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Atenção Esta revista foi feita para criar debates, expandir mentes, mudar rumos,sem qualquer influência de partido político, ONG, sindicato, ou religião. Esta edição é dedicada à todos aqueles que ainda acreditam no poder popular e na força que emana do povo e principalmente da juventude combativa. LIBERDADE


Manifesto

Q

uatro anos se passaram desde que a primeira ideia de produzir a Megafonia surgiu, nesta trajetória de jornalismo independente e midia livrismo passamos por muitascoisas. Entre prisões contra nós ou amigos e coberturas das lutas populares, vimos mídias “independentes” que se diziam livres se mostrarem apenas reformistas, nos decepcionamos com muitas destas mídias que antes disso haviam influenciado nosso trabalho. Também vimos surgir mídias de dentro das ocupações secundaristas, além de muitas outras que foram aparecendo de 2013 para cá e ainda seguem o caminho combativo e revolucionário. Criamos de forma autônoma uma linha editorial firme, de opinião decidida e declarada, sempre anárquica e libertária. As injustiças que vimos nestes anos feitas pelo Estado contra o povo nos guiaram em direção à bandeira negra, sem partido, sem liderança, combativa e anticapitalista. Conseguimos manter (mesmo que com algumas perdas) um site e esta publicação digital, apenas com o que tínhamos em nossos bolsos, sem a necessidade de buscar alternativas publicitárias e parcerias capitalistas para veicular jornalismo sem amarras. Nesta 4ª edição começamos a dar outro passo, vamos produzir uma revista bimestral que

replique o conteúdo que disponibilizamos na web, além de textos inéditos e exclusivos. Agora também no formato impresso, junto à publicação digital. Voltar à ideia do impresso era uma vontade antiga da editora e talvez o início de uma produção mais expansiva da narrativa desta Megafonia. Não é só uma publicação,mas agora um documento.

Um produto Editora Megafonia CNPJ: 13.899.956/0001 Publisher: Kauê Pallone MTB - 74671/SP Redação Editor: Kauê Pallone Reportagem: Amanda Ivanov Kauê Pallone Ronaldo S. Lages Arte: Editora Megafonia Colaborou para esta edição: Coletivo Carranca Rusga Libertária (Mato Grosso) Contato [redacao@megafonia.info] Todos os direitos reservados


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Índice...

Selva e Pedra

A pílula Bar do bin landen explosão no centro de sp As ruas gritam

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Ocupação e resistência pela causa indígena

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cultura e resistência

um dois

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Henfil: A saga de humor e a tragédia de um gêncio

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estante

pensar app auxilia na redução de danos ao uso de drogas

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Editorial

75 megafone movimentos se unem em mais um ato pela liberdade de rafael braga Sistema prisional não é pensado para mulheres Vamos falar das olimpíadas

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quem é lucy parsons?

Organizar o povo para fazer revolução


Redes facebook.com/revistamegafonia

@megafonia140

youtube.com/revistamegafonia


A Pílula

BAr do Bin Laden Explosão no Centro de SP Dono de bar virou personagem mítico entre os apreciadores de um bom goró na capital paulista //por Ronaldo S. Lages

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A

cidade de São Paulo esconde seus personagens e ambientes que só se encontram aqui: bandas, tipos de comidas, baladas e bares. O Bar do Bin Laden é um desses lugares. Quando chego tento explicar o que desejo, o sósia do temido terrorista árabe me pergunta de onde sou e de onde venho, é desconfiado. Queixa-se que a maioria de meus colegas apenas fazem entrevistas e não lhe mandam o conteúdo para que seja exposto nas paredes do bar, reclama que a maioria dos jornalistas ficam ricos e só aparecem por lá em busca de uma história diferente e somem. Com a mesma delicadeza de um elefante em uma loja de cristais, se refere a mim. “Fala o que você quer meu filho, porque até agora você não disse nada”. Não me fiz de rogado, anoto todos meus dados em um pequeno bloco de notas que o próprio tira de uma gaveta e promete me ligar. Quem sabe o repórter poderia ser um espião do exército midiático inimigo em represália? Nisso, o barbudo me alerta. “Sabe como é, o mundo tá em guerra”. Por trás do bem humorado sósia de Bin Laden está Francisco Hélder Braga Fernandes, cearense que mora em São Paulo desde 1978 e trabalhou em diversos bares com os irmãos que hoje moram na terra de origem. Sua fama se deu quando um jornalista da Folha de S. Paulo o des-

A Pílula cobriu e a partir daí não parou mais de fazer entrevistas e a frequentar programas de TV. Pergunto sobre sua desconfiança em relação a mim, dá uma gargalhada e responde. “Rapaz, como eu sou muito parecido com o Bin Laden, e como tá o mundo todo em guerra, eu lá vou saber se vem um terrorista doido e explode toda a Avenida Nove de julho?”. O público frequentador do Bar do Bin Laden é majoritariamente ligado ao Rock pesado, camisas pretas, braceletes e jaquetas com as estampas que vão desde o tradicional e conhecido capiroto até lindas donzelas em campos floridos, no melhor estilo gótico. A jovem Jeane Santos é um exemplo disso e explica como descobriu o boteco. “Certa vez, quando voltava do meu curso de administração, passei aqui na frente e simplesmente vi um cara igual ao Bin Laden, não é em todo lugar de São Paulo que você vê uma figura dessas”. Nas paredes do bar, seu dono ostenta as mais diversas aparições na mídia nacional e internacional, um dos cartazes que exibe com orgulho é o de sua participação no programa do animador de auditório Silvio Santos, lá Bin Laden também usa seu traje camuflado do exército e túnica branca na cabeça em franco diálogo com o “rei do baú”. Em um dos relógios de pa-


A Pílula rede, uma das relíquias de Bin Laden, os ponteiros dão voltas ao redor da imagem de um sorridente maestro Luiz Carlos Martins e seu anfitrião. Em um outro relógio, não muito distante dali, figuram dois policiais militares muito felizes em dividir o quadro com o ícone dos botecos do centro velho da cidade. Além dos inusitados fãs, ainda se espalham pelo espaço recortes de jornais, fotos de velhos frequentadores e cartazes de shows do subterrâneo musical paulistano. No balcão, nada de muito diferente, garrafas de Cynar, Ypióca, Velho Barreiro e 51 se espremem ao lado de saquinhos de amendoins e maços de cigarros que são constantemente

8 solicitados. O personagem Bin Laden, dono de bar, é cuidadoso, ao ouvir meu pedido para tirar algumas fotos, aconselha esperar um pouco, quer trocar a touca, segundo ele, estava suja. Um espelhinho também foi posto próximo ao balcão, a barba precisa ser penteada para figurar bem nas fotografias. Enquanto isso, nas caixas de som explodia “California Uber alles” da banda de Hard-Core Dead Kennedys. O bar que começa a encher no início da noite faz seu proprietário caminhar de um lado para outro, se senta em uma cadeira próxima da porta, acende um cigarro, cruza as pernas e balança os pés no ritmo do Led Zepellin, que irrompe o sistema


9 de som do bar. Logo se levanta. Entre um pedido e outro, o multitarefas Bin Laden leva cadeiras para a calçada e coloca limão em um copo com cachaça para um cliente que sai. Para eliminar parte da cerveja que havia consumido, fui até o banheiro que fica nos fundos, este possui o melhor espírito punk, paredes pichadas, gente de todo canto que deixa seus recados: “ABC”; “Morro Doce”; “Camila Iron Maiden” deixou sua marca por ali

A Pílula também. O Bar do Bin Laden está à frente de seu tempo, homens e mulheres não fazem distinção de gênero na hora de se aliviar. Chegou a vez da melancolia do Nirvana surgir nas caixas de som, o sósia parte para fumar mais um cigarro diante da porta com ar pensativo, Francisco é um homem solitário, vive nos fundos do próprio bar. Contudo, entre uma gargalhada e outra exemplifica. “Eu moro sozinho na toca do Bin Laden. Só eu, Deus e Alá”. Não está tão só.


A Pílula

“As Ruas Gritam através dos muros” É no concreto, na ruína dele, que as marcas ficarão e contarão a história //por Kauê Pallone

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a pedra, pau, ferro retorcido. No resto de cola do lambe que se descolou, ou alguém quis arrancar com a unha, queimar. O que importa mesmo é que ficou e de lá não saiu. O que? A imortalidade de um ato artístico, a existência de um grito, um apelo, pura arte como grito. Sem som, só cores,sem cores, tipografada, lambida na cola. O rolinho que ficou no canto de uma esquina depois da fuga. Adrenalina, informação, arte, ou só a impressão do pensamento na cena urbana. Talvez seja isso, o pensamento se expande de tal forma que sua necessidade se amplia junto ao

A Pílula desejo de estar cravado também na superfície, no muro. Entre botecos, prédios, casas de prostituição, a liberdade de expressão se faz presente nos atos e ações daqueles que produzem o fluxo aglomerado de gente, bicho humano. Na parede alguem grita para você, não da forma tradicional pela voz, nem ao menos você escuta o grito, pois ele é visual. Isso te atinge, pode desaparecer como na linha do tempo do Facebook foge a lembrança do último scroll. Aquilo te atinge, te puxa, ou te xinga. Lembranças das lutas do cotiano, chamadas para encontros pela revolução,


A PĂ­lula

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13 de nós mesmos ou do coletivo. Outrora Pelé beija o C-3PO, um menino chora em Santa Teresa, paredes se cobrem da expressão popular. O que dizer de um mundo sem vida, ou melhor, que cor ele teria? Cinza, branco, transparente e quadriculado como no fundo de uma imagem em “.png”?Certamente não teria a cor e o borrado que elas produzem na paisagem da cidade. Um caos ar-

A Pílula tístico e social que espelha o asfalto em pleno ambiente caótico, barulho e fumaça, enquanto no muro vemos índio e Chico Buarque, malando e criança,o piXado e o grafitado, portas, entradas, saídas. Que fique então registrado aquilo que alguém quis deixar marcado, na parede a liberdade, a expressão, voltam para o imaginário, para a lembraça, digitalizam-se,viram arquivo.


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UM DOis

O que é que ta pegando? A cultura é pulsante e as ruas seu fluxo...

7ª Feira Anarquista De SP Quando: 13 de novembro às 17 Horas Onde:Tendal da Lapa Rua Constança, n.º 72 CEP: 05033-020 - São Paulo

5º Festival do Filme Anarqusita e Punk de São Paulo Quando: em dezembro Mais infos em: facebook.com/festivaldofilmeanarquistapunksp


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UM DOIS ...e a resistĂŞncia da rua se registra.

Manual do Guerrilheiro Urbano De Carlos Marighella Link: https://goo.gl/1A2YlP

Fascismo, Filho Dileto da Igreja e do Capital Por Maria Lacerda de Moura Link: https://goo.gl/1A2YlP


Pensar

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App auxilia na redução de danos ao uso de drogas

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ntrevistamos os criadores do aplicativo gratuito, “Redução de Danos”, que já tem mais de 4 mil downloads em apenas um mês de lançamento. a ferramenta foi produzida por brasileiros e idealizada para dar um novo rumo ao delas. // por redação


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or diversas partes do planeta, o debate envolvendo as drogas tem conseguido dar passos importantes em direção às novas medidas que retiram a guerra e repressão ao uso e venda de psicotrópicos de cena e colocam o equilíbrio como base para formatos mais inovadores de relacionamento com o tema. Temos visto a maconha ser legalizada para recreação, além do famoso uso medicinal. Mesmo assim, falar só da maconha e não pensar no que fazer com as outras drogas que estão aí e seguem sendo um tabu, ainda não é um avanço. Enquanto tentamos legalizar o baseado, bebemos cerveja e nos entupimos de drogas legalizadas como os remédios para dor de cabeça e calmantes. Engordamos com o açúcar enquanto ficamos ligados com a cafeína. Portanto, há certa hipocrisia neste costume, precisamos converter nossas contradições em lógicas. Reduzir os danos durante o uso de drogas pode ser a opção que vai dar ao usuário um melhor entendimento sobre a substância que vai usar, precavendo-se de efeitos colaterais no momento em que utiliza a substância e sabendo lidar com eles enquanto absorve as sensações, prazerosas ou não, que a droga irá lhe proporcionar. Um aplicativo gratuito para celular sobre Redução de Danos acaba de ser lançado na

Pensar Google Play, nele é possível entender os efeitos de diversas drogas, positivos e negativos, as formas menos nocivas de se usar cada uma e como se comportar caso entre numa viagem ruim ou “Bad Trip”. Conversamos com a galera que produziu o App, falamos sobre a Redução de Danos (RD) e como o uso do aplicativo auxilia no uso consciente de substâncias psicoativas.

