E&M Novembro • Biofund, Dez Anos de Conservação

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MOÇAMBIQUE

CONTEÚDO LOCAL INÍCIO DA EXPORTAÇÃO DE GÁS NATURAL AUMENTA A PRESSÃO PELA APROVAÇÃO DA LEI GAFI NOVAS REGRAS IMPLEMENTADAS AINDA ESTÃO AQUÉM DAS EXIGÊNCIAS INTERNACIONAIS INOVAÇÕES DAQUI O PAPEL DA TECNOLOGIA NA GESTÃO DE PESSOAS E NO DESEMPENHO DAS EMPRESAS OPS DA TROPIGÁLIA “QUEREMOS QUE CLIENTES E PARCEIROS SEJAM PARTE DA EMPRESA”, ADOLFO CORREIA

BIOFUND

DEZ ANOS DE CONSERVAÇÃO

Baseado num modelo de financiamento inovador, o primeiro fundo ambiental privado do País está a mudar a paisagem, literalmente, da conservação da biodiversidade em Moçambique EDIÇÃO OUTUBRO - NOVEMBRO 25/10 a 25/11 • Ano 05 • Nº 54 2022 • Preço 250MZN



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OBSERVAÇÃO Crise Energética A instabilidade causada pela subida histórica do preço do gás e electricidade na Europa pode ainda piorar

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67ÓCIO

68 Escape Uma aventura no Parque Nacional da Gorongosa 70 Gourmet Ao sabor da nova ementa do Nom, em Maputo 71 Adega Cerveja artesanal Oitava Colina, uma boa opção de Verão 72 Empreendedor Frederico Carvalho quer ser ‘Rei do Gado’ 75 Arte Semblantes e olhares nas telas de Mateus Sithole 76 Ao volante do Alpenglow da Renault, movido a hidrogénio

A corretora do Standard Bank aposta em áreas ‘fora de caixa’ para alcançar uma posição de topo no mercado

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OPINIÃO EY • “A Computação na Nuvem como Alavanca de Desenvolvimento Sustentável”, Bruno Dias, Consulting Partner da Ernst & Young

18 CONTEÚDO LOCAL Alberto Nkutumula, antigo ministro da Juventude e Desportos, junta-se às vozes que defendem a aceleração da legislação numa palestra dirigida ao meio académico

22 OPINIÃO ABSA • “Promover Práticas Sustentáveis: a Transformação do Futuro Já Começou!”, Ilia da Silva, director de Transformação do Absa Bank Moçambique

24 NAÇÃO LEI DO BRANQUEAMENTO DE CAPITAIS 24 Prevenção Especialistas explicam como a lei pode ajudar o País a sair da lista dos mais vulneráveis do mundo 32 Opinião •“Obrigações de Taxa Fixa vs Obrigações de Taxa Variável”, Wilson Tomás, Research, Banco BIG 34 Entrevista Alexis Meyer-Cirkel diz ser oportuno que a intervenção antecipe o aumento do fluxo das exportações 36 Lá Fora Os diferentes contextos e estratégias de combate ao branqueamento de capitais pelo mundo

40 CEO TALKS O que a BIOFUND fez ao longo dos dez anos de existência e os projectos que tem em perspectiva para o futuro, na voz do director-executivo, Luís Bernardo Honwana

46 OPINIÃO FNB •“Quebrando Tabus: o Testamento Enquanto Elemento Integral do Planeamento Financeiro”, Yolanda Braga, Chief Compliance Officer FNB Moçambique

48 OPINIÃO Insite •“Porque Somos o que Comemos, a Segurança Alimentar é Essencial”, Manuel Júnior

51 INOVAÇÕES DAQUI 52 Gestão de pessoas Estudo da PHC Software revela como a tecnologia pode ajudar as empresas a aperfeiçoarem modelos de trabalho 56 Xipalapala Uma plataforma online para dar sustentabilidade às rádios comunitárias através da publicidade

60 OPINIÃO “Porque é (muito) difícil negociar em Moçambique?”, João Gomes, partner @JASON Moçambique

62 MERCADO & FINANÇAS Adolfo Correia, fundador e CEO da Tropigalia fala sobre a Oferta Pública de Subscrição que vai elevar a empresa que fundou há quase vinte anos, a um outro patamar.


EDITORIAL

Celso Chambisso Editor da Economia & Mercado

A Luta por Arrumar a Casa e Evitar Sanções

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s últimos dias estão a ser marcados por avisos de sanções a Moçambique por incumprimento das metas de branqueamento de capitais e financiamento ao terrorismo, estabelecidas pelo GAFI, um colégio internacional de reguladores para o combate a este fenómeno. As ameaças vão desde o risco de enfrentar restrições no acesso ao sistema financeiro internacional até ao recuo dos investimentos, passando por graves consequências ao nível da reputação. A partir daqui, será relativamente fácil compreender a sequência de eventos que demonstram a grande preocupação que o Executivo começa a manifestar. A nova administração do Banco de Moçambique parecia ser a única entidade a levar o assunto a sério, a avaliar pelas inúmeras sanções aplicadas às instituições financeiras que cometem irregularidades no cumprimento dos procedimentos que visam travar o branqueamento de capitais. Na verdade, já havia uma lei contra o branqueamento de capitais e financiamento ao terrorismo aprovada em 2013, mas que nunca foi capaz de fazer correr tanta tinta como acontece agora. Mas as ameaças ao País começaram a despertar para esta grave realidade outros importantes actores, agora dispostos a fazer melhor por esta causa, a começar pelo Presidente da República, Filipe Nyusi, quando, em Agosto, manifestou desconfiança em relação ao aumento acentuado da abertura de novos postos de abastecimento de combustíveis. Nyusi chamou a atenção para a

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possibilidade de este ser um caminho que escondia esquemas de financiamento do terrorismo em Cabo Delgado. Além disso, uma nova legislação acaba de entrar em vigor em substituição à de 2013, com medidas muito mais apertadas de controlo e supervisão dos canais devidamente identificados como sendo os mais propensos a introduzir, no sistema financeiro e no circuito legal da economia, recursos com origem em actos ilegais. E para reforçar, foi recentemente aprovada, pelo Conselho de Ministros, uma Estratégia de Combate ao Branqueamento de Capitais e Financiamento ao Terrorismo 2023-2024. O que significa tudo isto? Nesta edição, a E&M ouviu especialistas para explorar a fundo a preocupação que se está a gerar em torno desta questão, e foca os aspectos legais e os procedimentos a serem tomados pelas instituições competentes, que incluem o regulador – Gabinete de Informação Financeira de Moçambique (GIFiM) –, e que podem ajudar o País a alcançar os objectivos que pretende. Vamos a tempo de rearrumar a casa? O panorama é também marcado pela recente Oferta Pública de Subscrição (OPS) da Tropigalia, evento que não só marca a adesão da 12.ª empresa à Bolsa de Valores de Moçambique (BVM) como ajuda a consolidar a cultura de utilização do mercado de capitais como alternativa de dispersão do capital e de financiamento. Na entrevista ao CEO da empresa, Adolfo Correia, a E&M explora a essência desta decisão e as perspectivas desta que é a maior empresa de distribuição de produtos de grande consumo.

25 OUTUBRO | 25 NOVEMBRO 2022 • Nº 54 DIRECTOR EXECUTIVO Pedro Cativelos EDITOR EXECUTIVO Celso Chambisso JORNALISTAS Ana Mangana, Filomena Bande, Hermenegildo Langa, Nário Sixpene, Rogério Macambize, Yana de Almeida PAGINAÇÃO José Mundundo FOTOGRAFIA Mariano Silva REVISÃO Manuela Rodrigues dos Santos ÁREA COMERCIAL Marcia Mbuvane marcia.mbuvane@media4development.com CONSELHO CONSULTIVO Alda Salomão, Andreia Narigão, António Souto; Bernardo Aparício, Denise Branco, Fabrícia de Almeida Henriques, Frederico Silva, Hermano Juvane, Iacumba Ali Aiuba, João Gomes, Narciso Matos, Rogério Samo Gudo, Salim Cripton Valá, Sérgio Nicolini ADMINISTRAÇÃO, REDACÇÃO E PUBLICIDADE Media4Development Rua Ângelo Azarias Chichava nº 311 A — Sommerschield, Maputo – Moçambique; marketing@media4development.com IMPRESSÃO E ACABAMENTO Minerva Print - Maputo - Moçambique TIRAGEM 4 500 exemplares EXPLORAÇÃO EDITORIAL E COMERCIAL EM MOÇAMBIQUE Media4Development NÚMERO DE REGISTO 01/GABINFO-DEPC/2018

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OBSERVAÇÃO

Europa, Outubro de 2022

Crise Energética Pode Ficar Ainda Mais Crítica O velho continente está a enfrentar uma grave crise energética que ameaça alastrar-se por mais tempo e causar danos assinaláveis à estabilidade das economias. Segundo a Gas Infrastructure Europe, o bloco europeu provavelmente enfrentará interrupções no fornecimento no início do próximo ano, o que o coloca na iminência de uma crise severa. A crise, aliás, já tem efeitos preocupantes, por exemplo, no turismo. A Torre Eiffel, de Paris, está a apagar as luzes 1 hora e 15 minutos antes do convencional para consciencializar a população. Em vários pontos, as decorações de Natal também deverão ser menos iluminadas do que em anos anteriores. Segundo dados da empresa de pesquisa Wood Mackenzie, a participação da Rússia nas importações de gás natural do bloco europeu caiu de 36% para apenas 9% num ano, enquanto as importações de petróleo bruto da Rússia pela União Europeia caíram 33% antes de uma proibição que deve entrar em vigor em Dezembro, segundo a Agência Internacional de Energia. Com o colapso das importações russas, a Europa busca por saídas como a troca de combustíveis, recorrendo-se ao GNL. Juntos, a Europa e o Reino Unido importaram quase 68% mais GNL de outras fontes além da Rússia, entre Março e Setembro deste ano, em comparação com o mesmo período de 2021. Mas a competição global pelo GNL já é acirrada e pode tornar-se ainda mais intensa. Vários analistas prevêem que a crise se agudize no próximo ano. FOTOGRAFIA D.R.

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RADAR

Finanças

Banco Central aumenta a taxa de juro de política monetária em dois pontos percentuais

Economia

Proposta do Orçamento do Estado de 2023 prevê crescimento económico de 5% O Governo prevê um crescimento económico de 5% em 2023 na proposta de Plano e Orçamento do Estado para 2023 (PESOE), aprovada pelo Conselho de Ministros. De acordo com o documento, este nível de crescimento representa uma recuperação gradual da actividade económica e será sustentada pelo bom desempenho dos sectores da indústria extractiva, que deve crescer 23,1% (provavelmente impulsionado pelo avanço do projecto de liquefacção de gás que arranca ainda este ano), agricultura (5,2%) e construção (5,0%). A estes factores sobrepõe-se uma maior abertura da economia no período pós-pandemia e maiores investimentos para acções de reconstrução pós-desastres naturais. Paralelamente, “os esforços empreendidos pelo Governo no âmbito do reforço da capacidade institucional e operativa das forças de defesa e segurança criarão condições para a contínua melhoria do ambiente de segurança nas zonas afectadas pelo terrorismo, galvanizando as expectativas de recuperação socioeconómica da região Norte do País”, lê-se do PESOE 2023. No quadro dos esforços visando assegurar um padrão de acumulação interna e crescimento económico centrado no reforço da participação do sector privado na economia, o Governo assegura que vai prosseguir, em 2023, com a implementação do Pacote de Medidas de Aceleração Económica, aprovadas este ano, e que irão criar condições para que os sectores-chave da economia se desenvolvam.

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O Comité de Política Monetária (CPMO) do Banco de Moçambique subiu a taxa de juro de política monetária de 15,25% para 17,25%, com o objectivo de controlar o nível geral de preços através da redução da circulação do dinheiro no mercado. Trata-se de uma medida muito contestada por alguns economistas e pelo sector privado, por dificultar os investimentos e, por via disso, criar barreiras ao crescimento económico. Segundo o governador da instituição, Rogério Zandamela, o aumento da taxa de juro tem em conta o contexto interna-

cional e visa assegurar o retorno da inflação para um dígito. “Esta decisão visa assegurar, a médio prazo, o retorno da inflação para um dígito, num contexto em que se prevê a volatilidade dos preços dos produtos energéticos e alimentares a nível internacional, com potencial impacto no aumento sustentado a nível doméstico”, argumentou. No que respeita às perspectivas económicas, o CPMO mantém as previsões de recuperação económica em 2022 e 2023, “não obstante as perspectivas de abrandamento da procura externa”, prevê o governador do Banco de Moçambique.

Energia

BAD anuncia financiamento de 2,5 milhões de dólares para energias renováveis em Moçambique

O Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) anunciou um financiamento de 2,5 milhões de dólares para energias renováveis em Moçambique. Apesar de

ser um país exportador de electricidade, graças à albufeira de Cahora Bassa, Moçambique regista baixas taxas de acesso à energia: 57% nas zonas urbanas e 13% nas zonas rurais. Entretanto, com o apoio proveniente do Fundo de Energia Sustentável para África, poderá aumentar a capacidade para integrar maiores quotas de renováveis. O financiamento será dirigido para a empresa pública Electricidade de Moçambique (EDM), para prestar assistência em quatro aspectos principais, nomeadamente estudos de viabilidade, desenvolvimento de uma central solar flutuante na albufeira de Chicamba (província de Manica), estudo de sistemas de bateria, qualificação de pessoal e apoio à preparação de propostas. Moçambique assumiu o compromisso de garantir acesso universal à energia até 2030, no quadro dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável.

Comércio externo

Reabilitação do porto de Nacala será concluída no final deste ano O Governo prevê que a reabilitação do Porto de Nacala, na província de Nampula, seja concluída até final deste ano. deste ano. Trata-se de uma infra-estrutura importante para garantir o comércio internacional dos países do interland, sobretudo Maláui, Zâmbia e República Democrática do Congo. O ministro dos Transportes e Comunicações, que avançou o facto após uma visita à infra-estrutura, disse que os tra-

balhos decorrem de forma satisfatória. “Estamos felizes, porque tudo indica que, até Dezembro, as obras estarão concluídas. Como podem ver aqui, temos grandes infra-estruturas montadas, grandes equipamentos que vão aumentar muito a produtividade e, certamente, podemos absorver mais carga, tanto para Moçambique, como para países como o Maláui”, disse o governante. www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


Indústria

Moçambique pretende revolucionar a produção de material de construção

O Executivo quer criar empresas nacionais capazes de produzir materiais de construção através de tecnologias avançadas, como forma de ultrapassar os constrangimentos que afectam o mercado. Para o efeito, os Ministérios das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos (MOPHRH) e da Indústria e Comércio (MIC) realizaram, recentemente em Maputo, uma mesa-redonda, visando iden-

tificar medidas concretas para o fomento à habitação e à implantação da indústria nacional de produção de materiais de construção. O evento juntou na mesma sala o Governo, sector privado, instituições de ensino, academias e parceiros de cooperação para discutir a cadeia de valor de produção, importação, revenda, distribuição e utilização desses materiais. Falando na ocasião, o ministro da Indústria e Comércio, Silvino Moreno, disse que o País conta com 807 empresas formais de materiais de construção, concentradas maioritariamente na província de Maputo (32%), sendo que as outras estão distribuídas pelas províncias de Inhambane e Gaza, Sofala, Manica, Zambézia, Nampula, Niassa e Cabo Delgado.

Situação humanitária

Moçambique fora da lista dos países com insegurança alimentar e fome

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) revelou que Moçambique está fora da lista dos países com focos de insegurança alimentar e fome. O representante da estrutura em Moçambique, Hernâni da Silva, referiu que, mesmo com a desestabilização na região Norte e com os impactos das mudanças climáticas que têm afectado o País nos últimos anos, há registos de avanços na produção e prowww.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022

dutividade agrícola em comparação com outros países africanos. O responsável afirmou ser preciso estudar mecanismos para colmatar as perdas da produção alimentar (muitas vezes provocadas pelas intempéries) no momento da colheita, armazenamento, transporte e no próprio consumo dos alimentos. De acordo com a fonte, o último relatório mostra que os países ao nível de África que estão em situação catastrófica são a Etiópia e o Sudão.

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NÚMEROS EM CONTA

Quem São os Fabricantes que Dominam o ‘Top 10’ da Produção de Baterias Para Veículos Eléctricos? O mercado global de baterias de veículos eléctricos (EV, no acrónimo inglês Electric Vehicles) deverá apresentar um crescimento brutal nos próximos anos, passando dos 17 mil milhões de dólares de 2019, para os 95 mil milhões de dólares em 2028. Com a crescente procura para descarbonizar o sector dos transportes, as empresas que produzem as baterias que alimentam os VE ganharam um impulso substancial. Apesar dos esforços dos EUA e da Europa para aumentar a produção interna de baterias, o mercado continua a ser dominado por for-

necedores asiáticos, e os dez maiores produtores mundiais são todos empresas asiáticas. Actualmente, as empresas chinesas constituem 56% do mercado de baterias EV, seguidas pelas empresas coreanas (26%) e pelos fabricantes japoneses (10%). O principal fornecedor de baterias, a CATL, expandiu a sua quota de mercado de 32% em 2021 para 34% em 2022, e um terço das baterias VE do mundo provém da empresa chinesa. A CATL fornece baterias de iões de lítio à Tesla, Peugeot, Hyundai, Honda, BMW, Toyota, Volkswagen e Volvo. Veja então o gráfico dos dez maiores fabricantes de baterias VE em 2022. O mercado de EV deverá crescer de 17 mil milhões em 2019 para 95 mil milhões em 2028.

A CATL fornece baterias para empresas como a Tesla, BMW e VW, tendo expandido o seu market share de 32% para 34% em 2022.

A BYD ultrapassou a Panasonic tendo quase duplicado a sua quota de mercado no último ano. A companhia, que tem Warren Buffet como um dos accionistas, é também o terceiro maior fabricante automóvel mundial.

A LG concordou em reembolsar a GM em 1,9 mil milhões de dólares para a ressarcir dos 143 mil Chevy Bolt retirados do mercado devido a baterias defeituosas.

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“Mais do que Competir no Preço, Queremos Fazê-lo na Qualidade” Apesar de ainda pequeno, em comparação com a banca, o mercado segurador tem, apesar de tudo, crescido nos últimos anos, impulsionado por alguns novos segmentos que vão surgindo, mas também pelos impactos da pandemia e dos ciclones. Num mercado fortemente concorrencial, a meta dos operadores passa pela inovação. Com poucos anos no mercado, é aí que está a aposta da corretora do Standard Bank Texto Pedro Cativelos • Fotografia Mariano Silva

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á alguns anos era impensável falar em seguros especializados em Moçambique, um mercado em que a cultura de contratar serviços desta área não só demorou a chegar como experimentou (e ainda experimenta) taxas de penetração bastante reduzidas. Apesar disso, o mercado está a crescer há novos players que chegaram ao mercado nos últimos anos. É o caso da Standard Corretores que, apesar de recente, aposta na cobertura de novos segmentos. Claro que, neste caso, o facto de estar associada um grupo bancário secular, sólido e com elevada penetração em vários segmentos, especialmente no corporativo e empresarial, como é o caso do Standard Bank Moçambique, acaba por permitir o desenvolvimento de múltiplas soluções financeiras sob um só tecto; aprofundar a informação sobre os clientes podendo, por isso, garantir melhores coberturas e serviços contratados. O panorama, o posicionamento no mercado e as ambições desta corretora são descritos pela directora-executiva, Ana Gunde. O que é, hoje, a corretora de seguros do Standard Bank? A Standard Insurance Corretora de Seguros foi licenciada em 2019 e é uma subsidiária do Standard Bank Moçambique. Quando começámos, a ideia era dar resposta às oportunidades que o banco identificou ao nível das empresas. É que, apesar de termos o que se chama de banca de seguros, que cobre os clientes individuais, havia uma lacuna em termos de prestação de serviços de seguros às empresas que eram clientes do banco. Tínhamos a visão de forne-

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cer aos nossos clientes serviços de seguro genéricos, que são os que existem no mercado, mas também os especializados, como o caso do seguro mineiro, seguro de petróleo e gás, seguro cibernético, do terrorismo, etc. São estes seguros que fornecemos através de parceiros locais e internacionais que nos dão suporte técnico. Como corretora, o nosso papel é de advisory aos nossos clientes. Não assumimos o risco. Falamos com o cliente, analisamos o risco, damos o advisory e as seguradoras é que assumem o risco. O nosso papel é, portanto, garantir que estamos a colocar o seguro a uma seguradora de bom nome, e que paga os sinistros quando ocorrem. Qual é a vantagem de a seguradora estar associada ao Standard Bank? O banco identificou essa necessidade de ampliar e tornar mais universal o serviço aos seus inúmeros clientes dos vários segmentos. Esta foi, para nós, uma opção estratégica e alinhada com as expectativas de crescimento da economia nacional. Com a chegada dos grandes projectos de oil & gas e o seu impacto no cenário macroeconómico, era, a nosso ver, essencial haver uma corretora que pudesse dar advisory às empresas sobre as questões de risco associado às suas actividades. Outro aspecto fundamental, e que é uma vantagem competitiva clara, é o facto de estarmos associados a uma marca como o Standard Bank, assente na credibilidade e confiança. Sendo uma marca que existe há cerca de 160 anos enquanto grupo. Enquanto corretores com pouco tempo de actuação, atingimos um reconhecimento mais acelerado por parte do mercado por via disso mesmo.

Trabalham com várias seguradoras, mas garantem a qualidade de serviço Standard Bank, alinhado com os padrões do banco, é assim? Temos um número limitado de seguradoras com quem trabalhamos precisamente por existirem requisitos que temos de preencher para termos as seguradoras no nosso painel. Há algumas que não responderam às nossas solicitações e outras que conseguiram fornecer o que precisávamos, e são estas que trabalham connosco. Fazemos, portanto, advisory às empresas, temos poucos serviços individuais e os que temos são todos estratégicos. O nosso foco principal são as empresas. Falou de alguns seguros mais especializados. Pode identificá-los? Em primeiro lugar, a nossa oferta de serviços de seguros é adaptada às necessidades e desafios da economia e da sociedade Moçambicana. Temos, por exemplo, uma oferta de seguros contra desastres naturais, um dos grandes riscos que passámos a ter nos últimos anos. Hoje em dia, infelizmente, sempre que há ciclones, Moçambique é muito afectado por estes fenówww.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


ma muito positiva. Isso mostra que existem oportunidades de crescimento e amadurecimento no mercado e que ainda temos muito por onde crescer. Qual é, na sua opinião, o estágio actual do mercado segurador em Moçambique? O nosso mercado é muito dinâmico, competitivo e agressivo. Temos 19 seguradoras, 128 corretoras de seguros, mas destas, apenas dez concentram cerca de 90% da quota total do mercado. A competição está, assim, nestas corretoras de que também fazemos parte. O mercado é muito competitivo, mas ainda está em desenvolvimento também, com uma dimensão bastante pequena ao nível do número de apólices emitidas. Com a entrada em cena do sector do oil & gas e com o desenvolvimento económico que daí advirá, temos todos a esperança de ver o mercado crescer, porque, em termos de taxas de penetração de serviços de seguros, ainda está abaixo dos 2%, o que é muito reduzido comparado com outros países. Mas também sabemos que tivémos as situações do terrorismo no Norte do País, e da pandemia de covid-19 que afectaram o mercado.

