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ESTREIAS CINEMA

MANCHESTER BY THE SEA MANCHESTER BY THE SEA

DE KENNETH LONERGAN ESTREIA 5 JANEIRO

Duração: 2h 17min

COM CASEY AFFLECK, MICHELLE WILLIAMS, KYLE CHANDLER

A terceira longa-metragem do americano Kenneth Lonergan é um peculiar melodrama sobre o trauma, a perda e o perdão Lonergan é um conceituado dramaturgo que chegou à realização por via da sua singularidade como argumentista. Depois de ter escrito Analyze This / Uma Questão de Nervos (curiosamente uma comédia, com Robert De Niro e Billy Crystal) de Harold Ramis e aprimorado o argumento de Gangs de Nova Iorque de Martin Scorsese, Kenneth Lonergan escreveu e dirigiu You Can Count On Me (de 2000, um singular “filme de câmara”, de produção independente), Margaret (produção mais ambiciosa, de 2007, que só seria distribuído em 2011, devido a uma disputa com o estúdio) e este Manchester by the Sea. No centro destes três filmes estão personagens de alguma forma “amputadas” da sua integridade emocional: Mark Ruffalo e

Laura Linney interpretam dois irmãos que perderam os pais ainda crianças (em You Can Count On Me), Anna Paquin dá vida a uma adolescente nova-iorquina que carrega a culpa de se julgar responsável por um atropelamento fatal (em Margaret, também assombrado pelo 11 de Setembro) e Manchester by the Sea acompanha o trajecto emocional da personagem de Casey Affleck, obrigada a regressar à cidade do Massachusetts que dá título ao filme (e onde uma anterior tragédia pessoal a lançou num limbo de culpa e auto-punição) para cuidar do sobrinho adolescente após a morte do irmão. A peculiaridade do cinema intimista de Lonergan, e de Manchester by the Sea em particular,

reside na releitura que faz do melodrama, pela amplitude e sensibilidade com que desvenda os sentimentos das personagens, tirando partido do texto e do subtexto, pela forma como traça um retrato de uma comunidade, como trabalha o flashback e como se desvia de uma resolução do drama, preferindo um final aberto. Manchester by the Sea constrói-se como um pequeno mosaico de cenas quotidianas (onde o negro passado irrompe), de diálogos que soam a vida vivida (às vezes, as palavras ditas sobrepõem-se, como na vida real), opondo pulsões afinal unidas por um luto comum. Se a psicologia da perda, explorada em pequenos nadas, é o que move a escrita de Lonergan, esta é permeável ao humor e ao absurdo do quotidiano, desenhando uma linha ténue entre a tragédia e a comédia. E as várias camadas dessa escrita são trabalhadas por um excelente conjunto de actores, sobressaindo Casey Affleck num papel de enorme disciplina e rigor. Fátima Castro Silva Prémios e Festivais: Golden Globes: 5 Nomeações: Melhor Filme Drama, Melhor Realizador, Melhor Argumento, Melhor Actor Drama, Melhor Actriz Secundária TIFF: Prémios da Crítica: Melhor Argumento e Melhor Actriz

JANEIRO | FEVEREIRO '17

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Medeia Magazine - Janeiro / Fevereiro 2017