Confira a entrevista RM – Como nasceu a ideia do aplicativo e por quê? APP RD - O aplicativo surgiu com a ideia de alcançar um público de pessoas que se identificam como usuários de drogas e, ou, pessoas que trabalham com a temática das drogas, passando informações que ainda, infelizmente, são um tabu em nossa sociedade. Entendemos que algumas pessoas, ou não conseguem, ou não querem parar de usar drogas e pensando nestas pessoas, resolvemos desenvolver o primeiro aplicativo com a temática de drogas do Brasil com a perspectiva de Redução de Danos. ............................// Leia a entrevista na íntegra pelo link abaixo: http://migre.me/v9KOC


Selva e Pedra

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Ocupação e resistência pela causa indígena Confira nossa cobertura da ocupação no Museu do Índio no Rio de Janeiro, onde povos originários que protestavam pela demarcação de suas terras, foram violentamente atacados pela repressão do Estado. //por Redação com colaboração do Coletivo Carranca


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No dia 13 de julho de 2016, etnias Guajajara, Ashaninka, Tembé, Maxakali e diversos apoiadores da luta indígena e sua causa ocuparam o Museu do Índio, na Rua das Palmeiras, nº55, bairro do Botafogo, Rio de Janeiro. Local também é sede da FUNAI no município. Em sua pauta a ocupação exigiu a imediata devolução da Aldeia Maracanã, o fim do extermínio dos povos originários e da construção de hidrelétricas em suas terras, além da extinção das PECs 71 e 215, a primeira prevê a indenização a proprietários rurais que tiverem suas terras demarcadas como indígenas e já foi aprovada no Senado, faltando votação da Câmara, a segunda prevê a transferência da responsabilidade de demarcar terras indígenas do Poder Executivo ao Legislativo. Os povos indígenas, originários do Brasil, que já sofrem desde a invasão dos portugueses

Selva e Pedra e durante toda a história deste país, hoje são alvo de um grupo de políticos conhecidos como a bancada BBB (boi, bala e bíblia) no Congresso Federal. Eles representam 243 dos 594 congressistas e são favoráveis ao ruralismo e às especulações do agonegócio, esse grupo já recebeu acenos do atual “governo” interino, de Michel Temer, que dá as costas às últimas e frequentes mortes de indígenas assassinados por interesses ruralistas perpetuados por esta bancada. O antigo governo também fechou os olhos para este problema Na época da ocupação do Museu do Índio também houve insegurança por parte dos ocupantes. Em nossa cobertura, as denúncias foram desde o corte de luz e água, impedimento da entrada e saída dos ocupas e apoiadores que prestam assistência, até o uso de trabalhadores do museu que aliados aos interesses do Estado que tentaram pressionar o fim da ocupação através de ameaças e terror psicológico. De acordo com o porta-voz da ocupação, Ash Ashaninka, “uma fogueira que representa toda a tradição dos povos originários do Brasil feita pelos participantes da ocupação foi destruída pelos seguranças do museu e uma mãe indígena agredida verbalmente pelos mesmos”. Os ocupas também denunciavam ameaças da Polícia Federal.


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No dia 17 de julho,em um domingo, a ocupação sofre uma grave agressão praticada por seguranças e indígenas da etnia Fulni-o que trabalham para a FUNAI. O que se viu foi um verdadeiro massacre contra os ocupas e pode ser conferido no link abaixo da foto nesta página, em um vídeo divulgado pela Mídia Independente Coletiva (midiacoletiva.org). Na terça-feira daquela mesma semana fomos até

a ocupação e fotografamos os ferimentos sofridos pelos integrantes da ocupação. Naquele dia uma reintegração de posse já estava marcada , mas o sentimento de resistência era completamente ativo, mesmo diante de todo aquele caos causado pela violência criminosa que havia acontecido com todos. O clima de tensão era visível, assim como o cansaço de todos. A Polícia Militar já cercava o museu , armas indígenas que faziam parte do acervo do local chegaram a ser usadas pelos agressores e estavam todas quebradas no chão como prova das agressões. O resultado das agressões pode ser visto nas próximas páginas.

Link do vídeo: goo.gl/QZzxkc


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Selva e Pedra


Selva e Pedra

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Selva e Pedra


Selva e Pedra

NA noite daquela terça (19/7), ocorreu a reintegração de posse do museu, que foi violentamente desocupado pela Polícia Militar do Rio de Janeiro. Segue o relato produzido pelo COletivo Carranca (coletivocarranca.cc) --------------------!!!

24 //Texto e imagens: Leonardo Soares Coelho. O Museu do Índio, no Rio de Janeiro, foi desocupado na noite dessa terça-feira pela PMERJ, que retirou violentamente os ocupantes e ativistas que acampavam dentro e em frente à instituição. O advogado Aarão da Providência foi detido por supostamente desacatar um policial. A ocupação se iniciou semana passada como um ato político e desde então vinha sendo palco de confrontos entre os seguranças, a Polícia e entre os próprios indígenas, alguns dos quais inclusive agrediram seus irmãos. O chefe José


25 Guajajara comentou que um dos principais interesses é que indígenas sentem na cadeira de presidência da Funai e também do Próprio Museu do Índio. “Depois de 516 anos ainda dizem que somos incompetentes de administrar nosso próprio patrimônio. Temos gente preparada para isso”.Dentre os motivos citados para a ocupação estão a extinção da PEC 215, que transfere do Executivo para o Legis-

Selva e Pedra lativo a palavra final sobre a demarcação de terras indígenas. O texto é encarado pelos diversos povos tradicionais brasileiros e ativistas como uma ameaça aos direitos indígenas. Além disso, os ocupantes pedem o fim dos casos de violência contra eles. O pajé Ash Ashaninka citou também que “reinvidicamos também a reintegração do terreno da Aldeia Maracanã”


CUltura e resistência

HENFIL: A SAGA DE HUMOR E TRAGÉDIA DE UM GÊNIO Combativo, irônico, sagaz e de uma inteligência incomum, cartunista faz falta na atualidade brasileira //por Ronaldo S. Lages

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27 Nascido em Ribeirão das Neves no Estado de Minas Gerais no dia 05 de fevereiro de 1944, Henrique de Souza Filho, mais conhecido como Henfil, foi um dos mais consagrados artistas gráficos do Brasil, se tornou o mais influente cartunista de sua safra, algo impensável nos dias de hoje com a demente rapidez da internet. Henfil era o segundo dos três filhos homens da família, ainda havia o sociólogo Herbert José de Souza (Betinho) e o músico de MPB Chico Mário. Bem cedo, ainda na fase adolescente, começou a publicar cartuns na antiga revista Alterosa. Dessa publicação sairia os primeiros personagens que encantariam o Brasil e que de longe qualquer pessoa poderia reconhecer tamanha eram as características de seu traço. O estilo arrojado de Henfil despertava polêmica em meio aos cartunistas, assim descreve o experiente João Spacca, que atuou por muitos anos na Folha de S. Paulo e sofreu influencia direta em seu estilo. “Não são poucos os colegas desenhistas que acreditam que Henfil não desenhava bem, e que o importante eram as ideias. Discordo frontalmente. Vejo em seu estilo caligráfico muita força e capacidade expressiva, especialmente para retratar as emoções de seus ‘atores’ com muitas nuances. Uma coisa é o seu desenho rabiscado e nervoso, outra é um desenho amador de bonecos de pauzinho. Incorporei algo do Henfil quando faço num cartum personagens correndo ou muito espantados”. Não demorou muito para vir para o Rio de janeiro aonde foi estrela de O Pasquim, saudoso jornal humorístico que mesclava o jornalis-

CUltura e resistência

mo com talentosos cartunistas, dentre eles estavam: Millôr Fernandes (fundador), Sérgio Cabral e Jaguar. A maioria foi presa no período militar quando ‘milicos’ adentraram a redação e levaram Ziraldo, Fortuna, Paulo Francis e outros mais. Contudo, Henfil seria um dos poucos que teria a sorte de não ir junto naquele fatídico dia, afinal, deu a sorte de não estar no local. Além de O Pasquim, Henfil passaria pelo Jornal do Brasil-JB com tiras diárias do Zéferino e Graúna, personagens que ironizavam a política nacional e denunciavam a desigualdade social e a seca no Nordeste. Além desses, na recém-criada revista Placar, usaria toda sua criatividade em prol de uma de suas maiores paixões: o futebol. No extinto Jornal dos Esportes do Rio de Janeiro, o alvinegro Henfil saudaria cada torcida carioca com suas mascotes, o Urubu representando Flamengo, o tradicional português com a camisa do Vasco, um moleque na figura do ‘Manequinho’ do Botafogo, um almofadinha ou ‘pó de arroz’ para o Fluminense, e por fim, um gato com o ‘A’ do América no peito. Um dos contemporâneos de Henfil, o cartunista Ota Assunção, lembra como o colega era influente, saía uma tira no jornal e imediatamente virava notícia, caía nas graças dos leitores. “O poder de fogo dele era enorme. Teve uma vez que, ainda na época das charges de futebol, ele conclamou os leitores a gritar ‘maricon’ quando um outro time latino entrasse em campo, não lembro qual país era... o Maracanã veio abaixo”, relembra ele. O poder de Henfil para unir e chamar o


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CUltura e resistência

povo para qualquer causa que fosse era um fenômeno, até mesmo termos foram cunhados pelo cartunista que popularizou o lendário “Top, top, top”, sinal feito com as mãos por um dos Fradinhos simbolizando que alguém havia se dado mal. O sinal virou mania em todos os lugares: bares, casas, em rodas de amigos, virou até refrão de música da Rita Lee. Uma das polêmicas que Henfil provocou foi com a tira do personagem “Cabôco Mamadô e seu fantástico cemitério dos mortos-vivos”, este enterrava numa vala alguma figura que a esquerda da época condecorasse como ‘entreguista’ ou ‘golpista’. Muitos foram parar na tal vala, entre eles: Paulo Maluf (com razão) e Pelé, entretanto, o tempo fecharia mesmo quando o artista decidira enterrar a cantora Elis Regina,

essa acusada injustamente de colaborar com o regime militar. Até mesmo os gênios se enganam. Além dos dotes artísticos, Henfil era um ‘showman’, transitou por diversas mídias, dentre elas: TV e cinema. Um dos marcos da televisão brasileira foi o Programa “TV Mulher”, conduzido por Marília Gabriela e o estilista Clodovil Hernandes. Nessa empreitada, Henfil apresentava o quadro “TV Homem”, ali daria seus primeiros passos como humorista televisivo. HENFIL ESCRITOR Poucos sabem, mas, Henfil era também um escritor e jornalista de mãos cheias, escreveu livros que se tornaram ícones de um período da História do Brasil, um deles foi “Diário


29 de um Cucaracha”, um apanhado de cartas que escrevia para amigos e familiares dizendo como estavam seus dias nos Estados Unidos. Henfil havia viajado para a ‘terra do Tio Sam’ em busca do tratamento da hemofilia, doença que acometia ele e seus irmãos Betinho e Chico Mário. Contou em cartas o que via e como era tratado naquele país, na ocasião, foi um dos primeiros brasileiros a publicar tiras nos jornais de lá, contudo, seu estilo demasiadamente escatológico não agradou os modos e costumes do norte-americano médio. Vale ressaltar que nessa época Henfil poderia ter ficado rico com a venda de direitos autorais de seus personagens aos distribuidores de tiras nos Estados Unidos inteiro, entretanto, como o próprio descreve em seu livro, não gostaria de ser um escravo de sua criação, tornando-se assim, uma espécie de ‘Charles Schulz’, artista criador de Snoppy. Henfil era acima de tudo um libertário. Além deste, Henfil lançaria o que pode ser considerada sua maior obra no campo da literatura: “Henfil na China (antes da Coca-Cola)”, livro que relatou sua viagem à China em plena década de 1970, momento difícil para o Brasil em plena ditadura militar. Com a chegada da Anistia, no fim da mesma década, o cartunista seria convidado por Mino Carta para ser colunista de uma nova publicação que surgia naquela fase, a revista “Istoé Senhor”, mais tarde, essa passaria a se chamar apenas Istoé. Nessa coluna, (com o perdão do trocadilho) Henfil tinha carta branca de Mino Carta para escrever o que quisesse, e daí surgiu

CUltura e resistência

“As cartas da mãe”, análises do mundo da política nacional em formato de missivas endereçadas à própria mãe. Um apanhado desses textos semanais originaria mais um livro com o mesmo nome da coluna, “Cartas da mãe”. Impagável.

“DIRETAS JÁ!” Com o advento da abertura política no início da década de 1980, Henfil seria um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), essa passagem foi um marco em sua vida como do país em geral, acreditava-se largamente nos ventos da mudança. Tamanho era seu fator influenciador, que Henfil eternizou o slogan: “Diretas Já!”, um verdadeiro chamamento ao direito do sufrágio após 21 longos anos de jejum imposto pelos ditadores. A campanha se espalhou, virou mania, diga-se de passagem, muito antes da internet se popularizar. A ditadura havia acabado, mas, as diretas de fato só chegariam em 1989 com um resultado que desapontaria Henfil amar-


CUltura e resistência

gamente, caso estivesse vivo. Com a derrocada dos ideais do Partido dos Trabalhadores, escândalos de corrupção entre outras tramoias, especula-se o que Henrique Filho diria hoje. Como não existe “se” na História, a única saída é imaginar suas atitudes diante da atualidade. Ota é enfático ao pensar na reação do amigo. “Henfil estaria puto e já teria saído do partido há muito tempo. Lembro que na posse do Lula ele mencionou o Henfil em seu discurso e lamentava que ele não estivesse mais vivo e deu a entender

30 que ele faria parte do governo... acho que teria saído no primeiro ano como o Frei Beto”, enfatizou Ota. Henfil não permaneceu para presenciar tantos desgostos no campo da política, talvez, estivesse rindo de tudo isso. Quem sabe? Em 4 de janeiro de 1988, debilitado pelo vírus HIV, contraído por meio de uma transfusão de sangue por causa da hemofilia, morreu Henfil, deixando um legado histórico e artístico para os anais da imprensa e da cultura brasileira.


