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sobre coletividades urbanas em lugares à margem

ESPAÇO DO COLETIVO


sobre coletividades urbanas em lugares à margem

ESPAÇO DO COLETIVO

MAYRA BIANCONI Trabalho de Graduação Integrado Instituto de Arquitetura e Urbanismo Universidade de São Paulo 2018, São Carlos


01. piscinaço na marÊ, rio de janeiro, 2018


AUTORIZO A REPRODUÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTE TRABALHO, POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRÔNICO, PARA FINS DE ESTUDO E PESQUISA, DESDE QUE CITADA A FONTE


ESPAÇO DO COLETIVO

sobre coletividades urbanas em lugares à margem

TRABALHO DE GRADUAÇÃO INTEGRADO MAYRA BIANCONI COMISSÃO DE ACOMPANHAMENTO PERMANENTE David Moreno Sperling Joubert José Lancha Lúcia Zanin Shimbo Luciana Bongiovanni M. Schenk Simone Helena T. Vizioli COORDENADOR DO GRUPO TEMÁTICO Tomás Antonio Moreira

BANCA EXAMINADORA

Joubert José Lancha Instituto de Arquitetura e Urbanismo - USP

Tomás Antonio Moreira Instituto de Arquitetura e Urbanismo - USP

Convidada(o)


02. semana do natal em sĂŁo rafael, 2017


sobre coletividades urbanas em lugares à margem

resumo

O trabalho aqui apresentado configura uma investigação que parte da relação entre as noções de direito à cidade e espaço urbano como articulador social e local de visibilidade, resistência e disputa, colocando o desafio de compreender como essas noções se verificam em situações à margem, onde o direito à cidade e à vida urbana são negados à seus cidadãos cotidianamente, seja quando uma ampla parcela dos cidadãos gasta uma grande fração de tempo de suas vidas no deslocamento moradia-trabalho, seja quando a juventude, parcela representativa da população das periferias, cresce sem alternativas de lazer, esporte, cultura e educação de qualidade. Provocada pela maneira como as situações de precariedade motivam respostas (improvisadas) dos cidadãos às necessidades do cotidiano, respostas essas que se colocam também, por vezes, como atos de resistência à uma circunstância dada, coloco aqui a preocupação de não tomar essas respostas como suficientes às ausências, destacando a importância de se pensar alternativas e políticas públicas na construção de um caminho mais sólido na busca pelo direito à cidade em seu sentido pleno. Frente a precariedade, quais são as possibilidades de inventar que estão colocadas? PALAVRAS-CHAVE: Direito à Cidade; Espaço Urbano; Espaço Público; Região Metropolitana de São Paulo; São Rafael.


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índice

resumo 0 questões conceituais 1 escala do território 2 região metropolitana de são paulo bordas da metrópole 3 distrito de são rafael texturas da malha urbana 4 diretrizes projetuais 5 processos 6 projeto 7 considerações finais 8 bibliografia 9

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es·pa·ço

co·le·ti·vo

2. Lugar vazio que pode ser ocupado. = VAGA

2. Que pertence a ou é utilizado por muitos (ex.: obra coletiva; transporte coletivo).

substantivo 1. Área que está no intervalo entre limites.

adjetivo 1. Que forma coletividade ou provém dela.

3. Ponto em que não há ou rareia aquilo que existe à volta. = CLAREIRA, CLARO, VÃO

substantivo 3. Conjunto de indivíduos que formam uma unidade em relação a interesses, sentimentos ou ideais comuns (ex.: .coletivo de artistas). = .COLETIVIDADE, COMUNIDADE

4. Capacidade ou lotação de uma área. = LUGAR, SÍTIO 5. Tempo de duração ou tempo que medeia duas operações ou dois atos.

adjetivo e substantivo masculino 4. [Gramática] Diz-se de ou substantivo que, mesmo no singular, representa pluralidade (ex.: as palavras bosque, dúzia, multidão e rebanho são .coletivos).

6. Extensão total do céu ou do universo. 7. Região para além da atmosfera terrestre. 8. Conjunto de circunstâncias. = AMBIENTE. 15


centralizada

descentralizada

distribuída

Entender a complexidade das cidades brasileiras e os mecanismos envolvidos na produção e desenvolvimento de seu espaço urbano é uma tarefa complexa. Para nortear a investigação, busco partir de um contexto amplo, que abranja conceitos do campo da geografia, política e urbanismo, que se faz necessário e parece adequado para que seja possível entender o local no qual se inserem as cidades brasileiras e suas periferias, dentro da lógica neoliberal global. A partir destes conceitos será possível construir um entendimento da relação centro-periferia, que justifica a escolha do recorte da intervenção e colocará diretrizes para o exercício projetual.

questões conceituais

parte 1

03. diagrama de redes, Paul Baran

O LUGAR GEOGRÁFICO O E O NÃO-CIDADÃO Milton Santos, em «O Espaço do Cidadão», nos contempla com uma visão bem atual sobre conceitos que nos ajudam a pensar a realidade das cidades brasileiras, num viés que discute não apenas a questão sócio-econômica, mas também a 16


questão do «lugar geográfico» e a sua interferência na distribuição desigual dos homens no espaço, assim como dos bens e serviços básicos (SANTOS, 1993). A questão do lugar geográfico é representativa da relação centro-periferia que observamos na metrópole paulistana, que resulta na distribuição desigual da oferta de emprego, da mobilidade via transporte público, dos equipamentos públicos de educação, saúde, assistência social, lazer, cultura e esporte, e, consequentemente, tem interferência na construção da cidade e sua sociabilidade urba03. ilustra na. O diagrama de redes de Paul Baran 01. muito bem essa dinâmica centro-periferia e suas problemáticas, e nos propõe maneiras distintas de pensar distribuição, seja ela dos cidadãos ou das infraestruturas e bens básicos essenciais à vida. É desta noção que surge, nesse trabalho, o interesse por trabalhar nas bordas e fronteiras da região metropolitana de são paulo, pensar espaços limítrofes, onde as questões que serão aqui colocadas sejam ainda mais tensionadas e escancaradas.

formas, funções e estruturas da cidade, pautadas notadamente, no momento presente, pela lógica do capital, mas também, e principalmente, as necessidades sociais inerentes à sociedade urbana, em detrimento das necessidades individuais pautadas pela sociedade de consumo (LEFEBVRE, 2001), ou seja, redefinir o que realmente é pertinente que se entenda como direito à cidade e direito do cidadão, para que assim seja possível que estes se realizem de maneira plena . «as necessidades urbanas específicas não seriam necessidades de lugares qualificados, lugares de simultaneidade e de encontro, lugares onde a troca não seria tomada pelo valor de troca, pelo comércio e pelo lucro? não seria também a necessidade de um tempo desses encontros, dessas trocas?» (LEFEBVRE, 2001). Tal como Lefebvre, David Harvey entende o direito à cidade, antes de tudo, como um «direito coletivo» e, apesar de realizar uma nova leitura, a constatação em torno do tema é semelhante: a de que, invariavelmente, a lógica neoliberal, do lucro e da propriedade privada, se sobrepõe, de maneira evidente, a todo e qualquer direito humano (HARVEY, 2012).

Da noção de lugar geográfico, surge a figura do cidadão, e o geógrafo discorre sobre sua figura contrária, o «não-cidadão do terceiro mundo», aquele que, na medida em que vive em áreas desprovidas destes bens e serviços essenciais à vida social coletiva e à vida individual, vive desprovido de seus próprios direitos como cidadão (SANTOS, 1993). Milton Santos, inclusive, tensiona essa noção, colocando a possibilidade de ser ou não um cidadão dependente, em larga escala, do ponto do território em que este se localiza (SANTOS, 1993).

