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POEMAS PARA LER NO FRONT MAYA FALKS


Sobre guerras. E sobre outras tragĂŠdias.


O senhor da guerra não gosta de crianças. Legião Urbana

Todos os direitos reservados à Maya Falks. Obra com direitos autorais.


Aos versos

Voltemos aos versos Às armas que trago comigo Entre rimas pobres e almas podres Entre a imensidão do deserto e o oceano Voltemos às estrofes mal acabadas Bombardeadas, banhadas em sangue Da alma inocente desprendida do corpo Da ferida aberta, da boca gelada Nas marcas que ficam, voltemos aos versos Às súplicas de um perdão dispensável Pelo crime jamais cometido As balas do meu canhão são feitas de letras Da pólvora, o cheiro queimado da inspiração Da ponta da pena a estratégia rimada Da mão do oponente, meu corpo ao chão Voltemos aos versos, porque há de ter um belo epitáfio em meu túmulo


Escravidão

O rasgo no couro marcado de sol a sol foi ouvido Os olhos derramam a lágrima do tempo perdido Prisioneiro sem chance à defesa, sequer é bandido Escravo, virou o seu nome, perdido na fome e no trabalho forçado A pele parece borracha, tão judiada, um pobre coitado Roubado de casa na infância, sem chance e esperança, era açoitado Noite ou dia, quem sabe, não havia descanso ao homem amaldiçoado Maldição, ao homem amarrado, era ter sido roubado por gente do mal Gente que sem piedade tratava sua dor como algo banal Hão de arder no inferno esses homens bandidos e sem coração A esses a quem sempre serviu a fome, a miséria e a escravidão


Muro

Havia um ramalhete de pequenas flores junto ao muro As manchas roseadas do sangue mal lavado Pequenos buracos encerravam ali um futuro Todos os seus sonhos ficaram no passado


Guerreiros

Todos soldados em trapos com armas na mão Seguem marchando sem rumo buscando no fundo paz e compaixão Regam as plantas já mortas pelo sangue escorrido, que cobre o chão Marcham em pés de chinelos cantando baixinho alguma canção Soldados feitos de mágoas, feridas abertas, o peito em clamor Rimam estradas e fardas, compondo em silêncio um grito de dor Levantam espadas quebradas, almas desoladas e peitos sem coração Enquanto pisam nas pedras, chorando as mortes da falta de amor Remam em canoas furadas, sem paz e sem rumo, e sem direção Guerreiros perdidos no tempo, na sorte e na vida Caminham sem eira nem beira, na marcha sofrida Respondem às aves nortenhas, vis cintilantes que pairam no céu Sonham com a glória perdida, a noiva roubada vestida de véu Encontram o triste destino na vala sem nome e identificação Exaustos, sem alma no corpo encontram a morte a caminho do chão.


Haviam os trovões

Haviam os trovões. Ao longe, o som de raios cortava a noite Tormentas e furacões, visitas constantes da dama da foice “É hora” – diziam ceifões de grilhões afiados nos pés descalços Sabiam-se mortos, mesmo que sob a pele o coração ainda batia Condenados da dor e do descaso, era a vida que se esvaía Não haviam calabouços ou algozes encapuzados Tudo nos sonhos da fome era a morte de fantasia Presos sob o peso invisível do abandono, eram garotos com destinos marcados Nada lhes salvaria da condenação, nasceram sob a luz da miséria Foram filhos da terra no olho do furacão Só a eles restara o chão de barro e a cama de papelão Sequer a lágrima no rosto escorria, faltava-lhe força de impulsão Morriam de fome e miséria, de bala perdida com a pipoca na mão O destino, que assim queria, trazia às mães a dor da solidão Olhavam pro céu em tristeza, com a certeza da impunidade Tiravam a vida dos filhos, a vida dos trilhos, cruel realidade As pretas de olhos profundos, o rosto sofrido e sem vaidade Mais um garoto se perde, nas curvas da vida, caminho sem volta Dizem que a escrita divina acerta o enredo nas linhas tortas Quisera o destino levar mais um moleque perdido pras estradas do céu Quisera o destino deixar mais uma mãe enlutada vestindo seu véu E assim, sem fé e esperança, mais uma criança encontrou o seu fim A mãe entrega seu pranto, constrói seu consolo: “Deus quis assim”.


