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VOLUME 1

OBSTETRÍCIA

PRINCIPAIS TEMAS PARA PROVAS DE RESIDÊNCIA MÉDICA


Autor

Fábio Roberto Cabar Graduado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Mestre e doutor em Obstetrícia e Ginecologia pelo HC-FMUSP, onde é médico preceptor do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia. Título de especialista em Obstetrícia e Ginecologia pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO).


APRESENTAÇÃO

Antes mesmo do ingresso na faculdade, o estudante que opta pela área da Medicina deve estar ciente da necessidade de uma dedicação extrema, de uma notável facilidade nas relações humanas e de um profundo desejo de ajudar o próximo. Isso porque tais qualidades são cada vez mais exigidas ao longo dos anos, sobretudo durante o período de especialização e, mais tarde, de reciclagem de conhecimentos. Para quem busca uma especialização bem fundamentada e consistente, nota-se a dificuldade no ingresso nos principais centros e programas de Residência Médica, devido ao número expressivo de formandos, a cada ano, superior ao de vagas disponíveis, o que torna imperioso um material didático direcionado e que transmita total confiança ao aluno. Considerando essa realidade, foi desenvolvida a Coleção SIC 2012, com capítulos baseados nos temas cobrados nas provas dos principais concursos do país, e questões, dessas mesmas instituições, selecionadas e comentadas de maneira a oferecer uma compreensão mais completa das respostas. Todos os volumes são preparados para que o candidato obtenha êxito no processo seletivo e em sua carreira. Bons estudos!

Direção Medcel A medicina evoluiu, sua preparação para residência médica também.


ÍNDICE

Capítulo 1 - Fisiologia da gestação ........... 19

Capítulo 6 - Puerpério.............................. 53

1. Fisiologia da gestação .................................................. 19

1. Definição...................................................................... 53

2. Diagnóstico de gravidez ............................................... 22

2. Modificações locais ..................................................... 53

3. Resumo ........................................................................ 23

3. Modificações sistêmicas .............................................. 54 4. Cuidados durante o puerpério .................................... 54

Capítulo 2 - Modificações locais e sistêmicas no organismo materno ........... 25 1. Introdução ................................................................... 25

5. Amamentação ............................................................. 55 6. Recomendações de contracepção para mulheres lactantes...................................................................... 57 7. Resumo ........................................................................ 59

2. Modificações locais ..................................................... 25 3. Modificações sistêmicas .............................................. 27 4. Metabolismo ............................................................... 31 5. Resumo ........................................................................ 32

Capítulo 3 - Relações uterofetais.............. 33

Capítulo 7 - Assistência pré-natal ............. 61 1. Definição...................................................................... 61 2. Anamnese.................................................................... 62 3. Exame físico ................................................................. 64 4. Exames subsidiários..................................................... 66

1. Definição...................................................................... 33

5. Vacinação .................................................................... 69

2. Atitude ......................................................................... 33

6. Resumo ....................................................................... 69

3. Situação ....................................................................... 33 4. Apresentação............................................................... 33 5. Posição ........................................................................ 35

Capítulo 8 - Tocurgia ................................ 71 1. Cesárea ........................................................................ 71

6. Variedade de posição .................................................. 35

2. Fórcipe ......................................................................... 78

7. Resumo ........................................................................ 36

3. Resumo ........................................................................ 81

Capítulo 4 - O trajeto ............................... 37

Capítulo 9 - Pesquisa de maturidade fetal ... 83

1. Definição...................................................................... 37

1. Introdução ................................................................... 83

2. Bacia obstétrica ........................................................... 37

2. Desenvolvimento pulmonar fetal ............................... 83

3. Bacia mole ................................................................... 39

3. Surfactante .................................................................. 83

4. Resumo ........................................................................ 42

4. Métodos de avaliação da maturidade fetal ................ 84 5. Conclusão ................................................................... 86

Capítulo 5 - O parto ................................. 43

6. Resumo ........................................................................ 86

1. Mecanismo de parto ................................................... 43 3. Hemorragia puerperal ................................................. 50

Capítulo 10 - Pós-datismo e gestação prolongada .............................................. 87

