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O SABOR DA CEREJA A Palma de Ouro de Abbas Kiarostami em cópia restaurada

PATERSON

“A pura arte da vida corrente” no novo filme de Jim Jarmusch

Julho | Agosto 2017

UM ANO DE CINEMA(S) Os melhores filmes do ano no Espaço Nimas

POLINA

Quando uma jovem bailarina encontra Juliette Binoche

FRANTZ

Sedutor drama do pós-guerra por François Ozon

JULHO | AGOSTO '17

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EDITORIAL Para alguns de nós, em certos momentos, o Verão pode ser cruel — já o diziam, e bem, as Bananarama. Com mais calor do que aquele que conseguimos suportar, a sala de cinema é o refúgio perfeito. É o que lhe propomos para os meses de Julho e Agosto: entre na sala e partilhe uma cerveja com Paterson, perca-se com Isabelle Huppert e Louis Garrel em As Falsas Confidências, dance com Polina, de Valérie Müller e Angelin Preljocaj, cante com London Town, de Derrick Borte. No Espaço Nimas, pode ver ainda as 9 obras de Kenji Mizoguchi, e de 20 de Julho a 16 de Agosto há Um Ano de Cinema(s), com mais de 50 filmes que o marcaram. Também foi cruel o Verão de 2016, que nos levou Abbas Kiarostami. Recordamos o realizador iraniano com O Sabor da Cereja, em cópia restaurada, assinalando o 20º aniversário do filme. Get up and go! As Nossas Salas: Cinema Monumental (Lisboa) Espaço Nimas (Lisboa) Teatro Campo Alegre (Porto) Auditório Charlot (Setúbal) Theatro Circo (Braga) Teatro Académico Gil Vicente (Coimbra)

AS FALSAS CONFIDÊNCIAS LES FAUSSES CONFIDENCES

DE LUC BONDY ESTREIA 6 JULHO

Dur: 1h 22min

COM ISABELLE HUPPERT, LOUIS GARREL, BULLE OGIER, YVES JACQUES

EXCLU

CINEMSIVO

MEDE AS IA

As verdadeiras “Falsas confidências” de Isabelle Huppert e Louis Garrel Alucinante adaptação da peça de Marivaux, foi nos bastidores do Théâtre de l'Odéon que Luc Bondy filmou As Falsas Confidências. Os dois actores regressam à última realização de Luc Bondy, falecido em Novembro de 2015. Isabelle Huppert: Quando o Luc nos falou deste projecto de ficção de As Falsas Confidências para o canal Arte, eu lembrei-me do filme extraordinário que ele tinha feito a partir da sua peça Terre étrangère, a partir de Arthur Schnitzler. Tanto em cena como no ecrã, os actores estavam magníficos: tinha a Bulle Ogier, a Kristin Scott-Thomas, o Michel Piccoli, o Didier Sandre… Eu soube imediatamente que aconteceria a mesma coisa com As Falsas Confidências. Soube que ele não iria fazer uma adaptação clássica, que o seu filme seria invulgar. Louis Garrel: O lado absurdo desta peça As Falsas Confidências é que ela não tem praticamente enredo! Numa comédia romântica, distinguimos aqueles que estão apaixonados daqueles que não estão, e a grande questão é saber quando os primeiros vão declarar finalmente a sua paixão aos segundos. Com Marivaux, é outra coisa! As Falsas Confidências é um pouco como se tivéssemos a matriz de uma comédia romântica, mas com a profundidade de uma história que se escreve em tempo real: as personagens perguntam a si próprias se estão apaixonadas! Toda a peça reside nesta ambiguidade… Inicialmente, tive receio que corresse mal esta versão filmada de uma peça clássica tão enigmática, mas quando vi o Luc corrigir o argumento à medida, ultrapassar os obstáculos multiplicando os locais de rodagem no Odéon: no terraço, no parc du Luxembourg, eu pensei que ele iria criar um objecto barroco, muito estranho! E para mim, é uma qualidade fazer um filme estranho!

“O grande paradoxo do Luc é que quando fazia cinema, detestava o cinema e queria fazer teatro, e quando fazia teatro detestava o teatro e preferia o cinema!” Louis Garrel

Centro de Artes e Espectáculos (Figueira da Foz)

Programação sujeita a alterações de última hora. Confirme sempre em www.medeiafilmes.com

Equipa Director: Paulo Branco Coordenação Editorial: António Costa Colaboram neste número: Ana David, Enrique Vila-Matas, Fátima Castro Silva, Inês Viana, Mehdi Jahan, Nuno Galopim, Raquel Morais, Renata Curado, Sabrina D. Marques. Design: André Carvalho e Catarina Sampaio Capa: O Sabor da Cereja Com o apoio

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Festivais e Prémios: Festival de Locarno Selecção Oficial, Fora de Competição

[Excerto de uma entrevista a Isabelle Huppert e Louis Garrel, conduzida por Hélène Rochette e publicada no site da Télérama em Março de 2017. Trad. Renata Curado]


ESTREIAS CINEMA

PATERSON

DE JIM JARMUSCH EM EXIBIÇÃO

PATERSON

COM ADAM DRIVER, GOLSHIFTEH FARAHANI, KARA HAYWARD, STERLING JERINS Dur: 1h 58min

Paterson em “Paterson” Escrevia Andrés Ibáñez que há algo em Roberto Bolaño que causa irritação a muitos dos nossos críticos e escritores: “Ficamos a pensar que se Bolaño não tivesse conseguido dar o salto para o inglês, e daí para o mundo e para a Via Láctea, tentariam fazer de tudo para acabar com ele e enterrá-lo. Mas escapou do seu túmulo. É um fantasma livre.” [...] Procurava, ao evocar fantasmas livres, falar da beleza de um tipo de vida quotidiana que certamente há que situar nos antípodas da que levam os nossos obscuros serralheiros. Procurava falar da forma de vida descrita por Jim Jarmusch em Paterson, filme onde de novo se confirma que a tendência humana para o interesse por minúcias sempre conduziu a grandes coisas.

