E&M_Edição 55_Novembro 2022 • Como Sustentar a Sustentabilidade?

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MOÇAMBIQUE EDIÇÃO NOVEMBRO - DEZEMBRO 25/11 a 25/12 • Ano 05 • Nº 55 2022 • Preço 250MZN GALP ENERGIA AOS 65 ANOS NO MERCADO NACIONAL, NÃO DESCARTA INVESTIMENTO NAS RENOVÁVEIS SELAGEM DAS CERVEJAS AT GARANTE QUE A MEDIDA NÃO REDUZ EFICIÊNCIA NA PRODUÇÃO E COMERCALIZAÇÃO INOVAÇÕES DAQUI UNIVERSIDADE PEDAGÓGICA PREPARA CURSOS DE ROBÓTICA E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL CEO TALKS “ESTAMOS ATENTOS A NOVAS ÁREAS DE NEGÓCIO”, PEDRO ANDRÉ DE SOUSA, VISABEIRA A E&M analisa a essência do desenvolvimento sustentável em Moçambique, do COP27 ao ESG, o tempo é de mudança e o mundo coloca a questão no topo da agenda COMO SUSTENTAR A SUSTENTABILIDADE?

OBSERVAÇÃO

Somália

A imagem de um país assolado pela seca, que já leva quatro anos, e pela fome que afecta metade da população 12 OPINIÃO

“O Que é o ESG e Porque é que as Empresas se Devem Preocupar”, Joana Cuambe, consultora na Insite Moç.

MACRO

A completar 65 anos no mercado moçambicano, a Galp Energia renova as perspectivas de se manter e investir em novos projectos energéticos no País

OPINIÃO

MDR “África deverá atingir recorde de investimento através de private equity em 2022. E Moçambique?”, Diana Ribeiro Duarte e Mara Rupia Lopes, MDR Advogados

20 CONTEÚDO LOCAL

Sector privado volta a manifestar preocupação com a falta de regras que protejam empresas nacionais e o Governo acusa o empresariado de fazer pouco para se empoderar

OPINIÃO

“O papel do Fundo Soberano no desenvolvimento industrial do País”, Cláudio Pondja, head of wealth management do Banco Big Moçambique

69ÓCIO

70 Escape Uma viagem pela arquitectura de Maputo 72 Gourmet Ao sabor da ementa do “Galeria”, no Porto de Maputo 73 Adega Vinho e queijo, a nova sugestão da Alumni Wine 74 Empreendedor Dos desenhos de infância às marcas de alta costura para mundo, da estilista Shaazia Adam 77 Arte O rancor e a esperança reencontram-se “Num Dia Igual aos Outros” 78 Ao volante do Buggati Mistral, o descapotável que marca o fim dos motores a combustão

OPINIÃO

“Uma Gestão de Tesouraria Comercial Eficiente Requer Uma Abordagem Diversificada”, Agnallo Nampunda, director de Tesouraria do FNB Moçambique 46

MERCADO E FINANÇAS

A Autoridade Tributária considera que não há margem para protestos contra a obrigatoriedade de selagem das cervejas por parte dos industriais e importadores

24

NAÇÃO

SUSTENTABILIDADE

24 Estágio Actual Especialistas mostram onde estamos e como podemos alcançar o desenvolvimento sustentável nas esferas ambiental, económica e social 36 Opinião “O Marketing na Era da Sustentabilidade”, Tânia Oliveira, directora de Marketing e Relações Corporativas do Absa Bank Moçambique 38 Entrevista Vicente Bento, partner & operations manager da Insite, revela a imagem da sustentabilidade na óptica das empresas e o impacto nos seus resultados

OPINIÃO

“Sustentabilidade – Um Passo a Caminho das Culturas Regenerativas”, Susana Cravo, consultora & fundadora da Kutsaca e da Plataforma Reflorestar.org

50

OPINIÃO

“Desemprego Jovem em África: Bomba-relógio, ou Necessidade Urgente em Buscar Soluções Fora da Caixa e Made in Africa?, João Gomes, JASON Moçambique

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E SPECIAL INOVAÇÕES DAQUI

54 Robótica Educacional Universidade Pedagógica apoia projectos de estudantes de nível secundário e projecta introduzir o grau de licenciatura em robótica e inteligência artificial 58 Netkanema Uma plataforma que contribui para a valorização do cinema moçambicano

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CEO TALKS

Pedro André de Sousa, CEO da Visabeira, assegura que a empresa vai continuar a investir nos diversos sectores da economia e a investir em Moçambique

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Celso Chambisso Editor da Economia & Mercado

O Risco de ‘Matar’ as Próximas Gerações

Q“uando as gerações futuras julgarem as que vieram antes em relação aos temas ambientais, talvez cheguem à conclusão de que não sa biam. Evitemos passar para a história como as gerações que sabiam, mas que não se importaram”.

A célebre frase do antigo estadista e político russo, Mikhail Gorbachev, pro ferida em 2002, era uma espécie de an tevisão do que viria a acontecer 20 anos mais tarde.

De facto, a 27ª Conferência das Na ções Unidas sobre Mudanças Climá ticas (COP27), realizada de 6 a 18 de Novembro no Egipto, terminou como todas as anteriores: sem avanços subs tanciais sobre as metas e compromis sos de redução das emissões de CO2, e apenas “um pequeno passo” no que diz respeito às compensações aos países pobres para enfrentarem os efeitos do aquecimento global.

Se numa reunião de alto nível como esta os consensos têm de ser arrancados ‘a ferro e fogo’, imagine-se o que há-de ser das estratégias internas para buscar a sustentabilidade, sobretudo nos paí ses em desenvolvimento!

Em Moçambique, como em qual quer país de baixo rendimento, o cum primento das metas dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030 está comprometido, não obs tante o grande esforço empreendido pelo Governo, parceiros de cooperação, sector privado e todos os actores vivos da sociedade, e em todas as esferas da

sustentabilidade, nomeadamente a am biental, a social e a económica. Com todas as carências que prevalecem de ponto de vista de capital humano, tec nológico e financeiro, a iniciativa pri vada já demonstra força suficiente para mudar a história do País.

No domínio ambiental, por exemplo, as empresas começam a interessar-se pelas boas práticas, às quais se condi ciona um tipo específico de certificação, que confere um posicionamento des tacado perante a concorrência. Estão também a aumentar os investimentos na reciclagem de resíduos, uma indús tria que cresce a olhos vistos.

Mas com muito caminho pela frente, tanto em Moçambique como no mun do, mesmo admitindo não se tratar de falta de vontade em atender aos impe rativos da sustentabilidade, parece ine gável que as gerações futuras, ao olhar para trás, possam ver e dizer o que há 20 anos Gorbachev sugeriu que se evitasse.

Nesta edição, a E&M procura tam bém explorar o fenómeno do início da obrigatoriedade, em Novembro, de se lagem da cerveja e outras bebidas pron tas a consumir (as chamadas sidra).

Este é um assunto que opõe os in dustriais e importadores –, que alegam que a medida é lesiva em termos finan ceiros e que vai obrigar ao aumento dos preços destes produtos no mercado – , à Autoridade Tributária –, que entende ter concedido espaço suficiente para uma negociação sem ter prejudicado nenhuma das partes, não existindo, por isso, espaço para desacreditar a sua decisão.

25 NOVEMBRO | 25 DEZEMBRO 2022 • Nº 55

DIRECTOR EXECUTIVO Pedro Cativelos

EDITOR EXECUTIVO Celso Chambisso

JORNALISTAS Ana Mangana, Filomena Bande, Hermenegildo Langa, Nário Sixpene, Yana de Almeida

PAGINAÇÃO José Mundundo

FOTOGRAFIA Mariano Silva

REVISÃO Manuela Rodrigues dos Santos

ÁREA COMERCIAL Marcia Mbuvane marcia.mbuvane@media4development.com

CONSELHO CONSULTIVO

Alda Salomão, Andreia Narigão, António Souto; Bernardo Aparício, Denise Branco, Fabrícia de Almeida Henriques, Frederico Silva, Hermano Juvane, Iacumba Ali Aiuba, João Gomes, Narciso Matos, Rogério Samo Gudo, Salim Cripton Valá, Sérgio Nicolini

ADMINISTRAÇÃO, REDACÇÃO

E PUBLICIDADE Media4Development

Rua Ângelo Azarias Chichava nº 311 A — Sommerschield, Maputo – Moçambique; marketing@media4development.com

IMPRESSÃO E ACABAMENTO

Minerva Print - Maputo - Moçambique

TIRAGEM 4 500 exemplares

EXPLORAÇÃO EDITORIAL E COMERCIAL

EM MOÇAMBIQUE Media4Development

NÚMERO DE REGISTO 01/GABINFO-DEPC/2018

www.economiaemercado.co.mz | Novembro 2022 4
E DITORIAL

Somália, 2022

A Pior Seca dos Últimos 40 Anos

A seca que dura há quatro anos e a estiagem há dois fazem da Somália o ponto do mundo que mais precisa de ajuda humanitária na actualidade. De acordo com o Programa Mundial de Alimentação (PMA), que alerta para a possibilidade de um cenário ainda pior em 2023, a fome aguda atinge, agora, 60% da população, cerca de 7,6 milhões de pessoas.

As crianças estão entre as principais vítimas desta catástrofe, por isso, o PMA pediu que a 27ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP27), que teve lugar recentemente no Egipto, adoptasse mecanismos de ajuda imediata e assegurasse a chegada de investimento aos mais afectados, receando que a chuva escassa, a seca persistente e a crise alimentar se alastrem aos países vizinhos.

O mundo já mobiliza apoio à Somália, mas não é suficiente uma vez que a situação é verdadeiramente desesperante.

Os quatro anos consecutivos de seca afectam também milhões de habitantes no Quénia e na Etiópia.

No território somali, está a decorrer uma avaliação da insegurança alimentar que deverá culminar, até ao final deste ano ou início do próximo, com uma declaração de crise de fome.

Aliás, o Governo somali tem sido criticado por ainda não ter declarado este estado apesar da grave situação que o país atravessa. Esta atitude é vista como uma repetição do erro cometido em 2011, quando mais de 130 mil pessoas morreram antes de a fome generalizada ter sido declarada, o que teria permitido maior celeridade na mobilização de apoio humanitário.

FOTOGRAFIA D.R.
OBSERVAÇÃO 6
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7 www.economiaemercado.co.mz | Novembro 2022

Panorama Banco de Moçambique alerta sobre continuação da pressão inflacionária

O Banco de Moçambique (BdM) alertou que o País poderá continuar a registar pressão inflacionária devido aos efeitos do reajustamento dos preços dos com bustíveis no custo de bens e serviços.

A instituição prevê o retorno da infla ção anual para um dígito como resulta do dos recentes aumentos das taxas de juro e a manutenção da estabilidade da taxa de câmbio.

Recorde-se que em Outubro o INE reportou um nível de inflação homólo ga na ordem dos 11,83%, impulsionado pela subida de preços nos sectores dos transportes e alimentação, e bebidas

Literacia Bolsa de Valores de Moçambique já tem uma biblioteca

Foi inaugurada, a 28 de Outubro, a Bi blioteca da Bolsa de Valores de Moçam bique – a Biblioteca-BVM – cujo objec tivo é prover informação e documentos sobre mercados de capitais e bolsas de valores, bem como divulgar actividades, produtos e serviços da BVM.

Visa ainda elevar o nível de educação e literacia financeira do público sobre economia, sistema financeiro, desenvol vimento, contabilidade, auditoria e ges tão, entre outros domínios. A bibliote ca situa-se no prédio 33 andares, rés-do -chão, n.° 7.

A instituição conta ainda com publi cações e trabalhos de fim de curso, no meadamente monografias, disserta ções de mestrado, teses de doutoramen to, entre outros documentos, tendo co mo público-alvo estudantes, professo res, empresários, investidores, investiga dores, operadores financeiros e público em geral.

não alcoólicas em 20,12% e 19,55%, res pectivamente. Apesar disso, o governa dor do BdM, Rogério Zandamela, afir mou que a economia deverá estar em contínua recuperação graças à execução dos projectos energéticos em Inhamba ne e na bacia do Rovuma, e graças tam bém à retoma do apoio directo ao Or çamento do Estado pelos parceiros de cooperação.

Zandamela disse que o BdM tem vin do a tomar várias medidas para manter a estabilidade e integridade do sistema financeiro nacional e a expandir os ser viços financeiros .

A Bélgica vai desembolsar 25 milhões de euros (equivalente a 1,5 mil milhões de meticais), nos próximos cinco anos, pa ra o desenvolvimento das energias reno váveis e gestão de resíduos no País, atra vés de um novo programa de cooperação.

A informação foi avançada pelo mi nistro de Desenvolvimento da Bélgica, Frank Vandenbroucke, por ocasião da COP 27, que teve lugar no Egipto.

“O nosso país (Bélgica) vai ajudar Mo çambique para que possa investir em energia verde em vez de combustíveis

fósseis”, informou o governante belga. O apoio, para o período 2023–2028, será atribuído tendo em conta que Moçambi que é indicado como um dos países mais vulneráveis às mudanças climáticas e é, ao mesmo tempo, um dos menos desen volvidos do mundo.

Apesar das riquezas do subsolo, a ini ciativa prevê estudos para a produção de hidrogénio verde em Moçambique, e a Agência Belga de Desenvolvimento vai alimentar áreas remotas sem ligação à re de eléctrica com painéis solares.

Segundo o ministro dos Transportes e Comunicações, Mateus Magala, os in vestidores dos Emirados Árabes Unidos estão interessados pelas políticas ma croeconómicas que estão a ser imple mentadas pelas autoridades moçambi canas e pelo (bom) ambiente de negó cios prevalecente.

“Os empresários dos Emirados Ára bes Unidos têm um enorme interesse em investir em vários domínios em Mo çambique, porque têm um grande exce dente em termos de liquidez”, afirmou Magala, por ocasião da recente visita de quatro dias que o Presidente da Repú blica, Filipe Nyusi, realizou àquele país asiático.

“As infra-estruturas como portos e aeroportos são áreas com potencial pa ra a captação de investimento dos em presários dos EAU”, referiu o governante.

www.economiaemercado.co.mz | Novembro 2022 8 RADAR
Energética Bélgica apoia Moçambique com 25 milhões de euros
Transição
Cooperação Emirados Árabes Unidos manifestam interesse em investir em Moçambique

O Governo procedeu ao lançamen to de três novas sociedades de ges tão e abastecimento de água para melhorar a qualidade e eficiência dos serviços, e proporcionar uma oportunidade ao sector privado pa ra se envolver nesta rede.

Tratam-se das sociedades co merciais Águas da Região do Norte, Águas da Região do Centro e Águas da Região do Sul e, para assinalar a sua operacionalização, o director

geral do Fundo de Investimento e Património do Abastecimento (FI PAG), Victor Tauacale, rubricou os contratos de gestão delegada com os PCA das sociedades comerciais.

Na ocasião, o ministro das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hí dricos, Carlos Mesquita, que presi diu à iniciativa, explicou que, com a criação destas sociedades, have rá mudanças profundas do lado do FIPAG, que “deverá fazer uma refor ma interna, de modo a adequar-se às novas funções, uma vez que dei xará de fazer a gestão directa dos sistemas de abastecimento de água”.

O governante lembrou que na história do País o abastecimento de água à zona urbana era feito através dos serviços municipalizados de água e electricidade e, depois da in dependência nacional, devido à de gradação dos serviços prestados, o Estado intervencionou e criou em presas estatais.

Ajuda externa PNUD disponibiliza 66 milhões de dólares para a reconstrução de Cabo Delgado

O Programa das Nações Unidas pa ra o Desenvolvimento (PNUD) vai dar mais de 60 milhões de dólares para a reconstrução de Cabo Del gado.

O apoio faz parte de um paco te de cinco anos, destinado a várias iniciativas, com destaque para a re cuperação da cidade da Beira.

Esta intenção foi revelada pela directora-adjunta do Escritório Re

gional do PNUD para África, Nou ra Hamladji, que manteve, recen temente, um encontro de cortesia com o primeiro-ministro, Adriano Maleiane.

A dirigente disse que o apoio a Moçambique tem sido uma das prioridades da organização, princi palmente no que diz respeito à re construção e promoção de acções amigas do ambiente.

www.economiaemercado.co.mz | Novembro 2022
Água e saneamento Governo lança três novas sociedades de gestão e abastecimento de água

Os Resíduos Plásticos (Mal) Geridos por País

O plástico é um dos materiais mais úteis, mas a sua proliferação descontrolada criou uma montanha de resíduos que ascende a mais de 350 milhões de toneladas geradas por ano, sendo que apenas uma fracção é reciclada.

Cerca de um quinto acaba na categoria mal gerida, o que sig nifica que não é reciclada e, por isso, é despejada ou enterrada sem práticas adequadas de gestão de resíduos.

Os resíduos plásticos mal geridos ameaçam o ambiente terres tre e marinho, e a maior parte deles não se decompõe, poluindo o ambiente durante centenas ou mesmo milhares de anos. Num momento em que ainda se fazem os balanços da COP27, a info

grafia ajuda-nos a perceber quem são os maiores contribuidores desta estatística pouco amiga do meio ambiente ao nível dos resí duos plásticos mal geridos, com base em dados de um estudo de Meijer et al. publicado na revista Science Advances.

Os países asiáticos são responsáveis pela maioria dos resíduos plásticos mal geridos a nível mundial (MPW), e muitos dos prin cipais rios emissores de plástico estão concentrados precisamen te nessa região.

A Índia e a China são os únicos países que representam mais de dez milhões de toneladas de MPW, embora isso possa ser par cialmente impulsionado pelos seus números de população.

Oceânia

Nações mais desenvolvidas como o Japão, a Alemanha ou os EUA estão entre os maiores exportadores de resíduos de plástico para as nações em desenvolvimento.

NÚMEROS EM CONTA
Valores per capita, anuais, em libras As Filipinas são responsáveis por quatro milhões de toneladas ou 37% do plástico não reciclado e enviado para os oceanos anualmente. América do Norte África América Latina Ásia Europa
Outra Ásia 2,8M Outra Ásia 4,0M África do Sul 708k Malásia 814k Filipinas 4,0M Tailândia 1,4M Turquia 1,7M Vietname 1,1M Paquistão 1,3M Bangladesh 1,0M Indonésia 824k Ven. 671k República Democrática do Congo 1.4M Cam. 579k Brasil 3,3M 1,0M Outra América Latina Tanzânia 1,7M Sudão 782k Egipto 1,4M Nigéria 1,9M Argélia 765k Índia 13,0M China 12,2M Oceânia 0,1M América do Norte 2,0M O arquipélago das Comoros é responsável por 4535 garrafas de meio litro por habitante anualmente deitadas ao mar anualmente. Trinidad e Tobago Suriname Filipinas Zimbabué Comores
em
sem capacidade de reciclagem
Os maiores poluidores per capita são pequenas nações
desenvolvimento
de plástico.
China é também
de
32%
global em 2022 10 www.economiaemercado.co.mz | Novembro 2022 O TOP 5 DOS MAIORES POLUIDORES
A
o maior produtor
materiais plásticos, representando
da produção
FONTE Visual Capitalist

As organizações que implementam boas práticas de ESG tendem a ser mais eficientes e menos voláteis, ganhando assim vantagem competitiva nos mercados onde actuam

O Que é o ESG e Porque as Empresas se Devem Preocupar

Se é empresário, colaborador de uma Organização ou até mesmo um investidor, certa mente já ouviu falar de ESG. Se ainda não ouviu esta ter minologia, este é o momento certo para começar a debruçar-se sobre este assunto, pois vai acompanhá-lo du rante os próximos tempos.

Critérios ESG

Embora este tema tenha começado a ser falado mais recentemente, a prática ESG não é nova. Na década de 60, exis tia no mercado um conjunto de “inves tidores responsáveis”, que, já naquela al tura, excluíam investimentos em negó cios como o tabaco, armas ou produtos provenientes de países em conflito (So cialy Responsible Investing).

Ao longo do tempo, os critérios que integram os três pilares ESG (Environ mental, Social e Governance), têm-se demonstrado vitais para o bom desem penho das Organizações. Actualmente, para além das questões levantadas dos anos 60, existem outras áreas para as quais empresas e investidores dirigem as suas preocupações.

Do ponto de vista ambiental, e no se guimento da COP27, a Cimeira do Cli ma realizada em Novembro deste ano, no Egipto, tornou-se claro que a princi pal preocupação da maioria dos países está relacionada com as alterações cli máticas e os seus efeitos nefastos para o planeta.

A comprovar isso está o facto de, pe la primeira vez numa COP, ter sido intro duzido o tema da compensação finan ceira aos países que estão mais vulne ráveis climaticamente, tendo sido dado um passo histórico ao ser aprovado um acordo para a criação de um fundo para financiar perdas e danos causados pelas alterações climáticas.

Para além do clima, outras preocu pações fazem parte da letra “E” da sigla, tais como a transição energética, os mer cados de carbono, a gestão de resíduos,

a eficiência hídrica ou a conservação da biodiversidade. Na área social (“S”), o foco não está apenas nas questões la borais e de saúde e segurança dos traba lhadores, mas também no respeito pelos Direitos Humanos, na Igualdade de Gé nero e na boa relação que as Organiza ções devem estabelecer com a comuni dade local.

Quanto à governança (“G”), medidas como o estabelecimento de políticas e práticas antifraude e anticorrupção, ges tão de riscos, segurança de informação e continuidade de negócios contribuem para que as empresas e instituições evi denciem que estão em conformidade não só com a legislação, como também com as normas internacionais que regu lam esta matéria. Tais critérios são usa dos por investidores para avaliar as em presas nas quais pretendem investir.

Investimentos sustentáveis

Actualmente, investir em empresas vai mais para além da obtenção de lu cros fáceis e dividendos. Como aborda do nos parágrafos anteriores, hoje exis tem mais factores a ter em conta e os in vestidores tendem a valorizar investi mentos mais sustentáveis.

A norte-americana BlackRock, por exemplo, representa sete dos dez maio res Fundos de Investimento ESG a ní vel mundial, entre os quais a iShares que apoia investidores de todo o mundo na escolha de empresas ambiental e so cialmente responsáveis, e cujas ativida des não contribuem para o aumento das emissões de gases com efeito estufa na atmosfera.

Só para se ter uma ideia dos valores que estão envolvidos e da oportunida de para as empresas, de acordo com o último relatório emitido em 2020 pela Global Sustainable Investment Alliance (GSIA), foi investido um valor de 35,3 tri liões de dólares americanos em empre sas sustentáveis localizadas em apenas cinco mercados, um aumento de 15% face ao período entre 2018 e 2020. Só os

www.economiaemercado.co.mz | Novembro 2022 12 OPINIÃO
Joana Cuambe • Consultora na Insite Moçambique

mercados dos Estados Unidos da Améri ca e da Europa representam 80% dos ac tivos sustentáveis.

No que diz respeito ao continente africano, já existem sinais interessantes que indicam que o mercado ESG está a desenvolver-se, especialmente em paí ses como a África do Sul, no qual foi pu blicado o Código de Investimento Res ponsável (CRISA – Code for Responsi ble Investing in South Africa), ou como a Nigéria, que lançou em 2018 o seu Có digo de Governança Corporativa, dedi cando uma secção à sustentabilidade e às questões de ESG.

