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ESTREIAS CINEMA

Conversa com Jim Jarmusch Paulo Branco — Qual foi o ponto de partida para este filme? Jim Jarmusch — Visitei Paterson, é uma pequena cidade, não muito longe de Nova Iorque, e estive lá durante um dia, há cerca de vinte e cinco anos. O que me atraiu lá foi a poesia de William Carlos Williams. Eu queria só ver a cidade e fui lá passar o dia, sentei-me junto à cascata, no mesmo sítio onde Paterson se senta, no nosso filme, e tive apenas uma vaga ideia sobre a possibilidade de, um dia, fazer lá um filme. Caminhei pela zona industrial, fui atraído àquele lugar por William Carlos Williams. Ele tem um poema do tamanho de um livro, que vêem no filme, chamado Paterson (que, devo dizer, não é o meu favorito da sua obra, mas talvez eu apenas não compreenda algumas partes). O início desse poema é uma metáfora sobre a cidade de Paterson tratar-se de um homem, e ele descreve as formações rochosas sobre a cascata como um homem recostado, e tive simplesmente a ideia de fazer um filme sobre um homem chamado Paterson, que vive em Paterson, que é da classe trabalhadora e escreve poesia. Guardei esta ideia durante muitos anos e, depois, interessou-me muito a história de Paterson — que não vou debitar aqui porque é muito intrincada e fascinante, era uma cidade industrial modelo, idealizada por Alexander Hamilton, e foi o centro da indústria têxtil nos Estados Unidos, bem como de muito activismo sindical e anarquista, passavam-se lá muitas coisas interessantes. De qualquer modo, conservei esta ideia durante muito tempo, depois escrevi o argumento, há alguns anos, e pensei na possibilidade de a poesia do filme ser escrita por um dos meus poetas favoritos, Ron Padgett. Então, enviei-lhe o argumento, e ele ligou-me de volta a dizer “Jim, parece mesmo que vais fazer um daqueles filmes comerciais, com este filme

sobre um poeta que é motorista de autocarros. Em Paterson!” (risos) Mas depois cedeu e deixou-nos usar alguns dos seus poemas já publicados, e até escreveu alguns poemas para o filme. Sinto-me tão honrado por ele estar connosco e por ter contribuído para a essência do filme! […] William Carlos Williams foi um médico pediatra, e acompanhou cerca de 2000 nascimentos. Muitos grandes poetas e escritores tinham outro tipo de trabalhos. Quando se pensa em Apollinaire, Kafka, Robert Walser, e mesmo Frank O’Hara, o grande poeta nova-iorquino, que foi curador do Museum of Modern Art de Nova Iorque e escrevia poemas na sua pausa para almoço, os poetas são incrivelmente valiosos, e nenhum deles escreve poesia pelo dinheiro. Mostrem-me um poeta rico! Não conheço nenhum… Mesmo Wallace Stevens, que era um executivo numa companhia de seguros, e é um dos grandes poetas americanos, quando ganhou um prémio, talvez o Pulitzer, a reacção de um dos seus sócios, possivelmente o vice-presidente da empresa, foi “O quê? O Wally escreve poesia?!” Para mim, é por isso que os poetas são tão importantes, é porque amam a beleza da forma e uma espécie de abstracção do pensamento nesta forma literária. Quando o Ron veio ao local de filmagem, todos tínhamos lido o argumento e uma grande parte dele estava relacionado com poesia, por isso, toda a equipa estava muito entusiasmada: “O Ron Padgett vem ver-nos a trabalhar?” Foi como se estivesse a chegar uma estrela de rock. [Trad. Inês Viana]

JANEIRO | FEVEREIRO '17 13

Medeia Magazine - Janeiro / Fevereiro 2017  

Neste ano que começa com a promessa de grandes filmes, vários deles de entre os melhores de 2016 e cuja estreia aguardávamos ansiosamente...

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