Paterson (Adam Driver), que é condutor de autocarros e tem o mesmo nome de Paterson, a cinzenta cidade industrial em que trabalha, parece ter lido bem Ron Padgett e, quando dispõe de algum momento — é um perspicaz observador daquilo que se passa quando não se passa nada — pensa ou escreve versos simples que, salvaguardadas as diferenças, evocam tanto o estilo de Frank O’Hara — aquele poeta que transformava o seu trabalho rotineiro em pura arte da vida corrente — como o de William Carlos Williams, e inclusivamente, como nos sugerira no Estoril o próprio Jarmusch, “a poesia narrativa de Bolaño em Los perros románticos”. [...] Paterson constrói poemas para fazer horas, como dizem os portugueses, ou seja, pelos mesmos motivos que às vezes se lê: para matar o tempo. E também porque, enquanto conduz o autocarro e elabora os seus versos, faz coincidir a arte e a vida. Paterson, o filme, é uma desconcertante maravilha no meio da vulgaridade do cinema do nosso tempo. Já Paterson, o homem, parece às vezes a sombra de Robert Walser, criador de tantas “histórias realistas sem acção”. Mas Paterson nem sequer aspira a publicar o que escreve. E nisto é ainda mais humilde do que Walser, o que já é dizer muito. Enrique Vila-Matas, CAFÉ PEREC, El País [cortesia do autor; trad. Inês Viana]

Paterson constrói poemas para fazer horas, como dizem os portugueses, ou seja, pelos mesmos motivos que às vezes se lê: para matar o tempo. E também porque, enquanto conduz o autocarro e elabora os seus versos, faz coincidir a arte e a vida. É bom reparar no pequeno e no não importante, disse-nos Jarmusch, fará um mês, na varanda do Intercontinental do Estoril, em frente a um mar azul-aço. E recordo que, enquanto falávamos de Paterson e do seu subtilíssimo elogio da arte como forma de relação com o quotidiano, fui compreendendo que, dado que tudo se tornou depressivo, pode ser mais subversivo enfrentar a vida com um olhar contido como sucede com este bendito filme — do que com um previsível pessimismo que já cansa. Festivais e Prémios: Festival de Cannes – Selecção Oficial, em Competição; Palm Dog Festival de Toronto – Selecção Oficial Lisbon & Estoril Film Festival – Selecção Oficial

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ESTREIAS CINEMA

3 GERAÇÕES

EXCLU

CINEMSIVO AS M

ESTREIA 13 JULHO

EDEIA

3 GENERATIONS

DE GABY DELLAL

COM NAOMI WATTS, ELLE FANNING, SUSAN SARANDON

Dur: 1h 32min

Ray (Elle Fanning) é um rapaz transsexual adolescente a viver em Nova Iorque com a mãe solteira (Naomi Watts), a avó lésbica (Susan Sarandon), e a namorada da avó (Linda Emond). A primeira cena do filme coloca a família num consultório onde um médico lhes explica o processo de transição clínica FtM, do inglês Female to Male, ao qual Ray quer proceder antes de iniciar as aulas numa nova escola. Enquanto Ray desde sempre soube o que queria, o formulário de consentimento parental que a mãe precisa de assinar põe o seu até aí incondicional apoio à prova, enquanto a avó continua sem entender nem aceitar a mudança. 3 Gerações da realizadora britânica Gaby Dellal é o mais recente título comercialmente distribuído com narrativa sobre jovens trans, de onde se destacam belíssimos filmes como Something Must Break de Ester Martin Bergsmark (2014), Tomboy de Céline Sciamma (2011), e o clássico Boys Don’t Cry de Kimberly Peirce (1999). Mas se tanto estes filmes, como potencialmente uma primeira versão com o título About Ray apresentada em 2015 no festival de Toronto, eram maioritariamente centrados no ponto de vista da personagem principal, 3 Gerações é muito mais sobre a luta interna e receios da mãe bem como sobre a confusão entre os conceitos de identidade de género e orientação sexual por parte da avó — Why can’t she just be a lesbian? Não sendo

representativo de uma juventude trans — começando pela opção de ter escolhido uma actriz cisgénero ao invés de um actor trans para representar o papel de um rapaz — o filme procura antes ser uma introdução ligeira, um feel good movie, aos problemas que decorrem de uma sociedade ainda desinformada e transfóbica: a confusão dos pronomes erradamente atribuídos, a dificuldade do uso de casas-de-banho públicas insistentemente binárias, e o bullying ocasional. O argumento original de Gaby Dellal tem como motor para avanço da narrativa a assinatura do formulário não só pela mãe como pelo pai há muito desaparecido, levando as três mulheres a confrontarem-se com um enterrado passado da família. Parte dramático, parte humorístico, o uso do último deixa antever um final feliz. Essa alternância entre os dois registos é suportada por um elenco de luxo sempre capaz e que tem em Susan Sarandon o seu corolário. Já antes deliciosamente aliada da representação lésbica em The Hunger e em Thelma & Louise, Sarandon é por si só um motivo para assistir ao filme. Ana David

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ESTREIAS CINEMA

LADY MACBETH LADY MACBETH

Dur: 1h 29min

DE WILLIAM OLDROYD ESTREIA 20 JULHO COM FLORENCE PUGH, COSMO JARVIS, CHRISTOPHER FAIRBANK

Na peça maldita de William Shakespeare, Lady Macbeth incitava o marido à acção pondo em causa a sua virilidade. A dureza e a inclemência são ali atributos do masculino, dos quais Lady Macbeth, por excesso de desumanidade, se assenhora. Nikolai Leskov, autor russo, tomou de empréstimo ao poeta inglês a implacável figura daquela mulher. Escreveu, em meados do século XIX, Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, uma novela que daria origem, em 1934, à ópera de Dmitri Chostakovitch com o mesmo nome, bem como ao filme de Andrzej Wajda, Lady Macbeth Siberiana, de 1962. Lady Macbeth (2016) é a primeira longa-metragem do britânico William Oldroyd, que tem trabalhado essencialmente como encenador de ópera e de teatro.