ESPACIALIZAÇÃO DA POBREZA E A PADRONIZAÇÃO DA VIDA Ao falar de direitos, observa-se que o direito de morar, o direito aos espaços públicos e o direito ao espaço urbano são, por exemplo, noções cada vez mais esvaziadas de sentido e impregnadas por um viés mercadológico e de privatização da lógica neoliberal, resultando em espaços empobrecidos material, social, política, cultural e moralmente, espaços humanos que são cada vez mais reduzidos à sua função e valor econômico. Neste sentido,

DIREITO À CIDADE Sobre quais direitos está se falando? Henri Lefebvre, ao escrever sobre questões que norteiam o que ele chama de «direito à cidade», nos traz a noção da necessidade de se redefinir não só as 17


Milton Santos reconhece o espaço físico como um local de agravação das condições criadas pelo capital, e ainda, quando aproxima as noções de espaço e classes sociais, conclui que o espaço, na maioria das vezes, funciona em semelhança à estrutura social, na medida em que distribui espacialmente e hierarquicamente a pobreza (SANTOS, 1993). Harvey reconhece, ainda, a cidade e o espaço urbano como locais históricos de absorção do excedente de capital (HARVEY, 2012) e a urbanização não só como um mero reflexo da atitude capitalista, mas como parte integrante e impulsionadora dessa dinâmica. Dentro deste cenário, é importante entender como as grandes operações urbanas atuam, então, principalmente como forma de absorver e girar o excedente de capital ocioso (HARVEY, 2012), no sentido, também, de manter um certo status na estrutura social, e não como forma real de resolução de demandas de questões quantitativas ou até mesmo qualitativas.

não pode existir o urbanismo como uma ciência da cidade autorreferenciada, que se baste em si mesma, apontando para os limites que isso pode representar. É necessário um suporte social, forças políticas atuantes e a participação de diversos agentes como possibilitadores de uma construção mais democrática da cidade, destacando aqui, novamente, a figura do «cidadão», de Milton Santos. Para Lefebvre, «Apenas a força social capaz de se investir a si mesma no urbano, no decorrer de uma longa experiência política, pode se encarregar da realização do programa referente à sociedade urbana.» (LEFEBVRE, 2001), ou seja, pode verdadeiramente contribuir para que se possa caminhar para a construção e concepção de uma cidade mais justa, democrática e anticapitalista. A cidade se coloca, então, como campo conflito e disputa, na qual os valores de identidade urbana, cidadania e pertencimento estão constantemente ameaçados, e os movimentos sociais urbanos têm verdadeira importância no modo como irá se proceder na produção da cidade (HARVEY, 2012).

Assim, a escala das intervenções urbanas é algo questionável quando se busca contrapor à lógica dada, à padronização, homogeneização e hierarquia presentes nas relações e processos de produção, questões estas que, na maioria das vezes, são também responsáveis por estabelecer novos estilos de vida associados ao consumismo e à individualidade, uma experiência urbana contemporânea que quase sempre está relacionada ao consumo (HARVEY, 2012) e que é passível de problematização no sentido das consequências sociais pelas quais são responsáveis. 04.

URBANIDADE OU A QUALIDADE DO URBANO Urbanidade é a característica típica da cidade e o modo como a cidade acolhe as pessoas. Espaços com urbanidade são espaços acolhedores, o oposto de espaços inóspitos. Atualmente, o espaço público é cada vez mais marcado por grades e portões, muros, e áridas rodovias, que cortam cidades ao meio, em uma tendência ao desurbano e à segregação em guetos residenciais, comerciais, viários, produzindo uma cidade monofuncional, oposta ao lugar do coletivo, do convívio da diferença, da troca.

A CIDADE E O URBANO COMO CAMPOS DE DISPUTA Dado que a produção urbanística se insere não como uma consequência, mas como parte da dinâmica da produção capitalista, é pertinente se utilizar da concepção de Lefebvre, em defesa de que

O que significa a palavra urbanidade nas situações urbanas e arquitetônicas onde resulta uma falta absoluta de urbanidade? Nas situações em que a cidade abandona o corpo e a escala do pe18


para sua vida cotidiana. Essas práticas criam espaços heterotópicos por toda parte [...]» (HARVEY, 2014).

destre, ao mesmo tempo surgem respostas inesperadas para retomada desse lugar. A urbanindade resiste por meio da apropriação da cidade por meio do corpo, do individual e do coletivo. Urbanidade não é somente vitalidade, no sentido de presença de pessoas, mas sim sobre comportamento espacial, sobre como a apropriação do espaço acontece, como a relação corpo-espaço se materializa. E a urbanidade se faz presente em diferentes escalas, desde o desenho do corrimão e da calçada, passando para o desenho de ruas e bairros inteiros.

É, então, da tomada de consciência da capacidade da ação coletiva de criar, de forma radical, o novo, que, segundo Harvey, se caracteriza esse movimento revolucionário (HARVEY, 2014), ainda mais quando se imagina que esses espaços limítrofes são locais de composição social diversa, concentrando inúmeras histórias de vida e aspectos culturais unidos, até então, por uma desigualdade econômica e situação informal, o que pode impulsionar a ação coletiva e participativa num sentido de uma «elaboração criativa».

Pensar a urbanidade das cidades recoloca, então, a necessidade de pensar a arquitetura e o urbanismo como arte social e coletiva, e não apenas como ferramenta para suprir demandas quantitativas.

Nesse sentido, Paola Berenstein, em «Corpografias Urbanas», nos traz uma visão de Milton Santos de que os mais pobres, ainda que de maneira não voluntária, experimentam e vivenciam mais a cidade do que os habitantes mais abastados, pois, obrigatoriamente, possuem o hábito da prática urbana no cotidiano, e assim desenvolvem uma relação física mais profun06. No da com o espaço urbano (BERENSTEIN, 2008) 06.. mesmo sentido, o pensamento de Milton Santos é retomado em Sobarzo, no artigo «A produção do espaço público: da dominação à apropriação», na medida em que este tenta entender quais grupos sociais se colocam a disposição da subversão nas atuais condições da reprodução capitalista, encontrando que

ESPAÇOS HETEROTÓPICOS E A AÇÃO COLETIVA Com o poder do capital respaldado pelo Estado, algumas situações começam a se repetir nos grandes centros urbanos como parte do processo de produção das cidades, tais como a criminalização da pobreza, pobres sendo considerados ocupantes ilegais das cidades, destituídos dos direitos humanos básicos, e o consequente deslocamento e expulsão dessa população para as periferias da cidade (HARVEY, 2012).05. Uma conceituação que Harvey retoma de Lefebvre, no livro que «Cidades Rebeldes», nos ajuda no entendimento de como o cidadão e os movimentos sociais se colocam como elementos protagonistas na resistência aos processos decorrentes da produção capitalista do espaço:

«O pobre convive com o lugar, apropria-se do espaço público, interage com outros – mesmo que numa prática de sociabilidade segmentada – e ao criar laços de reconhecimento e identidade pode adquirir a consciência que o leve à transformação. No lado oposto, a “apropriação limitada” das classes altas e médias alimenta o seu conformismo e “cria uma mecânica rotineira, um sistema de gestos sem surpresa” nas suas áreas de modernidade que ficam reduzidas a espaços “fechados, racionalizados e racionalizadores”.» (SANTOS, 1997 apud SOBARZO, 2006).

«O conceito de heterotopia defendido por Lefebvre [...] delineia espaços sociais limítrofes de possibilidades onde “algo diferente” é não apenas possível, mas fundamental para a definição de trajetórias revolucionárias. Esse “algo diferente” não decorre necessariamente de um projeto consciente, mas simplesmente daquilo que as pessoas fazem, sentem, percebem e terminam por articular à medida que procuram significados 19


Assim, a figura do espaço urbano se coloca como cenário principal da disputa e do conflito, reitera Harvey ao constatar que é nas cidades que podemos ver acontecer os mais importantes movimentos de resistência, articulação e rebeliões em busca de uma mudança política e social e, em um momento em que a crise do capital coloca em evidência os seus processos, «A ideia do direito à cidade [...] surge basicamente das ruas, dos bairros, como um grito de socorro e amparo de pessoas oprimidas em tempos de desespero.» (HARVEY, 2014). 07. 08.

dos movimentos sociais e do cidadão, coloca a ideia de heterotopia em estado de tensão com a isotopia, ou seja, as práticas urbanas em estado de tensão, e não como alternativa, à ordem espacial dada e racionalizada do capitalismo (HARVEY, 2014). Otília atenta, na mesma direção de Harvey e Lefebvre, para a dimensão política que o espaço urbano representa (ARANTES, 2014). APROPRIAÇÃO E A INVENÇÃO DO COTIDIANO Pensando em apropriação do espaço, Oscar Sobarzo, em seu artigo «A produção do espaço público: da dominação à apropriação» realiza uma análise da construção dos espaços públicos na lógica de produção capitalista, relacionando-os aos conceitos de dominação e apropriação que giram em torno dessa produção (SOBARZO, 2006) e nos apresentando três noções importantes e características do espaço público nas cidades contemporâneas: a dominação política e econômica na produção desse espaço; a lógica mercadológica que coloca em constante questionamento a relação entre o público e o privado; e a realização da vida materializada nos espaços públicos, ou seja, por meio da sociabilidade e apropriação urbanas (SOBARZO, 2006). Quando se trata das relações de apropriação do espaço, fala-se, então, de uma esfera de “realização da vida humana” (SOBARZO, 2006), e realização de relações socioespaciais ligadas à conceitos de identidade, pertencimento e conceitos subjetivos, que se colocam em resistência à racionalidade e padronização dominantes do sistema. 09. 10.