4. Resumo do mecanismo de parto nas cefálicas fletidas .... 52

1. Introdução ................................................................... 87

2. Assistência clínica ao parto.......................................... 48


2. Incidência..................................................................... 87

19. Antiepilépticos.......................................................... 111

3. Complicações................................................................ 87

20. Antiespasmódicos.................................................... 111

4. Diagnóstico................................................................... 88

21. Antifúngicos.............................................................. 111

5. Conduta assistencial..................................................... 88

22. Antiflatulento........................................................... 111

6. Resumo......................................................................... 89

23. Anti-helmínticos....................................................... 111 24. Anti-heparínico......................................................... 111

Capítulo 11 - Oligoâmnio e polidrâmnio.... 91 1. Introdução.................................................................... 91 2. Origem e composição do líquido amniótico..................................................................... 91 3. Oligoâmnio................................................................... 92 4. Polidrâmnio.................................................................. 94 5. Resumo......................................................................... 95

25. Anti-histamínicos...................................................... 111 26. Anti-inflamatórios..................................................... 111 27. Antimaláricos............................................................ 111 28. Antipsicóticos........................................................... 111 29. Antitireoidianos........................................................ 112 30. Antiulcerosos............................................................ 112 31. Bloqueadores de canal de cálcio.............................. 112 32. Bloqueadores dos receptores alfa-beta-adrenérgicos......112

Capítulo 12 - Vitalidade fetal.................... 97 1. Introdução e indicações............................................... 97 2. Métodos biofísicos de avaliação da vitalidade fetal .... 98 3. Resumo....................................................................... 107

Capítulo 13 - Drogas e gestação.............. 109 1. Introdução.................................................................. 109

33. Broncodilatadores.................................................... 112 34. Cefalosporinas.......................................................... 112 35. Diuréticos................................................................. 112 36. Estrógenos................................................................ 112 37. Hipolipemiantes....................................................... 112 38. Hipotensores com ação inotrópica........................... 112 39. Hormônios tireoidianos............................................ 112

2. Adoçantes artificiais................................................... 109

40. Inibidores da Enzima Conversora de Angiotensina (IECA)......................................................................... 112

3. Aminoglicosídeos....................................................... 109

41. Macrolídeos.............................................................. 112

4. Analgésicos................................................................. 109

42. Penicilinas................................................................. 112

5. Andrógenos................................................................ 110

43. Quinolonas............................................................... 112

6. Anfenicóis................................................................... 110

44. Sulfas........................................................................ 112

7. Anorexígenos.............................................................. 110

45. Tetraciclinas.............................................................. 112

8. Ansiolíticos e hipnóticos............................................. 110

46. Tuberculostáticos...................................................... 113

9. Antagonistas dos receptores de angiotensina............ 110

47. Vasodilatadores........................................................ 113

10. Antiácidos................................................................. 110

48. Resumo..................................................................... 113

11. Antiagregantes plaquetários.................................... 110 12. Antiarrítmicos........................................................... 110

Capítulo 14 - Gestação gemelar.............. 115

13. Anticoagulantes........................................................ 110

1. Introdução.................................................................. 115

14. Antidepressivos........................................................ 110

2. Incidência e epidemiologia......................................... 115

15. Antidiabéticos........................................................... 110

3. Zigoticidade e corionicidade....................................... 115

16. Antidiarreicos........................................................... 110

4. Diagnóstico................................................................. 117

17. Antieméticos............................................................ 111

5. Particularidades e complicações maternas relacionadas à gestação gemelar.................................................... 117

18. Antienxaqueca.......................................................... 111


6. Complicações fetais.................................................... 118

COMENTÁRIOS

7. Complicações específicas das gestações gemelares... 119 8. Gestação monoamniótica........................................... 121

Capítulo 1 - Fisiologia da gestação................................. 219

9. Gestações trigemelares ou de ordem maior.............. 121 10. Acompanhamento pré-natal.................................... 121

Capítulo 2 - Modificações locais e sistêmicas no organismo materno................................................... 220

11. Resolução da gestação e parto................................. 122

Capítulo 3 - Relações uterofetais.................................... 224

12. Resumo..................................................................... 123

Capítulo 4 - O trajeto...................................................... 227 Capítulo 5 - O parto........................................................ 228