Se os propósitos da personagem de Shakespeare eram bem distintos, as suas sucessoras, nomeadamente as duas heroínas russas (de Leskov e de Chostakovitch), em que Katherine Lester, protagonista do filme de Oldroyd, é directamente inspirada, herdaram da sua progenitora a potência e a determinação. Mais do que cirandar pelos meandros da concepção dos crimes daquela mulher, prato forte da peça shakespeariana, Oldroyd ocupa-se a expô-los e à frieza quase sempre inabalável com que ela os comete. Raquel Morais

Festivais e Prémios: Toronto International Film Festival 2016 London Film Festival 2016 San Sebastián International Film Festival 2016 – Prémio FIPRESCI

DUAS MULHERES, UM ENCONTRO

ESTREIA 6 JULHO

SAGE FEMME

DE MARTIN

PROVOST

Dur: 1h 57min

COM CATHERINE DENEUVE, CATHERINE FROT, OLIVIER GOURMET

Duas grandes actrizes – Catherine Deneuve e Catherine Frot – dão vida a Béatrice e Claire, as personagens principais do novo filme de Martin Provost.

CATHERINE DENEUVE Interpretou Sévérine em A Bela de Dia (1976) naquele que é o seu papel mais icónico, e que lhe valeu uma nomeação para os BAFTA. Em 1993, foi nomeada para o Óscar de Melhor Actriz pelo seu papel em Indochina (1992) e venceu um César na mesma categoria. Recebeu, em 1998, um Urso de Ouro Honorário no Festival de Berlim, e em 2005 foi distinguida com uma Palma de Ouro Honorária no Festival de Cannes. Recentemente, interpretou a juíza Florence Blaque em De Cabeça Erguida, filme de abertura do Festival de Cannes em 2015.

CATHERINE FROT Co-fundou, em 1978, a companhia teatral Chapeau Rouge, e nos seguintes dedicou-se principalmente ao teatro. Estreou-se no grande ecrã em 1980, no filme O Meu Tio da América, de Alain Resnais. Em 1997, venceu o César de Melhor Actriz Secundária pela sua interpretação em Un air de famille, e em 1999, na comédia La diletante (1999) teve o papel de protagonista. Com Marguerite (2015) obteve um grande sucesso: o filme valeu-lhe o César para Melhor Actriz e o Prémio Lumière, na mesma categoria.

Festivais e Prémios: Festival de Berlim – Selecção Oficial, Fora de Competição

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ESTREIAS CINEMA

FRANTZ

ESTREIA 10 AGOSTO

FRANTZ

DE FRANÇOIS OZON

COM PAULA BEER, PIERRE NINEY, JOHANN VON BÜLOW, MARIE GRUBER

A determinada altura de Frantz, de François Ozon, diz-se o célebre poema de Paul Verlaine, Chanson d’automne. Estamos em 1919, na Alemanha, no difícil pós–Primeira Guerra Mundial, e quem o diz é Anna, uma jovem alemã, a Adrien, um antigo soldado francês que diz ter conhecido o seu noivo, Frantz, morto em combate. Verlaine era o poeta preferido de Frantz, que amava a cultura francesa e falava com Anna em francês, a “língua secreta” dos dois. O que Ozon irá dissecar neste seu penúltimo filme (o último, L’Amant Double, estreou este ano em Cannes) é este triângulo (afectivo e traumático, mais até que amoroso) entre Anna, Adrien e a presença/ausência de Frantz, que a ambos assombra. Produção franco-germânica, maioritariamente falado em alemão, Frantz é livremente inspirado num filme pouco conhecido de Ernst Lubitsch, de 1932, Broken Lullaby, que por sua vez adaptava uma peça de Edmond Rostand. Ozon parte dessa narrativa mas rearranja-a, insuflando-lhe mistério e ambiguidade ao protelar até meio do seu filme aquilo que era 6

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desde logo revelado em Lubitsch e Rostand. Esse twist lança Frantz num território que é só seu, uma ‘segunda parte’ totalmente ficcionada por Ozon, estruturada em espelho da ‘primeira’ (que fora centrada na chegada de Adrien à cidade alemã e suas implicações) e agora sobretudo interessada em Anna e no arco do seu trajecto. Melodrama tecido em surdina, elegante, surpreendentemente contido e casto, filmado num p&b ‘frio’ que se deixa ‘aquecer’ pelo rubor da cor em certas cenas, em Frantz traça-se também um subtil retrato de uma época (a culpa colectiva e o nacionalismo latente das nações ‘inimigas’, Alemanha e França). Num outro invulgar estudo sobre o luto (depois de, por exemplo, Sous le Sable ou o anterior Une Nouvelle Amie), Ozon termina Frantz num quadro pouco conhecido de Manet que Anna observa no Louvre (na última sequência em que a cor tinge o p&b, como se só a arte pudesse ser a ponte entre a dor e a esperança), um quadro que, apesar da violência do tema, dá a Anna “vontade de viver”. Fátima Castro Silva