Vantagens para as empresas

As organizações que implementam boas práticas de ESG tendem a ser mais eficientes e menos voláteis, ganhando assim vantagem competitiva nos merca dos onde actuam.

As métricas de ESG são importantes não só para os investidores decidirem em que empresas investir, como também para os consumidores escolherem que produtos comprar e para os trabalhado res decidirem onde querem trabalhar.

Uma organização que se esforça em melhorar as condições de trabalho dos

seus colaboradores, que promove a di versidade e que retribui à comunida de tem uma maior hipótese de reforçar a sua marca junto dos seus consumido res. Outra das vantagens de um Progra ma ESG é a sua capacidade de melhorar a performance financeira das Organiza ções. Medidas para o uso mais eficiente da energia ou para a redução de consu mos de água ou matéria-prima, ajudam as empresas a minimizar os seus custos operacionais.

Por outro lado, empresas que estejam em compliance estão também menos ex postas a riscos e a certas penalidades co mo coimas e multas por incumprimen to legal. Portanto, a adopção de práticas ESG torna as empresas mais atractivas para potenciais investidores, bem como para a banca no que diz respeito a ofer tas de crédito e abertura de novas linhas de financiamento.

Como implementar os critérios ESG?

Nem todos os aspectos relacionados com ESG são prioritários para as Orga nizações e nem todos estão relacionados com as alterações climáticas, por isso é importante definir uma estratégia para a sua implementação. À semelhança do

que acontece na implementação de nor mas internacionais como, por exemplo, as normas ISO, a adopção de um progra ma ESG requer várias etapas.

É necessário considerar todas as par tes interessadas em jogo, avaliar pontos fortes e fraquezas, riscos e oportunida des, definir quais as acções prioritárias a implementar no terreno e monitorizar continuamente os indicadores de modo a verificar se os objectivos estão a ser al cançados.

Importa também realçar que, para os diferentes sectores de actividade (ex.: fi nanceiro, indústria, serviços,…), existem standards internacionais específicos, que devem ser seguidos.

Como reportar

Após a implementação dos critérios ESG, e respectiva monitorização dos in dicadores, é crucial comunicar os resul tados a todos os stakeholders: clientes, colaboradores, fornecedores, regulado res, comunidade e investidores.

As Organizações, ao disponibiliza rem de uma forma transparente este ti po de informação, dão confiança e cre dibilidade ao mercado e uma maior se gurança a quem investe e financia os seus projectos.

As Normas GRI (Global Reporting Ini tiative) são das mais reconhecidas no mercado e são uma excelente referên cia para as Organizações que pretendem elaborar os seus relatórios de sustenta bilidade anuais.

Divididas em três séries (Universais, Normas Sectoriais e Normas Temáticas), podemos encontrar normas para o sec tor do Oil & Gás, por exemplo, assim co mo normas mais transversais como as da energia, emissões, saúde e segurança no trabalho ou diversidade e igualdade de oportunidades.

Para além da GRI, existem outras normas desenvolvidas por outras orga nizações, tais como as da Sustainability Accounting Standards Board (SASB) ou as da Task Force on Climate (TCFD) que focam sobretudo os impactos financei ros dos riscos ESG.

Em síntese, a implementação de cri térios ESG nas Organizações torna-as mais resilientes, eficientes, competitivas e “apetecíveis” para os investidores que procuram, neste momento, investimen tos sustentáveis, ou seja, organizações e projectos que respeitem o meio ambien te, as pessoas e a boa governança.

Mais do que uma moda, o ESG veio para ficar e as empresas devem acompa nhar os sinais dos tempos. Caso contrá rio, vão perder o comboio da sustentabi lidade.

www.economiaemercado.co.mz | Novembro 2022 13
As três componentes da sustentabilidade são complementares e interdependentes

Aos 65 anos, uma Aposta Renovada... nas Energias Renováveis

A Galp entrou no mercado nacional em 1957, e tendo atravessado vários contextos socioeconómicos e políticos da vida do País, assume com propriedade a próxima etapa da sua presença no mercado: se a estratégia global ditou o fim do investimento na exploração de combustíveis fósseis e mais de metade das suas aplicações – até 600 milhões de euros anuais – irá para novos projectos na área das renováveis, em Moçambique, o CEO da empresa, Paulo Varela, abre também a porta a este tipo de projecto.

Fora da Península Ibérica, Mo çambique é o país onde a em presa energética portugue sa mais investiu nos últimos cinco anos, essencialmen te na área da logística, tendo aumenta do a rede de enchimento e armazena mento (Matola e Beira) e abastecimento. E a perspectiva é que assim continue a ser nos próximos anos, adianta o CEO da empresa Paulo Varela.

A completar 65 anos de presen ça ininterrupta no mercado nacional, a Galp que tem uma presença marcada nos três segmentos do ramo dos com bustíveis (downstream, midstream e upstream) olha com interesse para o po tencial de Moçambique ao nível das re nováveis, sem esquecer a presença nos grandes projectos de gás do Rovuma (dos quais é um dos accionistas) e ga rante que vai continuar a apostar no GPL para forcecer o mercado interno.

São 65 anos da Galp em Moçambique. Pedia-lhe uma retrospectiva e que nos conte o que esperar daqui para frente?

A GALP começou as actividades em 1957 através de uma empresa designada Moçacor, dedicada à distribuição e co mercialização de gás GPL, e que resul tou de uma sociedade entre a Moçacor e a Sonap Moçambique.

A Moçacor sempre esteve ligada ao sector de GPL, mas, posteriormente, em 1997, constituiu-se a Petrogal Moçambi que e, no ano seguinte (1998), foi cons truído o primeiro posto de abastecimen to de combustíveis com a marca Galp.

Em 2001, a Petrogal Moçambique acabou por adquirir uma participação que a Petromoc ainda tinha na Moça cor. A Petromoc resultou da nacionaliza

ção de um conjunto de activos relativos à distribuição, armazenagem e refinação de combustíveis. Mais tarde, a Petrogal Moçambique fundiu-se com a Moçacor e transformaram-se numa só empresa em 2006. Antes disso, em 2004, já tinha sido feita a reabilitação da linha de en chimento da cidade da Matola, moder nizada no ano passado.

Em 2008, a Petrogal Moçambique acabou por adquirir os activos que a SHELL detinha em Moçambique e nou tros países onde operava, nomeada mente Essuatíni e Gâmbia e, a partir daí, a Galp, através da Petrogal, que é a em presa com a qual fazemos a distribui ção, tem feito o seu percurso e continua a investir, quer no negócio do GPL, quer num conjunto de activos, em terminais logísticos, sendo que continuamos a ex pandir a nossa rede de postos, o que nos faz estar hoje em todo o País.

A exportação do gás natural é uma das grandes notícias dos últimos anos e o primeiro projecto, de que a Galp faz parte, até agora foi bem-sucedido…

Sem dúvidas, e é um projecto do qual Moçambique se deve orgulhar porque representa um investimento muito sig nificativo: são mais de 7 mil milhões de dólares e foi desenvolvido de forma exemplar, dentro do prazo em que esta va estipulado.

A Decisão Final de Investimento foi tomada em 2017 e, desde o primeiro momento, a previsão apontava para o início da exploração no último trimestre de 2022. Apesar de ser um projecto de grande complexidade, numa plataforma flutuante, com um desafio tecnológico muito acentuado e atravessado pelo co vid-19, estamos dentro do prazo.

Obviamente, todos os membros do consórcio deram o seu contributo para este projecto ser o sucesso que é efecti vamente, e acho que vai ter um carácter transformacional, vai colocar o País co mo um produtor de gás natural de re levância global. Esta é a primeira fase. Esperamos por outros projectos sub sequentes, mas acredito que este terá um impacto significativo no crescimen to e na reconfiguração da economia de Moçambique.

Em que ponto estamos ao nível dos preços de combustível, algo de que as pessoas se têm queixado muito?

Vive-se em todo mundo um ambien te particularmente difícil. Estamos a atravessar uma crise energética muito significativa. Apesar de se referir à guer ra na Ucrânia como a causa próxima (e a crise foi agravada por esse evento), o fac to é que ela já existia antes e decorre do sub-investimento que ocorreu de 2014 para cá. Houve, portanto, um decrésci mo na produção, quer de gás, quer de produtos petrolíferos, que levou à situa ção em que nos encontramos hoje.

O mercado está sub-abastecido. É evidente que em Moçambique isso tam bém teve repercussões sérias. Apesar de

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Texto Pedro Cativelos • Fotografia Mariano Silva
MACRO GALP

os preços não terem subido tanto como subiram nos mercados internacionais, o preço de venda ainda não reflectiu inte gralmente o incremento de custos inter nacionais, mas, ainda assim, reconhece mos que já subiu de forma significativa e está a causar um peso grande no aumen to do preço de muitos produtos.

O País tem procurado encontrar for mas para mitigar esse impacto nos con sumidores e o Governo tem optado por não transferir para o preço de venda ao público, na íntegra, o custo dos produ tos. Esse esforço tem vindo a ser supor tado pela indústria, pela Galp e por todas as empresas que estão nesse mercado.

Existe alguma solução à vista nas ne gociações com o Governo?

É um tema que temos vindo a, de for ma construtiva e aberta e junto do Go

verno, procurado encontrar uma solu ção, uma vez que não é sustentável nem as empresas poderão, de forma indefini da, continuar a acumular défices como está a ocorrer. Mas é um tema que es tá a ser discutido entre a AMEPETROL (Associação Moçambicana das Empre sas Petrolíferas) e acreditamos que vai resolver-se. Mas não deixa de ser uma preocupação, neste momento, para to da a indústria, o facto de ter acumulado, todos os meses, um défice que já atingiu números significativos.

Ainda assim esperamos que se possa encontrar uma solução que consiga con ciliar todos os interesses em jogo porque nós também compreendemos o impac to que o preço dos combustíveis tem na economia e nos consumidores.

Mas a falta de combustíveis ou a sua dificuldade de acesso tem também ou

tro tipo de repercussões e temos de en contrar aqui um equilíbrio para que is so não ocorra.

Quem é que sabe quando os combustí veis vão baixar?

Penso que ninguém saberá porque os factores que neste momento condicio nam os preços dos combustíveis são di versos. O receio que temos é que conti nuarão altos por mais tempo porque as razões da disrupção que ocorreu não se vão alterar de forma significativa nos próximos meses. Mas a possibilidade de continuarem elevados é grande em ter mos globais, uma vez que os preços de venda dos combustíveis não se reflecti rem nos custos, alguém terá depois de suportar esses custos. Não há nenhum milagre económico que se possa fa zer. Este tema preocupa-nos a todos. Ao contrário do que se pensa, vivemos num ambiente melhor quando os preços dos combustíveis são baixos porque o con sumo é maior e a margem é fixa.

Há alguns meses, a imprensa falou muito de uma acusação feita pela Au toridade Tributária, dando conta de os postos de combustível da empresa cometem irregularidades na factura ção e compras. Gostava que falasse um pouco sobre esta questão.

Obviamente que a Galp foi alvo de um conjunto de insinuações e afirma ções não fundamentadas, com objecti vos que não conseguimos determinar com exactidão. O que posso dizer sobre isso é que a Galp cumpre todas as suas obrigações fiscais aqui e em todo o mun do onde opera, somos uma empresa res ponsável que faz parte dos maiores con tribuintes fiscais em Moçambique, e a própria Autoridade Tributária tem reco nhecido isso.

Recentemente, em Março, recebemos a informação de sermos a empresa clas sificada em primeiro lugar na categoria de direitos aduaneiros, o que significa que cumprimos integralmente todas as nossas obrigações fiscais. Sempre o fize mos e continuaremos a fazê-lo. Por isso, desconhecemos em absoluto o que esta ria por detrás dessas insinuações. Mas is so não interferiu em nada na nossa prio ridade. Temos um diálogo normal e per manente com a Autoridade Tributária.

Não temos nenhuma notificação de nenhum incumprimento de que tenha mos sido acusados e, se houvesse, se ria endereçado de forma própria e não em praça pública. O facto é que a nos sa interacção com a Autoridade Tribu tária tem acontecido nos canais pró prios, dentro de um espírito de colabo ração e abertura. Por isso sabemos que

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“Em Março, recebemos a informação de estarmos em primeiro lugar na categoria de direitos aduaneiros, o que significa que cumprimos todas as nossas obrigações fiscais”

as notícias que correram não têm na da que ver com a Autoridade Tributária.

Quais são as perspectivas em relação ao GPL?

Os dois terminais logísticos que a Galp construiu em parceria com outros operadores, um na Matola e outro na Beira, são instalações mais modernas em termos tecnológicos, de sistemas de protecção e segurança, incluindo o am biental. São dois projectos de grande di mensão e qualidade que muito nos or gulham. No seu conjunto representa ram mais de 150 milhões de dólares de investimento, sendo que o terminal da Matola, além da questão dos combustí veis (60 milhões de litros de armazena gem), tem capacidade de 6 milhões de litros de GPL, o que veio mais do que duplicar a capacidade de armazenagem do Sul do País e reforçar a capacidade de abastecer o mercado e continuar a fazer face a uma procura crescente.

Estamos bastante satisfeitos com a forma como as coisas estão a correr, já foram transitados cerca de 1 250 000

metros cúbicos de combustíveis líqui dos nos dois terminais e já movimentá mos mais de 30 mil toneladas de GPL. Portanto, são claramente investimentos virados para o futuro, cujo retorno vai sentir-se a médio e longo prazo.

Complementámos esse investimen to de armazenagem com o que fizemos no ano passado, de superar 12 milhões de dólares na reconversão e moderni zação da nossa unidade de enchimento de garrafas GPL. Essa nova linha de en chimento foi inaugurada em Novembro do ano passado e veio não só duplicar a nossa capacidade de enchimento pa ra bastecer o mercado como dar maior rigor no controlo de qualidade e na di gitalização de todo o processo de em balagem e pesagem do próprio produ to, o que nos traz garantias adicionais na qualidade que transmite à confiabili dade do produto que estamos a entregar aos clientes. À medida que se promove a substituição da lenha e do carvão co mo meio de confecção de alimentos pe lo GPL, acreditamos que esse seja outro papel importante que desempenhamos.

De que forma olham para o mercado das renováveis que está em expansão?

Em termos de grupo Galp, já assumi mos o compromisso de neutralidade car bónica até 2050 e temos uma estratégia perfeitamente clara de aposta significati va nas energias renováveis. Temos cons ciência e a nossa visão para este processo é que se trata de uma transição. Os com bustíveis fósseis não podem acabar do dia para a noite, temos de ter isso em mente. Iremos continuar a investir e a desenvol ver as reservas, as unidades de produção onde já estamos, mas não faremos novas explorações de combustíveis fósseis.

Ao mesmo tempo vamos investir sig nificativamente em fontes alternativas e renováveis de baixo carbono. Tipicamen te, a Galp prevê investir entre 1000 mi lhões e 1200 milhões de euros por ano, e 50% desse montante (entre 500 e 600 mi lhões de euros) será dedicado às energias renováveis. Estamos a falar da energia so lar fotovoltaica. Neste momento, a Galp é um dos maiores produtores da Península Ibérica e também já fez um investimento muito significativo no Brasil.

Estamos a pensar num projecto de energia com base em hidrogénio na re finaria de Sines, queremos transformá-lo num parque de energias verdes. Existem também outros investimentos na cadeia de valor das baterias através da produção do lítio. Estamos a posicionar-nos em re lação ao futuro de forma muito significa tiva porque acreditamos que a transição energética é um imperativo.

No plano de investimento em Moçam bique, há algum projecto que se desta que para os próximos anos?

Acabámos um ciclo de cinco anos no qual fizemos investimentos muito signi ficativos, quer na logística, quer na parte de GPL. Nos próximos anos, o nosso ob jectivo passa por consolidar esse inves timento, rentabilizar e optimizar as suas condições de operacionalidade, sempre protegendo a segurança na operaciona lização, que é um valor muito significati vo para nós.

Queremos também expandir a rede de postos, e prevemos acabar o ano 2022 com mais de 70, sendo que todos os anos prevemos continuar a acrescentar cinco a sete postos de abastecimento.

O nosso projecto passa, portanto, por continuar a aumentar a polaridade da nossa presença e continuar a investir no GPL. A médio prazo vamos olhar para a armazenagem e logística de GPL no Nor te do País para complementar a activida de que já temos, já que neste momento só existe armazenagem de GPL em Maputo e na Beira.

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“Queremos expandir a rede de postos de abastecimento e prevemos acabar 2022 com mais de 70. Todos os anos acrescentamos cinco a sete postos”
Diana Ribeiro Duarte & Mara Rupia Lopes • MDR Advogados

África Deverá Atingir Recorde de Investimento Através de Private Equity em 2022. E Moçambique? Á

frica deverá ter o seu me lhor ano de sempre no que diz respeito ao inves timento através de veícu los de private equity: se gundo dados apresenta dos pela African Private Equity and Ven ture Capital Association1 (AVCA), o con tinente fechou o primeiro semestre de 2022 com um total de US$ 3,5 mil mi lhões investidos, e as projecções indi cam que pode alcançar um recorde de 7 mil milhões de dólares investidos no fi nal do ano.

A AVCA destacou que a África Oci dental obteve a maior fatia de financia mento, com cerca de 33%, tendo a Nigé ria como líder no continente (sendo se guida pelo Quénia).

E onde fica Moçambique nesta ima gem?

2. Outro obstáculo prende-se com a contabilidade dos fundos e socie dades de capital de risco. Nos ter mos da lei, a contabilidade dos fun dos é organizada de acordo com as normas emitidas pelo Banco de Mo çambique.

No entanto, tanto quanto é do nos so conhecimento, até à data não foi emitida qualquer regulamentação sobre esta matéria. Ora, esta omis são pode acarretar bastante incerte za junto dos stakeholders, nomeada mente quanto à valorização dos in vestimentos no balanço do fundo, e prejudicar gravemente a criação de novos fundos de capital de risco.

“Apesar da importância reconhecida ao sector, nomeadamente quanto à sua potencialidade para contribuir para o desenvolvimento económico, diversos factores têm desencorajado a entrada de veículos de investimento de private equity no mercado...”

Apesar da importância reconhecida ao sector, nomeadamente quanto à sua potencialidade para contribuir activa mente para o desenvolvimento econó mico, a verdade é que diversos factores têm desencorajado a entrada de veícu los de investimento de private equity no mercado moçambicano.

1. Os veículos mais apropriados, ao abrigo do regime moçambicano, pa ra realizar investimentos em priva te equity e venture capital, são as sociedades de capital de risco e os fundos de capital de risco (que de verão ser geridos pelas primeiras). Sucede que, mesmo com a aprova ção de uma “nova” Lei das Institui ções de Crédito e Sociedades Finan ceiras (Lei n.º 20/2020, de 31 de De zembro), as sociedades de capital de risco continuam a ser altamente re gulamentadas, em paridade com outras sociedades financeiras que apresentam muito maior risco sisté mico (e que por isso poderão ter re percussões muito significativas se forem liquidadas ou se se tornarem insolventes).

3. Por outro lado, também não existem ainda obrigações concretas de dis ponibilização de informação em re lação à subscrição de unidades de participação em fundos de capital de risco: não existe qualquer obrigação por parte da entidade gestora de dis ponibilizar informação sobre o fun do aos potenciais participantes, sal vo os casos em que estes sejam cons tituídos através de oferta pública.

4. Do ponto de vista do investimento estrangeiro, ainda há poucos incen tivos para as gestoras de fundos es trangeiros empreenderem activida des de gestão de fundos de capital de risco em Moçambique:

• A Lei das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras obriga as sucursais de instituições estran geiras a submeterem-se a proce dimentos de autorização material mente equivalentes aos das ins tituições nacionais, não estando previsto um regime de passaporte para as gestoras de fundos estran geiros gerirem fundos ao abrigo da lei moçambicana.

www.economiaemercado.co.mz | Novembro 2022 18 OPINIÃO

• Não existe, ao contrário de outras jurisdições, um regime fiscal favo rável para os investidores estran geiros, e as pessoas singulares não residentes acabam por ser pena lizadas em relação aos residentes, na tributação dos rendimentos de ganhos de capital.

5. O estado da regulamentação do sec tor tem também impactos negativos no interesse pelo mercado moçambi cano e pela constituição de fundos de capital de risco, considerando, quer a falta de regulamentação, quer a di ficuldade de interpretação e aplica ção da regulamentação existente de vido ou a regras contraditórias ou de aplicação incerta a este respeito. Es te aspecto é especialmente evidente em determinadas áreas, tais como (i) método de cálculo do valor das uni dades de participação e regras de va lorização dos fundos; (ii) (o reduzido âmbito de) matérias reservadas à as sembleia geral dos participantes; (iii) regras sobre a composição da cartei ra do fundo; (iv) requisitos de comer cialização das unidades de participa ção; e (v) deveres de reporte. A ausên cia destas regras, mais do que um si nal de flexibilidade na estruturação dos fundos, será neste caso uma fonte de incerteza para potenciais promo

tores e investidores sobre o regime ju rídico aplicável.

Depois desta incursão pelo regime em vigor, salta à vista que Moçambique tem ainda um caminho a percorrer no desenvolvimento da indústria do private equity e venture capital. Não ignoramos ser impossível destrinçar o desenvolvi mento da indústria do contexto macroe conómico e institucional do País, mas, ainda assim, poderia ser benéfico imple mentar algumas das seguintes medidas:

1. alterações à Lei das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras, de modo a implementar, entre outros as pectos, um regime regulatório menos exigente para as sociedades de capi tal de risco, especialmente as que se jam de reduzida dimensão, e um sis tema de passaporte para facilitar a gestão e comercialização de fundos de capital de risco por entidades es trangeiras;

2. alterações ao Decreto n.º 56/99 de 8 de Setembro, que estabelece o regime legal dos fundos de capital de risco e regula o âmbito, a gestão, a constitui ção e o funcionamento dos fundos de capital de risco. Estas alterações de verão incluir regras sobre, entre ou tros, método de cálculo do valor das unidades de participação, matérias reservadas à deliberação dos partici pantes, regras sobre a composição da

carteira dos fundos e requisitos de co mercialização dos fundos;

3. aprovação de um regulamento sobre fundos de capital de risco, de modo a colmatar as actuais lacunas no qua dro legislativo quanto a aspectos rela tivos às regras de avaliação, estrutura das contas, deveres de reporte e deta lhe sobre a informação a prestar aos investidores, entre outros;

4. alterações ao regime fiscal aplicável para tornar o investimento em uni dades de participação de fundos de capital de risco mais atractivo, no meadamente para investidores es trangeiros.

As recomendações aqui apresenta das foram pensadas tendo por objectivo a promoção dos fundos de capital de ris co como uma fonte robusta e fiável de in vestimento alternativo em Moçambique, mas não esgotam toda a análise necessá ria nem as soluções possíveis – nem as sim o pretendem –, servindo apenas pa ra jump start de uma discussão rumo ao desenvolvimento deste sector no País.

1 O relatório, publicado em Setembro de 2022 encontra-se disponível para consulta em https:// www.avca-africa.org/media/3064/02080-avca-vc -mid-year-report-sept22-online_2.pdf.