Revista FOTOGUERRILHA Já disponível em: https://goo.gl/LQsxPI


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Movimentos se unem em mais um ato pela liberdade de Rafael Braga Cobertura de um dos atos pela liberdade de Rafael Braga, preso injustamente por portar uma garrafa de Pinho Sol durante o levante de junho de 2013. //por Redação

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urante as lutas populares de junho de 2013, Rafael Braga, que trabalhava recolhendo reciclagem nas ruas do Rio de Janeiro, é abordado por policiais militares em uma rua próxima de onde ocorria um protesto e logo em seguida preso sob a acusação de que portava material explosivo. Na verdade, o que Rafael carregava consigo naquele dia era nada mais do que uma garrafa de Pinho Sol, produto desinfetante usado para limpeza. Um inferno arquitetado pelo Estado e seu braço armado começava a ser criado na vida dele a partir daquele momento. Acusado injustamente e sem provas que pudessem incriminá-lo, pois até mesmo uma perícia foi feita e não pode provar absolutamente nada contra ele, Rafael foi condenado a cinco anos de prisão. Em dezembro de 2015, ele re-

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cebeu a condicional podendo responder em liberdade usando uma tornozeleira, mas já em janeiro deste ano, Braga é novamente abordado por policiais militares da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) na comunidade da Cascatinha onde mora na Vila Cruzeiro e acusado de ter participação com o tráfico. Além de serem muito violentos na abordagem, os policiais ameaçaram estuprar ele dentro da viatura caso ele não assumisse algumas drogas que os PMs queriam forjar na ação. Mais uma vez, Rafael se torna vítima do Estado através de uma típica prática da PM, que forja provas em comunidades do Rio, no caso dele, um morteiro e uma certa quantidade de entorpecentes foram usados nesta nova acusação. Desde então Rafael Braga está preso, agora acusado por tráfico,


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por conta de uma guerra às drogas praticada pelo Estado que somente prende e mata o morador de áreas periféricas, mas nunca o usuário rico dos asfalto e o da gravata no Planalto Central. “Para resumir, hoje Rafael está preso por ser negro, por ser pobre e morar em uma área de favela, uma área militarizada ocupada pela UPP, preso em junho por isso e em janeiro pelo mesmo motivo, pela guerra às drogas que na verdade é uma camuflagem de uma guerra aos negros e aos pobres, pois um playboy fumando baseado dificilmente será acusado e preso por tráfico.”, é o que diz Fábio, um dos organizadores do ato que rolou no dia 20 de julho, em frente ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, pedindo pela liberdade imediata de Rafael Braga. Estes atos já acontecem desde a primeira prisão de Rafael, costumando contar com a divulgação da campanha

34 através de panfletagem e conversas com a população que ainda não conhece o caso. No ato, a presença maciça e desproporcional de policiais militares foi um destaque infeliz a ser registrado, afinal, não havia nenhuma ameaça contra segurança de qualquer pessoa, somente faixas e rodas de conversa. “Isso é mais para evitar que falemos do caso do Rafael”, argumenta Fábio. Além do grupo da campanha pela liberdade de Rafael Braga, outros movimentos como o Favela Não se Cala, Mães de Maio e alguns representantes do movimento americano Black Live Matter fortaleceram o ato. Uma comissão conseguiu se reunir com representantes do Ministério Público e “foi prometido” que as leituras do GPS da tornozeleira que Rafael usava seriam consideradas no processo, assim como possíveis câmeras que tenham gravado a abordagem policial, mas até agora nada aconteceu.


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Sistema prisional não é pensado para mulheres Os atendimentos às demandas femininas são precários e realizados na contramão dos direitos humanos dentro dos presídios brasileiros. // por Caio Nascimento

Imagem/Reprodução: BuleVoador


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s primeiros casos de prisões de mulheres na história se deram por valores morais contrários à prostituição e à histeria, e condizentes com os estereótipos de gênero, mas não por crimes. É o que conta a advogada criminalista e ativista dos direitos humanos em presídios femininos Dra. Michael Mary Nolan. “Os primeiros presídios femininos surgiram com a intenção de disciplinarem mulheres para que elas se tornassem pessoas do lar e cuidassem da família. ”, afirma a especialista. Em Ilhéus, na Bahia, uma cela feminina dá acesso ao mesmo pátio usado por presos de três celas masculinas. O presídio baiano tem suas carceragens iluminadas por velas, devido à falta de luz elétrica, e abrigava uma grávida de cinco meses. Em 2007, no Pará, uma adolescente de 15 anos foi encarcerada junto a homens e foi estuprada em troco de comida. Em Anápolis, Goiás, uma jovem presa em flagrante por porte ilegal de armas e tráfico de drogas, ficou algemada a uma cadeira da delegacia por 40 horas e podia ir apenas ao banheiro. Em uma pequena cidade amazonense, uma moça ficou sentada de frente a cela masculina, pois não havia outro lugar para deixá-la. Esses fatos foram divulgados pela Pastoral Carcerária e dão visibilidade às violações de direitos humanos contra mulheres encarceradas, cuja maioria é de jovens negras, solteiras, de baixa escolaridade e envolvidas com o tráfico de drogas sem antecedentes criminais. Para a voluntária do Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITTC) Viviane Balbuglio, essas ocorrências prevale-

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cem em uma realidade hostil. “Há casos em que uma ginecologista é registrada para atender o estado de São Paulo inteiro. Assim, pode-se perceber que o acesso à saúde acaba não existindo”. Além disso, Viviane aponta a precariedade no acompanhamento pré-natal e na higiene pessoal. “Têm casos em que as grávidas fazem um só ultrassom no tempo de nove meses de gravidez. Sem contar que há presídios que oferecem às detentas um só papel higiênico por mês”, dispara Viviane. Os dados e a Constituição Federal não mentem Os últimos dados do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen) demonstram que essas debilidades se dão em grande escala: há por volta de 37 mil mulheres presas no Brasil, sendo 80% mães. Diante do caso, 76% das penitenciárias femininas e 89% das mistas não possuem creches. Além disso, metade dos presídios femininos possuem carceragens precárias para gestantes, e em cadeias mistas, esse sucateamento alcança os 90%. Nolan acredita que o tratamento prisional para a encarcerada é pior que o dispensado aos homens. De acordo com ela, o tratamento dado à mulher não condiz com peculiaridades e necessidades do sexo. Citando a Constituição, a advogada aponta que, em decorrência disso, há ainda a violação do inciso XLVIII, do artigo 5º, segundo o qual “... a pena será cumprida em estabelecimentos distintos, de acordo com a natureza do delito, a idade e o sexo do apenado...”.


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A fragilidade mental nos presídios Outro fato importante é a vulnerabilidade psicológica das mulheres nas unidades de internação. Segundo Michael Mary Nolan, há presídios que medicam as mulheres com remédios de tarja preta devido ao estresse – como nos períodos de “TPM”. Fora isso, as medicações são aplicadas nos presídios por conta da necessidade de algumas serem encaminhadas aos hospitais psiquiátricos e, pela falta imediata de vagas, terem de continuar reclusas nas penitenciárias. Assim, todas as mulheres com algum distúrbio mental são submetidas a medicamentos sem qualquer acompanhamento de um psicólogo. Para a advogada, isso é um método de controle social. “O uso de tarjas pretas facilita o contro-

le dentro dos presídios, já que deixam as presidiárias zonzas”, destaca Nolan. Michael ressalta também que esse descaso do Poder Público tem respaldo na maneira similar como homens e mulheres são tratados sem se considerar as necessidades do gênero feminino – como o uso de absorventes e os exames periódicos de toque e Papanicolau. “As mulheres não têm suas necessidades de gênero atendidas e, além disso, devem sempre andar olhando para baixo, sem poder olhar no olho da agente. Isso, com o tempo, gera um sentimento de submissão e destrói o psicológico das detentas”, ressalta a especialista. “A finalidade do sistema penal é destruir a pessoa. Não há respeito à dignidade humana dentro dos presídios”, enfatiza ela.

Ato das mulheres do MTST em São Paulo. Foto: Kauê Pallone/Megafonia


Editora.Megafonia.info Confira as ediçþes anteriores


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QUEM É LUCY PARSONS? A MITOLOGIZAÇÃO E A RE-APROPRIAÇÃO DE UMA HEROÍNA RADICAL. Compartilhamos aqui o primeiro trabalho de tradução do Coletivo Rusga Libertária, que disponibilizou essa obra da autora Cassey Willians sobre essa grande heroína anarquista // Texto original por Casey Willians // Tradução por Rusga Libertária


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omo uma anarquista radical, Lucy Parsons dedicou mais de sessenta anos de sua vida a lutar pela classe trabalhadora norte-americana e pobre.1 Uma oradora habilidosa e escritora apaixonada, Parsons desempenhou um papel importante na história do radicalismo norte-americano, especialmente no movimento operário da década de 1880, e permaneceu uma força ativa até sua morte em 1942. A única pergunta da qual ela nunca se desviou foi “como levantar a humanidade da pobreza e desespero?”. Com essa questão impulsionando o trabalho de sua vida, Parsons foi ativa em uma infinidade de organizações radicais, incluindo o Socialist Labor Party  (Partido Socialista Trabalhista), a  International Working People’s Association (Associação Internacional das Pessoas Trabalhadoras) e a  Industrial Workers of the World(Trabalhadores Industriais do Mundo). Paralelamente com seu longo envolvimento no movimento trabalhista norte-americano, estava sua solida visão de uma sociedade anarquista, filosofia que era a base de sua crítica às instituições econômicas e políticas opressivas dos Estados Unidos da América.     Sua oposição ao capitalismo e ao autoritarismo estatal foi solidificada em 1887, quando seu marido, Albert Parsons, foi

estante executado injustamente.3 Após a bomba e as execuções de 1886, na manifestação de Haymarket, Parsons dedicou os próximos cinquenta anos de sua vida aos desempregados e à classe trabalhadora norte-americana. De fato, o poder do caso Haymarket na formação da vida adulta de Parsons não pode ser subestimado. Os acontecimentos de 1886 e 1887 fixam uma animosidade inflexível entre Parsons e o Departamento de Polícia de Chicago. Durante a vida de Parsons, a polícia a perseguiu, suprimindo sistematicamente seu direito à liberdade de expressão, prendendo-a várias vezes sem justificação.     Quase seis décadas após sua morte, a polícia de Chicago deu nova vida a este legado de animosidade mútua, lutando em uma proposta para nomear um parque da cidade de Lucy Parsons. Em março de 2004, quando o Chicago Park District  (gerenciador de parques municipais) propôs nomear o lote 4712 da Avenida Belmont no lado noroeste da cidade “Parque Lucy Elis Gonzales Parsons”, Mark Donahue, presidente local da Ordem Fraternal da Polícia, atacou a proposta – descartando Parsons como uma anarquista “cujas raízes históricas viriam” apenas a partir da “defesa de seu marido.” Da perspectiva de Donahue, teria sido uma farsa nomear um dos parques de Chicago com o nome


Estante de uma mulher que “promoveu a derrubada do governo e o uso de dinamite.” Infelizmente, as autoridades da cidade não contrariaram as acusações de Donahue com os fatos históricos sobre a própria vida e as realizações de Parsons. Em vez disso, os funcionários do parque ressaltaram a importância dos esforços de Parsons em nome dos trabalhadores, das mulheres e dos afro-americanos. O prefeito de Chicago, Richard M. Daley, explicou, “Nós estamos homenageando Lucy Parsons”, não “seu marido”, porque “ela era muito bem vista entre os reformadores sociais por seus esforços para promover os direitos civis” e observou que teria sido injusto e sexista “culpar a mulher por causa das ações de seu marido.”    Claramente, tanto o prefeito Daley quanto o oficial Donahue não compreendem a história de sua cidade. No entanto, Donahue, pelo menos, estava disposto a reconhecer que Parsons era uma anarquista, em vez de rotulá-la como uma reformista de direitos civis. Como uma anarquista, Parsons rejeitava o conceito de direitos civis que pressupunham a cooperação e aceitação do estado capitalista para conceder privilégios que ela acreditava serem os direitos naturais. De fato, uma rápida revisão da história do caso Haymarket demonstra que nem as alegações da polícia nem da cidade eram com-

42 pletamente corretas. Embora Parsons fosse inocente de qualquer envolvimento no atentado de 1886, ela compartilhou uma visão anarquista da harmonia social que defendia a destruição do capitalismo por meio de atos revolucionários, e rejeitou o reformismo e os direitos civis como curativos. Assim, há uma grande discrepância entre as reais crenças e ações de Parsons e as mitologizadas ou comemoradas que são apresentadas pela Chicago Parks Distric. Como e por que esse abismo surgiu garante uma investigação mais aprofundada, com implicações não só sobre Lucy Parsons, mas sobre a própria memória histórica.             As repostas a estas perguntas estão no cerne da motivação subjacente à proposta dos funcionários dos parques. A sugestão surgiu a partir de um esforço de toda a cidade para homenagear mais mulheres em um sistema em que apenas 27 dos 555 parques receberam nomes de mulheres.6 Assim, o parque proposto tinha menos a ver com o reconhecimento de Parsons do que com o desejo dos funcionários de criar um sistema de parques mais “politicamente correto”. No entanto, essa idealização encontrada na incorporação de Lucy Parsons à história pública também se reflete no trabalho acadêmico sobre Parsons. Muitas vezes, os his-