Salvação

Da pele, o rasgo que fere A 7 palmos nada mais importa Senão a vida perdida que chama Senão a carne que é morta

Rastejam os seres da noite Imploram perdão por crime não cometido Rastejam na lama profunda Em busca do paraíso perdido

Devora-se o corpo, e a alma Encontra no escuro a solução De joelhos na terra úmida Ora um pedido de perdão

Foram-se as aves de rapina O corpo carneado resiste A alma que do inferno retorna O medo é o sentimento que existe

Louva teus pecados que a vida consome Abandona teus velhos amores Renova tua alma, e então


Livre estará de velhos rancores

Salta do abismo e te abres Tua alma resgatada agradece o perdão Num abismo de almas penadas Encontraste a salvação!


Suspiro

O silêncio marcava o compasso da dor Nos passos errantes, no traço inconstante, o olhar de terror Fumaça de pólvora nova no cano da arma Dois passos, joelho na terra, venceu o seu carma Os olhos vidrados no céu, pedindo perdão Num campo cercado de corpo, encontrou em si mesmo a pior solidão Guerreiro, sem triunfo ou medalha, caído no chão Preso, em meio à batalha, não foi campeão.

Na garganta, a secura da alma prendeu seu último suspiro.


Trapos

Das vestes surradas, se escapam os olhares de súplica A dor estampada nos olhos enquanto o frio engole a alma Perdido, num canto cercado de nada por todos os lados Seus olhos encontram repúdio nos rostos que permanecem calados Nada, um nada de nada que sobra nas pedras da cidade concretada Um corpo inerte na rua que vagueia invisível feito alma penada Arrasta nos pés da miséria, sua alma paupérrima transita dilacerada Na lata suja do tempo vai contando os trocados pra fila do pão O cabelo mal aparado, todo desgrenhado, passou a noite no chão O corpo de restos de restos, de lixo do lixo, não encontra perdão Dormiu sob a marquise da loja e o vento forte levou seu papelão A noite que chega manchada das luzes nas ruas e na alma a escuridão Acorda em meio à fumaça, seu corpo em chamas procura a redenção Enfim, o resto do resto foi visto perdido no frio da calçada Queimando, sob risos estranhos, bate no corpo, esforço em vão Desaba, já sem dor e sem vida, naquele segundo findou sua estrada O riso que antes se ouvia agora se convertia em mero descaso Azar de tal vagabundo, perdido e imundo, vestido de trapos Agora o homem queimado, sem futuro ou passado, ou história possível Voltava ao seu posto de resto, de nada com nada, um homem invisível


Zumbido

NĂŁo se ouvem os gritos Quando o zumbido Invade a alma


Solidões

Sinto, hoje, a pior das solidões A solidão da desimportância A solidão da ignorância A solidão das pequenezes da vida em vão Sinto hoje amargar no peito O frio do abandono A ausência de um beijo O afago que só sinto na imaginação Hoje, enquanto olho meus restos Sinto uma falta tremenda De tudo o que eu nunca vi E de todos os dias que nunca virão Agora, sentada em destroços Vejo minha história Transformada em um vácuo De quem vive na pior solidão Na guerra da vida Sobrevivem os fortes Não é o meu caso Quis o acaso que eu caísse no chão


