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ESTREIAS CINEMA O Estado das Coisas, filme e título, é talvez um dos mais referidos da obra de Wim Wenders. No livro que o escritor Enrique Vila-Matas veio recentemente lançar ao LEFFEST, Marienbad Eléctrico, “crónica” da sua longa amizade e intercâmbio de ideias com a artista Dominique Gonzalez-Foerster, as referências ao cinema são múltiplas, e, entre elas, várias aludem à obra de Wenders. Publicamos um excerto desse livro (cortesia do editor), que relata uma ida (também ocorrida numa edição anterior do Leffest) ao “hotel português em frente ao Atlântico […] onde Wim Wenders falou do “estado das coisas” a toda a [sua] geração]. Com uma fotografia inédita dessa visita, da autoria de Enrique Vila-Matas.

FOTO DE ENRIQUE VILA-MATAS, 2012

Ao visitar o hotel da costa portuguesa onde em 1982 se rodou O estado das coisas, entrámos naquele lugar deserto como se fôssemos inspectores da história do cinema, investigadores que desejassem voltar à época em que filmar era, antes de mais, uma paixão; entrámos como se fôssemos cientistas ou detectives de Bolaño que tivessem descoberto as ruínas de algo essencial e já quase esquecido. Entrámos como se fôssemos filmar tudo. Percorremos, velozmente — como se nos perseguissem — as galerias, os corredores, as salas de refeições e os salões do hotel junto à praia. E essa atitude, a de filmar tudo, fez-me regressar à alegria infinita de uns versos do surrealista Juan Larrea: Pelas estradas cinemáticas Naquele automóvel ÍAMOS FILMANDO…

Regressámos depois a Cascais por um caminho que parecia literalmente de celulóide, voltámos devagar por estradas cinemáticas, e recordo que, também, aqui e ali — varrendo, poderia mesmo dizer-se, com câmaras imaginárias, de um lado e do outro, os limites do visível — fomos filmando, curando-nos definitivamente, ao mudar, a cada instante, de plano e de nome. Com o estilo cinematográfico de DGF, fui rastreando tudo, de olhos bem abertos, recuperando entusiasmos antigos, experiências felizes de outrora, revendo, como que num clarão, o mais irrepetível de tudo o que vivi: aqueles dias gloriosos, quando, dentro de mim, só existia o imensíssimo deslumbramento pelo cinema. Enrique Vila-Matas, Marienbad Eléctrico, Editora Teodolito (trad. de Maria Manuel Viana)

Recordo a intensidade da visita, a sensação de intenso movimento após dias lentíssimos. E recordo também a identificação existente entre DGF, Tristan Bera, e uma quarta personagem, parecidíssima com o Bob Dylan quando jovem. Íamos filmando mentalmente, os quatro, a nossa inspecção daquele hotel diante de um mar encrespado, invadido por ondas altas que se lançavam sobre a piscina esvaziada, isto é, que transbordavam exactamente como no filme que rodávamos. […]

JANEIRO | FEVEREIRO '17

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Medeia Magazine - Janeiro / Fevereiro 2017  

Neste ano que começa com a promessa de grandes filmes, vários deles de entre os melhores de 2016 e cuja estreia aguardávamos ansiosamente...

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