43 toriadores que mencionam Parsons têm moldado a vida dela para atender suas inclinações políticas. Mais notavelmente, apenas a biógrafa de Parsons, Carolyn Ashbaugh, afirmou que Parsons não era uma anarquista e que se juntou ao Partido Comunista.7Fazendo isso, Ashbaugh havia reformulado Parsons de uma heroína anarquista em uma Marxista. A discrepância entre as próprias palavras de Parsons e a memória pública de Parsons pode ser atribuída, em grande parte, à reformulação histórica de Ashbaugh. A manipulação no trabalho de Ashbaugh já foi exposta com êxito. Ainda assim, tem havido pouco ou nenhuma análise sobre as ideias perdidas por essa manipulação do registro histórico. Um Histórico Contestado Com poucos registros conservados, juntar o início da vida de Lucy Parsons tem sido difícil para os historiadores. Na verdade, é pouco provável que os fatos do início de sua vida sejam completamente conhecidos. Ashbaugh afirma que Parsons nasceu em março de 1853, perto de Waco no noroeste do Texas. De acordo com Albert Parsons, os dois se conheceram em 1869, enquanto ele estava vivendo uma vida perigosa como um republicano radical na pós-reconstrução do Texas. Ao viajar através do

estante condado de Johnson como correspondente para o Houston Daily Telegraph, Albert conheceu Lucy no rancho de seu tio. Animadamente, Albert descreve-a como uma “encantadora jovem donzela hispano-indígena.”9 Muitas perguntas sobre o início da vida de Parsons ainda estão sem respostas. Por exemplo, de acordo com algumas fontes, os dois se casaram em 1871, enquanto outros datam o casamento em 1872. O casamento nunca foi confirmado por uma certidão de casamento ou outro documento oficial. A biografia de Ashbaugh desafia a descrição de Albert Parsons sobre Lucy, afirmando que ela era, na verdade, uma antiga escrava. De acordo com Ashbaugh, Parsons era uma escrava dos irmãos Gathings, que possuíam 62 escravos perto de Waco em 1860. Ashbaugh afirmou que Parsons foi provavelmente nomeada em homenagem à filha Philip Gathings, nascida em 1849; e afirma que Henry e Marie del Gather, que Parsons chamou de sua mãe e seu tio, eram de ficção. Além disso, Ashbaugh sugere que Albert não conheceu Lucy no rancho de seu tio. Em vez disso, ela concluiu que eles se conheceram em Waco, onde as defesas de Albert dos direitos políticos negros fizeram dele uma figura popular entre a população negra. Ashbaugh especula que, enquanto vivia em Waco como uma antiga escrava,


Estante Parsons testemunhou atrocidades da Ku Klux Klan, que cresceu no poder como Reconstrução e desmoronou. Entre os inúmeros acontecimentos violentos que ela pode ter presenciado, estão a castração de um menino Africano-Americano, em 1867, e o assassinato cometido pela Klan de 13 afro-americanos perto de Waco, em 1868. Sem dúvida, a brutalidade racial que tomou conta do noroeste do Texas na década de 1860 influenciou profundamente a sensibilidade de Parsons e a aversão pela violência contra os oprimidos. No entanto, mesmo que Parsons não fosse, como Ashbaugh especula, uma antiga escrava, ela ainda teria testemunhado a violência racial. A degradação e opressão do povo negro levou Albert Parsons, que era um ex-soldado confederado, a iniciar seu próprio jornal/boletim, em 1868, The Spectator (O Espectador), para desafiar a Ku Klux Klan e políticas de reconstrução de apoio.11 Como testemunha e talvez vítima da brutal violência racial do sul, ainda é importante notar que os registros de escravos dos irmãos Gathings não incluem nomes e, portanto, não é possível identificar Parsons como uma antiga escrava. Ao longo de sua vida, Lucy Parsons insistiu que ela era de ascendência mexicana e americana nativa. De acordo com

44 Parsons, sua mãe era mexicana e seu pai, John Waller, foi um índio Creek. A afirmação faz da herança mexicana e indígena de Parsons e sua negação apaixonada da ascendência Africana é facilmente documentada. Ao cobrir o julgamento de Haymarket, um repórter do Chicago Tribune observou que Parsons “opõe-se ao termo ‘mestiço’ como significado de que ela tem sangue negro nas veias. Ela diz que sua mãe era uma mexicana e seu pai um índio”.Em setembro de 1886, um antigo escravo que viveu em Waco acusou Parsons de abandonar a ele e a seu filho para viver em Chicago. Quando a acusação foi à primeira página do jornal em Chicago, Parsons arrastou um repórter do Herald até a cela do marido, onde Albert explicou que o homem em Waco tinha confundido Lucy com outra mulher, e que “Sra. Parsons não tem sangue Africano em suas veias. ”A identificação com a ascendência indígena e mexicana de Lucy Parsons não era apenas para negar a herança escrava. Ao falar em Londres em 1888, Parsons explicou: Eu sou aquela cujos ancestrais são indígenas neste solo da América. Quando Colombo avistou pela primeira vez o continente ocidental, antepassados do meu pai estavam lá… Quando os anfitriões da conquista das Cortes se moviam sobre


45 o México, antepassados da minha mãe estavam lá para repelir o invasor; de modo que eu represento o genuíno Americano. Parece que Parsons tinha orgulho de sua identidade étnica. No entanto, a identidade negra foi empurrada em cima de Parsons ao longo de sua vida. Parsons foi repetidamente referida nos jornais como uma Negress, Negro, escuro, colorido ou mulato. Embora muitos desses termos tenham sido utilizados para identificar as pessoas de raça mista, a implicação subjacente era, como um repórter do Tribune colocou, “que pelo menos um de seus pais era um negro.”. Assim, durante sua vida, havia uma discrepância entre a identidade racial que ela alegou e a identidade racial colocada sobre ela pela sociedade. A tradição ao ver Lucy Parsons como negra, apesar de suas próprias palavras, continua até hoje. Ashbaugh sustentou que a auto identificação de Parsons como mexicana indígena foi uma tentativa de encobrir sua herança Africana. Há uma série de razões pelas quais Parsons poderia ter feito isso. Em primeiro lugar, o perigo físico simples de estar em um casamento inter-racial durante a década de 1880 poderia ter levado Parsons a negar uma ascendência Africana. Juntamente com sua prote-

estante ção contra alguns dos perigos de ser negro, tal rejeição pode ter criado mais oportunidades para Parsons, especialmente em um movimento operário predominantemente branco. Contudo, não obstante a lógica por trás da reivindicação de Ashbaugh, permanece a especulação, devido, em grande parte, à falta de provas – contando o apoio principalmente de sua aparência física em fotos. Simplesmente, não existem provas suficientes para declarar definitivamente que Parsons “era negra”, como Ashbaugh faz. No entanto, muitos estudiosos, como Roxanne Dunbar-Ortiz, Marion Tinling


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Estante e Robin D. G. Kelly, têm rotulado Parsons como uma mulher Africano-Americana. Muitas vezes, essa caracterização é uma tentativa de situar Parsons em uma narrativa maior, de negros heróis americanos. A existência de tantas pessoas que veem Parsons como Africano-Americana, apesar de suas próprias palavras, incita-nos a perguntar não por que Lucy Parsons precisava não ser negra então, mas por que precisamos que ela seja negra hoje? No entanto, seja negro, índio ou mexicano, Lucy Parsons ainda era uma mulher de cor, nascida e criada em um estado extremamente violento e racialmente estratificado, Texas. Encontrando em Chicago

A

o

Anarquismo

pós sua chegada em Chicago em 1873, Lucy e Albert Parsons entraram em um mundo turbulento, caracterizado menos por tensão racial do que pelo capitalismo industrial e problemas trabalhistas. Depois da Guerra Civil, as principais indústrias, incluindo as empresas madeireiras e de gado, criaram raízes em Chicago, trazendo praticamente todas as linhas de transporte para a cidade e fazendo de Chicago o mais importante centro econômico do centro-oeste. A nova riqueza de Chicago a tornou um desti-

no atraente para os americanos em todo o país e imigrantes do outro lado do mar. Durante a década de 1860, mais de 74,000 imigrantes europeus entraram na cidade, junto com milhares de americanos. O aumento da população rapidamente criou moradias superlotadas e pobres, que foram ofuscadas pelas mansões enormes e o opulento estilo de vida dos capitalistas industriais da cidade.            O contraste entre a pobreza e a riqueza criou tensões de classe, e, em 1867, os trabalhadores da cidade iniciaram o primeiro movimento para a jornada de trabalho de oito horas. Fabricantes da cidade se recusaram a cumprir com as exigências do trabalho e, após cinco dias de greve, as autoridades brutalmente reprimiram a primeira greve de oito horas, marcando o início de uma longa história de repressão violenta do trabalho. Quando Chicago entrou na década de 1870, as condições de vida e trabalho da cidade foram exacerbadas ainda mais. Em outubro de 1871, um grande incêndio destruiu Chicago. No rastro das chamas, 17.450 edifícios estavam em cinzas e 64 mil pessoas ficaram desabrigadas. A devastação do fogo foi seguida, em 1873, por uma grande depressão, que deixou milhares de pessoas em Chicago não só sem casas, mas também sem emprego. Os


47 eventos associados com a greve de 8 horas, em 1867, combinada com a devastação do grande incêndio e a depressão criada em Chicago, criaram uma atmosfera de tensão e medo, tornando a cidade em um solo fértil para um movimento operário radical em expansão. Quando Lucy e Albert Parsons mudaram para o novo apartamento perto da rua Larrabee e avenida North, rapidamente tornaram-se imersos na cultura turbulenta do conflito de classes em Chicago. Depois de conseguir trabalho como tipógrafo do Chicago Times e aderir à União de Tipógrafos, Albert Parsons tornou-se rapidamente uma figura proeminente no movimento operário de Chicago. Em 1876, ingressou no  Social Democratic Party  (Partido Social Democrata), onde ele dedicou um tempo considerável para as causas da classe trabalhadora e tornou-se um dos mais famosos oradores da língua Inglesa na cidade. Durante esse tempo, ambos, Lucy e Albert, estavam concentrados nas obras de Karl Marx, e por volta de 1877 eles estavam realizando reuniões em sua casa para o Working-Men’s Party (Partido dos Trabalhadores). Nesse momento, Lucy e Albert Parsons não eram anarquistas, mas defendiam uma “combinação de ação econômica e política para realizar a emancipação do trabalho.Eles viam os sindica-

estante tos como ferramentas poderosas contra o calcanhar de ferro do capitalismo, mas ainda acreditavam “que, contanto que os trabalhadores vivessem em uma república, eles tinham esperança de ganhar o poder através do processo democrático. Várias experiências entre 1877 e 1880 direcionam Lucy e Albert Parsons a abraçar o anarquismo. Em 17 de julho de 1877, uma greve massiva começou em West Virginia, quando os engenheiros da estrada de ferro de Baltimore & Ohio reagiram contra o salário cortado, parando os trens e desencadeando uma enorme paralisação do trabalho que se espalhou no Ocidente, chegando a Chicago; onde, em 23 de julho, “uma onda de protestos tinha se espalhado para fora dos pátios ferroviários e fábricas, serrarias e olarias”, acumulando em uma grande marcha pela Market Street, em Chicago. Em reação, os principais empresários de Chicago abriram seus cofres para os líderes da cidade, que usaram o dinheiro para criar um enorme exército de 5.000 cidadãos comissionados. Então, em 27 de julho, uma combinação de soldados, policiais e civis armados, violentamente esmagaram os grevistas, deixando 30 homens mortos e um ar amargo de desconfiança e ódio entre as classes de Chicago. Essa rápida militarização de cidadãos proeminentes da cidade


Estante demonstrou a poderosa influência que a classe capitalista teve sobre o governo. Lucy Parsons escreveria anos depois que “a grande greve da estrada de ferro de 1877″ ensinou-lhe que o “poder concentrado” do governo seria sempre “exercido no interesse de poucos e em detrimento de muitos.”. Além disso, a sua crescente desconfiança com o poder governamental tornou-se uma questão pessoal durante a greve, quando Albert Parsons ficou cara a cara com o poder das lideranças industriais de Chicago. Um dia depois de fazer um discurso empolgante antes dos trabalhadores entrarem em greve, Albert Parsons foi demitido do Times. Em seguida, o Superintendente da Polícia Michael Hickey sequestrou rapidamente Albert e disse-lhe para deixar a cidade. Mais tarde, quando Albert Parsons tentou reunir-se com membros do sindicato no edifício Times, ele foi forçado a sair por dois homens armados que ameaçaram atirar na cabeça dele. Durante o dia da grande greve ferroviária, Albert Parsons foi demitido, com uma arma apontada para ele, dizendo que deixasse a cidade. Assim, a grande greve ferroviária tocou os Parsons de uma forma extremamente pessoal e serviu como catalisador para uma ideologia muito mais radical. Nos anos seguintes da grande greve, o Working Men’s

48 Party se fundiu com oSocialist Labor Party  (Partido Socialista Trabalhista) e tentou várias vezes eleger os socialistas para alas da cidade. Mas, em uma eleição após a outra, os votos foram erradamente calculados ou as urnas foram descaradamente recheadas, levando muitos a perder toda a confiança na reforma eleitoral. Em uma carta a um jornal trabalhista, Lucy Parsons explicou que “as chamadas leis” não “valem o papel em que estão escritas”, porque os capitalistas tinham o poder de fazer o que eles queriam mesmo que “os produtores de toda a riqueza tivesse desejado o contrário. No início dos anos 1880, como as ações eleitorais repetidamente falharam e as greves e as manifestações foram reprimidas pela polícia, milícia e bandidos contratados, muitos socialistas de todo o mundo começaram a se concentrar na ação direta (muitas vezes chamada de “propaganda pela ação”) como um meio para inspirar as massas e trazer a revolução. Em 1882, Johann Most, conhecido agitador revolucionário e ex-parlamentar, falou em Chicago argumentando que os trabalhadores teriam de se armar e travar uma guerra contra seus governantes capitalistas. O movimento de Chicago, em particular, combinou união e trabalho de agitação com a defesa da autodefesa ar-