É um risco que afecta todos e já há consciência disso, e nós estamos, sem dúvidas, atentos a esse fenómeno e a trabalhar sobre ele, para poder proporcionar soluções inovadoras.

E há, agora, o desafio da inflação que também está a preocupar as seguradoras... Sem dúvida. Com a previsão da inflação média do próximo ano a subir para perto dos 11,5%, isto é um desafio para as seguradoras, já que significa que os pagamentos para os sinistros vão aumentar. Não tendo nós, País, uma indústria de viaturas, se a inflação sobe, o custo de reparação das viaturas também sobe. Mas o desafio não é apenas esse. É também a contínua redução do preço na emissão de seguros porque o mercado está ‘apertado’ por causa da competição entre as várias seguradoras e operadores. Ou seja, enquanto o custo dos sinistros sobe, o preço de emissão dos seguros tem de cair e isto é um problema.

Com poucos anos no mercado, em que posição se encontra a seguradora neste momento? Este é o nosso terceiro ano no mercado, e devo lembrar que pelo meio tivémos uma pandemia global, mas se olharmos aos resultados do Instituto de Supervisão de Seguros de Moçambique (ISSM), que é a entidade reguladora do nosso mercado, estamos em sexto lugar em termos de volume de negócios. Estando entre os primeiros dez operadores, isto significa que, de facto, estamos a crescer e a desenvolver-nos de for-

O segmento dos seguros de saúde tem crescido? De facto tem crescido, primeiro devido ao covid-19. Nos anos que passaram, o produto que tinha maior quota era o automóvel, a seguir os incêndios mas, desde 2020, a quota do ramo saúde subiu bastante porque as pessoas despertaram para essa necessidade. Hoje, a área automóvel tem crescido menos do que a da saúde e ambas já estão quase ao mesmo nível em termos de quota de mercado. Temos serviços de seguros de saúde ao nível da Standard In-

“Como corretora, o nosso papel é de advisory aos nossos clientes. Não assumimos o risco. Falamos com o cliente, analisamos o risco e as seguradoras assumem”

menos. Antigamente, as zonas de risco eram específicas e estavam identificadas, mas agora temos registado ciclones em vários outros pontos do País. E temos de saber e poder dar resposta a isso enquanto seguradora. Depois, há outros novos desafios, como a cibersegurança, um tema cada vez mais presente na agenda das empresas. Também disponibilizam soluções a esse nível? O mercado está a começar a reconhecer e aceitar esses riscos, mas os requisitos ainda são inúmeros. As seguradoras e resseguradoras querem saber quais são as medidas e como podem ser mitigados os riscos, isto porque os hackers estão sempre muito mais avançados e investem muito mais do que as empresas. www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022

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AS ÁREAS ESPECIAIS DE COBERTURA DA CORRETORA STANDARD Com apenas três anos no mercado, a correctora soporta-se do peso internacional do secular Grupo Standard Bank para apostar na cobertura a áreas fora-de-caixa (pelo menos no mercado moçambicano) • Petróleo e Gás • Mineração • Directores e Oficiais • Seguro Cibernético • Seguro Pandemia • Sequestro & Resgate/ Seguro do Homem-Chave • Indemnização Profissional • Helicópteros Privados/ Aeronaves/ Drones • Responsabilidade da Pista de Aterragem • Seguro de Negligência Médica

“A digitalização dos processos para criar conveniência aos clientes e evitar a burocracia é a forma de aproximar os seguros do mercado”

surance Corretora de Seguros, mas estão voltados para as empresas, uma vez que as seguradoras não têm grandes pretenções de fazer seguros individuais. Quais são os próximos objectivos da corretora? Temos muita esperança na área do oil & gas por causa da marca Standard Bank e de como está posicionada a esse nível, que nos pode alavancar no sentido de conseguirmos mais espaço nesse mercado. Depois, ao nível das infra-estruturas, firmámos recentemente uma parceria com a maior corretora da China que, acreditamos, vai contribuir para o aumento de alguns negócios, já que é um país que está muito evoluído no desenvolvimento de infra-estruturas. Outro objectivo muito importante é a digitalização porque, infelizmente, o covid-19 abalou os mercados e despertou-nos para uma realidade contrária aos moldes tradicionais de como fazemos seguros. O que pretendemos é descobrir como podemos digitalizar os processos para criar conveniência aos clientes e evitar a burocracia para dinamizar e aproximar os seguros do mercado. Se, por exemplo, ocorrer um sinistro,

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em vez de o cliente ter de ir preencher um formulário, pode apenas tirar uma fotografia da situação e enviar-nos através de um aplicativo. Estamos nesse processo. Claro que há limitações nos regulamentos, mas estamos a trabalhar a pensar na digitalização e em como torná-la realidade. Depois, e nos próximos três anos, a nossa meta é estarmos no ‘Top 5’ das seguradoras em termos de crescimento e aumentar o número de mulheres a trabalhar neste sector, já que temos poucas, não só no sector dos seguros, como em todo o sector financeiro. Esse é um desígnio da instituição, e meu também, e tenho estado envolvida em formas de empoderar outras mulheres. Fui a primeira, e até agora única, mulher CEO de uma seguradora e gostaria de ver outras mulheres seguir por este caminho. Por fim, gostaríamos de ser uma marca de referência, no sentido de que se alguém precisar de seguros, se pense e recomende a Standard Insurance. Por isso, vamos continuar a formar e empoderar as nossas equipas no sentido prestar os melhores serviços para, mais do que competir no preço, possamos competir na qualidade.

Quais os grandes desafios do sector, de um modo geral? A falta de quadros. Mas isso acontece porque não temos colégios ou universidades que dêem formação especializada em seguros. Pessoas que se formam nesta área fazem-no à distância (o que é difícil) e estão ligadas a academias no Zimbabué, África do Sul ou Inglaterra. Os poucos quadros que têm conhecimentos sólidos e experiência são difíceis de reter. Depois, outro dos desafios a ter em conta na actualidade é a necessidade de educar os clientes e potenciais clientes. Em momentos de crise, a primeira coisa que muitas empresas fazem para reduzir custos ainda é, infelizmente, despensar os seguros. Se queremos uma economia saudável, temos mudar esse mindset. E quanto aos seguros de garantias de que se tem falado, é uma solução viável? Já houve sinistros de mercado que comprovaram que, em Moçambique, não há apetite para seguros de garantias. Existem algumas seguradoras que fazem, mas os requisitos são maiores. O desafio é que, por exemplo, uma empresa que esteja a iniciar actividade, e que queira fornecer serviços a outra empresa, como a Sasol ou Total, estas pedem três anos de contas auditadas. Mas uma empresa que está no início de actividade não tem este requisito. Assim, mesmo que exista um contrato de fornecimento já assinado, as seguradoras não estão confortáveis em avançar. www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


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OPINIÃO

Bruno Dias • Consulting Partner EY

A Computação na Nuvem como Alavanca de Desenvolvimento Sustentável

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A situação de Moçambique é paralela à de muitos outros países, sendo necessário criar um framework regulamentar sólido em linha com as melhores práticas internacionais para permitir o acesso a serviços cloud empresariais de forma consistente

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digitalização da economia veio para ficar e tem vindo a crescer de forma exponencial impulsionada pelo período pandémico. Uma das suas vertentes é a chamada computação em nuvem (“Cloud Computing”), que se configura como uma alavanca disruptiva no modelo de Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) empresarial. Pretendo, com este artigo, fazer uma reflexão sobre as suas vantagens e desvantagens e quais as oportunidades e desafios no contexto africano e, em particular, no contexto moçambicano. Mas comecemos por tentar definir o conceito. De forma simples, a computação em nuvem é a entrega de serviços computacionais – incluindo servidores, armazenamento de dados, bases de dados, software e aplicações – sobre a internet (a dita “nuvem”). Tipicamente pagamos apenas pelos serviços que utilizamos, o que permite reduzir custos operacionais, gerir a infra-estrutura de forma eficiente e escalar à medida do crescimento ou de algum outro imperativo do negócio. Reparem que todos nós, a título individual, temos, há muito, usado serviços na dita nuvem. De facto, imagino que quase a totalidade dos leitores tenham uma conta de e-mail pessoal offshore como o Gmail, ou uma conta no Netflix para ver uma série em família na sexta-feira à noite, ou no iCloud para guardar as fotografias que o armazenamento do telemóvel já não permite. A nível empresarial, o tema toma outros contornos, e armazenar dados fora do perímetro de uma companhia ainda é visto como algo não natural ou algo não facilmente acessível, em especial para os decisores no continente africano. As vantagens inerentes à adopção de serviços na nuvem são evidentes: é possível escalar a capacidade à medida das necessidades e das flutuações no negócio, o que permite uma eficiência de

custos uma vez que apenas se pagam os serviços subscritos; o staff de IT tem maior produtividade ao poder focar-se em tarefas de maior valor acrescentado e nas aplicações core ao negócio; e, por fim, ter-se-á um aumento da disponibilidade e performance da infra-estrutura que será gerida por especialistas qualificados e seguindo sempre as melhores práticas internacionais. Existem, no entanto, uma série de desafios à adopção de serviços de cloud empresariais. O primeiro dos quais está associado à falta de regulação dos mesmos em várias geografias, nas quais se inclui Africa e, em particular, Moçambique. Este vazio regulatório, a nível nacional ou sectorial, é um importante inibidor deste tipo de infra-estruturas que tem levado as empresas a continuarem a apostar nas suas infra-estruturas próprias locais. A segurança dos dados e a largura de banda da infra-estrutura de rede são outros dois inibidores importantes. A questão de segurança de dados é em muito mitigada pela utilização de standards de última geração pelos principais fornecedores tendo, obviamente, que ser mantidos os procedimentos necessários pelas empresas para minimizar ataques e reduzir vulnerabilidades. Quanto à largura de banda das infra-estruturas, é de salientar que esta duplicou em poucos anos no continente africano, pelo que as empresas e Governos podem, cada vez mais confiar, em tecnologias na nuvem e tomar partido dos seus vários benefícios. De facto, tem-se visto uma vaga de investimentos em centros de dados e infra-estruturas TIC, originalmente centradas na Africa do Sul, mas agora com alguns casos de estudo espalhados pelo continente, onde players domésticos competem com os gigantes internacionais, como a Amazon e o Microsoft Azure. Alguns destes fornecedores de serviços em nuvem têm surgido do sector das www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


A computação na nuvem pode tornar-se um aliado para atingir o desenvolvimento sustentável comunicações, como a Sonatel na Africa Ocidental, a TelOne no Zimbabué e a Angola Cables em Angola, que, para além de gerir cabos de comunicação submarina, opera um centro de dados Tier I em Luanda. A situação de Moçambique é paralela à de muitos outros países, sendo necessário criar um framework regulamentar sólido em linha com as melhores práticas internacionais para permitir o acesso a serviços cloud empresariais de forma consistente. De salientar que entidades multilaterais como, por exemplo, o Banco Mundial, através do “Digital Governance and Economy Project“, lançaram iniciativas estruturantes que visam melhorar as capacidades de cyberseguranca, de infra-estrutura e conectividade digital em Moçambique, e que servirão certamente www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022

para catalisar esta agenda no País. É importante as empresas, tanto as grandes como as PME, olharem para os serviços cloud como uma oportunidade e pensarem em como os embeber na sua estratégia, repensando os seus modelos operacionais, aplicacionais e de recursos humanos. Em súmula, a computação na nuvem permite a entrega de capacidades sofisticadas de tecnologias de informação sobre a internet e terá um papel crucial nas agendas de inovação e eficiência. O que é especialmente interessante acerca deste fenómeno é que as empresas não necessitam de deter a sua infra-estrutura ou centros de dados. Em vez disso, podem alugar o acesso à capacidade de armazenamento ou a aplicações e reduzir os custos operacionais e de investimento actualmente ne-

cessários para contruir e manter as suas infra-estruturas próprias. A adopção destas tecnologias pode ser equacionada em vagas progressivas, acompanhando a evolução da regulação e a mitigação do risco associado. Mas é bom que estejamos todos conscientes que é um fenómeno irrevogável, e que quanto mais cedo o estudarmos melhor. Se os países africanos, e em particular Moçambique, conseguirem endereçar bem os desafios aqui enumerados, que passam pela implementação de uma regulação bem estruturada e pela existência de infraestrutura TIC de suporte, a computação na nuvem pode tornar-se um aliado poderoso para atingir um desenvolvimento sustentável e, quem sabe, tornar Moçambique um Hub Digital da Região.

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CONTEÚDO LOCAL

Gás à Porta, Conteúdo Local a Caminho O debate, desta vez, foi levado à casa dos estudantes de relações internacionais, uma medida que visa reforçar a pressão dos tomadores de decisão a apressarem o conjunto de procedimentos que vão assegurar que a exploração do gás sirva, de facto, à causa do desenvolvimento de Moçambique Texto Filomena Bande • Fotografia Istock Photo

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primeiro gás produzidoem Moçambique começará a ser exportado dentro de poucas semanas, antes do fim do presente ano. Mas prevalecem preocupações antigas sobre como este recurso vai ser gerido em benefício do crescimento socioeconómico. Ou seja, estamos atrasados na definição de uma estratégia consistente a este nível, o que agudiza ainda mais a tensão dos académicos, sociedade civil, especialistas na área de petróleos e da sociedade em geral. Talvez por isso, agora como nunca antes, o tema sobre Conteúdo Local ganha uma tónica ainda mais acentuada.

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Recentemente, foi a vez de Alberto Nkutumula, antigo ministro da Juventude e Desporto e académico da área de petróleos, juntar a sua voz à causa da promoção do Conteúdo Local, numa palestra proferida na Universidade Joaquim Chissano, especializada em Relações Internacionais, sob o tema “Conteúdo Local no sector dos petróleos: Desafios e Perspectivas”. Na sua dissertação, indicou a falta de tecnologia necessária para a exploração dos recursos, a falta de recursos humanos qualificados, a falta de recursos financeiros e a necessidade de aprovação de uma política que sirva de base para a legislação sobre Conteúdo Lo-

cal como alguns dos principais desafios. Na visão de Nkutumula, Moçambique, como qualquer país rico em hidrocarbonetos e sem recursos financeiros, materiais e tecnológicos para explorar por si próprio, precisa de contratar empresas estrangeiras para o fazer. Temos cá dentro um claro exemplo disso, que é o do gás de Temane e Pande, na província de Inhambane, que está a ser explorado pela petrolífera sul-africana Sasol desde 2004. Até agora, passados 18 anos, o País ainda não tem reunidas as condições para que ele próprio consiga explorar o gás, o que, na sua óptica do antigo ministro é preocupante. Segundo Alberwww.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


çambique elaborar um instrumento de legislação do Conteúdo Local abrangente, porque o actual cenário a que se assiste é de apenas algumas normas nos contratos celebrados entre o Governo e as empresas. São regulamentos que variam de uma empresa para a outra e de uma região para a outra. Por exemplo, as regras da Área 1 diferem das da Área 4”, criticou. No entanto, reconhece que apesar de divergentes, e enquanto não se conseguem melhores soluções, tais regras “são bem-vindas porque estão a beneficiar o empresariado moçambicano e a população, uma vez que colocam como imperativo, por exemplo, que as grandes empresas estrangeiras comprem produtos e serviços das Pequenas e Médias Empresas (PME) nacionais e contratem mão-de-obra moçambicana. Com estas acções a serem implementadas, de facto, garantimos não somente uma renda circular, mas que com o rendimento que as PME adquirem possam diversificar os seus serviços e explorar outras áreas de investimento”.

O gás vai começar a ser exportado dentro de muito pouco tempo, antes do fim de 2022. Mas o País ainda não tem claras as regras do Conteúdo Local to Nkutumula, que também desempenhou a função de vice-ministro da Justiça e porta-voz do Conselho de Ministros, o Governo, que é a entidade responsável, tem o dever de criar políticas de gestão e legislação para regular a forma como os recursos serão explorados e assim garantir que cada cidadão sinta o benefício de ter esse recurso e da explowww.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022

ração que se faz dele. Uma das medidas tomadas, que ainda está em verificação, é a política do Conteúdo Local. Mas parece tudo parado, e a pressão cai por todos os lados, inclusive pela voz do antigo governante, que também manifesta preocupação com o aparente desalinhamento das regras que estão actualmente em vigor no Rovuma. “É tempo de Mo-

Resistência a choques externos Nkutumula lembra a cadeia de efeitos de uma política concebida dentro dos padrões que propõe. Começa por se referir à diversificação e estabilização da economia graças a uma maior actividade produtiva, que possibilita o fim da dependência do petróleo e gás e que cria resistência do mercado interno em relação a choques externos. “Mesmo em caso de alguma variação nos preços desses produtos no mercado internacional, a economia conseguirá resistir graças às outras áreas, diferentemente do que acontece actualmente”, argumentou, acrescentando que a diversificação da economia também é apoiada pelas receitas arrecadadas por via dos impostos, se o Governo as aplicar adequadamente. “Quando se descobre este tipo de recursos num país, há sempre uma grande expectativa de crescimento, dada a dimensão do negócio, do grande investimento financeiro e da projecção que dá em termos mundiais. Espera-se, naturalmente, que o país desenvolva e haja melhoria das condições da vida por causa da exploração desses recursos. No entanto, temos de entender que a descoberta de recursos petrolíferos nem sempre é uma bênção. Por vezes, é uma maldição. E temos alguns exemplos dos dois no mundo”, advertiu, partilhando com os estudantes os casos mais conhecidos, nomeadamente a “doença holandesa” e o caso na Noruega. “Na Holanda,

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A legislação (outra vez) É a questão do momento quando se trata de promover o Conteúdo Local, sendo uma grande preocupação a

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a descoberta e exploração de grandes reservas de gás natural aumentou o preço deste recurso e levou à arrecadação de grandes volumes de receitas de exportação. O efeito disso foi uma valorização acentuada da sua moeda, a ponto de reduzir significativamente as exportações e a competitividade da economia no contexto internacional”, explicou. Em contraposição, também recorreu a outro bem conhecido exemplo da Noruega, um dos melhores do mundo no que diz respeito à gestão responsável dos seus recursos naturais, o que justifica a sua prosperidade. “É importante que Moçambique tome a referência de outros países com recursos como os nossos, africanos e do mundo em geral, na gestão de recursos naturais, sem cometer os mesmos erros que alguns cometeram. Temos de aprender da experiência dos outros”, disse.

“É tempo de Moçambique elaborar um instrumento de legislação do Conteúdo Local abrangente, porque o actual cenário a que se assiste é de apenas algumas normas nos contratos celebrados entre o Governo e as empresas”

demora na sua aprovação. “A política ou legislação sobre o Conteúdo Local é muito importante porque diz respeito aos ganhos que o Estado terá com a exploração do petróleo, por via da contratação, formação ou qualificação da mão-de-obra moçambicana para que, um dia, os próprios moçambicanos possam explorar por si os seus recursos”, defendeu, mais uma vez, Alberto Nkutumula. O académico argumenta que traz a discussão sobre o Conteúdo Local ao fórum académico “para fugir um pouco do mundo empresarial”, porque o assunto não deve ser abordado sob esse ponto de vista. Tem que ver também com a educação, com a saúde, o turismo e a economia, de um modo geral. Portanto, com a diversificação da economia, resultante da exploração dos petróleos, vamos atingir outras áreas da sociedade que são determinantes para garantir que o País se desenvolva e, para isso, precisamos da academia. Assim, este deve ser um debate aberto a todos os fóruns e não apenas para empresários”, concluiu. www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022



OPINIÃO

Ilia da Silva • Director de Transformação do Absa Bank Moçambique

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uando ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento.” (Erico Ve-

ríssimo) Investidores, reguladores e o público em geral estão cada vez mais atentos aos esforços que as empresas fazem para preservar o planeta, impactarem a comunidade local onde operam e adoptarem práticas de governação corporativa baseada na integridade e na transparência. Ou seja, os consumidores e o público em geral estão cada vez mais exigentes e as empresas e as marcas mais conscientes do seu papel na sociedade. Segundo um estudo da PWC, o “2021 global investor survey”, 79% dos investidores institucionais consideram a gestão de riscos e oportunidades de sustentabilidade como um factor determinante no seu processo de decisão e 82% concordam que as empresas devem incorporar princípios de sustentabilidade na sua estratégia corporativa. O conceito de indicadores ESG surge como forma de mensuração e comparação do grau de sustentabilidade das empresas. As iniciais ESG vêm do acrónimo original em inglês environmental, social and governance, que, traduzido livremente para a língua portuguesa, corresponde a algo como ambiental, social e governação corporativa e consiste num conjunto de medidas que podem ser usadas por stakeholders, particularmente investidores, para avaliar como as empresas influenciam o mundo para lá do lucro que obtêm. São apenas três letras, mas que redefiniram por completo o conceito de sustentabilidade no universo corporativo moderno. Assim, as três dimensões do ESG são: Ambiental: Este nível refere-se à forma como a empresa salvaguarda o meio ambiente e inclui ideias e práticas como a utilização dos recursos naturais (a água e a energia eléctrica, especialmente), a escolha dos equipamentos

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Promover Práticas Sustentáveis: A Transformação do Futuro já Começou! Mudanças profundas rumo a uma sociedade mais humana utilizados no funcionamento do negócio, a poluição do ar e da água provocada pela empresa, a gestão e o descarte de resíduos, a emissão de níveis de dióxido de carbono para a atmosfera ou, caso se justifique, o desmatamento e como afecta a biodiversidade. Social: este nível é particularmente relevante para o contexto Africano, onde existem grandes desigualdades e vulnerabilidade económica mais acentuada. Esta dimensão pretende assim, examinar a forma como a empresa gere a sua relação com os colaboradores, fornecedores, clientes e as próprias comunidades onde opera. Inclui temas como

São vários os benefícios que a aplicação do ESG nas políticas empresariais traz, contribuindo decisivamente para o seu sucesso comercial o envolvimento e motivação dos colaboradores, programas de formação disponíveis, a qualificação e o progresso na carreira dos colaboradores, a diversidade dos membros da equipa, a protecção e privacidade dos dados, o respeito pelas leis laborais e pelos direitos humanos, o envolvimento directo na sociedade civil e a monitorização da cadeia de fornecedores. Governação corporativa: Esta dimensão, como o próprio nome indica, aborda a estrutura e a organização da empresa e a actuação das suas formas de liderança. Inclui temas como tudo o que são relatórios financeiros transparentes e abertos, a gestão e mitigação

de riscos associados, a conduta corporativa, a estrutura dos seus valores e da sua ética, a existência de um canal para denúncias internas, políticas de transparência e de combate à corrupção e os direitos dos accionistas. ESG - a origem e o seu impacto actual no mercado de capitais Se recuarmos no tempo, encontramos as primeiras menções ao termo ESG em 2004, numa publicação do Pacto Global em parceria com o Banco Mundial, intitulada “Who Cares Wins” que tinha como objectivo catalisar a integração dos principios ESG no processo de decisão dos investimentos. O então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, lançou a 50 CEO de grandes instituições financeiras, o grande desafio de se incluir princípios relacionados com as causas sociais, ambientais e de governação corporativa no exercicio das suas actividades. Estava dado o primeiro passo para a generalização e globalização do conceito de ESG. Hoje, o sector empresarial abraçou esta política, até porque estamos a falar de um sector que representa mais de 30 mil milhões de dólares. Actualmente, o investimento em empresas que aderem aos princípios ESG representa mais de 40 mil milhões de dólares e, de acordo com relatório da ‘Bloomberg Intelligence (2021)’, espera-se que cresça acima dos 50 mil milhões de dólares em 2025. Estes números correspondem a um terço do total dos activos geridos globalmente. Isto demonstra de forma cabal a rápida adesão do sector empresarial a esta iniciativa. Porque o ESG faz a diferença no seu negócio? São vários os benefícios que a aplicação do ESG na políticas empresariais traz, contribuindo decisivamente para o seu sucesso comercial. Essas vantagens ajudam assim a explicar, naturalmente, a sua enorme adesão e sucesso junto das grandes empresas e marcas internacionais. A saber: www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