O ESPAÇO PÚBLICO E URBANO COMO LOCAL DE ARTICULAÇÃO Otília Arantes, em entrevista dada à Vera Pallamin sobre as «Formas urbanas em mutação», tensiona o conceito da expressão «espaço público», expressando sua convicção sobre a «falsidade de um tal conceito de «espaço público», quando todo o espaço é avaliado simplesmente pelo seu potencial de produção de mais valia» (ARANTES, 2014), dada a lógica do capital dominante na produção de nossos espaços urbanos. Mas, ao mesmo tempo, entende que a série de experiências de apropriação do espaço urbano observadas em nossas cidades se colocam como forma de resistência, reiterando a visão de Harvey sobre a importância da cidade e do espaço urbano como locais militantes nos movimentos de subversão e confronto com a ideologia dada. Em «Cidades Rebeldes», entendendo os espaços público e urbano como alvos constantes na lógica capitalista, coloca a necessidade de apropriação desses espaços, utilizando-os como locais de efetivação de práticas sociais e políticas coletivas, como locais de articulação e reivindicação do direito à cidade na luta contra o capital (HARVEY, 2014). Retomando o conceito de heterotopia de Lefebvre ao aproximar as noções e espaço público e urbano à atuação

De Michel Certeau, em «A invenção do cotidiano», extraímos a noção fundamental da capacidade do cidadão de superar sua condição passiva e alienada, por meio da apropriação do espaço, entendendo ainda que o “espaço é um lugar praticado” (DE CERTEAU, 2003 apud SOBARZO, 2006). 20


Nesse sentido, Paola Berenstein nos apresenta a questão do espaço público e urbano pela perspectiva do corpo do cidadão, em que a experiência urbana e corporal da cidade se coloca como um processo de micro-resistência dentro das cidades contemporâneas, resistência ao que ela chama de «espetacularização da sociedade contemporânea», de espaços cada vez mais privatizados e não apropriados, consciente de que a relação do corpo do cidadão com o corpo urbano é capaz de desenvolver novas formas de apreensão urbana, reflexão e intervenção na cidade contemporânea e no urbanismo (BERENSTEIN, 2008). 11.

«Potencializada pela ideia de tornar a cidade disponível para todos os grupos, essa prática crítica inclui dentre seus propósitos estéticos o desafio a certos códigos de representação dominantes, a introdução de novas falas e a redefinição de valores como abertura de outras possibilidades de apropriação e usufruto dos espaços urbanos físicos e simbólicos» (PALLAMIN, 2002). Assim, entendendo que a arte e a prática artística crítica permeiam transversalmente a diversidade dos temas que até aqui foram desenvolvidos, ela aparece, na cidade como maneira ativa de construção de sentidos e modos distintos de inteligibilidade dos domínios urbanos (PALLAMIN, 1998), e também como colaboradora social com os estratos marginalizados e minorias, com práticas que fortalecem-nas em seus espaços de pertencimento (PALLAMIN, 2006), participante constante dos movimentos de resistência, visibilidade e legitimidade na busca pelo direito à cidade. Como Lefebvre coloca, acima de tudo, a arte é importante para a realização da vida urbana (LEFEBVRE, 2001). 12.

A apropriação do espaço público coloca-se então como experiência coletiva criadora de pertencimento, de uma nova consciência que pode significar a mobilização social, primeiro estágio da articulação com vista à mudança, em busca da alternativa (SOBARZO, 2006). Harvey, ao escrever sobre suas «Cidades Rebeldes», estabelece a importância dos movimentos sociais locais no contexto global e com isso a possibilidade de esperança na construção de uma vida urbana que não seja regida exclusivamente pela lógica do capital (HARVEY, 2014), no mesmo sentido em que considera Lefebvre, quando afirma que a transformação da “totalidade” também depende do “nível micro” ou da esfera da vida cotidiana (LEFEBVRE, 1992, apud SOBARZO, 2006). A PRÁTICA ARTÍSTICA Segundo Pallamin, as práticas artísticas são representações dos imaginários sociais, podendo assim criar situações de visibilidade e presença inéditas, apontar ausências no domínio público e urbano ou resistências às exclusões promovidas por esse espaço, abrindo espaço para novas possibilidades e sociabilidades e criando questionamentos e interrogações sobre a cidade tal como está, no presente, socialmente construída, representada e experienciada, com todas as suas contradições, conflitos e relações de poder (PALLAMIN, 2002). 21


06. parangolé, hélio oiticica. “incorporo a revolta”. 04. série fotográfica paraísos sinistros: habitação de interesse social no México, por Jorge Taboada

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10. post-it city, ciudades ocasionales

09. post-it city, ciudades ocasionales 22


07. superstudio

05. cartografia afetiva na comunidade do banhado, sĂŁo josĂŠ dos campos, 2017.

08. superstudio

11. francis alys

12. christo

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“Espaço como ente abstrato, que não existe se não o definirmos. Para que exista precisamos quantifica-lo e qualifica-lo, ele sempre vem acompanhado de outra palavra o adjetivando.” JORGE BASSANI 24


13. georges perec, espaรงo

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N


regiĂŁo metropolitana de sĂŁo paulo


1881 - 1929 1930 - 1949 1950 - 1960 1961 - 1974 1975 - 1980

escala do território região metropolitana de são paulo

parte 2

1981 - 1997 fonte: centro de estudos da metrópole e embraesp.

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Partindo de uma noção histórica da constituição da região metropolitana de São Paulo, é possível compreender o processo de constituição de suas bordas e regiões periféricas, que representam o recorte de interesse deste trabalho. Ao observar o mapa da expansão urbana da metrópole, é visível a expansão expressiva que ocorre em direção as bordas do município entre 19501960 e para municípios vizinhos entre 1961-1974, decorrentes do deslocamento e descentralização das indústrias de São Paulo, dadas as alterações no processo produtivo e condição de competitividade e modernização que opera entre a década de 50 e 70. Aliado à este fator, está a questão do preço do solo, impostos e incentivos fiscais das terras periféricas frente as centrais. Assim, ocorre uma visível expansão do processo de ocupação e descentralização do setor produtivo, porém com centralização do capital, com o capitalismo financeiro, o que se reflete espacialmente na questão do lugar geográfico e territorialização da pobreza


nas bordas e limites do município. Enquanto este processo ocorre na periferia, a acumulação do capital impera nos setores imobiliário e de serviços no centro (CARLOS, 2004).

zação da pobreza não necassiamente nas bordas do município, mas principalmente por regiões. Apesar disso, o «anel periférico» continua como responsável por 55% do incremento populacional nos anos 1970; 97% do incremento populacional entre 1980 e 1991; e 127% nos anos 1990 (PASTERNAK E BÓGUS, 2003).

A dinâmica urbana evidencia esse processo de reprodução tanto no plano espacial, em sua dimensão econômica, política e estratégica, quanto no plano social, da vida cotidiana.

Para Villaça, ainda, a «dominação se dá pela desigual distribuição das vantagens e desvantagens do espaço produzido; essas vantagens e desvantagens dizem respeito especialmente à manipulação, pela classe dominante, dos tempos gastos nos deslocamentos espaciais dos habitantes.». Como as condições de acessibilidade ao mercado de trabalho e ao consumo são profundamente desiguais, a distância casa/trabalho/estudo e o tempo gasto nesse percurso são indicadores relevantes na compreensão dos mecanismos reprodutores das desigualdades socioespaciais (FRANCISCONI, 2004; BÓGUS & PASTERNAK, 2009). O que se observa hoje é uma crise decorrente do modo de reprodução da metrópole, mas com cenários de risco e paisagens contraditoriamente ocupadas com perspectivas de continuidade da reprodução desse processo de apropriação do território, rumo ao colapso ou paralisação do sistema como um todo.

