbar. Virei minha cabeça para a janela do passageiro e tirei as mãos dos olhos. Então me vi de frente para a casinha de madeira onde tinha passado meus primeiros — e únicos — dezoito anos de vida. Os ramos de madressilva em volta da casa não estavam floridos agora, mas suas flores haviam desabrochado ali durante tantos anos que seu cheiro devia ter se impregnado no ar ali em volta. — É a minha casa? — sussurrei. — Tive uma ideia — explicou Joshua. — Um jeito de você talvez ver sua mãe. Nem que só um pouco. Você acha que iria gostar? Olhei com mais atenção para a casa. Havia um carro sedan carcomido de ferrugem parado na entrada. A janela da frente tremeluzia com a luz da tevê, alternando entre tons de amarelo e azul sob a penumbra do crepúsculo. Pensei na sugestão de Joshua por mais um instante e então acenei a cabeça. 250


Joshua desceu da caminhonete, veio até o meu lado e abriu a porta, fingindo pegar alguma coisa dentro do carro caso a minha mãe estivesse nos vendo. Desci, sem tirar os olhos da fachada daquela casinha. Joshua e eu não falamos nada enquanto cruzávamos o pequeno jardim. Chegamos à varanda, onde só os passos de Joshua ressoaram contra as tábuas de madeira. Joshua ergueu uma das mãos e, enquanto acenava a cabeça para me confortar, bateu na porta. Ouvi uma movimentação dentro da casa, e minha cabeça começou a girar. Alguns segundos depois, quando a porta se abriu, até achei que ia desmaiar. Lá estava ela na porta, iluminada por trás pela luz do corredor. Elizabeth Louise Ashley. Liz, para os amigos. Mamãe, para mim. Ela tinha envelhecido muito, bem mais do que eu imaginava. Ainda assim, sob suas novas rugas, e dos últimos dez anos de tristeza, a beleza de minha mãe ainda brilhava a olhos vistos. Seus longos cabelos escuros reluziam, presos em um rabo de cavalo, com apenas alguns fios brancos no meio. Seus olhos grandes e castanhos — ainda contornados por seus cílios grossos — se focaram no jovem em sua varanda antes de ela o abrir um sorriso largo e gentil. — Pois não, posso ajudar? — disse ela com sua linda voz, a mesma voz perfeita que tinha me lido todas as histórias de ninar que eu sabia. A mesma voz que ela se esforçou para não erguer durante cada uma das nossas brigas idiotas — brigas que eu queria, mais do que tudo agora, nunca ter provocado. — Mamãe — gemi, sem conseguir conter minha boca antes que essa palavra escapasse. Pelo canto do olho, pude ver Joshua fechar sua mão que estava mais perto de mim. Percebi que ele estava querendo me confortar, e o amei ainda mais por isso, mesmo que ele não pudesse dar vazão a esse seu impulso agora. Em vez de pegar minha mão, Joshua limpou a garganta e respondeu a minha mãe. — Sim, senhora. Estou aqui em nome do grupo de jovens da igreja. Nós estamos... hã... distribuindo bíblias de porta em porta. Ergui uma sobrancelha para Joshua. Para a minha surpresa, ele sacou uma pequena bíblia verde do bolso de seu casaco e a entregou para a minha mãe. Tenho que admitir, esse menino estava sempre bem preparado, com o Novo Testamento na manga e tudo. 251


Minha mãe sorriu, tão surpresa quanto eu, mas estendeu a mão e pegou a bíblia de Joshua. Ela olhou para o livro, e seu sorriso esmaeceu. Em seguida, ela passou um dedo pela capa. — Sabe... — disse ela, ainda olhando para o tomo. — Minha filha também tinha uma bíblia pequenininha dessas. Da mesma cor e tudo. Isso deixou Joshua calado. Nem eu sabia o que dizer. Engoli seco, sentindo um nó estranho na minha garganta. Minha mãe deve ter sentido o desconforto de Joshua, porque finalmente levantou a cabeça e olhou para ele. Por um instante, achei ter visto um brilho de lágrimas nas bordas de seus olhos, mas ela virou a cabeça, e as sombras cobriram seu rosto. — Desculpe. Não sei bem... por que disse isso. — Imagine, senhora — disse Joshua. — Tenho certeza de que sua filha é fantástica. — Era — disse minha mãe baixinho. — Mas sim, ela era. Era fantástica. Uma pontada de culpa se revirou dentro de mim. O nó na minha garganta se apertou mais, e me esforcei para não engasgar. Mas o soluço que contive ainda estava ameaçando transbordar pelos meus olhos na forma de lágrimas. Alheia a esse meu drama na sua frente, minha mãe virou a cabeça por cima do seu ombro para dentro da casa. Um facho de luz iluminou seu rosto, e pude dar uma última encantadora olhada para ela. Quando ela se virou de volta para Joshua, seu rosto voltou a se perder sob as sombras. — Sabe, meu jovem... — começou a dizer ela. — Joshua. Joshua Mayhew — disse ele, e então fez uma leve careta. Talvez ele estivesse pensando em dar um nome falso, por mais que não houvesse nenhuma necessidade. Afinal, ela nunca teria como saber da conexão entre Joshua e eu. — Bom, Joshua... — continuou minha mãe. — São só oito da noite ainda. Eu fiz um chá. Você não quer entrar um pouco? Os olhos de Joshua se desviaram para mim, mas eu balancei a cabeça. Por mais que uma parte de mim quisesse muito ficar sentada ao lado dela por horas, ouvindo sua voz e tentando sentir seu perfume, outra parte não estava nem um pouco interessada. Devia ser alguma parte de mim mais preocupada com minha autopreservação. Eu iria voltar depois, sabia, mas não tinha mais como ficar ali agora. Eu estava achando que se a gente ficasse mais muito tempo ali, eu ia acabar tendo um colapso nervoso. 252


