OUTRO OLHAR

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outro

olhar


Catálogo Concepção: Alice Nin, Gabriela Faccioli e Pablo Meijueiro Design: Pablo Meijueiro Textos: Leo Lima e Gabriela Faccioli Fotos: Alice Nin, Eduardo Santos e Acervo dos moradores. Realizadores envolvidos na exposição ”Outro Olhar” Leo Lima, JV Santos, Jefferson Vasconcelos, Eduardo Santos, Jonas Rosa, Pablo Meijueiro, Gabriela Faccioli, Alice Nin, Vitor Luiz, Fabi Silva, Marcell Carrasco. Agradecimentos à todos os moradores do Jacarezinho em especial do morro Azul, pela acolhida e os abraços sinceros.



Situado na Zona Norte do Rio de Janeiro, o jacarezinho ergueu-se da Vieira Fazenda, parte baixa da favela até o Morro Azul na parte alta, cercado por indústrias e fábricas. No caminho que começa atravessando a linha do trem para um lado ou para o outro, casas de pau a pique e alvenaria se misturam aos terreiros de umbanda e candomblé, igrejas evangélicas, campos de futebol e balcões de bares de esquina em diferentes alturas, ligados por escadas de concreto, pipas incansáveis cortam os céus, as crianças estão sempre em movimento enquanto algumas caixas d’água paradas. O antigo morro da “titica” foi sendo moldado ao longo do tempo, por desejo ou necessidade dos seus moradores, novos e antigos, até o que vemos hoje: superposições continuadas de sonhos, desejos e necessidades, casas, bares, quadras, lojas e lajes. O que o Jacarezinho tem de extraordinário? Não sei ao certo, o que sei com certeza é que, quando se pede a um morador do jacarezinho que descreva uma vida feliz ele sempre imagina uma favela como a dele, com sua gente, do futebol na G.E. à Escola de Samba Unidos do Jacarezinho.




















A exposição Outro Olhar é antes de tudo um convite à experimentação afetiva da imagem, uma celebração à memória; tendo nascido da resistência - dos corpos, do miúdo, dos becos - insiste no reconhecimento das outras narrativas e olhares da cidade. Os Lambes colados e expostos pelas ruas do Azul no Jacarezinho em dezembro de 2017 são uma coletânea de fotografias dos próprios moradores, fotos de época, registro de tempos, guardadas em caixas no fundo do armário, que ao saírem pras ruas ficaram gravadas também nas pálpebras. Montamos tenda em frente ao bar do João, convidamos crianças e velhos, tios e tias, e as fotos começaram a brotar nas mãos e as histórias nas bocas. Os jogadores do time do Azul tiveram seus nomes lembrados um a um, a festa, o filho, o churrasco, todos evocados e celebrados em algumas tardes de cerveja e escuta. Nosso trabalho foi apenas o de investigação, convite e atenção e depois o de organização e curadoria do material encontrado, costurando as fotografias que não precisavam mais do que ser vistas, pois falam por si só. O catálogo é uma tentativa de expandir o alcance da pesquisa, dar um retorno carinhoso aos moradores do Jacarezinho e registrar um trabalho que nos foi tão valioso e potente. Convidamos todos a tocar e se friccionar com as imagens, tensionando novos horizontes a partir de uma memória viva e acesa.