Issuu on Google+

ESPORTES

O TEMPO

PÁGINA A19

BELO HORIZONTE • TERÇA-FEIRA • 14 DE FEVEREIRO DE 2006

ETERNA ELEGÂNCIA PEDRO BLANK/MAURÍCIO MIRANDA ENVIADOS ESPECIAIS

ARBACENA E SÃO JOÃO NEPOMUCENO - Mais de 46 anos após sua morte, o mito Heleno de Freitas sobrevive não só pela genialidade de seu futebol, mas por tudo o que ele representou para a sociedade brasileira na década de 1940. Foi um iconoclasta. Depois de Heleno, o mundo da bola jamais viu alguém tão elegante. Um estilo próprio que o craque cultuava desde a adolescência. Quando fez parte dos estudos no Grêmio Mineiro, em Barbacena, mesma cidade em que morreria louco, em 1959, Heleno, apenas com 13 anos, usava uma “touquinha” de crochê, algo que nenhum outro garoto tinha. Todos o admiravam e queriam ser Heleno. Era o mito que nascia. Essa “touquinha” que marca o início da moda Heleno de Freitas revela um segredo que ficou guardado por mais de 70 anos. E quem traz à tona

B

Heleno de Freitas, o primeiro playboy do futebol brasileiro, tinha um jeito próprio de se portar antes mesmo da fama; O TEMPO apurou que o craque chegou a torcer para o Flamengo na adolescência mais essa verdade sobre o goleador atormentado é o psiquiatra José Tollendal, contemporâneo de Heleno no Grêmio Mineiro e, por ironia, o médico que cuidou do atleta nos seus últimos dias. Em entrevista exclusiva a O TEMPO, Tollendal informou as cores da “touquinha”: rubro-negra. O motivo, explica Tollendal, era a paixão que Heleno tinha pelo Flamengo, curiosamente, o único grande clube do Rio de Janeiro do qual ele não vestiu a camisa. Heleno concluiu os estudos no Rio e virou ídolo do Botafogo. No juvenil, atuou pelo Fluminense e, após jogar na Colômbia e na Argentina, retornou ao Brasil para defender Vasco e América-RJ. “Vi o Heleno pela primeira vez no Grêmio Mineiro, aqui em Barbacena. Era muito marrento, puxava o xis (sic) e usava um gorrinho vermelho e preto por causa do Flamengo. Mas ninguém é perfeito (risos), pois nessa época eu era meio Bangu”, conta Tollendal, que se formou em medicina no Rio, virou sócio-atleta do Botafogo em 1940 e torcedor fanático do alvinegro.

Destino “Sua infância, seu destino.” A frase repetida inúmeras vezes em livros de psicanálise, resume com precisão Heleno de Freitas. “Ele era senhor de si, esnobe, não dava bola para ninguém”, diz o barbeiro Florivaldo Ferreira Lima, que também conheceu Heleno de Freitas enquanto ele viveu em Barbacena e estudou no Grêmio Mineiro. No Rio de Janeiro, rico, famoso e desejado pelas mulheres, Heleno de Freitas agiu como o pré-adolescente que estudou em Barbacena. Mesmo com todo o prestígio que os gols do Botafogo lhe conferiam, ele sabia que necessitava de algo mais para frequentar as “altas-rodas”, ser aceito pelos intelectuais e políticos. Tinha de ser doutor. Virou um. Frequentou as aulas da Faculdade Nacional de Direito, em Niterói, pegou o diploma de advogado. Jamais exerceu a profissão, mas, finalmente, era doutor. O ex-goleiro Danton, 74, começava a carreira no Madureira, do Rio, e Heleno

ostentava status de intocável no Botafogo nos anos 40. Via de perto cada façanha do atacante. Anos mais tarde, veio para o Olimpic, de Barbacena, onde Heleno dava seus “chutinhos” para quebrar sua rotina na clínica psiquiátrica. “Dentro do campo, não ligava e podia ser chamado de Heleno. Mas fora tinha de ser doutor Heleno. Por isso, ele estudou direito”, afirma Danton. Doutor, popular e com muito dinheiro no bolso, Heleno estava completo. Encantava pelos gols e por ser Heleno de Freitas. Se transformou no sonho das mulheres e no homem que todos imaginavam ser. No seu guarda-roupa, ternos feitos sob medida e de preferência de linho inglês. Sapatos de couro importados e bicolores. Para adornar o rosto, óculos rayban trazidos dos Estados Unidos. O galã está pronto. Para andar pelas ruas do Rio de Janeiro e visitar os familiares em São João Nepomuceno, na Zona da Mata, Heleno precisava de um carro à altura. Elegeu o Cadillac. No entanto, não era um Cadillac qualquer. Nas renovações de contrato com o Botafogo, sempre exigia um rabo-de-peixe, com acabamento de altíssimo luxo. Para comprovar a suntuosidade do automóvel, basta dizer que os modelos de Heleno vinham de fábrica com duas chaves de ouro.