Dur: 1h 53min

Canção de Outono Os soluços graves Dos violinos suaves Do outono Ferem a minha alma Num langor de calma E sono. Sufocado, em ânsia, Quando à distância Soa a hora, O meu peito magoado Relembra o passado E chora. Daqui, dali, pelo Vento em atropelo Seguido, Vou de porta em porta, Como a folha morta Batido. Paul Verlaine [Tradução de Alphonsus de Guimaraens]

Festivais e Prémios: Festival de Veneza – Selecção Oficial, em Competição; Prémio Marcello Mastroianni para Novos Talentos – Paula Beer Prémios César – Melhor Fotografia Festival de Toronto – Selecção Oficial Festival de Sundance – Selecção Oficial


ESTREIAS CINEMA

THE SEA OF TREES

BREVEMENTE

THE SEA OF TREES

DE GUS VAN SANT

COM MATTHEW MCCONAUGHEY, KEN WATANABE, NAOMI WATTS

Dur: 1h 50min

Quando teve a sua estreia em Cannes, The Sea of Trees foi um dos filmes mais marcantes do festival. Realizado por Gus Van Sant, conta com um verdadeiro elenco de luxo: Matthew McConaughey, Naomi Watts, Ken Watanabe. Os dois primeiros partilham connosco algumas impressões sobre o filme.

Matthew McConaughey: The Sea of Trees é uma história de afirmação da vida que deve deixar as pessoas a questionar as suas próprias vidas, de uma forma positiva. Quando saem da sala de cinema, devem ponderar: do que é que tomaram conta desde que estão no planeta? O que é que têm ainda a fazer enquanto cá estão? O que é que precisam de corrigir? (…) O filme lida com algo de espiritual. Alguns podem achar que tem a ver com Deus. Outros podem dizer que tem a ver com a reencarnação… purgatórios literais, o que lhe quiserem chamar. Muitos filmes que lidam com este assunto tornam-se pesados com o esforço de passar uma mensagem. Este filme é apenas poético. Vai deixar toda a gente a sair da sala de cinema e a caminhar até ao parque de estacionamento a pensar sobre aquilo que é, e aquilo que não é, quem era Takumi, — era o meu espírito, era o espírito da Joan? A floresta era realmente um local existencial? O argumento era poético e não passava uma mensagem religiosa, e no entanto era elegante e ao mesmo tempo… desafiava-nos. É preciso passar pela destruição para obter a salvação. E nós somos destruídos. Eu sou destruído. Por isso, este filme é também uma grande história de sobrevivência.

Naomi Watts: A vida é maravilhosa. A vida é muito curta e valiosa. Os altos e baixos fazem parte dela. Devemos simplesmente viver. As pessoas podem acreditar em coisas diferentes, e este é um filme onde não lhes é tudo ditado. Podem entendê-lo e interpretá-lo da forma que quiserem, mas existem questões… Para mim, o filme é sobre a viagem de Arthur para se curar a si próprio… Por isso aquele é o tempo de curar isso e a sua relação com aquele homem na floresta, o Takumi, é, para mim, uma metáfora… ou talvez seja real. Isso não importa. Não precisamos de ter a resposta para isso. Faz parte do seu crescimento. É uma parte necessária do processo e talvez agora ele tenha uma nova oportunidade, uma nova possibilidade de criar um potencial maior para si próprio. [Trad. Renata Curado]

Festivais e Prémios: Festival de Cannes — Selecção Oficial, Competição

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ESTREIAS CINEMA

O SABOR DA CEREJA

EXCLU

CINEMSIVO AS M

ESTREIA 17 AGOSTO

EDEIA

TA’M E GUILASS

DE ABBAS KIAROSTAMI

CÓPIA RESTAURADA

Dur: 1h 35min

COM HOMAYOUN ERSHADI, ABDOLRAHMAN BAGHERI, AFSHIN KHORSHID BAKHTIARI

O Sabor da Cereja: Ao redor da Árvore Filosófica Em 1997, O Sabor da Cereja trouxe a Palma de Ouro a Abbas Kiarostami e se o destaque em Cannes abria verdadeiramente o ocidente ao cinema iraniano, as críticas sobre este complexo filme divergiam. Talvez o mais enigmático e mais bem conseguido entre os títulos de Abbas Kiarostami, O Sabor da Cereja ainda hoje é uma mescla incomum de humor, meditação e mistério, que sobrevive à distância cultural. Resistindo a qualquer tipo de caracterização, este filme permanece tão velado como o seu protagonista Badii, que vemos navegar pelas periferias de Teerão no interior do seu Range Rover. Interpela desconhecidos com quem partilha uma missão para a qual necessita de auxílio (suicidar-se) mas as suas motivações permanecer-nos-ão incertas.

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Abbas Kiarostami


ESTREIAS CINEMA

Este filme demora-se como uma travessia entre as conversas de Badii com os três homens que “recruta” e com quem partilha reflexões. A natureza filosófica dos discursos adensa-se entre indagações acerca do suicídio, da vida e da morte — mas, para lá do seu significado literal, esta digressão parece-nos ser, sempre, sobre a natureza do próprio cinema. Se é verdade que é Badii quem nos conduz, nunca chegamos à identificação plena com o protagonista porque nunca conhecemos verdadeiramente as suas motivações — logo, nunca participamos inteiramente no seu conflito. Eis Kiarostami, respeitador dos mistérios da vida. Se esta desconstrução é capaz de pôr em causa as regras do storytelling a que Hollywood nos habituou, também garante ao espectador uma necessária distância moral, não definindo um juízo sobre a questão do suicídio. Quando nunca somos, de facto, apresentados à história, situamo-nos sempre em ponto de revelação. Mesmo que a descoberta da sua verdadeira situação nos pareça permanentemente insuficiente, este roadmovie larga-nos entre os termos práticos do seu conflito e, em permanente diálogo entre o seu interior e exterior, acompanhamos as progressivas decisões que conduzem ao materializar do seu objectivo.