49 mada. Acreditando profundamente na necessidade de organização, Albert e outros militantes de Chicago se estabeleceram em Pittsburgh, em outubro de 1883, onde eles, Most e outros iriam fundar a International Working People’s Association  (Associação Internacional das Pessoas Trabalhadoras). A declaração de princípios da IWPA, ou o Manifesto Pittsburgh, é o trabalho mais importante surgido a partir da conferência de 1883. Ela também continua a ser uma excelente expressão da ideologia anarquista de Parsons. Informado pela oposição de Bakunin sobre a organização autoritária e teoria da mais-valia de Marx, o Manifesto Pittsburgh expressa a crença dos escritores na inutilidade da cédula, o seu apoio à insurreição armada, e o poder do sindicalismo revolucionário.  O principal elemento anarquista do Manifesto era seu ponto de vista a respeito dos sindicatos, vistos tanto como “um instrumento de revolução social ” quanto como a fundação de uma ordem social baseada na organização cooperativa que surgiria com a destruição do capitalismo. A combinação do sindicalismo revolucionário e do anarquismo veio a ser conhecida como a “ideia Chicago”, e logo iria captar a atenção da classe trabalhadora da cidade. O Manifesto Pittsburgh descre-

estante ve o capitalismo como “injusto, insano e assassino.” Escolas, igrejas e imprensa estavam “na folha de pagamento e sobre direção das classes capitalistas” para manter os trabalhadores reprimidos. Com um sistema tão corrupto, os trabalhadores tinham de “organizar a revolta” e destruir o capitalismo por qualquer meio necessário. Depois de descrever a natureza exploradora do capitalismo, o Manifesto Pittsburgh conclui delineando seis metas para o IWPA: Primeiro - Destruição da dominação de classe existente, por todos os meios, ou seja, por uma ação enérgica, implacável, revolucionária e instrumental. Segundo - Estabelecimento de uma sociedade livre baseada na organização cooperativa de produção. Terceiro - a livre troca de produtos equivalentes por e entre as organizações produtivas sem comércio e especulação financeira* (profit-mongery*: especulação financeira foi a melhor adaptação que escolhemos para dar sentido na tradução). Quarta - Organização da educação em uma base secular, científica e igual para ambos os sexos. Quinto - Direitos iguais para todos, sem distinção de sexo ou raça. Seis - Regulamentação de todos os assuntos públicos por contratos livres entre as comunas e associações autônomas (independentes), fundamentada em uma base federalista.


Estante Acreditava-se que esses objetivos poderiam ser alcançados através das federações de grupos autônomos das IWPAs. Um departamento de informações facilitaria a comunicação entre agrupamentos IWPA, mas não haveria nenhuma autoridade central ou comitê executivo; a existência de uma entidade que controlasse estaria em contradição com a visão que o movimento tinha de uma sociedade cooperativa. Os princípios do Manifesto Pittsburgh é o que melhor expressam a visão de mudança social radical ao longo da vida de Lucy Parsons. Anos mais tarde, escrevendo em um ensaio sobre o anarquismo, Parsons explicaria que “os sindicatos são padrões embrionários” das “comunidades cooperativas” vindouras. Parsons também voltou de novo e de novo à ideia de que o Estado era tão somente um agente da repressão e, por isso, tinha de ser destruído através da ação revolucionária. Além disso, os mecanismos específicos de transformação social nomeados no Manifesto eram as suas armas escolhidas. Para Parsons, a revolução só viria através da mobilização de massas, baseada na união de um movimento aberto ao poder da ação violenta. Esse protótipo do anarco-sindicalismo impulsionaria seu envolvimento com os Industrial Workers of the World (Trabalhadores

50 Industriais do Mundo) em 1905, com aSyndicalist League of North America (Liga Sindicalista da América do Norte) em 1912, e com a Communist Party’s International Defense League  (Liga Internacional de Defesa do Partido Comunista) em 1927. Assim, o Manifesto Pittsburgh pode ser visto como a primeira e mais concisa expressão da ideologia radical de Lucy Parsons. Após a convenção de Pittsburgh, Lucy e Albert Parsons rapidamente centraram suas atividades radicais no desenvolvimento da IWPA. Conforme numerosos agrupamentos iam se estabelecendo em todo o país, Albert assumiu a editoria do único jornal de língua Inglesa da associação, The Alarm. O jornal tornou-se, rapidamente, a base para os anarquistas de língua Inglesa no movimento operário de Chicago. Lucy Parsons, com Lizzie M. Swank, começou a ajudar Albert com a produção do jornal e, juntas, escreveram alguns de seus artigos mais contundentes. O mais conhecido artigo de Parsons no The Alarm foi “A Word to Tramps” (Uma palavra aos Desempregados). Aparecendo na primeira edição, “To Tramps”(Aos Desempregados) encorajou a “desempregados” e “deserdados” a “aprender o uso de explosivos” e, quando à beira do suicídio, fazer uma declaração revolucionária, tomando as “avenidas dos ricos” e dar fim às suas vidas


51 enviando “à frente, o clarão vermelho da destruição” através do poder da dinamite. Através de artigos como “To Tramps” e seus discursos inflamados, ela rapidamente se tornou “uma das mulheres anarquistas mais ativas no país. Parsons também ficou ocupada trabalhando como costureira e cuidando de seus dois filhos pequenos. No meio da luta pela emancipação dos trabalhadores, Lucy e Albert tinham começado uma família com o nascimento de Albert Richard Parsons, em 14 de setembro de 1879, e Lulu Eda Parsons em 20 de abril de 1881. Essa nova posição como uma mãe trabalhadora explica, em parte, o seu envolvimento na organização de mulheres costureiras para os “Knights of Labor” (Cavaleiros do Trabalho***). De fato, quando uma outra greve pela jornada de oito horas de trabalho varreu Chicago em maio de 1886, Lucy Parsons poderia ser regularmente encontrada em reuniões para organizar as mulheres costureiras de Chicago. Em 1 de maio de 1886, uma grande greve pela jornada de oito horas de trabalho engoliu Chicago. As tensões entre os grevistas e a polícia rapidamente se intensificaram, e, em 3 de maio, a polícia disparou e matou vários grevistas fora da fábrica McCormick. No dia seguinte, alguns dos organizadores anarquistas da cidade

estante responderam à violência policial com um comício na praça Haymarket, onde haviam cerca de 2.000 trabalhadores reunidos pacificamente em protesto. Lucy e Albert Parsons passaram a primeira parte da noite em uma reunião para a união das mulheres costureiras, mas conseguiram participar do comício de Haymarket depois, trazendo seus filhos junto. Albert falou por 45 minutos sobre a história do movimento operário, tendo um grande esforço para evitar a retórica inflamatória. Por volta das dez horas, uma repentina tempestade forçou Lucy, Albert e seus filhos a deixarem a reunião. Nesse momento, o Capitão James Bonifeld e 170 policiais marcharam até a praça Haymarket, ordenando que os restantes dos manifestantes, cerca de 300, se dispersassem. Quando o último discursante contestou a ordem, citando a natureza pacífica da reunião, alguém jogou uma bomba na falange da polícia. Os oficiais responderam com uma cascata de balas, disparando em vários de seus próprios homens e deixando inúmeros trabalhadores mortos e feridos. Infelizmente, o número real de vítimas entre os manifestantes, juntamente com a identidade da pessoa que jogou a bomba, nunca foram definidos. Na sequência do atentado, os líderes anarquistas de Chicago foram perseguidos por


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Estante uma onda de repressão. Os dias seguintes foram marcados por prisões em massa. Em cinco de maio, sozinha, Lucy Parsons foi presa, pelo menos, três vezes sem justificativa, na tentativa de forçá-la a delatar o paradeiro do marido. Albert Parsons, antecipando a repressão, havia fugido da cidade na noite do atentado. No entanto, quando foi feita uma acusação de conspiração para cometer assassinato contra sete grandes anarquistas, Albert voltou para a cidade; e, no dia da abertura do julgamento, se entregou ao tribunal. Com pouca ou nenhuma evidência que pudesse relacionar os réus a pessoa que jogara a bomba e com poucas pistas reais sobre o mesmo, o chefe promotor Julius Grinnell alegou que os discursos e escritos dos réus nos jornais anarquistas, como no The Alarm, “tinham inspirado uma pessoa desconhecida a lançar a bomba, e que eram, portanto, responsáveis por conspiração.” As acusações de conspiração, embora com severa falta de provas, foram mais do que satisfatórias para o júri lotado e um juiz abertamente hostil; e, em agosto, condenaram um réu a 15 anos de prisão e os outros sete homens à morte. As sentenças foram seguidas por vários meses de apelos que falharam, incluindo a recusa da Suprema Corte dos Estados Unidos para julgar o caso. Dias

antes da execução, o governador de Illinois comutou duas das sentenças dos homens condenados, que puderam sobreviver; um outro homem, Louis Lingg, cometeu suicídio em sua cela. Finalmente, quatro homens – August Spies, George Engel, Adolph Fischer e Albert Parsons – foram enforcados em 11 de novembro de 1887. A bomba em Haymarket e o assassinato judicial de dirigentes anarquistas em Chicago lançaram uma sombra que assombrou o movimento sindical norte-americano. Além disso, a tragédia pessoal caiu sobre Lucy Parsons, consolidando sua dedicação aos movimentos radicais da classe trabalhadora; tal fato incidiu sobre ela como um novo dever, o de compartilhar com o mundo a história da bomba de Haymarket e o julgamento dos anarquistas. História de Lucy em Haymarket

I

Parsons

mediatamente após as sentenças de morte serem proferidas, Parsons deixou Chicago em uma turnê nacional para gerar apoio e arrecadar fundos para a defesa. Falando em grande parte aos “sindicalistas conservadores”, Parsons acreditava que ela iria “iluminar o povo americano” sobre a “operação de assassinato judicial em Chicago.”. Em fevereiro de 1887, Parsons havia abordado


53 mais de 200.000 pessoas em dezesseis estados. A turnê e o apoio gerado por ela desempenharam um papel significativo na conquista de uma suspensão de execução da Suprema Corte do Estado de Illinois. Além disso, a turnê de palestras de Parsons chamou a atenção nacional, tanto para as injustiças do julgamento quanto para as ideias dos anarquistas. No entanto, o sucesso da turnê foi limitado pela falta de apoio dos dirigentes sindicais conservadores. Terence Powderly, grande trabalhador mestre no Knights of Labor  (Cavaleiros do Trabalho), recusou-se a apoiar a defesa e falou contra os condenados, agravando ainda mais a tensão já existente dentro do movimento operário. Contudo, a comissão de defesa criada por Parsons e o uso de uma turnê para angariar o apoio público e financeiro iriam servir como importantes modelos para os futuros radicais. Em um nível pessoal, a turnê iria introduzir uma das características mais persistentes da vida de Parsons. De 1886 até sua morte em 1942, Parsons gostaria de voltar novamente e de novo para o seu compromisso de compartilhar sua história em primeira mão de Haymarket em suas audiências. Através de livros publicados, discursos e escritos, Parsons dedicou 50 anos de sua vida não

estante só para limpar o nome de seu marido, mas também para a preservação, educação e inspiração de outras gerações com a história do caso de Haymarket. Parsons compartilhou essa história, em grande parte, através de materiais publicados. Menos de um mês após as execuções, Parsons estava rodando propagandas de um livro de discursos de Albert em The Alarm. Em 1889, Lucy Parsons estava vendendo Life of Albert Parsons (Vida de Albert Parsons), uma coletânea de ensaios sobre a história do movimento operário americano e os próprios escritos de Albert. Com o livro, Lucy se dispôs a criar uma obra que “não era apenas biográfica, mas histórica – um trabalho que pode ser invocado como uma autoridade” para o futuro. A dedicação de Parsons para garantir que essa história não seria esquecida se estendeu muito para o século XX. Em 1909, Parsons escreveu para Mother Earth (Mãe Terra), uma revista anarquista editada por Emma Goldman e Alexander Berkman, entre outros, pedindo, “quem iria perpetuar a memória de nossos companheiros mártires”, para ajudá-la a republicar seu outro texto, o  Famous Speeches of our Martyrs (Discursos Famosos de nossos Mártires). Muitas vezes, quando falava no 1º de Maio ou 11 de Novembro, Parsons infundia a sua história com forte


Estante paixão, ao compartilhar a dor pessoal que sentiu quando ela e seus filhos foram presos e detidos durante a execução. Frente às audiências e publicações da IWW, ela contou as atrocidades de conspiradores capitalistas ao comparar o julgamento de Chicago com a acusação do líder do IWW, Bill Haywood, em 1907. Mais tarde, quando o socialista Eugene V. Debs e o sindicalista radical Tom Mooney foram presos, Parsons enviou para eles dois exemplares de Life of Albert Parsons  (Vida de Albert Parsons). Lucy também tinha plena consciência de outras obras sobre Haymarket. Quando a obra ficcional de Frank Harris foi publicada em 1908, Parsons tinha 10.000 folhetos impressos e distribuídos para refutar as “declarações contidas nesse livro mentiroso.”. Acreditando que a identidade do homem da bomba era “absolutamente desconhecida”, Parsons opôs-se a Harris nomear um bombista e também ao papel secundário de Albert desempenhado em The Bomb. Por outro lado, em 1937, Parsons elogiou o  Labor Agitator: the Story of Albert R. Parsons de Alan Calmer (Agitador de Trabalho: a História de Albert R. Parsons, de Alan Calmer), chamando-o de “boa história do trabalho” que a atual “geração deve conhecer”. Parsons se dedicou para