A ampliação da rede viária e rodoviária se vê motivada basicamente por relações de trabalho, educação, moradia e consumo (BÓGUS & PASTERNAK, 2009), reforçando um modelo de dependência centro-periferia extremamente problemático. A redução da taxa de crescimento populacional da cidade de São Paulo, dado que os custos das moradias nas cidades periféricas são mais acessíveis (BÓGUS & PASTERNAK, 2009), se reflete na cidade de São Paulo e, por extensão, na sua região metropolitana, como uma cidade dos anéis. E de acordo com Pasternak (2003), quanto mais periférico for o anel, maior a exclusão social e territorial. Contraditóriamente, a partir dos anos 1970 é que surgem nos anéis periféricos os grandes condomínios fechados, principalmente à sudoeste, destinados às classes altas, e em 1990, os condomínios horizontais fechados, se espalhando por toda a região. Flávio Villaça, em «Reflexões sobre as Cidades Brasileiras», contrapõe as noções de «centro versus periferia» e «círculos concêntricos» a medida que entende que essas definições são incapazes de abarcar o significado completo de segregação, articulando-a ao restante da estrutura urbana e da totalidade social (VILLAÇA, 2012) e dos aspectos econômico, político e ideológico mantenedores da segregação e dominação. Explica que pela lógica «centro versus periferia», o centro deveria crescer uniformemente em todas as direções (VILLAÇA, 2012), no entanto, o que se observa é a espaciali-

É nesse contexto que me interessa analisar as bordas do município, ou os e regiões lugares à margem, decorrentes desse modo de produção da cidade e do território. Um aspecto extremamente relevante é o fato de que na Região Metropolitana de São Paulo não existe uma agência metropolitana ou órgão específico capaz de fornecer subsídios para cooperação intermunicipal através de ações e instrumentos de gestão integrada. Assim, nesses lugares limítrofes, é interessante observar a junção de bordas, ou seja, nos municípios vizinhos fronteiriços é possível 29


observar características de ocupação do território e deficiências urbanas semelhantes.

culdades de deslocamento são reflexo direto das desigualdades socioterritoriais e da conformação do tecido urbano, onde há altíssima concentração de emprego e infraestrutura na área central da cidade e carência nas áreas periféricas.

ZONA LESTE - APROXIMAÇÃO DA ÁREA O eixo ferroviário da Zona Leste surge em meados do século XIX. Em 1930 passa a existir na região alguns bairros loteados, com sistema viário desenhado, mas ainda não urbanizados, espraiados ao longo de eixos de transporte. Os vetores de expansão no sentido Leste, ao longo das ferrovias e vias principais, refletem a crescente dependência às áreas centrais da cidade. O Complexo Viário Jacu Pêssego/Nova Trabalhadores, de vias expressas e semi-expressas, foi construído ao final da década de 1990 para suprir parte das demandas por deslocamento na direção Norte-Sul.

A maior parte do território da Macrorregião Leste está inserida na Macrozona de Estruturação e Qualificação Urbana, que tem objetivos como: promoção da convivência mais equilibrada entre a urbanização e a conservação ambiental; oferta de sistemas de transporte coletivo e de infraestrutura para os serviços públicos; redução de situações de vulnerabilidades urbana; desconcentração de trabalho, emprego e renda. PLANO DIRETOR ESTRATÉGICO - PDE 2014 A leitura do plano diretor estratégico de São Paulo, elaborado em 2014, auxiliou no direcionamento das questões de interesse deste trabalho e, consequentemente, na escolha de um recorte. Nas páginas seguintes, a série de mapas auxilia na compreenção gráfica e espacial das questões até aqui colocadas.

As áreas a norte e a sul consolidaram-se como mancha urbana, bairros diretamente associados aos principais eixos de transporte, devido aos deslocamentos de grandes distâncias percorridos diariamente pela população para trabalhar. O uso do solo configurou-se majoritariamente residencial, ou seja, monofuncional na maior parte desse território, composto, essencialmente, por bairros-dormitórios, intensificando a dinâmica dos deslocamentos pendulares. A partir da década de 1970, com a chegada da Linha-3 Vermelha do Metrô até Itaquera e a produção em massa de conjuntos habitacionais em Itaquera e, principalmente, em Cidade Tiradentes, o perfil de bairro dormitório consolidou-se definitivamente. Atualmente, a Macrorregião Leste apresenta vulnerabilidade social, urbana e ambiental significativas, tem baixa taxa de emprego formal da região, carência pelo acesso a serviços, em especial aos de saúde e educação, precariedade habitacional e graves problemas de mobilidade, com sistemas de transportes públicos sobrecarregados. As difi30


CONCENTRAÇÃO DE EMPREGO E INFRAESTRUTRA X ÁREAS DE MAIOR VULNERABILIDADE SOCIAL EMPREGOS FORMAIS ÍNDICE PAULISTA DE VULNERABILIDADE SOCIAL VULNERABILIDADE MUITO ALTA VULNERABILIDADE ALTA VULNERABILIDADE MÉDIA VULNERABILIDADE BAIXA

leituras região metropolitana de são paulo

fonte: SMDU, 2014.

o mapa ilustra perfeitamente as noções colocadas por Villaça: a dominação espacial relacionada com os tempos gastos nos deslocamentos espaciais dos habitantes, dada a concetração de empregos e infraestrutura na região central do município; a segregação nos limites do município, porém concentrada em regiões: extremo da zona leste, zona sul, zona sudoeste e algumas manchas ao norte.

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MACROÁREAS DE INTERESSE MACROÁREA DE ESTRUTURAÇÃO METROPOLITANA MACROÁREA DE REDUÇÃO DE VULNERABILIDADE MACROÁREA DE REDUÇÃO DE VULNERABILIDADE E RECUPEAÇÃO AMBIENTAL fonte: plano diretor estratégico de são paulo, 2014.

a macrozona de estruturação e qualificação urbana é caracterizada pelo grande potencial de transformação, que precisa ser planejado e equilibrado. macroárea de estruturação metropolitana caracterizada por áreas muito povoadas, porém com carência de empregos, ao longo de importantes eixos de transporte. macroárea de redução da vulnerabilidade caracterizada por elevados índices de vulnerabilidade social, com áreas precárias, irregulares e de risco e déficit na oferta de serviços, equipamentos e infraestrutura urbana. macroárea de redução da vulnerabilidade e recuperação ambiental caracterizada por elevados índices de vulnerabilidade socioambiental, com áreas precárias, irregulares e de risco e déficit na oferta de serviços, equipamentos, infraestrutura urbana e segurança ambiental.

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ZONAS DE ESPECIAL INTERESSE SOCIAL ZEIS 1 ZEIS 2 ZONA RURAL fonte: plano diretor estratégico de são paulo, 2014.

as zonas especiais de interesse social são porções do território destinadas, predominantemente, à promoção de moradia digna para a população de baixa renda. apesar da questão da habitação ser central, melhorias urbanísticas são imprescindíveis, prevendo, portanto, equipamentos sociais, infraestruturas, áreas verdes, comércios e serviços locais. zeis 1 - áreas caracterizadas pela presença de favelas e loteamentos irregulares e habitadas predominantemente por população de baixa renda zeis 2 - áreas caracterizadas por glebas ou lotes não edificados ou subutilizados, adequados à urbanização

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TRANSPORTE PÚBLICO EXISTENTE LINHA E ESTAÇÕES DE TREM LINHAS E ESTAÇÕES DE METRÔ CORREDOR DE ÔNIBUS MUNICIPAL CORREDOR DE ÔNIBUS INTERMUNICIPAL fonte: plano diretor estratégico de são paulo, 2014.

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TRANSPORTE PÚBLICO PLANEJADO LINHA E ESTAÇÕES DE TREM LINHAS E ESTAÇÕES DE METRÔ CORREDOR DE ÔNIBUS MUNICIPAL CORREDOR DE ÔNIBUS INTERMUNICIPAL LINHA DE MONOTRILHO MODAL A SER DEFINIDO fonte: plano diretor estratégico de são paulo, 2014.

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5km

0

10km

1km

2,5km

5km

10km

ESCALA GRÁFICA

ESCALA GRÁFICA

EQUIPAMENTOS DE EDUCAÇÃO EM SÃO PAUL0

EQUIPAMENTOS DE CULTURA EM SÃO PAUL0

CEUS

BIBLIOTECAS

ENSINO TÉCNICO

MUSEUS

SESI/SENAI/SENAC

TEATROS/CINEMAS/SJOWS

REDE PÚBLICA INFANTIL

ESPAÇOS CULTURAIS

REDE PÚBLICA FUNDAMENTAL

OUTROS fonte: mapa digital da cidade de são paulo, 2011.

REDE PRIVADA fonte: mapa digital da cidade de são paulo, 2011.

36


DISTRIBUIÇÃO DE EQUIPAMENTOS

N

0

1km

2,5km

5km

10km

ESCALA GRÁFICA

EQUIPAMENTOS DE CULTURA EM SÃO PAUL0 ESTÁDIO CLUBE CLUBE DA COMUNIDADE CENTRO ESPORTIVO fonte: mapa digital da cidade de são paulo, 2011.