O respeito pela biodiversidade está dentro do novo conjunto das boas práticas empresariais

• Vantagem competitiva: a adopção de um programa ESG robusto melhora a percepção geral da empresa junto do público e posiciona-a favoravelmente perante a própria comunidade, os reguladores e as agências de rating ESG. Como consequência, as iniciativas ESG contribuem para atrair investidores, reter colaboradores e ganhar a lealdade dos clientes, o que se acaba por reflectir positivamente na performance financeira da empresa. Um estudo recente da Harvard Business Review (2021) conclui que a maioria das empresas com práticas ESG implementadas tem um custo de capital mais baixo, uma maior performance operacional e um melhor desempenho das suas próprias acções no mercado da Bolsa. • Diminui riscos do negócio: ao seguir uma estratégia ESG, as empresas não só estão a mitigar os riscos associados ao seu negócio, como estão também a antecipar soluções que se podem vir a revelar problemas mais complicados a médio prazo. Ou seja, por outras palavras, as empresas ao decidirem implementar políticas de EGS ao invés de optar por as introduzir mais tarde, estão a evitar ter que lidar com problemas legais de regulação às normas verdes ou mesmo reputacionais perante o seu público. Assim, essa decisão contribui igualmente para reduzir custos, aproveitar oportunidades e melhorar a competitividade. • Faz do planeta um melhor lugar: já não é possível ignorar mais a crise climática, em que estamos mergulhados. É necessário reduzir o consumo e adoptar comportamentos mais verdes sob o risco de perdermos o estilo de vida que alcançámos até então. E as empresas, devido à sua pegawww.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022

da ecológica, têm uma maior responsabilidade neste campo. Por isso, ao adoptar um programa ESG, as empresas não só contribuem para que o seu negócio prospere, como também têm um papel activo no desenvolvimento estruturado e sustentado do planeta. Os desafios ESG no contexto africano O contexto social africano é fortemente marcado pela pobreza da sua população. De acordo com os últimos números oficiais, cerca de 34% dos agregados familiares residentes em África vivem em extrema pobreza (o que, oficialmente, significa que vivem abaixo dos 1.9 dólares por dia), com falta de acesso a serviços básicos. É um cenário de desigualdades crescentes, uma alta taxa de desemprego juvenil, baixos níveis de educação e de saúde de qualidade. Por isso, neste contexto de extrema fragilidade sócio-económica, o pilar social do ESG tem um peso dominante na agenda da sustentabilidade global, ao mesmo tempo que cria uma forte interdependência com o pilar ambiental e com o pilar da governação corporativa. Afinal de contas, esta é uma estratégia transversal, em que os seus pilares fundadores não podem ser abordados independentemente. No contexto ambiental, o continente africano é, por um lado, uma das regiões de maior diversidade natural do planeta, acomodando um quarto da biodiversidade global. Por outro lado, o continente africano, que contribui de forma marginal para a emissão de gases de efeito de estufa e para o aquecimento global, é extremamente vulnerável a choques climáticos. Os danos colaterais de um desastre ecológico em África são exponenciais

e causam riscos sistémicos na sua economia, segurança alimentar, saúde pública, acesso a água potável e investimento em infra-estruturas. Perante esses desafios ambientais, estima-se que os países africanos tenham de investir 50 mil milhões de dólares por ano para garantir a transição climática, segundo um estudo da UNEP (2021). A realidade africana oferece por isso inúmeros desafios e oportunidades para empreendedores com profundo sentido de missão em criarem um impacto significativo nas comunidades onde operam, através de esforços coordenados numa direcção estratégica clara mais sustentável. O desenvolvimento industrial tem um papel fundamental para o crescimento sócio-económico e sustentável de Africa. A sua industrialização tem de se tornar cada vez mais sustentável e focada na diversificação económica. Como tem sido observável, o desenvolvimento sustentável acontece por etapas. Começa por passar por um período de transição táctica, iniciando com etapas que são mais acessíveis e mais baratas, mas focado em acelerar para chegar rapidamente às etapas do desenvolvimento que exigem tecnologias de ponta e de maior sustentabilidade. Conclusão O enorme potencial de crescimento económico e demográfico de África significa que as empresas têm uma oportunidade de desempenhar um papel transformador na resolução de alguns dos principais desafios do continente. Parece essencial explorar melhor a incrível biodiversidade de África, a sua diversidade cultural e os seus conhecimentos endógenos, enquanto que os sistemas de valores comuns parecem ser o melhor activo para moldar as conversas em redor do ESG e encontrar indicadores relevantes para criar valor para a sociedade, construindo experiências de sucesso e definindo um novo conjunto de boas práticas empresariais com respeito pela diversidade africana. O ESG está em constante evolução, até porque estamos a falar de conceitos e ideias relativamente recentes e considerando a velocidade das mudanças estruturais mundiais na actualidade, requer diálogo activo entre todas as partes envolvidas, a procura de soluções conjuntas num verdadeiro trabalho em rede e ideias inovadoras para que, juntos, possamos construir uma sociedade mais humana, inclusiva, sustentável e integrada.

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Cerco ao Branqueamento de Capitais. Qual é o Poder da Lei? Há muito dinheiro produzido em actividades criminosas no circuito legal da economia global. Em Moçambique, as autoridades estimam em mais de 35 mil milhões de meticais movimentados em cerca de 2 300 operações suspeitas, detectadas pelas instituições financeiras nacionais em 2021. Mas os números podem ser muito superiores, dada a fraca capacidade de fiscalização que faz de Moçambique um dos países mais vulneráveis a este respeito. A consequência imediata disso são as sanções internacionais que podem resultar na quebra de competitividade da economia e atrasos ao desenvolvimento do sistema financeiro. Para corrigir o contexto, uma lei e uma estratégia acabam de ser aprovadas mas muito há ainda por fazer. Texto Celso Chambisso • Fotografia Istock & D.R. www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022

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omo nunca antes, um tema tão antigo quanto preocupante, o branqueamento de capitais e financiamento ao terrorismo, tem voltado à ordem do dia, pela ameaça de sanções que devem advir do incumprimento das normas de combate internacionalmente estabelecidas e que não estarão a ser devidamente cumpridas no País. O fenómeno estende-se, principalmente, a sectores devidamente identificados, nomeadamente a banca e seguros, casas de câmbio, casinos, imobiliário e transacções de pedras e metais preciosos. Num estudo recente sobre o tema, o Centro de Integridade Pública (CIP) revela que o País "terá falhado" em 80% das recomendações internacionais contra o branqueamento de capitais e financiamento ao terrorismo feitas pelo Grupo de Acção Financeira (GAFI) – um colégio internacional de reguladores, criado em 1989 pelo Grupo dos países mais ricos do mundo, o G7. O mesmo estudo esclarecia que, até Maio de 2022, "foram cumpridas apenas oito das 40 recomendações, representando apenas 20% das exigências." Segundo o CIP, isto poderá resultar em sanções como restrições aos credores no acesso ao sistema financeiro mundial, um atraso nas transacções financeiras oriundas no País. Nesse sentido, entre os dias 17 e 21 de Outubro de 2022, Moçambique esteve sujeito à avaliação do GAFI, em conferência anual que teve lugar em Paris e, em face deste nível de incumprimento, o País acabou mesmo por entrar para a "lista cinzenta" (o estágio anterior ao pior) desta entidade. O que até agora constituía uma ameaça, transformou-se numa realidade. No entanto, não é no problema em si que queremos prender a atenção do Leitor, e sim na discussão da eficácia das soluções adoptadas para a sua resolução, nomeadamente a nova Lei contra o Branqueamento de Capitais e Financiamento ao Terrorismo e numa estratégia recentemente aprovada com a mesma finalidade, que deve vigorar entre 2023 e 2024. A E&M ouviu duas entidades especializadas no assunto para descortinar o âmbito das alterações de regulamentação que vão apoiar o País a fortalecer-se no combate a este fenómeno. Para quê e por que motivo a Lei foi revista? Malik Amirali, director-executivo da EY e especialista em matérias financeiras, ajuda-nos a compreender as transfor-

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mações que o mercado sofreu ao longo do tempo, até dar origem à necessidade de uma protecção legal mais exigente e que hoje é adoptada através da substituição da Lei de 2013 pela actual – a Lei n.º 11/2022. Segundo o responsável, o que deu origem à nova Lei de branqueamento de capitais e financiamento ao terrorismo foram três componentes fundamentais, todas movidas pela pressão que se exerce sobre o País. "A primeira tem que ver com as exigências do Conselho de Segurança das Nações Unidas, das quais Moçambique é membro não permanente desde Junho deste ano. Em segundo lugar, as obrigações emitidas pelo GAFI que é o colégio de reguladores que, em Junho de 2021, publicou as 40 recomendações para reforçar as acções de combate ao branqueamento de capitais. Finalmente, em terceiro lugar, a componente da experiência do regulador interno, o Gabinete de Informação Financeira de Moçambique (GIFiM), que está a realizar muitas acções de supervisão, sensibilizando a monitorização. A de-

sempenhar o seu papel, o GIFiM viu que há muitos gaps que têm de ser fechados e que uma nova Lei seria a melhor forma de o fazer." Mas, mais do que uma Lei, e partindo da experiência de que esta, só por si, não garante a consecução dos objectivos que com ela se pretendem, o foco do novo instrumento dá grande ênfase à avaliação do risco, abarcando três componentes: a macro, a micro e a supervisão. No que diz respeito à componente macro, a Lei estabelece que é preciso fazer uma avaliação de risco ao nível nacional, e que tal compete ao GIFiM. É preciso fazer a avaliação de risco ao nível sectorial, o que cabe ao supervisor de cada sector. Quanto à componente micro, a Lei estabelece que cada instituição financeira tem de avaliar o risco de cada cliente. No capítulo da supervisão, a Lei prevê que os reguladores passarão a fazer uma análise ao perfil de risco de cada entidade e de cada grupo, e depois farão um relatório para ser entregue à supervisão. Ou seja, se detectarem um gruwww.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


LAVAGEM DE DINHEIRO NA PRÁTICA Como se processam crimes de lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo?

Actividade criminosa Pode incluir venda ilegal de armas, contrabando e criminalidade organizada, envolvendo, por exemplo, tráfico de droga e prostituição, desfalque, abuso de informações privilegiadas, suborno e esquemas de fraude informática. Produto do crime Os produtos do crime têm origem ilegal. Pode tratar-se de instrumentos financeiros como numerário, títulos e acções, ou activos não financeiros, como imóveis, arte, antiguidades e mercadorias.

po que apresente risco elevado de branqueamento de capitais, vão ter de visitar esse grupo com maior frequência e intensidade. O que mudou com a nova Lei? Mais do que o próprio combate, a tónica da nova legislação incide na prevenção, e isto concretiza-se através de três pontos principais: a primeira diferença, face à Lei de 2013, é o aperto nas regras existentes nas áreas identificadas como vulneráveis e a expansão do âmbito da Lei para preencher áreas novas. A segunda diferença é a abordagem focada no risco que já existia, mas que não estava a ser considerado. E esta a abordagem compreende as dimensões macro, micro e de supervisão. A terceira diferença é que, se antes se falava do combate ao branqueamento de capitais e ao financiamento do terrorismo, no novo enquadramento legal houve a inclusão de uma nova componente, que é o combate ao financiamento de armas de destruição maciça. A E&M também ouviu o jurista Tiago Arouca Menwww.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022

des, managing partner da sociedade MDR Advogados, que destaca os pontos fortes do novo regime começando por fazwe menção "ao alargamento e requalificação do leque de entidades obrigadas, que parece mais ajustado à realidade das entidades mais expostas a estes crimes e demais crimes conexos, permitindo simultaneamente maior extensão e coesão na aplicação das regras contra a lavagem de dinheiro." A seguir faz referência à introdução de medidas específicas relacionadas com Pessoas Politicamente Expostas e beneficiários efectivos, tal como um regime específico para provedores de activos virtuais (por exemplo, as criptomoedas), com soluções destinadas a combater novas ameaças de integração de montantes de origem ilícita no sistema financeiro através de meios ligados à inovação tecnológica. Os avanços em relação à legislação de 2013 também incluem, no novo regime, e segundo a MDR Advogados, as primeiras disposições específicas aplicáveis aos fundos fiduciários (trusts) e outros centros de interesses colectivos sem

Colocação Introdução dos rendimentos ilícitos no sistema financeiro, repartindo grandes quantias em numerário por montantes menores e mais discretos, ou utilizando outros instrumentos monetários (cheques, transferências elecrónicas, ordens de pagamento, etc.). Layering O branqueador de capitais procede a uma série de conversões ou movimentos dos fundos para os distanciar da sua fonte. Pode incluir a compra e venda de instrumentos de investimento, ou a transferência de fundos através de uma série de contas em vários bancos. Integração Os fundos branqueados reentram na economia legítima. O branqueador de capitais pode investir-los em imóveis, bens de luxo ou empreendimentos comerciais. FONTE Tribunal de Contas Europeu

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NAÇÃO | BRANQUEAMENTO DE CAPITAIS

Casinos são potenciais alvos da acção dos criminosos para esconder a origem da riqueza ilícita

personalidade jurídica de natureza análoga, cujos beneficiários sejam definidos em função de características ou categorias específicas. Finalmente, e “de forma inovadora”, a Lei n.º 11/2022 determina que as instituições financeiras e entidades não financeiras devem assegurar a aplicação das Leis, dos regulamentos e das disposições moçambicanas, na medida em que a Lei do país estrangeiro o permita, sempre que os requisitos mínimos aplicáveis à prevenção e combate ao branqueamento de capitais, financiamento do terrorismo e financiamento da proliferação de armas de destruição em massa no país estrangeiro se mostrem menos rigorosos que os moçambicanos.

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Porquê sobrepor uma estratégia à Lei? Apesar de a própria Lei representar um importante avanço, recentemente o Conselho de Ministros aprovou a Estratégia de Combate ao Branqueamento de Capitais e Financiamento ao Terrorismo 2023-2024. Este instrumento vigorará em paralelo com a Lei que tem o mesmo objectivo. Porquê? Malik Amirali, director executivo da Ernst & Young, explica que a razão "está muito ligada ao fraco desempenho de Moçambique ao longo do tempo, que apresenta sempre poucos avanços nos indicadores avaliados pelo GAFI". Tal situação impõe, prossegue, "uma pressão adicional nos dias que correm." Uma viagem no tempo ajuda a entender melhor a gé-

nese desta pressão. O GAFI esteve no País em 2009 e, dois anos depois, emitiu um relatório de desempenho que, naturalmente, não era favorável. As autoridades reagiram com a aprovação da Lei de 2013. Em finais de 2019, o GAFI regressou a Moçambique com a mesma finalidade e só emitiu o relatório (igualmente desfavorável) em Junho de 2021 devido à pandemia de covid-19. A resposta, mais uma vez, foi a aprovação da nova Lei. Isto leva a concluir que a estratégia 2023-2024, agora aprovada pelo Conselho de Ministros, está muito ligada às conclusões desse relatório. É que nesse documento foram analisadas todas as componentes de desempenho, desde a legislação, o sector financeiro e todos os outros ligados ao risco de branwww.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


O QUE A LEI ESTABELECE? A nova Lei estabelece que haja acção sobre qualquer suspeita de operações relacionadas com o branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo, independentemente do valor envolvido. Mas há pontos específicos, dos quais a E&M destaca as seguintes: Avaliação do risco Comércio de veículos A instituição financeira ou a entidade não financeira deve efectuar um controlo rigoroso da oferta de produtos e serviços ou operações susceptíveis de favorecer o anonimato através de meios tecnológicos.

Vendedores e revendedores de veículos devem identificar os clientes e verificar a sua identidade sempre que recebam pagamentos em numerário. Por aqui também passa muito dinheiro ilegal.

Identificar, verificar e diligenciar

Abstenção Sempre que se constate que uma determinada operação evidencia fundada suspeita de constituir crime, a instituição financeira ou a entidade não financeira deve absterse de executar quaisquer operações relacionadas com o pedido do cliente.

A instituição financeira ou entidade não financeira deve identificar e rastrear o beneficiário efectivo sempre que se estabeleça uma relação de negócios ou transacções ocasionais iguais ou superiores a 900 mil meticais.

Recusa

Pessoas politicamente expostas Se as relações de negócio ou transacções ocasionais envolverem clientes que sejam politicamente expostos, é necessária a intervenção de um elemento da direcção de topo para aprovação dessas relações.

Sempre que haja incumprimento dos deveres de identificação e verificação, a instituição financeira deve recusar o estabelecimento de relação de negócio e transacção ocasional ou cessar a relação quando já tiver sido estabelecida.

Sector imobiliário

Casinos e jogos de diversão Devem identificar os seus clientes e verificar a sua identidade quando se trate de operações iguais ou superiores a 190 mil meticais. A regra vale também para os exploradores de jogos sociais com operações a partir dos 70 mil meticais.

queamento de capitais, incluindo o envolvimento do Governo e todas as entidades que têm poder de acção. “Isso é o que deu origem à estratégia, que visa prevenir que o sistema financeiro e o País seja usado como canal para a lavagem de dinheiro, o que tem graves consequências reputacionais”, explica o director-executivo da EY. Ter uma boa Lei não é suficiente… Tiago Arouca Mendes reconhece este facto, e arrola vários elementos que vão possibilitar a materialização do que está previsto na nova Lei. Começa por explicar que se impõe que a regulamentação da Lei n.º 11/2022 – que deverá ser aprovada até 180 dias após a sua entrada em vigor www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022

Metais preciosos e gemas

Os comerciantes de metais preciosos e gemas devem aferir a identidade dos clientes sempre que realizem operações em numerário de valor igual ou superior a 900 mil meticais.

– "seja robusta e adequada, e aprovada atempadamente, de modo a não render inefectivas as disposições da nova Lei." Ainda neste tema, as directrizes a serem aprovadas pelas autoridades competentes também contribuirão para determinar a marcha de implementação da nova Lei. “Noto que já foram aprovadas as directrizes e orientações para a prevenção e combate ao Branqueamento de Capitais, Financiamento do Terrorismo e Financiamento da Proliferação de Armas de Destruição em Massa (BC/FT/FP) no sector imobiliário, através do Despacho de 27/09/2022”, exemplifica, com satisfação. Outro aspecto que poderá ser determinante para a eficácia do novo regime são as Avaliações de Risco. Neste novo qua-

Nas operações relativas à compra e venda de imóveis, os agentes imobiliários devem identificar os intervenientes e informar a entidade reguladora do sector imobiliário sobre os montantes globais do negócio. FONTE Lei n.º 11/2022

dro legal, assumem especial importância a Avaliação Nacional do Risco e as avaliações de risco sectoriais, como também as avaliações a ser desenvolvidas pelas instituições financeiras e entidades não financeiras relativamente aos riscos de branqueamento de capitais, do financiamento do terrorismo e financiamento da proliferação de armas de destruição em massa a que estão expostas ao nível do cliente, da transacção e da instituição. Ainda neste âmbito, há um aspecto inovador que se prende com a gestão de risco na utilização de novas tecnologias: as entidades obrigadas devem identificar e avaliar os riscos que possam surgir em função da oferta de produtos e serviços, ou operações susceptíveis de favorecer o

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NAÇÃO | BRANQUEAMENTO DE CAPITAIS

"SITUAÇÃO MUITO PREOCUPANTE" À E&M, e de forma breve, o directoradjunto da Unidade de Inteligência Financeira no GIFiM, Amorim Bila, descreveu a situação do País como "muito preocupante". Faz menção à recente avaliação de risco nacional de branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo, que concluiu haver um elevado risco de crimes financeiros. “Corrupção, tráfico de drogas, fraude fiscal, crimes ambientais e rapto por resgate são as marcas que mostram que temos um mercado com muitos desafios." Bila acrescenta que o terrorismo em Cabo Delgado é também um sinal da fraca capacidade de fiscalização da origem dos fundos que alimentam a sua logística, embora se suspeite que o financiamento venha de fora, sobretudo a partir da Somália e da África do Sul, segundo o relatório do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

BdM tem sido implacável na fiscalização das instituições financeiras mas, para o GAFI, as deficiências do sistema estão no atraso na criação de regulamentação que previna riscos anonimato, do desenvolvimento de novos produtos, serviços, mecanismos de distribuição, métodos de pagamento e novas práticas comerciais e da utilização de novas tecnologias ou em fase de desenvolvimento, tanto para novos produtos e serviços como para produtos e serviços já existentes. Por fim, “um factor crítico é a colaboração e interligação de todas as autoridades competentes e entidades envolvidas." A título de exemplo, as informações sobre os beneficiários efectivos são registadas pela entidade competente pelo registo das Entidades Legais. Ou seja, será necessária uma plataforma implementada e devidamente actualizada, que permita canais abertos de comunicação entre as entidades competentes de forma a garantir quer o cumprimento de todas as obrigações por parte das entidades obrigadas, quer o controlo e supervisão por parte das autoridades competentes”, esclarece o managing partner da MDR Advogados. Malik Amirali, por seu turno, refere que “o regulador aumentou e apertou

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as regras. Portanto, está a fazer a sua parte para tornar o sistema mais seguro. Cabe aos bancos e às seguradoras garantir o cumprimento. Para isso, os reguladores de ambas as áreas (bancas e seguros) terão de supervisionar com maior intensidade e frequência para saber se estas entidades estão a cumprir, onde estão a ter dificuldades e porquê”. Pressão sobre os bancos O Banco de Moçambique está atento ao "dever de identificação e verificação de clientes” e à “vigilância contínua das relações de negócio", previstos na Lei contra o Branqueamento de Capitais e Financiamento ao Terrorismo. Ocorre que, muitas vezes, os bancos têm sido sancionados por irregularidades a este nível. Em 2019, 2021 e 2022 foram sancionadas várias instituições, desde bancos comerciais (incluindo os maiores do mercado) aos operadores de microfinanças, passando pelas sociedades financeiras. A E&M tentou ouvir a Associação Moçambicana de Bancos (AMB), mas até ao fe-

cho desta edição, a organização não se pronunciou. Mas a EY ajuda a entender o que acontece ao nível destas instituições. “Muitos bancos não têm capacidade interna para cumprir com todas as regras e, por outro lado, há a questão que ultrapassa a banca, e nem todos os países têm sistemas que permitem identificar o tipo de transacções que é preciso controlar." A maioria dos bancos grandes tem os sistemas com mais de 20 anos, mas o mundo continua a evoluir, e dada a dificuldade em identificar por onde começar, muitos destes bancos focam-se na base, que é na parte do onboarding e na monitoria. Contudo, há várias outras fases do ciclo de vida do cliente que é preciso acompanhar para perceber as alterações do seu perfil de risco”, explica Malik Amirali. O que o BM exige hoje é exactamente o que deve exigir: o cumprimento da Lei. Mas o branqueamento de capitais é dinâmico e exige clareza de processos, sistemas de controlo dinãmicos e quadros preparados para lidar com ele. A montante, o sistema financeiro acaba por cumprir as regras que existem e, a esse nível, como o GAFI confirmou a 21 de Outubro, há um enorme atraso na criação de regulamentos legais que tornem o sistema mais transparente e alinhado com as melhores práticas internacionais e, a esse nível, os principais prejudicados são os próprios bancos, e toda a economia nacional. www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022