Ao rejeitar as estruturas clássicas, o que Kiarostami faz é convidar os espectadores à participação activa na narrativa, em lugar de os instruir acerca do que sentir. Como um dia afirmou: “Acredito num cinema que dá mais possibilidades e mais tempo a quem o vê, um cinema semi-artesanal, um cinema incompleto, que é completado pelo espírito criativo do espectador para que, subitamente, tenhamos cem filmes num só.” A dado momento, Badii confronta um dos homens na honestidade abrasiva que traduz o seu desamparo: “Podes perceber-me mas não consegues sentir a minha dor.” É neste ponto de ruptura que o cinema mainstream se desmonta, assim expondo a impossibilidade última de qualquer tentativa de manipulação emocional da audiência. O que afinal Kiarostami aqui inscreve são as limitações gerais do cinema, que se esgota na superficialidade de uma empatia que corresponde, necessariamente, a uma distância. Trazemo-las connosco mas, face às personagens que vemos no ecrã, somos sempre outros. Mehdi Jahan [Trad. Sabrina D. Marques]

Festivais e Prémios: Festival de Cannes '97 - Palma de Ouro

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Estes são os filmes que conquistaram a crítica e o público e se destacaram ao longo do último ano. Podem agora (re)vê-los no Espaço Nimas: o programa UM ANO DE CINEMA(S) está de volta, e vai preencher os nossos dias de Verão, de 20 de Julho a 16 de Agosto (Saiba mais em www.medeiafilmes.com). 20 Jul - 14h, 19h

24 Jul - 14h, 19h

28 Jul - 16h30, 21h30

A ACADEMIA DAS MUSAS

FRANCOFONIA

JULIETA

"Trabalhando de novo no limiar do documentário e da ficção, o espanhol José Luis Guerín assina um filme magnífico."

24 Jul - 16h30, 21h30

de José Luis Guerín

Vasco Baptista Marques, Expresso

Festival de Sevilha – Giraldillo de Ouro

20 Jul - 16h30, 21h30

AMOR & AMIZADE de Whit Stillman

21 Jul - 14h, 19h15

EXPERIMENTER de Michael Almereyda

21 Jul - 16h30, 21h30

LOVE

de Gaspar Noé

de Aleksandr Sokurov

JASON BOURNE de Paul Greengrass

25 Jul - 14h, 19h

TESOURO

UMA PASTELARIA EM TÓQUIO de Naomi Kawase

“Um poema social com requintes gastronómicos, uma fábula de crianças contada aos adultos." Manuel Halpern, Visão

MILAGRE NO RIO HUDSON de Clint Eastwood

26 Jul - 14h, 19h

TANGERINE 26 Jul - 16h30

SE AS MONTANHAS SE AFASTAM

de Sebastian Schipper

23 Jul - 14h, 19h15

AMANHÃ

de Cyril Dion, Mélanie Laurent

23 Jul - 16h30, 21h30

LOGAN

de James Mangold

“Logan é o mais subversivo e soberano dos filmes modernos de super-heróis.” Inês N. Lourenço, Diário de Notícias

Festival de Berlim – Fora de Competição

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Festival de Cannes – Competição

FOGO NO MAR de Gianfranco Rosi

29 Jul - 16h30, 21h30

CAFÉ SOCIETY de Woody Allen

30 Jul - 14h, 19h15

TÃO SÓ O FIM DO MUNDO de Xavier Dolan

30 Jul - 16h15, 21h15

de Jia Zhangke

O HERÓI DE HACKSAW RIDGE

“Um belíssimo filme."

de Mel Gibson

Luís Miguel Oliveira, Público

Festival de Cannes - Competição

31 Jul - 14h, 19h

A TOCA DO LOBO 27 Jul - 14h, 19h

VICTORIA

Jorge Leitão Ramos, Expresso

29 Jul - 14h, 19h 25 Jul - 16h30, 21h30

Festival de Cannes – Un Certain Regard

22 Jul - 16h30, 21h30

“É um filme sereno e sofrido que volta a pôr Almodóvar no lugar que todos os cineastas que valem a pena tocam: o dos grandes sentimentos, das fundas emoções, porventura uma lágrima, uma canção rouca, um toque de vermelho.”

de Corneliu Porumboiu

de Sean Baker

22 Jul - 14h, 19h15

de Pedro Almodóvar

O ORNITÓLOGO

de Catarina Mourão

de João Pedro Rodrigues

31 Jul - 16h, 21h

“Está aqui o melhor filme português do ano, de longe.”

AMERICAN HONEY

Rui Pedro Tendinha, Diário de Notícias

Festival de Locarno - Leopardo de Prata para Melhor Realização

27 Jul - 16h30, 21h30

FLORENCE UMA DIVA FORA DE TOM de Stephen Fears

28 Jul - 14h, 19h

CAPITÃO FANTÁSTICO de Matt Ross

de Andrea Arnold

1 Ago - 14h, 19h

O VENDEDOR de Asghar Farhadi

“Asghar Farhadi não é apenas dos melhores realizadores contemporâneos: é, acima de tudo, um magnífico argumentista, alguém que explora a subtil complexidade das suas personagens mundanas com a perícia de um grande escritor.” Tiago R. Santos, Sábado Oscars - Melhor Filme Estrangeiro Festival de Cannes – Melhor Argumento e Melhor Actor


ESTREIAS CINEMA

1 Ago - 16h30, 21h30

6 Ago - 16h30, 21h30

11 Ago - 14h, 19h

ELA de Paul Verhoeven

MANCHESTER BY THE SEA

“O regresso em grande do provocador holandês Paul Verhoeven apenas pode existir, em todo o seu humor negro e sugestiva perversão, porque tem Isabelle Huppert no papel principal.”