37


SÃO RAFAEL ITAQUERA

SAPOPEMBA

STO ANDRÉ

N

38


MAUÁ

39

subprefeitura de são mateus zona leste de são paulo

IGUATEMI


leste 2

bordas da metrópole distrito de são rafael

parte 3

zona leste

distrito de são mateus

região metropolitana de são paulo

subprefeitura de são rafael

40

São Rafael é distrito integrante da subprefeitura de São Mateus, fazendo divisa com os distritos de São Mateus e Iguatemi, e os municípios de Mauá e Santo André, e pertence à Zona Leste 2 da Região Metropolitana de São Paulo. A escolha do distrito explica-se pelas leituras anteriormente apresentadas, que evidenciam o interesse por estudar as bordas e fronteiras da RMSP. O distrito de São Rafael destaca-se por ser uma importante junção de duas Zonas de Especial Interesse Social, concentrando em grande parte de sua área ZEIS 01 (favelas e loteamentos precários e irregulares) e ZEIS 02 (vazios urbanos com pressão por urbanização). A questão da escolha pela zona leste explica-se pelo interesse em como os distritos desta borda da RMSP apresentam características semelhantes às dos municípios vizinhos - bordas que se encontram, e apresentam certa homogeneidade e características semelhantes na paisagem, ocupação do território e mobilidade urbana. Como moradora do ABC há 23 anos, a forte


mento econômico demarcado pelo Plano Diretor Estratégico do município de São Paulo, 2014. Os dados apontam, então, um enorme potêncial de transformação da região, mas que necessita de planejamento e controle Dos objetivos colocados pelo Plano Diretor Estratégico de 2014 para a região estão:

relação de depêndencia centro-periferia, a não-variedade de modais, a distância moradia-trabalho, a questão das cidade-dormitório e cidades industriais e como isso se reflete na sociabilidade urbana e construção das cidades são questões que sempre me instigaram. As bordas da metrópole guardam locais com características muito discrepantes do imaginário que se tem da capital paulistana. A segregação social-econômica-espacial é clara e desenhada. Os mapas de transporte público existente e em expansão ilustram que, alguns distritos, como é o caso de São Rafael, mesmo nos planejamentos do plano diretor, continuarão isolados da malha urbana existente, sem variedade de modais e integração fácil ao centro, o que interfere diretamente na qualidade de vida da população, já que é nessa área que se concentram a maioria de oferta de empregos e infraestrutura urbana.

• Atender demanda por equipamentos e serviços públicos; • Melhorar a acessibilidade e mobilidade local; • Promover a regularização fundiária e urbanística; • Melhorar a segurança pública local. Das diretrizes para a realização destes objetivos, estão: • Indicar diretrizes de parcelamento do solo, com implantação viária garantindo a continuidade dos logradouros e buscando tornar possível o atendimento futuro por linhas de ônibus, e boa localização das áreas para equipamentos e áreas verdes; • Realizar melhorias viárias, qualificação do espaço livre público e arborização urbana; • Estudar melhorias viárias na Estrada Santo André para possibilitar o atendimento por ônibus e na Rua Morro das Pedras; • Atender demanda por infraestrutura para deslocamento em bicicleta; • Incentivar a instalação de edifícios de uso misto, com térreo preferencialmente comercial ou de serviços, visando atender a população local e ofertar empregos; • Garantir total atendimento às infraestruturas básicas; • Avaliar a possibilidade de instalação de equipamentos públicos em terrenos vazios ou remanescentes; • Incrementar iluminação e segurança pública; • Atender a demanda por espaços livres públicos de lazer e esporte.

Aproximando-se da escala do território para a escala do bairro, a pesquisa sobre os bairros de São Rafael leva à escolha do Parque São Rafael, um dos bairros mais antigos do distrito, situado à sudoeste, próximo ao Pólo Industrial de Capuava e divisa com o município de Mauá, ao sul. O tecido urbano tem dois vetores de conurbação com esta área do município, um sobre as bordas do Ribeirão do Oratório com o Distrito de São Rafael; o outro estende-se a leste da Av. Jacu Pêssego/ Nova Trabalhadores. Além disso, a área abrange importantes vias como a Jacu-Pêssego/Nova Trabalhadores (anel leste do rodoanel), Bandeira de Aracambi, Morro das Pedras e Rodolfo Pirani. A área é caracterizada por grandes varios urbanos, glebas não parceladas com pressão por urbanização (ZEIS 02) e grande parcela de moradias precárias e irregulares e favelas (ZEIS 01), com, como já pontuado anteriormente, sistema viário e demais infraestruturas urbanas deficientes. Integra parte do perímetro de incentivo ao desenvolvi41


+

percentual de participação das faixas etárias de até 14 anos e 60 e mais

43,3%

proporção da população sem acesso próximo (1km) à equipamentos públicos de cultura

carência do sistema de mobilidade

42

+ 40,50%

viajam a pé

11,30%

área: 13,2 km²

da população é classificada nos grupos 5 e 6, grupos de alta vulnerabilidade segundo o IPVS - Índice Paulista de Vulnerabilidade Social

cia: inân m o d pre nças e s e cria escent l o d a

57,04%

35,60% população: 151.017 hab

percentual de trabalhadores que gastam mais de uma hora no deslocamento casa - trabalho

pre d res ominâ idê n nci cia: al

proporção da população sem acesso próximo (1km) à equipamentos públicos de esporte e lazer

os residentes buscam serviços, equipamentos e comércio que se localizam nas proximidades, em outras subprefeituras

+


36,70%

área de intervenção: setores censitários com densidade demográfica >400hab/ ha e IPVS 5 e 6

proporção da população sem acesso próximo (1km) à parques

43


CONSOLIDADO X EM CONSTANTE TRANSFORMAÇÃO

N

44


ÁREAS DE FRONTEIRA DENTRO DA PRÓPRIA FRONTEIRA rodovias, malhas urbanas, áreas de preservação, declividades, rios

45


N

46


47


DENSIDADE DEMOGRÁFICA QUANTIDADE DE HABITANTES/HA ATÉ 92 92 -146 146 - 207 207 - 351 351 - 30346

leituras distrito de são rafael

fonte: geosampa, 2018.

N

48


ÍNDICE PAULISTA DE VULNERABILIDADE SOCIAL VULNERABILIDADE MUITO ALTA VULNERABILIDADE ALTA VULNERABILIDADE MÉDIA VULNERABILIDADE BAIXA VULNERABILIDADE MUITO BAIXA SEM CLASSIFICAÇÃO fonte: geosampa, 2018.

N

o mapa da vulnerabilidade social indica que, nas áreas para onde cresce a população periférica, nas quais surgem ocupações irregulares, loteamentos precários e favelas, frequentemente associadas à áreas de várzea e declividade, nas bordas da malha urbana consolidada, aparecem os maiores índices de vulnerabilidade do distrito. para além da questão da moradia, observa-se a deficiência do transporte público e dos equipamentos públicos em um raio de distância acessível para a população. não suficiente, a grande área demarcada no mapa como «vulnerabilidade muito alta» índica o antigo aterro sanitário de sapopemba, desativado na década de 80, atual parque sapopemba. 49


PADRÃO HABITACIONAL LOTEAMENTO PRECÁRIO NÚCLEO FAVELA fonte: habita sampa, 2018.

PROMORAR RIO CLARO - São Francisco Domicílos Estimados: 1100

NÚCLEO - Gaspar Madeira Domicílos Estimados: 233 OCUPAÇÃO PROMORAR - São Francisco Domicílos Estimados: 1000 NÚCLEO E - São Francisco Domicílos Estimados: 1270 NÚCLEO D - São Francisco Domicílos Estimados: 394

NÚCLEO 1-A - São Francisco Domicílos Estimados: 808

OCUPAÇÃO MORUMBIZINHO - São Francisco Domicílos Estimados: 700

N

50


ZONAS DE ESPECIAL INTERESSE SOCIAL ZEIS 1 ZEIS 2 fonte: plano diretor estratégico de são paulo, 2014.

N

51


EQUIPAMENTOS PÚBLICOS ESPORTE CULTURA EDUCAÇÃO fonte: centro de estudos da metrópole.

N

52


LINHAS DE ÔNIBUS LINHAS DE ÔNIBUS VIAS PRINCIPAIS fonte: sptrans.

N

53


54


55


texturas da malha urbana

parte 4

A investigação das texturas da malha urbana surge espontaneamente e de maneira muito visual: nas primeiras buscas no google earth, a visualidade das malhas urbanas adjacentes - próximas, ainda, à terrenos vazios, em contraste à uma ocupação densamente consolidada na maior parte do distrito - ressalta a área selecionada como recorte a ser estudado (apontado nas pgs. 44-45). Realizando uma aproximação por meio do street view, foi evidente a mudança de paisagem, e, consequentemente, de sociabilidade ligada a cada uma das texturas observadas, revelando modos distintos de ocupação - planejada ou espontânea e apropriação do espaço público. Os mapas de «apropriações e acontecimentos nas ruas principais e secundárias» (pgs 62-65) buscam discutir, de maneira gráfica, a relação entre as texturas encontradas e as formas de apropriação e sociabilidade. O resultado aponta para um entendimento de que as ações (retiradas do goo56


gle street view) estão associadas, principalmente, à tipologia da habitação a que pertencem.

são as vielas, caminhos pensados pelo e para o pedestre - que colocam para a malha urbana a dimensão dos «olhos da rua», e uma proximidade da casa com o público, promovendo uma situação urbana que, apesar de carecer de muita infraestrutura, é interessante do ponto de vista da sociabilidade. Nesse caso, é muito comum que parte da casa se torne um comércio ou serviço, em concordância com a situação da textura 1, que se esparrama pra fora da casa, tornando-se uma extensão da moradia.