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O mercado moçambicano enfrenta muitas barreiras à entrada de investimentos através de private equity

A (Possível) Desarticulação Entre o Governo e o Empresariado

Novo paradigma, mas os problemas de sempre, mesmo com o gás já a ser extraído da bacia do Rovuma, nada do que foi pensado para suportar a retenção dos petrodólares no País é efectivo. A percepção do Governo e a do sector privado divergem e não há qualquer sinal de que a situação possa mudar nos próximos tempos

Desde que foram desco bertas reservas de recur sos naturais de dimensão mundial – carvão, gás, ou ro, areias pesadas, pedras preciosas, recursos florestais, etc. –, assis tiu-se a um investimento sem preceden tes na busca pelas melhores práticas que pudessem permitir a transformação des se potencial em riqueza efectiva.

Com este propósito, de há dez anos a esta parte, intensificaram-se, à escala na cional, inúmeros eventos, desde seminá rios, conferências, simpósios, e uma mo vimentação de empresários que tentava criar bases para posicionar-se melhor.

O maior interesse era construir um modelo de exploração de recursos que evitasse os erros dos países mal-sucedi dos e replicasse as boas políticas de Con teúdo Local. Mas, aos poucos, o temor de que os recursos naturais tragam frus tração vai dando lugar a um preocupan te vazio, e a uma cada vez menor coorde nação sobre o rumo a tomar.

“Do que tem sido perceptível nos úl timos desenvolvimentos, a Confedera ção das Associações Económicas de Mo çambique (CTA, a mais importante orga nização empresarial do País) tenta bus car junto do Governo uma solução, mes mo antes que a lei de Conteúdo Local se ja aprovada, para que as empresas na cionais assumam uma posição vantajo sa enquanto fornecedoras de bens e ser viços aos projectos de gás. Já houve várias tentativas junto dos operadores, como a Sasol, para procurar uma saída”, reve la o presidente do Pelouro de Desenvol vimento e Capacidades Locais, Bercên cio Vilanculos. Contudo, “a CTA enfrenta grandes impasses, sendo que o principal

é o facto de os concursos para a contra tação de serviços por parte das grandes empresas serem anunciados, e até adju dicados, fora do País, resultando, por isso, na contratação de empresas estrangeiras oo, mesmo operando em Moçambique, estão registadas fora. Nestes casos, o in teresse nacional em termos de emprego e de crescimento económico não é repre sentado”, lamenta o empresário.

Bercêncio Vilanculos analisa igual mente o resultado da demora na aprova ção da lei de Conteúdo Local como sen do um factor que pode ocasionar “opor tunismo” dos megaprojectos, por opera rem num contexto de ausência de regras claras. Entende, entretanto, que “a lei po deria até levar muito tempo a sair, mas se se fizessem arranjos ao nível sectorial pa ra proteger as empresas nacionais have ria avanços, o que não está a verificar-se”.

A certificação

O responsável lembra que, para pre parar as empresas, a CTA está a desenvol ver um programa de formação e certifica ção, tendo já seleccionado 25 unidades na primeira fase, com a previsão de que até ao fim do ano consiga certificar mais 15. Num processo gradual, a organização projecta certificar mais 50 empresas no próximo ano e 100 em 2024.

Os sectores em que as empresas mo çambicanas se apresentam preparadas para atacar os grandes projectos incluem a logística; obras e empreitada; forneci mento de produtos de primeira necessi dade; alimentação; e produtos acabados de madeira. “Já perdemos muito tempo à procura de nos posicionarmos para es tarmos à frente nos projectos de gás, mas se acontecer qualquer mudança positi

www.economiaemercado.co.mz | Novembro 2022 20 CONTEÚDO LOCAL
Texto Celso Chambisso • Fotografia D.R:

va a partir de hoje, seja a aprovação da lei ou outra estratégia que salvaguarde o in teresse nacional, iremos a tempo de ga nhar alguma coisa”, concluiu o responsá vel da CTA.

Governo quer empresas mais actuantes Enquanto o sector privado se quei xa dos procedimentos que competem ao sector público tomar, o Governo enten de que o esforço feito pelas empresas es tá muito aquém do necessário. Por exem plo, há poucas parcerias entre empresas nacionais e a TotalEnergies por causa da falta de certificação das pequenas e mé dias empresas. Apenas 30% dos contratos são celebrados entre empresas moçam bicanas e a multinacional. No campo de operações da francesa TotalEnergies, os contratos devem atingir 1,1 mil milhões de dólares, mas foram celebrados até ao momento cerca de 300 mil dólares. “Is

so preocupa-nos muito, queremos que os moçambicanos possam efectivamente ganhar contratos e, neste momento, res taram 800 milhões de dólares. É muito! São muitas as dificuldades devido à au sência de certificação das empresas mo çambicanas a vários níveis, como os sis temas de qualidade, gestão do ambiente e higiene e segurança”, referiu o coorde nador do Conteúdo Local do Ministério dos Recursos Minerais e Energia (MIRE ME), Henrique Cossa.

“Estamos empenhados na certificação de empresas moçambicanas e na promo ção de parcerias empresariais a par de iniciativas de treinamento sobre o Con teúdo Local, pois cremos que contribui rão para o estabelecimento de uma visão comum”, explicou Teodoro Vales, secretá rio permanente do MIREME.

Prevê-se que, com a ajuda do Estado, 50 empresas nacionais sejam certifica das ainda este ano. “Iremos aumentar a probabilidade de as empresas vencerem os concursos, por um lado. Por outro, es tamos a promover parcerias com as em presas internacionais”, concluiu Henri que Cossa.

www.economiaemercado.co.mz | Novembro 2022 21
“Estamos empenhados na certificação de empresas e na promoção de parcerias a par de iniciativas de treinamento sobre o Conteúdo Local”
50
Empresas
Previsão das unidades a serem certificadas com o apoio do Governo ainda este ano

De acordo com os dados divulgados pelo Minis tério da Economia e Fi nanças, perspectiva -se que a taxa de cresci mento real do PIB atinja 5% em 2023 com uma forte contribuição da indústria extractiva, onde o projecto Coral Sul da Área 4 da bacia do Rovuma começa a ganhar alguma preponderân cia depois do início das exportações no passado dia 13 de Novembro.

Mas não é apenas a indústria extrac tiva que o MEF espera que contribua pa ra o crescimento do PIB. Os desenvolvi mentos de outras indústrias serão tam bém fundamentais para diversificar as fontes de crescimento económico de Moçambique.

Para ajudar a criar novos motores de crescimento, o Governo pretende que o Fundo Soberano tenha um papel impor tante ao assumir grande parte dos inves timentos estruturais que o País necessita.

A criação do Fundo Soberano permi tirá que algumas despesas do Estado se jam cobertas pelos fundos arrecadados do negócio do gás, pois em cada ano fis cal irá ocorrer uma transferência de fun dos do Fundo Soberano de Moçambi que (FSM) para a Conta Única do Fundo (CUF), depois da publicação da Lei Or çamental, onde estará descrito o mon tante da dotação aprovada nesse ano.

Na proposta de criação do Fundo So berano é sugerido ainda que, nos pri meiros 15 anos de operacionalização do mesmo, as receitas projectadas sejam re partidas entre 40% para a conta única do fundo e 60% para o Orçamento do Esta do, garantindo que uma parte substan cial daquelas sejam investidas no desen volvimento do tecido industrial nacional e nas infra-estruturas necessárias ao seu crescimento.

Esta garantia de investimento é ani madora, pois os fundos obtidos na in dústria de hidrocarbonetos serão aloca dos aos sectores produtivos prioritários e estratégicos, que serão fortes motores

O Papel do Fundo Soberano no Desenvolvimento Industrial do País

de crescimento e dinamização da eco nomia moçambicana no futuro. O Fun do Soberano terá então um papel funda mental para inverter a situação actual, em que os indicadores apontam para uma redução da rubrica de investimen to em 2023, como se pode ver no gráfi co abaixo

consequentemente, as suas exportações. Mais abaixo a evolução da conta corren te na qual se observam melhorias muito marginais nos difíceis anos 2020 a 2021:

Por estes motivos, é prioritário que haja um esforço de canalização de fun dos de investimento para a chamada in dústria tradicional e novas indústrias

Se esta redução do investimento não for invertida, podemos correr o risco de verificar um forte crescimento da expor tação de recursos naturais, como car vão mineral, energia eléctrica, alumínio, areias pesadas e gás natural, e um contí nuo declínio das exportações do tabaco, do açúcar, da amêndoa e da castanha de caju, como se tem assistido nos últimos anos por falta de investimento necessá rio na cadeia de valor.

A produção de produtos tradicionais, como os rubis, o algodão, os legumes e as hortícolas, tem seguido uma tendência diferente aumentando as suas receitas e,

prioritárias, para que o desenvolvimento económico e social de Moçambique se ja inclusivo e diversificado, permitindo uma partilha da riqueza mais equitativa.

Com este crescimento mais diversifi cado, poderemos dotar a economia mo çambicana de uma maior solidez, que ajudará a evitar efeitos nefastos como a conhecida “doença holandesa” (deu tch desease), com a qual o aumento das exportações dos hidrocarbonetos pode gerar uma valorização pronunciada do metical e com isto prejudicar as exporta ções dos restantes produtos provenien tes das indústrias tradicionais.

www.economiaemercado.co.mz | Novembro 2022 22 OPINIÃO
Cláudio Pondja • Head Of Wealth Management do Banco Big Moçambique
NAÇÃO | SUSTENTABILIDADE

Como Sustentar a Sustentabilidade?

O mês de Novembro foi marcado pela 27ª Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, a COP27, em busca de uma reacção internacional urgente contra as mudanças climáticas. Com o tema da sustentabilidade na mesa, de há anos a esta parte, a reunião, que juntou representantes de cerca de 200 países em Sharm El-Sheik, no Egipto, despertou-nos para a ideia de olharmos para Moçambique neste capítulo. Estaremos a desenhar um percurso sustentável nas várias dimensões do País, do sector público ao privado, naquilo que é hoje a ESG?

Texto Celso Chambisso • Fotografia Istock & D.R.

Asustentabilidade é a busca pelo equilíbrio entre o suprimento das necessidades humanas e preservação dos re cursos naturais, natural mente finitos, por forma a não compro meter o futuro das próximas gerações. A sustentabilidade representa, por isso, o equilíbrio entre a (ainda muito) necessá ria exploração de recursos naturais e ine xorável preservação do meio ambiente. Vicente Bento, partner & operations ma nager da Insite Moçambique, que pres ta serviços de consultoria nesta área, co meça por abordar o conceito de susten tabilidade sob uma perspectiva mais ho lística: o ESG, que comporta a governan ça ambiental, social e corporativa, cuja sigla proveniente do inglês abarca os conceitos de Environmental, Social, and Governance.

Estes três pilares, devem ser absorvi dos de forma integrada pelas institui ções e sugerem uma actuação harmo nizada entre empresas, sociedade e Go verno na busca do tal desenvolvimento sustentável, quer através de uma inter venção ao nível macro (do País no seu todo), quer ao nível micro (individual, da vida das empresas e da sociedade). Mas a complexidade e dimensão do que é, de facto, sustentabilidade, desdobra -se ainda mais.

Cada um dos seus elementos abarca uma lista considerável de aspectos que vão das boas práticas ambientais à adop ção das energias renováveis, passando pelo respeito pelas comunidades e até a questões que parecem "estranhas" a esta causa, como a adopção de políticas an ti-suborno, anti-corrupção, aqui na área do Governance.

“Por exemplo, uma empresa que se diz sustentável, para o fazer com proprie dade, tem de cumprir não só com a parte ambiental, mas contemplar todos os ou tros pilares da sustentabilidade. Mesmo do ponto de vista dos investidores, nota -se cada vez mais uma tendência de que os que querem apostar nas empresas se leccionam as que cumprem os padrões de sustentabilidade. Portanto, nos dias que correm, a sustentabilidade tornou -se num imperativo para a capacidade de captação de investimentos e para o bom desempenho empresarial”, esclarece.

Com tantos problemas, aparente mente mais urgentes, temos, enquanto País, condições de... sustentar a susten tabilidade? A resposta só pode ser sim, até porque, pode estar no conceito de sustentabilidade, guardada a resposta do tão almejado, e aguardado desenvolvi mento de Moçambique.

COP27 olhou para os países em desenvolvimento, e para Moçambique

À semelhança do que sucedeu nas anteriores grandes reuniões do clima que se realizam desde 1992, na COP27 o mundo esteve focado na busca do tão di fícil consenso sobre a redução das emis sões de poluentes que causam o aque cimento global. O assunto parece me ramente de cariz ambiental, mas acaba por ter ligação com todos os outros pi lares (económico e social), mesmo por que, naquele encontro, foi igualmente centro das atenções a busca pelo cum primento das compensações financeiras que os países ricos devem disponibilizar a favor dos países em desenvolvimen to para ajudá-los a mitigar os efeitos das mudanças climáticas.

É que os países desenvolvidos não cumpriram a promessa de mobilizar 100 mil milhões de dólares por ano até 2020, o que abriu uma brecha de desconfian ça em relação às novas promessas. E uma das constatações feitas pelos cien tistas na COP27 incidiu na circunstância de quanto mais crescerem as necessida des das nações mais pobres, mais alta te rá de ser a meta a definir a partir de 2025. Moçambique está entre os países que mais precisam do apoio das nações ri cas, visto que é dos mais afectados pelas mudanças climáticas nos últimos anos, apesar de ser um dos que menos emitem poluentes para o meio ambiente.

E foi exactamente este o ponto apre sentado pelo Presidente da República, Filipe Nyusi, nesta reunião: “estamos

www.economiaemercado.co.mz | Novembro 2022 26
O mundo reconhece a necessidade de reduzir as emissões de CO2, mas falta atitude

Engloba as pessoas e as suas condições de vida, como educação, saúde, violência, lazer, entre outros aspectos.

A sustentabilidade social sugere a igualdade dos indivíduos baseada no bem-estar da população. Para isso, é necessária a participação da população no fortalecimento das propostas de desenvolvimento social.

Social Ambiental

Refere-se aos recursos naturais do planeta e à forma como são utilizados pela sociedade ou empresas. O objectivo é que os interesses das gerações futuras não sejam comprometidos pela satisfação das necessidades da geração actual. Todos devem estar em harmonia com o ambiente por uma melhor qualidade de vida.

Económica

Está relacionado com a produção, distribuição e consumo de bens e serviços.

A sustentabilidade económica é fundamentada num modelo de gestão sustentável. Isso implica uma gestão adequada dos recursos naturais, que objectivam o crescimento económico, o desenvolvimento social e a melhoria da distribuição de renda.

prontos para dar o nosso contributo, mas… financiamento é preciso. Pode ser por investimentos ou através de doações no âmbito da redução da poluição ao ní vel mundial, mas é preciso financiar.”

Entretanto, cá por dentro, longe da esfera global, o tema da sustentabilida de vem sendo levantado há vários anos, quer do ponto de vista das metas preco nizadas nos 17 Objectivos de Desenvol vimento Sustentável (OSD) das Nações Unidas para 2030, quer do ponto de vis ta de uma cada vez maior exigência de as empresas e corporações privadas esta rem alinhadas com as boas práticas que melhor respondem aos desafios do de senvolvimento sustentável (o que procu ra suprir as necessidades da geração ac tual sem comprometer a capacidade de

atender as necessidades das futuras ge rações, isto é, um desenvolvimento que não esgota os recursos para o futuro).

Cumprir ODS até 2030?

O que desde cedo pareceu, para muitos, uma utopia, agora, a sete anos da meta, está mais evidente. A possibilidade de remover os 17 obstáculos ao desenvolvi mento sustentável (assumidos em 2015) até 2030 é remota, embora o Governo continue firme, prevendo gastar mais de 400 mil milhões de meticais em 2023, que correspondem a 6% da despesa total prevista para o apoio a esta causa.

Mas o que alimentou o optimismo quanto ao alcance de tal ambição?

Jaime Comiche, quadro moçambi cano que trabalha como secretário da

UNIDO – órgão das Nações Unidas foca do no desenvolvimento sustentável pa ra a actividade industrial –, explica que desde a Revolução Industrial o mundo assistiu a um excessivo consumo de ma térias-primas e de energia.

Recentemente, perante a ameaça glo bal ocasionada pelas mudanças climáti cas, começou-se a buscar soluções pa ra racionalizar o consumo e aumentar a eficiência energética. Cientistas e deci sores vão chamando a atenção sobre os riscos que não são levados em conta pe la sociedade. Não se está a verificar uma efectiva mudança de atitude em relação aos hábitos ambientalmente nocivos. Foi este o princípio que norteou a agen da ONU em 2015 para o estabelecimento das metas dos ODM para 2030.

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O conceito de sustentabilidade encontra suporte em três princípios fundamentais: o social, o ambiental e o económico, também conhecidos pela sigla ESG (Environmental, Social and Corporate Governance) O TRIPÉ DA SUSTENTABILIDADE

“No início, esperava-se que em 15 anos a situação mudaria porque a socie dade já tinha a consciência do que esta va a acontecer, mas agora fica cada vez mais claro e evidente que não será possí vel atingir as metas do desenvolvimento sustentável nos restantes sete anos por causa da grandiosidade dos desafios”, admite Jaime Comiche.

Oportunidades perdidas

Em Março deste ano, a consultora in ternacional de recursos humanos Mi chael Page apresentou um relatório so bre talento e sustentabilidade que de monstra esta última como uma das prio

ridades das organizações com importân cia estratégica para o desenvolvimento dos seus negócios. Ou seja, há uma ten dência significativa de aumento da pro cura de profissionais, principalmente de perfis especializados, para funções de direcção, apesar de ser uma área recen te. No âmbito da gestão da sustentabili dade corporativa, destacam-se os per fis de head of ESG, sustainable develop ment manager ou head of diversity & in clusion, nas quais as remunerações os cilam entre 70 mil euros e 100 mil euros em empresas com facturação entre 20 milhões de euros e 250 milhões de euros.

Em Moçambique não há formação es

pecífica nesta área. Tudo funciona com base, digamos, no improviso. Os profis sionais que têm formação básica em al gumas áreas como economia, direito e engenharias procuram por algumas no ções sobre sustentabilidade e passam a desempenhar a função de gestor de sus tentabilidade nas empresas.

Para o representante da UNIDO, Jai me Comiche, a carência de liderança e de quadros qualificados nesta questão é que faz com que, muitas vezes, soluções simples não sejam materializadas por falta de capacidade institucional carac terizada por inúmeras barreiras, incluin do as fiscais. Assim, na óptica do respon

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No business breakfastz do Absa Bank, Jaime Comiche, da UNIDO, admitiu que o País não vai a tempo de cumprir os ODS até 2030

OS 17 ODS E O ESFORÇO DO GOVERNO PARA OS CUMPRIR

Quase ninguém acredita que é possível cumprir as metas dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável nos próximos sete anos. Mas o Governo vai continuar a fazer a sua parte. Em 2023 prevê-se gastar mais de 400 mil milhões de meticais nesta causa.

Alocação orçamental 2023 (mil milhões Mt)

ERRADICAÇÃO DA POBREZA

FOME ZERO E AGRICULTURA SUSTENTÁVEL

% da despesa total

dade social, sendo que a maior parte foi preenchida no ramo do oil & gas e algu mas ONG”, explicou.

Entretanto, a pandemia do covid-19 veio quebrar o ritmo de procura por profissionais da área da sustentabilida de, pelo que, este ano, as vagas para esta área representam apenas entre 8% e 10% das vagas de emprego disponibilizadas.

IGUALDADE DE GÉNERO

ÁGUA POTÁVEL E SANEAMENTO

ENERGIA LIMPA E ACESSÍVEL

TRABALHO DECENTE

CRESCIMENTO ECONÓMICO

INDÚSTRIA, INOVAÇÃO E INFRA-ESTRUTURAS

SAÚDE E BEM-ESTAR CIDADES E COMUNIDADES SUSTENTÁVEIS

EDUCAÇÃO DE QUALIDADE CONSUMO E PRODUÇÃO RESPONSÁVEIS

“A tendência para vagas em susten tabilidade tem crescido muito, ligadas às áreas da indústria e das energias re nováveis, sustentabilidade corporativa, etc. Os candidatos procuram emprego em empresas que são socialmente sus tentáveis”, explicou Sónia Silva. O con tributo da Contact na sustentabilidade (neste caso, no pilar social) começa com a preocupação em apoiar jovens a de senvolverem uma postura que os colo que em vantagem na procura de vagas de emprego, como a elaboração de cur rículos profissionais.

REDUÇÃO DAS DESIGUALDADES

ACÇÃO CONTRA A MUDANÇA GLOBAL DO CLIMA

VIDA NA ÁGUA

VIDA TERRESTRE

sável, é preciso mostrar ao Governo to das as barreiras que se colocam ao nível da ESG em Moçambique e estimular as entidades que têm a possibilidade de as segurar a sustentabilidade, como as star tup. Em relação às PME, o facto de parte significativa delas serem informais colo ca-as numa situação “precária” na busca da sustentabilidade, pelo que “os bancos têm de ajudá-las a desenvolver a massa crítica no que diz respeito a esta ques tão”, sugeriu.

Mercado do trabalho: necessidade é mais forte do que a disponibilidade

Mesmo com carências ao nível da for

mação, na linha do que acontece à esca la global, o mercado de trabalho em Mo çambique já começou a orientar as re gras de contratação de profissionais ba seadas nas competências em sustenta bilidade. Sónia Silva, administradora da Contact, uma das mais importantes em presas de recrutamento do mercado, re vela que “em 2014, seleccionámos mui tos técnicos de sustentabilidade para as áreas ambiental e ecológica em várias províncias, por causa de um grande pro jecto da área florestal. Em 2019 foi o nos so pico: 20% das nossas vagas de empre go foram para essas áreas e eram mui to ligadas ao ambiente e à responsabili

Outro projecto da Contact é o de signado “vaga não se compra”, que visa educar e orientar as pessoas evitando a ocorrência de fraudes. “Na minha opi nião, os profissionais com conhecimen tos de sustentabilidade têm tantas pos sibilidades de singrar no mercado de trabalho quanto os da saúde e das tec nologias”, defende a responsável.

Gás ao serviço da sustentabilidade

A E&M também ouviu Manuel Mo ta, Consultor em energias renováveis e mudanças climáticas ao nível da Ernst & Young, que defende que a transforma ção rumo à sustentabilidade depende rá muito da capacidade de produzir gás, energia hidroelétrica ou de outras fontes com menor intensidade de carbono do que nos outros países.

Considera ser esta a fórmula pa ra atrair mais investimentos, porque as entidades que financiam o desenvolvi mento estão cada vez mais interessadas em saber se estarão ou não a apoiar pro jectos amigos de ambiente. Assim, Ma nuel Mota defende que o País embarque na definição de prioridades de investi mentos dentro do prisma da transição energética, para concorrer em vanta gem ao investimento internacional, na concorrência com outros países de Áfri ca e do mundo.

Como lá chegar? “Só com o envol vimento de todos”, explica o consultor, referindo-se às organizações da socie dade civil, comunidades e o Governo. Manuel Mota sugere, nesta estratégia, a criação de um sistema de incentivos ou benefícios que atraia potenciais in vestidores na área das energias renová veis. Mas sublinha que uma parte deve

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110 4,4 47,8 53,9 15,1 16,5 6,5 44,1 4 23,6 1,1 4,9 35,8 24,4 6,1 2,2 0,8 27,4 1,1 11,9 13,4 3,8 4,1 1,6 11 1 5,9 0,3 1,2 8,9 6,1 1,5 0,6 0 FONTE PESOE 2023
E
PAZ, JUSTIÇA E INSTITUIÇÕES EFICAZES PARCERIAS E MEIOS DE IMPLEMENTAÇÃO

ser financiada com a operação de gás e, eventualmente, com o financiamento estrangeiro.