VIDA ACTIVA: O ESPÍRITO DE HANNA ARENDT

“Esta representa a grande oportunidade de Affleck, a sua melhor interpretação até hoje, de uma eloquente tristeza. Recaiam sobre ele os louros, por favor.”

de Ada Ushpiz

Jorge Mourinha, Público

Golden Globes – Melhor Actriz Festival de Cannes – Competição César – Melhor Filme e Melhor Actriz

2 Ago - 14h, 19h

O EXAME

de Cristian Mungiu

2 Ago - 16h30, 21h30

GIMME DANGER de Jim Jarmusch

3 Ago - 14h, 19h

SAINT AMOUR de Benoit Delépine, Gustave Kervern

de Kenneth Lonergan

Inês N. Lourenço, Diário de Notícias

Oscars – Melhor Actor, Melhor Argumento Golden Globes – Melhor Actor BAFTA – Melhor Actor, Melhor Argumento

7 Ago - 14h, 19h

AMA-SAN de Cláudia Varejão

“Ama-San é um magnífico documento sobre uma actividade e uma tradição, que, tarde ou cedo, se extinguirão.” Eurico de Barros, Time Out Lisboa

Doclisboa Vencedor da Competição Nacional

7 Ago - 16h30, 21h30

FRAGMENTADO de M. Night Shyamalan

3 Ago - 16h30, 21h30

HOMENZINHOS de Ira Sachs

“Sublime.” Vasco Baptista Marques, Expresso

Festival de Berlim – Selecção Oficial

4 Ago - 14h, 19h

POESIA SEM FIM de Alejandro Jodorowsky

4 Ago - 16h30, 21h30

ANIMAIS NOTURNOS

8 Ago - 14h, 19h

HELL OR HIGH WATER, CUSTE O QUE CUSTAR! de David Mackenzie

8 Ago - 16h30, 21h30

FOGE

de Jordan Peele

de Maren Ade

10 Ago - 14h, 19h

“Nós não esqueceremos a intensidade moral da indignação que este filme traz ele que é, porventura, o mais importante que 2016 nos lega.” Jorge Leitão Ramos, Expresso

Festival de Cannes - Palma de Ouro BAFTA - Melhor Filme Britânico César – Melhor Filme Estrangeiro

6 Ago - 14h, 19h15

OS BELOS DIAS DE ARANJUEZ de Wim Wenders

“Em boa verdade, Os Belos Dias de Aranjuez é o mais cristalino dos filmes, tão desarmante na sua transparência que podemos voltar a acreditar no cinema como pura exaltação da vida, do desejo de viver. Sem esquecer que, a certa altura, como uma aparição, somos visitados por um trovador chamado Nick Cave...”

Francisco Ferreira, Expresso

Oscars - Melhor Filme, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Actor Secundário Golden Globes – Melhor Filme Dramático

12 Ago - 14h, 19h

STEFAN ZWEIG: ADEUS, EUROPA de Maria Schrader

12 Ago - 16h, 21h

SILÊNCIO

de Martin Scorsese

13 Ago - 14h, 19h

A MINHA VIDA DE COURGETTE de Claude Barras

de Damien Chazelle

NA VIA LÁCTEA

de Ken Loach

“Jenkins filma os três actores da mesma personagem com uma nobreza e uma frontalidade à prova de bala, num retrato sobre a masculinidade negra americana que o cinema do país nunca ousara.”

9 Ago - 14h, 19h

5 Ago - 14h, 19h

EU, DANIEL BLAKE

de Barry Jenkins

13 Ago - 16h30, 21h30

de Bruno Dumont

9 Ago - 16h, 21h

5 Ago - 16h30, 21h30

MOONLIGHT

MA LOUTE

de Tom Ford

de Emir Kusturica

11 Ago - 16h30, 21h30

TONI ERDMANN

SÃO JORGE de Marco Martins

“Um dos melhores filmes portugueses destes últimos anos." Eurico de Barros, Observador

Festival de Veneza Melhor Actor, secção Orizzonti

10 Ago - 16h15, 21h15

AQUARIUS

LA LA LAND: MELODIA DE AMOR 14 Ago - 14h, 19h

ORNAMENTO & CRIME de Rodrigo Areias

14 Ago - 16h30, 21h30

I AM NOT YOUR NEGRO de Raoul Peck

15 Ago - 14h, 19h15

PAULA REGO

HISTÓRIAS & SEGREDOS de Nick Willing

15 Ago - 16h15, 21h15

A CIDADE PERDIDA DE Z de James Gray

de Kleber Mendonça Filho

“Com Aquarius Kleber Mendonça Filho oferece uma vingadora ao seu cinema, a si próprio e a nós, espectadores. A empatia, aqui, é coisa política. Sônia Braga c’est moi.” Vasco Câmara, Público