Nos quarteirões de sobrado, projetados enquanto conjunto habitacional unifamiliar (textura 1, pg. 60), por exemplo, o cidadão tem inúmeras possibilidades a serem exploradas, complementando o projeto base para adequação das necessidades dos moradores: pode-se criar um andar a mais, colocar um portão alto ou baixo, transformar o térreo em comércio ou serviço, expandir esse comércio ou serviço para a calçada por falta de espaço, pintar a fachada da sua cor preferida, utilizar a garagem para meu automóvel próprio, bicicleta e plantas.

As imagens das páginas 58-59, são uma leitura da conformação historica da malha urbana do recorte, com o estudo da sequência de imagens de satélite da região entre os anos 2004-2018. É possível observar como a área sofreu uma transformação intensa, mas, ao mesmo tempo, é possível detectar uma dinâmica cíclica da produção desse espaço, conforme indicado a seguir: ocupação da terra vazia por loteamentos irregulares > formação das áreas de favela > adensamento > construção de um conjunto habitacional modelo cdhu, com implantação em ilhas > remoção dos moradores para os conjuntos habitacionais recém construídos > nova ocupação da terra vazia e assim por diante. Tal processo nada mais é do que o processo de acumulação do capital por meio da especulação imobiliária (HARVEY, 2012), já citado anteriormente, no qual a demanda por moradia se torna exclusivamente quantitativa, desconsiderando os aspectos qualitativos do habitar, ou seja, os espaços públicos e de convivência.

O contrário ocorre nos prédios de conjunto habitacional, implantados em ilha (textura 3, pg. 60). Em conjunto com a padronização da moradia, observa-se a padronização e homogeneização dos modos de vida. Ao mesmo tempo que os apartamentos parecem não oferecer um espaço adequado às famílias - sendo recorrente, por exemplo, a extensão da lavanderia de casa para as áreas térreas do conjunto habitacional, para aproveitar o ar livre e o sol - estão reservados aos moradores espaços livres entre os prédios e as grades que os separam da rua, quase sempre inutilizados e desqualificados, que acabam por se tornar, em sua maioria, estacionamentos com coberturas improvisadas pelos moradores. Já nas áreas de favela (texturas 2 e 4, pgs. 60-61), o que se observa é uma precariedade na implantação das casas que, em grande desidade, têm a iluminação e ventilação comprometidas, com estruturas precárias, e que normamente estão localizadas em áreas de risco ambiental (próximo à rios, àreas de preservação e declive). A qualidade da implantação está nos caminhos que se fazem por dentro do bairro - características das favelas

Dado isto, buscarei a aproximação projetual não como intervenção que compactua com os processos que estão dados, mas como uma intervenção que indique diretrizes para a transformação dos espaços urbanos inóspitos já existentes em espaços mais agradáveis e humanos. 57


2004

2008

2012


2007

2009

2011

2014

2016

19. google earth, 2018.

2006


cada textura da malha urbana influi diretamente na paisagem ao caminhar, na maneira como as pessoas se apropriam do espaço, nos tipos de interação e dinâmicas coletivas, na segurança pública e número de pessoas nas ruas, conformando tipos de cidade distintos dentro de um mesmo território

3. 1.

2.


. 4.


a r. b

av. ro dolfo pirani

apropriaçþes e acontecimentos nas ruas principais

ad eir nd

ea

bi am rab

essa urbanidade entra pra dentro do bairro?

r. morro

das ped ras

N

grau de u 62


predominância de estruturas temporárias (barraquinha, trailer) e uso misto com térreo comercial e de serviços

rio rua áreas potenciais vegetação

mapeamento sensível apropriações e acontecimentos

textura urbana

concentração de pessoas relacionada com uma estrutura física, que se estende para a calçada, provém sombra ou local para sentar

urbanidade 63


a r. b

av. ro dolfo pirani

apropriações e acontecimentos nas ruas secundárias

ad eir nd

ea

bi am rab

essa urbanidade entra pra dentro do bairro?

r. morro

das ped ras

utilização do térreo ou frente das casas com fins comerciais e de serviço N

grau de u 64


ausência de espaços físicos como suporte para o encontro, que acontecem principalmente no portão de casa e na rua

rio rua áreas potenciais vegetação

presença de muitas pessoas na rua

urbanidade 65

mapeamento sensível apropriações e acontecimentos

textura urbana


INFRAES

demandas conceitos diretrizes

diretrizes projetuais

parte 5

MULTIFUNCIONALIDA

66

O diagrama de palavras relaciona três noções apresentadas até o momento. Os conceitos derivam e estão desenvolvidos na parte 1 deste trabalho. As demandas são retiradas do Plano Diretor Estratégico de São Paulo - mais especificamente do Caderno de Propostas dos Planos Regionais das Subprefeituras (Perímetros de Ação da Macrorregião Leste 2, Perímetros de Ação de São Mateus e Quadro Analítico da Zona Leste 2), com enfoque no distrito de São Rafael. As diretrizes surgem, então, como resposta à associação dos conceitos e demandas apresentadas. Nas próximas páginas, apresento referências projetuais, que passam por intervenções temporárias (pavilhões e instalações) à estruturas permanentes, de uso contemplativo ou funcional, mas que têm em comum o caráter coletivo da apropriação das pessoas no espaço.

PÚBL PRIV

RESÍD


APROPRIAÇÃO

DIREITO À CIDADE EQUIPAMENTOS PÚBLICOS

COTIDIANO CALÇADA RUA

TRANSPORTE PÚBLICO

STRUTURA

MORADIA

SEGURANÇA PÚBLICA

URBANIDADE

CIDADÃO

USO MISTO

CENTRALIDADE

LICO X VADO

SERVIÇOS TÉRREO COMERCIAL

ZEIS 01

PESSOAS OCUPAÇÃO DA RUA

CALÇADA AUSÊNCIA

DUO

RUA COMO EXTENSÃO PASSAGEM

PERMANÊNCIA

ESTAR

ZEIS 02 ESPAÇOS LIVRES VAZIOS URBANOS PRESSÃO POR URBANIZAÇÃO

COBERTURA SOMBRA

PERCURSO

VAZIO ESTACIONAMENTO

SOCIABILIDADE AUTOCONSTRUÇÃO

TRABALHO

ADE

COLETIVO

DESNÍVEL

67


22. intervenção urbana cota 10, gr

aproximação projetual

referências

21. parc de la villette, bernard tschumi, paris.

26. par

25. parque cultural tiuna el fuerte, lab pro fab, caracas, venezuela. 68


23. parque da juventude, rosa kliass, sĂŁo paulo.

rua arquitetos, rio de janeiro.

24. parque da juventude, rosa klias, sĂŁo paulo.

rque cultural tiuna el fuerte, lab pro fab, caracas, venezuela.

27. los mangos, PICO estudio, valencia, venezuela. 69


aproximação projetual

referências

28. parque bicentenário infantil, ELEMENTAL, chile.

32. expo milão 2 c

31. expo milão 2015: pavilhão do brasil, studio arthur casas + atelier marko brajovic, milão. 70


29. pavilhão archifest 2016, DP architects , singapura.

30. pavilhão archifest 2016, DP architect, singapura.

2015: pavilhão do brasil, studio arthur casas + atelier marko brajovic, milão.

33. haven’t you always wanted …? M@ STUDIO architects, austrália. 71


processos

parte 6

A mapeamento possibilidades pgs. 62-65

B espaço disponível + grau de urbanidade pgs. 74-81

as formas representam espaços livres, residuais e potenciais para intervenção, caracterizados por similaridade de uso e situação: pequenas praças, quadras/ campinhos, estacionamentos improvisados, locais de relevo acentuado e vazios inutilizados.

da análise das texturas da malha urbana em conjunto com o mapeamento de apropriações e acontecimentos (mapas páginas 62-65), conclui-se que cada textura se associa com situações urbanas distintas.

as 21 áreas mapeadas foram relacionadas com as texturas da malha urbana e as apropriações e acontecimentos (mapas páginas 62-65), na busca por padrões e agrupamentos que auxiliassem o exercício projetual.

as texturas apresentam diferentes graus de urbanidade, ou seja, a maneira como se dão as apropriações do espaço público são distintas e relacionadas com existência de espaços livres, inserção na malha urbana consolidada e condições de mobilidade. tal situação, de ordenação qualitativa, ressalta as texturas em condições mais críticas (texturas 2 e 3). nas 4 áreas selecionadas, foram realizados estudos de implantação, fluxos, relevo, pasiagem e atividades possíveis (páginas 76-77).