Além disso, o responsável entende que é necessário muito investimento na formação. “Temos de formar pessoas, técnicos capazes de executar os objecti vos traçados e tudo isso é uma simbiose de pequenos programas, projectos, ini ciativas que têm de acontecer de uma forma paralela, para que efectivamente haja o envolvimento da comunidade lo cal e não é importar tudo o que é o País precisa”, explicou.

A boa notícia é que os pontos fracos do País são objecto de atracção de orga nizações com conhecimento e que que

rem ajudar o país no processo de trans formação. Um dos exemplos mais re centes é a entrada, no mercado nacio nal, da empresa portuguesa de consulto ria em sustentabilidade, a Stravillia, que abriu, aqui, a sua primeira filial fora do seu país de origem. De acordo com o só cio fundador da Stravillia, Francisco Ne ves, a intenção é apoiar empresas mo çambicanas na percepção das temáticas ESG mais importantes para as suas ope rações, de modo a que possam incluí-las nas suas estratégias de crescimento.

A expansão da empresa para Moçam bique é, igualmente, uma oportunida de que advém do facto de já ter clientes nacionais a quem vinha prestando ser

viços. Mais um sinal de que este tema vem merecendo cada vez maior atenção das empresas. “sentimos que existe von tade e necessidade de trabalhar o tema da sustentabilidade”, sublinhou Frncisco Neves. Em Moçambique a Stravillia vai prestar os mesmos serviços que em Por tugal, assente em áreas como Agenda de Sustentabilidade, Roteiro de Sustentabi lidade, Serviços de Carbono, Relatórios de Sustentabilidade e Índices e Rankin gs de Sustentabilidade.

A empresa também projecta apoiar empresas de sectores que incluem Oil & Gas, Carvão, Agricultura, Aquacultura, Pescas e instituições financeiras.

Finanças verdes. Qual é a postura do sector financeiro?

O mundo também está a atacar a questão da sustentabilidade através das finanças, no sentido de começar a priori zar pedidos de financiamento que terão reflexos positivos em qualquer dos seus três pilares (social, económico e am biental) – as chamadas finanças verdes.

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NAÇÃO | SUSTENTABILIDADE
sustentabilidade
“Temos
de formar técnicos capazes de executar os objectivos traçados", assinala Manuel Mota, especialista em
da EY
Manuel Mota, consultor da EY, defende "maior foco" na captação de investimentos para a área das renováveis

No dia 15 de Novembro, durante o ESG Business Breakfast realizado em Mapu to pelo banco Absa sob o lema “Uma conversa em torno da sustentabilida de do contexto pan africano”, Martha Humbane, directora de negócios para a Banca Corporativa e de Investimen tos do banco, revelou que esta institui ção é signatária do Pacto Global das Na ções Unidas desde 2021 e está compro metida no apoio ao desenvolvimento de uma economia com índices sólidos de sustentabilidade.

De acordo com a responsável, neste quadro, o banco actua de diversas for mas, sendo de destacar a avaliação do crédito em que privilegia a concessão a favor de projectos ambiental, econó mica e socialmente viáveis como, por exemplo, entidades (individuais ou co lectivas) que procuram financiamen to para desenvolverem qualquer inicia tiva que implique a redução do consu mo de energia ou de água, a constru ção de casas ecológicas, etc. O mun do também está a atacar a questão da

sustentabilidade através das finan ças, no sentido de priorizar pedidos de financiamento que tenham reflexos positivos neste contexto. Heidi Barends, sul-africana responsável pela sustenta bilidade financeira da Banca Corpora tiva e de Investimentos do Grupo Absa, revelou que África está a registar uma explosão de financiamento sustentável, que tende a considerar os projectos que tragam vantagens para o planeta.

O financiamento sustentável, de acordo com esta especialista, tem cres cido muito em países como a África do Sul, Namíbia, Egipto, Quénia, Gana e Nigéria. Em Moçambique, a questão das finanças verdes não está muito de

senvolvida. As regras desta componen te não existem sequer, e o Banco Central está ciente disso.

Numa reunião realizada em Dezem bro de 2020 entre o Banco de Moçam bique (BdM) e a Aliança para a Inclu são Financeira para falar sobre as finan ças verdes, o governador Rogério Zan damela assumiu que o País precisa de apressar a incorporação da sustentabi lidade e resiliência no quadro de políti cas internas o mais urgentemente possí vel. Isto porque “estamos na fase inicial em matéria de finanças verdes inclusi vas”, as experiências recentes mostram que Moçambique tem várias vulnerabi lidades a desastres naturais.

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NAÇÃO | SUSTENTABILIDADE
Assegurar qualidade na Educação é uma das premissas da sustentabilidade
O mundo também está a atacar a questão da sustentabilidade através das finanças, no sentido de priorizar pedidos de financiamento que tenham reflexos positivos neste contexto

ECONOMIA CIRCULAR: O QUE DE BOM SE FAZ NO MERCADO?

Fora do âmbito macro, o que até num passado recente era uma luta isolada dos ambientalistas está a generalizar-se e a fazer parte da estratégia de actuação de um número cada vez maior de empresas

TOPACK

COCA-COLA

Promove a recolha de cerca de 8000 garrafas pet por ano desde 2018, beneficiando directamente 6600 mulheres e jovens, com impacto na renda de cerca de 40 mil famílias. Com o preço de reciclagem de cada garrafa a ter variado de sete meticais para os actuais 17 meticais, o rendimento dos praticantes desta actividade conheceu um crescimento assinalável. O compromisso que a empresa agora assume é que, até 2025, 100% das garrafas pet serão recicladas.

Uma indústria que transforma materiais de plástico em diversos utensílios de uso doméstico e industrial, certificada a todos os níveis, a Topack possui uma equipa de pessoal especializado na área de transformação de plásticos bem como na sua oficina de moldes. De acordo com o respectivo director-geral, Jaime Lima, a empresa aposta na mão-de-obra local como forma de valorizar e desenvolver técnicos moçambicanos.

Banco Mundial defende um novo mo delo de desenvolvimento sustentável

Uma das instituições multilaterais que mais apoiam o desenvolvimento sustentável e inclusivo de Moçambique, o Banco Mundial, publicou, em Junho deste ano, um estudo que revela o cami nho que deve ser seguido para o alcance da sustentabilidade, mas com foco nos objectivos macroeconómicos.

A partir de uma análise do trajec to da economia moçambicana ao longo do tempo (desde a prosperidade iniciada em 1993, alimentada pela indústria ex tractiva, até à instabilidade iniciada em 2016 com a descoberta das dívidas não declaradas, a que se seguiu uma série de fenómenos como ciclones e a pandemia do covid-19), conclui que a estratégia em vigor para o crescimento sustentável tem tido uma capacidade limitada de gerar empregos produtivos e apoiar uma redu ção acelerada da pobreza.

TOTALENERGIES

HCB

A sustentabilidade está presente a partir de experiências negativas como quando ocorre a escassez de água no caudal do rio Zambeze. Em 2017, por exemplo, este problema chegou a reduzir em 20% a capacidade de geração de energia. Segundo o seu representante, Hortêncio Maholela, a empresa começou a tomar todo o tipo de medidas que hoje confere cerificações a diversos níveis: ambiental, de saúde e segurança no trabalho, de qualidade, etc.

Apesar da interrupção das actividades devido à insegurança, está a desenvolver uma iniciativa de restauração do mangal nos distritos de Palma e Mocímboa da Praia, onde foram já plantados 330 hectares, criando vários postos de trabalho. Laila Chilemba, vice-presidente do Desenvolvimento Social e Económico, refere que empresa criou igualmente a plataforma “Juntos Somos Capazes”, que aglutina as entidades interessadas no desenvolvimento sustentável.

Refere ainda que, a recente descober ta de algumas das maiores reservas de gás natural (GNL) do mundo podia re presentar uma oportunidade única de um crescimento sustentado e inclusivo para Moçambique. No entanto, para se tirar maior proveito dos recursos espera dos do GNL e fazer chegar aos mais po bres, será necessário um novo e ambicio

É um inquestionável activista da sustentabilidade. Defensor da protecção da biodiversidade, Carlos Serra promove campanhas de recolha de resíduos nas praias, educa as crianças nas escolas primárias sobre preservação do meio ambiente e investe na transformação de resíduos em utilidades. Um dos exemplos é a casa de vidro que construiu nas imediações do Macaneta Beach Resort, no distrito de Marracuene.

GREENLIGHT (RENOVÁVEIS)

Há muitas iniciativas a serem desenvolvidas no País para possibilitar a meta do acesso universal à energia até 2030. A Greenlight, uma empresa que opera nos sectores de energia e meio ambiente desde 2010, fez uma avaliação do potencial de expansão das renováveis e concluiu que o FUNAE lançou um portefólio de 675 sites mini-redes e realizou estudos em várias comunidades fora da rede para atrair o sector privado. No que diz respeito à expansão, prevê-se que, até 2030, 31% da população tenha acesso à energia por meio de sistemas solares domésticos.

so modelo de crescimento que vá além das indústrias extractivas.

Para isso, Moçambique terá de adop tar um quadro político e institucional adequado antes das receitas do GNL. Um quadro orçamental que funcione cor rectamente (incluindo regras e objecti vos orçamentais claros) para uma ges tão bem-sucedida destas receitas volá teis no futuro. Para o Banco Mundial, um fundo soberano bem gerido pode ajudar a alcançar a estabilização a curto prazo e poupanças de longo prazo para as gera ções futuras. Uma gestão macroeconó mica prudente envolveria também um

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“Além de se maximizar a receita do GNL, é essencial incentivar o crescimento em sectores não extractivos para um crescimento económico de base alargada..."
CARLOS SERRA JÚNIOR

Na COP27, UE anunciou que apoiaria a criação de um fundo de apoio aos países pobres, desde que países emergentes com altas emissões de carbono, como a China, também ajudassem...

aumento gradual do investimento, que tenha em consideração a limitada capa cidade de absorção, e melhore simulta neamente a qualidade dos investimentos públicos. “Além de se maximizar a recei ta do GNL, é essencial incentivar o cresci mento em sectores não extractivos como a agricultura e os serviços, para promover um crescimento económico de base alar gada. Numa primeira fase, as políticas de verão ser orientadas para a maximização dos benefícios do crescimento movido pelos recursos”, recomenda a instituição.

Na COP27, a UE anunciou que supor taria a criação de um fundo de apoio aos países pobres, desde que países emer gentes com altas emissões de carbono, como a China, também ajudassem...

Pelo mundo… o mesmo problema

Engana-se quem pensa que a susten tabilidade é problema apenas nos países africanos ou dos mais pobres. Em Portu gal, por exemplo, o relatório do Observa tório dos Objectivos de Desenvolvimen to Sustentável, publicado em Outubro

pela Católica Lisbon School of Business & Economics, conclui que a maioria das empresas portuguesas desconhece como implementar os ODS, embora estejam cada vez mais alinhadas com a susten tabilidade.zOs sectores dos media, dos químicos e das tecnologias são os mais atrasados.

Segundo o relatório, 95% das grandes empresas e 77,7% das PME vêem a sus tentabilidade como uma oportunidade estratégica, mas para ambos os universos a falta de conhecimento de como ope racionalizar é a principal barreira para a adopção dos objectivos da Agenda 2030 das Nações Unidas. Porém, tal é mais ex pressivo nas PME (49,4%) do que para a grandes empresas (21,7%) que, por moti vos de cumprimento de legislação e con corrência, já estão, na prática, a imple mentar alguns ODS.

"A principal dificuldade que as em presas têm na implementação dos Ob jectivos de Desenvolvimento Sustentável é perceber como é que podem operacio nalizar esta agenda, porque é muito vas

ta, são muitos objectivos e, por vezes, não é a linguagem que as empresas estão ha bituadas a usar.

Esta barreira é comum às pequenas e médias empresas e também às grandes", explicou Filipa Pires de Almeida, respon sável pelo relatório e sub-directora do Center for Responsible Business and Lea dership da Católica Lisbon School of Bu siness & Economics, que realizou o es tudo em parceria com a Fundação BPI "la Caixa" e a Fundação Francisco Ma nuel dos Santos. Muitas situações como esta acontecem um pouco por todos os países.

COP27: mais uma

tentativa de compensar países pobres

Até um dia depois do fim da COP27, havia apenas um rascunho dos resulta dos práticos que se pretendiam com a reunião, e a versão do rascunho da de claração final trazia a possibilidade de criação de um fundo para compensar os países em desenvolvimento mais afecta dos pelas mudanças climáticas, entre os quais Moçambique.

A UE anunciou, um dia antes do fim da reunião (17 de Novembro), que apoia ria a criação de um fundo apenas se os países emergentes com altas emissões de carbono, como a China, também ajudas sem a custear a nova iniciativa. O resulta do? Poucos avanços!

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Tânia Oliveira • Directora de Marketing e Relações Corporativas do Absa Bank Moçambique

As organizações e os con sumidores estão cada vez mais atentos à pe gada ecológica. A sus tentabilidade ganhou maior relevância nas es tratégias a longo prazo das organiza ções pela certeza estabelecida cientifi camente em relação à finitude dos re cursos naturais, pelas mudanças climá ticas e disparidades económico-sociais, pelos ganhos no que toca à eficiência, redução de custos e inovação e pela gestão da relação com os clientes.

Valorizar a sustentabilidade na es tratégia de marketing de uma organiza ção permitirá aumentar o valor e a re putação da marca que, por sua vez, aju dará a atrair e a reter funcionários bem como a fortalecer as relações com as partes interessadas.

Nesta premissa, passa a ser urgen te a incorporação de novos padrões e exigências de consumo além da cria ção de novas oportunidades de negócio alimentadas pelas tendências ligadas à sustentabilidade como criadora de real valor.

As novas exigências e padrões de consumo tendem a alterar, e hoje o con sumidor não se foca apenas em produ tos, serviços e preço: ele procura algo que lhe proporcione experiências com significado, procura criar ligação e iden tificar-se com as marcas, o que acaba por reforçar laços mesmo que, em algumas situações, de forma inconsciente.

Ou seja, podemos dizer que a tendên cia de consumo passou a ser mais rela cional.

Olhando neste prisma, a forma como trabalhamos uma marca definirá e dita rá a duração da relação dos consumido res com as organizações.

E é neste sentido que a sustentabi lidade e o marketing passam a ter uma correlação e uma influência um sobre o outro. Hoje, os consumidores e a no

O Marketing na Era da Sustentabilidade

va geração têm uma maior consciência ambiental e social e procuram uma nova abordagem para viverem e consumirem em maior harmonia, obtendo, a título de exemplo, informações sobre o impacto ecológico dos produtos, mesmo que pa ra tal passem a pagar um preço superior.

Não resta a dúvida que o papel das organizações e a importância do papel do marketing para a criação de um no vo mundo contribuirá para acelerar um futuro sustentável tão desejado e neces sário.

Para criar uma marca sustentável, convincente e cativante, as organizações têm de conhecer e compreender os seus consumidores e o que estes procuram, e garantir que incorporam todas as premissas de sustentabilidade

O papel da marca

Nos dias de hoje, uma boa mar ca não se resume ao logótipo nem a uma campanha publicitária magnéti ca. Uma boa marca deve procurar tocar na emoção de um público-alvo e im pulsioná-lo a uma determinada acção.

Uma boa marca deve apelar e cul tivar a mudança, a transformação, ser geradora de um impacto positi vo na sociedade e na forma de agir das comunidades onde está inserida. Para criar uma marca sustentável, con

vincente e cativante, as organizações têm de conhecer e compreender os seus consumidores e o que estes pro curam, e garantir que incorporam to das as premissas de sustentabilidade na comunicação de uma forma eficaz e autêntica, evidenciando o valor real e os benefícios criados sempre com o propósito de gerar valor humano e sus tentável.

O papel dos marketeers

Podemos elaborar grandes planos e estratégias de comunicação para as re des sociais, desenhar embalagens e eti quetas ‘verdes’, mas se de facto as ope rações das organizações não eviden ciarem acções em concreto com real impacto nas temáticas de sustentabili dade, a longo prazo estes planos e es tratégias não terão qualquer retorno.

A autenticidade é a palavra de or dem. O consumidor está cada vez mais informado e é preciso garantir que toda a construção de um modelo de negó cio sustentável é feito de forma trans parente.

Por outro lado, os marketeers in fluenciam, ou devem conseguir in fluenciar, os consumidores nas suas es colhas e tomadas de decisão.

Têm, portanto, um papel fundamen tal nesta nova era. Isso exige uma mu dança de mindset e alguma criativida de para se conseguir demonstrar os be nefícios sociais e ambientais de deter minados modelos de negócio.

Em modo de conclusão, os negó cios que pretendam responder aos no vos padrões de consumo e ter suces so neste novo capítulo devem rapida mente adoptar um conjunto de práti cas sustentáveis, de uma forma holísti ca e transversal, que elevem não ape nas o seu crescimento, mas também que sejam impulsionadores do cresci mento dos seus funcionários, clientes e sociedade em geral.

www.economiaemercado.co.mz | Novembro 2022 36 OPINIÃO

“Muitas Empresas Encaram a Sustentabilidade de Forma Empírica”

AInsite contribuiu para o de senvolvimento da políti ca ambiental do MOZPA RKS no Parque Industrial de Beluluane, província de Maputo, com a criação de um conjun to de directivas e requisitos de nível am biental que as empresas do parque de vem respeitar. E presta também assistên cia a empresas que implementam siste mas de gestão ambiental, permitindo a poupança de recursos humanos e finan ceiros através da aquisição da eficiência na utilização de energia, água e outros recursos.

Nas suas diversas frentes de interven ção, a Insite dá o seu contributo na per secução da meta do Governo em assegu rar o acesso universal à energia até 2030, através da implementação de sistemas de gestão de energia e na formação de quadros técnicos da área das energias re nováveis que possam apoiar a constru ção dos parques de produção energética e de técnicos da área do oil & gas, capa zes de dar resposta às necessidades que vão existir no futuro.

A certificação dos seus clientes nas di ferentes esferas da actividade empresa rial é a principal ferramenta que mos tra o quanto as organizações estão com prometidas com a causa ambiental. E,

segundo Vicente Bento, há um núme ro cada vez maior de entidades nacio nais, colectivas e individuais, que co meçam a perceber o grau de importân cia que devem atribuir às questões da sustentabilidade.

A Insite é uma das poucas organiza ções que trabalham na área da susten tabilidade. Dentro da sua própria his tória, como é que começa a ser cons truída a ligação com esta área?

A Insite foi formada em 2010 e duran te esse tempo a sustentabilidade sempre fez parte da empresa, desde os primeiros projectos inseridos na área da nutrição, onde entra a parte da sustentabilidade no seu lado social.

Ao longo do percurso da empresa, fo mos avançando para outros aspectos, co mo a qualidade, que se foca na organiza ção dos processos das empresas, melho ria contínua, etc., e fomos percebendo a necessidade das empresas implemen tarem outro tipo de normas além da da qualidade, principalmente a parte am biental – ISO 1400 –, e a parte da saúde e segurança no trabalho – ISO 45001.

Estas são as normas mais implemen tadas não só em Moçambique, mas a ní vel mundial. Apoiamos clientes que te nham interesse em

po de sistemas de gestão e até de virem a certificar-se, sendo que temos outras normas relacionadas com a área da ges tão e de energia (ISO 50001) e responsa bilidade social (ISO 26001). Temos um conjunto de consultores que trabalham em cada uma destas áreas dando apoio às solicitações das empresas.

Qual é o nível de conhecimento que as organizações em Moçambique têm sobre a importância de investir na sustentabilidade?

Sustentabilidade é um conceito que já não é novo. Vem desde 1987, quan do se falou, pela primeira vez, numa das conferências das Nações Unidas sobre o desenvolvimento sustentável, e que sig nifica garantir a qualidade de vida das pessoas sem comprometer as gerações futuras.

É um caminho que se trilha a nível mundial. No caso das empresas moçam bicanas, é um processo que está agora

www.economiaemercado.co.mz | Novembro 2022 38 NAÇÃO | SUSTENTABILIDADE
implementar este ti Texto Celso Chambisso • Fotografia Mariano Silva Vicente Bento, especialista na implantação de sistemas de gestão da qualidade, saúde, segurança e meio ambiente, e igualmente partner & operations manager da consultora Insite aponta o défice de capital humano como um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento pleno da sustentabilidade no sector privado
“Apesar de tudo, ao longo do tempo vemos, claramente, melhorias nas empresas que implementam os programas de sustentabilidade”, assegura Vicente Bento

a afirmar-se como uma tendência. Isto porque uma empresa sustentável é tam bém saudável economicamente, respei ta os seus trabalhadores, o meio ambien te e a comunidade onde se insere. Diria que há cada vez mais uma maior preocu pação das empresas moçambicanas em se orientarem por estes padrões saben do da importância que a sustentabilida de tem nas suas empresas.

É possível traçar um perfil, em termos financeiros e por área de actividade, das empresas e organizações nacionais que têm uma melhor noção da impor tância de investir na sustentabilidade e que buscam a assistência da Insite nes te domínio?

Ao nível de sectores, é transversal. Podemos falar de empresas no sector industrial, construção, banca, segura doras. Acredito que é uma preocupa ção transversal a vários sectores ou em todos. Mas tudo depende da gestão de

topo das empresas e das suas políticas. Muitas políticas de sustentabilidade de empresas internacionais trazem concei tos dos seus países de origem, as boas práticas, mas não só. Temos muitos e bons exemplos de empresas moçambi canas que adoptam e implementam es tes conceitos e práticas.

Obviamente que há sectores cujos impactos são maiores não só no meio ambiente como nas comunidades em que se inserem, e em que a preocupa ção deve ser maior. Por exemplo, há uma grande diferença do impacto e dimensão das responsabilidades numa minerado ra ou empresa de oil & gas ou numa pe quena e média empresa moçambicana..

Como é que a Insite actua em cada um dos três domínios da sustentabilidade, nomeadamente o económico, o social e o ambiental, e quais são os grandes projectos em que está envolvida?

A Insite vê sempre os três pilares de

uma forma integrada. Um dos serviços que oferecemos tem que ver com o ESG, cuja implementação nas empresas tem diferentes vertentes. Por exemplo, quan do falamos da parte económica de go vernance referimo-nos a questões como a segurança de informação, continuida de do negócio, políticas anti-corrupção e anti-fraude.

O pilar “social”, além da ISO 45001, trata de questões como direitos labo rais, salários justos, proibição de mão -de-obra infantil e promoção do envol vimento da comunidade local. Já a par te ambiental tem que ver com os impac tos ambientais que as empresas podem provocar, sendo as alterações climáticas a maior preocupação da actualidade, se gundo o que se discutiu na COP27.

Mas os eventos ambientais, depois, trazem repercussões económicas e so ciais, por isso é crucial as empresas bai xarem as emissões de CO2 e estarem atentas à necessidade de mudar para os

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combustíveis amigos do ambiente no quadro da transição energética. Em re lação à parte “ambiental”, temos a norma ISO 14001, que ajuda as empresas a mi nimizarem os seus impactos ambientais, nomeadamente a poluição sonora, das águas, produção de resíduos, etc.