Festival de Cannes – Competição

16 Ago - 14h, 19h

O JOVEM KARL MARX de Raoul Peck

16 Ago - 16h15, 21h15

A CRIADA

de Park Chan-Wook

João Lopes, Diário de Notícias

Festival de Veneza – Competição

JULHO | AGOSTO '17 11


ESTREIAS CINEMA

POLINA,

EXCLU

ESTREIA 20 JULHO

DANSER SA VIE

CINEMSIVO AS M

EDEIA

Dur: 1h 48min

POLINA, DANSER SA VIE

DE VALÉRIE MÜLLER, ANGELIN PRELJOCAJ COM ANASTASIA SHEVTSOVA, JULIETTE BINOCHE, JEREMIE BELINGARD

O cinema desde sempre teve um fascínio pela dança. Polina, realizado por Valérie Müller e por um dos maiores coreógrafos franceses contemporâneos, Angelin Preljocaj (que trabalhou, entre outros, com Merce Cunninhgam), adapta a novela gráfica de culto de Bastien Vivès (sai também por esta altura em Portugal), para nos mostrar o percurso de uma bailarina russa, que (e aqui há um paralelo biográfico com Preljocaj) do estudo da dança clássica (no Bolshoi), parte para França e reinventa-se para se tornar coreógrafa de dança contemporânea. Deslumbramo-nos com a forma como os realizadores conseguem mesclar o trabalho de actores e bailarinos, o que é raro nos filmes de ficção sobre a dança, em que muitas vezes se utilizam duplos. Aqui não. A actriz Juliette Binoche, no papel da coreógrafa que inicia Polina na dança

contemporânea, é brilhante (a actriz tem uma prática frequente da dança e já trabalhou com o coreógrafo Akram Khan, por exemplo). Também Niels Schneider, que acabaria por participar num espectáculo da companhia de Preljocaj em Avignon, se revelou um prodígio. Anastasia Shevtsova, descoberta na Rússia, depois de um casting que envolveu mais de 600 bailarinas, demonstrou ser uma actriz de excepção. Tal como Jérémie Bélingard, estrela da Opéra de Paris.

Festivais e Prémios: Festival de Veneza – Venice Days

CLASH

ESTREIA 20 JULHO

ESHTEBAK

DE MOHAMED DIAB

Dur: 1h 37min

COM NELLY KARIM, HANY ADEL, TAREK ABDEL AZIZ, AHMED MALEK

Primavera, Verão, Outono e Inverno Árabes

No dealbar da década, um movimento que parecia alastrar por contágio “desencadeou forças desconhecidas de transformação social, um momento em que ‘tudo parecia possível’”, como escreveu Slavoj Žižek (O Ano em que Sonhámos Perigosamente). Era a ‘Primavera Árabe’ e o seu auge teve lugar no Cairo, na Praça Tahrir, onde os egípcios “tomaram conta do espaço e do tempo do seu país” ( José Gil), naquilo que parecia vir a tornar-se um grande acontecimento emancipatório e, no mundo inteiro, todos nós nos identificávamos com ele (Žižek). Mas, pouco a pouco, o poder começa a refrear esta explosão popular. Há eleições, que Mohamed Morsi e a Irmandade Muçulmana vencem, e logo em 2013 são derrubados pelo exército, num período extremamente conturbado. A revolução pacífica, 12 JULHO | AGOSTO '17

que juntara na rua, em plena comunhão, novos e velhos, pobres e ricos, religiosos (muçulmanos e cristãos) e laicos, rapidamente se tornou num cenário de tensões várias. Em Clash, de Mohamed Diab, um dos mais interessantes realizadores egípcios contemporâneos, que viveu também aqueles dias em que o mundo inteiro tinha os olhos no seu país, várias pessoas, de diferentes facções, a caminho de manifestar-se, acabam por ver-se enclausuradas no interior de uma carrinha celular, num clima de pressão e pesadelo, que é uma metáfora daquilo em que o Egipto se tornava neste seu Inverno árabe. Metáfora que é também universal, de um mundo dividido, onde, como referiu o realizador, “apesar das diferenças, temos de encontrar uma forma de coexistir”. A.C.

Festivais e Prémios: Festival de Cannes – Un Certain Regard


ESTREIAS CINEMA

LONDON TOWN

EXCLU

CINEMSIVO AS M

EDEIA

LONDON TOWN

DE DERRICK BORTE ESTREIA 3 AGOSTO

Dur: 1h 32min

COM DANIEL HUTTLESTONE, DOUGRAY SCOTT, NATASCHA MCELHONE E JONATHAN RHYS MEYERS

Editado em 1977 o álbum de estreia dos The Clash representou um episódio marcante na afirmação da vitalidade do movimento punk que, depois de primeiros passos desenhados em Nova Iorque, cruzara então o Atlântico para encontrar em Londres um segundo importante epicentro. Ao sentido de urgência da música os The Clash juntavam uma postura politicamente interventiva, levantando debates e ideias num tempo em que o Reino Unido vivia momentos de desencantamento e de convulsão social. Mais do que contar a história dos The Clash ou até mesmo de propor um biopic sobre a figura de Joe Strummer (o seu vocalista), o que o filme London Town de Derrick Borte propõe é uma tentativa de olhar alguns daqueles a quem esta música falou mais alto. E através de uma história de ficção procura assim recriar os sinais dos tempos que uma mão cheia de canções inscreveu na história de finais dos setentas.

London Town mergulha no espaço vivencial de um dono de uma velha loja de pianos algures num subúrbio esquecido de Londres e dos seus dois filhos, o mais velho, descobrindo então nas canções dos The Clash um quadro de afinidades que, ao conhecer ocasionalmente o próprio Joe Strummer (interpretado por Jonathan Rhys Meyers), acaba por ligar ecos da história real a uma trama de ficção. Não é a primeira vez que a cena punk londrina passa pelo grande ecrã. E, de resto, logo em 1978, Derek Jarman criava em Jubilee uma obra de ficção que, pela sua dimensão cultural e política, acabaria por se transformar numa referência maior da cinematografia ligada ao fenómeno. Dois anos depois, em The Great Rock and Roll Swindle, o realizador Julien Temple proporia um outro ponto de vista sobre este mesmo universo, juntando mais tarde aos seus olhares sobre o punk os documentários The Filth and The Fury (2000) sobre os Sex Pistols e Joe Strummer: The Future Is Unwritten (2007).