OPINIÃO

Wilson Tomás • Research, Banco BIG Moçambique

Obrigações de Taxa Fixa vs Obrigações de Taxa Variável

U Nos mercados internacionais, a grande maioria das Obrigações emitidas são de Cupão Fixo, pois permitem que os investidores conheçam os CashFlows que esperam receber até a maturidade

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ma Obrigação é um instrumento financeiro de dívida, de maturidade superior a um ano, utilizado pelo emitente para se financiar no mercado de capitais. Os investidores que compram estes títulos estão a emprestar fundos ao emitente, que se compromete a pagar juros/cupões periódicos ao longo da vigência do título. Na maturidade, o emitente devolve o capital emprestado ao investidor. As entidades emitentes de Obrigações são, maioritariamente, o Estado, as instituições subnacionais e empresas públicas - sendo estas obrigações classificadas como públicas -, e as empresas privadas, que emitem obrigações corporativas. As Obrigações são também classificadas como investimentos de renda fixa, pois possuem regras de remuneração definidas no momento de aplicação e estipulam o prazo e a forma como a remuneração será calculada e paga ao investidor. Entidades emitentes que apresentem dificuldade em honrar os seus compromissos sofrem downgrades (deterioração da qualidade creditícia) e, caso não cumpram com os pagamentos, entram em Default (incumprimento). A remuneração periódica de uma Obrigação, dada pela Taxa de Cupão, pode apresentar diferentes tipologias consoante as preferências e expectativas dos emitentes. Os tipos de Cupão mais comuns são: o Variável, o Fixo e o Misto ou Híbrido. As Obrigações de Cupão Variável, apesar de terem um spread fixo, apresentam cupões que variam dependendo das condições do indexante – que geralmente altera com base nas condições pré-definidas nas condições da

Obrigação. Este indexante é representado por um activo ou conjunto de activos, que no caso de Moçambique tem utilizado normalmente a taxa dos Bilhetes do Tesouro (média ponderada das últimas seis emissões). A taxa anual de inflação também é um indexante utilizado, mas podem ser outros, como a valorização de uma acção, um índice accionista, um fundo, uma taxa de câmbios, etc. As Obrigações de Cupão Fixo apresentam a mesma Taxa de Cupão durante toda a vida útil da Obrigação, independentemente de alterações nas condições de mercado. As Obrigações de Taxa Mista ou Híbrida apresentam as duas características, tendo cupões fixos num determinado período e variável nos restantes períodos. Nos mercados internacionais, a grande maioria das Obrigações emitidas são de Cupão Fixo, pois permitem que os investidores conheçam os cash-flows que esperam receber até à maturidade, uma vez que as taxas dos cupões não alteram com as dinâmicas do mercado. O detentor de uma obrigação de taxa fixa pode prever exactamente qual será o retorno do seu investimento, desde que o emissor não entre em default ou accione uma opção de reembolso antecipado (call option). As mudanças nas taxas de juros de referência afectam, geralmente, todas as taxas de juros na economia, mas os cupões destas obrigações são indiferentes a estas mudanças e às de outras variáveis macroeconómicas. O Departamento do Tesouro do Ministério da Economia e Finanças de Moçambique emitiu entre 2019 e 2021, maioritariamente, Obrigações de Taxa Variável, motivado por um cenário de queda dos principais indicadores macroeconómicos, como a inflação que atingiu níveis muito baixos historicawww.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


mente, as taxas de juros directoras e taxa de câmbio do metical. Em 2022, o Tesouro alterou a sua preferência e passou a priorizar a emissão de Obrigações de Taxa Fixa, tendo até ao mês de Setembro colocado no Mercado Primário quase 72% do total

mais concretamente, o risco das taxas de títulos de risco semelhantes aumentar, pois fará com que os títulos existentes em carteira dos investidores percam valor. Exemplificando um pouco para ajudar a compreender: os investidores

emitido nesta tipologia de obrigações. O rácio de procura/oferta das Obrigações de Cupão Fixo, em 2022, tem estado acima dos 100%, evidenciando a preferência dos investidores por estas condições. O principal risco de deter Obrigações de Taxa Fixa é o da taxa de juro ou,

compram títulos com uma taxa de retorno de 15%, mas posteriormente as taxas de juros no mercado sobem para 17%. Isto significa que as novas obrigações serão emitidas a uma taxa de retorno de 17%, fazendo com que as obrigações anteriormente adquiridas a 15% passem a valer menos – existe uma rela-

www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022

ção inversa entre o preço de uma obrigação e as taxas de juros. Se o investidor quiser vender as suas obrigações de 15% para reinvestir os recursos nos novos títulos de 17%, ele irá vender abaixo do preço de compra inicial, porque o valor de mercado do título terá reduzido. Quanto maior a maturidade das Obrigações de Taxa Fixa, maior o risco da taxa de juro a que elas estão sujeitas. No caso contrário, de queda das taxas de juro, o resultado será o oposto, isto é, se as taxas de juros das obrigações de igual risco caírem para 13%, as obrigações que pagam 15% irão valorizar no mercado. Nas Obrigações de Cupão Variável, esta relação não acontece com tanta amplitude, pois os Cupões ajustam para as condições de mercado, na data de reset dos meses. Um investidor deve estar atento às dinâmicas do mercado, no sentido de tentar antecipar qual será a evolução das taxas de juros, uma vez que isso pode ditar qual o momento ideal para comprar uma Obrigação de Taxa Fixa. Quando a expectativa for de subida de taxas, deve privilegiar-se o investimento em Obrigações de Cupão Variável, e quando a expectativa for de queda, os melhores títulos para investir serão as Obrigações de Cupão Fixo.

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NAÇÃO | BRANQUEAMENTO DE CAPITAIS

“É Bom Defender o Mercado Antes das Receitas dos Megaprojectos” O FMI é, a par do Banco Mundial, dos parceiros internacionais que estão a apoiar o esforço do Governo no aprimoramento dos mecanismos de combate à lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo. Alexis Meyer-Cirkel, representante do FMI, ajuda-nos a olhar para esta questão de fora para dentro Texto Celso Chambisso • Fotografia Mariano Silva

O

Fundo Monetário Internacional (FMI) está “optimista” quanto ao sucesso das medidas que estão a ser tomadas para atacar as fragilidades do mercado. Atribui mérito ao facto de tais procedimentos anteciparem os fluxos de receitas que se esperam pela porta das exportações de recursos naturais, principalmente o gás, por entender que o “aquecer da actividade económica pode criar apetência” para o agudizar dos actos de lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo. Em que medida o elevado risco de circulação de dinheiro de origem ilícita no mercado pode prejudicar as relações entre Moçambique e o FMI? O Governo de Moçambique e o FMI estão a trabalhar em conjunto para desenvolver políticas relativas a fundos ilícitos. Como parte de seu mandato para garantir a estabilidade do sistema monetário internacional, o Fundo trabalha para lidar com fluxos ilícitos ajudando a moldar políticas domésticas e internacionais para fortalecer o combate à Lavagem e Branqueamento de Capitais, ao Financiamento do Terrorismo LBC/CFT

e à governança. No caso de Moçambique, congratulamos a recente aprovação de emendas às leis LBC e CFT, e os esforços significativos que estão a ser feitos para aumentar a capacidade de aplicação e implementação. Essas políticas fazem parte da agenda de reformas do Governo que o FMI está a apoiar com o programa Enhanced Credit Facility (ECF). Quais são os reais riscos de o mercado moçambicano cair no descrédito dos potenciais investidores e parceiros e que exemplos há pelo mundo de países ou regiões onde elevados índices de lavagem de dinheiro prejudicaram a estabilidade socioeconómica? É importante reconhecer que os fluxos financeiros ilícitos são um problema internacional, afectando em maior ou menor medida todas as regiões e países. Os fluxos financeiros ilícitos podem ter um impacto na estabilidade económica de um país e no sistema financeiro global mais amplo. Por exemplo, eles podem drenar reservas de divisas, encorajar mais actividades criminosas e minar o Estado de direito e a estabilidade política de um país. A preocupação de que um país seja vulnerável a fluxos financeiros ilícitos

“A preocupação de que um país seja vulnerável também pode tornar mais difícil e caro para as suas instituições financeiras e empresas fazerem negócios internacionalmente”

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também pode tornar mais difícil e caro para suas instituições financeiras e empresas fazerem negócios internacionalmente, o que pode afectar potencialmente o comércio e o desenvolvimento. O Banco Central está atento às irregularidades cometidas pelos bancos comerciais e vai aplicando sanções. Isso aconteceu por duas ocasiões, uma das quais há poucos dias. O FMI acredita que a postura do Banco Central vai produzir impacto na confiança dos parceiros e investidores em relação ao sistema financeiro nacional? O Banco de Moçambique toma medidas de execução como parte do seu mandato enquanto supervisor do sistema financeiro, incluindo em LBC/CFT, na medida em que as entidades supervisionadas estejam envolvidas. Uma supervisão e regulamentação financeiras sólidas e instituições financeiras fortes, que não sejam vulneráveis www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


COMO ESTAMOS? Dados do Gabinete de Informação Financeira de Moçambique (GIFiM) mostram os sectores por onde se movem os crimes de lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo, e o quanto cada um deles é vulnerável

Nível de ameaça

Vulnerabilidade Risco

Alto

Médio

Médio-alto

Valores mobiliários

Baixo

Média-baixa

Médio-baixo

Seguros

Médio

Média

Médio-alto

Casas de Câmbio

Alto

Média

Médio-alto

Casinos

Alto

Alta

Alto

Imobiliário

Alto

Alta

Alto

Pedras e metais preciosos

Alto

Alta

Alto

Ambiente (fauna e flora)

Alto

Alta

Alto

Banca

FONTE Relatório da Avaliação Nacional dos Riscos de Branqueamento de Capitais e de Financiamento do Terrorismo, Março 2022

a fluxos financeiros ilícitos, são um elemento-chave da estabilidade financeira – e, portanto, da confiança e estabilidade económica – em todas as economias. Por um lado, os bancos querem desburocratizar o sistema para facilitar as transacções e, por outro, existe a necessidade de estarem atentos aos procedimentos previstos na lei, incluindo a averiguação da origem dos capitais transaccionados. Não haverá algum conflito entre estes dois objectivos? Como resolver esta questão? Um elemento-chave na protecção do sistema financeiro é o conceito de “conheça o seu cliente” – quem são os beneficiários das transacções financeiras realizadas? Este é, ao mesmo tempo, um padrão razoável para solicitar a protecção da integridade do sistema financeiro, e não necessariamente um padrão de informação administrativamente oneroso www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022

para solicitar. Por exemplo, uma lei recentemente aprovada em Moçambique simplifica os requisitos para o estabelecimento de contas bancárias, reduzindo os encargos administrativos, mas mantendo os elementos essenciais de conhecimento sobre os seus clientes que os bancos precisam de ter. Um elemento chave no quadro é saber quem são os indivíduos – os “proprietários efectivos” – das empresas, e as autoridades moçambicanas estão a trabalhar na actualização da informação disponível sobre este assunto. Em última análise, esses requisitos visam reduzir o escopo da corrupção e do abuso do sistema financeiro, para os quais há uma forte demanda entre as populações de todo o mundo. Moçambique vai experimentar um crescimento considerável do nível de actividade económica nos próximos anos, principalmente dinamizada pe-

la indústria do gás. Essa dinâmica geralmente propicia o aumento do fluxo financeiro que pode facilitar a circulação de dinheiro de origem ilícita no sistema. Como lidar com este fenómeno? Os elementos para proteger a integridade financeira podem variar em escala e sofisticação à medida que os fluxos de capital e o sector financeiro crescem, mas os princípios-chave permanecem os mesmos. O Governo está a implementar uma extensa agenda de reformas para fortalecer a governança, reduzir vulnerabilidades à corrupção e fluxos financeiros ilícitos, inclusive com a implementação de um plano de acção LBC/CFT. Que essas medidas estejam a ser tomadas agora, bem antes de os fluxos de exportação e receita de projectos de investimento se tornarem muito grandes, é importante e apoia a integridade financeira.

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NAÇÃO | BRANQUEAMENTO DE CAPITAIS

Luta à Escala Global Não há ricos nem pobres quando se está diante do desafio do combate ao branqueamento de capitais e financiamento ao terrorismo. Este é um dos poucos aspectos em relação aos quais o mundo não se encontra, de facto, fragmentado, o que torna quase comuns os desafios a enfrentar Texto Celso Chambisso • Fotografia D.R

M

alik Amirali, director-executivo da consultora Ernst & Young e especialista em assuntos relacionados com este tema, baseando-se na experiência e conhecimento dos mercados globais, esclareceu à E&M que, apesar de cada país apresentar as suas particularidades quanto às oportunidades para os criminosos fazerem circular dinheiro ilícito, todos têm em comum a possibilidade de serem alvo do fenómeno. Ou seja, há mercados tão grandes e desenvolvidos que, por causa desse aspecto, criam condições para que a lavagem de dinheiro acabe passando despercebida, sendo, por isso, atractivos ao fenómeno bem como aos crimes ligados ao financiamento do terrorismo. Mas existe o outro extremo, de mercados em desenvolvimento, entretanto fechados o suficiente para facilitar o controlo de práticas ilícitas, acabando por ser pouco atractivos. Para argumentar, Malik Amirali apresentou o exemplo da Dinamarca, que nunca esteve na lista de países suspeitos de serem propensos ao branqueamento de capitais, mas que, recentemente, veio a provar-se que parte dos bancos do seu sistema financeiro não seguiam qualquer regra de controlo. Também são exemplo os Estados Unidos e o Reino Unido, entre outros países, que reportam inúmeros casos nos seus relatórios. Esta visão é confirmada por um relatório do Tribunal de Contas Europeu, publicado no ano passado, e que conclui que “os esforços da União Europeia (UE) para combater o branqueamento de capitais no sector bancário são fragmentados e a aplicação é insuficiente”. O que se passa no velho continente? A Europol estima que o valor das operações suspeitas se situe nas centenas de milhares de milhões de euros – o equivalente a 1,3% do Produto Interno Bruto (PIB) da UE. Ao nível internacional, estima-se que represente 3% do PIB.

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A UE adoptou a sua primeira directiva relativa ao branqueamento de capitais em 1991, actualizando-a em 2018 para combater ameaças ao mercado interno decorrentes do branqueamento de capitais e, subsequentemente, prevenir o financiamento do terrorismo. Vários organismos da UE também intervêm neste domínio. A Comissão Europeia desenvolve políticas, acompanha a sua transposição e executa análises de risco. A Autoridade Bancária Europeia (EBA) executa análises, investiga violações da legislação da União e estabelece normas pormenorizadas para utilização pelos supervisores e pelo sector. Em 2020, o mandato jurídico e os poderes da EBA relativamente ao anti-branqueamento de capitais e ao combate ao financiamento do terrorismo (ABC/CFT) foram substancialmente alargados. O Banco Central Europeu (BCE) tem em conta o risco de branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo (BC/FT) na supervisão prudencial dos bancos na área do euro e, desde 2019, partilha informações pertinentes e necessárias em matéria ABC/ CFT com os supervisores nacionais. Tendo em conta a importância da política da UE neste domínio e a actual inclinação reformista, o Tribunal de Contas Europeu decidiu auditar aspectos da eficiência e eficácia desta política. E o que encontrou? Falhas de coordenação Globalmente, o Tribunal observou uma fragmentação institucional e uma coordenação deficiente ao nível da UE no que diz respeito às acções para prevenir o branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo e responder aos riscos assinalados. Na prática, a supervisão ABC/CFT ainda ocorre ao nível dos países, sendo o quadro de controlo da UE insuficiente para garantir condições equitativas. A Comissão Europeia é obrigada a publicar uma lista de países não pertencentes à UE, os chamados “países tercei-

ros”, que constituem uma ameaça para o mercado interno em termos de branqueamento de capitais. O Tribunal observou lacunas em relação à comunicação com tais países da lista, bem como a falta de cooperação por parte do Serviço Europeu para a Acção Externa. Além disso, a Comissão também realiza, de dois em dois anos, uma avaliação dos riscos para o mercado interno e essa avaliação não indica alterações ao longo do tempo, carece de incidência geográfica e não hierarquiza eficazmente os riscos. Mais ainda: o pessoal da Autoridade Bancária Europeia realizou investigações exaustivas sobre potenciais violações da legislação da União, mas o Tribunal encontrou provas de pressão sobre o seu Conselho de Supervisores (CS), que participava num processo de deliberação. Por fim, como resultado destas fragilidades, o Tribunal de Contas Europeu admite, que “tendo em conta o elevado nível de integração transwww.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


O Tribunal de Contas Europeu observou uma fragmentação institucional e uma coordenação deficiente ao nível da UE no que diz respeito às acções para prevenir o branqueamento de capitais

fronteiras no sector bancário da UE, as deficiências da actual concepção e aplicação do quadro da UE em matéria de ABC/CFT representam riscos para a integridade do mercado financeiro e para a confiança do público”. Os problemas de África A maior parte do que acontece no continente é reportado pelo Grupo de Combate ao Branqueamento de Capitais da África Oriental e Austral (ESAAMLG) – um organismo regional criado em 1999, que subscreve as normas globais para o www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022

efeito e que inclui 19 membros, entre os quais Moçambique. Outra entidade de relevo é o Grupo Intergovernamental de Acção contra o Branqueamento de Capitais em África (GIABA), criado no ano 2000 pela Autoridade dos Chefes de Estados e Governos da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO). Ambas as organizações lutam, mas enfrentam problemas semelhantes (ou até piores) aos reportados na Europa. Basta olhar não só para o elevado registo dos episódios de lavagem de dinheiro,

mas também para o rápido alastramento do terrorismo em grande parte dos países que integram essas regiões, incluindo Moçambique, para perceber o quanto o continente é desafiado a aprimorar os mecanismos de controlo e combate. Progressos diluídos em dificuldades Na Etiópia, país com um longo histórico de terrorismo, as leis, uma vez publicadas, tornam-se acessíveis ao público. O processo de criação de pessoas jurídicas (organizações empresariais) pode, em certa medida, ser acessado no site do Ministério do Comércio, embora este não contenha toda a informação capaz de tornar este subsector eficaz na resposta que se pretende dar ao branqueamento de capitais e combate ao terrorismo. Um ponto positivo destacado pela ESAAMLG é que a Etiópia tem um mecanismo para monitorar a qualidade da assistência que recebe de outros países em

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Se o terrorismo cresce e se expande pelo mundo, incluindo em Moçambique, é porque a sua logística é alimentada. Por isso, a estratégia de vigilância passou a inclui-lo nesta luta resposta a pedidos de informações básicas e de propriedade efectiva ou pedidos de assistência na localização de beneficiários efectivos de residentes no estrangeiro. Em geral, este país apresenta progressos significativos na abordagem das deficiências na conformidade técnica identificada e está no bom caminho. A Zâmbia é também tida como um país que progride na abordagem de algumas das conformidades técnicas, mas “não é suficiente para justificar uma actualização e, portanto, não deve ser reclassificado devido às deficiências moderadas que ainda prevalecem”, nomeadamente no mecanismo de supervisão que é imputado ao sector financeiro. No Zimbabué, as autoridades competentes emitiram diretrizes relevantes para continuar a fornecer um feedback, que visa auxiliar as instituições financeiras na aplicação de medidas de combate ao branqueamento de capitais e financiamento ao terrorismo, em particular na detecção e relato de transacções suspeitas. “No entanto, não há orientações

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específicas do sector nesse sentido”, segundo a ESAAMLG. Por isso, a task force da organização determinou que o Zimbabué não fez progressos suficientes na abordagem das deficiências identificadas para justificar uma evolução na sua classificação global, que não é das melhores. Na África do Sul, o país mais industrializado do continente, as principais ameaças de crime doméstico de lavagem de dinheiro são consistentemente entendidas pelas autoridades, mas o entendimento da possibilidade desses crimes virem de fora é limitado, assim como a compreensão dos riscos de financiamento do terrorismo é pouco desenvolvida e desigual. Uma das constatações relevantes é o facto de o país ter sofrido um período sustentado de “captura do Estado”, que ajudou a gerar receitas substanciais de corrupção e minou agências com papéis importantes para combater tal actividade. Reconhece-se, no entanto, que iniciativas governamentais de 2018/19, que

incluem a substituição do pessoal-chave e o aumento dos recursos na aplicação da lei e agências judiciárias, começavam a trazer resultados encorajadores. Mas o Centro de Inteligência Financeira (FIC), entidade que ajuda a investigar crimes e rastrear activos de proveniência ilícita, não tem habilitações nem recursos para actuar proactivamente. Assim, a África do Sul é vista com uma economia onde o volume e intensidade de crimes são relativamente altos. Na Tanzânia, as autoridades realizaram a Avaliação Nacional de Risco em 2015 e 2016, que estabeleceu que um percentual significativo de produtos criminais provém de dentro, principalmente dos crimes de corrupção, evasão fiscal, tráfico de drogas, falsificação de mercadorias, mineração ilegal e comércio ilegal de metais e pedras preciosas, caça furtiva e negociação ilegal de troféus do Governo. Tendo em conta a sua posição geográfica e ligações comerciais com países vizinhos, o país também está exposto à ameaça estrangeira decorrente do contrabando de mercadorias, tráfico de drogas, tráfico de seres humanos e os produtos do crime são suspeitos de serem canalizados através da indústria hoteleira e do sector imobiliário. A Tanzânia é igualmente usada como rota de trânsito de drogas de e para a Ásia, América Latina, Europa e toda a África Austral. www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022



CEO TALKS | BIOFUND

Uma Década de Investimento na Conservação da Biodiversidade A criação da Fundação para a Conservação da Biodiversidade, BIOFUND, em finais de 2011 – o primeiro fundo ambiental privado no País – ofereceu uma perspectiva inovadora de financiamento ao sector da conservação. Hoje, a completar dez anos de uma luta que vale a pena, o meio (ambiente) continua a ser o fim Texto Celso Chambisso • Fotografia Istock Photo

A

BIOFUND introduziu no mercado uma concepção de investimento “fora-da-caixa” no que diz respeito à mobilização de recursos e ao investimento na conservação da biodiversidade. E acrescentou um reforço em recursos humanos e capacidade técnica dedicada ao sector da conservação, uma mais-valia que se traduz também no reforço da capacitação técnica das áreas da conservação e algumas instituições parceiras. Ao celebrar uma década de existência, a organização reporta um conjunto de realizações com impacto transformador e a diversos níveis, graças à forma inovadora de mobilização de financiamento e de direccionar as suas prioridades de investimento. O sucesso alcançado na diversificação de fontes de financiamento foi resultado