54 compartilhar as radicais histórias de Haymarket, que estão profundamente disputadas. Um historiador precoce de Haymarket praticamente ignorou o papel de Parsons nos esforços de defesa e limitou sua vida para as notas finais. De acordo com Ashbaugh, na década de 1960, os editores da Radcliffe’s Notable American Women (Notáveis Mulheres Americanas de Radcliffe) não optaram por incluir Parsons, chamando-a de uma figura patética incapaz de escapar do passado e parar de chorar sobre injustiças.Aparentemente, de acordo com essas caracterizações, a defesa que Parsons fez de seu marido e a dedicação aos mártires da história de Haymarket a fez historicamente insignificante. Na verdade, a luta de Mark Donahue contra o parque Lucy Parsons atesta o fato de que essa ideia ainda está viva hoje. Na década de 1970, os historiadores revisionistas contra-atacaram essa demissão. Em sua biografia, Ashbaugh denunciou “a impressão de que Lucy Parsons dedicou sua vida a limpar o nome de seu marido” como completamente errada, retratando Parsons, ao invés disso, como uma revolucionária comunista, não uma esposa devotada. Mais recentemente, Gale Ahrens escreveu que seus “escritos e discursos sobre os acontecimentos em 1886-87… são uma parte relativamente pequena


55 do trabalho de sua vida”, e que ela só estava tentando demonstrar a continuidade histórica entre Haymarket e julgamentos políticos posteriores. Ambos estão corretos ao considerar Parsons uma revolucionária em seu próprio direito. Entretanto, a história dos mártires de Haymarket não era uma pequena parte da vida de Parsons, mas, em vez disso, foi uma característica central de sua vida. Quase imediatamente após a bomba, as histórias populares do evento entraram na esfera pública. Na maioria das vezes, essas histórias serviram apenas para apoiar processos sensacionalistas que apregoavam concepções de anarquistas como perigosos subversivos. “O mais notável destas histórias é o capitão da polícia Michael” de Schaack, 1889, Anarchy and Anarchists, que retrata o julgamento de Haymarket como uma grande vitória para a lei e a ordem sobre terroristas anarquistas. Outra história inicial é a “Anarchy at an End: Lives, Trial, and Conviction of the Eight Chicago Anarchists” de 1886, que incide sobre os papéis heroicos do júri, acusação e juiz.  Junto com outras histórias populares da época, esses livros disseminaram a interpretação do Estado capitalista a respeito dos eventos de Haymarket. Como contraponto à essas histórias conservado-

estante ras, Life of Albert Parsons segue um esquema semelhante ao texto de Schaack. Ambos começam com uma história do movimento operário muito antes da década de 1880 e, embora ambos sejam extremante subjetivos, eles tentam apresentar um quadro histórico para a compreensão dos acontecimentos de 1886. Contudo, com o decorrer do tempo, Albert Parsons passou a ser o centro da história do caso Haymarket, crescendo no trabalho de Parsons. De fato, Parsons tomou um interesse particular na mitificação e criou um herói fora do legado de seu marido. Isso pode ser visto pela comparação das respostas que deu a Harris em The Bomb e as que deu a Calmer em Labor Agitator. Parsons, apaixonadamente, denunciou o The Bomb, porque ela acreditava que Harris tinha identificado erroneamente a pessoa da bomba, e porque o The Bombapresentou Albert Parsons como uma figura secundária. Por outro lado, Parsons elogiou o livro de Calmer, o que está diretamente ligado ao fato de que Albert toma o lugar central em  Labor Agitator. Claramente, Parsons apoiou a narrativa que colocou seu marido na vanguarda dos acontecimentos, apesar de que sua importância no movimento operário era, em grande parte, devido ao fato de ser ele um dos seus poucos agitadores de língua Inglesa. Assim, Par-


Estante sons era culpada de participar na transformação de si mesma em herói. No entanto, um reconhecimento dessa subjetividade não só reforça a centralidade do caso Haymarket em sua vida, mas também mostra que ela não era infalível. Parsons permitiu, por vezes, que suas lealdades pessoais moldassem sua interpretação no caso de Haymarket, ainda que não fosse patológica ou de grau obsessivo. Ainda assim, há uma justificativa para o calendário e a forma de apresentação encontrada na narrativa histórica de Parsons. Na maior parte das vezes, Parsons compartilha essa história quando participa de eventos apropriados – especialmente nos aniversários do dia da bomba ou da execução. Em seu jornal The Liberator (O Libertador) no  IWW, impresso de 1905 a 1906, demonstra claramente isso. Em  The Liberator, Parsons dedica amplo espaço para as questões da época, como o sindicalismo, a Guerra Russo-Japonesa e próximas eleições, economizando uma discussão detalhada sobre a questão de Haymarket para o dia 11 de novembro de 1905. Na memória do assunto, Parsons ofereceu sua narrativa de assassinato judicial, apoiando seu argumento com registros do tribunal do Condado de Cook.Além da edição de aniversário, quase todos os artigos sobre Haymarket em The

56 Liberator foram acoplados a um artigo sobre a história internacional dos trabalhadores, refletindo sua consciência do lugar mais amplo de Haymarket na história. Da mesma forma, quando falava em eventos que não estavam diretamente relacionados com a Haymarket, Parsons geralmente reservaria sua discussão sobre Haymarket para o final, como uma pedra angular inspiradora. Seu discurso na convenção fundadora do IWW começou com uma exposição da opressão das mulheres trabalhadoras, em seguida, discutiu a solidariedade de classe e terminou com um histórico do caso de Haymarket. No entanto, na celebração do May Day (Dia do Trabalhador) em 1930, Parsons dedicou a totalidade do seu discurso a Haymarket, começando com “a grande greve” para “a jornada de oito horas” e terminando com as últimas palavras do mártir no tribunal.As diferenças entre os dois discursos destaca a racionalidade por trás das decisões de Parsons quando fala sobre a história de Haymarket. Ao contar a história Haymarket para o público de trabalhadores, Parsons advertiu contra visões ingênuas da democracia americana. Juntamente com as lições da greve em 1877, o susto vermelho que se seguiu ao atentado ensinou Parsons, da forma mais pesso-


57 al, que o estado norte-americano poderia derramar um “reinado de terror” em cima do radicalismo, igual ao “cão de caça russo mais zeloso.”. A história do caso Haymarket mostrou que o governo podia se mover rapidamente para esmagar indivíduos e movimentos. A incapacidade do comitê de defesa para impedir os assassinatos judiciais incutiu em Parsons a importância central de angariar apoio em massa para desafiar o poder do capitalismo sobre o Estado. Assim, o objetivo subjacente de compartilhar a história de Haymarket se estendeu para além de limpar o nome de seu marido, pois almeja, no fim das contas, usar as lições do caso para educar futuros radicais trabalhistas. As lições embutidas na história de Parsons foram evidentes aos militantes posteriores. Organizadora do IWW, Elizabeth Gurley Flynn explicou que Parsons “viajou de cidade em cidade, batendo nas portas de sindicatos locais e contando a história do julgamento de Haymarket” a fim de alertar os jovens sobre a “gravidade da luta adiante” e a possibilidade de que a “prisão e a morte” podem vir “antes da vitória.A natureza perigosa do radicalismo do trabalho foi ilustrada pela explicação de Parsons em um discurso de que “a imprensa capitalista”, o “púlpito”, a polícia, um júri

estante lotado, e “juízes preconceituosos” agiram conjuntamente para executar líderes anarquistas de Chicago. Assim, Parsons advertiu jovens radicais, usando a história do caso de Haymarket para mapear as estruturas de poder em um estado capitalista. Historiadores revisionistas que rejeitaram ou ignoraram a dedicação de Parsons à história de Haymarket também têm mascarado o fato de que Parsons havia fixado um significado alternativo para o caso Haymarket, que desafiou o significado criado por poderes institucionalizados. Através de interpretações históricas de tais historiadores, “comentaristas da grande mídia, porta-vozes do capital, e oficiais estaduais fundamentados na legitimação das instituições” transmitiram a “ideia dominante de que a violência do governo efetivamente protegeu” a América contra a “violência conspiratória e niilista de terroristas da classe trabalhadora”, como Albert Parsons. Em outras palavras, histórias como a de Schaack, que classificou os anarquistas como terroristas e subversivos estrangeiros, deram aos acontecimentos de Haymarket um significado simbólico que mais tarde justificou a criação de aparatos estatais repressivos, incluindo “esquadrões vermelhos” (red squads, unidades de inteligência policial especializadas em


Estante se infiltrar), legislação nativista, e agências de inteligência. Em oposição a essa caracterização dominante, Parsons retratou os anarquistas como mártires, em vez de terroristas, exibindo uma forte consciência desta luta pelo sentido. Praticamente, em todos os tempos, “a reunião Haymarket” foi referida historicamente como o “motim de Haymarket”; e Parsons teria, apaixonadamente, citado a natureza da reunião como “pacífica e tranquila”. Parsons sabia que ela tinha que “cavar os fatos” de uma história de mentiras que haviam sido amontoadas sobre os mártires por aqueles que tentaram “encobrir [o] crime de enviar cinco líderes de trabalhadores para a forca.”. Além disso, o significado histórico alternativo que Parsons atribuiu também construiu as bases simbólicas de comemorações institucionais, como o May Day. Quando a dedicação de Parsons à interpretação histórica radical do caso Haymarket é jogada abaixo, obscurece-se o papel influente que ela desempenhou na fixação de um significado alternativo para o episódio da bomba na Haymarket. Ao reconhecer que Parsons passou grande parte de seu tempo compartilhando a história dos acontecimentos de Haymarket, é possível explorar a influência da narrativa pessoal sobre o radicalismo. Embora bem versado

58 no pensamento radical, a capacidade de Parsons para moldar o significado dos eventos de 1886 não deriva de sua experiência intelectual. Em vez disso, a influência de Parsons está enraizada no uso de uma narrativa pessoal e sua posição como uma viúva do acusado e executado. Parsons explicou que ela tinha um “direito como mãe e como esposa de um dos [a] os homens sacrificados, para dizer o que quer”, que ela poderia “trazer a luz a incidir sobre” a judiciária “conspiração”. Apesar de sua falta de poder institucionalizado, ela poderia usar seu poder simbólico como uma viúva para impulsionar seu significado alternativo para a esfera pública por meio de palestras e livros, e, assim, combater as ideias sensacionalistas divulgadas pela imprensa mainstream (termo inglês que designa o pensamento ou gosto corrente da maioria da população). Assim como as histórias institucionais do episódio da bomba em Haymarket produziram poderosos sentimentos de medo no seio da sociedade, a narrativa de Parsons havia criado sentimentos apaixonados de raiva e revolta entre os radicais. Quando os historiadores ignoram que Parsons teria um compromisso de dizer a sua história alternativa do caso Haymarket, destroem também a oportunidade de ver o poder que a experiên-


59 cia pessoal pode ter na promoção de radicalismo na América, e em preencher as lacunas no registro histórico. Raça e a Criação da Consciência de Classe

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postura de Parsons sobre a opressão racial também é contestada bruscamente. Relacionado à sua celebração como uma ativista dos direitos civis, muitas vezes, é afirmado que Parsons foi uma forte porta-voz contra o racismo. A página inicial do site comemorativo LucyParsonsProject. org afirma que Parsons desafiou a discriminação racial. Na mesma linha, os funcionários dos parques de Chicago acreditavam que o parque proposto não reconhece apenas o ativismo operário de Parsons, mas também os seus esforços em nome dos afro-americanos.No entanto, essa celebração da militante como uma voz ativa contra a opressão racial não tem sido afirmada por acadêmicos. O historiador Robin D. G. Kelly argumenta que Parsons eloquentemente lutou contra a opressão da classe trabalhadora, mas “ignorou a raça”; argumenta, ainda, que, embora ela escrevesse sobre linchamentos de negros, Parsons visualizava a tamanha violência racial, principalmente, como uma extensão da opressão de classe. Kelly baseou seu argumento, em

estante grande parte, em um artigo de 1886 no The Alarm,  em que ela escreveu que a opressão não foi “lançada sobre o negro porque ele é negro”, mas porque “ele é pobre.” Kelly argumentou que Parsons praticou reducionismo de classe, e acredita que esse reducionismo é explicado pela sua incapacidade de operar fora “dos limites do pensamento ocidental socialista do século XIX.”. Ashbaugh concorda, argumentando que Parsons “acreditava que a abolição do capitalismo produziria automaticamente igualdade racial.” Ashbaugh explica que a postura de Parsons (ou falta dela) sobre a opressão racial refletiu sua profunda internalização do racismo branco, o que tornou impossível para “ela analisar sua posição social em relação a tudo menos seu status de classe.”. Essa análise contradiz claramente a imagem mitologizada de Parsons como “uma defensora ferrenha” para “os direitos dos afro-americanos.”. Essa contradição é explicada, em parte, pelos questionamentos às visões que Kelly e Ashbaugh tinham de Parsons como uma reducionista de classe. A historiadora feminista Roxanne Dunbar-Ortiz argumentou recentemente que Parsons, de fato, reconhece o racismo como uma força fora dos limites da opressão de classe, baseando-se em um artigo de 1892, em


Estante que Parsons protesta contra a violência racial, “sendo perpetuada no Sul contra os cidadãos pacíficos, simplesmente porque eles são negros.” Em resposta a esse racismo brutal, Parsons sugeriu que os afro-americanos tirassem o espírito de John Brown e “ajudassem a si mesmos” pelo aumento da autodefesa. Dunbar-Ortiz argumenta que a postura de Parsons sobre o racismo se estende além do “economicismo reducionista” e que sua “linguagem de autoconfiança e autodeterminação” foi um precursor para o radicalismo de “Malcolm X e os Panteras Negras”.  A conexão feita aqui é bastante tênue. No entanto, ligando escritos de Parsons com as ideias do “movimento dos direitos civis durante a década de 1960”, Dunbar-Ortiz plantou as sementes para comemoração de Parsons como uma defensora dos direitos negros. Parsons, em 1930, trabalhou para a defesa dos Scottsboro Boys, através da International Labor Defense  (ILD, Defesa Internacional do Trabalho), o que também é citado como evidência de seu ativismo negro. Argumenta-se que o seu trabalho em defesa dos oito homens negros, conhecidos como os “Scottsboro Boys”, em julgamento pelo suposto estupro de uma mulher branca, mostra “dedicação… para as lutas dos afro-americanos.” (www.lucyparsons-