Estreado em 2016 no Los Angeles Film Festival, London Town procura dar vida a uma outra forma de abordar cinematograficamente este mesmo espaço. Não corresponde de todo ao modelo proposto por Todd Haynes quando, através de Velvet Goldmine, criou um olhar bem pessoal sobre o universo do glam rock. Mas tal como ali víamos nas memórias de juventude da personagem interpretada por Christian Bale, há em London Town uma vontade em explorar a relação da música com aqueles que compram os discos e fazem das bandas os seus heróis. N.G.

Festivais e Prémios: Los Angeles Film Festival

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ESTREIAS CINEMA

WIENER-DOG - UMA VIDA DE CÃO

EXCLU

ESTREIA 17 AGOSTO

WIENER-DOG

DE TODD SOLONDZ

COM GRETA GERWIG, DANNY DEVITO, JULIE DELPY, TRACY LETTS, KEATON NIGEL COOKE

Numa entrevista ao jornal britânico The Guardian, Todd Solondz explicava à entrevistadora as razões pelas quais não tem um cão. Até podia ter um, dizia, se alguém o passeasse por ele. Mas a perspectiva de ter de levar o animal à rua e de apanhar o que vai ficando pelo chão, numa gélida manhã de ano novo, é algo que o desconcerta. Que os cães passeados sejam substância reveladora dos piores defeitos dos passeadores é um recurso simples, típico no cinema de Solondz, baseado no contraste entre uma superfície rósea, luminosa e o que de podre se esconde debaixo dela. Será divertido imaginar uma família de classe-média, seduzida pelo trailer de Wiener-Dog e pela possibilidade de ir ver uma comédia sobre como fazer amigos entre os animais, ser surpreendida por tudo o que acontece ao animal — um circo de horrores, fruto das fraquezas, distracções e mesquinhez das personagens. A simpática cadela e pernas curtas e tronco longilíneo não é tida nem achada, como aliás costuma acontecer com cães, relativamente ao rumo da sua vida. Antes anda à deriva 14 JULHO /| AGOSTO AGOSTO'17 '17

nas mãos de pessoas que não são particularmente boas — pessoas à la Solondz, diríamos. Os fãs do realizador, imunes ao ponto de saturação a que os seus filmes chegaram, repetindose em termos de estrutura e de tom, regozijar-se-ão por certo com mais esta peça, cujo humor e crueldade, mesmo que expectáveis, são certeiros. Em Wiener-Dog, Solondz repete quão irrecuperáveis são as pessoas e o que nelas há de pior — a maldade estúpida ou a estupidez maldosa. Mas o maior ou menor prazer que possamos retirar destes filmes alimenta-se da nossa própria morbidez. Ver um filme de Solondz, quando sabemos ao que vamos, é uma espécie de cedência à atracção que sentimos pelo repugnante, pelo comezinho, pelo quotidiano. A visão desesperançada do realizador sobre

CINEMSIVO AS M

EDEIA

Dur: 1h 28min

humanos não podia dar origem a uma obra diferente — a monótona sequência dos seus filmes é uma marca de estilo e se não se apreciar o fatalismo, aprecie-se ao menos a obstinação. E não deixa de ser curioso que Solondz tenha mais esperança do que quer admitir. Há nele um céptico meio sentimental e uma fé, mesmo que recoberta de ironia, naquelas poucas personagens de uma bondade inverosímil e enjoativa, de quem Solondz se apieda e que nos provam que ele é mais bonzinho do que pensa e que se calhar, não fosse ele incapaz de fazer sacrifícios, até podia ter um cão. Raquel Morais

Festivais e Prémios: Festival de Sundance Selecção Oficial


ESTREIAS CINEMA

A VIDA DE UMA MULHER

ESTREIA 10 AGOSTO

UNE VIE

DE

STÉPHANE BRIZÉ

Dur: 2h

COM JUDITH CHEMLA, JEAN-PIERRE DARROUSSIN, YOLANDE MOREAU

Normandia, 1819. Acabada de sair do convento onde estudara, Jeanne Le Perthuis des Vauds, uma jovem até aí muito protegida e ainda cheia de sonhos infantis, casa-se com Julien de Lamare. Este depressa se revela mesquinho, brutal e volúvel. Aos poucos, as ilusões de Jeanne começam a esfumar-se. O filme inspirase no romance de Guy de Maupassant. A propósito da estreia de A Vida de Uma Mulher, recordamos outras adaptações de Maupassant, um clássico recorrente no cinema: . Trois Femmes (1952), de André Michel. O filme integrou nesse ano a Competição do Festival de Cannes. . Une Vie (1958), de Alexandre Astruc. Tal como o filme de Brizé, foi exibido em Competição no Festival de Veneza, e obteve um grande sucesso em França.

. Masculino Feminino (1966), de Jean-Luc Godard. O realizador decidiu adaptar dois contos: Le Signe e La Femme de Paul, mas na versão final do filme já pouco resta desses dois contos, que serviram sobretudo como inspiração inicial. Permanece o final trágico, e o “abismo intransponível” — expressão de Maupassant — entre as personagens Paul e Madeleine. . La mujer del puerto (1991), de Arturo Ripstein. Baseado no romance Le Port, o filme integrou a secção Un Certain Regard no festival de Cannes. . Bel Ami (2012), de Declan Donnellan e Nick Ormerod, com Robert Pattinson, Uma Thurman e Kristin Scott Thomas. Festivais e Prémios: Festival de Veneza — Prémio FIPRESCI

JULHO | AGOSTO '17 15


16 JULHO | AGOSTO '17

Medeia Magazine - Julho e Agosto de 2017  

Para alguns de nós, em certos momentos, o Verão pode ser cruel — já o diziam, e bem, as Bananarama. Com mais calor do que aquele que consegu...

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