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da adopção de procedimentos transparentes, eficazes e eficientes, aprovados pelos doadores para garantir processos de desembolso e reporting, que permitiram um apoio constante, rápido e fluido, directamente gerido pelos beneficiários. Este factor levou ao desenvolvimento e fortalecimento da capacidade administrativa e financeira destes, permitindo a consolidação da missão da BIOFUND como mecanismo preferencial para o financiamento à conservação no País. O impacto do Endowment e investimento de longo prazo Uma das mais importantes apostas da BIOFUND é o capital investido a longo prazo, ou Endowment, criado em 2014 com a doação inicial de dez milhões de dólares efectuada pela Cooperação Alemã via KfW, seguida pelas doa-

ções da Conservation International (um milhão de dólares) e do GEF (3,2 milhões de dólares, através do Banco Mundial). O Endowment alcançou, em 2021, um valor de mercado de cerca de 58 milhões de dólares, o que tornou a BIOFUND detentora de um dos fundos ambientais africanos com maior volume a este nível. Parte destes rendimentos tem sido alocada, desde 2016, a projectos próprios da Fundação, nomeadamente o Abelha, com 20% do orçamento –, que foi crucial para o desenho e estabelecimento inicial de procedimentos administrativos e financeiros –, Áreas Sem Apoio (ASA), Pós-Abelha e BIO-Fundo de Emergência, que permitiu uma resposta rápida à falta de receitas durante a pandemia do covid-19 para suportar salários de mais de 600 fiscais e custos operacionais em 26 áreas de conservação. www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


INVESTIMENTOS A CRESCER… O Endowment, que representa o investimento de longo prazo nas áreas de conservação, não pára de crescer Em milhões de dólares

2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020 2021 2022

10,6 14,4 21,2 24,7 32,5 37,2 41,1 57,9 46,9

... TAL COMO OS DESEMBOLSOS AOS BENEFICIÁRIOS Desde 2016, a BIOFUND desembolsou cerca de 16 M$, correspondentes a um terço de custos operacionais totais de 31 áreas de conservação sob gestão pública

• Primeiro Semestre FONTE BIOFUND

doadores para os esforços de conservação, e tem, actualmente, uma carteira de projectos de mais de 60 milhões de dólares em execução, e mais um valor equivalente (ou acima desse) já em negociação para novos projectos de grande envergadura para os próximos anos. Entre as realizações mais relevantes, o destaque vai, igualmente, para o estabelecimento, em 2017, de uma parceria com o Banco Comercial e de Investimento (BCI), através da criação do Cartão Bio, que tem angariado anualmente cada vez mais fundos provenientes da anuidade dos cartões (actualmente com mais de 30 mil usuários) direccionados para a protecção de espécies e habitats ameaçados no País. “Desde 2019 que canalizamos recursos para projectos neste âmbito, nomeadamente a protecção de rinocerontes no Sábiè Game Park, e a protecção

fissionais, correspondentes a 20% da execução global do projecto. No que diz respeito à sensibilização da sociedade civil, entre 2015 e 2019, foi realizada a exposição itinerária da biodiversidade em cinco capitais provinciais, tendo alcançado um público de mais de 15 mil pessoas. “Continuámos a realizar acções de educação ambiental para a sociedade civil, tendo alcançado, até à data, mais de 39 mil pessoas de diferentes faixas etárias”, esclarece a Fundação. Está, ainda, a participar no projecto de elaboração de uma base de dados de conhecimento com utilidade pública, a biblioteca virtual e a plataforma das áreas de conservação, que irá disponibilizar informação sobre espécies e ecossistemas. Desde a sua criação, a biblioteca virtual conta com cerca de 2 500 itens e mais de 4 200 acessos.

2016 2017 2018 2019 2020 2021

0,15 | 0,15 0,20 | 1,04 | 1,25 0,20 | 2,89 | 3,09 0,84 | 4,08 | 4,92 1,45 | 5,70 | 7,15 2,52

10,21

2022• 2,92

12,88

Fundo de Terceiros

www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022

Criação de ambiente favorável A década da BIOFUND em Moçambique é marcada por inúmeras outras realizações, com destaque para o Programa de Liderança para a Conservação de Moçambique (PLCM), criado em 2019, inicialmente financiado pelo Banco Mundial, e que tem sido um mecanismo de promoção e angariação de capacidade técnica no Sistema Nacional das Áreas de Conservação. Desde a sua criação, o PLCM já desembolsou mais de 200 mil dólares para o programa de estágios pré-pro-

Uma das mais importantes apostas da organização é o capital investido a longo prazo, o Endowment, criado em 2014 com a doação inicial de 10 milhões de dólares feita pela Cooperação Alemã via KfW

Em milhões de dólares

Mais investimentos na conservação Em 2016, a BIOFUND iniciou o programa de desembolsos com uma área de conservação beneficiária, o Parque Nacional do Limpopo. Rapidamente, nos anos seguintes, fomentou o crescimento do número de beneficiários e canalizou, até 2021, mais de 12 milhões de dólares, cobrindo um terço dos custos operacionais globais não salariais das áreas de conservação beneficiárias, que apoiaram actividades operacionais de gestão (maioritariamente fiscalização) em 31 áreas de conservação sob gestão pública, privada e comunitária distribuídas ao longo de todo o território nacional e ocupando mais de 60% da área total protegida no País. A Fundação reportou também um crescimento substancial na sua capacidade de canalização de fundos de diversos

da Raphia Australis na Reserva Botânica de Bobole”, refere a BIOFUND no relatório de balanço. Paralelamente, “assegurámos postos de emprego durante 18 meses a cerca de mil fiscais, através da criação do projecto de resposta à emergência do covid-19 - o BIO-Fundo de Emergência -, beneficiando, pela primeira vez, 11 áreas de conservação de gestão privada, para além das 15 de gestão pública e comunitária”, avança o documento.

12,73 15,80 Fundo de endowment

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CEO TALKS | BIOFUND

“Queremos Criar as Bases para Uma Melhor Conservação da Biodiversidade” O mundo está cada vez mais ciente da importância da preservação da biodiversidade, essencial para existência e conservação de todas as espécies... incluindo o próprio Homem. Em Moçambique, o caminho ainda é longo mas esse objectivo está, hoje, mais próximo. Luís Bernardo Honwana, director-executivo da BIOFUND faz um balanço de uma década de luta pela Conservação no País Texto Hermenegildo Langa • Fotografia Mariano Silva & Istock Photo Photo

A

biodiversidade diz respeito à variedade de formas vivas que existem no Planeta, dos micro-organismos às grandes plantas e animais, organizados em ecossistemas que garantem equilíbrio, harmonia e riqueza natural. A biodiversidade é extremamente vasta e essencial para o equilíbrio do ambiente mas, ainda assim, o Homem é o grande responsável pela sua destruição. Foi em reconhecimento da sua importância que a BIOFUND surgiu em Moçambique, há dez anos, para consciencializar a sociedade sobre a urgência da valorização e conservação da biodiversidade. À E&M, Luís Bernardo Honwana, director-executivo da BIOFUND, passa em revista os principais momentos desta década de defesa do meio, sem deixar de olhar para os fins, que no caso, são os princípios de tudo: a conservação da biodiversidade é, hoje, inadiável. Como resumiria esta década de actuação da BIOFUND no País? A BIOFUND é um fundo ambiental que funciona de acordo com um modelo internacional que tem tido muito sucesso, por exemplo, na América Latina, e que agora se expande pelo continente africano e também pela Ásia. E assim começa a ser aceite como a norma pa-

ra o financiamento da conservação. Basicamente, consiste num fundo de investimento, aplicado internacionalmente no mercado financeiro através de um gestor independente recrutado por meio de um processo aberto e transparente, e que se utiliza para realizar acções de apoio à conservação. No caso da BIOFUND, o nosso pacote financeiro, neste momento, ascende a 60 milhões de dólares que são investidos no mercado financeiro, e uma parte dos resultados desses investimentos entra no País para apoiar os projectos que financiamos. Disse uma parte porque apenas fazemos a solicitação de fundos à medida que necessitamos deles, pois as nossas reservas estão constituídas no exterior e, para os utilizarmos, somos autorizados pelo Banco de Moçambique e pelo Ministério da Economia e Finanças, que também controla o processo de entrada dos dividendos desse investimento. Essencialmente, nesta fase, estamos a apoiar o sistema nacional das áreas de conservação, mas também apoiamos muitos projectos fora delas, porque a nossa acção de proteger a biodiversidade não se esgota naquelas áreas que estão protegidas por lei. Portanto, de forma crescente, temos projectos que cobrem diferentes aspectos da biodiversidade e ajudam a difundir a consciência ambiental.

“A nossa responsabilidade é apoiar ou financiar uma parte daquilo que é necessário para se fazer a gestão da conservação correctamente. Ou seja, secundamos o Estado”

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Quer dizer que a BIOFUND cobre múltiplos aspectos de conservação onde se inclui também a área de transmissão do conhecimento. Em que medida é isso importante? A nossa preocupação essencial é a da conservação da biodiversidade. Nesta perspectiva, apoiamos as áreas de conservação que o Estado definiu como as que devem ser protegidas das actividades que possam prejudicar a biodiversidade, mas também as áreas exteriores a essas zonas de conservação. Preocupámo-nos também em ajudar a difundir a chamada consciência ambiental e, estrategicamente, actuamos em conjunto com a Administração Nacional das Áreas de Conservação (ANAC) e o sistema de educação. www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


ça aqui é o modo como os esforços de conservação são levados a cabo. No caso de Moçambique, e em muitos países em vias de desenvolvimento, os custos de conservação são elevados e competem no bolo orçamental com outras questões que também são prioritárias. A comunidade internacional que vem ajudando os países em desenvolvimento nessa actividade viu que isso não era satisfatório e foi assim que saímos com esta fórmula dos fundos ambientais, na qual, em vez de o apoio à conservação ser feito projecto a projecto, faz-se com recurso a um fundo de investimento. Desta forma, os países ficam menos dependentes deste apoio pontual que vem dos parceiros internacionais e passam a controlar por si sós os instrumentos de financiamento à conservação. Moçambique optou por um fundo de financiamento que é privado, portanto, somos uma fundação privada e trabalhamos para um fim público. E temos o reconhecimento por parte Estado como instituição de utilidade pública.

Por exemplo, o Programa de Liderança para a Conservação de Moçambique (PLCM) traduz-se numa visão de longo termo da conservação, implicando várias áreas do saber, visando contribuir para a transformação do sector num pólo de desenvolvimento económico do País. O PLCM enquadra-se no terceiro pilar estratégico da BIOFUND, pela criação de um ambiente favorável para a conservação em Moçambique. O programa tem como objectivos elevar a capacidade e habilidades dos profissionais do Sistema Nacional das Áreas de Conservação (SNAC), motivar a atracção de jovens qualificados para o sistema de conservação e atrair o público em geral para a rede da comunidade de conservação. Desde a sua criação, em www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022

2019, o PLCM já beneficiou 142 jovens em programas de estágios, bolsas de estudos e subvenções de pesquisa, 50 profissionais do Sistema Nacional das Áreas de Conservação e alcançou 13 236 pessoas em eventos de sensibilização e educação ambiental. A preocupação com biodiversidade é recente no País. Qual é o papel da BIOFUND nessa mudança? Essa é uma responsabiliade da ANAC que se complementa com o trabalho da BIOFUND. Sempre existiu a atitude de proteger o meio ambiente no nosso País, já desde o tempo colonial. Por exemplo, a questão da protecção do Parque Nacional da Gorongosa já vinha sendo respeitada desde o passado. A diferen-

Quais são, hoje, os grandes desafios que se colocam à BIOFUND no curto, médio e longo prazos? O grande desafio passa pelo facto de os recursos que angariamos ainda serem insuficientes para garantir a conservação global da biodiversidade. À medida que cresce a consciência ambiental, a conservação da biodiversidade já não é uma questão acessória, mas sim fundamental e estratégica. Para um país como Moçambique que está na zona geográfica onde há ocorrência de incidentes climáticos graves, é fácil compreender a importância da conservação da biodiversidade. Por outro lado, tem de existir uma estratégia capaz de utilizar esses recursos. Ou seja, não faz sentido tentar conservar a floresta quando, por exemplo, ocorrem, numa grande oposição, factos que são atentatórios à integridade da mesma floresta. Neste sentido, tem de haver apoio por parte das estruturas que zelam por esses bens naturais à medida que se investe na conservação. Qual é a vossa interacção com as instituições públicas nos projectos? A BIOFUND não faz a gestão das áreas de conservação é preciso sublinhar esse facto. A nossa responsabilidade é apoiar ou financiar uma parte daquilo que é necessário para se fazer essa gestão de uma maneira correcta. Ou seja, secundamos o Estado. Naturalmente, este cobre a maior parte dos custos, embora o nosso espaço de actuação seja cada vez maior.

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É o número total dos projectos desenvolvidos nas várias áreas desde 2016, sendo que 26 estão ainda em curso

Olhando para o estágio de conservação da biodiversidade qual é o principal desafio que Moçambique tem pela frente? O grande desafio tem que ver com o sub-desenvolvimento. Essas questões da caça furtiva, do desflorestamento, etc., são problemas do nosso sub-desenvolvimento. Ainda não somos capazes de controlar todos os nossos recursos, utilizando-os de forma racional e sustentável. O desenvolvimento é que nos vai levar a este patamar. Mas temos de fazer um esforço no sentido de trazer para Moçambique as experiências internacionais que sejam relevantes e, muito rapidamente, conseguirmos chegar a este estágio. Tendo em conta que existem, em África, alguns bons exemplos a seguir, caso do Ruanda, por exemplo, como é que a BIOFUND tem também olhado para esses exemplos? Olhamos com atenção para esses bons exemplos e procuramos trazê-los para as nossas áreas de conservação e estamos a fazer tudo isso juntamente com os nossos parceiros. Por exemplo, tradicionalmente a questão da conservação da biodiversidade é incompatível com a ocupação humana. Isto é feito um pouco como na tradição europeia, mas são modelos que co-

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meçam a ser contestados, por exemplo, quando se considera a forma dispersa como a maior parte do continente africano ocupa a terra – que significa que não é fácil encontrar extensões de território que não tenham população enquanto levamos a cabo os esforços de conservação. No entanto, o facto de, em África, prevalecerem ainda várias espécies já desaparecidas nos outros continentes diz qualquer coisa quanto à forma como nós, africanos, encarámos a Natureza ao longo da História. Ou seja, a conservação é algo que, à nossa maneira, soubemos fazer. Mas temos de nos esforçar ainda mais para adoptar uma atitude um pouco diferente e olhar, ainda mais, a relação entre o Homem e a Natureza. Que projectos desenvolvidos ao longo destes dez anos destacaria? Posso citar o Moz Bio, uma iniciativa financiada pelo Banco Mundial em que através deste projecto a BIOFUND beneficiou de apoio institucional, primeiro, mas muito rapidamente também nos tornámos agentes de canalização de fundos de conservação. Neste momento podemos dizer que somos, talvez, o agente preferencial de canalização de fundos para a conservação em Moçambique. E não só nos projectos do Banco Mundial, como nos de todos os grandes par-

ceiros e investidores na área de conservação. Depois do Moz Bio 1 tivemos o Moz Bio 2. Depois, neste momento, temos um projecto da União Europeia, o PROMOVE Biodiversidade, no Norte do País, sobretudo na zona costeira. Temos também apoio da Agência Francesa de Desenvolvimento, e muitas actividades configuradas em projectos que são financiados pelo KfW da Alemanha. E também trabalhamos com a USAID e com fundações privadas que operam no País. Todos os projectos a que me referi estão ainda em curso, sendo que alguns poderão arrancar no próximo ano. Por exemplo estamos envolvidos em negociações com Millennium Chalenge Corporation (MCC) no sentido de a BIOFUND vir a interferir neste compacto. E conseguiram que a conservação do ambiente entrasse também na agenda política e do Governo enquanto força motriz de desenvolvimento. Isso era fundamental para que a conservação fosse, de facto, olhada de outra forma no País? Sem dúvidas. Existe já a consciência de que temos de assegurar a preservação da biodiversidade ao mesmo tempo que cuidamos do nosso desenvolvimento. Os “Contrabalanços de Biodiversidade” é uma das experiências que estamos a tentar trazer para Moçambique. Trata-se do esforço que os Estados devem fazer para garantir que o desenvolvimento não se oponha à conservação. E isso faz-se do seguinte modo: sempre que há um projecto de desenvolvimento que afecte a conservação, é necessário que aquilo que o projecto destrua seja reposto numa zona contígua. Actualmente, nos mercados internacionais, há agências que emprestam dinheiro para grandes projectos de desenvolvimento como é o caso dos megaprojectos de gás, em Cabo Delgado, desde que essas iniciativas demonstrem pouco ou nenhum impacto ambiental. Portanto, nós não estamos contra o desenvolvimento, mas queremos, sim, criar os alicerces da biodiversidade no País. Como é que projecta a BIOFUND daqui a outros dez anos? Espero que, nessa altura, sejamos uma instituição capaz de anunciar os números que revelem a melhoria da conservação da biodiversidade em Moçambique e o impacto do nosso trabalho de todos estes anos. Se todas as espécies que actualmente estão ameaçadas forem protegidas, daqui a dez anos, certamente teremos atingido os nossos objectivos. www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022



OPINIÃO

Yolanda Braga • Chief Compliance Officer FNB Moçambique

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edigir um Testamento constitui uma forma de, em vida, fazer a gestão do seu património acumulado. Ou seja, pode ser visto como planear a sua estratégia financeira. O Testamento não deve ser encarado como tabú, uma reflexão que deve ser sempre adiada ou como sendo um documento complicado, mas sim como parte de um plano de disposição dos seus bens no qual são considerados todos os aspectos relacionados com a gestão e administração do património adquirido ao longo da sua vida e é, por isso, recomendável que seja sempre redigido por um Advogado ou Jurista. Yolanda Mongo Braga, Directora de Compliance do FNB Moçambique diz: “O testamento é, na verdade, um plano detalhado sobre a forma como determinada pessoa irá transmitir os seus bens, propriedades, direitos e obrigações após a sua morte. Com o processo natural da vida, as necessidades tendem a mudar ao longo do tempo e, por isso, é importante assegurar que os desejos desta sejam garantidos. Uma das formas para o efeito é através de um Testamento”. Yolanda, acrescenta ainda que: “Como prestador de serviços financeiros integrados, encorajamos os nossos Clientes a estruturar os seus Testamentos de acordo com os seus desejos e circunstâncias, dentro dos limites impostos pela Lei da Família”. “Ou seja, há que ter em conta que existem limitações quanto à disposição de bens por Testamento, na medida em que uma parte do património da pessoa falecida está legalmente reservada aos ascendentes (pais, avós), descendentes (filhos, netos, etc) e cônjuge. Esta porção insusceptível de disposição, sem-

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Quebrando Tabus: o Testamento Enquanto Elemento Integral do Planeamento Financeiro pre que existam herdeiros legitimários (os acima referidos), pode ser de 50% ou 75% do património da pessoa falecida, consoante o caso, o significa que o testamento deverá incidir apenas sobre a porção remanescente. Portanto, com o Testamento, o seu autor pode salvaguardar a continuidade dos desejos manifestados em vida. Entretanto, importa acrescentar que após a morte do autor do Testamento, deve sempre ter lugar um processo de

“É comum os casais manterem contas bancárias conjuntas, por isso é importante que se tenha em conta que, se um deles vier a falecer, o banco é legalmente obrigado a congelar a conta bancária até que os termos da partilha sejam determinados...” habilitação de herdeiros com vista a serem identificados os herdeiros, os bens e direitos deixados pela pessoa falecida bem como outros aspectos relacionados com a última vontade deste. Uma vez que os saldos bancários titulados pelo autor do Testamento, fazem parte do conjunto dos seus bens, o FNB entende ser importante desmistificar o tabú e partilhar alguns esclarecimentos sobre questões a serem con-

sideradas no plano de gestão futura do seu património e na possivel redacção de um Testamento. Casados e unidos de facto - É comum os casais manterem contas bancárias conjuntas, por isso é importante que se tenha em conta que, se um deles vier a falecer, o banco é legalmente obrigado a congelar a conta bancária até que os termos da partilha do património da pessoa falecida sejam determinados, através da Habilitação de Herdeiros. Esta espera pode colocar pressão financeira ou stress sobre o parceiro enlutado, seus filhos, familiares e demais dependentes, situação também aplicável aos solicitantes de co-financiamento de créditos à habitação, leasing automóvel ou outros. Dependentes - Se tiver filhos menores, poderá definir através do Testamento, quem cuidará deles bem como do património que lhes for transmitido se os dois progenitores vierem a falecer. Portanto, é imprescindível tomar em consideração o tipo de relação que tem com a pessoa em questão, certificando-se de que proporcionará um bom ambiente para o crescimento e educação dos seus filhos. É importante referir que, a decisão última sobre a vontade da pessoa falecida, só poderá ocorrer mediante anuência do Tribunal de Menores. “É importante investir algum do seu tempo e reflectir sobre algumas destas considerações para o ajudar a formar a sua última vontade. Quando se trata de proteger os seus bens ou de planear a transferência dos mesmos para a próxima geração, nunca se comprometa. Desta forma, os seus familiares podem realizar os seus desejos fundamentais mesmo que não esteja por perto. Não espere mais, redija ou actualize agora o seu testamento”, conclui Yolanda Mongo Braga. www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


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OPINIÃO

Manuel Junior • Consultor Gestão da Qualidade e Segurança dos Alimentos

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ós somos o que comemos” disse Ludwig Feuerbach em 1848. Esta frase revela o impacto que os alimentos têm na vida das pessoas, enquanto estudos recentes demonstram que a segurança dos alimentos (Food Safety) tem um papel crucial no desenvolvimento da economia dos países. Para além de serem adequados e nutritivos para a sobrevivência do homem, os alimentos devem estar seguros para o consumo. De acordo com a Codex Alimentarius, a segurança dos alimentos refere-se à garantia de que um alimento não causará efeitos adversos à saúde dos consumidores quando preparado e/ou ingerido de acordo com a utilização prevista. Face ao exposto, é facto que garantir alimentos seguros para todos é indiscutivelmente um dos principais pontos da agenda dos governantes e um dos desafios de saúde pública nos dias de hoje. Por isso, é também parte integrante dos 17 objectivos de desenvolvimento sustentável até 2030.