Além disso, existe a norma ISO 50001 através da qual uma empresa consumi dora intensiva de energia pode, através de vários programas, ir monitorizando o seu consumo, adoptar um plano de ra cionalização e assim reduzir a emissão de CO2. Quando falamos de sustentabi lidade não devemos dissociar nenhum dos pilares. Isto é, a empresa pode ter as melhores práticas ambientais e sociais, mas se não for financeiramente viável, não é sustentável.

Também pode ter muitos lucros, mas se não os distribui ou paga salários bai xos, ou não cumpre com a legislação am biental, não é sustentável. Há sempre uma integração entre os três pilares (eco nómico, social e ambiental), embora ha ja normas específicas para cada um deles e a Insite opera em todas estas vertentes.

Qual é a resposta, em termos de trans formação, que obtiveram as organiza ções que investiram na sustentabilida de através da Insite? Que exemplos po de citar?

Quando as empresas enveredam por implementar este tipo de programas, uma das ferramentas que logo à partida adquirem é a monitorização dos indica dores que tentam estabelecer, quer do la do económico, do social ou do ambien tal. Medir os indicadores estratégicos das empresas parece simples, mas não é.

Quando iniciámos a consultoria, no

tamos que muitas empresas fazem isso de uma forma muito empírica e não con creta. O nosso trabalho, no fundo, é ten tar estabelecer os seus objectivos estraté gicos nas três vertentes (económica, so cial e ambiental) para que depois consi gam monitorizar e atingir os resultados que pretendem.

Ao longo do tempo vemos, claramen te, melhorias nas empresas que imple mentam os programas de sustentabili dade. O impacto é igualmente compro vado através de artigos científicos. Por exemplo, uma empresa que trate bem os seus colaboradores, que proporcione um bom ambiente de trabalho, sem aciden tes, é mais produtiva do que uma empre sa sem este tipo de programas.

Enquanto especialista em sustenta bilidade, que noção tem sobre o nível de formação de moçambicanos nes ta área? Temos instituições de forma ção preocupadas com esta questão ou estamos diante de um problema por resolver?

Uma das grandes dificuldades é a fal ta de quadros com as competências ne cessárias para gerir as áreas da sustenta bilidade. Em algumas empresas conse guimos identificar a figura do gestor de sustentabilidade ou gestor do sistema da qualidade, ambiente e segurança.

A estas figuras atribui-se a tarefa de ter uma visão holística da empresa, mas ainda há falta de quadros nestas áreas, e este é um desafio para as empresas, para as instituições e para o País.

É necessário formar pessoas porque este é um tipo de trabalho do futuro, nu ma altura em que os chamados green jo bs estão a surgir. Hoje em dia, pede-se

aos profissionais que têm formação bá sica em engenharia, economia, direi to, etc., que tenham conhecimentos de sustentabilidade.

Como e onde são treinados os gestores de sustentabilidade que existem em Moçambique?

Acaba por haver muitas vertentes que o gestor de sustentabilidade tem de abra çar para adquirir conhecimento.

A Insite dá o seu contributo na área da formação no que diz respeito aos vários referenciais normativos, em que uma pessoa que conheça os conceitos do am biente, segurança, qualidade, entre ou tros, pode caminhar para, no futuro, po der ser um gestor na área da sustentabi lidade. Por todo o mundo, há instituições que oferecem graus de pós-graduação nesta área.

A avaliar pelo estágio actual, como olha para o nível de desenvolvimento sustentável em Moçambique até 2030, limite para o cumprimento dos Objec tivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), quer ao nível macro, quer ao ní vel das organizações individualmente?

Os ODS foram estabelecidos em 2015 e já nesse ano, quer a nível mundial, na cional ou das organizações, todos sabía mos que seria um grande desafio cum prir com essa meta. Mesmo na comuni dade científica, muitos especialistas das áreas das alterações climáticas não con cordam com esse prazo porque é muito ambicioso.

Provavelmente isso não irá acontecer porque o tempo é muito curto e as pes soas não estão sensibilizadas para es ta problemática. Temos o prazo de 2030 para os ODS como um guia para que to dos dêem um contributo no sentido de que, mesmo que não seja em 2030, es sas metas sejam alcançadas em 2040 ou 2050. O importante é ir caminhando nes se sentido.

Esta COP27 é importante porque um dos temas centrais tem que ver com a compensação ao continente africano por ser o que menos contribui para as alte rações climáticas (cerca de 4% das emis sões de CO2 ao nível mundial), e um dos que mais sofrem com o fenómeno.

Os ciclones Idai, Kenneth e outros são exemplo disso e são fenómenos que po derão acontecer com mais frequência. Por isso, as organizações devem adop tar estratégias para serem mais resilien tes e estarem preparadas para estas mu danças climáticas. Há que encontrar me canismos para que países, organiza ções e indivíduos sejam cada vez mais resilientes.

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Saúde e segurança no trabalho são parte importante no garante da sustentabilidade

Éa partir do meu “Lugar de Aprendiz” que aceitei es te convite. Desconfio cada vez mais das opiniões for tes e certezas sólidas, e ins piram-me as pessoas com a capacidade de fazer as perguntas certas, que são poucas.

Partimos da pergunta de Daniel Wahl: Porque é que a sustentabilidade não chega?

É na segunda metade do século XX que a sustentabilidade ganha maior vi sibilidade, em particular com o conheci do relatório de Bruntland, publicado em 1987, que amplia a definição do conceito “Desenvolvimento Sustentável”, trazen do três questões essenciais: 1 - Dar res posta às necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de poderem satisfazer as suas; 2 –Adoptar um modelo de desenvolvimento económico, sem a degradação e exaus tão dos recursos naturais; 3 – Garantir a equidade na distribuição de recursos.

Desde então aquilo a que temos assis tido, não obstante algumas boas inten ções, concretizações e mérito, é ao des gaste, inadequabilidade e até à falta de ética na utilização do termo.

Não é que a sustentabilidade tenha deixado de ser importante, ela é simples mente um passo para o caminho para aquilo que Daniel Wahl chama de “cul turas regenerativas”.

Neste sentido, vale a pena distinguir os patamares fundamentais que este au tor nos traz, com muita sustentação teó rica, científica e prática que nos ajudam a perceber porque é que a sustentabilida de não chega e devemos caminhar para a cultura regenerativa (Design de Cultu ras Regenerativas, Daniel Wahl, pág. 57), aqui sintetizados com outras perspecti vas e naturalmente imbuídos da minha percepção.

Business as usual – É de onde esta mos a tentar sair, é o lugar em que as or

Sustentabilidade – Um Passo a Caminho das Culturas Regenerativas

ganizações continuam a fazer os seus negócios de sempre, cumprindo apenas as obrigações legais e, como bem sabe mos, principalmente em países onde grande parte da economia é informal e a regulação/fiscalização ainda é muito deficiente, muitas vezes nem isso. Achille Mbembe diz-nos, na sua últi ma obra Brutalismo, que “mais do que nunca, a função do poder é tornar pos sível a extracção. Isto exige intensificar a repressão utilizando a lei para multipli car os estados de excepção e desmante lar a resistência.”

“Parar a desordem e a extracção em que se encontram os ODS é muito importante face ao cenário que vivemos, mas é lamentavelmente o espelho da sociedade infantil actual, em que os pais/figuras de autoridade têm de castigar as crianças que se portam mal”

Os (falsos) verdes – São aqueles que muitas vezes estão a fazer praticamen te o mesmo que o Business as usual, mas acrescentam algo que vai um pouco além das obrigações legais e constroem uma boa campanha de marketing com isso.

O chamado greenwashing é aquele com que somos normalmente bombar deados, e não descurando o valor des ses contributos, que podem ser impor tantes, “enquanto continuarmos a ce lebrar os less bad como heróis, não va mos a lado nenhum” como nos diz Gun

ter Pauli, o conhecido homem da eco nomia azul.

Sustentabilidade – O ponto neutro, aquele em que tentamos não prejudicar mais os ecossistemas. E aqui incluem-se comunidades, organizações, biodiversi dade, economias, culturas, planeta. Sis temas. Adoptar decisões, medidas, polí ticas, programas, que não causem mais dano aos ecossistemas.

Na prática, os Objectivos de Desen volvimento sustentável (ODS) estão mui to centrados neste patamar e no paradig ma de “parar a desordem/extracção” e/ ou “fazer o bem”, embora algumas medi das e programas toquem o patamar res taurativo, reconciliatório e, muito pouco ainda, o regenerativo.

Restaurativo – Visa contribuir para a restauração e auto-regulação saudável dos ecossistemas. Embora seja mais um passo, ainda nos vê como separados da natureza e por isso manifesta-se muito como “seres humanos a fazer coisas pe la natureza.” É naturalmente importante, mas está aquém de gerar sistemas vivos.

Reconciliatório – Reintegrar o ser hu mano como parte da natureza. Neste pa tamar, há já um passo muito importan te: perceber a importância da humani dade sair do paradigma antropocêntrico (em que se coloca no topo da pirâmide com autoridade para dispor da biodiver sidade e do planeta como meros recur sos ao seu serviço), e de começar a par ticipar na vida, a partir de um lugar mais equilibrado e consciente.

Regenerativo – “Cria culturas capa zes de contínuas aprendizagens e trans formações em resposta e antecipação à mudança inevitável. Culturas regenera tivas salvaguardam e aumentam a abun dância biocultural para as futuras gera ções da humanidade e para a vida como um todo”. (Daniel Wahl)

Pensar e co-criar em conjunto siste mas vivos, que aumentem a vitalida de sistémica, e que contribuam para a

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Susana Cravo • Consultora & Fundadora da Kutsaca e da Plataforma Reflorestar.org

prosperidade de todos – Humanidade e Seres Vivos.

É um mito continuarmos a achar que os problemas que vivemos em todo o mundo estão separados. Pelo contrário, estão todos ligados e nenhum deles po de ser gerido de forma isolada. Relações, padrões, conexões e contexto são pala vras-chave a considerar para formular as nossas melhores perguntas-guia.

Aquilo que é vulgarmente conheci do como “Green transition” é, na maior parte das vezes, o Less Bad. Pode ser um passo para sair da extracção – das pes soas, dos sistemas, do planeta –, mas não é aquilo de que nos tentam convencer, e até pode ser um Business as usual dis farçado e oportunista, acompanhado de programas bilionários. Há poucas sema nas, um responsável do EBI - European Investment Bank alertava para este risco. Parar a desordem e extracção em que se encontram os ODS é muito importante face ao cenário que vivemos, mas é la mentavelmente o espelho da sociedade infantil actual, em que os pais/figuras de autoridade têm de castigar as crianças que se portam mal.

Já “fazer o bem”, em que também se encontram os ODS, pode ser importan te e necessário, sobretudo em situações de crise, que infelizmente Moçambi que bem conhece, mas está longe de nos preparar para a robustez e vitalidade de um sistema vivo.

Mas, então, como operam os sistemas vivos? Evoluindo a sua capacidade para a auto-expressão e evolução em direc

ção ao seu melhor potencial. Tudo, ab solutamente tudo o que existe, tem um papel no sistema de que faz parte. Ou vir as suas vozes, prestar atenção à forma como interagem e respeitar a sua essên cia já são grandes passos para activar es sa inteligência colectiva e vitalidade sis témica.

Isto é extremamente difícil numa cul tura rígida, guiada por um pensamento dual e reducionista, pelo já mencionado paradigma antropocêntrico, e pela ob sessão pelo controlo e por resolver pro blemas, em vez de manter e desenvolver as condições e relações que garantam o equilíbrio e vida naturalmente existentes. Coisa que os ancestrais e indígenas sem pre souberam fazer. Não é por acaso que 80% da biodiversidade do planeta (ain da preservada) é cuidada por povos in dígenas, famílias, pequenos proprietá rios e comunidades locais, que enten dem e respeitam os ciclos da vida. (ONU - Agricultura e Alimentação).

Moçambique está cheio de sabedo ria local, natural e rural. Vejo, contudo, com frequência que as decisões (unila terais) vêm das secretárias da cidade, e por vezes até de cidades de fora do País, que não conhecem, de todo, a realidade local.

A cultura cresce a partir da base, de forma orgânica. A regeneração acontece a partir do e com o lugar. Cada lugar tem os seus próprios Mestres e a sua sabe doria. Importar programas e best prac tices são modas que não se coadunam com a bio-inteligência dos lugares. Ge

ram frustração para todos: implementa dores e “recebedores passivos” que, ain da por cima, se pretendem activos, mo tivados e agradecidos. E isto é válido pa ra o mundo rural e urbano. Para a ma chamba e para a organização. Para os corpos e para os solos. Para os buscado res de soluções definitivas, que não con seguem conviver com a incerteza e com plexidade, ou seja, com o ciclo natural da vida de entropia e sintropia. Para os globalizadores que ditam as regras e pa ra os globalizados que, no fundo, como nos diz Achille Mbembe, “querem per tencer”.

É preciso desconstruir esta narrativa de que as sociedades industrializadas, baseadas na extracção/produção/con sumo, são o que traz prosperidade e fe licidade. Este paradigma de acção, com petição, conquista, crescimento, só fun ciona para muito poucos, e à custa de muitos.

Qualquer monocultura rígida, “lim pinha” e em permanente produtividade, esteja ela no agro-negócio, na empresa, na cultura, no corpo, não leva à regene ração. Leva, mais tarde ou mais cedo, à esterilidade e/ou à degeneração. Porque desvirtuar o ciclo natural da vida é cas trar o potencial único do lugar.

E a única forma de dar voz ao lugar/ sistema é descentralizar o poder e ouvir todas as vozes. Não são precisos progra mas bilionários nem importar práticas e programas. São precisos espaços segu ros, com significado para quem os ha bita, fortemente baseados em coopera ção (e não competição), onde a sabedo ria que já existe possa ser profundamen te escutada, expressada e potenciada.

Passa muito por nos abrirmos a no vas possibilidades, buscar as per guntas certas (e não as respostas), re-imaginar e co-criar futuros juntos. E, para isso, a memória não nos serve de muito. Criatividade, disrupção e capa cidade de fazer conexões, de gerar mais recursos e abundância com o que es tá localmente disponível, isso sim, é im portante.

É a partir deste lugar de pertença, co nexão e sentimento de contribuição que se activa a inteligência colectiva e se ca minha em direcção a sistemas vivos. E isto acontece devagar, não dá notícia. É subtil, mas fértil, orgânico, vivo.

O assunto é sério, mas como dis se Mia Couto, numa entrevista recen te, “é vital darmos as notícias boas, que criam esperança e vontade de fazer coi sas (...) Se actuarmos pela via do medo e teimarmos em encenar o apocalipse, a resposta só poderá vir dos que se apre sentam como Messias.”

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Novembro 2022 – Poupar, regra geral, é uma práti ca disciplinada que visa alcançar objectivos pes soais específicos. Mas quando se trata do meio corporativo, as empresas estabelecem múltiplos objectivos de curto, médio e longo prazos sendo, invariavelmente, o mais importante deles a capacidade de gerar e manter um fluxo de caixa sau dável para satisfazer as suas necessida des operacionais mais imediatas e finan ciar os seus planos de crescimento a lon go prazo.

Segundo Agnallo Nampunda, direc tor de Tesouraria do FNB Moçambique, esta é uma distinção crucial a manter presente pela classe empresarial, pois o modelo empresarial de gestão de te souraria é, pela sua natureza intrínseca, muito diferente de hábitos de poupança individuais.

“As diferenças entre os vários tipos de negócios tornam impossível adoptar re gras predeterminadas e, ao mesmo tem po, flexíveis relativamente à gestão efi caz de liquidez. Contudo, estes parti lham um objectivo comum: o da renta bilidade do negócio”.

Explica Agnallo que, “embora as em presas não poupem esforços para serem rentáveis, elas podem elevar o seu su cesso a patamares mais elevados atra vés de uma gestão eficiente de tesoura ria/caixa, investindo as suas reservas de caixa ou excedentes em contas que ren dam juros até que os fundos sejam ne cessários”.

Agnallo diz que alcançar este esta do óptimo de gestão de tesouraria exige que os gestores se mantenham em sin tonia com as necessidades de tesouraria correntes e futuras dos seus negócios. Depois, é necessário que combinem eficazmente uma gama de soluções de

Uma Gestão de Tesouraria Comercial Eficiente Requer Uma Abordagem Diversificada

poupança e de investimento, que sirvam o fim a que se destinam, para uma mo vimentação contínua e fluída de fundos.

Este tipo de abordagem de gestão di versificada de tesouraria com recurso a várias soluções é, aliás, uma disciplina empresarial relativamente simples de colocar em prática e os benefícios que daí resultam para a sustentabilidade do negócio são valiosos.

Embora a forma de optimizar a liqui dez possa diferir de negócio para negó cio, Agnallo Nampunda diz que os fun

depósitos a prazo tendo em vista as des pesas e os investimentos a longo prazo”.

“Considerando os juros significativos que os nossos clientes auferem, é fácil perceber a razão pela qual muitos deles incluem contas-poupança na sua abor dagem diversificada de gestão de tesou raria, e a disciplina financeira que de senvolvem dentro do negócio é muitas vezes ainda mais valiosa” explica.

Pelo simples facto de movimentarem uma conta separada para a gestão de li quidez e outra conta para as transacções diárias, as empresas podem ver reduzi do o risco de se verem confrontadas com despesas futuras insustentáveis, como o pagamento de IVA ou salários, podendo dar-se o caso de não disporem de fundos suficientes para cobri-las”.

Agnallo esclarece que o FNB disponi biliza aos seus clientes empresariais vá rias soluções acessíveis que permitem alcançar este nível de gestão optimiza da de caixa. “Todas as contas ‘poupan ça-empresa’ do FNB são instrumentos de poupança sem custos de abertura, o que significa que os nossos clientes po dem abrir as contas que precisarem pa ra gerir eficazmente os seus fundos sem custos.

damentos são bastante universais co mo, por exemplo, separar a conta tran saccional quotidiana da conta de inves timentos ajuda empresas e particulares a optimizar os retornos e a gerir as ne cessidades de tesouraria de curto e lon go prazos.

“Muitos dos nossos clientes empresá rios bem-sucedidos subscreveram diver sas soluções de gestão de liquidez em si multâneo, desde uma conta transaccio nal para operações diárias até uma mo ney market, que é uma combinação de

Além disso, os nossos clientes podem nomear as suas contas como preferirem, reservando assim claramente cada con ta para o objectivo de optimização de te souraria a longo ou curto prazo.

“Temos vindo a comprovar, de for ma recorrente, os efeitos positivos que uma gestão diversificada de tesouraria bem estruturada traz aos nossos ‘clien tes-empresa’”. E continua: “trabalhamos incansavelmente para incutir um enten dimento do valor que as pequenas e dis ciplinadas medidas de gestão de tesou raria tomadas hoje podem significar pa ra o crescimento a longo prazo e para a sustentabilidade futura do negócio.”

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“As diferenças entre os vários tipos de negócios tornam impossível adoptar regras predeterminadas e, ao mesmo tempo, flexíveis relativamente à gestão eficaz de liquidez..."
Agnallo Nampunda • Director de Tesouraria do FNB Moçambique
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“Se o Preço da Cerveja Subir, Não Será Pelos Custos de Selagem”

Produtores e importadores da cerveja e bebidas de pronto consumo (as sidras) revelam que a selagem destes produtos poderá encarecer as suas operações e reduzir a eficiência na produção. A Autoridade Tributária não concorda e diz que tem colaborado para evitar quaisquer prejuízos. De que lado está a razão?

Oprocesso de selagem de bebidas alcoólicas e ta baco, iniciado em 2017, já vai na sua terceira fase e passou a incluir, desde 1 de Novembro, as cervejas e sidras. Ain da assim, prevalece muita polémica em torno do assunto, que opõe os operado res e a Autoridade Tributária.

Neste ambiente de discórdia, va le ressaltar que a Autoridade Tributária (AT) reporta um impacto notável des ta medida desde a sua entrada em vigor, em 2017, no que diz respeito à capacida de de arrecadação de receitas e de com bate ao contrabando. Ao mesmo tempo, prevê que ao passar a abranger as cerve jas e sidras, fará crescer o potencial de arrecadação fiscal.

Na entrevista a seguir, o coordenador -geral da Unidade de Implementação da Selagem de Bebidas Alcoólicas e Tabaco ao nível da AT, Miguel Nhane, apresenta os argumentos que justificam a postura das autoridades, contrapondo os protes tos apresentados pelos operadores.

Desde o início, o processo de selagem das cervejas mostrou ser mais com plexo do que as anteriores fases (da selagem das bebidas espirituosas e das prontas a consumir). Houve adia mentos decorrentes da falta de con sensos entre a AT e as cervejeiras. E ao que parece, a avaliar pelo envolvi mento do Tribunal Administrativo, os diferendos ainda não foram ultrapas sados, apesar de já estarmos na fa se de implementação da medida, des de 1 de Novembro. Pode descrever es ta situação?

Há, claramente, questões que não se remos nós a responder. A AT nunca in tentou uma acção contra qualquer enti dade, e quando foi solicitada apenas deu

as explicações que lhe competiam dar. Mas para facilitar a compreensão des tas contradições, devo recuar no tempo. O primeiro passo que foi dado na im plementação desta medida foi em 2016, com a aprovação do regulamento de se lagem de bebidas alcoólicas e tabaco. E porque do ponto de vista legal as condi ções estavam criadas para iniciarmos a selagem, desenhámos logo a seguir um calendário e decidimos dividir o proces so em três fases para facilitar a gestão da sua implementação.

Assim, o calendário de 2016 estabele cia o dia 17 Março de 2017 para o início da fase 1, a da selagem do tabaco. E foi cumprido. Também foi cumprido o ca lendário da fase 2, que envolvia a sela gem dos vinhos e bebidas espirituosas a partir de Junho do mesmo ano. A última fase, que abrange as cervejas e bebidas de consumo rápido (as sidras), era para iniciar a 17 de Novembro de 2017.

Entretanto, quando estávamos a pre parar-nos para iniciar a selagem, foi-nos solicitado um encontro pela Associação dos Produtores e Importadores de Be bidas Alcoólicas (APIBA) que dizia ter preocupações relativas a este processo.

A principal questão que nos colo cou foi que se devia utilizar o selo digi tal no lugar do selo holográfico (físico), estabelecido no regulamento. Argumen taram que o uso do selo holográfico po dia levar à redução da velocidade das li nhas de enchimento das fábricas de cer veja. Temia-se, portanto, que o processo pudesse interferir negativamente na efi ciência operacional.

Na altura, acolhemos a proposta da APIBA por considerarmos que era razoá vel, e decidimos suspender o adiamento do início da selagem da cerveja em No vembro, para darmos tempo de nos pre pararmos para esta solução que nos era

proposta. Este trabalho estendeu-se até ao ano passado. Com o envolvimento da própria indústria, realizámos testes nas unidades de produção para termos a certeza de que a questão que nos era co locada tinha sido ultrapassada. Quando chegámos à conclusão que sim, avançá mos com os preparativos legais que cul minaram com a aprovação de um novo regulamento de selagem.

Se o diferendo em torno da natureza do selo a ser utilizado foi ultrapassa do, o que justifica que os protestos não tenham cessado?