72


C volumetria + materialidade pgs. 82-89

D detalhamento projetual pgs. 90-111

nesta etapa optou-se pela exclusão de uma das áreas, permanecendo com 3 áreas com características distintas entre si, observadas pela leitura mais atenta às mesmas.

por fim, para possibilitar um melhor detalhamento do projeto, elencou-se uma das áreas.

a volumetria e materialidade da proposta partem de uma lógica modular (pg 8283), com a intenção de reprodutibilidade do projeto em diversas áreas, respondendo a distintas demandas programáticas e volumétricas.

a lógica de concepção volumétrica e de detalhamento são reprodutíveis nas diversas demandas encontradas nas outras 21 áreas na etapa A. O projeto atenta aos fluxos, relevo e busca abrigar possíveis usos já existentes na área, objetivos almejados nas futuras instalações nas demais áreas.

73


1.

B espaço disponível + grau de urbanidade

2. os 04 espaços selecionados se justificam, além da escolha de áreas em texturas consideradas mais críticas (texturas 2 e 3), por características semelhantes, sendo elas: RELAÇÃO COM O ENTORNO inserção na junção entre uma ou mais texturas da malha urbana, ou nos limites e fronteira do território ÁREA ÚTIL E ESCALA da diversidade de escalas encontradas, as selecionadas têm como característica maior área disponível para projeto, mesmo que com sujeitas à relevos acentuados NOVAS CENTRALIDADES as áreas propõem a criação de novas centralidades na malha urbana, na busca por uma melhor distribuição de equipamentos, comércios e serviços, fatores que dinamizam a vida urbana 74

3.

4.


1. 4.

av. rodolfo pirani

rod. jacu pĂŞssego / nova trabalhadores

2. r. morro

das pedras

3.

gradeado estacionamento desnĂ­vel centralidade vazio

75

N


1.

3.

76


2.

4.

77


área 1

intervenção r. das flores

problemáticas

av. rodolfo pirani rod. jacu pêssego / nova trabalhadores

r. morro

muros grades lixo acumulado terreno vazio

das pedras

estrutura física: banheiros + bebedouro + atelies + lanchonetes

as crianças saem da creche e da escola e fazem atividades na praça programas e atividades para jovens e crianças

a escola faz eventos aqui todo mês, como se a praça fosse uma extensão

78


área 2

rio

intervenção coruja do campo

problemáticas

av. rodolfo pirani rod. jacu pêssego / nova trabalhadores

r. morro

barreiras muros de arrimo declividade acentuada mobilidade falha muita área livre

rua passagem fluxo lote

das pedras

vegetação área de projeto área construida próximo à quadra, carrinhos de comida estacionam no fim da tarde

os moradores tem uma estrutura coletiva de estacionamento e lavanderia

os jovens ganham um espaço para lazer: praça em patamares onde acontecem os slams e batalha de hip hop da comunidade

uma estrutura para o mercadinho e a padaria se instaralem perto das casas

79


área 3

intervenção r. da prata

problemática

av. rodolfo pirani rod. jacu pêssego / nova trabalhadores

r. morro

muros lixo acumulado terrenos vazios área verde ameaçada

das pedras

passagem lúdica entre o bairro e a praça

as crianças saem da creche e brincam na praça

passagem por escadaria até as quadras da várzea carrinhos de comida chegam depois da aula e ocupam a praça

as pessoas estendem a casa para a calçada

o térreo e frente das casas se torna um pequeno comércio ou serviço

80


área 4

intervenção r. artot

rio

av. rodolfo pirani rod. jacu pêssego / nova trabalhadores

problemática

rua

estacionamentos grades declividade acentuada mobilidade impossibilitada

passagem fluxo lote

r. morro

das pedras

vegetação área de projeto

a passagem resolve a mobilidade do declive, aproximando os conjuntos habitacionais

área construida

nessa área, um equipamento dá vida ao cotidiano dos moradores no nível mais alto, uma praça de convivência dos moradores

81


82

C volumetria + materialidade


83


intervenção r. das flores

av. rodolfo pirani rod. jacu pêssego / nova trabalhadores

r. morro

das pedras

potencialidades proximidade à equipamentos públicos (escolas, creche e UBS) grande praça coberta/descoberta espaços culturais/educativos espaços de estar e permanência ações geradas proteger do sol aproveitar o sol descansar encontrar conversar trocar comer fazer feira sentar apresentar contemplar criar estudar permanecer circular

84


85


intervenção r. da prata

av. rodolfo pirani rod. jacu pêssego / nova trabalhadores

r. morro

das pedras

potencialidades espaço de lazer contato com a natureza espaços de estar e permanência caráter lúdico ações geradas proteger do sol/aproveitar o sol descansar encontrar conversar trocar sentar contemplar permanecer circular plantar

86


87


intervenção r. artot

av. rodolfo pirani rod. jacu pêssego / nova trabalhadores

r. morro

das pedras

potencialidades mobilidade percurso/passagem comércio/serviços contemplação ações geradas descansar encontrar conversar trocar sentar contemplar permanecer circular comprar vender comer

88


89


o projeto detalhado é resultado de uma composição volumétrica em relevo acentuado e em uma malha urbana que tem como característica ilhas de conjuntos habitacionais padronizados, implantados no limite entre o território e a rodovia jacu pêssego/nova trabalhadores - uma demarcação física que divide o distrito em dois lados. a combinação de módulos, vazados e preeenchidos, propõem alternativas para as questões de mobilidade (em altura e em nível), segurança (iluminação, presença de pessoas e visibilidade), espaços de estar (sombreados ou não, em contato com vegetação ou espaço físico construído) além de representar como um todo, um marco na paisagem, composta majoritariamente por edificações padronizadas ou áreas de alta densidade construtiva.

já os módulos preenchidos apresentam programas definidos, de caráter público e ações educativas: no nível 1, uma sala de reunião para a associação de moradores do bairro e outras reuniões de articulação social pertinentes; no nível 2, um ateliê de artes e ensaios culturais; no nível 3, uma lanchonete e cozinha coletiva; no nível 4, biblioteca e lanhouse.

C o projeto

parte 7

apesar da lógica modular, os espaços conformados pelos módulos imaginam suportes para que a vida coletiva aconteça. dada a dificuldade de projetar espaços com urbanidade - que são, por definição, espaços de indeterminação - a espacialidade criada pelo projeto está livre para as mais diversas apropriações: estruturas temporárias utilizam os módulos vazados da estrutura principal como suporte para apresentações de música, dança, teatro, exposições de trabalhos, cinema ao ar livre, montagem de feiras, intervenções artísticas, coberturas temporárias, faixas de protesto, almoços, piqueniques, churrascos coletivos. as imagens utilizadas nas cenas (pgs. 104-109) são reais, retiradas das ruas da região.

90


implantação 0

5

10

20m

91


isomĂŠtrica

92


diagrama de fluxos

deslocamento em altura deslocamento em nĂ­vel ruas internas 93


planta nĂ­vel 0

A

B

B

A

0

2.5

5

10m 94


planta nĂ­vel +1

A

B

B

0

2.5

5

A

10m 95


planta nĂ­vel +2

A

B

B

A

0

2.5

5

10m 96


planta nĂ­vel +3

A

B

B

A

0

2.5

5

10m 97


planta nĂ­vel +4

A

0

2.5

5

A

10m 98


planta nĂ­vel +5

A

A

0

2.5

5

10m 99


corte AA

0

2.5

5

10m 100


P02

PLANTA DE SITUAÇÃO

corte BB

0

2.5

5

10m

101


corte perspectivado

102


103


104


105


106


107


108


109


110


sobre coletividades urbanas no território

considerações finais

Inicio as considerações finais com a seguinte pergunta: coletividades urbanas em lugares à margem de que? à margem de quem? Muitos questionamentos em relação aos conceitos desenvolvidos neste trabalho foram surgindo ao longo da investigação. O principal e mais constante deles foi que a noção de «estar a margem» significa que quem observa é um olhar externo, quando a tal «margem» nada mais é que parte do território da mesma cidade. A periferia é o centro. Nas situações onde o direito à cidade e à vida urbana são negados à seus cidadãos cotidianamente, a apropriação do espaço se torna ferramenta de visibilidade, articulação social e sobrevivência. O objetivo do trabalho é criar reflexões sobre uma disputa de narrativas e um deslocamento de olhar das nossas discussões e o projeto desenvolvido busca materializar, como pede a profissão do arquiteto e urbanista, possibilidades que criem pontes e estreitem caminhos entre as noções que carregam as palavras centro e periferia, na construção de um caminho mais sólido na busca pelo direito à cidade, em seu sentido pleno. Por isso termino com coletividades urbanas no território. A potência criativa do território. Reflexões desenvolvidas na palestra «Emergência Política Periferias« que aconteceu no dia 28/08/2018, na Galeria Olido, organizado pelo Instituto Update e Fundação Tide Setubal. < https://youtu.be/Ka7HlL1JBIY > 111