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Porque “Somos o que Comemos”, a Segurança Alimentar é Essencial As implicações económicas de alimentos “não seguros” são claras e têm sido documentadas de forma extensiva. A OMS (Organização Mundial da Saúde), num estudo recente estimou que, a nível mundial, a cada ano os alimentos contaminados causam 600 milhões de casos de Doenças Transmitidas por Alimentos (DTAs) e 420,000 mortes, das quais, 30% ocorrem em crianças abaixo de 5 anos de idade. Estima-se ainda que em todo o mundo, anualmente, 33 milhões de pessoas saudáveis morrem devido ao consumo de alimentos de algum modo contaminados. Numa análise isolada, Moçambique, de 2017 a 2022 registou vários casos de alimentos impróprios para o consumo, detectados e notifica-

O custo de situações relacionadas com a introdução de alimentos não seguros no mercado é elevado, principalmente em relação aos aspectos sociais e económicos

dos pela INAE (Inspeção Nacional das Actividades Económicas). Por exemplo, os “Ovos Kinder” retirados das prateleiras por conterem Salmonella, ou os chocolates “KitKat” e sumos de maçã retirados por conterem pedaços de vidro e toxinas, respectivamente. O custo de situações relacionadas com a introdução de alimentos não seguros no mercado é elevado, principalmente em relação aos aspectos sociais e económicos. Nomeadamente, pela redução considerável da saúde e produtividade, aumento da pressão no Sistema Nacional de Saúde, destruição de produtos alimentares contaminados, custos com tribunais, encerramento de estabelecimentos alimentares, publicidade negativa e aumento de risco para os investidores, com consequente redução do investimento que, por sua vez, contribuirá para o aumento do desemprego. Embora não existam dados recentes e precisos sobre o impacto destes efeitos na economia nacional, as informações disponibilizadas em 2007 pelo Secretariado Técnico de Segurança Alimentar e Nutricional que apontam uma redução da produtividade devido a desnutrição na ordem dos 2 a 3% do PIB, o equivalente aa quase 107 milhões de dólares americanos por ano, considerando o PIB da época, deixam claras as consequências que as fragilidades/desafios existentes no sector alimentar podem ter sobre a economia do país. Com a globalização, o contínuo crescimento das cadeias de fornecimento de alimentos e o surgimento de novos perigos alimentares, a necessidade de fortalecer os sistemas de segurança dos alimentos dentro, e entre os países é cada vez mais crítica. A integração dos países em desenvolvimento nas cadeias de valor globais é crucial para garantir a eficiência e eficácia dos sistemas de segurança dos alimentos. Em paralelo, a pressão por parte dos clientes, consumidores, autoridawww.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


Moçambique tem dificuldades de implementar sistemas de gestão da segurança alimentar

des legais e associações de protecção dos consumidores exige que as organizações adoptem novas estratégias para demonstrarem a sua capacidade para produzir e fornecer alimentos seguros. Neste sentido, para as organizações que operam no sector alimentar, a implementação de sistemas de gestão da segurança dos alimentos (SGSA) tem provado ser uma estratégia chave na prevenção e/ ou redução dos riscos de contaminação dos alimentos, bem como na garantia da sua capacidade para disponibilizar alimentos seguros. Actualmente existem diversas normas que auxiliam as organizações na gestão da segurança dos alimentos. Nomeadamente, e entre muitos outros referenciais, o HACCP (Hazard Analisys and Critical Control Points, que em português significa Analise de Perigos e Pontos Críticos de Controlo), uma ferramenta para avaliar os riscos associados aos perigos identificados e estabelecer medidas de controlo para os perigos significativos ao longo da cadeia alimentar; e a ISO 22000, um referencial para a implementação de um SGSA aplicável a todas as organizações na cadeia alimentar (desde produtores primários a processadores, transportadores, armazenistas e retalhistas) independentemente da sua dimensão. O principal objectivo destas normas é o de harmonizar conceitos e formas de operar, de modo que a segurança dos alimentos seja garantida de um modo universal em todos os países /regiões do mundo. Assim, a sua implementação traz consigo vários benefícios, tais como, o reconhecimento internacional, que permite eliminar as barreiras técnicas e facilita o comércio internacional (exportawww.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022

ções/importações); maior cumprimento dos requisitos legais; aumento da segurança dos alimentos, que se reflecte na melhoria da satisfação dos clientes; melhoria da rastreabilidade dos produtos; otimização de recursos e processos e diminuição do desperdício de alimentos ao longo da cadeia alimentar. No caso particular dos países em desenvolvimento, como é o caso de Moçambique, a implementação destas normas, porém, tende a ser um desafio tanto devido à falta de maturidade dos mercados na área da segurança dos alimentos, como à falta de recursos/infraestruturas adequadas. Nomeadamente, factores como a dificuldade em cumprir com os requisitos legais e normativos relativos a infraestrutura, fraca capacidade de investimento e a falta de pessoas com formação e conhecimento adequado sobre segurança dos alimentos, dificultam a implementação pelas Pequenas e Médias Empresas, que são as Organizações com maior necessidade deste tipo de sistemas. Adicionalmente, outros aspectos relacionados com a falta de legislação adequada e actualizada sobre a segurança dos alimentos, fraca capacidade de fiscalização e elevados níveis de corrupção, acabam por causar fenómenos de concorrência desleal que finalmente desmotivam muitos dos operadores que optam pela implementação e certificação de suas empresas. Por isso, a boa colaboração entre o governo, a cadeia de valor da indústria alimentar, consumidores e outras partes interessadas, é crítica na medida em que vai contribuir significativamente para colmatar boa parte dos desafios anteriormente citados.

Por cá, instituições estatais em parceria com o sector privado e organizações não governamentais têm envidado esforços de forma a promover a qualidade e segurança dos alimentos. A título de exemplo, em 2015 Moçambique foi o anfitrião do primeiro fórum de segurança dos alimentos em Africa, evento organizado com o objectivo de enfatizar os múltiplos benefícios dos alimentos seguros para a inclusão social, sustentabilidade e desenvolvimento industrial, durante o qual se destacou a importância das normas, da certificação e da capacitação para o fortalecimento do sistema nacional de inocuidade dos alimentos e a garantia do fornecimento de produtos seguros. Adicionalmente, iniciativas levadas a cabo tanto pelo sector Público, como Privado, como o programa “Competir com Qualidade”, “ProMove Comércio” e “Qualificar” têm advogado e incentivado a melhoraria dos produtos e serviços nacionais como factor promotor da competitividade e economia de Moçambique. Porém, no final, para uma gestão eficiente e eficaz da segurança dos alimentos, é preciso que as sociedades (incluindo o sector público e privado, organizações não-governamentais e sociedade civil), assumam a segurança dos alimentos como uma questão global e crítica para o bem comum. Nesse sentido, é preciso investir em melhorar a comunicação entre as partes interessadas para permitir uma colaboração activa a todos os níveis da cadeia alimentar, o que vai contribuir para a partilha de conhecimentos sobre segurança dos alimentos, métodos de gestão de riscos e novas tecnologias a favor do sucesso na cadeia alimentar global. Paralelamente, a nível interno, é preciso investir na melhoria e criação de políticas, regulamentos e normas sobre segurança dos alimentos, intensificar a fiscalização às actividades no sector alimentar, assegurar adequada capacitação das entidades reguladoras, investir na melhoria/desenvolvimento da rede de infraestruturas de suporte (por exemplo, laboratórios de análise de água e alimentos) e promover a implementação e certificação em segurança dos alimentos. Reconhecidamente um enorme desafio que será, no entanto, certamente recompensado pela melhoria da quantidade de alimentos disponíveis para consumo seguro pela população e, consequentemente, pela melhoria da condição nutricional da população e, bem assim, dos índices de produtividade e competitividade do País.

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especial inovações daqui 52

GESTÃO DE PESSOAS

Como a tecnologia pode ajudar as empresas a aprimorarem os melhores modelos de trabalho e a inspirarem os seus trabalhadores a buscarem eficiência no processo produtivo

56 XIPALAPALA

Uma plataforma online para dar sustentabilidade às rádios comunitárias

www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022

58 PANORAMA As notícias da inovação em Moçambique, África e no Mundo

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GESTÃO DE PESSOAS

Tecnologia na Gestão de Pessoas é o Futuro Mais do que apenas processar salários, um software é capaz de trazer significativas transformações positivas no funcionamento das empresas em todos os domínios, com destaque para a gestão do seu maior activo: as pessoas. Como? A resposta está na recente pesquisa da PHC Software TEXTO Celso Chambisso • FOTOGRAFIA D.R

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hegaram as organizações do futuro, e com elas novos modelos de trabalho, uma velocidade acelerada e a certeza de que no mundo do trabalho já nada voltará a ser o que era. Se as organizações já vinham a percorrer um caminho de adaptação face à transformação digital, hoje testemunhamos a necessidade de acelerar este processo”. Este é o trecho introdutório de uma pesquisa intitulada “Os dez mandamentos da gestão de pessoas: boas práticas apoiadas em tecnologia”, amplamente debatida num seminário realizado recentemente em Lisboa. Organizado pela PHC Software – uma multinacional de origem portuguesa dedicada ao desenvolvimento de software de gestão, fundada em 1989,

garam. Só com um pensamento focado nas pessoas é possível chegar tão longe”. Acrescenta, entretanto, que “uma revolução na gestão de pessoas é o cenário a que hoje assistimos”. E, recorrendo à revisão da literatura, remata: “o caminho da sobrevivência e prosperidade das empresas passa, segundo a Deloitte, por cinco tendências que destacou no estudo ‘Global Human Capital Trends 2020’, nomeadamente: o bem-estar como parte integrante das estratégias de trabalho; a aposta no potencial dos colaboradores; a criação de ‘super equipas’; utilização dos dados em tempo real; e redefinição do papel dos recursos humanos”.

Digitalizar o mundo das pessoas

Em poucos anos, o papel dos recursos humanos alterou-se substancial-

Em poucos anos o papel dos recursos humanos alterou-se. Ao invés de se focar na gestão administrativa, assumiu lugar de destaque na liderança e no aumento da produtividade com mais de 35 mil clientes espalhados por 25 países, incluindo Moçambique, e mais de 150 mil utilizadores de software – o seminário viria a resultar num book orientador das empresas sobre os instrumentos tecnológicos que podem estar à disposição das empresas para melhorarem a sua performance nos mercados. Antes, porém, o documento traz os argumentos que consubstanciam a importância da sua pesquisa e do próprio tema, ao referir que, nos dias que correm, “exige-se que as empresas sejam flexíveis, dotadas de uma agilidade que lhes permita chegar onde nunca che-

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mente. Ao invés de se focar quase exclusivamente na gestão administrativa, assumiu lugar de destaque na liderança e no aumento da produtividade, bem-estar dos colaboradores e do desempenho global da empresa. São alterações que já se verificam há alguns anos, mas que ganharam contornos ainda mais relevantes nos últimos tempos. Por isso, a digitalização das empresas é fundamental e o departamento de recursos humanos deve ser das primeiras opções a ter em conta. “É preciso digitalizar o mundo da gestão das pessoas”, aconselha a PHC Software, destacando, a seguir e ao detalhe, www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


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GESTÃO DE PESSOAS

os motivos que explicam este sentido de urgência.

Resolver a escassez de talentos

Os tempos dos anúncios de emprego no jornal já vão longe. Hoje existem mais vagas do que candidatos em muito sectores de actividade. Por isso, é preciso que o software utilizado no recrutamento permita acompanhar a sua candidatura, mantendo uma comunicação rápida e fluida com o candidato durante todo o processo de selecção e garantindo a melhor experiência desde o primeiro contacto. Por outro lado, os novos modelos de trabalho vieram para ficar e ter uma gestão integrada de recursos humanos digitalizada transitou de um mero privilégio para um dever. É importante que prevaleça a noção de que a experiência dos colaboradores só pode ser positiva se forem contemplados todos os momentos da sua vida na empresa, e que tal seja feito a partir de qualquer lugar e de qualquer dispositivo. “Só assim é possível contribuir para o seu nível de engajamento e retenção”, argumenta o estudo.

Tarefas, tempo, controlo de processos e avaliação

Se as tarefas mais burocráticas e administrativas desaparecem ou diminuem, existe disponibilidade da área de recursos humanos para investir em sectores com maior retorno para a empresa, nomeadamente o acompanhamento de líderes, feedback de colaboradores, desenvolvimento de projectos que potenciem a colaboração, engajamento e produtividade. São os casos de projectos na área de bem-estar e felicidade organizacional, por exemplo. Por outro lado, se há tarefa que o software faz bem é o controlo de processos. E um dos mais delicados é o processamento de salários. A digitalização da área de processamento salarial permite emitir e pagar os salários, integrando férias ou faltas sem estar a fazer cálculos paralelos. Se cada um fizer o seu através de um portal do colaborador, cada líder aprova e o sistema processa tudo de forma automatizada e fiável. Além disso, “quando pensamos num sistema de avaliação sofisticado ocorre-nos imediatamente uma ferramenta que permita a chamada avaliação 360º hierárquica, aos pares ou clientes internos, líderes e auto-avaliação. Só assim é possível ter uma visão justa e que integre a avaliação de todos os interlocutores daquele colaborador, uma visualização completa do estado da empresa e sa-

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IMPACTO DO INVESTIMENTO NA ANÁLISE DE DADOS • Capacidade de decisão e precisão Decisões mais assertivas na gestão dos colaboradores, baseadas em dados e números, e não apenas na intuição, com vantagens de custo, produtividade ou engajamento. • Revelar o que está escondido É frequente que os dados agregados revelem informação que, até aí, estava escondida e que ajudem no posicionamento estratégico da empresa. • Papel estratégico dos RH Ao assentarem as suas decisões e aconselhamentos em mais dados, as equipas posicionam-se de forma sustentada e dão um carácter mais científico à sua função. • Antecipação A capacidade de fazer análise preditiva com base em dados permite antecipar, por exemplo, quais os colaboradores em risco de saída, ou os líderes menos eficazes na sua liderança. • Medir impacto Conseguir medir os impactos e a eficiência das acções implementadas abre novas perspectivas, não só na gestão de pessoas como na estratégia da empresa.

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ber quais os pontos a melhorar em cada colaborador”, refere a PHC Software. “Ao ter a área de gestão de pessoas digitalizada”, prossegue, “as empresas ganham uma grande vantagem ao conseguirem reunir um enorme conjunto de dados que podem ser utilizados para facilitar uma gestão mais inteligente”.

Análise de dados

O mundo dos dados chegou à gestão de pessoas, aqueles que designamos de people analytics. É importante ter em conta que conseguir bons dados dá trabalho e que essa é uma das razões que explicam o atraso em adoptar este tipo de análises. Apesar, claro, das muitas vantagens que podem trazer para as empresas, que incluem a capacidade de decisão e precisão; revelar o que está escondido; o papel estratégico do departamento dos Recursos Humanos; a antecipação; e a medição do impacto das acções.

Descentralizar as actividades da área dos recursos humanos

O conceito utilizado na publicação é Human Capital Management (gestão do capital humano) e é assumido como sendo todo um conjunto de ferramentas, que permitem a descentralização das operações que eram, anteriormente, da responsabilidade das equipas de recursos humanos para os colaboradores e líderes. Como? “Através de um sistema nervoso digital onde cada um submete, consulta e aprova a informação da sua responsabilidade, com a garantia de que o software integra, automatiza e sistematiza toda a informação”, revela a pesquisa. O desafio das equipas de recursos humanos é, hoje, muito grande, dado que precisam de desenvolver o acompanhamento e a comunicação permanente com as equipas de trabalho, promover uma liderança inspiradora, próxima e mobilizadora, para além de sistemas de avaliação reveladores e potenciadores do mérito e uma aposta consistente no desenvolvimento, engajamento, bem-estar e formação dos colaboradores. “Tudo isto só é possível se as empresas estiverem munidas de ferramentas de Human Capital Management, que permitam agilizar esta gestão e fazer do trabalho uma experiência feliz através de um software que nos permita humanizar a empresa, levantar a cabeça do teclado e interagir com as pessoas, mantendo-nos mais atentos à realidade e presentes no seu dia-a-dia”, concluiu. www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022

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XIPALAPALA

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XIPALAPALA

Sustentabilizar para Informar… e Vice-versa Se até os órgãos de informação mais modernos, digitalizados e sofisticados das grandes urbes são propensos a problemas de sustentabilidade financeira, imagine-se a condição das rádios comunitárias! O problema está lá há muito tempo, mas começa a deixar de o ser. Como? TEXTO Nário Sixpence • FOTOGRAFIA Mariano Silva

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egra geral, pessoas das grandes cidades conhecem pouco do dia-a-dia do meio rural, que só se torna notícia quando a comunicação social é para lá movida pela necessidade de fazer alguma cobertura pontual. E quando se está no meio rural, dependendo da localização, o acesso à informação é também limitado e, muitas vezes, assegurado pelas rádios comunitárias, cuja sobrevivência é assegurada pela boa vontade de instituições públicas e organizações não-governamentais. É que, estando situadas em locais recônditos e sem acesso ao mercado da publicidade, acabam por voltar os seus conteúdos para objectivos meramente cívicos que, entretanto, não vendem. Foi esta realidade que despertou a H2N, uma organização não-governamental moçambicana vocacionada para o apoio à comunicação comunitária, a criar o Xipalapala, uma plataforma online que tem como foco congregar todas as rádios comunitárias a fim de as ajudar a colmatar este problema através da publicidade. Como funciona? “Existe um primeiro passo que é o cadastro do anunciante na plataforma, isto é, a empresa que tem interesse em usar a plataforma entra em contacto connosco e pede o cadastro. A seguir, a equipa da H2N que faz o cadastro disponibiliza ao cliente as senhas de acesso à plataforma. Uma vez dentro desta, o usuário carrega num spot, cuja duração é calculada pela plataforma, e depois escolhe onde quer inserir, quantas vezes e por quanto tempo. As rádios seleccionadas recebem um e-mail para garantir que esta informação realmente chegou”, explica Farida Ustá, directora de Programas da H2N. Na sequência, e depois de finalizado o pedido, o cliente recebe a factura. O pagamento é feito para uma conta da H2N e esta, por sua

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vez, paga às rádios. “Assim, um determinado cliente que queira inserir publicidade nas 95 rádios não tem de interagir com todas, pois tem um ponto de contacto, que é a H2N, da qual recebe a factura, e faz o pagamento”, esclareceu. O investimento inicial na Xipalapala foi de 18 mil dólares, e foi através de um desenvolvedor estrangeiro, mas com o posterior envolvimento da equipa interna de desenvolvedores o valor subiu para 22 mil dólares. Desde a sua criação (em 2017) até Agosto de 2022, a plataforma já angariou cerca de 320 mil dólares, sendo que 90% do valor teve as rádios como destino. A ideia surgiu em 2016, mas a criação da própria plataforma só foi possível em 2017 e acabaria por ser finalizada em 2018. A Xipalapala, que começou com 47 rádios, já conta com 95. Além de apoiar a sustentabilidade das rádios comunitárias, a plataforma pretende garantir que as comunidades tenham acesso a informações de grande utilidade pública partilhadas nas zonas urbanas. “É uma forma de garantir que as comunidades tenham acesso à informação e, ao mesmo tempo, ajudar na sustentabilidade das rádios comunitárias, pois estas não têm muitas fontes de receita e muitas vezes não têm como chegar aos anunciantes que estão em Maputo”, sublinhou a Farida Ustá. Neste momento, o Xipalapala está disponível apenas em formato web, mas pensa-se já na criação de um aplicativo, “até porque a plataforma teve uma evolução significativa nos últimos anos”, garante a responsável. “Internamente, criámos o Xipalapala Info, um podcast diário sobre a informação que é partilhada pelo mesmo universo de rádios e também por subscritores individuais. Lá temos também alguns programas sobre conteúdos de saúde, nutrição e até de televisão”, concluiu.

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RESPONSÁVEL Farida Ustá PLATAFORMA XIPALAPALA GESTOR H2N ALVO Rádios comunitárias CRIAÇÃO 2017

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PANORAMA

Logística

Cornelder investe em tecnologias de ponta para controlo de acesso ao Porto da Beira A Cornelder Moçambique investiu na instalação de um sistema moderno e informatizado para controlo de acesso ao Porto da Beira. A nova tecnologia detecta automaticamente as matrículas e os números dos contentores recorrendo a câmaras de vigilância. O sistema funciona como um portal moderno e inteligente utilizado na gestão do fluxo de camiões em várias cidades americanas e europeias, e foi recen-

temente implementado no Terminal de Contentores do Porto da Beira. Com a instalação deste sistema, a Cornelder de Moçambique espera conferir maior eficiência no controlo dos principais acessos ao Porto da Beira, bem como automatizar o registo de contentores, matrículas dos camiões e imagens para fins de segurança, reduzindo, desta forma, erros humanos e aumentar a competitividade daquela infra-estrutura.

Ciência

Empresa sul-africana lança mecanismo de combate às emissões de carbono através de compras online Migração

Plataforma de emissão de vistos electrónicos poderá entrar em vigor em finais de Outubro O vice-ministro da Economia e Finanças, Amílcar Tivane, anunciou, durante uma reunião realizada no Ministério do Negócios Estrangeiros e Cooperação, que a plataforma para a facilitação de vistos dos estrangeiros poderá estar disponível até finais de Outubro deste ano. A plataforma denominada e-Visa foi introduzida pelo Governo para melhorar a competitividade e impulsionar a economia e a indústria turística. Consiste numa interface gráfica de fácil utilização onde o requerente introduz todas as informações necessárias para um visto, preenchendo um formulário em linha que explica o objectivo da visita. Uma vez completa a informação e a documentação necessárias, são submetidas ao Serviço Nacional de Migração (SENAMI) onde são processadas. No prazo de cinco dias, o requerente é informado sobre a aprovação ou não do estatuto, através da mesma plataforma digital. No caso de aprovação, o requerente recebe um documento de viagem digital de pré-autorização que deve ser apresentado ao oficial do SENAMI no ponto de entrada em Moçambique.

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O programa de recrutamento de africanos da gigante mundial de tecnologia Microsoft, fundada pelo norte-americano Bill Gates, está agora em Moçambique em busca de profissionais como engenheiros de software, numa iniciativa de um programa continental da Microsoft que pretende alcançar e recru-

tar talentos africanos para fazerem parte da sua força de trabalho para as equipas de Redmond, nos Estados Unidos, e Vancouver, no Canadá. Segundo Cláudio Silva, moçambicano e responsável pela implementação do programa, em declarações ao portal Kabum Digital, “para esta vaga, a Microsoft procura recém-graduados ou estudantes finalistas de um curso de bacharelato ou mestrado em engenharias, ciência da computação ou áreas afins, com capacidade de demonstrar conhecimento dos fundamentos da ciência da computação, incluindo estrutura de dados e algoritmos”. O processo de candidaturas arrancou em Agosto e abrange todo o território nacional, sem limites de idade e género. Os candidatos que forem seleccionados serão convidados para a primeira fase das entrevistas. As vagas fecham assim que forem preenchidas após as entrevistas finais.

Telecomunicações

Rússia lançou segundo satélite angolano Angosat-2 A agência espacial russa Roscosmos anunciou, em comunicado, o lançamento do segundo satélite angolano, o Angosat-2, do cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão. O instrumento pesa duas toneladas e possui uma alta capacidade de transferência de informação. O Governo angolano promete, através desta tecnologia, colocar o país num lugar de destaque nas comunicações em África.

Já em órbita, o satélite custou 320 milhões de dólares e deverá possibilitar uma largura de banda de 13 gigabytes em regiões onde chega o seu sinal, abrangendo a maior parte do continente africano e boa parte de Europa. É a segunda vez que o país coloca em órbita um satélite, depois do Angosat-1, em Dezembro de 2017, cujo lançamento fracassou, como acontece algumas vezes, dada a complexidade de um satélite de telecomunicações. www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


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OPINIÃO

Porque é (Muito) Difícil Negociar em Moçambique?