Foi mesmo em ambiente de imple mentação do selo digital que começou a grande confusão, com os operadores a recorrerem ao Tribunal Administrativo para solicitar que este instrumento fosse suspenso. Entendemos que isso não faz sentido porque temos os documentos da própria indústria a aconselhar-nos a adopção desta solução, e fizemos testes que provaram que a mesma é válida. Por isso, desta vez não houve suspensão da medida que as cervejeiras pretendiam.

Respeitámos os procedimentos deles por se tratar de um direito que lhes assis te, mas sempre fomos firmes no cumpri

www.economiaemercado.co.mz | Novembro 2022 46 MERCADO & FINANÇAS
Texto Pedro Cativelos • Fotografia Mariano Silva

“O ajustamento do preço da cerveja será a prova de que o nosso mecanismo de controlo é eficaz: evita a fuga ao fisco e retira a capacidade de subsidiar o seu consumo”, Miguel Nhane, AT

mento do interesse público que se con substancia no combate aos cartéis de contrabando destes produtos. O interes se privado não deve prevalecer acima do interesse público. No nosso caso, como AT, queremos dinheiro para financiar a despesa pública.

Ultrapassada a questão do selo físi co, veio o protesto relacionado com o facto de o selo proposto ser demasia damente grande e que deveria haver uma ponderação da AT no sentido de garantir as negociações entre o mer cado e os fornecedores, tudo para as segurar que esta meta se efectivasse…

Tendo sido aprovado através de um instrumento legal, a alteração do selo te ria de ser feita segundo o mesmo proce dimento. Mas porque reconhecemos a

legitimidade da preocupação da indús tria – até porque nos foi sugerida uma solução – tomámos o risco de assumir a sua preocupação, de tal forma que, mesmo a fase-piloto que está a aconte cer desde Novembro deste ano, decorre considerando o selo reduzido que a in dústria sugeriu.

Então, fica claro que não é este o pro blema, porque não afecta o objectivo do programa. Prova disso é que há no mercado um operador que, desde Ja neiro deste ano, ainda não parou de se lar as suas bebidas. E o selo que utiliza é exactamente o que nos foi proposto pe la indústria.

Às preocupações levantadas pelos operadores também se sobrepõe a dis ponibilidade dos equipamentos para a

selagem que, além de exigirem inves timento adicional, requerem tempo de preparação e implementação. Que lei tura faz?

Antes de passarmos para a aprovação do quadro legal, tivemos o cuidado de fazer o teste desta solução em ambiente fabril. Oferecemo-nos para fazer visitas para testes em qualquer lugar do mun do que nos fosse indicado pelos próprios operadores.

Realizámos testes em Portugal, na Holanda, África do Sul, nas empresas do Grupo AB In BEV e também na Namí bia, indicada pela Heineken. Estes testes visavam não só aferir o aspecto de não poder interferir na eficiência das linhas de enchimento, mas também avaliar os custos de implementação da solução.

Na altura, falando dos preços de 2018, o custo médio dos equipamentos para a implementação desta solução era de 210 mil randes, que equivalem a cerca de 15 mil dólares. Não acredito que seja este custo que deve ser invocado para invia bilizar um projecto desta dimensão.

Há indicação de que nas primeiras duas fases do processo tiveram de li dar com a falsificação, venda paralela de selos e desobediência dos operado res. Que garantias existem de que es tes fenómenos não vão prevalecer com a inclusão das cervejas, já que estas são comercializadas e consumidas em qualquer lugar, podendo dificultar a acção das autoridades de fiscalização?

Comecemos pela venda paralela de selos. Houve a necessidade gerir a fase pré-transitória. Por exemplo, no dia 1 de Novembro começámos a interditar a in trodução da cerveja não selada no mer cado. Entretanto, temos a cerveja que entrou nos dias anteriores. Como gerir esta situação?

Nas primeiras duas fases, abrimos um espaço para que qualquer operador que, naquela data, tivesse stock de pro duto não selado pudesse fazer um re querimento direccionado a nós com a indicação das quantidades.

De seguida, enviávamos uma equipa para apurar se existia este stock, e depois fornecíamos uma quantidade de selos correspondente ao stock que havia. Mas muitos dos que recebiam os selos, inclu sive nos mercados informais, não os co locavam nas bebidas.

Continuaram a vender bebidas sem selos, utilizando-os para legalizar o pro duto que entrava por via do contraban do. Por outro lado, o selo tem de ser co locado por quem produz ou por quem importa. Para isso é preciso estar re gistado na Direcção Geral das Alfânde

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gas, e há uma série de documentos ne cessários para provar que se trata de um operador legal, nomeadamente a licen ça emitida pelo Ministério da Indústria e Comércio, certificado do Ministério da Saúde, certidão de quitação, etc.

Mas algumas pessoas desonestas reuniam esses documentos, eram regis tadas e adquiriam selos sem que fossem produtores nem comerciantes de bebi das. Afinal, eles vendiam os selos. Assim, tivemos de apertar no controlo e passá mos a visitar os operadores, o que nos ajudou a eliminar os operadores-fantas ma e a venda paralela de selos.

E quanto à falsificação?

O nosso selo é robusto em termos de elementos de segurança. Tem 23 ele mentos de segurança não visíveis, de tectáveis através de equipamentos apro priados que temos à disposição.

É este equipamento que nos permite uma intervenção mais incisiva. Mas não só. A nossa aposta tem sido a de actuali zar os elementos de segurança à medida que a tecnologia vai evoluindo.

É previsível, e até os operadores já ad mitiram, que o início da selagem traga a perspectiva do aumento do preço do

produto final, obviamente porque há custos adicionais. Em que medida isto afectaria a capacidade de arrecadação de receitas?

Admito que é previsível que haja ajustamento do preço da cerveja, mas não concordo que tal resulte dos cus tos associados à selagem. O custo mé dio de selagem da cerveja está abaixo de 50 cêntimos do metical. Isto é, se o ajus tamento for de 50 cêntimos do metical posso concordar que a revisão seja uma resposta directa à elevação dos custos de selagem.

O que me parece é que o aumento do preço será pelo facto de que as cervejas que não pagavam impostos vão passar a pagar por causa do selo. As promoções que frequentemente acontecem em di ferentes pontos de consumo estão rela cionadas com a fuga ao fisco. Mas, a par tir do momento que começarmos a cor tar esta janela, a cerveja será vendida ao preço real.

Portanto, não me surpreende que ha ja ajustamentos. Aliás, será a prova de que estamos no bom caminho porque vai mostrar que o nosso mecanismo de controlo está a trazer eficácia no contro lo fiscal destes produtos, evitando que haja fuga ao fisco e retirando a capaci

dade do mercado em subsidiar o preço da cerveja.

Em que medida a selagem de bebidas permitiu o cumprimento dos objecti vos para que foi instituído (melhorar a arrecadação de receitas e evitar o con trabando) desde a entrada em vigor em 2017?

Apresentámos grandes saltos na co lecta de receitas sobre bebidas e tabaco. Em 2017, o imposto sobre o consumo es pecífico que incide sobre estes produtos permitiu a arrecadação de quase 1,5 mil milhões de meticais. No ano seguinte, o valor quase duplicou para 2,2 mil milhões de meticais. Já em 2019 baixou um pou co em relação a 2018, mesmo assim mui to superior ao que se registou no primei ro ano, ao se situar em 1,7 mil milhões de meticais. Em 2020, este valor voltou a au mentar para 2,2 mil milhões de meticais porque, ao vermos a queda que se havia registado no ano anterior, fizemos uma avaliação que nos levou a concluir que devíamos fortalecer o programa, princi palmente através da fiscalização.

Já em 2021, a arrecadação chegou aos 2,1 mil milhões de meticais e só este ve abaixo dos níveis do ano anterior de vido às medidas para prevenir a propa

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SELAGEM AMPLIOU RECEITAS

Desde que se tornou obrigatória a selagem de álcool e tabaco, os impostos cobrados sobre estes bens deram um grande salto

O POTENCIAL DA CERVEJA

Antes mesmo do selo, os impostos sobre a cerveja e as cidras superam os que a AT capta sobre os outros produtos

(Em mil milhões de meticais) (Em mil milhões de meticais)

gação do covid-19, que levou à redução acentuada de consumo e, naturalmen te, da contribuição fiscal destes produtos. Nos primeiros nove meses deste ano co brámos 2,5 mil milhões de meticais, que estão bem acima dos 1,7 mil milhões em igual período do ano passado.

Estes números, só por si, dizem mui to sobre o objectivo da selagem de bebi das. Mesmo assim, ainda prevalecem de safios. Existem produtos no mercado que estão longe do nosso controlo. Por isso continuamos a apostar na fiscalização, num país com extensa rede de fronteiras sem qualquer rede de vedação.

Que potencial existe em termos de ca pacidade de ampliar a base de receitas sobre a cerveja e as bebidas prontas a consumir?

Em 2020, a contribuição das cervejas e bebidas prontas a consumir no impos to de consumo específico foi de 3,6 mil milhões de meticais. Em 2021, foi de 3,3 mil milhões de meticais. De Janeiro a Se tembro deste ano foi de 2,3 mil milhões de meticais. A nossa expectativa é que no primeiro ano de introdução desta medi da haja um crescimento médio das recei tas entre 20% e 25% e que este crescimen to se mantenha por quatro anos.

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FONTE
Autoridade Tributária 1,5 2,2 1,7 2,2 3,6 3,3 2,1 1,7 2,3 2,3 2017 2018 2019 2020 2020 2021 2021 2021 2022 2021 2022 Jan. a Set. Jan. a Set. Jan. a Set. Jan. a Set. 2,5
João Gomes • Partner @ JASON Moçambique

Vem este artigo a propósi to de dois eventos em que participei, ambos relacio nados com o tema da cria ção de emprego para jo vens:

- A sessão de apresentação dos resulta dos provisórios da “Missão de auscultação aos sectores de Ensino Técnico Profissio nal e Emprego em Moçambique”, promo vida pela União Europeia;

- O workshop “Dinâmicas de Inovação e +Emprego”, promovido pelo Instituto Ca mões no âmbito do projecto +Emprego pa ra os jovens de Cabo Delgado.

Neste artigo convido o meu leitor@ a responder à seguinte questão: Que so luções inovadoras estão a ser testadas, com sucesso, para combater o desem prego jovem em África? Vejamos sucessivamente:

- A definição de jovem desempregado;

- Estatísticas (aterradoras!) sobre o de semprego jovem em África;

- As características-chave das soluções “fora-da-caixa” e “made in Africa” pa ra criar emprego para jovens; - Conclusão.

A. Definição de jovem desempregado A definição mais comum de jovem desem pregado em vigor, por exemplo, nos países da África Subsaariana, aponta para a pre sença das seguintes características:

- Indivíduos cuja idade varia entre os 15 e os 35 anos;

- E que não estão nem a estudar, nem em formação profissional, nem em pregados (NEET)1

- - Ao que acrescentaria: e que se en contram a trabalhar em condições vulneráveis e, na terminologia da OIT, não decentes2.

B. Estatísticas (aterradoras) sobre o de semprego jovem em África Tic, tac.

A “bomba relógio” do desemprego jo vem em África paira sobre as nossas cabe ças, qual espada de Démocles, e com algu mas terríveis deflagrações, cujo impacto não pode ser por nós esquecido.

Ainda que outros fenómenos possam justificar a deflagração desta “bomba reló

Desemprego

Jovem em África: Bomba-relógio ou Necessidade Urgente em Buscar Soluções “Fora-da-Caixa” e “Made in Africa”?

gio”, sem dúvida alguma que a causa-raiz é o desemprego jovem. SSão os casos pro blemáticos:

- Da Primavera Árabe.

- Do movimento insurgente no Norte de Moçambique, na província de Ca bo Delgado.

- Do fenómeno da imigração ilegal e massiva a partir do Norte de África, para a Europa.

E o tamanho deste problema pode ser medido, por defeito, através das seguintes estatísticas3 4:

- Cerca de 70% da população em Áfri ca tem menos de 30 anos (i.e. inclui -se na categoria de jovem).

- Citando um relatório do Banco Africa no de Desenvolvimento, este observa que metade dos jovens em África está desempregada ou inactiva, enquan

cessitam de um trabalho decente.

C. Características-chave das soluções “fora da caixa” e “made in Africa” para criar emprego para jovens

Na nossa pesquisa identificámos +40 soluções inovadoras, e “made in Africa” (i.e. Africa do Sul, Botswana, Gana, Nigé ria, Quénia, Senegal, Zimbabué), para criar emprego para jovens.

Atendendo às limitações de espaço, neste artigo farei uma referência às carac terísticas-chave de um número limitado de soluções.

Característica-chave #01: Mudança de foco da procura de emprego, para a oferta de emprego.

Há sinais de que a nova geração de so luções de combate ao desemprego jovem em África – fruto da constatação que solu ções parciais, baseadas apenas em for mação, e no emprego público simples mente não resolvem o problema da em pregabilidade - se está a afastar da abor dagem pelo lado da procura, onde o foco está nos jovens desempregados, na educa ção, na formação, na empregabilidade.

Em alternativa, tais soluções estão a mudar o foco e:

to 35% está em empregos vulneráveis.

- A taxa de desemprego dos jovens é 3 a 5 vezes maior do que a taxa de desem prego dos adultos em África.

- 12 milhões de jovens africanos são co locados anualmente no mercado de trabalho e apenas 3 milhões conse guem emprego.

- Estima-se que serão necessários 18 milhões de novos postos de trabalho por ano até 2035 para absorver a cres cente força de trabalho, só na região da África Subsaariana.

- Uma grande preocupação e parado xo é que a taxa de desemprego dos jo vens Africanos está a aumentar com o nível de educação.

É pois necessária acção urgente para aju dar os milhões de jovens africanos que ne

- Promovem o lado da oferta: as abor dagens estão a ser feitas, de forma inte grada, e pelo lado da oferta, onde o en foque é colocado i) nas necessidades das empresas (particularmente das PME´s); ii) na criação de emprego (nas dimensões de trabalho voluntário, de emprego, de au to-emprego, de empreendedorismo); iii) nas condições de trabalho decente; iv) e na transformação estrutural dos mercados de trabalho (v.g. flexibilização da legislação la boral).

- Promovem o futuro grande merca do da Zona de Comércio Livre Continen tal Africana (ZCLCA)5: uma vez que quan to mais cedo África implementar o Acordo, maior o potencial de crescimento econó mico e criação de emprego em cada país.

Caso da Nigéria: Em resposta às preocu pações levantadas sobre o desfasamento entre as necessidades de emprego da indús tria (centrada na oferta) e a formação nas universidades (centrada na procura), na Nigéria, a Comissão Nacional das Universi

www.economiaemercado.co.mz | Novembro 2022 50 OPINIÃO
A “bomba relógio” do desemprego jovem em África paira sob as nossas cabeças, qual espada de Démocles, e com algumas terríveis deflagrações...

dades tem critérios de referência para as interacções entre universidades e indús tria. É obrigatório que todas as universida des nigerianas criem centros empresariais.

Característica-chave #02: Mudança de Mentalidades

Há sinais de que a nova geração de so luções de combate ao desemprego jovem em África está a promover uma mudança das mentalidades.

Em alternativa, tais soluções estão a mudar o foco e:

- Promovem o papel da ética no traba lho: i) revendo os valores e a ética que sus tentam o trabalho e a definição de “car reiras de sucesso”; ii) e influenciando as crianças, e os jovens para que possam apreciar como o sucesso pode ser alcança do valorizando a ética, sobre a mera acu mulação de riqueza.

- Promovem o papel das parcerias pú blico-privadas: mudando a mentalidade dos governos Africanos de pensar no sec tor privado como concorrente, para o en carar como parceiro.

- Promovem o Ensino Técnico-Profis sional (ETP): alterando e desmistificando a narrativa que retrata o ETP como um sis tema que serve apenas para os falhados, i.e. para os que não conseguem entrar no ensino universitário.

- Promovem a Africanicidade: incul cando o novo credo no qual os países Afri canos devem desistir de imitar cegamente outros continentes e reconhecer que o de senvolvimento não significa ocidentali zação. Neste contexto, o apelo à africani zação dos produtos e serviços como forma de aumentar o valor dos mesmos, no sen tido de permitir a respectiva diferenciação, quer nos mercados domésticos, quer nos mercados de exportação e, em consequên cia, gerar mais e melhores empregos.

Caso do Senegal: Um programa em cur so no Senegal, que fornece aos jovens en tre os 2 e 20 anos, formação em Ciências,

Tecnologia, Engenharia, e Matemáticas (CTEM), a par de competências empresa riais. O objectivo é preparar as crianças, an tes de atingirem a “juventude”, fornecendo valores e competências agrícolas nas esco las primárias e secundárias, de modo a fa cilitar o acesso ao mercado de trabalho na fileira do agronegócio.

Característica-chave #03: Os jovens não são o problema, estão a ganhar VOZ, e fazem parte da solução (“Eu sou o mes tre do meu destino, o capitão da minha al ma”6)

Há sinais de que a nova geração de so luções de combate ao desemprego jovem em África - fruto do desenvolvimento da democracia - esteja a mudar o equilíbrio de poder entre governantes e governa dos.

Em alternativa, tais soluções estão a mudar o foco e:

- Destacam a contribuição dos jovens desempregados como promotores de ini ciativas: forçando os governos a exerci tar maior escuta activa ((v.g. através de mecanismos de democracia participati va) em relação aos anseios e necessidades dos beneficiários das políticas de empre go. E, mais interessante ainda, muitas ini ciativas de criação de emprego partem dos próprios jovens desempregados (i.e. abor dagem bottom-up) e não, dos governos, e/ ou das ONG´s.

Um caso do Gana: A grave situação de desemprego no Gana, aliada a uma gran de preocupação e paradoxo da taxa de de semprego dos jovens Africanos estar a au mentar com o nível de educação levaram à criação de uma Associação de Licen ciados Desempregados, cujo aumento da adesão de novos membros tem sido im pressionante.

Um caso do Quénia: A grave situação de desemprego no Quénia levou ao compro misso político de reservar 30% do orça mento de aquisições públicas num Fun

do para a Juventude para actividades em presariais juvenis: o número de jovens em pregados é um dos critérios de selecção para a adjudicação de contractos do Go verno.

Em conclusão

O desemprego jovem em África, cuja enorme dimensão fica estatisticamente re tratada neste artigo, constitui a causa-raiz da instabilidade social que, qual bomba relógio, ocasionalmente deflagra em con flitos com repercussões tremendas.

E as ondas de choque não se confinam apenas a África: o desemprego jovem em África é um problema global, e a exigir acção urgente.

A nossa pesquisa identificou +40 so luções inovadoras e “made in Africa” de combate ao desemprego jovem.

Neste artigo destacámos apenas 3 ca racterísticas-chave que conformam a maioria das soluções inovadoras de com bate ao desemprego jovem em África: tais soluções promovem i) Uma mudança de foco da procura de emprego, para a oferta de emprego; ii) Uma mudança de menta lidades; iii) Uma mudança do enquadra mento dos jovens: na nova narrativa estes não são o problema, estão a ganhar VOZ, e fazem parte da solução.

E não se pode pedir aos jovens Africa nos que aguardem por melhores dias: os seus problemas não são do futuro, são do presente.

1 Not in employment, education, or training (NEET)..

2 Trabalho decente: Conceito desenvolvido pela Orga nização Internacional do Trabalho (OIT), em 1999. É o trabalho adequadamente remunerado, exercido em liberdade, equidade e segurança, e capaz de garantir uma vida digna. O conceito apoia-se em quatro pila res: os direitos e princípios fundamentais do trabalho, a promoção do emprego de qualidade, a extensão da protecção social e o diálogo social.

3 ”Enfrentar o Desafio do Desemprego Jovem em África: Soluções Inovadoras dos Think Tanks”. The African Capacity Building Foundation.

4 Relatório “Impulsionar o emprego dos jovens na África Subsariana: criar oportunidades e criar competências”. Departamento de Desenvolvimento Internacional, British Council.

5 O acordo fundador foi intermediado pela União Africana (UA) e assinado por 44 dos seus 55 estados membros em Kigali em 21 de Março de 2018 tornan do-a na maior área de livre comércio em número de estados membros desde a criação da Organização Mundial do Comércio, e a maior em população e tamanho geográfico, abrangendo mais de 1 bilhão de pessoas no segundo maior continente do mundo. Até o final de Abril de 2022, 43 dos 54 signatários (80%) depositaram seus instrumentos de ratificação do Acordo Continental Africano de Comércio Livre.

6 Célebre poema de HENLEY, William Ernest “INVIC TUS - I am the master of my fate: I am the captain of my soul”.

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Em África, a taxa de desemprego dos jovens chega a ser cinco vezes superior a dos adultos

especial inovações daqui

54 ROBÓTICA EDUCACIONAL

A Universidade Pedagógica está a apostar no apoio a alunos de escolas secundárias a desenvolverem projectos na área da robótica. Mas a sua ambição vai mais longe: quer introduzir os graus de licenciatura e pós-graduação nesta especialidade e na Inteligência Artificial

Uma plataforma que quer contribuir para a valorização do cinema moçambicano

As notícias da inovação em Moçambique, África e no Mundo

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59 NETKANEMA PANORAMA

Formação em Robótica, a Nova Aposta da Universidade Pedagógica

AUniversidade Pedagógica de Moçambique (UP) anun ciou, recentemente, a inten ção de introduzir os graus de licenciatura e de mestra do em Robótica e Inteligência Artificial. Enquanto isso não acontece, a interven ção está a acontecer ao nível da chama da Robótica Educacional, que desper ta nos mais novos a noção de recorrer à ciência para responder aos desafios do desenvolvimento.

Um dos últimos eventos de exposição desta iniciativa teve lugar recentemente em Maputo, em que competiram vários

Mas o que explica que uma Universi dade dedicada à formação de professo res se tenha interessado, e até esteja a in vestir, na criação de ligações fortes com a área da pesquisa científica, como acon tece nos últimos tempos?

“Ser professor é estar à frente das coi sas, é antecipar-se ao tempo. É ensinar coisas que vão ser utilizadas mais tarde. Nós temos de preparar os alunos para uma coisa que não existe. Portanto, um professor tem de preparar os alunos pa ra o futuro.

Por isso, é natural que a Faculdade de Matemática e Ciências esteja à frente na

da Robótica

projectos de robótica desenvolvidos por alunos de algumas escolas secundárias de Maputo. Destes, seis estudantes (três rapazes e três raparigas) foram qualifica dos para um concurso internacional de robótica a ter lugar em Abril de 2023 em Dallas, nos Estados Unidos.

Trata-se de uma oportunidade que lhes é dada para que conheçam outras crianças com as mesmas ambições, mas de outras realidades, no sentido de po derem trocar ideias, sendo esta não é a primeira vez que estudantes moçambi canos participam em encontros deste género. A última aconteceu em Outubro passado na Suíça.

tecnologia, muito mais do que a enge nharia, que usa isso para o seu proveito e para a sua formação”.

Eis o pensamento que norteia es ta iniciativa da UP, nas palavras de An tónio Batel, cientista com diversos pro jectos dedicados ao ensino das ciências, e que é também fundador da Osuwela, uma ONG ligada também às ciências, que fomenta o pensamento crítico, cria conteúdos para projectos na área da ro bótica e apoia a UP nesta iniciativa.

De acordo com o cientista, a ideia da Robótica Educacional é uma forma de exemplificar os problemas da vida real que podem ser levados aos laboratórios.