A criança nua

Corria pela estrada Em franco desespero exposto no rosto Ao redor, desconhecidos em chamas Inflamados, carbonizados para todos os gostos Corria sem saber do destino Se viveria ou não Corria por puro instinto Queimada da grande explosão A criança nua virou símbolo da maldade Do quanto o homem pode ser cruel Sem dó destruíram sua cidade Em troca da assinatura em um papel Em nome da paz – eles disseram Sob a pele em retalhos, a criança nua não compreende Que paz foi essa que eles trouxeram? A lógica ignora o que o corpo não sente

A criança nua foi apenas mais uma


Estatística

Território dominado é meu ventre controlado Me arranca a tua pressa, pega só o que interessa O meu corpo é o que resta, minha alma já não presta Abusa da minha anatomia, decepa minha autonomia Me aprisiona em tua vontade, me mata só por vaidade Virei estatística


Aos vagabundos

Vagabundo! Gritou o engravatado no topo do mundo Ao pobre coitado Todo esfarrapado Com o corpo imundo

Do lado de baixo não há perdão No de cima, traficante é estudante No de baixo tudo é ladrão

Na base social, o que mais tem é bandido Lá em cima fica o lorde, intocável e incontido Em baixo é o vagabundo, em cima o visionário Em cima domiciliar, em baixo presidiário

Lá em cima tudo pode ser comprado Liberdade, dignidade, futuro e passado Lá de baixo não tem grito de socorro Cidadania é ilusão enquanto o sangue desce o morro

Se engana quem pensa Que a guerra tá distante Nas calçadas a vida é tensa


E se acaba em um instante


A luz do sol

Vou crescendo feito planta Buscando a luz do sol Não encontro a saída Nem um canto ou rouxinol Sinto larva, alga morta Peixe preso num anzol Liberdade, desconheço Enrolada em caracol Selo o tempo e o destino Já perdi o meu farol No escuro, abandonada Não enxergo a luz do sol


Invasão

Azul era o céu da primavera Até o grito do trovão Não houve raio ou tempestade Não houve paz ou salvação Não houve amor ou piedade Houve a ponta do facão

As crianças estavam embaixo da cama


De manhã

Era manhã, embora sob cinzas fosse sempre madrugada Não havia a luz do sol ou uma noite enluarada Já não tinha mais futuro, mas um destino abandonado Eram sobras de uma vida, eram restos de um passado

Era manhã mas era noite, porque o clima era denso Nos parques havia restos, árvore com um homem suspenso As flores de outrora deram lugar à terra crua À noite já não havia mais estrelas e não havia a lua

Há muito o cenário era de caos e morte Há muito aquele povo havia perdido o norte Já nem se sabia para onde poderiam ir Já nem sabiam se ainda eram capazes de sorrir

Gerações foram passando sem nenhuma explicação Matavam e morriam com ódio no coração Famílias inteiras se acabavam Na potência da explosão


Ao adeus

Um ruído ao fundo Nem lágrimas restavam

Um estalo

Um espirro

Um cemitério inteiro

As lágrimas molharam a terra


Oração

No canto do imóvel mal acabado Sob um véu, um manto cálido Havia um sonho abandonado Havia um amor não realizado Uma despedida e uma carta Uma medalha e uma bandeira Uma lembrança e um aceno No canto do imóvel mal acabado Sob um manto cálido Uma mulher de corpo murcho orava baixo A natureza mudara de ordem Ela, velha, perdida Ele, um menino até ontem No altar a foto orgulhosa De uniforme bonito, a medalha no peito Agora, jazia no leito O menino de outrora Vestido de terno, grava e madeira Do lado de fora não haveria cortejo Um ou outro cão sarnento resmungando da vida O menino, da bala perdida O menino, do sonho encerrado No canto do imóvel mal acabado


Sussurros doridos davam lugar a suspiros Diziam que a mĂŁe ali morreria De uma dor que lhe consumia Diziam que dali sĂł sairia Se fosse ao filho fazer companhia E assim o foi