FOTOS ARQUIVO PESSOAL

Gilda: a mulher que provocava ira

É verdade: Heleno vestiu a toga só para ser chamado de doutor

Um galã dentro e fora do futebol Nos gramados, Heleno não duvidava que era craque. Independentemente do time, fazia questão que sua imagem fora dos estádios exercesse o mesmo fascínio que encantava as massas. E não eram só os gols que enlouqueciam as torcidas, mas o comportamento do matador. Se não tivesse um pente dentro do calção, por exemplo, abandonava a partida. Para Heleno, atrapalhar os cabelos de gomalina durante um jogo podia ser tão grave como desperdiçar um gol debaixo da trave. “Não podia encostar nem brincando no cabelo dele. Se alguém colocasse a mão na sua cabeça era motivo de briga”, diz o ex-goleiro Danton. Fora o pente dentro do calção, Heleno de Freitas tinha poucas manias, porém, curiosas, conforme lembra o funcionário público Valter Antônio, 61, e que conviveu com o craque durante o período em que esteve internado em Barbacena. “Não pegava na bola com sunga debaixo do calção. Odiava”, afirma Valter. Nas chuteiras, Heleno pedia que passassem sebo de boi e gostava de ter apenas os tornozelos massageados com óleo. “Frescura não era com Heleno. Ele curtia uma corrente de ouro no pescoço. Nunca vi ninguém tão elegante”, aponta Valter. Por isso, Heleno vive até hoje. Foi duplamente ídolo. Da bola e da vida.

O atacante botafoguense fascinava usando Ternos bem cortados, óculos ray-ban, gomalina e Cadillacs

Heleno de Freitas amava as mulheres. Sem distinção. De qualquer raça, credo e classe social. Mas uma provocava sua ira e servia de estopim para que o craque botafoguense iniciar uma confusão: Gilda. Naturalmente estourado e criador de confusões, Heleno não se controlava ao ser provocado pelas torcidas adversárias, que o chamavam de Gilda, a bela e neurótica personagem interpretada por Rita Hayworth no cinema. “Gilda”, de 1946, poderia muito bem ser uma versão feminina de Heleno de Freitas. Ambos demonstravam um amor próprio exagerado, bem doentio. Eram belos e envolventes. Conquistavam quem queriam. E se fosse para escolher entre uma briga e uma conversa, não hesitavam em escolher os sopapos para contornar uma situação desfavorável. “O Heleno detestava esse apelido. Chamá-lo de Gilda era mesmo que falar f.d.p”, diz o ex-goleiro do Madureira e Olimpic, Danton. Danton recorda de uma vez que Heleno foi chamado de Gilda no estádio de São Januário. Ele não sabe o ano ao certo, mas o caso comprova o pânico que Heleno tinha de Gilda. Certa vez, após uma partida do Botafogo em São Januário, um grupo de mulheres chegou perto do alambrado para assediar o goleador. Heleno, galanteador, começava a se aproximar quando um homem berrou “Gilda, Gilda, Gilda!”. Surto. Heleno abaixou o calção, balançou as partes íntimas e voou para arquibancada atrás do responsável em tirá-lo do sério. “Pegou o cara e iniciou a confusão. O pau comeu. Ele não engolia desaforo”, afirma Danton. Já debilitado pela sífilis cerebral e pela loucura, Heleno se tornava colérico, mesmo demente, ao ouvir o nome Gilda. “Uma vez, no Olimpic, alguém disse: ‘Gilda, você não é de nada’. Cinco jogadores tiveram de conter Heleno”, declarou Danton.

Saiba mais

Até numa brincadeira na praia, o goleador atormentado mantinha a elegância

Dirigido por Charles Vidor, “Gilda” conta a história de quando Johnny Farrel (Glen Ford) passa a ser gerente de um bar em Buenos Aires, cujo dono é amigo seu. Ao ser apresentado à mulher de seu amigo, Gilda (Rita Hayworth), ele se depara com um amor do passado. Como Gilda é casada, o desejo de ambos fica impossível. Incrivelmente bela e sedutora, Gilda fascinou homens pelo mundo afora ao ponto de ser definida com uma frase enigmática. “Nunca houve uma mulher como Gilda.” Como ela e o goleador atormentado têm muito em comum, a frase acabou sendo adaptada e não se assuste caso ouça que “nunca houve um homem como Heleno”. (PB)

Leia amanhã: o início da demência de Heleno de Freitas e o vício com o éter


Heleno de Freitas - O craque maldito