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ESPORTES

O TEMPO

PÁGINA B7

BELO HORIZONTE • SEGUNDA-FEIRA • 13 DE FEVEREIRO DE 2006

AS PAIXÕES DE HELENO Na agonia demente em Barbacena, o craque fazia questão de lembrar das belas mulheres que conquistou; até a morte sempre falava da paixão pela atriz mexicana Dolores del Rio MAURÍCIO MIRANDA/PEDRO BLANK ENVIADOS ESPECIAIS

ARBACENA e SÃO JOÃO NEPOMUCENO – Heleno de Freitas não foi só um jogador de futebol. Quando estava longe da bola, era encontrado com facilidade nos lugares frequentados pela burguesia carioca. No Copacabana Palace, hotel mais luxuoso da capital federal à época e palco dos encontros do high-society, Heleno sentia-se em casa. Sempre vestindo ternos de linho inglês – alguns feitos pelo alfaiate do presidente Getúlio Vargas –, o ídolo botafoguense balançava as mulheres. As mais belas atrizes e dançarinas se derretiam por Heleno. Todas queriam estar nos braços do deus dos gramados naqueles aristocráticos anos de 1940. Mesmo quando a sífilis destruiu seus neurônios e o transformou num adulto de

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mais de 30 anos com atitudes de uma criança de cinco, na Casa de Saúde São Sebastião, em Barbacena, Heleno não esquecia dos dias em que era a versão brasileira de um astro hoollywoodiano e das mulheres que levou para cama. Nos mais belos sonhos, o goleador atormentado voltava no tempo e se revivia no auge, os cabelos com gomalina e as garotas. Agora gordo e louco, restava ao adônis botafoguense recordar os dias em que tinha a companhia da argentina Evita Péron, da diva Ava Gardner, das cantoras Emilinha Borba, Linda Batista e de vedetes como Brigite Blair e Virginia Lane. Nos seus piores dias no São Sebastião, quando comia papel, engolia suas roupas, comia com as mãos, Heleno sempre citava o nome de uma paixão: Dolores del Rio. Era linda e 15 anos mais velha. Nas sessões de cinema para os internos da clínica psiquiátrica, Heleno perguntava antes do início do

filme: “O filme é da Dolores del Rio?”, conforme conta o médico José Tollendal, responsável pelo tratamento do ex-craque. “Se não tivesse a Dolores (del Rio), ele ia para o quarto dormir. Pode ter sido uma paixão, sim”, diz Tollendal. Dolores era uma atriz mexicana que buscou a fama no cinema norte-americano. Na sua carreira, constam mais de 50 filmes. Um, em especial, a apresentou ao Brasil. Em “Voando para o Rio de Janeiro”, de 1933, no qual contracenou com Fred Astaire, ela adquiriu o fascínio pelo país. Depois disso, veio várias vezes ao Brasil e nessas idas e vindas, tudo indica, ocorreram os encontros com Heleno. “Desse monte de mulheres que falaram que ele teve, o Heleno nunca esqueceu da Dolores. Não cansava de repetir o nome dela”, afirma Tollendal. As evidências também apontam que Heleno pode ter se encontrado com Ava Gardner, ex-mulher de Frank Sinatra e e-

leita a mulher mais desejada de sua época. Como na biografia da diva de Hollywood estão registradas várias hospedagens no Copacabana Palace, as chances de os dois terem se encontrado são grandes. Fluente em inglês e galanteador, Heleno dificilmente deixaria escapar a chance de estar cara a cara com Ava. Com relação às mulheres brasileiras, o funcionário público Valter Antônio, 61, escutou muitas histórias de Heleno. Durante os treinos do Independente, time amador mantido pela Polícia Militar, em Barbacena, o artilheiro – acompanhado de enfermeiros ou dos médicos – quebrava a rotina no São Sebastião e narrava ao recém-adolescente Valtinho suas aventuras amorosas. “Nasceu para gostar de bola e de mulher. Teve caso com Brigite Blair, Linda Batista, Emilinha Borba (botafoguense fanática), Virgínia Lane e várias outras. As mulheres se atiravam no colo do Heleno”, conta Valter.