60 projet.org/about_lucyparsons. html.) No entanto, na década de 1930, Parsons também estava trabalhando com o ILD para obter a liberdade do líder trabalhista Tom Mooney da prisão. Seus esforços em nome dos Scottsboro Boys parece refletir seu trabalho de longa data contra o assassinato judicial, mais do que uma dedicação específica para os afro-americanos. Na mesma linha, seu ensaio “Southern Lynchings” (Linchamentos no Sul) não fornece provas suficientes para demonstrar que a opressão dos afro-americanos era um foco central em sua obra. No entanto, o artigo demonstra que Parsons estava ciente do racismo, e não ignora a questão. De fato, “Southern Lynchings” sugere que, antes que Parsons passe a ser definitivamente marcada como uma reducionista de classe ou uma ativista pelos direitos dos Negros, é necessária mais investigação. Uma exploração mais profunda em sua postura sobre o racismo pode começar com uma análise das alegações de Kelly e Ashbaugh a respeito do reducionismo em relação à dedicação de Parsons para forjar a consciência de classe. Para reiterar, Kelly explicou a postura de Parsons sobre o racismo como um reflexo de seu confinamento ao pensamento socialista ocidental. Ao fazer isso, Kelly


61 deu a entender que o trabalho de Parsons dentro do movimento operário apenas a distanciava da opressão racial, que ela era incapaz de ver o poder opressivo do racismo. Ashbaugh acreditava que o reducionismo de Parsons deveu-se ao fato de que ela internalizou o racismo, a tal ponto que ela “negou a sua própria ancestralidade negra” e, assim, ficou incapaz de ver tanto a sua própria “opressão como uma mulher negra” quanto o papel do racismo na sociedade em geral. Essas explicações são, em grande parte, especulativas e, paradoxalmente, apesar de Kelly e Ashbaugh chegarem a mesma conclusão, um raciocínio contradiz o outro. É difícil imaginar que uma mulher de cor viva, no início do século XX, não podia ver ou sentir o racismo. Além disso, juntamente com o “Southern Lynchings”, uma exploração de dedicação de Parsons para forjar uma consciência de classe racialmente inclusiva demonstra que Parsons estava ciente do poder do racismo na sociedade em geral. Ao longo da vida, Parsons se esforçou ativamente para construir uma identidade de classe comum entre todos os trabalhadores norte-americanos.Muito antes do episódio da bomba de Haymarket, Parsons pediu às “massas para aprender que” os seus interesses estariam

estante sempre em oposição à classe dominante.Parecia que a falta de apoio para a defesa dos líderes dos Knights of Labor, junto com divisões pré-existentes dentro do movimento operário e um medo geral de represálias, impediu o apoio unificado dos trabalhadores aos réus de Haymarket. Parsons se afastou das execuções, acreditando que só um movimento massivo baseado no interesse comum dos trabalhadores poderia desafiar com êxito o capitalismo. Assim, no sentido de incitar a formação de uma classe operária auto identificada na América, Parsons estava tentando fortalecer a única arma que ela acreditava realmente que poderia derrubar o capitalismo. Em 1907, depois que o líder da  IWW,  Bill Haywood, foi absolvido das acusações de conspiração para cometer assassinato, Parsons explicou que o sucesso da defesa foi porque “a classe operária era unida e ficou ombro a ombro”; e tornou-se consciência de classe ao reconhecer que a própria IWW, não só Haywood, era, na verdade, levada a julgamento. Além disso, a sua visão de classe incluiu pessoas de todas as raças e etnias. Parsons abraçou organizações que se recusaram a participar de bode expiatório racial e rejeitavam políticas racialmente exclusivas. Em 1885, oIWPA declarou que não faria como outras


Estante organizações de trabalhadores tinham feito e “declarou o Chinês responsável pelas condições opressivas dos trabalhadores”, como o “IWPA nunca iria sentir que suas fileiras estavam completas se excluíssem trabalhadores de qualquer nacionalidade.” Parsons continuaria a defender um movimento trabalhista racial, inclusive, muito depois do desaparecimento das  IWPAs. Falando antes do  IWW, Parsons ressaltou a importância de formar uma solidariedade inclusiva entre os trabalhadores, lembrando o IWW que: O fluxo vermelho que corre nas veias de toda a humanidade é idêntico… Não importa onde, seja nas planícies ensolaradas da China, ou no sol batendo nas colinas da África, ou nas margens distantes cobertas de neve do norte, ou na Rússia ou na América… todos eles pertencem à família humana e têm uma identidade de interesses. Claramente, Parsons estava ciente que questões de raça dentro do movimento trabalhista americano poderiam ser poderosamente divisionistas. Na verdade, dialogando diretamente com problemas de racismo que assolaram o movimento operário, Parsons incentivou claramente o IWW a abraçar uma forma inclusiva da consciência de classe, não permitindo que a união fosse dividida em linhas ra-

62 ciais ou nacionais; assim como muitos outros sindicatos da época. Longe de ignorar raça, Parsons rejeitou a criação de organizações de trabalhadores exclusivamente raciais ou estratificados. Além disso, sua dedicação para forjar um movimento trabalhista racialmente inclusivo desafia a ideia de que ela havia internalizado o racismo. Em vez disso, ela reconheceu o poder de divisão do racismo e, junto com os outros fundadores do IWW, abraçou e incentivou a formação de uma consciência de classe racialmente inclusiva, que poderia atuar como um poderoso mecanismo contra o capitalismo. Explorar essa dedicação de Parsons para forjar uma consciência de classe racialmente inclusiva na América pode servir como um ponto de partida para uma análise da sua postura de raça. Na verdade, em termos comemorativos, incluir nomes e as celebrações do parque que leva o nome Parsons pode de fato estimular o movimento operário americano a adotar mais práticas e políticas raciais inclusivas. Ainda assim, deve-se ressaltar que a dedicação de Parsons para forjar uma classe trabalhadora racialmente unificada, autoconsciente, estava enraizada em seu desejo de fortalecer a escolha das armas contra o capitalismo – um


63 movimento de trabalhadores em massa. Na realidade, implícita dentro de sua postura de oposição, incluindo a sua crítica ao poder de divisão do racismo, Parsons tinha o desafio de ter sua própria concepção para América como uma sociedade sem classes. Criando a Heroína Mítica

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rande parte da controvérsia sobre a vida de Parsons tem resultado da remodelação inadequada e da criação de um ícone histórico. A história de Parsons foi influenciada pelas afiliações políticas e objetivos daqueles que a gravaram, e por aqueles que foram empenhados em criar um herói em sincronia com suas inclinações políticas específicas ou suas necessidades. No entanto, são possíveis várias formas de comemoração ou homenagem para Parsons sem alterar ou ignorar suas próprias palavras. Parsons pode ser facilmente celebrada como uma figura fundamental na criação e preservação de uma história alternativa de Haymarket. Ela pode ser vista como um herói trabalhador que rompeu com a tradição e defendeu racialmente (e gênero) a unidade da classe trabalhadora dos Estados Unidos – uma posição geralmente radical para esse período. No entanto, não é dada atenção suficiente a como e por que essa

estante manipulação é tão prevalecente na historiografia de Parsons. Uma série de fatores influenciam a reformulação do seu legado. Ao explorar como e por que Parsons tem sido rotulada como uma ativista negra, feminista e comunista, as raízes dessa manipulação podem ser resolvidas na íntegra. Muitos dos problemas associados com a rotulação de Parsons como Africano-Americana já foram discutidos, mas a atratividade desse rótulo garante mais discussão. Em sua rotulação como negra, torna-se possível se envolver com ela em um nível mais familiar. A incapacidade dos Estados Unidos de reconhecer suas divisões de classe fez das identidades raciais e étnicas uma área mais familiar no discurso. É mais fácil rotular Parsons em questões afro-americanas e, em seguida, discutir questões que confrontam figuras negras na história americana. Por exemplo, quando se compara Parsons com uma famosa anarquista branca, Emma Goldman, Ashbaugh argumenta que “Goldman pudesse estudar na Europa e viajar em meios educados”, mas a “pele escura” de Parsons impediram-na de tais oportunidades. Contudo, o registro histórico refuta tal argumento. Parsons foi calorosamente recebida ao falar em Londres, em 1888, pelo menos, nos meios radicais; e sua visita à In-


Estante glaterra é considerada um fator chave para levar muitos socialistas ingleses a abraçar completamente o anarquismo. Sua popularidade na Europa durou décadas. Enquanto escrevia The Liberator, um camarada de Paris lembrou Parsons de que ela ainda estava “bem conhecida na Europa” e que qualquer conselho que pudesse oferecer sobre os perigos do sindicalismo iria “fazer uma boa impressão” nas alas radicais parisienses. Claramente, Parsons poderia viajar pela Europa. Assim, nem todas as restrições típicas das mulheres negras afetaram Parsons. Em vez disso, uma comparação de classe e culturas constituintes serviria como melhores mecanismos para a compreensão de diferentes experiências de Parsons e Emma Goldman na Europa. Além disso, essa comparação exigiria que a comunidade acadêmica participasse mais plenamente com Parsons em um nível de classe.             O legado de Parsons também foi transformado em história de uma heroína feminista. Especialmente nas arenas de memória pública, Parsons é rotineiramente chamada de feminista. Ao longo de sua vida, ela abordou muitas questões que as mulheres enfrentam. Ela se enfureceu contra as práticas corrosivas que pressionavam as mulheres para absorver empregos domésticos e incentivou as mulheres a abraçar o controle

64 da natalidade.Como uma mãe trabalhadora, Parsons acreditava que falava em nome de todas as mulheres que trabalhavam quando participou da fundação do IWW. No entanto, seus esforços em nome das mulheres sempre fizeram parte de sua dedicação à luta de classes. Seu interesse pela libertação feminina manteve-se focado em questões que lhe foram mais diretamente ligadas ao trabalho e ao capitalismo. Parsons respondeu às anarquistas que defendiam maior liberdade sexual das mulheres, salientando que a rejeição das relações sexuais e familiares tradicionais poderia aumentar a opressão das mulheres que trabalhavam por removê-los da rede de segurança econômica da família. No entanto, com os escritos dispersos de Parsons sobre questões femininas, como prova, os historiadores revisionistas têm usado com sucesso o rótulo feminista para combater a visão de Parsons como uma viúva apaixonada. Contudo, o rótulo feminista também é problemático. Pode ainda prejudicar a exploração de sua dedicação à história de Haymarket, tornando difícil esquadrinhar as maneiras pelas quais o poder de Parsons foi positivamente derivado de sua posição como mulher e viúva. Além disso, tal como os termos dos direitos civis, o rótulo feminista tende a ser usado de maneiras que fundem ideias


65 de Parsons com as ideias e objetivos do movimento das mulheres de 1960. Ao invés de usar o termo feminista, pode ser mais simples afirmar que Parsons foi uma heroína para todos os trabalhadores.            A ideia de que Parsons foi membro do Partido Comunista é a identidade mais contestada e sem fundamento já colocada a seu respeito. A imagem de Parsons como uma comunista é apenas a criação de Ashbaugh. Escrevendo em 1976, no final de uma era de intelectualismo marxista, Ashbaugh afirmou que Parsons perdeu a fé no anarquismo no início de 1930; e, como o Communist Party USA  (Partido Comunista dos EUA) cresceu em proeminência, ela tornou-se ativa na International Labor Defense, um grupo da frente comunista. Em 1927, Parsons foi eleita para o Comitê Nacional do ILD e, de fato, trabalhou em uma série de casos, incluindo o caso Scottsboro. No entanto, Ashbaugh, dando, então, um salto de fé, alega que, em 1939, Parsons entrou oficialmente para o Partido Comunista, mas não forneceu qualquer evidência sólida para essa afirmação. O Partido não registra a adesão de Parsons, seja na literatura promocional ou em seus registros. Em vez disso, Ashbaugh usou um trabalho de Parsons com o ILD e seus discursos antes das audiências

estante comunistas como prova de filiação. Já se observou que o trabalho de Parsons com o ILD foi, antes de tudo, uma continuidade de seus esforços na defesa dos líderes trabalhistas vítimas da repressão. Os discursos de Parsons antes das audiências comunistas não indicam necessariamente que era um membro do partido, mas que ela estendeu a mão para uma organização que considerava eficaz no tratamento das questões trabalhistas.             A presença de Parsons na história do comunismo americano expõe uma das principais formas de manipulação da sua história. Na década de 1920, o movimento anarquista americano foi praticamente dizimado por políticas governamentais anti-radicais. Na década de 1930, o Partido Comunista dos EUA foi a organização mais proeminente com foco em questões trabalhistas. Desde o caso Haymarket, Parsons professava uma ideologia radical simples: apenas uma sólida organização baseada em classes e que tivesse a atenção das massas e aceitado a natureza violenta da luta de classes poderia trazer o ideal revolucionário de uma sociedade livre. Parsons passou a vida se movendo de organização para organização, a fim de apoiar a associação com o forte poder revolucionário. Ela explicou, em 1930, que tinha “visto muitos movimentos de vir e ir” e