Capítulo 15 - Prematuridade................... 125

Capítulo 6 - Puerpério.................................................... 236

1. Introdução.................................................................. 125

Capítulo 7 - Assistência pré-natal................................... 238

2. Fatores de risco associados à prematuridade............ 125

Capítulo 8 - Tocurgia....................................................... 247

3. Prevenção da prematuridade..................................... 127

Capítulo 9 - Pesquisa de maturidade fetal...................... 250

4. Condução do trabalho de parto prematuro............... 129

Capítulo 10 - Pós-datismo e gestação prolongada......... 251

5. Resumo....................................................................... 133

Capítulo 11 - Oligoâmnio e polidrâmnio........................ 252 Capítulo 12 - Vitalidade fetal.......................................... 253

Casos clínicos......................................... 135

Capítulo 13 - Drogas e gestação..................................... 259 Capítulo 14 - Gestação gemelar..................................... 261

QUESTÕES

Capítulo 15 - Prematuridade.......................................... 264

Capítulo 1 - Fisiologia da gestação................................. 149

Referências bibliográficas....................... 269

Capítulo 2 - Modificações locais e sistêmicas no organismo materno........................................................ 150 Capítulo 3 - Relações uterofetais.................................... 156 Capítulo 4 - O trajeto...................................................... 160 Capítulo 5 - O parto........................................................ 161 Capítulo 6 - Puerpério.................................................... 174 Capítulo 7 - Assistência pré-natal................................... 177 Capítulo 8 - Tocurgia....................................................... 189 Capítulo 9 - Pesquisa de maturidade fetal...................... 194 Capítulo 10 - Pós-datismo e gestação prolongada......... 194 Capítulo 11 - Oligoâmnio e polidrâmnio........................ 196 Capítulo 12 - Vitalidade fetal.......................................... 198 Capítulo 13 - Drogas e gestação..................................... 205 Capítulo 14 - Gestação gemelar..................................... 209 Capítulo 15 - Prematuridade.......................................... 211


CAPÍTULO

1

Fisiologia da gestação Fábio Roberto Cabar

1. Fisiologia da gestação O ovário, mensalmente, gera um folículo contendo um oócito. A eclosão desse folículo, chamada ovulação, libera esse precursor do gameta feminino. A tuba uterina capta o oócito, e, na sua porção distal, há o encontro dos gametas masculinos com o gameta feminino. A fecundação é a fusão dos 2 pró-núcleos, masculino e feminino. Quando isso acontece, a estrutura celular resultante é denominada ovo ou zigoto. O ovo sofrerá uma série de divisões celulares sucessivas, processo chamado segmentação. A cada divisão, são formadas células denominadas blastômeros. O conjunto de blastômeros forma a massa denominada mórula, que alcança a cavidade uterina ao redor do 5º dia. As sucessivas divisões

Figura 1 - Ovulação, fecundação, segmentação, nidificação

prosseguem, aparece certa diferenciação celular, e é for-

Após um breve período de edema, as células do estroma

mada uma cavidade com as células formadoras do em-

endometrial sofrem a transformação decidual. Esta se inicia

brião concentradas em um dos polos dessa estrutura. É

ao redor dos vasos sanguíneos, sob o local da implantação,

o blastocisto.

e se estende rapidamente. Por volta do 18º dia, todo o en-

A nidação se inicia cerca de 1 semana após a ovula-

dométrio já apresenta reação decidual. As células deciduais

ção, entre o 6º e o 8º dias, e se completa alguns dias

são volumosas, poliédricas ou arredondadas, com núcleo

depois, quando encontra o endométrio em plena fase

arredondado e vesicular, citoplasma claro e circundado por

secretora. O 1º contato gera a destruição do epitélio e do

membrana translúcida.

estroma endometriais, ação causada por enzimas e pelo grande poder invasor das células trofoblásticas.

Até o 4º mês de gravidez, são reconhecidas várias divisões topográficas na decídua: decídua basal é aquela

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OB S TETRÍCI A sobre a qual se deu a nidação; decídua capsular é a parte que recobre o ovo; decídua marginal é a que se encontra entre a decídua basal e a capsular e corresponde ao contorno equatorial do ovo; e, finalmente, a decídua parietal, que é a porção que reveste o restante da superfície interna do útero. As decíduas parietal e basal apresentam 3 camadas: a superficial ou compacta, a média ou esponjosa e a profunda ou basal. As 2 primeiras camadas representam a zona funcional e se destacam com a dequitação. A zona basal remanescente, no decorrer do puerpério, irá refazer o endométrio. Atribuem-se várias funções à decídua. A decídua protege o ovo da destruição e lhe assegura o alimento na fase inicial da placentação. Quando o endométrio não sofre a necessária deciduação, ocorre o acretismo placentário. Quando a barreira protetora da decídua está ausente, os vilos invadem a musculatura uterina e lhe corroem o travejamento. O trofoblasto, componente embrionário, e a decídua, componente materno, contribuem para a formação da placenta. As vilosidades coriônicas primárias, secundárias e terciárias, que originarão os troncos coriais, surgem a partir do trofoblasto, derivadas diretamente do cório frondoso, na área de implantação do embrião. O potencial de invasão do