— Não, obrigado, senhora — disse Joshua, balançando a cabeça. — Foi muito gentil da sua parte me convidar. Mas é melhor eu ir... preciso distribuir o resto das bíblias. — Claro — disse minha mãe, acenando a cabeça. Mesmo em meio às sombras, pude ver seu leve sorriso. — Foi um prazer, Joshua Mayhew — disse ela, estendendo sua mão livre. — Sua visita foi breve, mas muito agradável. Joshua riu baixinho. Com uma versão menor de seu sorriso de sempre, apertou a mão de minha mãe. — Foi um prazer também, senhora Ashley. Em seguida, ele ficou pálido e soltou sua mão. Eu quase pude ouvir os gritos de desespero em sua cabeça: ela não tinha se apresentado, então ele não tinha como saber seu nome. Como ele iria explicar isso? Como? Minha mãe, no entanto, não se incomodou com isso. Na verdade, não disse mais nada. Só ergueu uma sobrancelha e abriu aquele seu meiosorriso de sempre antes de se virar para fechar a porta. — Eu li na caixa de cartas... — começou a dizer Joshua, sem muito jeito. Mas minha mãe já tinha fechado a porta, deixando Joshua sozinho com o mistério de como esse jovem de dezoito anos poderia saber seu sobrenome. Joshua e eu fomos embora em silêncio, mas ele não nos levou para casa. Nem precisei perguntar para onde estávamos indo quando ele entrou em uma estrada íngreme entre pinheiros. Por mais que ele nunca tivesse pegado aquele caminho antes e a noite agora estivesse bem escura e densa à nossa volta, soube por instinto qual seria o nosso destino. Depois de subir pelas sinuosas curvas da estrada que passava pelo Parque Robber, Joshua parou sua caminhonete ao lado de uma pequena clareira. Ele deixou o motor ligado, mas desligou os faróis e então desceu para abrir minha porta. Fiquei esperando de lado enquanto ele se inclinava para dentro de novo para mexer em seu MP3 player que ele tinha ligado ao som da caminhonete. Minha música favorita — a que ele tinha me mostrado e que eu adorava pelos seus lentos acordes de guitarra — pairou porta afora. Joshua se afastou da caminhonete e, sem dizer nenhuma palavra, pegou minha mão. Ele me levou até o meio da clareira, à direita do nosso banco favorito do parque. Em seguida, me puxou para mais perto. Coloquei meus braços 253


em volta de seu pescoço, ele pôs os seus em volta da minha cintura, e nós começamos a dançar ao som da música. Pouco depois, a canção acabou e outra favorita minha começou. Fiquei achando que Joshua tinha preparado essa lista de músicas só para mim, mas preferi não dizer nada. Seria mais romântico deixar o mistério no ar. Por fim, soltei um suspiro e olhei em seus olhos, que pareciam quase negros no escuro. — Obrigada por esta noite — murmurei. — Você não... não ficou triste, nem chateada comigo? — Estou triste, sim, claro. Mas estou feliz também. Por vários motivos. Por ter visto minha mãe. E também... bom, por você. — Por mim? — Sim, por você. Você vive me dando os melhores presentes, por mais que eu nem sempre perceba na hora. Como hoje. Ou quando você me levou para ver a minha casa daquela primeira vez. Ou quando você me despertou. — Soltei um braço do pescoço de Joshua e pus a mão em sua bochecha. — Depois de tudo isso, Joshua, como posso me chatear com você? Ele riu baixinho, tirando minha mão de sua bochecha para pôr meu braço em volta de seu pescoço. — Bom, ainda não te dei sua última surpresa, Amélia. — A vida? — perguntei, com um sorriso tímido. Joshua sorriu também — um sorriso largo e charmoso, completamente perfeito — antes de chegar mais perto de mim. — Não — sussurrou, balançando a cabeça. — Isto aqui. Em seguida, tocou seus lábios nos meus. Apertei meus braços em volta de seu pescoço e o beijei de volta com todas as minhas forças. Um fogo ardente se alastrou por mim, embora fosse algo muito menos violento e brutal do que a luz que eu conseguia emanar sozinha. Mas esse fogo era melhor. Muito, muito melhor. Enquanto Joshua e eu nos beijávamos, fiz uma lista das coisas que eu não tinha: um coração batendo no meu peito, é claro, mas também uma família com quem eu pudesse conversar, incluindo meu pai ainda perdido e minha mãe solitária; um futuro — um futuro livre de espíritos malignos e exorcistas vingativos, um futuro que eu pudesse dividir com esse garoto nos meus braços.

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Em seguida, fiz uma lista das coisas que eu tinha: uma existência, perdida há muito tempo, mas que agora poderia aproveitar de novo; talvez um ou outro cheirinho de madressilva, ou do perfume de Joshua. E também, é claro, o próprio Joshua. Ao revisar tudo isso, me dei conta de que, se me fosse dada a opção, sempre escolheria ficar com os itens da segunda lista. Sem pensar. Num piscar de olhos. Eu sempre escolheria a eternidade, se essa eternidade fosse com ele.

Fim.

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Hereafter tara huson 01  
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