Estante havia “pertencido a todos aqueles movimentos”, mas que sempre fora “uma anarquista, porque o anarquismo [transporta] o próprio germe da liberdade em seu ventre.” Uma pequena lista de organizações em que Parsons trabalhou inclui o  Socialistic Labor Party (Partido Socialista Trabalho), o IWPA, o Socialist Party  (Partido Socialista), o IWW, o Syndicalist League of North America (Liga dos Sindicalistas da América do Norte) e o  ILD. Parsons, em um fluido movimento de organização para organização, enfraquece a afirmação de Ashbaugh. Em vez de reconhecer a vontade de Parsons para trabalhar com uma ampla gama de organizações da classe trabalhadora, Ashbaugh introduziu algo semelhante a uma competição sobre quem poderia reivindicar Parsons. Por exemplo, a história documental de Gale Ahrens foi uma tentativa de resgatar Parsons “para o movimento anarquista.”. Ao fazê-lo, Ahrens fornece ao anarquismo outro herói, mas faz pouco para desmistificar o legado de Parsons. Ao enfatizar suas próprias afiliações políticas e não reconhecer a dedicação de Parsons à criação de uma sociedade livre, superando suas lealdades institucionais, historiadores abriram a porta para o legado de Parsons ser destorcido para a história de um mero reformador

66 social. Por fim, deve-se salientar que essa mitologização de Parsons resultou na desvalorização e expurgação de seu compromisso revolucionário. A adesão de Parsons à ideia de “propaganda pela ação” praticamente desapareceu do registro histórico. Lidar com a história de Parsons e o anarquismo de promoção da ação direta, às vezes violenta, tem sido uma tarefa difícil para a esquerda norte-americana. Além disso, em um mundo pós-11 de Setembro, o discurso em torno do surgimento e méritos da violência revolucionária tem sido quase que totalmente limitado a sua repulsa. Tornou-se difícil para comemorar publicamente Parsons, embora reconhecendo sua dedicação à “propaganda pela ação”. No entanto, sua vida pode servir como um caso de estudo para a compreensão da relação entre as experiências de repressão e de crença na necessidade ou inevitabilidade da violência como um mecanismo para a mudança. Tal exploração nos permitirá visualizar as crenças de Parsons não como uma anomalia a ser esquecida em uma outra vida louvável, mas como um elemento central de uma ideologia radical profundamente influenciada pela experiência pessoal da repressão. O Parque Lucy Elk Gonzales Parsons


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m 07 de março de 1942, Lucy Parsons morreu quando sua casa pegou fogo, pondo fim há mais de 70 anos de trabalho incansável em nome da classe trabalhadora da América. Parsons deixou para trás um longo histórico de contribuições influentes para o radicalismo americano, mas o fogo e a remoção e supressão de seus registros pessoais pelas autoridades estaduais contribuíram para ocultar o seu legado. Historiadores e funcionários públicos ainda sepultaram a influência de Parsons, moldando sua vida para caber nos interesses políticos e culturais atuais. Essa reformulação histórica está na raiz da criação de uma imagem heroica de Parsons que contradiz muitas de suas próprias crenças. Através do esforço para ver a vida de Parsons dentro do contexto de seu próprio tempo e retornando para muitos dos registros históricos disponíveis, é possível lidar com essas contradições e deixar brilhar uma nova luz sobre suas contribuições para o radicalismo americano. Parsons foi claramente a figura mais formativa no sentido de garantir que a história do caso de Haymarket seria lembrado e não fosse distorcida por aqueles no poder. Parsons usou essa história para educar líderes trabalhistas jovens da América a respeito do poder repressivo do

estante Estado, bem com infundir no movimento operário uma indignação apaixonada. Além disso, Parsons acrescentou ao ideal americano de justiça, promovendo políticas de trabalho racialmente inclusivas que ajudaram a fortalecer a compreensão tradicionalmente fraca de classe na América. Em maio de 2004, o conselho do Chicago Park District’s aprovou a proposta do Parque Lucy Elis Gonzales Parsons. As contribuições de Parsons para o radicalismo americano certamente merecem ser comemoradas, e o Parque Lucy Elis Gonzales Parsons pode servir como um poderoso local para tal comemoração, apesar de os pressupostos historicamente imprecisos que levaram a sua criação. Rodeado por um número de fábricas, em um bairro operário intocado pela especulação imobiliária, o cenário do parque Parsons é bastante apropriado.  O parque poderia facilmente servir como um ponto de encontro de diversos grupos para se unirem em torno de suas causas comuns. O parque também oferece uma oportunidade para Chicago e América começarem a abraçar plenamente a sua história radical. O passado da América está cheio de lutas pela liberdade econômica, e nossa sociedade não é nutrida através da limitação de nossa celebração histórica para o movimento


Estante dos direitos civis e de outras lutas que têm sido, muitas vezes, domadas em sua releitura. Naturalmente, a verdadeira questão não é quem foi a heroica Lucy Parsons, mas como podemos aprender com sua luta e como sua história pode proporcionar uma melhor compreensão do radicalismo americano. Mais importante ainda, o Parque Parsons deve servir como um lembrete de que a história que encontramos em uma placa ou espremido em listas de heróis foi certamente influenciada pelo presente. A formação do legado de Parsons para atender às necessidades de um governo da cidade, relutante ou incapaz de celebrar diretamente sua história anarquista, nos ensina que histórias de banco de parque nunca devem ser vistos como a história completa, mas deve servir como ponto de partida para um estudo mais profundo.

68 A pesquisa sobre a vida de Parsons está apenas começando. Com uma compreensão de como e por que sua história tem sido deformada, existe uma oportunidade inestimável para cavar ainda mais os registros, em uma tentativa de desmistificar sua vida. Existem áreas inteiras de sua vida, especialmente na era da Primeira Guerra Mundial e na década de 1920, que estão em falta, a partir do registro histórico, e devem ser exploradas. A história Lucy Parsons é mais ampla e mais complexa do que sua condensação em uma biografia ou do que um pequeno livro de fontes documentais pode capturar. Estudos sobre Parsons e o radicalismo em geral, não podem ser considerados finais – como ela mesma salientou: “Nada é considerado tão verdadeiro ou tão certo, que as descobertas futuras não possam prová-lo falso.”.    


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Vamos Falar das Olimpíadas Escondendo as ruínas das remoções e o sangue derramado pela militarização das favelas e do cotidiano, o evento e seu impacto não podem ser esquecidos. // Por Redação


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m novembro de 2009, o Rio de Janeiro é eleito cidade-sede dos jogos olímpicos. Um ano depois o estádio de futebol Maracanã, é fechado para reforma. Começam então as remoções ilegais na cidade maravilhosa, adjetivo que nem todo mundo se orgulha de usar, pois atrás da bandeira olímpica, as ruínas da destruição causada por um Estado de exceção, se multiplicavam em terrenos sem vida e desertos. Já em 2012, o dossiê “Megaeventos e Violações dos Direitos Humanos no Rio de Janeiro” é lançado e com ele as informações da batalha travada pelos moradores que resistiam às remoções em todos os cantos da cidade fluminense. Mais de 77 mil pessoas perderam suas casas, a prefeitura como desculpa usava o argumentos de que era necessário construir vias expressas e evitar acidentes com o risco de desabamentos nas casas. Um bom exemplo da falta de argumentos que viabilizasse a atitude higienista do Estado, foi a remoção da favela Metrô Mangueira, removida por estar a 1km do Maracanã, sem qualquer justificativa oficial para ocorrer. Outro grave problema causado pelo evento diz repeito ao impacto ambiental. Metas de despoluição não foram cumpridas, como é o caso da Baía de Guanabara, que tinha como promessa da prefeitura ter seu esgoto tratado em 80%, até 2016, porém o resultado foi trágico, não chegando nem a 50% do total prometido. A especulação imobiliária e o setor privado fizeram o papel de coadjuvantes dos planos de estruturação dos megaeventos, elefantes brancos (obras

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desnecessárias e que pouco serão utilizadas) promovidos por empreiteiras foram construídos às pressas e nas custas daqueles que estavam em seu caminho, neste caso, as milhares de famílias que perderam perspectivas de futuro e principalmente sua paz e lar. No dia 5 de agosto a gente cobriu o grande ato contra as olimpíadas que tomou conta das ruas da zona norte carioca. O ato percorreu algumas ruas da Tijuca, indo da Praça Saenz Penã até a Praça Afonso Pena, próximas ao estádio do Maracanã, onde ocorreria horas depois a abertura das Olimpíadas.Em nenhum momento o ato foi tranquilo, a tensão era grande graças às lembranças de 2014, onde houve a violenta repressão da Polícia Militar contra manifestantes contrários à Copa do Mundo, na final do campeonato. Bandeiras olímpica e brasileira eram queimadas enquanto a fumaça subia entre bandeiras negras e vermelhas, no horizonte a cavalaria da PM tentava intimidar, mas saiu vaiada minutos depois. Chegando ao seu ponto final, o ato foi reprimido após um manifestante fazer uma bela tocha com outra bandeira retirada de um mastro na praça. Bombas de gás lacrimogênio, com fumaça branca (tradicional) ou laranja (olímpica), esta segunda tomou toda a Afonso Pena, expulsando de Black Bloc à crianças de 7 anos com camisetas canarinho do Neymar. Muitos passaram mal e alguns foram presos aleatoriamente. Em São Paulo a treta não foi diferente, sem acusação a PM prendeu 105 jovens que protestavam contra as Olimpíadas.


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Organizar o povo para fazer revolução Nossa reflexão sobre a atual conjuntura política do país e a necessidade de organizar um povo unido contra o fascismo e pela revolução popular // Por Megafonia


Abrindo as portas da percepção Dilma caiu, Temer se segura e o oportunismo se anuncia como ferramenta de disputa, seja pela esquerda, seja pela direita. O que acontece agora que um processo de impeachment, que por um longo tempo se estendeu, criou rachas entre militâncias e abriu espaço para um falso discurso sobre democracia e polarização partidária, finalmente chega ao seu ponto final? Seria mesmo só isso o objetivo dos que neste momento estão por cima no jogo político? O governo de Dilma Rousseff foi fraco, é fato, mas o homem que hoje às 16h (horário de Brasília) tomará posse da presidência deste país fazia parte do governo petista, graças às alianças partidárias que escancaram a falta de sentido democrático das eleições brasileiras, sentido este que é passado ao povo como único modelo de mudança e disputa justa de classes, mesmo que o planalto não assuma que exista esta disputa, que sabemos muito bem existir. E virá dele a radicalização do que já vinha sendo feito pelo antigo governo. E a esquerda, como fica? Pelo menos nos anos que importam para nós da Megafonia, de 2013 para cá, tempo que cobrimos as lutas políticas e sociais do povo nas ruas, o Partido dos Trabalhadores nunca mostrou ser de esquerda, assim como os sindicatos pelegos, movimentos ligados a ele e pequenos partidos que como braços do governo contribuíram com a repressão, criminalização dos movimentos e da tática Black Bloc, além do esvaziamento das ruas durante vários levantes como o “contra a tarifa”, o “contra a copa”, “secundaristas” e “contra olimpíadas”, este último contou com o oportunismo

76 deles através das frentes que promoveram o “Fora Temer”. Dilma nunca se preocupou com a democratização das mídias, nunca se preocupou com os presos políticos, com os mortos pela militarização que ela colocou nas favelas, pelos professores e estudantes que ainda são perseguidos e humilhados, nunca vimos Dilma dizer uma palavra que seja sobre a repressão policial de seu Estado contra o livre direito de manifestação. Dilma nunca foi amiga da luta autônoma e independente. Agora, ela deixa caminho aberto para seu ex-vice se tornar atual sem a necessidade do sufrágio universal tão defendido por eles. Deixa um partido dos tempos da ditadura, o PMDB (antigo MDB), hoje camuflado com homens como Sarney e Cunha, tomar posse do futuro de cada um de nós. Neste caminho haverá espaço para a burguesia com seus zumbis amarelos, no traseiro de cada deles haverá um PM para defender seus bumbuns de ouro. Em pouco tempo nossa juventude estará nas masmorras superlotadas e o uso das ruas como via de protesto popular cada vez mais distante. É tempo de agir no subterrâneo, de se afastar do partidarismo e do petismo, unir a esquerda revolucionária e abrir caminhos diferentes ao proposto neste momento. Será possível? Enquanto houver ciranda coletiva no lugar de protesto combativo, ou festival pela falsa democracia e darmos crédito ao discurso de que todos naquele planalto estão divididos e não são aliados, não haverá revolução. Estamos andando de costas agora, precisamos de coragem para enfrentar o que está por vir, pois reprimidos seremos.


77 Não existe treta entre tucanos e petistas, entre Psolistas e fãs do Bolsonaro, o que existe aqui é um Estado contra o povo e uma guerra de classes que agora se estenderá através de uma luta entre este povo contra ele mesmo, graças ao velho mito da polaridade partidária que através das mídias portadoras da concessão e do monopólio midiático entorpece o brasileiro e fortalece ações fascistas (sim, eles estão aí). O antigo governo de Rousseff caiu porque junho de 2013 mostrou a verdade e plantou a semente da revolta popular, caiu porque foi e continuará sendo um Estado repressor cheio de res-

Abrindo asportas da percepção quícios de uma ditadura militar ainda fantasmagórica em nosso presente, com sua Polícia Militar e todo seu aparato assassino. A favela chora sangue e ainda temos presos políticos e perseguidos. Não acabou, tem que acabar, mas não será com urna que mudaremos a situação, a resposta deve vir das ruas, sem partido, sem oportunismo. A questão da esquerda e seu futuro no país não depende mais de partidos burgueses fantasiados como revolucionários, depende da autonomia do trabalhador e seu direito ao grito de LIBERDADE. ------------------------------------Estaremos de olho.


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