Figura 3 - Trofoblasto e formação de vilosidades coriais

20

tecido trofoblástico possibilita a destruição do tecido conjuntivo e dos vasos sanguíneos da decídua basal e do miométrio. A formação destas cavitações cria lacunas entre as vilosidades coriais, os espaços intervilosos, que se enchem de sangue materno provenientes dos vasos destruídos. Septos deciduais, tecido preservado da invasão trofoblástica, irão delimitar os lobos placentários (Figura 3).

Figura 2 - Útero gravídico; decíduas


CAPÍTULO

2

Modificações locais e sistêmicas no organismo materno

1. Introdução Diversas alterações ocorrem em diferentes órgãos e sistemas da mulher grávida para possibilitar o adequado desenvolvimento do embrião durante a gestação. As modificações nos órgãos genitais ocorrem precocemente e ao longo de toda a gestação. As modificações sistêmicas proporcionam o indispensável para as necessidades metabólicas, possibilitando a formação dos tecidos e órgãos e fornecendo reservas nutricionais para a vida neonatal. As exigências da gestação podem atingir os limites da capacidade funcional de muitos sistemas maternos, ocasionando o aparecimento de quadros patológicos ou o agravamento dos preexistentes.

Fábio Roberto Cabar

torna a ectocérvice friável e mais suscetível a traumatismos e sangramentos. Após a nidação, é verificado amolecimento na zona de implantação do embrião. Este se propaga por todo o órgão, principalmente nas regiões do istmo (sinal de Hegar) (Figuras 1 e 2) e do colo uterino (sinal de Goodell). É a embebição gravídica que torna o útero mole e pastoso.

2. Modificações locais A - Útero As modificações locais ou genitais acontecem principalmente no útero, local onde o ovo se nidifica e se desenvolve. O útero apresenta modificações de volume, consistência, forma, situação e coloração. Durante a gestação, acontecem hipertrofia e hiperplasia celular, que modificam peso e volume uterinos. O estímulo hormonal (principalmente estrogênico) e o crescimento fetal fazem que, ao final da gestação, o útero gravídico pese cerca de 1.000g e tenha capacidade de 4 a 5L. O crescimento do útero não é regular ao longo da gestação: por volta da 12ª semana, o fundo uterino pode ser palpado pouco acima da sínfise púbica; ao redor de 16 semanas, está a meia distância entre a sínfise púbica e a cicatriz umbilical, passando a crescer 1cm por semana a partir desse momento. As glândulas cervicais também sofrem hiperplasia e hipertrofia desde o início da gestação, resultando, na maioria das vezes, na exposição da junção escamocolunar. Esse fato

Figura 1 - Avaliação para presença do sinal de Hegar

Figura 2 - Identificação de sinal de Hegar no útero

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OB S TETRÍCI A Até a 20ª semana de gestação, o útero adquire forma esférica, ocupando os fórnices vaginais laterais (sinal de Noble-Budin — Figura 3). Pouco depois, inicia a transformação da forma globosa para a cilíndrica. No 1º trimestre, o útero acentua a sua atitude fisiológica de anteversoflexão, ocasionando compressão vesical e polaciúria. Após esse período, verifica-se a dextroversão do órgão, o que muitos autores atribuem à presença do cólon sigmoide à esquerda. Com o crescimento do corpo uterino, o colo do útero é deslocado posteriormente. Próximo ao termo da gestação, a insinuação fetal proporciona o alinhamento do colo com o eixo vaginal. O comprimento do colo uterino se reduz progressivamente até o parto.

Figura 3 - Sinal de Noble-Budin

Devido ao maior afluxo sanguíneo à região genital, o corpo, istmo e colo do útero se tornam violáceos. A mesma alteração pode ser notada na vagina (sinal de Jacquemier) e na vulva (sinal de Kluge).