bibliografia

parte 9

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sĂŁo carlo


os, 2018


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Passado o processo eleitoral, é natural que sejam realizadas muitas reflexões e análises acerca dos resultados, e que surjam muitas propostas organizativas. Mas já inicio este texto sendo escura: confesso que não pretendo apresentar análises fechadas ou finais, cheias de verdades. Eu prefiro apresentar este primeiro texto com as reflexões iniciais que tenho feito e trazendo algumas provocações ao debate que, espero, continuemos na próxima coluna. Enquanto alguns, infelizmente, já vociferam contra pobres que votaram no autoritarismo, alguns outros buscam culpados como se caçam bruxas. Outros tantos falam do “identitarismo” e buscam refundar uma perdida proposta universalista. Se há algo que os primeiros dados apresentam é que estas eleições apresentam profundamente a divisão de classes e as hierarquias raciais em nosso país. Segundo levantamento realizado pelo jornal Valor Econômico, já após o resultado do 1o turno, o presidente eleito não teve bons resultados em regiões de extrema violência. Os dados foram cruzados entre a votação e o Mapa da Violência. Quanto menos violento o município, maior o resultado obtido por Jair Bolsonaro. Dados levantados após o final do 2o turno pelo El País, cruzados com dados


do IBGE, apontam que o presidente eleito obteve resultados mais expressivos nas cidades mais ricas e mais brancas do país, alcançando 75% dos votos em municípios com renda média ou alta e não alcançando nem 25% em muitas localidades pobres. Além disso, venceu nas 10 cidades mais ricas do país. Mas o levantamento não apresenta um cruzamento de dados apenas econômico. Quando o cruzamento contempla raça, essa diferença também fica evidente. Jair Bolsonaro venceu em 85% dos municípios de maioria branca, enquanto Fernando Haddad venceu em 75% dos municípios de maioria não branca. Mesmo em municípios nos quais a renda era relativamente equilibrada entre brancos e não brancos, o candidato do PT obteve vantagem entre pessoas de cor e o presidente eleito obteve melhor resultado entre brancos. Ainda segundo o levantamento, mesmo quando observamos os dados cruzados em regiões como Sudeste e Centro-Oeste, nas quais o presidente eleito obteve maioria dos votos, o apoio também crescia conforme a renda e a predominâmcia da cor branca nos municípios. Ainda que o tempo seja recente, apresento algumas reflexões sobre esses dados. Em relação às cidades mais violentas, fica evidente que o discurso de mais armas e enfrentamento violento, mantendo o formato de guerra contra um inimigo interno, proferido pelo presidente eleito não encontrou eco nessas localidades. É certo que as pessoas que vivem cotidianamente os efeitos da violência e da guerra contra “as drogas” já compreendem que as fórmulas de intensificação do enfrentamento violento e, podemos já dizer, bélico não têm garantido a reversão do estado de violência em que vivem. Mas é justamente nas cidades em que os números apontam queda dos homicídios, as cidades mais ricas e brancas, que esse discurso de violência para conter violência mais teve ressonância. O Brasil tem a violência como elemento estruturante da sociedade. Vivemos sob mitos de paci-

ficação e harmonia social e racial. O discurso do medo, sempre alimentado pelo Estado, encontra na sociedade apoio e incentivo para se intensificar a repressão e a contenção por qualquer meio necessário (historicamente, no Brasil, através da violência, do encarceramento e do extermínio). Neste sentido, o medo do desemprego, o medo das mudanças, o medo da diversidade, o medo de que essa violência, ainda vista como algo de “lá” e “de longe” alimenta uma postura de preservação. Em um Estado em que a precariedade é sistêmica, essa autopreservação se constitui e se ancora na barbárie. Se o pensamento abriga a concepção de que os outros são bárbaros, então a barbárie é o que deverá contê-los. E, assim, discursos extremistas e autoritários ganham força. Os dados de classe e raça, a meu ver, corroboram o que mulheres negras têm formulado e dito há anos: a interseccionalidade é conceito e método fundamental se de fato queremos enfrentar os desafios históricos e atuais das desigualdades. A que serve para a esquerda seguir tentando apagar diversidade, negar que as desigualdades em um país de passado escravocrata e colonialista, passam sim pelas hierarquias raciais? Contudo, se mesmo entre parcelas desse eleitorado de cor, o discurso extremo teve eco, é preciso analisar as precariedades às quais essa população é submetida. Para o sociólogo francês Pierre Bourdieu, a precariedade, sob as mudanças sistêmicas do capitalismo, se expande para todas as partes. Seu livro Contrafogos 1: táticas para enfrentar a invasão neoliberal traz um capítulo exatamente com o título “A precariedade está por toda parte”. Nele, o autor conceitua a precariedade como algo que desestrutura a existência e degrada toda a relação dos indivíduos com o mundo “e, como consequência, com o tempo e o espaço”. Ou seja, um cenário que mais do que gerar exércitos de reserva, aprofun-


da o extermínio, cada vez mais racionalizado, de corpos, em que menores qualificações são aprofundadas e expandidas, em que a alienação – se quisermos usar conceitos marxistas – se hiperpotencializa, em que se fortalece a ideia de trabalho como privilégio e que, portanto, esse sujeito está constantemente ameaçado. E esse cenário aponta um inconsciente coletivo articulado à hiperindividualização neoliberal, trazendo como consequência a perda de sentido comunitário, coletivo e a dissolução dos laços de solidariedade. Daí, então, novamente, apresenta-se a barbárie se não houver qualquer ação e trabalho contra-hegemônicos que alcancem fundamentalmente esses setores. Não citei Mano Brown à toa no título desta coluna. Tampouco, na epígrafe, o discurso histórico de Angela Davis na Marcha das Mulheres contra Trump, em janeiro de 2017, quando da posse do presidente estadunidense. O discurso de Mano Brown no ato em defesa da Democracia e dos Direitos, que se personificava na figura do então candidato Fernando Haddad foi muito mal interpretado, principalmente pelos setores médios do progressismo. Mas o intelectual orgânico, forjado nas ruas do Capão Redondo, estava apenas alertando para como a barbárie havia se instaurado nas relações e cotidiano das periferias e o quanto a falta de presença e de construção coletiva (portanto não enxergando indivíduos periféricos apenas como objetos de estudo ou que deveriam receber “a consciência” das universidades) estava cegando a nossa defesa por princípios democráticos. Apesar de recente pesquisa dizendo que a maioria dos brasileiros defende a democracia como modelo político, não foi possível saber na mesma pesquisa o que cada um destes brasileiros entende por democracia – um conceito, afinal, tão elástico e que passou por tantas mudanças na história. Já o discurso de Angela Davis (a tradução comple-

ta está aqui), a meu ver, aponta que mais do que ficarmos numa falsa discussão acusatória entre “identitários” versus “universais”, é preciso compreender que conviver e defender a diversidade não é uma escolha, mas algo que está posto. As conquistas até aqui e as percepções das populações negras, indígenas e pobres sobre si não podem mais ser negligenciadas. É preciso construir com esses atores e atrizes sociais que já estão em movimentação em muitas favelas, comunidades, bairros, periferias e quebradas do país. Sem qualquer pretensão de levar algum ensinamento, mas com a abertura de que é possível ensinar e, principalmente, aprender com povos e populações que vêm resistindo historicamente, com diversas estratégias de sobrevivência, a um Estado que sempre se apresentou autoritário e violento em seus territórios e vidas. Se estes dados cruzados apontam algo é que, a meu ver, é preciso muito mais periferias em nossas reflexões. É preciso muito mais as realidades e construções de coletivos e ativistas – ameaçados de extermínio pelo presidente eleito, diga-se de passagem – tanto em nossas formulações, mas também em nosso modo de fazer político. Nas eleições das fake news das redes sociais, o alerta de Angela Davis cai como luva: Nós reconhecemos que somos agentes coletivos da história e que a história não pode ser apagada como páginas da Internet. E, ao meu ver, para isso precisamos desbrancalizar nossa atuação. Precisamos de mais Mano Brown.


TGI II - Espaço do Coletivo  

Espaço do Coletivo - Sobre coletividades em lugares à margem | Trabalho Integrado de Graduação - Instituto de Arquitetura e Urbanismo | Mayr...

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