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João Gomes • Partner @ JASON Moçambique

em este artigo a propósito de uma pergunta que, nos últimos 9 anos, me tem sido sistematicamente colocada por investidores internacionais, formandos de programas de negociação para executivos e quadros e, bem assim, membros do grupo “She Raises the Bar and Negotiate”1 , e que com o advento da entrada de Moçambique na Zona de Comércio Livre Continental Africana2 ganha um enorme impulso. Neste artigo convido o meu leitor@ a responder à seguinte questão: Porque é (muito) difícil negociar em Moçambique? Vejamos sucessivamente: - Conceito de negociação. - As principais dimensões da “dificuldade em negociar” em Moçambique. - Conclusão.

A escassez de recursos económicos força a que os negociadores Moçambicanos manifestem uma preferência pela opção Ganhar/Perder tentando agarrar o máximo possível do valor envolvido num negócio, deixando o outro lado com muito pouco

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1. Conceito de negociação Na minha opinião estaremos perante uma negociação quando: - Diferentes partes (i.e., são necessários, pelo menos, 2 para “dançar o tango”) que, - Com legitimidade, necessidades e motivações próprias (i.e. com “interesses negociais”), - [Interesses negociais] que são, na maioria das vezes, “conflituantes” entre si, - Para satisfazerem tais “interesses negociais”, as partes lançam mão de um “processo negocial” (i.e. um ritual de criação de confiança mútua que afasta, pelo menos momentaneamente, o uso da força bruta, dos tribunais, ou de árbitros), - [Processo negocial] cuja finalidade principal é a geração criativa de opções e a repartição de activos entre as partes (i.e. “criação de valor”), - [Processo] que, se desenvolve na mesa negocial (i.e. a fase do face-a-face), e fora dela (i.e. as fases de preparação, e do pós-acordo), - [Processo] que frequentemente se

inicia e se conclui num espaço de tempo muito limitado. - De modo a satisfazer os seus “interesses negociais” as partes terão de fazer “concessões negociais” (i.e. não há negociação sem concessões mútuas), - [Concessões] essas cuja tempestividade, quantidade e qualidade dependem da força negocial das partes (i.e. “poder negocial”), - [Poder negocial] cuja maior eficácia se baseia na utilização inteligente pelas partes (i.e. a estratégia e as tácticas negociais, organizadas num plano de negociação) de alavancas negociais, -[Alavancas negociais] que não se limitam e vão muito para além do preço. 2. As dimensões da “dificuldade em negociar” em Moçambique Tanto quanto é do meu conhecimento não existe qualquer estudo sobre este tema em Moçambique. Deste modo, a informação adiante transmitida baseia-se apenas na minha intensa observação, participação activa em negociações comerciais nacionais e internacionais, na partilha de experiências em simuladores de negociação integrados em formações e programas executivos e quadros, e nos estudos sobre negociação em países Africanos – v.g. Nigéria3 e África do Sul.4 5 Lançando mão da framework do Professor Salacuse6, as muitas dificuldades de negociar em Moçambique por mim observadas podem ser organizadas em 2 dimensões. Dimensão 1: O objectivo da negociação é conseguir um contrato, ou construir uma relação? O interesse de uma forte maioria de negociadores moçambicanos pelo estabelecimento de uma relação, em vez de apenas o ganho de um contrato, enquadra-se na cultura local em que os vendedores estão interessados em fazer com que um cliente volte, favorecendo os clientes regulares para ganhar e recomwww.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


passes negociais e falhanços prematuros das negociações e, bem assim; v) aumentar a probabilidade de não repetição futura de negócios.

Verifica-se maior preocupação em conseguir contratos do que em contruir relações duradouras

pensar a sua lealdade. Contudo, cinco factos por mim observados comprometem este desiderato: i) a presença de uma longa cadeia de intermediários nos negócios; ii) a ausência dos “donos do negócio”; iii) e o consequente uso, e direi mesmo abuso, de representantes das partes sem mandato para fechar contractos; iv) a ausência de OPI - Outras Partes Interessadas; v) e a ausência de peritos e especialistas em temas mais complexos. A combinação destes factores gera i) um alto nível de quebra de confidencialidade e de desconfiança entre os negociadores; ii) um baixo nível de comprometimento dos ausentes “donos do negócio”; iii) a par de uma forte resistência das OPI`s que, não tendo sido chamadas para a negociação virão, mais tarde, ou a comprometer o fecho do negócio, ou a revelar-se como um grande obstáculo à futura implementação do mesmo; iv) Paralelamente, a ausência de peritos durante a negociação força a que as partes formulem acordos muito gerais; v) e adiem a solução dos problemas mais complexos, para a fase de implementação, vi) assim aumentando, exponencialmente, o risco de incumprimento contratual. Dimensão 2: A orientação negocial é do tipo Ganhar/Ganhar, ou Ganhar/ Perder? A escassez de recursos económicos força a que os negociadores Moçambiwww.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022

canos manifestem uma preferência pela opção Ganhar/Perder tentando agarrar o máximo possível do valor envolvido num negócio, deixando o outro lado com muito pouco. Este facto é reforçado por outra observação que tenho testemunhado7 qual seja, o de raras vezes encontrar negociadores com o necessário conhecimento e experiência em negociação. Estudos8 confirmam que os negociadores sem conhecimento e experiência adoptam, em regra, uma orientação negocial Ganhar/Perder a qual se traduz: i) em negociarem apenas uma questão (o preço por exemplo); ii) explorarem mais os interesses negociais divergentes, do que os convergentes; iii) gerarem poucas e rígidas opções e alternativas (i.e. não são criativos); iv) desconsiderarem os aspectos legais e regulamentares; v) assumirem muitos riscos; vi) entrarem frequentemente em espirais de defesa/ataque; vii) não fazerem perguntas, e não ouvirem as respostas; viii) mostrarem-se pouco à vontade e pouco confiantes; ix) não procurarem “afinar” os acordos para os melhorar; x) usarem excessivamente pausas, interrupções, e adiamentos no “processo negocial”. A combinação destes factores gera i) elevada tensão emocional dentro e fora da “mesa das negociações”; ii) o excessivo prolongamento, direi mesmo, o arrastamento das negociações no tempo; iii) a geração de acordos sub-óptimos (i.e. destruir valor); iv) assim aumentando exponencialmente o risco de gerar im-

Em conclusão De acordo com as minhas observações aqui expressas neste artigo, as (muitas) dificuldades que existem para negociar em Moçambique ficam a dever-se, cumulativamente i) ao facto do objectivo principal das negociações ser o de conseguir contractos e não, de construir relações duradouras; e ii) ao facto da orientação negocial predominante ser do tipo Ganhar/Perder. Esta dupla combinação gera, com excessiva frequência, impasses negociais que, muitas das vezes, culminam ou em negociações frustradas, ou em “falhas em cumprir”, em sede de execução dos contractos. Em qualquer caso, através das negociações destrói-se valor, ao invés de criá-lo! Tal situação i) diminui o estatuto (internamente e externamente) da parte incumpridora; ii) mina a confiança no processo negocial; iii) lança dúvidas sobre a competência e capacidade negocial da parte faltosa; iv) e cria uma “imagem de marca” negativa para os negociadores Moçambicanos. Numa palavra, retira “poder negocial” aos negociadores Moçambicanos, e numa altura em que estes estão prestes a entrar no maior espaço económico do mundo: a Zona de Comércio Livre Continental Africana.

Um grupo privado do Facebook, actualmente com 1.200 membros, cujo objectivo é partilhar conteúdos digitais sobre negociação, de modo a inspirar Mulheres a aperfeiçoar o seu poder negocial. 2 MALISZEWSKA, Maryla et al “The African Continental Free Trade Area – Economic and Distributional Effects” – World Bank Group. 3 EPIE, Chantal “Nigerian Business Negotiators: Cultural Characteristics” Journal of African Business, Vol. 3, Issue 2, 2002. 4 KATZ, Lothar “The Negotiator´s Reference Guide to 50 Countries Around the World”, Amazon.com. 5 UNKNOWN, author “Forty-one lessons from the South African Negotiations”, Sabinet, African Journals. 6 SALACUSE, J. W. 1998. “Ten Ways that Culture Affects Negotiating Style: Some Survey Results”. Negotiation Journal Vol. 14, No. 3 (July): 221-240. 7 GOMES, João “Escolas de Negócios & Economia da Bolada”, artigo publicado na revista Economia & Mercado, Agosto 2021. 8 MRACKAM, Neil - Hutwaite Research Group. 1

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M&F TROPIGÁLIA

“Queremos que os Nossos Clientes e Parceiros Sejam Parte da Tropigalia” Mais do que garantir o financiamento necessário para investir no alargamento da rede logística da empresa, cerca de 5 milhões de dólares, a OPS da Tripogália, lançada a 10 de Outubro, foi apresentada como uma “retribuição” da maior empresa de distribuição de produtos de grande consumo a quem permitiu a sua projecção no mercado Texto Pedro Cativelos • Fotografia Mariano Silva

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emissão da Oferta Pública de Subscrição (OPS) da Tropigalia e a consequente entrada na Bolsa de Valores de Moçambique constituem a chegada à maturidade plenade uma empresa criada há precisamente há 18 anos, num processo que envolveu, especialmente nos últimos cinco, um rigoroso escrutínio financeiro e contabilístico. Sendo esta a primeira operação do género de uma empresa de capital integralmente privado no País, esta é uma operação destinada a todos os investidores moçambicanos ou estrangeiros, residentes ou não residentes no País, e que está estruturada em dois segmentos: o A para trabalhadores da Tropigalia e jovens com até 30 anos; e o B para o público em geral. O lote mínimo para a subscrição é de 50 acções, sendo que o preço inicialmente transaccionável por acção será, para o segmento A, de 100 meticais, e para o B, de 120 meticais. Cálculos feitos, a operação deve render entre cinco e seis milhões de dólares. Além de abrir a participação no seu capital a clientes e parceiros, “aumentando a família”, como Adolfo Correia, fundador e actual PCA da empresa gosta de lhe chamar, a Tropigalia vê assim chegar o financiamento necessário para executar o seu ambicioso plano de expansão, criando condições para dinamizar a construção e desenvolvimento de unidades logísticas de ponta por todo o País, mais concretamente em Bilene, Maxixe, Quelimane, Tete, Nampula e Beira e lançar novos produtos, nomeadamente alimentares, feitos com base em produtos agrícolas 100% nacionais.

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É a primeira operação do género de uma empresa exclusivamente privada no País. A poucos dias de acabar a primeira fase de subscrição, qual é que tem sido a receptividade do mercado? Tanto quanto nos foi reportado pelos nossos parceiros do sindicato bancário, que são os operadores bancários, no dia seguinte ao lançamento da OPS da Tropigalia, começaram a chegar aos balcões pedidos de informação sobre a subscrição e vontade de materializá-la. Um dos desafios que aprendemos, e que constitui uma boa experiência para o futuro, é que percebemos que se houver uma próxima OPS não podemos pôr uma semana entre o anúncio e o início do período da subscrição, porque esse intervalo é longo e cria falsas expectativas. Ou seja, nós anunciámos na segunda-feira, 10 de Outubro, e na terça-feira ainda não se podiam subscrever. Isso só seria possível na segunda-feira seguinte. Este período de uma semana, que pensávamos que era de reflexão, afinal, não é o mais acertado mas fora isso, tem sido muito bem recebido e o interesse do mercado está ainda acima das nossas expectativas. Já que fala nisso, há a intenção de avançar com uma segunda emissão? É difícil dizer, neste momento, porque estamos num mundo em constante mutação e os recentes episódios ao nível internacional com impacto global mostram que prever o futuro não é fácil. Se tivermos um retorno ou aceitação do investidor, se a procura exceder a oferta e os resultados se mostrarem capacitados para uma segunda emissão, não descartamos essa possibilidade, embora não esteja no projecto por enquanto.

É visível, da vossa parte, uma lógica de expansão que, inclusive, já estão a cumprir. E ainda assim querem dar um passo em frente. Porquê, se já são dominantes no mercado? Nós contrariamos um pouco a tendência global que é o facto de as empresas operacionais terem um imobilizado baixo. A nossa visão não é essa. Não é pelo contexto patrimonial, mas pelo contexto operacional – as eficiências. Fora de Maputo, com excepção, neste momento, da Beira e Chimoio, todos os outros armazéns são alugados. Ou seja, para darmos carácter de eficiência à nossa operação, precisamos de armazéns com capacidade de tonelagens de piso, que não se parta, para suportarem as mercadorias que lá se movimentam. Fora de Maputo, só os armazéns da Beira e de Chimoio reúnem estes requisitos. Os restantes não. A Tropigalia tentou várias vezes convencer os arrendatários a investirem com contratos mais longos, mas não conseguiu. Não podemos ter uma operação eficaz sem termos as estruturas adaptadas à nossa realidade. www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


de de familiaridade. Por exemplo, esteve cá uma empresa chamada Wisemix, que faz a avaliação dos patrimónios intangíveis e uma das situações que o seu relatório evidenciou foi que não conhece outro exemplo igual ao nosso no mundo. Reconheço ser uma declaração atrevida da minha parte, mas vou fundamentar: a preocupação de um consumidor é conhecer ou a marca do produto que vai comprar ou o sítio onde vai comprar, mas raramente se identifica com o transportador, que muitas vezes nem sequer é uma marca e isso nós conseguimos e é raro, senão caso único no mundo. Este foi o património que a Tropigalia criou pelo permanente contacto da nossa marca nos mercados e supermercados e isso vê-se, quanto temos no nosso portefolio, produtos concorrentes a nível global, mas que estão connosco, que acreditaram em nós. Gosto de acreditar que somos diferentes. Não é por termos ideias geniais, mas sim porque chegámos a Moçambique numa altura em que não estava cá ninguém e porque queremos trabalhar bem para os nossos consumidores.

Na Bolsa de Valores de Moçambique a Tropigalia tem bem claros os seus objectivos: além de abrir oportunidades para novos accionistas, investir na expansão da sua infra-estrutura logística E esse é o próximo passo: encontrar eficiências logísticas. Não vamos comprar. Vamos construir. Conforme já anunciámos, temos um terreno no Bilene, província de Gaza, temos outro na Maxixe, em Inhambane, etc. Vamos construir de acordo com as nossas exigências, e com os melhores parâmetros que são conhecidos internacionalmente. Vamos mudar toda a operação logística precisamente para Marracuene, que tem 12 600 m2, já a partir de Janeiro do próximo ano. Na Beira e Nampula prevemos erguer cerca de 6 000 m2. Imagino que no início do processo de emissão da OPS, numa lógica de exwww.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022

pansão, pesam as várias opções de financiamento que existem à disposição. Sabe-se que em Moçambique o financiamento bancário é, por vezes, caro e complexo. Foi por essa razão que optaram pela entrada na BVM? A entrada em Bolsa não foi induzida exclusivamente pelo financiamento, embora este aspecto faça parte das motivações. A operação na Bolsa de Valores de Moçambique não é para expansão imediata, mas sim para abrir a empresa ao público, lembrando que a Tropigalia teve sucesso porque o consumidor moçambicano compra os seus produtos. Ganhámos a confiança do consumidor e somos vistos com uma proximida-

Então mais do que uma questão de financiamento, é uma forma de de posicionamento já a pensar no futuro, é isso? É uma questão de convite ao consumidor para fazer parte da nossa equipa. E não fazemos isso por termos directores muito iluminados. Fazemo-lo porque a Tropigalia tem na administração pessoas que vieram da base, a começar por mim, e por toda a nossa equipa. Por exemplo, temos o Júlio, que começou como carregador de caixas; a Dulce, hoje responsável pelos bancos, era empregada de limpeza; um antigo guarda que que era alcoólatra e hoje comanda toda a frota de distribuição. Por isso esta operação de entrada para a Bolsa é um convite aos nossos colaboradores, e aos milhões de consumidores para fazerem parte da nossa história. No seu percurso iniciado na empresa em 2004, há algum momento em que tenha parado e pensado na dimensão da empresa que fundou, com orgulho? Não sou muito disso, devo dizer. Sempre aproveitei as oportunidades de uma forma consistente e consolidada. E isso pode acontecer sem publicidade nem planeamento. Por exemplo, o covid-19 trouxe uma série de desafios e também de oportunidades, porque havia operadores que tinham produtos, mas que tiveram de abandonar o País e a Tropigalia foi buscar essas

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Durante o lançamento da OPS, a Tropigalia revelou os ambiciosos planos que tem para fazer crescer infra-estrutura logística e fomentar produção agrícola nacional oportunidades de negócio. Quando não temos dependência bancária, aproveitamos de forma mais liberta as oportunidades que nos aparecem. O único diferencial é que não vamos buscar oportunidades do imediato, mas sempre algo que tem crescimento futuro. Uma vantagem importante que temos é que, estando presentes em todo o País, conseguimos ter uma consciência mais rápida das tendências do que a maioria dos nossos concorrentes. É que o tradicional distribuidor em Moçambique, pelo contrário, tem sub-distribuidores que, por sua vez, têm os seus retalhistas, e o processo segue várias cadeias que dificultam o controlo da informação.

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A Tropigalia, além de ser importadora, vai até ao último fio da cadeia de valor. Não por estratégia, mas pela oportunidade de negócio. Qual é a importância que uma distribuidora como a Tropigalia pode ter no fomento da produção interna? Enorme. Não só crescimento como também na qualidade, na embalagem... No próximo ano, estaremos em condições de falar sobre o potencial de produção que existe porque nas nossas instalações, porque pela primeira vez, a Tropigalia vai entrar na área da indústria ligada às embalagens criando linhas de produtos feitos em Moçambique.

Com a pandemia houve uma altura em que o consumo baixou acentuadamente. O que aprendeu daquele momento, enquanto gestor? Há um ditado que diz: “há quem chore e há quem venda lenços”, e nós somos vendedores, eu sou vendedor. Portanto, mais do que comentar e lamentar, nós focámo-nos em como ultrapassar. E enquanto estamos ocupados em resolver não somos afectados pela preocupação. Esta nunca foi sentida de uma forma defensiva, mas de confronto, no sentido de, por exemplo, procurar ver como ajudaríamos um colega ou um cliente afectado a ultrapassar o problema. Essa é uma característica que foi implementada desde o primeiro dia na nossa equipa, que tem uma cultura de cumprir com o compromisso e de fazer acontecer. Como é que encara o sector informal, que é predominante no mercado nacional, e para onde o vê evoluir? Se houve desenvolvimento do mercado, www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


NÚMEROS DA TROPIGALIA

2004 Entrada no mercado

42.ª maior empresa moçambicana

12 centros logísticos,

700 colaboradores

15 indústrias representadas

12 000 clientes

50 milhões USD de facturação anual

8,5 milhões USD de um capital social

e é de facto visível que existiu no sector formal, é invisivelmente muito superior no ramo informal. É preciso perceber que o informal só o é do ponto de vista fiscal, mas se virmos do ponto de vista operacional até está muito mais evoluído do que o mercado formal. Isto é, os mercados informais estão desorganizadamente bem organizados, permita-me a expressão, porque têm conduta própria e padrões claros. Na minha opinião, um dos lugares mais seguros para fazer negócios em Moçambique é dentro dos mercados informais. O que sentiu, a título pessoal, logo após a emissão da OPS? Tudo o que faço, faço-o genuinamente. Não tenho cursos superiores, nunca estive na facultade, sou um empreendedor de escolaridade média. Fui um vendedor nato e, pela primeira vez na vida, estou a vender uma coisa que sinto que é minha, embora pertença a mais um conjunto de pessoas. Tenho orgulho nisso mas queremos muito, muito mais. www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022

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Maximizar a parcela das energias renováveis na matriz energética é “a estratégia mais sólida, barata e limpa disponível em Moçambique”, conclui o relatório Wärtsilä

E O grande desafio para as autoridades energéticas de Moçambique é garantir que toda a população tenha um acesso ininterrupto e a preços acessíveis à eletricidade, na próxima década.

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m conferência no Fórum Moçambicano de Energia, em Maputo, na presença dos principais elaboradores de políticas do País em matéria de energia, os especialistas em energia do Grupo Wärtsilä apresentaram os últimos resultados de um estudo aprofundado que modeliza o papel que as energias renováveis podem desempenhar na construção do sistema energético mais eficaz e confiável para Moçambique. O Wärtsilä é um grupo mundial de tecnologia com considerável experiência nos mercados da energia. No seu estudo, dois cenários distintos de expansão do sistema energético foram modelizados através da utilização de técnicas avançadas de modelização de sistemas energéticos, com o objectivo de avaliar o impacto financeiro e ambiental de um parâmetro-chave de modelização: a quantidade de capacidade de energias renováveis que deve ser integrada na matriz energética moçambicana todos os anos até 2032. O grande desafio para as autoridades energéticas de Moçambique é garantir que toda a população tenha um acesso ininterrupto e a preços acessíveis à eletricidade, na próxima década. Para atender ao pico no aumento da procura por eletricidade estimado a 1,3 GW até 2032, Moçambique deve construir uma nova capacidade energética significativa. Deverão ser necessários mais 2 GW para apoiar o desenvolvimento planeado do Parque Industrial de Beluluane, na província de Maputo, até 2037. No futuro, o desenvolvimento de novos recursos em matéria de gás apresenta oportunidades tremendas para aumentar rapidamente, no País, a capacidade da energia gerada a gás. Porém, Moçambique também conta com os seus recursos energéticos eólicos e solares, de classe mundial, para aumentar rapidamente a geração de energia.

“O nosso estudo aborda as questões-chave enfrentadas hoje pelas autoridades energéticas de Moçambique, a começar pela relativa parcela que as energias renováveis devem representar na matriz energética do País. Terá Moçambique de limitar a nova capacidade de energias renováveis a 100 MW por ano, como deseja atualmente fazer? Ou deve o País construir mais capacidade? Qual seria a melhor matriz energética em cada cenário? Responder a essas perguntas é crucial para o planeamento e a estratégia do sistema energético de Moçambique”, explica Wallace Manyara, Gestor de Desenvolvimento de Negócios da Wärtsilä Energy, Região África Austral e Oriental. Neste relatório, o Grupo Wärtsilä apresenta e compara dois possíveis cenários de expansão do sistema energético para Moçambique: um com acréscimos da capacidade de energias renováveis limitados a 1 GW até 2032; e outro cenário em que se permite que a capacidade de energias renováveis atinja 3 GW até 2032. Cada cenário foi modelizado com uma ferramenta líder mundial da modelização de sistemas energéticos, para identificar a melhor matriz energética para se construir de ano a ano, a fim de oferecer um abastecimento de energia confiável aos mais baixos custos. O estudo revela que o cenário caracterizado por uma grande parcela de energias renováveis na matriz energética será o modo mais acessível e sustentável de atender à procura por electricidade na próxima década. Maximizar as energias renováveis – em associação com o armazenamento de energia e os motores flexíveis a gás, para suprir as necessidades em matéria de equilíbrio da rede – ajudará a reduzir as emissões de carbono em 5 milhões de toneladas até 2032. Isto também irá gerar economias de 84 milhões de dólares, em comparação com o cenário caracterizado por uma utilização reduzida das enerwww.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


gias renováveis. O plano de expansão energética mais competitivo delineado no relatório combina quase 3 GW de capacidade nova de energia eólica e solar, juntamente com 1 GW de projectos flexíveis a gás, 205 MW de capacidade de armazenamento de energia e 50 MW de capacidade hidroeléctrica nova. Também planeia 1 GW em projectos de abastecimento básico de gás a serem construídos de 2022 a 2032, inclusive a central eléctrica a gás de Temane, de 450 MW, com entrega prevista para 2024. “As técnicas avançadas de modelização de sistemas energéticos utilizadas neste estudo mostram, sem sombra de dúvida, que maximizar as energias renováveis de baixo custo, incluindo-se ao mesmo tempo flexibilidade no sistema energético, com o armazenamento de energia e os motores de equilíbrio da rede, é a estratégia energética mais sólida, barata e limpa disponível atualmente em Moçambique”, concluiu Kenneth Engblom, Vice-Presidente, Wärtsilä Energy África e Europa. www.economiaemercado.co.mz | Julho 2022

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ócio

(neg)ócio s.m. do latim negação do ócio

70 Uma aventura pelo Parque Nacional da Gorongosa, uma atracção de nível mundial

g

e 72 Desfrutar da ementa do restaurante Nom, em Maputo

73 Com o Verão, as cervejas entram em cena. Que tal a artesanal Oitava Colina?


Parque Nacional de Gorongosa ÁREA DE CONSERVAÇÃO

GORONGOSA ESTÁ NO MAPA DOS PRINCIPAIS DESTINOS DO MUNDO

e

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Gorongosa, Longe da o dia nasce do ventre da floresta envolto na cacimba que nos molha a pele. O Parque Nacional de Gorongosa acorda como se a noite fosse apenas um manto mágico sobre o sol. É dia outra vez, mas nada do mesmo. E então percebemos o porquê de ser sempre sugerido que os visitantes façam dois safaris, um ao fim da tarde e outro ao início da manhã. Na tarde anterior, esbarrámos com um elefante solitário a esticar a tromba para aceder às folhas de uma acácia, com babuínos em piruetas e um bando de mabecos numa cesta. Com a noite, chegámos à lagoa ao fim de uma vegetação rasteira, como se fosse um mar de larvas de uma erupção recente, com a cor azul cinza do céu ao fim do dia, e do sol com o laranja a roçar o vermelho.