B - Ovários As veias ovarianas se ampliam. Não há maturação de novos folículos, e o corpo lúteo, com vascularização exuberante e células com maior quantidade de citoplasma, persiste até a 12ª semana. Quando a produção de gonadotrofina coriônica humana começa a declinar, o corpo lúteo regride, ficando com metade do seu volume máximo próximo ao termo da gestação.

C - Vulva e vagina Durante a gestação, a vagina e a vulva sofrem tumefação. A embebição gravídica faz que a mucosa vaginal se torne edematosa, mole e flexível. O tecido conjuntivo se torna mais frouxo, e a musculatura lisa fica hipertrofiada, para suportar a distensão que ocorre durante o parto. A vascularização da vagina se intensifica, e as veias se hipertrofiam. O pulso vaginal pode se tornar reconhecível nos fundos de saco laterais (sinal de Osiander). Quanto à histologia vaginal, durante o 1º trimestre da gestação, observam-se aglutinação celular, proliferação de células da camada intermediária e intensificação do padrão progestacional. Há aumento das secreções vaginais devido à exacerbação da flora de bastonetes e à intensa descamação celular estimulada por ação hormonal. No 2º e no 3º trimestres, ocorrem estabilização do padrão gravídico, aceleração da aglutinação celular e aparecimento de células naviculares na camada intermediária. No período pré-parto, notam-se dispersão celular, alteração do padrão das células da camada intermediária (tornam-se arredondadas) e rarefação da flora vaginal, com aumento de leucócitos. A descamação celular que ocorre durante todo o período gestacional por estimulação hormonal aumenta a concentração de glicogênio livre, que, por sua vez, é metabolizado e contribui para a diminuição do pH vaginal durante a gravidez.

D - Mamas

Figura 4 - Sinal de Piscacek: abaulamento localizado no local da implantação do embrião. Projeção de crescimento uterino ao longo da gestação

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As mamas se tornam túrgidas e dolorosas no início da gestação. Verifica-se aumento do volume mamário desde o final do 1º mês, causado por hiperplasia glandular e proliferação dos canais galactóforos e ductos mamários. Em virtude de intensa vascularização, as veias superficiais da mama se tornam dilatadas e visíveis sob a pele (rede de Haller). O mamilo é saliente e mais pigmentado. Ao seu redor, são observados vários pontos salientes, que são glândulas sebáceas hipertrofiadas (tubérculos de Montgomery — Figura 5). A progesterona, os estrogênios e a prolactina causam expansão dos alvéolos e hiperpigmentação da aréola secundária (sinal de Hunter). Depois dos primeiros meses, as mamas podem secretar colostro. Estrias gravídicas, semelhantes às do abdome, podem ser observadas em consequência da hiperdistensão da pele ou de alterações do colágeno.


OBSTETRÍCIA CASOS CLÍNICOS


CASOS CLÍNICOS

2010 - FMUSP Uma primigesta, de 26 anos, sem doenças prévias à gestação, em acompanhamento pré-natal, retorna para seguimento de rotina. Nega quaisquer queixas ou antecedentes pessoais relevantes e apresenta idade gestacional de 30 semanas (compatível à data da última menstruação e ultrassonografia realizada com 12 semanas). O exame clínico revela: bom estado geral, consciente, eupneica, corada, hidratada, afebril, acianótica, anictérica, PA = 110x70mmHg, FC = 80bpm e FR = 16irpm. As semiologias cardíaca e pulmonar são normais. Membros inferiores sem edemas. O exame obstétrico mostra: altura uterina = 27cm, batimentos cardíacos fetais presentes, rítmicos e movimentação fetal presente. Foi solicitada ultrassonografia obstétrica para estimativa de peso e avaliação do volume de líquido amniótico. O peso fetal foi classificado como adequado para a idade gestacional. Para a avaliação do volume de líquido amniótico, optou-se pela mensuração do ILA (Índice de Líquido Amniótico) conforme imagens da ultrassonografia:

1.

CASOS CLÍNICOS

a) Calcule e classifique o índice de líquido amniótico.

b) Cite o(s) diagnóstico(s) etiológico(s) pertinente(s) para o quadro clínico.

c) Cite o(s) exame(s) complementar(es) necessário(s) para confirmar a(s) hipótese(s) diagnóstica(s).

