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ESTREIAS PROGRAMAÇÃO CINEMA O filme “mostra um mundo governado por homens bêbedos e deprimidos: toda a gente se está a afogar em vodca e desespero”, lê-se no Guardian. Zvyagintsev baseou-se na história do soldador americano Marvin John Heemeyer, que blindou um bulldozer com camadas de cimento e aço e, por não estar de acordo com a política de zoneamento local, demoliu a câmara municipal de Granby, no Colorado, assim como a casa do presidente da câmara. Quando o bulldozer empenou, Heemeyer suicidouse. Não faz, por isso, um retrato realista do seu país, a Rússia. Pelo contrário, segundo o realizador o filme é uma metáfora da reacção humana diante da adversidade, sem fronteiras, nacionalidades ou géneros. “Quando um homem luta com a ansiedade causada pela necessidade e pela incerteza, quando as imagens desfocadas tomam conta do futuro, teme pela sua família, pela morte, o que pode ele fazer senão lutar pela liberdade e pela vontade?”, revela Zvyagintsev ao jornal francês Le Figaro. Tal como fez Job no Antigo Testamento. Ao mito de Leviatã junta-se outro: o de David e Golias. Ou o Homem contra o Estado. O filme tanto se baseia na existência do Leviatã na Bíblia, como na análise política do pensador e filósofo inglês Thomas Hobbes. “No seu ensaio, Leviathan, Hobbes afirma que há um monstro a dormir em cada um de nós e que, quando nada o consegue controlar, começa uma guerra de todos contra todos”, afirma o realizador na mesma entrevista ao jornal francês. “O homem aliena a sua liberdade em troca do conforto e da segurança que o Estado lhe traz. Por isso, é o próprio Estado que se torna num monstro devorador de almas. Para mim, renunciar à liberdade é vender a alma ao diabo”, conclui o realizador de 50 anos. Além da teoria política de Hobbes e da referência bíblica ao Livro de Job, Leviatã está representado pelo esqueleto de baleia que repousa na praia de areia escura. “Leviatã é um drama trágico, convincente na sua seriedade moral, com uma gravidade e uma força que se transformam numa terrível, e aniquiladora, forma de grandeza”, escreveu Peter Bradshaw no jornal The Guardian. Sabia que... Zvyagintsev não foi o único a chamar “Leviatã” a um filme. Antes dele, já Léonard Keigel o tinha feito, em 1962, a propósito de um drama rodado em França. George P. Cosmatos realizou, em 1989, outro filme com este nome, mas de terror, enquanto, em 2012, surgiu um documentário homónimo sobre o perigo da pesca intensiva. Nenhum deles se refere directamente ao monstro mitológico.

Prémios e Festivais: Golden Globes - Melhor Filme Estrangeiro Festival de Cannes - Melhor Argumento Óscares - Nomeado Melhor Filme Estrangeiro

ANDREY ZVYAGINTSEV A visão filosófica de Thomas Hobbes sobre o Estado é a de uma luta entre o Homem e o Diabo: vê-o como um monstro criado pelo próprio homem para prevenir “uma guerra de todos contra todos”, e pela vontade compreensível de assegurar segurança em troca da liberdade, a única coisa que o Homem possui. Tal como fomos todos, desde o nascimento, marcados pelo pecado original, nascemos todos num “Estado”. E o poder espiritual do Estado sobre o Homem não conhece limites. Se os meus filmes têm por base a Rússia, isso acontece apenas por não sentir qualquer ligação genética com outro lugar. Ainda assim, estou profundamente convencido de que, qualquer que seja a sociedade em que cada um de nós vive, das mais evoluídas às mais arcaicas, somos todos confrontados um dia com a seguinte escolha: viver como escravo ou viver como uma pessoa livre. É possível nos dias de hoje continuarmos a fazer perguntas e, até, encontrar um herói trágico na nossa terra, um “filho de Deus”, uma personagem trágica desde tempos imemoriais, e é por essa razão que a minha terra natal continua viva em mim e em todos aqueles que fizeram este filme. Comentário do realizador

MARÇO | ABRIL 2015

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Medeia Magazine 16 Março e Abril