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ESTREIAS CINEMA Paulo Branco — Há algo que ainda não foi mencionado, mas penso que este filme vem também de um amor profundo que tem por alguém, um grande escritor russo, Ossip Mandelstam, e foi ele que a inspirou. Há uma frase no final, em que cita Mandelstam, a relação com esse grande poeta é algo que… Fanny Ardant — Sim, quando era muito jovem li todos os grandes poetas russos dessa época, Marina Tsvetaeva, Anna Akhmatova e Ossip Mandelstam que era, em tudo, um verdadeiro poeta simbolista, com o amor pelas palavras, o amor pela musicalidade das frases e que, subitamente, como se procurasse a própria morte, escreveu um soneto extraordinariamente injurioso a respeito de Estaline no momento de maior terror, entre os anos 1934 e 1937. Esse foi

que levou à sua expulsão de Moscovo. Mas, como amava tanto Moscovo, regressou, e dali foi enviado para os campos de trabalhos forçados, que o fragilizaram muito; a dada altura, tinha apenas um pobre casaco feito de couro. Mas Ossip Mandelstam permanece eterno, é o herói que representa esta força de resistência, apesar de tudo. Mesmo que me perguntem: “Resistir a quê?”,

"Ossip Mandelstam permanece eterno, é o herói que representa esta força de resistência" Fanny Ardant um dos maiores gestos políticos que pode haver, ou seja, o poeta contra o ditador, porque Estaline era um homem sagaz, tinha estudado, era muito inteligente, falava línguas, adorava música, adorava poesia — o que é ainda mais assustador, porque não era um idiota. E o seu sonho era ser glorificado pelos verdadeiros poetas, mas um verdadeiro poeta não pode glorificar um ditador. Ele escreveu aquela quadra,

creio que cada um de nós sabe a que deve resistir, e escolhi propositadamente este período, que está na memória colectiva como um dos períodos mais perigosos, porque podia escolher protagonistas que contassem uma história, mas, no fundo, aquilo que habitava em mim era mais um perigo de se ver corrompido

de uma forma perigosa, porque não conseguimos identificar tão bem o adversário nos nossos tempos modernos. Penso que o maior perigo é quando não conseguimos identificar um adversário. E, com efeito, lembro-me que, durante todo o tempo da rodagem pude intitular o filme E, atrás de mim, uma gaiola vazia, porque me parecia ser uma ode à liberdade de dizer: “Apesar de todas as vossas gaiolas, consegui escapar”. Mas depois optei pelo título O Divã de Estaline, que era mais coerente e contava mais aquilo que eu queria dizer. [Trad. Inês Viana]

Prémios e Festivais: Lisbon & Estoril Film Festival: Selecção Oficial, Fora de Competição

JANEIRO | FEVEREIRO '17

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Medeia Magazine - Janeiro / Fevereiro 2017