2010 - FMUSP Uma primigesta de 23 anos, em idade gestacional de 31 semanas, procura por maternidade com queixa de dores nas regiões lombar e abdominal. Traz consigo cartão de pré-natal revelando ausência de intercorrências clínicas ou obstétricas. Os exames laboratoriais e a ultrassonogra-

2.

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OB S TETRÍCI A RESPOSTAS

c) Qual a interpretação desse resultado?

Caso 1

d) Qual é a conduta a ser adotada?

a) Para a avaliação do volume de líquido amniótico, pela técnica do Índice de Líquido Amniótico (ILA), a gestante é avaliada em decúbito dorsal horizontal, e o abdome materno é dividido em 4 quadrantes, utilizando-se a linha longitudinal mediana e a cicatriz umbilical como ponto de referência para o eixo transverso. Por meio de ultrassonografia, cada quadrante é avaliado pela medida do diâmetro vertical do maior bolsão de LA, em centímetros, posicionando-se o transdutor perpendicularmente em relação ao nível do solo. As medidas são somadas, e o resultado é denominado ILA. A classificação segue conforme a Tabela: ILA

Volume de LA

0 a 5cm

Oligoâmnio

5,1 a 8cm

Líquido diminuído

8,1 a 18cm

Normal

18,1 a 25cm

Líquido aumentado

>25cm

Polidrâmnio

Calculando o ILA desse ultrassom, teremos: 0,57 + 1,34+ 1,4 + 1,4 = 4,71. Classificada como oligoâmnio. b) O líquido amniótico é formado, principalmente, pela diurese fetal, e as causas são decorrentes de condições clínicas associadas à insuficiência placentária. Além da insuficiência placentária, devem ser citadas rotura prematura das membranas, anomalias do trato urinário fetal e oligoâmnio idiopático. A paciente não apresenta história de doenças prévias, apresenta-se hidratada, normotensa e com estimativa de peso fetal adequado pela ultrassonografia. Dessa forma, as causas do oligoâmnio podem ser malformação do trato urinário fetal, oligoâmnio idiopático e insuficiência placentária. c) O exame para avaliar a causa dessa alteração é a ultrassonografia morfológica. A avaliação da circulação fetal pode ser feita por meio da dopplerfluxometria; nas situações em que existe sofrimento fetal/insuficiência placentária, ocorre diminuição do fluxo sanguíneo para os rins do feto, com consequente diminuição da diurese e do oligoâmnio. O diagnóstico de rotura prematura de membranas ovulares pode ser feito, em 90% das vezes, clinicamente.

Caso 2 a) A paciente apresenta trabalho de parto prematuro. O trabalho de parto é definido como a presença de contrações uterinas rítmicas e regulares (pelo menos 2 em 10 minutos), e que promovam modificações no colo uterino, seja esvaecimento ou dilatação. Quando essa atividade uterina descrita ocorre antes da 37ª semana de gestação, diz-se que o trabalho de parto é prematuro.

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OBSTETR Í CIA OBSTETRÍ QUESTÕES


QUESTÕES

2012 UERJ 1. Feliz pela certeza de que estava mesmo grávida, uma jovem enviou um SMS ao seu obstetra, no qual dizia que a última menstruação se iniciara no dia 18 de fevereiro e pedia que calculasse a data provável do parto, conforme o combinado. Embora ressalvasse que fenômenos biológicos podem sofrer amplas variações, com fulcro na regra de Nägele, ele respondeu indicando o seguinte dia do mês de novembro: a) 11 b) 17 c) 25 d) 30 … Tenho domínio do assunto … Refazer essa questão … Reler o comentário … Encontrei dificuldade para responder

2011 UFF 2. A troca gasosa entre a mãe e o feto é: a) favorecida pelo gradiente da PO2 b) dificultada pela afinidade da hemoglobina fetal ao oxigênio c) dificultada pela moderada hiperventilação da gestante d) favorecida pela baixa concentração de hemoglobina do lado fetal e) dificultada pela maior afinidade do CO2 no sangue materno … Tenho domínio do assunto … Refazer essa questão … Reler o comentário … Encontrei dificuldade para responder