Uma cor que resiste mesmo depois de o sol se pôr. Mas nada hoje é como foi ontem. O céu deu outra cor à lagoa. As impalas, que durante a tarde estavam sempre esquivas, apenas vultos entre os arbustos a desafiar a nossa retina, pela manhã deixam-se ver por mais tempo, como se se espreguiçassem depois de uma noite em que estiveram demasiado ocupadas a ser invisíveis aos olhos dos predadores. Um hipopótamo deixa-se banhar numa destas lagoas feitas de vazio e água e folhas de árvores como confetes de celebração da vida. E não há-de ser sempre isso um novo dia, a celebração da vida? Um leão ruge, seguimos a direcção do som, perdidos na excitação de o encontrar. Mas no lugar sugerido pelo rugi-

Luz Sépia do, apenas uma garça no ramo mais alto da árvore. Depois dela, só o céu. Em terra, nem sinais do leão, apenas ossadas − de um waterbuck, dizem-nos os guias mais experientes. As distribuições dos ossos dizem muito sobre os predadores. Os guias, neste ofício diário de perscrutar a vida selvagem, aprenderam também a ser legistas. “Foram os mabecos”. Como sabem? Dizem-me que estes cães selvagens que aprenderam a andar em bando para se tornarem mais fortes e eficazes, depois de abater a presa, destroçam-na, puxando cada um o naco que possa saciar a fome. Não há ar de dúvida no que fa-

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lam, acedemos. Ao longe, uma manada de bois-cavalos aproxima-se. Mas nota a nossa presença e embrenha-se, de volta, pela floresta mais fechada. Outra vez, o rugido do leão. Viramo-nos para a nova direcção. “Não tens medo de encontrar o que tanto procuras?”, uma pergunta colocada a um dos personagens de um dos contos d’ “O caçador dos elefantes invisíveis”, de Mia Couto, que agora podia ecoar como plot de um filme de terror. Mas o peso da curiosidade parece sempre fazer do medo pluma. Encontramos o leão refestelado num capim baixo, como se pousasse para a fotografia. Prepara-se para a sesta, depois de uma noite longa a tentar ser invisível até apanhar as presas. Parece notar a nossa presença. Mas, depois, vai-se encolhendo no capim, como se não quisesse ser fotografado ou filmado com a luz errada − Madonna dizia o mesmo de Warren Beatty. O Parque Nacional de Gorongosa também se desfez da luz sépia do passado, a dos anos das guerras que quase o condenavam também à morte. Ressurgiu das cinzas pela mão de Greg Carr, um filantropo que fez fortuna na tecnologia e decidiu investir em causas ambientais. Em 2004, com o Governo de Moçambique, acordou reconstruir a infra-estrutura do Parque, restaurar a sua fauna e flora bravias e estimular o desenvolvimento económico. Hoje, quase 20 anos depois, o PNG é um exemplo de restauração e conservação de África e que tem muito a ensinar ao mundo. Mas há a vida para lá do Parque. Pelos caminhos da famigerada Serra da Gorongosa, com montanhas pejadas de verde no horizonte, perseguimos a cachoeira. Sabemos que está por perto. Ouvimo-la a mover-se. A água corre e cai. A cachoeira parece nascer das pedras. A água corre e cai, agora sobre os nossos ombros. Texto Elton Pila Fotografia D.R www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022

Um hipopótamo deixa-se banhar numa destas lagoas de vazio e água e folhas como confetes de celebração da vida. E não há-de ser sempre isso um novo dia? ROTEIRO COMO IR A partir de Maputo, pode voar até à Beira. É uma viagem de perto de 200 km por estrada até chegar à Gorongosa.

O QUE FAZER Safari ao fim da tarde e ao início da manhã. Seguir pelos trilhos até à cachoeira. Mas também visitar o tanto de projectos implementados pelo Parque, como o Centro de Reabilitação de Pangolim (onde pode pegar nos animais).

ONDE COMER O restaurante do Montebelo Gorongosa Lodge & Safari fornece uma variedade de pratos.

ONDE DORMIR No Montebelo Gorongosa Lodge & Safari ou nas tendas na área do Parque, com direito a visita de facoceiros e de pequenos macacos.

CUIDADOS A TER Não alimentar os animais. Ter sempre os guias por perto. Parte do trilho para a cachoeira é feito a pé, tem de estar devidamente calçado.

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Inaugurado em 2019, é já um clássico da oferta gastronómica de Maputo, na qual ganhou lugar devido a uma proposta que apela à viagem por sabores que reflectem culturas diversas

para os verdadeiros amantes das artes gastronómicas, o ritual da degustação é algo que está muito para além de uma mera experiência sensorial (por muito extraordinária que ela possa ser). Mesmo quem não leu Marcel Proust, Manuel Vázquez Montalban, Eça de Queiroz ou Andrea Camilleri (entre tantos outros escritores que aqui poderíamos citar), sabe como a comida tem também o poder de evocar memórias, afectos, encontros e lugares. Mas se existe um traço comum entre os genuínos apreciadores dos prazeres da mesa é a sua incondicional disponibilidade para partir à descoberta dos sabores sabendo, consciente ou inconscientemente, que essa disponibilidade, esse apetite vital, reflecte uma abertura ao mundo, aos outros, à diferença e constitui também, de algum modo, um exercício de auto-conhecimento. Estas observações vêm à mente a propósito do Nom. Inaugurado em 2019, é já um clássico da oferta gastronómica de Maputo, na qual ganhou lugar devido a uma proposta que apela à viagem por sabores que reflectem culturas diversas e estilos culinários variados, e tudo bem “empratado” num jardim acolhedor, cuidadosamen-

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NOM

Rua de Chuindi, n.º 45 Maputo

g O mesmo Nom, te decorado, espaçoso e arejado. Com uma nova ementa ‘inaugurada’ há algumas semanas, comecemos pelas entradas em que destacamos o ceviche de garoupa. O ceviche, cebiche ou seviche é um prato de origem peruana baseado em peixe cru marinado em sumo de limão ou outro cítrico. Outras opções nas entradas incluem: amêijoas com coco e gengibre, caldinho de feijão com enchidos e o beef koftas - estes muito presentes na gastronomia dos países que resultaram da implosão do antigo Império Otomano, numa extensão que cruza o norte de África, passa pelos Balcãs e atravessa o Médio Oriente até ao Irão. Também conhecidos por kufta, kafta, kofteI, ktsitsot ou cafta – os kofta são uma espécie de almôndegas ou salsicha, feitos à base de carne de bovino e borrego, misturados com várias especiarias, alho, cebola e

uma nova ementa

salsa. Continuando nesta viagem multicultural, agora pelos pratos principais, encontramos, entre outras iguarias, o caril malaio com camarão - tem origem no subcontinente indiano, mas encontra-se também muito difundido noutras regiões que podem ir do Azerbeijão à Turquia - a apa mexicana, o bacalhau com natas e batata doce, as ribs (costelas) com arroz birmanês, as noodles com camarão e legumes ou, para algo completamente diferente, a picanha “completa” (com feijão preto e farofa). Embora todas estas propostas sejam interessantes e mereçam prova, a nossa sugestão vai para o bife Wellington. Conhecido por ser um prato típico inglês (reza a história que ele foi “concebido” para celebrar a vitória do Duque de Wellington sobre as tropas de Napoleão na famosa Batalha de Waterloo)

há, porém, quem ponha a hipótese de os ingleses se terem, de facto, “apropriado” de uma receita francesa (o filet de bœuf en croute). Independemente das variações “criativas” que podemos encontrar hoje, propostas por diferentes chefs, a receita tradicional consiste num bife que é coberto com um patê (em geral, foie gras) e/ou duxelles (um preparado de cogumelos paris, chalotas e ervas finamente cortadas e salteadas em manteiga), que é assado envolto numa crocante cobertura de massa folhada. Para terminar, o Nom propõe várias sobremesas com destaque para as tartes de maçã ou chocolate, o cheesecake e a mousse de chocolate. Por último, semanalmente, às quintas-feiras, o espaço propõe um ‘women happy hour’, numa noite de cocktails em que o gin basílico ganha o lugar principal nas escolhas. Texto Pedro Cativelos Fotografia Mariano Silva www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


A evolução do mercado foi grande nos últimos anos no que diz respeito às artesanais. Felizmente, as coisas mudaram, os públicos têm muitas opções, mas continua a haver um trabalho que deve ter o foco na qualidade

Oitava Colina, a Cerveja Artesanal nascida e criada em lisboa, a Oitava Colina é um nome importante das cervejas artesanais portuguesas. Actualmente sem mãos a medir para responder à demanda deste tipo de cerveja – aumentou recentemente a capacidade fermentativa em mais de 50 % – não abdica do espírito experimentalista que lhe está na origem e no sangue. Começou, segundo narram Pedro Romão e o seu irmão Sérgio, co-fundadores da Oitava Colina, como muitas histórias de cerveja artesanal nascem - enquanto hobby de fazer cervejas em casa. Vendeu a sua primeira cerveja em 2015, mas já antes decorriam experiências em número significativo, depois das quais se seguiu a criação da marca, em 2014, e as primeiras vendas no início do ano seguinte. O nome deve-se a Frei Nicolau de Oliveira, um frade português que ficou conhecido por ser autor de uma obra sobre a cidade onde nasceu e morreu, “O Livro das Grandezas de Lisboa”. No século XVI, o Frei Nicolau lançou esta obra, que muitos consideram ter sido o primeiro livro de marketing sobre uma cidade. Nela refere que ao entrar em Lisboa, pelo Terreiro do Paço, existe uma oitava colina por detrás da colina do castelo (a Colina da Graça). Mas como Lisboa queria manter a proximidade e semelhança com a grande capital de então, Roma, vamos ignorar esta colina e mantemos as conhecidas sete. A partir daí, criou-se todo um storytelling com um cenário idílico e personagens como a Urraca Vendaval ou a Zé Arnaldo, hoje nomes de cervejas bem conhecidas da Oitava Colina e já incontornáveis para os seus públicos. A evolução do mercado foi grande nos últimos anos no que diz respeito às artesanais. Felizmente, as coisas mudaram, os públicos têm muitas opções, mas continua a haver um trabalho que deve ter o foco na qualidade. E isso reflecte-se no preço de venda que é, naturalmente, superior a das cervejas industriais. No portefólio da Oitava Colina encontramos três cervejas principais: a Urraca Vendaval (IPA), a Vila Maria (Blonde Ale), a Zé Arnaldo (cerveja preta) e a Joe da Silva (American Pale Ale). A primeira é uma cerveja de bandeira para a marca e também para todo o movimento cervejeiro artesanal. A Vila Maria é uma cerveja do estilo ‘Blonde’ que faz a entrada no portefólio. A Joe da Silva está alinhada com a Urraca, mas é mais www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022

que já é Referência acessível no estilo, ao nível do palato e do sabor. As cervejas de edições especiais são importantes para a Oitava Colina, mas nem sempre é fácil dedicar tempo à sua produção, porque o consumo está a ser muito exigente e há que se trabalhar para ter os stocks das cervejas principais em dia. Só depois é que se pode dedicar aos projectos especiais”, afirma Pedro Romão, que não ignora a importância do experimentalismo. Nos últimos quatro anos, a Oitava Colina fez uma parceria com a Justino’s (vinho da Madeira) em que recebeu barricas de quatro castas míticas da ilha: Malvasia, Sercial, Boal e Verdelho. O resultado foi muito positivo e as experiências são para repetir.

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Beira Boi

‘Nhama’ de Nhamatanda. Quando a Carne é Forte, o Acaso Vira... Caso de Sucesso inventar, reinventar, transformar, investir, arriscar… e sair da zona de conforto. Eis alguns dos verbos e expressões mais comuns quando se fala em empreendedorismo, imperativos para todo o empreendedor, de qualquer que seja a área. Neste texto em particular, “reinventar” talvez seja, entre todas estas, a expressão de eleição, a avaliar por tudo o que a própria história inspira. Frederico Carvalho, português apaixonado por Moçambique de 42 anos, com formação na área de mecânica, chegou ao País em 2013 longe de imaginar que, um dia, seria empresário na área do agronegócio, e especialmente, na criação de gado. Influenciado por um amigo que trabalhava como engenheiro agrónomo para uma em-

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presa do ramo agro-pecuário – a Beira Boi, criada em 2008, e instalada na cidade da Beira, no distrito de Nhamatanda, que opera na criação de bovinos de corte. Como todas as empresas está sujeita a riscos e, em 2020, a Beira Boi enfrentou uma crise de gestão e teve as estruturas danificadas durante a passagem da época ciclónica que fustigou severamente a região centro. Essa situação levou a que os antigos proprietários optassem por vender o empreendimento. Como tantas vezes, foi na crise que se abriu a oportunidade para Frederico Carvalho entrar como sócio da empresa. Mas a “bolada” que lhe caiu do céu por mero acaso viria a tornar-se, nos primeiros momentos, numa herança, digamos, ‘maldita’.

Frederico teve de lidar, entre outros aspectos, com problemas legais, precisou de refazer as cercas da fazenda, reabilitar os edifícios destruídos e investir. E investir. E investir. A repetição não é casual. “Neste negócio essa foi a minha primeira aprendizagem: é preciso investir muito e ter paciência para garantir qualidade”, repete. “E só vale a pena se for para ser assim”, reitera. “Investi todas as poupanças que fiz desde os 19 anos, e ainda tive o grande apoio da minha esposa e amigos, está tudo nesta empresa, mas nunca pensei em recuar apesar de todas as dificuldades”, conta, impelido pelo sonho e alimentado pela persistência. Desde então, conseguiu abrir um novo capítulo de sucesso à empresa. Hoje, a Beira Boi conta com uma manada www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022


E “Sempre fui audaz, mas confesso que desta vez me superei. No entanto, nunca pensei em recuar apesar das dificuldades. Acho que o sonho vale a pena”

mpreendedorismo

de mais de mais de 1 300 cabeças, com infra-estruturas de gestão melhoradas e, mais importante do que tudo, com boas projecções sobre o futuro do negócio. Até ao final do ano, a empresa espera ter 1 700 animais e projecta que, nos próximos anos, venha a ser o maior fornecedor de carne bovina da província de Sofala e de toda a zona Centro. “Moçambique tem um potencial enorme a este nível, uma população a crescer e, no limite, muitos mercados para absorverem a exportação, temos tudo o que precisamos no país para desenvolver a agro-pecuária”, diz. Actualmente, fornece uma média mensal de 25 cabeças para os supermercados da cidade da Beira que é, até agora, a única região que cobre. “A genética é o ponto fulcral do negócio, e para isso tivémos de investir fortemente na saúde dos animais, na alimentação que agora aumentou devido aos custos da ração, mas com resultados que estão à vista, nomeadamente ao nível da taxa de prenhez de 86% e de uma baixa taxa de mortalidade”, assinala. O único produto comercializado pela empresa, até agora, é gado de corte. No entanto, prevê vender também gado reprodutor, estando, por isso, a investir na aquisição de raças melhoradas de animais e em melhoramentos genéticos (por via do cruzamento de animais) para acrescentar qualidade à produção. Depois, além de aumentar o número de animais, a Beira Boi está a trabalhar num projecto inovador, que irá evitar a propagação de doenças na manada, reduzir os custos veterinários e beneficiar outros criadores — um centro de serviços para gado, um lugar que servirá para análise da saúde dos animais, diagnóstico e tratamento de doenças, antes que sejam integrados na manada ou no terreno onde ficam, evitando o risco de propagação para outros animais. Frederico Carvalho considera ainda “fundamental” o trabalho social que a empresa já desenvolve com as comunidades que estão na propriedade e que a Beira Boi continuará a apoiar, já a partir do início do ano escolar, através da doação de uma merenda escolar e de leite para os alunos das escolas comunitárias, sendo que irá continuar também a empregar quase exclusivamente pessoas da região. Quem seria capaz de adivinhar que quem “veio para ser só mecânico” acabaria por se tornar num promissor e, esperamos, cada vez mais bem-sucedido produtor de ‘Nhama’ – que em tsonga, significa carne? TEXTO Filomena Bande FOTOGRAFIA D.R.

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“DANÇA DAS SOMBRAS”

A exposição teve lugar recentemente na cidade de Maputo

Semblantes e Olhares, as múltiplas cores nos stands do Centro Premier do Absa Bank Moçambique fizeram o local confundir-se com um museu. Indo mais perto, diríamos tratar-se de um museu de rostos. Rostos com olhares tristes e alegres, olhares de esperança. Rostos que expressam emoções indescritíveis e incertezas da infância e emojambiques (emojis moçambicanos). As obras expostas a 29 de Agosto resultaram de restos de capulana, madeira e papel que, nas mãos do artista Mateus Sithole, foram encrustadas em telas vazias, revelando rostos de crianças e mulheres que espelhavam as mais diversas emoções da alma, representações da beleza profunda e natural da mulher negra, representação de culturas e de lugares icónicos de Moçambique, como o Oceano Índico que banha o solo pátrio a leste. Os semblantes e olhares representados também podem ser vistos como uma expressão de alívio pelo tempo de isolamento que tivemos. Assim o é para o artista “porque, quando a pandemia do covid-19 estava forte, usávamos máscaras e não podíamos ver certas partes do rosto uns dos outros. Já tínhamos saudades dos ros-

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a Arte que Revela tos sem máscaras. Então, dou à sociedade o presente de ver emoções expostas”. Os quadros foram “pintados” de capulanas recolhidas em todas as províncias do País como forma de representar todas as culturas e tradições. As personagens (mulheres e crianças) e o material foram meticulosamente seleccionados pelo artista. “Representei mulheres e crianças porque são vulneráveis, com emoções verdadeiras e merecem respeito e carinho. Também tentei abordar o meio ambiente porque, como artista, tenho também responsabilidade sobre a sua conservação. Foi também por isso que usei a capulana, um material ecológico, e papel fumado, que representa a destruição das nossas florestas”, explicou Mateus Sithole. Mais do que semblantes e rostos emotivos, o artista demonstrou aos outros artistas que é possível produzir com o pouco material que existe ao redor, e que foi assim ele se reinventou perante as dificuldades de obtenção de material impostas pela pandemia. O desfile de semblantes e olhares foi promovido pelo banco Absa no âmbito do seu

Emoções da Alma Pop-Up, que visa promover a arte tornando-a acessível a todos, e dar a possibilidade aos artistas de se darem a conhecer ao mundo, contando a história por detrás das suas obras num ambiente descontraído. Segundo a directora de Marketing e Relações Corporativas do Absa Moçambique, faz parte dos pilares do banco o engajamento com as artes e culturas. “Há muitos anos que apoiamos as artes e cultura, não apenas pela sua importância para o desenvolvimento cognitivo e intelectual das pessoas e pelos valores que transmite para a sociedade, mas também pelo apoio que o Absa dá aos jovens que estão no início da carreira para que consigam lançar-se no mercado”, revelou. Esta é a segunda mostra individual de Mateus Sithole, na qual, através de técnicas de pintura e colagem, com recurso a desperdícios de têxteis/capulana, madeira e papel, corporiza as suas expressões artísticas.

Os semblantes e olhares representados também podem ser vistos como uma expressão de alívio pelo tempo de isolamento no auge da pandemia do covid-19

TEXTO Filomena Bande FOTOGRAFIA Mariano Silva

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FERRARI

O Alpenglow tem dois tanques cilíndricos de armazenamento de hidrogénio de 700 bar, com peso entre 1000 kg e 1200 kg

v Alpenglow, a Antecipação de um Futuro A ALPINE, departamento desportivo da Renault, apresentou, recentemente, um automóvel conceptual com design disruptivo e futurista, e uma particularidade que merece destaque: o hiper carro poderá mover-se a hidrogénio! Na sua apresentação não foram revelados grandes pormenores técnicos, mas o pouco que se deu a conhecer não tem como passar despercebido: tem mais de cinco metros de comprimento, mais de dois metros de largura e menos de um metro de altura, vem equipado com um motor a combustão que pode ser neutro em

que Será Dominado pelo Hidrogénio carbono, desde que seja alimentado por hidrogénio, isto porque a Alpine acredita que os eléctricos movidos a bateria e a célula de combustível podem coexistir com os automóveis movidos a hidrogénio equipados com um motor de combustão. Mesmo com dois tanques cilíndricos de armazenamento de hidrogénio de 700 bar em ambos os lados do motorista, ele pesa entre 1000 kg e 1200 kg - o uso extensivo de fibra de carbono reciclada na sua construção terá sido um dos gran-

Tem mais de cinco metros de comprimento, mais de dois metros de largura e menos de um metro de altura, vem equipado com um motor a combustão neutro em carbono

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des responsáveis pela manutenção do peso baixo e espera-se o mesmo dos carros futuros. O Alpenglow, concebido para ser amigo do ambiente, faz uso do carbono reciclado para ajudar no impacto ambiental. Este carro-conceito é o ponto de partida para o design, tecnologias e inovações dos futuros carros da Alpine, mantendo-se sempre fiel à história da marca, como explicou Laurent Rossi, CEO da Alpine. “O design poderoso e luxuoso do Alpenglow indica como serão os carros da Alpine amanhã e a nossa visão para o avanço do desporto motorizado”, afirmou Laurent Rossi, acrescentando que, “com a tecnologia de hidrogénio, estamos a fortalecer o nosso compromisso com um futuro responsável e a manter o prazer de conduzir”. www.economiaemercado.co.mz | Outubro 2022