FOTOS DIVULGAÇÃO

O encontro com Evita

Quando trocou o Botafogo pelo Boca Juniors, da Argentina, em 1948, Heleno, apesar de boicotado pelos colegas de equipe, virou capa da mais renomada revista de Buenos Aires e manteve a fama de frequentar as “altas-rodas”. No time argentino, ficou muito amigo do ex-sãopaulino Yeso Amalfi, que, por sua vez, era íntimo de um dos irmãos do general Perón. Dessa forma, Heleno e Yeso eram frequentadores assíduos do palácio presidencial. Nesses encontros, Heleno conheceu Eva Perón, a mística primeira-dama argentina, que morreu jovem, vítima de um câncer uterino, e até hoje é cultuada no seu país. Em uma de suas crônicas, o jornalista Nelson Rodrigues lança no ar a certeza de que Heleno e Evita mantiveram um affair na temporada que passou no Boca Juniors. O boato ganhou tanta força que muitos asseguram que os dois foram amantes. Quem ouviu Heleno falar de seu romance com Evita foi o ex-goleiro do Madureira e Olimpic, de Barbacena, Danton. Hoje com 74 anos e vivendo na Cidade das Rosas, Danton esteve ao lado de Heleno nos treinos do Olimpic, no campo do Santa Teresa, onde o artilheiro ia matar a saudade da bola. “Se via alguém comentando ou mostrando foto da Evita, Heleno dizia para todos: ‘isso já me pertenceu’. Pronunciava as palavras com tanta convicção que deve ter tido algo com ela”, lembra. O antigo arqueiro está certo. De Heleno, nada é impossível.

Heleno ao lado de Hilda Ava Gardner

Emilinha Borba

Hilma: a esposa do craque Oficialmente, Heleno de Freitas teve um único relacionamento estável. Foi o casamento com Hilma em 1947. De uma das famílias mais tradicionais do Rio de Janeiro, ela conquistou o atacante com sua beleza, refinamento e foi a única felizarda a subir ao altar com o objeto de desejo feminino. Falava fluentemente inglês, francês e espanhol. Mas não suportou as constantes infidelidades do marido, pediu o divórcio e durante o período de sua doença o abandonou completamente. Da união com Hilma, nasceu o único filho de Heleno: Luiz Eduardo, atualmente com 55 anos e residente no Rio de Janeiro. A separação foi tão traumática que Hilma se negou a dar qualquer informação de Heleno ao filho até ele atingir a adolescência. “Heleno viu o Luiz Eduardo a última vez quando ele tinha dois anos. Mas falava na Casa de Saúde que tinha um filho”, diz o médico José Tollendal. Quando se casou com Hilma, um aconteci-

mento que marcou a sociedade carioca, Heleno já apresentava sintomas da demência provocada pela sífilis cerebral. No período em que o goleador esteve no Boca Juniors, em 1948, se separaram. Houve uma tentativa de reconciliação no ano seguinte, porém ela não aguentou conviver com Heleno e pediu o divórcio em 1951. “Nunca mandou uma carta, um bilhete, nada. Quem da família manteve contato com Heleno foram seus irmão Heraldo e Oscar”, afirmou Tollendal. Após a separação, Hilma se casou novamente com João Emídio Costa, sobrinho do ex-governador de Minas Gerais Israel Pinheiro. Novamente, enfrentou problemas e após cerca de 12 anos de união se separou novamente. Em seguida, teve um derrame cerebral, o que comprometeu suas funções motoras. Uma doença na medula prejudicou mais sua saúde e ela morreu em 1977, com 49 anos.

Evita Péron Dolores del Rio

Amanhã: o estilo de vida de Heleno de Freitas, o playboy da década de 40

Heleno de Freitas - O craque maldito 9  

Reportagem do Jornal O Tempo finalista dos prêmios Esso e Embratel em 2006, de autoria dos jornalistas Pedro Blank e Maurício Miranda

Heleno de Freitas - O craque maldito 9  

Reportagem do Jornal O Tempo finalista dos prêmios Esso e Embratel em 2006, de autoria dos jornalistas Pedro Blank e Maurício Miranda

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