2011 UEL 3. Com relação à Endocrinologia da gravidez, é correto afirmar que: a) o fenômeno apical do HCG ocorre após 20 semanas de gestação b) na gravidez avançada, o estradiol representa 90% dos estrogênios totais eliminados c) a placenta elabora estrogênio a partir do colesterol d) a placenta elabora lactogênio placentário, tireotrofina coriônica, estrogênio e progesterona e) a concentração sérica materna de lactogênio placentário atinge seus maiores valores no 2º trimestre de gestação … Tenho domínio do assunto … Refazer essa questão … Reler o comentário … Encontrei dificuldade para responder

2011 UFPE 4. Que fatores séricos podem causar, mais frequentemente, resultados falsamente positivos para o hCG? a) anticorpos antinucleares b) anticorpos heterofílicos c) drogas ilícitas d) anticoagulante lúpico … Tenho domínio do assunto … Refazer essa questão … Reler o comentário … Encontrei dificuldade para responder

2011 CERMAM 5. Com relação ao hormônio lactogênio placentário, não se pode afirmar que: a) é formado no sinciciotrofoblasto b) tem efeito lipolítico c) tem efeito contrainsulínico periférico d) não é transferido para o feto nem para o líquido amniótico e) estimula o pâncreas na secreção de insulina … Tenho domínio do assunto … Refazer essa questão … Reler o comentário … Encontrei dificuldade para responder

2010 ALBERT EINSTEIN 6. A lactopoese: I - Ocorre após a apojadura. II - Tem início no 4º período do parto. III - Depende de fatores hormonais, psicológicos e nutricionais. IV - Faz parte da lactogênese. Está correto o que se apresenta em: a) I, II e III b) I, II, III e IV c) IV, apenas d) I e III e) II e IV … Tenho domínio do assunto … Refazer essa questão … Reler o comentário … Encontrei dificuldade para responder

2010 UFRJ 7. Uma mulher de 26 anos, secundigesta, apresenta teste para gravidez (beta-hCG – 500mUI/mL) positivo. Pela data da última menstruação, a idade gestacional é de 5 semanas e 3 dias. O exame obstétrico revela útero de volume levemente aumentado, com colo amolecido, principalmente na região do istmo, além de ocupação dos fundos de saco vaginais. Não há sangramento nem leucorreia. As evidências clínicas de gravidez, observadas no exame obstétrico, são consideradas sinais de: a) presunção b) certeza c) confirmação d) probabilidade … Tenho domínio do assunto … Refazer essa questão … Reler o comentário … Encontrei dificuldade para responder

2010 UERJ 8. Durante consulta de pré-natal de uma gestante com 16 semanas, os achados de exame físico compatíveis com essa idade gestacional devem ser: a) fundo de útero impalpável, BCF inaudível ao sonar b) fundo de útero ao nível da cicatriz umbilical, BCF audível com sonar c) fundo de útero logo acima da sínfise púbica, BCF inaudível ao sonar d) fundo de útero entre a sínfise púbica e o umbigo, BCF audível ao sonar … Tenho domínio do assunto … Refazer essa questão … Reler o comentário … Encontrei dificuldade para responder

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QUESTÕES

Fisiologia da gestação


OBSTETR Í CIA OBSTETRÍ COMENTÁRIOS


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Questão 1. De acordo com a regra de Nägele, a Data Provável do Parto (DPP) é calculada acrescentando-se 7 dias ao 1º dia da última menstruação e subtraindo 3 meses desta mesma data. Desta forma, se a menstruação foi 18/02, o dia provável do parto seria 18 + 7 = 25, fevereiro - 3 meses: novembro; portanto, a DPP seria 25/11. Gabarito = C Questão 2. A troca gasosa é favorecida pelo gradiente da PO2, maior no compartimento materno, menor no compartimento fetal. Esta troca não está dificultada pela afinidade da hemoglobina fetal ao oxigênio, nem por qualquer hiperventilação da gestante. Não há maior afinidade do CO2 no sangue materno e nem baixa concentração de hemoglobina do lado fetal. Gabarito = A Questão 3. A placenta elabora lactogênio placentário, tireotrofina coriônica, estrogênio e progesterona. O pico de HCG ocorre entre a 8ª e 12ª semanas de gestação. Na gravidez avançada, o estriol representa a maioria dos estrogênios totais eliminados. Durante a gestação, a placenta produz de modo crescente e progressivo grande quantidade de estrógenos. O tecido trofoblástico não possui as enzimas fundamentais para a produção dos estrógenos a partir do colesterol, diferentemente do que ocorre com o corpo lúteo. Dessa forma, a produção estrogênica pela placenta ocorre a partir de precursores androgênicos, especialmente o sulfato de deidroepiandrosterona e o sulfato de 16-alfa-hidroxideidroepiandrosterona. A concentração sérica materna de lactogênio placentário tem níveis crescentes ao longo da gestação e atinge seus maiores valores no 3º trimestre de gestação, próximo ao parto. Gabarito = D Questão 4. Anticorpos heterofílicos são anticorpos dirigidos contra imunoglobulinas de diferentes espécies, sendo que os que mais interessam são os dirigidos contra imunoglobulina de camundongo, desde que a maioria dos anticorpos empregados atualmente seja monoclonal. A presença destes anticorpos é mais frequente do que o desejado e potencialmente pode interferir em todos os ensaios imunométricos. A razão pela qual algumas pessoas possuem esse tipo de anticorpo não é bem esclarecida. As demais substâncias apresentadas não interferem na técnica de dosagem de hCG. Gabarito = B Questão 5. O hormônio lactogênio placentário é produzido pelo sinciciotrofoblasto em quantidades crescentes durante a gestação. Aumenta a resistência periférica à insulina, estimulando o pâncreas a produzir e secretar mais esse hormônio. Além disso, tem efeito lipolítico e é transferido para o feto e para o líquido amniótico. Gabarito = D Questão 6. Lactogênese significa o início da produção láctea pelos elementos glandulares. Lactopoese significa a

