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ESTREIAS CINEMA

NA VIA LÁCTEA

EM EXIBIÇÃO

Duração: 2h 05min

ON THE MILKY ROAD

DE

EMIR KUSTURICA COM MONICA BELLUCCI E EMIR KUSTURICA

Oito anos depois, Emir Kusturica traz-nos um filme lindíssimo e comovente, uma história de amor em tempos de guerra. Falámos com ele no LEFFEST. Emir Kusturica — A minha obsessão com a guerra na ex-Jugoslávia é a de corrigir a mitologia, porque a mitologia acerca desta guerra foi absolutamente falsa. A televisão transmitiu a ideia de que se criava um mundo novo, e não o que aconteceu na Terra. É o meu segundo filme sobre este período. […] Uma frase de William Faulkner foi um dos principais motores deste filme; é aquilo que me é dito pelo pastor no momento em que quero matar-me: “Estúpido, se te matares, nunca te irás lembrar desta bela mulher, nem do amor.” Primeiro, fizemos uma curta-metragem, que foi apresentada em Veneza, creio que há quatro anos. Depois, a partir dessa curta, voltámos ao princípio, que foi muito duro — este filme foi sobretudo filmado em exteriores, diria 95% do total. E, se me perguntarem qual o motivo, é porque se trata de uma história dramática que é facilitada e suportada pelo ambiente exterior, pelo visual dramático e gráfico da Herzegovina, que fica a sul da Bósnia, mais próxima do mar, que, aliás, se pode ver a partir daquelas montanhas. E o filme, enquanto história de amor, é a minha segunda resposta àquilo que era a mitologia oficial imposta pelos media e por tudo aquilo que víamos e ouvíamos. Quis deixar espaço para o amor como ideia humana suprema.

[…] Pergunta do público — Através da forma como introduziu os animais no seu filme pretendia mostrar apenas a possibilidade de uma verdadeira aliança ou mesmo uma irmandade entre as espécies, ou os animais, e cada uma das espécies, têm um significado específico? Emir Kusturica — Acho que a primeira hipótese tocou no ponto certo. Acho que a vida em conjunto das espécies é a solução para o planeta. Quando nos separamos uns dos outros, algo que é comum hoje em dia, estamos a abusar da Natureza e não a viver com ela. Eu vivo na aldeia, nas montanhas da Sérvia, alimento os animais e observo-os, e tenho esta ideia da mistura das espécies, que vem deste sítio onde vivo, onde o pinheiro e outras três ou quatro espécies de árvores vivem muito próximas. Ainda não se provou se é possível isso existir entre os humanos, excepto nalguns sítios, onde vigora esta ideia babilónica, muito bíblica que, actualmente, poderia ser Nova Iorque, por exemplo, mas, mesmo hoje, não temos a certeza se é algo em que acreditamos. A mistura das espécies é um tema pertinente — e isto é algo que nem eu próprio sabia antes, mas, agora, que já vivi muito tempo, acho que pode mesmo ser a solução. É, provavelmente, por essa razão que, em todos os meus filmes, quis pôr-me no meio de diferentes tipos de pessoas e de animais. [Trad. Inês Viana]

Prémios e Festivais: Festival de Veneza: Selecção Oficial, Em Competição Lisbon & Estoril Film Festival: Selecção Oficial, Fora de Competição

JANEIRO | FEVEREIRO '17

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Medeia Magazine - Janeiro / Fevereiro 2017