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Estudantes moçambicanos de nível secundário já têm a oportunidade de criar e expor projectos na área da robótica, graças à iniciativa da Universidade Pedagógica de Moçambique, designada por Robótica Educacional. Aproximar esta ciência dos mais novos tem um horizonte: parte dos desafios do desenvolvimento de Moçambique tem de ser solucionada por moçambicanos TEXTO Celso Chambisso • FOTOGRAFIA D.R
A ideia
Educacional é uma forma de exemplificar os problemas da vida real que podem ser levados aos laboratórios. É essa capacidade que se prende criar nos alunos
ROBÓTICA EDUCACIONAL
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“Por exemplo, imagine que quer fazer um sistema de rega que é capaz de pôr apenas a quantidade necessária de água para cada planta.

Pegando num robot e instalando um sensor, este vai ao pé da planta e me de o nível de humidade, volta para trás e vai buscar a água que a rega consoan te a necessidade que existe. Isto é, a ro bótica, no fundo, traduz a resolução de grandes problemas em laboratórios”, ex plicou António Batel.

Currículo escolar vs ciência na prática

Como é de conhecimento geral, os conteúdos científicos apreendidos teo ricamente na escola deixam um gran de espaço por preencher quando os alu nos têm de lidar com a ciência na práti ca. Como é que a UP pensou em estabe lecer a conexão destas pontas (soltas)?

Armindo Monjane, professor cate drático da UP e director da Faculdade de Ciências Naturais e Matemática, e com uma experiência de mais de 40 anos de ensino de Química em vários níveis, ex plica que “o fenómeno de o aluno, uma vez na faculdade, ter acesso apenas aos conhecimentos fragmentados em disci plinas, é uma criação humana porque, no fundo, este precisa de todos os co nhecimentos conjugados, e que são ne cessários para desenvolver a robótica”, esclarece Armindo Monjane, avançando o exemplo da produção de biogás que está a ser desenvolvido pela UP em al gumas localidades do distrito de Boane, província de Maputo.

“A produção de biogás não é possí vel só com o conhecimento de uma área científica. A biodegradação tem que ver com a Biologia; as reacções químicas que ocorrem, estão relacionadas com a Química; problemas de canalização, tes tes, etc. têm que ver com a Tecnologia”.

Monjane é secundado por António Batel, ao assumir que “estamos habitua dos a imaginar a ciência como aprende mos na escola através da Matemática, Física, Química, Biologia, Mecânica etc. mas a robótica une estas ciências todas.

Ou seja, para pôr a funcionar um ro bot temos de ter conhecimento de uma série de áreas para que ele tome deci sões autónomas.

No nosso caso, as grandes áreas de interesse da robótica para a questão dos negócios e do desenvolvimento incluem a Energia, Agricultura e as ciências em geral, e que fecham um arco enorme em volta da agricultura”.

Mas robótica não é apenas isso. “Po demos olhar para o espaço e temos lá

FORMAÇÃO AO MAIS ALTO NÍVEL

A ambição da Universidade Pedagógica de Moçambique é tentar ir mais longe na formação de cientistas. Recentemente, o reitor desta instituição, Jorge Ferrão, anunciou a pretensão de introduzir a licenciatura e o mestrado em Robótica e Inteligência Artificial já em 2023. “Nós estamos com o nosso plano estratégico em actividade agora, e a Robótica e Inteligência Artificial são as próximas áreas que queremos oferecer aos próximos estudantes. Estamos a criar condições buscando as parcerias certas para este objectivo”, garantiu Jorge Ferrão. Recorde-se que no princípio de Maio deste ano, a UP inaugurou a chamada ‘Sala do Futuro’ no seu campus de Maputo, a primeira das quatro previstas no País. Trata-se de uma sala multidisciplinar que serve de oficina pedagógica para o ensino integrado em STEM (Ciências, Tecnologias, Engenharias e Matemática), equipada com kits de ciências, robótica e equipamento digital. Irá permitir a integração de várias áreas do saber no mesmo espaço, com novos métodos de ensino para o desenvolvimento de competências para aprendizagem baseada na resolução de problemas da realidade.

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GESTÃO DE PESSOAS

outros robots como os satélites, estações espaciais, etc., ou seja, a robótica está em muitos aspectos da nossa vida sem que nos apercebamos disso.

Por exemplo, se quisermos resolver o problema do recuo do mangal, podemos utilizar um satélite que está a olhar pa ra a terra e com ele medir a dimensão do recuo do mangal. É isso que a robótica educacional pretende: trazer o proble ma para a sala de aulas e criar uma edu cação relevante.

Este processo vai criar facilidades enormes para a indústria, que vai depois identificar-se com estes problemas e an tecipar a sua resolução”, concluiu o cien tista.

A meta é expandir a inicia tiva

O projecto de divulgação da iniciati va da robótica educacional nas escolas, tem apoios de várias organizações. Por exemplo, a competição de robótica As trobot, no dia 20 de Outubro, foi o culmi nar de um ano de trabalho com resolu ção de problemas em STEM – Robotics, que representam intencionalmente pro blemas da vida real.

A Osuwela fornece formação aos alu nos e professores dos Clubes STEM das 12 escolas secundárias envolvidas na Cidade e Província de Maputo, o que é possível graças à aliança com parceiros estratégicos como a ExxonMobil, a Ve xRobotics, o Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano, entre outros parceiros.

Apesar de já estar a avançar, a UP ain da não está satisfeita “porque actual mente abrange um grupo restrito de es tudantes. Daí que a intenção da institui ção seja expandir para o Centro e Nor te do País, porque achamos que é pre ciso aproveitar a fase em que as crian ças têm muita curiosidade, vontade de aprender e em que têm mais possibili dades de desenvolver competências do que se tiverem de aprender mais tarde”, explicou o professor catedrático Armin do Monjane.

É importante referir que a ideia de fo mentar a pesquisa na área da robótica nas escolas já é prática seguida por mui tas universidades pelo mundo.

São exemplos disso muitas escolas brasileiras que realizam com muita fre quência competições nesta área, aca bando por apresentar projectos tecnoló gicos verdadeiramente disruptivos. Por tugal também tem vindo a formar-se em robótica, com resultados encorajadores em termos de desenvolvimento intelec tual e científico.

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NETKANEMA

Netflix à Moçambicana já Tem Mais de 100 Filmes Nacionais

O cinema moçambicano começa a olhar para novos caminhos para se enraizar, crescer e

uma solução

Todos sabem que o cinema em Moçambique ainda está a dar os seus primeiros pas sos, pelo menos se o pensar mos à imagem de uma ver dadeira indústria saudável e rentável. Se, em tempos, era de facto notável a rele vância das produções cinematográficas nacionais, que atraíam multidões às sa las de cinema, sobretudo aos fins-de-se mana, a dada altura tudo se transformou e, hoje, as salas que outrora deram bri lho às tardes e noites de muitos moçam bicanos transformaram-se em ruínas. Claro que os tempos mudaram, e a tec nológia surge enquanto game changer para a revitalização de todo um sector, a vários nível. A este nível, o boom das pla

taformas de streaming como o Netflix, a HBO ou a Apple TV, que maximizaram o acesso de produções de países perifé ricos às grandes audiências globais. Foi aliás o caso de “Resgate”, filme moçam bicano que estreou na Netflix em 2020.

Pensando igual, mas com foco local, o cineasta e empresário moçambicano Ivandro Maocha, decidiu passar à acção criando uma plataforma de streaming nacional chamada “Netkanema”, na qual já se encontram disponíveis mais de 100 filmes produzidos em Moçambique.

A ideia, que começou a ganhar forma em 2019, é inspirada na in fância do cineasta, por influên cia da sua mãe que sempre traba lhou nos meios audiovisuais, desper

tando nele o gosto pela sétima arte. A Netkanema tem como principal objec tivo “divulgar ou fomentar o gosto pelo cinema em Moçambique e, de alguma forma, tornar-se parceiro dos cineastas nacionais”, disse Ivando Maocha, desta cando que “o objectivo inicial era ape nas formar uma ‘cinemateca virtual’, ou seja, uma plataforma onde fosse possí vel ir buscar aquilo que ainda estava na minha memória”.

Entretanto, e olhando aos bons exem plos lá de fora, a ideia evoluiu, e ganhou força e forma e passou de um mero re positório de filmes que fazem parte do espólio do cinema moçambicano, para novas produções. “Agora é possível ver várias produções oriundas de quase to

www.economiaemercado.co.mz | Novembro 2022 58 MAOCHAS FILMES
massificar, e, a este nível, o digital é inultrapassável. Por isso, e olhando ao modelo de negócio de gingantes como como a Netflix ou a HBO, um cineasta moçambicano lança agora a primeira plataforma de streaming moçambicana TEXTO Nário Sixpence • FOTOGRAFIA Mariano Silva

das as províncias do país, de aspirantes a realizadores, pessoas que têm condições e equipamentos de topo até de outras que o fazem apenas pelo gosto de reali zar. O que é um bom filme não depen de directamente do equipamento usa do, há obras de vulto hoje em dia, no es trangeiro, feitas com simples aparelhos celulares. O mais importante é a visão e o que se quer comunicar”, defende Ivan dro Maocha.

O empresário revela ainda que “o o grande objectivo da Netkanema é esse mesmo, divulgar aspirantes a produto res cinematográficos, novos cineastas, e unir a nova à velha geração dos amantes e fazedores do cinema”. Mas até aí che gar, o percurso é cheio de dificuldades.

“É difícil pôr as pessoas a verem filmes pela internet porque esta ainda é dis pendiosa. Também é difícil convencer as pessoas que é possível ganhar dinheiro através de uma plataforma individual de gestão dos seus filmes, pois a experiên cia da Netflix mostrou que tal funciona conforme a quantidade de informação que lá estiver”, explicou o cineasta.

Actualmente, a Netkanema oferece mais de 80% dos seus conteúdos de for ma gratuita, sendo que a Maocha’s Fil mes, responsável pela plataforma, su porta todos os custos operacionais que incluem a contratação de serviços gráfi cos e serviços burocráticos relativos ao licenciamento das obras. “Durante es tes três anos, estamos a verificar tendên

cias e procurar entender o mercado, e já conseguimos perceber que os moçam bicanos conseguem despender algum dinheiro com filmes, mas, porque não é um comportamento contínuo, o cine ma ainda não é uma actividade verda deiramente sustentável”, lamenta Ivan dro Maocha.

Com uma subscrição mensal de 200 meticais (pacote básico), a Netkanema prefere não revelar, por agora, o núme ro de subscritores actuais registados na plataforma, mas não esconde que es te não é, de todo, por enquanto, um ne gócio rentável. “Abraçámos esta causa sabendo disso mesmo mas está é uma aposta de futuro, do cinema e de todos os que o têm como vida”.

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PLATAFORMA www.netkanema.co.mz EMPRESA Maochas Filmes PROPRIETÁRIO Ivandro Maocha CRIAÇÃO 2019
B

Grupo de Estudantes e Docentes da Escola Superior de Desenvolvimen to Rural (ESUDER), unidade da Uni versidade Eduardo Mondlane (UEM) do distrito de Vilanculos, província de Inhambane, criaram uma máquina capaz de exercer dois trabalhos sobre a terra: sachar e semear em curto es paço de tempo.

A inovação resulta das aulas prá ticas nos laboratórios daquela insti tuição de ensino superior e espera -se que esta contribua para a dinami zação das actividades agrárias e para o desenvolvimento da agricultura no distrito e no País em geral.

Com o uso desta máquina, o pro dutor estima a medição do compasso da terra necessária para fazer a cava gem da terra e apenas empurra a se meadora que tem um cone de onde a semente é lançada para a terra com menos tempo e pouco esforço físico.

Segundo Lúcio Muchanga, che fe do Departamento de Sociologia Rural na ESUDER, o instrumento vai ajudar a reduzir o tempo de trabalho na plantação em espaços mais vastos e tornará desnecessária a enxada nas actividades.

Yuridiss Chaúque, estudante de Engenharia Rural e participante na criação do protótipo afirma que esta semeadora é de fácil fabrico, usando, para o efeito, material reciclável e que se encontra facilmente no mercado. Além desta máquina, há ainda mui tos protótipos em desenvolvimento pela ESUDER.

Moçambique poderá contar, ainda este ano, com mais um radar meteorológico de longo alcance para processar informação sobre a evolução dos fenómenos climáti cos com antecipação de 24 horas.

400 quilómetros, o que vai beneficiar não apenas Moçambique, mas outros países da região da Comunidade para o Desen volvimento da África Austral (SADC).

A informação foi tornada pública pe lo ministro dos Transportes e Comunica ções, Mateus Magala, que frisou que em resposta ao desafio do secretário-geral da ONU, Moçambique está a implementar a iniciativa presidencial “Um Distrito, Uma Estação Meteorológica”. O aparelho tecno lógico tem uma capacidade de alcance de

A petroquímica sul-africana Sasol, que explora gás natural na província de Inhambane, aponta o hidrogénio como fonte de energia que poderá entrar nas suas operações para atingir a meta de descarbonização, Net Zero, até 2050.

A multinacional sul-africana está a de senvolver, fora do país, um projecto pro tótipo para a utilização do hidrogénio a partir de energia solar, um recurso que abunda em Moçambique.

A informação foi avançada pelo direc tor-geral da Sasol em Moçambique, Oví dio Rodolfo, em entrevista à AIM, sobre a transição energética no País. Rodolfo afir ma que “o hidrogénio é um dos elemen

O robot foi construído como uma per sonagem feminina humanóide de 1,80 m de altura que entende e fala oito idiomas diferentes, compreende profundamen te a cultura africana e os seus vários pa drões de comportamento.

Omeife também tem uma compreen são em tempo real do seu ambiente, es cuta activa e capacidade de se concentrar num tópico de conversa específico en quanto esta está a decorrer.

A instalação do aparelho faz parte da resposta ao apelo do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, lançado em Março deste ano, dizendo que todos os cidadãos do mundo devem, nos próximos cinco anos, ter uma informação prévia so bre os fenómenos e eventos climáticos de forma a prevenir a perda de vidas huma nas e bens. A Uniccon

A tecnologia é alimentada por sofis ticados algoritmos de inteligência arti ficial, desenvolvidos internamente pela equipa de cientistas da empresa. Foi de senhada para actuar como um serviço para empresas que precisam de integrar o público nativo em África, e é um robot multiusos e de assistência.

tos que a Sasol vê a entrar nas operações para reduzir as emissões de carbono e atingir a meta Net Zero até 2050. Estamos a fazer experiências e, se tudo der certo, essas vão ter um grande impacto em to das operações de energias no mundo e em Moçambique, em particular”, disse.

O hidrogénio é um elemento que tem sido escolhido para combustível por cau sa da sua capacidade de armazenar ener gia e do seu baixo peso molecular. Quan do produzido de fontes e tecnologias re nováveis, torna-se num combustível re novável, é uma fonte inesgotável e não poluente, por isso considerado “o com bustível do futuro”.

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Renováveis Sasol Pretende Usar Hidrogénio nas Operações Energéticas Inteligência Artificial Startup nigeriana cria primeiro robot humanóide
África
Group of Companies, uma das startups de tecnologia de crescimento mais rápido da Nigéria, que oferece solu ções tecnológicas eclécticas e inovadoras para empresas e agências governamen tais em toda a África, criou a Omeife, pri meiro robot humanóide do continente.
de
Clima Moçambique poderá contar com mais um radar meteorológico de longo alcance
PANORAMA
Agritech Estudantes e docentes da Universidade Eduardo Mondlane criam máquina semeadora

“Estamos Sempre Atentos a Novas Áreas de Negócio no País”

O Grupo Visabeira, presente em Moçambique há várias décadas, com investimentos em sectores que vão desde a construção à energia, passando pelo turismo, telecomunicações e imobiliário, assenta a sua estratégia no evoluir das necessidades do mercado. À E&M, o novo CEO da Visabeira Global, em Moçambique, Pedro André de Sousa fala sobre o presente e o futuro a breve prazo de um grupo empresarial com história no País

AVisabeira é um grupo em presarial português com negócios na área das te lecomunicações, turismo, construção, energia ou lo gística em vários mercados e com mais de 40 anos de existência.

Com um volume de facturação a che gar, em 2021, à casa dos mil milhões de euros, conta actualmente com uma car teira de investimentos que se expande bem para lá das fronteiras portuguesas, dos EUA a Inglaterra, passando por Áfri ca, estando presente de forma directa em 17 mercados.

A Moçambique, chegou em finais da década de 80 do século passa do, quando começou com a Televisa, por muitos anos, o seu maior negócio (e ainda hoje está no Top 3). Quando começou a operar, fazia apenas a manutenção da infra-estrutura de re de fixa, mas as tecnologias mudaram e, neste momento, está já está a completar a instalação da rede 4G em todo o país.

Um dos grandes impulsos à sua acti vidade, deu-se com a ‘explosão’ da rede móvel, que permitiu à Visabeira assumir o negócio da implementação de torres de telecomunicações e redes de fibra óptica. De então para cá, abraçou novas áreas de negócio, como o das renováveis, o turismo e o imobiliário e não irá ficar por aqui. Pedro André de Sousa explica à E&M por onde pode passar o futuro.

A evolução da presença da Visa beira em Moçambique confunde-se um pouco com o desenvolvimento do próprio País, concorda com es ta visão?

O Grupo está presente em Moçambi que desde o final da década de 80 do sé culo passado, naquele que é o seu prin cipal negócio, ou seja, na área da enge nharia e infra-estruturas de redes de te lecomunicações, através das empresas Televisa e TvCabo.

A Televisa, que foi criada em parce ria com a antiga empresa pública Tele comunicações de Moçambique (TDM), começou exactamente por ter a TDM como principal cliente, mas hoje é uma empresa que trabalha com diferentes operadores e tem vindo a reforçar a sua posição de líder na expansão da rede de fibra óptica e no projecto de cobertura 4G, que continua a ser implementado em todo o território nacional.

Nesta área, devo assinalar o papel de especial importância da TvCabo Mo çambique, uma empresa pioneira no continente africano, assumindo a ino vação tecnológica e a qualidade dos seus serviços. Na área da construção de infra-estruturas, a Sogitel e a Edivisa são empresas de referência que operam neste segmento bem como na execução de empreitadas de construção civil e in fra-estruturas e comércio e serviços.

O destaque é também para a Mer

“Temos vindo a crescer muito no imobiliário. Com a empresa Sogitel, trabalhamos em obras de referência como construção de hospitais, escritórios e residências particulares”

cury, empresa de trading, que se dedi ca à importação e comercialização de um alargado leque de mercadorias, en tre os quais os produtos utilizados pe lo próprio Grupo Visabeira. E depois te mos também uma experiência forte no sector imobiliário, sobretudo através da Imovisa. Olhamos igualmente para as energias, uma outra importante área de actividade em Moçambique, em que ac tuamos através da Electrotec, uma par ceria com competências e capacida des para operar nas infra-estruturas de electricidade ao longo de todo o territó rio moçambicano.

O turismo é uma das apostas do País, e como disse, a Visabeira está a investir neste segmento do seu ne gócio, de que é exemplo a inaugu ração recente do Milibangalala, na zona Sul. Este investimento em uni dades turísticas para um segmento elevado é para continuar?

O turismo é uma área em que o Gru po aposta, mas apesar de ser talvez a área que nos dá maior notoriedade não

www.economiaemercado.co.mz | Novembro 2022 64 CEO TALKS | VISABEIRA
Texto Pedro Cativelos • Fotografia Mariano Silva

é, ainda assim, o nosso principal negó cio. É um sector que acreditamos ter muito potencial em Moçambique, mas cujo investimento será ajustado em fun ção das exigências do mercado.

Neste momento, depois da inaugu ração e de uma excelente aceitação por parte da generalidade dos clientes que nos visitaram em Milibangalala, esta mos a investir um pouco mais nesse re sort para o dotar de um maior espaço de conferências e maior capacidade de alojamento, respondendo às necessi dades apresentadas pelo mercado. Es ta continuação do investimento no Mi libangalala tem de ser executada sem interferir no ambiente do resort, por is so, é um investimento que se vai pro longar até ao início de 2023. É um sector (o turismo) que acreditamos ter muito potencial no País, mas cujo investimen to, nomeadamente em novas unidades, será ajustado exactamente em função das exigências do mercado.

Em relação à área de energia, o foco tem maior incidência sobre a rede

eléctrica ou está a ter em conta tam bém as renováveis?

Já tivemos projectos de renováveis, mas a esse nível temos pouca experiên cia. Neste momento o nosso maior tra balho está na expansão da rede eléctri ca, estamos também atentos aos projec tos de geração de energia enquanto em preiteiros e como em projectos nossos.

Associado ao crescimento do País te mos o projecto “Energy for All” que trou xe muito trabalho para Moçambique. Temos um veículo, a Electrotec, que tem estado a crescer bastante nos úl timos anos neste segmento. No perío do do covid-19, em que muitos negó cios travaram, a electricidade continua va a crescer e os nossos negócios nesse mercado ganharam uma importância significativa, algo que aconteceu tam bém nas telecomunicações e na TV Ca bo que tiveram, nessa altura, um grande crescimento.

FORMAÇÃO Licenciado pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra CARREIRA CIniciou o seu percurso profissional no Instituto Nacional de Estatística em Coimbra

Depois de uma curta passagem pela banca, foi contratado pelo Grupo Visabeira para trabalhar no departamento de controlo de gestão na sua sede em Viseu.

Em 2005 iniciou funções em Moçambique como Director Administrativo e Financeiro tendo no mesmo ano assumido funções ao nível do Conselho de Administração da Visabeira Moçambique, com o pelouro de Administração e Finanças.

A partir de 2009 passou a acumular progressivamente pelouros de gestão e acompanhamento dos negócios ao nível da administração das diferentes empresas do Grupo Visabeira em Moçambique sendo, à data de hoje, o Presidente da Comissão Executiva da Visabeira Moçambique e representante da empresa nos órgãos sociais de diversas participadas.

Temos vindo a crescer muito na cons trução e no real estate. Com a Sogitel, trabalhamos em obras de referência co mo construção de hospitais, escritórios, residências particulares e nos nossos próprios investimentos.

Temos como exemplos de clientes o Milibangalala, a que já me referi, no qual foi tudo feito por nós, desde a arquitec tura, engenharia até à própria constru ção. Mas fizemos recentemente a am pliação do Instituto de Coração (ICOR) em Maputo, e estamos a trabalhar na construção de um centro de formação e um hospital na cidade da Beira.

A Imovisa, nossa empresa no ramo da construção, estabeleceu uma par ceria com o Banco de Moçambique e, de uma maneira geral, a construção fi ca como um negócio complementar às telecomunicações.

Depois, somos importadores e repre sentamos algumas marcas de vinho. Os projectos de turismo têm impacto, quer do ponto de vista do reconhecimento do investidor, quer para a criação de em pregos e pagamento de impostos.

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Quais são, actualmente, os principais projectos da Visabeira no País?
BNOME Pedro André De Sousa CARGO Economista IDADE 44 Anos

E aqui somos uma referência porque penso que não há ninguém que seja pro prietário de cinco hotéis – três em Mapu to, um em Gorongosa e outro no Songo, e estamos a explorar um em Lichinga, no edifício do INSS que não foi construído por nós.

No agro-negócio, temos um pequeno projecto de exploração pecuária em Xi navane, província de Maputo, que usa mos para fornecer aos nossos hotéis, e para suprir algum défice de qualidade que eventualmente encontramos.

