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ESTREIAS CINEMA

WIM WENDERS / PETER HANDKE DA PALAVRA À IMAGEM, DA IMAGEM À PALAVRA

EXCLU

CINEMSIVO AS M

OS OLHOS DA ALMA

EDEIA

“A criança, quando criança/ não sabia que era criança/ tudo para ela tinha alma/ e todas as almas eram uma só” in As Asas do Desejo Em Os Belos Dias de Aranjuez, o escritor Peter Handke, ele próprio, na figura de um jardineiro, entra e trata, com um gesto discreto mas cúmplice, desse Jardim do Éden que o cineasta Wim Wenders animou a partir da sua peça. Lindíssima celebração, esta, de uma amizade e cumplicidade artística de 50 anos, desde o primeiro trabalho conjunto, 3 American LP’s (1969). As “afinidades electivas” (título de Goethe, de quem Handke adaptou, de modo livre e pessoal, Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister para Movimento em Falso de Wenders, em 1975) entre os dois plasmaram-se depois em A Angústia do Guarda-Redes no Momento do Penalty (1972) e no filme-poema As Asas do Desejo (1987). Pelo meio, Wenders produziu a secreta obra-prima de Handke, A Mulher Canhota (1978), a história de Marianne, que volta as costas à família e vida burguesas para viver sozinha com o filho.

A MULHER CANHOTA DE PETER HANDKE

AS ASAS DO DESEJO DE WIM WENDERS COM BRUNO GANZ, OTTO SANDER, SOLVEIG DOMMARTIN,

PETER FALK, NICK CAVE

ESTREIA 26 DE JANEIRO

frase “pedindo” outra e esta uma seguinte, Wenders filma do mesmo modo, um plano “chamando” pelo próximo, sobretudo nos filmes sem guião prévio, como este. Este desejo de histórias fora antes questionado por Wenders em O Estado das Coisas (1982). Filme-charneira a vários títulos, “filme de tese” anti-ficção salvo pela ficção que encena, faz o luto por um paraíso perdido (o cinema), habitado por um punhado de “sobreviventes” (Alekan, Fuller, Corman, Kramer). É também um documento de uma época (do cinema, de Lisboa), tal como As Asas do Desejo o é da Berlim do pós-guerra, dividida pelo Muro. Cézanne dizia: “As coisas desaparecem. Se quisermos ver algo, temos de nos apressar”. Wenders e Handke fazem-nas surgir e dão-nas a ver, resgatando-as desse desaparecimento. É sobre um quadro do mesmo Cézanne que Os Belos Dias de Aranjuez termina (e recomeça). Fátima Castro Silva

COM EDITH CLEVER, BRUNO GANZ, MICHAEL LONSDALE

ESTREIA 26 DE JANEIRO

Na conversa após a projecção desse filme no LEFFEST, Peter Handke falou do mistério da criação não como a capacidade de ferozmente observar a realidade, mas a de “fortificar o contorno à sua volta”, criar um “centro vazio” e “fazer surgir” o mistério e espontaneidade do mundo, as suas formas (as pessoas, os espaços, a luz), como o faziam Ford ou Ozu (de quem Marianne tem um poster na parede). No fundo, é isso mesmo que esta anti-heroína persegue: surgir ela própria como criação sua, construir a sua própria história. Pelo mesmo, por uma história (de amor), luta o anjo Damiel ao tornar-se humano em As Asas do Desejo. E se Handke fala nessa conversa do modo como escreve, uma 8

JANEIRO | FEVEREIRO '17

O ESTADO DAS COISAS DE WIM WENDERS COM PATRICK BAUCHAU, ROBERT KRAMER, SAMUEL FULLER,

ISABELLE WEINGARTEN, VIVA, ROGER CORMAN, ARTUR SEMEDO

ESTREIA 12 DE JANEIRO

Medeia Magazine - Janeiro / Fevereiro 2017  

Neste ano que começa com a promessa de grandes filmes, vários deles de entre os melhores de 2016 e cuja estreia aguardávamos ansiosamente...

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