manutenção da produção da secreção láctea e depende do mecanismo reflexo, tendo como ponto de partida a sucção do mamilo pelo lactente. O estímulo mecânico da sucção promove a excitação das terminações nervosas da aréola e mamilo, e os impulsos nervosos são transmitidos através de nervos aferentes somáticos do SNC, ocorrendo uma resposta aguda dos neurônios neurossecretores, com o aparecimento de 3 eventos neuroendócrinos resultantes da sucção: liberação de prolactina (produção de leite), de ocitocina (provoca contração das células mioepiteliais e consequente ejeção do leite) e de gonadotrofina (responsável pela amenorreia pós-parto). Portanto, por meio da sucção do lactente e do esvaziamento da glândula, mantêm-se em funcionamento o reflexo neuroendócrino e a atividade secretora pela produção de prolactina e liberação da ocitocina. Além destes mecanismos hormonais, fatores psicológicos e nutricionais também interferem na manutenção da produção de leite. Gabarito = D Questão 7. As evidências clínicas de gravidez são muitas; eram utilizadas no passado para o diagnóstico de gestação. Esses sinais são conhecidos por epônimos e podem ser notados nos órgãos genitais e em outros órgãos e sistemas do organismo materno. Como exemplos, podem-se citar: sinal de Hunter na mama (aréola secundária), rede venosa de Haller, tubérculos de Montgomery, sinal de Piskacek (abaulamento localizado no útero local de implantação do ovo), sinal de Nobile-Budin (preenchimento dos fundos de saco vaginais laterais), sinal de Osiander (pulso vaginal). São sinais de probabilidade de gestação. Gabarito = D Questão 8. O crescimento do útero não é regular ao longo da gestação: por volta da 12ª semana, o fundo uterino pode ser palpado pouco acima da sínfise púbica; e ao redor de 16 semanas, está a meia distância entre a sínfise púbica e a cicatriz umbilical, passando a crescer 1cm por semana a partir desse momento. Os batimentos cardíacos fetais podem ser detectados com o auxílio de diferentes instrumentos ao longo da gestação: por meio de exame de ultrassom via transvaginal a partir da 6 à 8ª semana de gestação, pelo sonar Doppler a partir da 12ª semana e com o estetoscópio de Pinard a partir da 18 à 20ª semana de gravidez. Gabarito = D Questão 9. A placenta humana é: - Discoidal: os vilos se agrupam sob a forma de disco; - Deciduada: o espaço em que circula o sangue materno é eliminado durante a dequitação; - Hemocorial: o trofoblasto vence todas as barreiras, ficando o epitélio do cório em contato com o sangue materno. Gabarito = B Questão 10. A fecundação é a fusão dos 2 pró-núcleos, masculino e feminino. Quando isso acontece, a estrutura celular resultante é chamada ovo ou zigoto. O ovo sofre uma série de divisões celulares sucessivas e, a cada divisão, são formadas células denominadas blastômeros. O conjun-

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Fisiologia da gestação

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