Os nossos investimentos estão ali nhados com a sede, em Portugal, mas aproveitamos algumas condições inter nas que encontramos, em cada merca do, para crescer.

Ficamos atentos a áreas de negócios novas, mas normalmente entramos com parcerias. O agro-negócio, por exemplo, é uma área a que estamos atentos por ser fundamental para o desenvolvimen to de Moçambique.

Olhando mais para o cenário macro, quais são as perspectivas da empre sa no curto e médio prazo?

Tenho visto diferentes projecções a curto e médio prazo, e alguns ajusta mentos em função de certos episódios que vão acontecendo. Mas a nossa ideia

fundamental é que Moçambique é um país com enorme potencial de cresci mento, desde logo porque há ainda mui ta coisa para fazer.

E nas áreas onde temos maior pre sença (e até maior experiência ao nível internacional), ou seja, na área das tele comunicações e energia, pensamos que o potencial de crescimento no curto pra zo é grande. Aliás, temos vindo a crescer, apesar da conjuntura recente provocada pela pandemia do covid-19.

Ao nível pessoal, estando a residir já há bastante tempo em Moçambique, a minha ideia fundamental é que há sem pre espaço para crescer em determina dos contextos. Portanto, penso que é possível crescer sem ser necessariamen te um dos grandes players do oil & gas, estando presente no mercado e tendo experiência.

A nossa experiência em telecomuni cações, energia e construção – áreas que estes grandes projectos vão necessaria mente absorver –, e sendo um player que está também num turismo de negócios, diria que não gostaríamos de ficar reféns do oil & gas. Mas é evidente que esses projectos são muito importantes para a economia do País e, consequentemente, são importantes para nós, assim como para todas as empresas. Acredito que há

muita coisa para fazer em Moçambique e há muito potencial. Então, é inevitável o crescimento económico.

Enquanto empresário de uma mul tinacional portuguesa, o que acha da relação de negócios Moçambi que-Portugal, há alguma evolução? E que balanço faz da recente cimei ra luso-moçambicana?

A visita do primeiro-ministro de Por tugal a Moçambique e a celebração de acordos e mecanismos para a coope ração económica e cultural entre os dois Estados são, certamente, benéfi cos para o estímulo dos negócios en tre ambos os países. Agora é preciso dar continuidade.

A sensação de que se podia fazer mais é natural e nós, como interessados, que remos que haja uma aceleração de pro tocolos económicos, mas também cultu rais e ligados à educação, uma vez que criam uma ligação entre os povos. Por is so, para mim foi muito bom que a cimei ra tenha acontecido.

Naturalmente há essa sensação de poder se fazer-se mais, mas, sendo sin cero, no meu ponto de vista, gozamos de um bom clima de negócios entre os dois países e temos de tirar partido disso. Ca da um dos países tem a sua agenda e de safios, mas estamos numa boa fase, te mos de aproveitar e dar o nosso máximo.

Tendo sido recentemente indigita do para o cargo , gostaria de desta car um objectivo pessoal a alcançar no seu mandato à frente da Visabei ra em Moçambique?

Olhe, gostaria de ficar associado a um efectivo crescimento na área da ener gia. Pessoalmente, penso que há muitas oportunidades nesse segmento. Assiná mos alguns acordos a esse nível precisa mente por acreditar que as energias têm um enorme potencial de crescimento a curto e médio prazos em Moçambique.

No meu mandato, se tiver de destacar claramente algum objectivo, esse passa ria por dar continuidade ao crescimento no ramo das telecomunicações e manter e melhorar a percepção que as pessoas têm do nosso posicionamento na área do turismo. Mas, acima de tudo, desen volver bastante a área da energia.

Tenho objectivos de curto prazo co mo fechar alguns negócios na área do imobiliário, que precisam de muita atenção porque dependem de factores e dinâmicas próprias do mercado. Mas o grande foco é mesmo manter a solidez do trabalho de vários anos e continuar a ser um player fundamental nas teleco municações em Moçambique.

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A Visabeira está presente nos projectos de expansão das redes de telecomunicações

ócio

(neg)ócio s.m. do latim negação do ócio

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Uma Viagem pela Arquitectura da Cidade de Maputo

Ao Sabor da Ementa do “Galeria”, no porto de Maputo

Vinho e Queijo, a Nova Sugestão da Alumni Wine

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CIDADE DE MAPUTO UMA VIAGEM PELA ARQUITECTURA

Open House 2022

Cidade de Maputo – Um Passeio Pelos

conhecida como “A Cida de das Acácias e Jacarandás”, a capital moçambicana, Mapu to, foi contemplada na edição 2022 do Open House, um even to mundial criado em 1992 no Reino Unido e que está actual mente presente em 52 capitais mundiais.

O Open House dá a conhe cer gratuitamente diferentes formatos de arquitectura e cul tura, através de visitas a espa ços que habitualmente não são acessíveis e abertos ao públi co, e tem como objectivo apro ximar as pessoas à arquitectura da sua cidade, bem como enal tecer o valor dos espaços bem projectados e construídos.

eA cidade de Maputo possui vários edifícios de estruturas

Monumentos Mais Icónicos da Capital

distintas, vistosas e com arqui tecturas únicas: a Casa de Fer ro, na ombreira do jardim Tun duru que revela o princípio da pré-fabricação, consiste na uti lização do ferro como mate rial único, existente nas estru turas, paredes e coberturas, re mota ao sistema industrial, ao qual Joseph Danly, no seu con ceito, quis atribuir beleza e ri gidez nas construções, tendo sido atribuído o nome do seu inventor.

O edifício do Conselho Mu nicipal de Maputo, com certe za um dos mais pujantes, foi o primeiro a ser construído no centro da cidade com carácter oficial.

Todo o quarteirão é ocupa do pelo edifício que fica de limitado pela Praça da Inde pendência. A leste fica a Igreja Nossa Senhora da Conceição, Sé Catedral de Maputo. Possui uma planta rectangular. A lin guagem arquitectónica de ins piração clássica evidencia os elementos construtivos e de corativos, visíveis nas colunas e frisos. As paredes exteriores são em alvenaria de pedra, re vestidas a pedra granito e os pa vimentos interiores em pedra mármore e madeira.

O edifício Abreu Santos e Rocha, implantado entre a Pra ça dos Trabalhadores e a Ave nida Guerra Popular, que apre senta telas geométricas em conjunto com um amplo bai xo-relevo de motivos gráficos de modelo africano.

Mas se for para falar de to dos os edifícios magníficos que a cidade de Maputo possui, de certeza que esta leitura se pro longaria por mais horas, e mes mo dias. Portanto, não é sem mérito que esta urbe seja a se gunda contemplada pelo Open House em África, depois da ni geriana Lagos, em 2018.

A comissária da Open Hou se Maputo, arquitecta Joana Vi lhena, explica a escolha da ci dade de Maputo: “Esta cidade detém um excelente patrimó nio arquitectónico que precisa de ser divulgado ao nível nacio nal e internacional, não apenas para arquitectos, mas para a so ciedade em geral. Para tanto, é importante que se abram por tas para que se dê a conhecer quem mora e como estes edifí cios estão a ser geridos.”

A arquitecta acrescenta que o Open House tem a vantagem de ser um programa fácil, que pode ser facilmente continua do pelas próprias comunidades e sociedades.

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Texto Filomena Bande Fotografia Mariano Silva & D.R

A capital, Maputo, detém um património arquitectónico que precisa de ser divulgado ao nível nacional e internacional, não apenas para arquitectos, mas para a sociedade em geral

ONDE COMER?

Isso não será um problema porque a cada esquina da Cidade das Acácias há um restaurante ou uma pastelaria. Só não cometa o erro de sair de Maputo sem provar os seus pratos típicos. Há também muitos mariscos.

O QUE FAZER?

Um passeio pela cidade é, de certeza, uma boa ideia. A cidade é imensa e com muitos lugares para ir. Parta, por exemplo, da Praça dos Trabalhadores, que encontrará muitos lugares maravilhosos por conhecer mesmo nas redondezas.

CUIDADOS A TER

Veja a previsão do tempo antes de sair. O Verão costuma ser intenso, mas não se deixe iludir pelo sol porque, ao final do dia, pode precisar de um chapéu-de-chuva. O sol e a chuva andam muito juntas nesta estação.

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ROTEIRO

concebido para ser um es paço de atracção turísti ca (40 mil turistas escalam, em média, anualmente, o porto de Maputo), a “Galeria” resulta da recuperação de uma antiga es trutura portuária, e é um espa ço multiusos com característi cas únicas na capital, pois aca ba por ser, simultaneamen te, um espaço de cultura (com uma programação disponível para as diferentes expressões artísticas e criativas), de res tauração e aberto a todo o tipo de eventos (conferências, en contros empresariais, etc.), de dia e de noite.

Esta iniciativa, que consti tuiu desde a abertura, por si só, um importante contributo pa ra a revitalização da baixa da cidade, já é um dos pólos mais dinâmicos desta zona há mui

Galeria: Um Lugar na Margem que é Centro de Maputo

to, se se concretizarem os pla nos existentes para a recupe ração desta área histórica, que têm vindo a ser anunciados desde há muito.

Com uma programação cul tural intensa, especialmente na área da música, a “Galeria” abriu as suas portas em 2019.

Fechou durante a pande mia, por alguns meses, e rea briu com a mesma intenção inicial. Sendo um lugar na mar gem, mas um ponto central de toda esta nova dinâmica.

Depois, a proposta gastro nómica que ali se encontra é extensa, variada e alician te. Por se tratar de um lugar à beira-mar, os pratos de peixe e marisco destacam-se por si

A proposta gastronómica que ali se encontra é extensa, variada e aliciante. Por se tratar de um lugar à beira-mar, os pratos de peixe e marisco destacam-se por si só

só. Nas entradas destacamos a bruscheta de caranguejo. Na lista dos peixes e mariscos, va le a pena experimentar a lagos ta Mornay ou as lulas com pão de alho, sendo que há sempre a sugestão do peixe do dia.

E por ali, não se esquecem algumas escolhas mais óbvias para os vegetarianos, como a salada de grão-de-bico ou o ca ril de beringela.

Nas carnes, as sugestões fa cilmente recaem no peito de pato com rúcula, no pernil de cordeiro ou no, tradicional mente moçambicano, frango à zambeziana.

Ainda nas carnes, uma re ferência para a carne de toma hawk com feijão e batata assa da. O tomahawk, ‘aparentado’ às famosas ribs, é um dos cor tes mais fáceis de serem iden tificados, pois apresenta um grande osso da costela, o que

o tornou conhecido como “a carne dos Flintstones” e lembra um pequeno machado dos ín dios norte-americanos chama do tomahawk.

O corte é retirado da par te dianteira do lombo do boi e, quando possível, extraem -se apenas quatro peças por animal. O tomahawk é, basica mente, o mesmo corte do pri me rib, porém com um osso maior (chegando a 30 cm).

Entre as sobremesas, desta camos os pudins que, ali, desfi lam até à meta de uma boa re feição, com opções inespera das como o pudim de mandio ca, tâmara ou malva.

Um bom fim para um ópti mo começo de noite, porque não?

Texto Pedro Cativelos Fotografia Mariano Silva
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Porto de Maputo info@ galeria. co.mz
GALERIA
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Vinho e Queijo, a Nova Sugestão

de onde surgiu a ideia de combinar queijo e vinho? Bem, há registos que remetem à antiguidade clássica e as semelhanças da história e do processo de elaboração dos dois podem ser factores que fazem com que a sinergia entre eles seja tão apreciada.

Mas embora vinho e queijo caminhem juntos em termos de paladar, e sejam produtos tão próximos relativamente às etapas de produção, a sua harmonização exige carinho, por forma a extrair o melhor dos dois sabores.

Apesar de esta tradição ser antiga, a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), de Portugal, resolveu reactualizá-la com a apresenta ção, no passado dia 11 de Novembro, da “Prova dos Novos – UTAD Alum ni Wine & Cheese Collection 2022”, um evento em que estiveram presen tes altas individualidades, com destaque para a ministra portuguesa da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Elvira Fortunato. Na ocasião, foi apresentado um quarteto de vinhos e um trio de queijos — o mais recente produto da marca Alumni —, nascido das mãos de antigos alunos da instituição transmontana, e que compõe a oferta deste ano. “A UTAD era a única universidade portuguesa com vinhos de autor, produzidos pelos seus ex-alunos de enologia. Agora, passa a incluir também uma gama de queijos, que herda o co nhecimento científico e o saber-fazer dos Alumni portugue ses do agro-alimentar”, declarou o reitor da UTAD, Emídio Gomes.

O queijo é o grande destaque desta 5ª edição do even to, apresentando-se em três variedades: queijo de vaca elaborado por Zulmira Lopes, queijo curado de ove lha da responsabilidade de João Reis e queijo de ca bra produzido em Trás-os-Montes por Inácio Neto.

Estes sabores são harmonizados com os vinhos produzidos por Sandra Alves (um branco cria do no Alentejo), Marta Reis Simões (um vinho tinto nascido na região de Lisboa), Tiago Alves de Sousa (um vinho do Porto) e Sofia Caldei ra (um espumante vindo da ilha da Madei ra). Existem, contudo, técnicas e regras a seguir para combinar queijo e vinho, to mando em consideração que cada quei jo é elaborado com uma variedade es pecífica de leite (vaca, cabra, ovelha ou búfalo) e passa por um processamento distinto com um tempo de maturação também específico.

Essas etapas interferem direc tamente no sabor e carac terísticas do produto fi nal. É nestas parti cularidades que se devem apoiar os amantes des ta combina ção para esco lherem o vinho certo.

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“A UTAD era a única universidade portuguesa com vinhos produzidos pelos seus ex-alunos de enologia. Agora, passa a incluir uma gama de queijos, que herda o conhecimento e o saber-fazer dos Alumni...” da Alumni Wine

Dos Desenhos de Infância Nasceram Marcas de Alta Costura Para o Mundo

quem hoje vê, não imagina que Shaazia Adam Couture e a Mina, duas marcas de roupa da criadora moçambicana, resultam de um sonho de menina.

Shaazia Adam, uma jovem estilista cria dora das duas marcas, começou a dese nhar roupas como hobbie de menina, des de os seus 12 anos de idade.

Com apenas 16 anos, as suas criações já ‘desfilavam’ pelas passerelles em roupas que fizeram parte dos desfiles de um dos maiores eventos de moda do País, o Mo zambique Fashion Week, a convite de Vas co Rocha, CEO da empresa DDB, que or ganiza o evento.

A estilista e empresária nasceu numa família de gente criativa e esse, assume, “foi o maior impulso para a sua própria criatividade”. Shaazia conta à E&M que a sua mãe foi a pessoa que “mais a inspirou e encorajou a abraçar os seus sonhos. E con tinua a sê-lo”, diz, com luz no olhar.

Mas porque sonhar e ser criativa não basta – uma vez que moda é também arte e negócio –, a estilista procurou aprimorar a sua identidade artística numa das mais re nomadas universidades de moda em Lon dres, e terminou o curso “com um dos me lhores portefólios de design de moda”, re corda. Graças a isso, ganhou o “privilégio”, ou melhor, o direito de estagiar no atelier de Alexander McQueen, um dos mais re conhecidos estilistas da actualidade.

De volta a Maputo com a formação con cluída mas os sonhos ainda por vestir com o design que nascia da imaginação arroja da, Shaazia Adam continuou a criar roupas e a participar em desfiles de alta costura. Até que, em 2019, criou uma outra marca, a Mina, uma linha de pronto-a-vestir para a classe média-alta, com roupas feitas de fibras naturais (algodão, linho, malhas de algodão), 70% sustentável e 100% moçam bicana, que utiliza materiais locais, com portando apenas alguns detalhes importa dos, como os botões.

Mina, o nome da marca que, em chan gana, (uma das línguas da zona sul de Mo çambique) significa “eu”, carrega um signi ficado forte, que talvez traduza na íntegra o objectivo que tem, espelhando a trajec tória da jovem estilista: “Mina porque me

reflecte, a mim e aos erros que cometi du rante o meu percurso. A marca identifica -se muito comigo, e sinto que não sou dife rente das outras mulheres. Mina sou eu, e eu sou um estilo de viver e encarar a vida. Moda é isso mesmo, um conceito de es tar na vida, é como acordamos e nos sen timos no dia-a-dia. Como mulher que tra balha e como mãe, sinto que outras mu lheres também precisam dessa facilidade, dessa segunda pele que podem usar como sua, para ir trabalhar ou só para ficar em casa”, explica.

As peças “pronto-a-vestir” da Mina ga nharam relevo, especialmente durante a época de isolamento causada pela pande

mia de covid-19. As pessoas trabalhavam a partir de casa e precisavam de uma rou pa confortável, mas que fosse, ao mesmo tempo, adequada para trabalhar.

E foi nessa perspectiva que ganharam muita aceitação não só no mercado nacio nal como no internacional, onde chega ram através da exposição digital da fashion designer, e alcançaram alguns países afri canos como Cabo-Verde, Angola, Arica do Sul e até os EUA.

Diante da popularidade que a marca tem vindo a alcançar, a empresária pla neia expandi-la e prevê criar representa ções em Portugal e África do Sul em breve.

Com uma nova colecção apresentada

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Shaazia Adam Couture e Mina

numa cerimónia alusiva ao centésimo ani versário do Polana Serena Hotel, em Ma puto, com um desfile de apresentação da colecção Maktub, o desfile de maior di mensão da marca até então, comprovou certezas e desvaneceu eventuais receios. “É sempre stressante lançar uma nova co lecção, ainda para mais de uma nova mar ca, mas provou ter pernas para andar”. Prestes a participar no MFW, no próximo ano, Shaazia pretende alargar as colecções para homem e criança, tendo em conta até a elevada procura que tem registado.

TEXTO Filomena Bande FOTOGRAFIA Mariano Silva
E mpreendedorismo www.economiaemercado.co.mz | Novembro 2022
Mina, o nome da marca que em changana (uma das línguas da zona sul de Moçambique) significa “eu”, carrega um significado forte, que talvez traduza na íntegra o objectivo que tem, espelhando a trajectória da jovem estilista: “Mina porque me reflecte, a mim e aos erros que cometi durante o meu percurso.

O Rancor e a Esperança

o som de “woy yo yo” de bob marley introduz o diá logo entre Bob e Jack, dois ir mãos que se reencontram de pois de muito tempo separa dos pelas armadilhas da vida.

A peça intitulada Num dia igual aos outros resulta do tex to do dramaturgo americano John Konvenbach, adaptado e dirigido pela moçambicana Angélica Chavango.

O espectáculo apresenta do no palco da Fundação Fer nando Leite Couto, encenado pelos actores Eduardo Sambo interpretando Bob, e Assane Cassimo, o Jack, revela o dra ma psicológico de uma famí lia disfuncional à procura de redenção.

“Este espectáculo retrata a história de duas personagens em conflito, dois irmãos, cada um com os seus problemas.

O Bob tem a esperança de reconstruir a família, reencon trando o pai que o abandonou e o seu irmão; já Jack perdeu a esperança e vive atormentado por ter abandonado o seu ir mão após o desaparecimento do seu pai. Desnorteado, Jack pretende também, a exemplo

Reencontram-se “Num Dia

do pai, abandonar a família que construiu durante o tem po que se distanciou do irmão e, no final, tirar a sua própria vida”, esclareceu o actor Assa ne Cassimo.

O desenrolar da peça des venda mistérios e revela aos poucos o passado de dois ir mãos que nutrem amor um pelo outro, mas que deixaram florescer as sementes do ódio e rancor na sua relação familiar.

A peça teatral, contextua lizada à moda moçambica na, é rica em sons e movimen tos que intensificam a fala das personagens.

“Foi um desafio enorme trabalhar nesta peça porque cada autor tem a sua forma de escrever e escreve de acordo com a sua cultura. Primeiro, procurámos entender o texto.

Algumas passagens que ci támos durante a encenação não existem no texto origi nal. Procurámos adaptar o tex to ao contexto moçambicano. Foi um desafio muito compli cado, mas penso que valeu a pena”, acresceu o actor Eduar

Igual aos Outros”

do Sambo. Preparado duran te quase um ano devido às in terrupções impostas pela pan demia do covid-19, o número teatral ganhou atenção e ad miração do público presen te na Fundação Fernando Lei te Couto.

“Esta peça teatral despertou em mim vários sentimentos.

Acabei por me identificar com muitas passagens, pois creio que eu e muitos moçam bicanos temos uma história de algum tipo de conflito familiar que acaba dividindo os mem bros da família”, disse Virgínia Talia , que não escondeu o seu fascínio pelo trabalho apre sentado pelos actores.

Com a peça, os actores espe ram levar ao público, além de diversão, a reflexão em torno das relações familiares e procu rar ser um elemento de coesão social por meio da arte.

A

drama psicológico

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peça intitulada Num dia igual aos outros resulta do texto do dramaturgo americano John Konvenbach, adaptado e dirigido pela moçambicana Angélica Chavango
TEXTO Yana De Almeida FOTOGRAFIA Mariano Silva
TEATRO
Neste traça-se o retrato de uma família disfuncional à procura de redenção

BUGGATI

MISTRAL

Marca: Bugatti Modelo: Mistral Potência: 1500 cv Velocidade máxima: 420 Km/h

vO Descapotável que Marca o Fim dos Motores a Combustão

A ALPINE, departamento despor tivo da Renault, apresentou re centemente um automóvel con ceptual com design disruptivo e futurista, e uma particularida de que merece destaque: o hi per carro poderá mover-se a hidrogénio!

Na sua apresentação não fo ram revelados grandes porme nores técnicos, mas o pouco que se deu a conhecer não tem como passar despercebido: tem mais de cinco metros de com primento, mais de dois metros de largura e menos de um me tro de altura. Vem equipado com um motor a combustão, que pode ser neutro em carbo

no desde que seja alimentado por hidrogénio, isto porque a Alpine acredita que os eléctri cos movidos a bateria e a célula de combustível podem coexistir com os automóveis movidos a hidrogénio equipados com um motor de combustão.

Mesmo com dois tanques ci líndricos de armazenamento de hidrogénio de 700 bar em am bos os lados do motorista, ele pesa entre 1000 kg e 1200 kg – o uso extensivo de fibra de carbo no reciclada na sua construção terá sido um dos grandes res

O Mistral tem um motor de 16 cilindros com de 8.0 litros de capacidade, 1500 cavalos (cv) de potência e 1600 Newton-metro (Nm) de binário máximo e uma transmissão de dupla embraiagem

ponsáveis pela manutenção do peso baixo e espera-se o mesmo dos carros futuros.

O Alpenglow, concebido pa ra ser amigo do ambiente, faz uso do carbono reciclado para ajudar no impacto ambiental.

Este carro-conceito é o pon to de partida para o design, tec nologias e inovações dos futu ros carros da Alpine, manten do-se sempre fiel à história da marca, como explicou Laurent Rossi, CEO da Alpine.

“O design poderoso e lu xuoso do Alpenglow indica co mo serão os carros da Alpi ne amanhã, e a nossa visão pa ra o avanço do desporto moto rizado”, afirmou Laurent Ros si, acrescentando que, “com a tecnologia de hidrogénio, esta mos a fortalecer o nosso com promisso com um futuro res ponsável e a manter o prazer de conduzir”.

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