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ESTREIAS CINEMA

PATERSON

ESTREIA 2 FEVEREIRO

Duração: 1h 58min

PATERSON

DE

JIM JARMUSCH

COM ADAM DRIVER, GOLSHIFTEH FARAHANI, KARA HAYWARD, STERLING JERINS

“Recordo que, enquanto falávamos de Paterson e do seu subtilíssimo elogio da arte como forma de relação com o quotidiano, fui compreendendo que, numa altura em que tudo se tornou depressivo, pode ser mais subversivo afrontar a vida com um olhar contido — como sucede neste filme bendito — do que com um pessimismo previsível que já cansa.” Enrique Vila-Matas, Café Perec, El País

Não é possível julgar Paterson, mas é Paterson que de certo modo nos “julga”, por dar-nos a ver o quanto andamos distraídos e pouco habituados à beleza e simplicidade que se pode viver e encontrar no dia-a-dia, se a elas atentarmos. O facto de não haver drama nem conflito, sujeita o espectador a um exercício exigente nos dias que correm: contemplar e sentir empatia. É um filme que não produz emoções negativas ou conflituais per se, antes faz com que nos questionemos sobre a dificuldade em acreditar que tudo aquilo que nos é apresentado como verosímil, pode de facto sê-lo. Isto apenas porque já não estamos muito habituados à ideia de que tudo pode correr bem, a não ser nas histórias de encantar, que a vida trata de ir demonstrando que não passavam disso mesmo, histórias. Este é um filme de encantar e é essa característica tão distintiva que provoca o espectador. Não se pense com isto que Paterson celebra a ingenuidade. Paterson celebra a vivência no presente, celebra o encontro e acima de tudo propõe o humor como antídoto para o peso das contrariedades e rotina do dia-a-dia. É um filme que nada mais exige senão a capacidade de contemplar com espanto, sendo justamente por isso muito generoso e alegre. Paterson celebra também a poesia que percorre o filme do princípio ao fim, e que inequivocamente torna “habitável o inabitável e respirável o irrespirável”, conforme as palavras de Rui Caeiro, poeta português, acerca do propósito da poesia. Este filme traz para a tela poemas de Ron Padgett, poeta americano nascido em 1942. Alguns dos poemas de Padgett são inéditos escritos para o filme, a pedido do realizador. Paterson faz também a vénia a William Carlos Williams (USA, 1883-1963), que além de poeta foi médico pediatra em Paterson, uma das maiores cidades de New Jersey, que dá o seu nome a este filme. Adam Driver é o protagonista, e surpreende-nos com um trabalho magnífico, parecendo ter sido talhado para este papel, ao lado de uma enérgica e contagiante Golshifteh Farahani. Até Marvin, o cão que na vida real era uma cadela, apesar de não parecer ter saído de uma história de encantar, conquista-nos com a sua presença. Através de pequenos detalhes, Paterson oferece-nos uma viagem que vai muito além dos trajectos de autocarro, onde a vida pode ser igual todos os dias, coisa que surpreendentemente não acontece neste filme, que não é igual a mais nenhum. Marta Chaves

12 JANEIRO | FEVEREIRO '17

A corrida Atravesso triliões de moléculas que se afastam para abrir caminho para mim enquanto de ambos os lados outros triliões delas permanecem onde estão. A lâmina do limpa-brisas começa a chiar. A chuva parou. Eu paro. Na esquina um menino numa gabardine amarela segura a mão de sua mãe. Ron Padgett [Tradução de João Luís Barreto Guimarães]

Medeia Magazine - Janeiro / Fevereiro 2017  

Neste ano que começa com a promessa de grandes filmes, vários deles de entre os melhores de 2016 e cuja estreia aguardávamos ansiosamente...

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