Jaz

Sobre o peito da lembranรงa Jazia os sonhos de menina


Mortagua

Naquela noite, Mortagua escreveu suas mágoas Guerreiro sem guerras, atravessava oceanos De espada em riste, de semblante triste Querendo balas de canhão Pra afundar sua embarcação E começar tudo outra vez

Mortagua não era exímio de nada Apaixonado por dona Anaíde A moça de rosto costeiro Olhar traiçoeiro que nunca havia mostrado Nem bem por segundo, interesse qualquer Mas a ele pouco importava Anaíde era lava de um vulcão feito mulher

Já sem fé nem esperança, cansado da andança, resolveu sossegar Precisava de um belo poema para à dona Anaíde poder conquistar Encontrou em um jardim maltrapilho uma rosa moribunda à dama entregar Recitou versos doídos dos tempos perdidos do velho do mar Anaíde, surpresa e encantada resolveu de repente uma chance lhe dar

Mas o homem, um burro teimoso, queria uma guerra e não mais paixão Prometera à bela Anaíde que um dia voltaria e conquistaria o seu coração


Assim, na beira do porto, para a moça o desgosto, voltou ao centro do mar Sem marujos ou outros guerreiros, ou fiel escudeiro, uma guerra iria encontrar Anaíse o esperaria, sua vida assim seria até o maluco voltar

Certa feita, cansado, de braço quebrado e espada ao chão Encontrou na costa, de mares revoltos, a sua redenção Anaíde serena, a bela morena, estava por lá A esperar o guerreiro, que mesmo sem guerra, queria brigar Esperava a moça, tão bela e formosa, em breve casar Mortagua, entretanto, amante das águas, preferiu navegar

Na noite da boda esperada, Anaíde sonhava ao seu amor se entregar Mortagua, mesmo apaixonado, aquele pobre coitado, bebeu sem parar Desolada, no altar abandonada, Anaíde coitada desejou morrer O louco marujo de guerra não retornaria antes do amanhecer Sabendo que perdera sua dama, sem choro e sem drama, ao seu barco voltou O mar, amor verdadeiro, recebeu por inteiro o que Anaíde largou

Mortagua, nos mares corria, na vida morria um dia de cada vez Buscando sem trégua uma briga, enfiar na barriga inimiga sua adaga mortal Mas não haviam piratas nos mares do norte, nem cheiro de morte, só vendaval Nem sua espada inflamada, ou sua adaga afiada poderiam vencer o poder natural Mortagua assim derrotado, de bico calado, chegou ao final


Dona Anaíde não soube que no derradeiro suspiro Mortagua a ela dedicou temporal Assim, o guerreiro perdido, herói desconhecido, encontrou o seu fim Dizem que segue fantasma buscando um recanto pra mais guerrear E que, nos mares revoltos, recolhe os mortos que finge matar Sua sede de sangue e vingança nutriu a esperança de poder retornar Mas quis o destino maldito que no fundo dos mares fosse ele ficar


Rendição

Baixe suas armas Levante seus braços A trégua é sinal do cansaço As manchetes gritam sangue Mais um grupo ou uma gangue Continência, cala a boca Não é vítima, ela é louca Denuncia, fica quieta Se protege, fica esperta As manchetes gritam ódio A guerra vence o ócio Pão e circo, toma o ópio A cegueira é coletiva Sorte sua em estar viva


O bater das asas

O bater das asas ensurdece a tarde onde o silêncio reina Nem as aves ficam onde a terra firme encontrou o caos O bater das asas são o sinal da desgraça A natureza cede ao ódio e parte O bater das asas é o aviso final A dama da foice está dançando valsa


26

A รกgua bate de leve Nos pequenos pezinhos 26 Imรณveis Os corvos aguardam a hora do jantar


Poder

Atrás da mesa, no paletó Ele manda o preto pobre pro xilindró Atrás do microfone, o engravatado tem fome Fama, fortuna, ouro até na dentadura Liberdade pra que? O negócio é ditadura Cassetete, gás de pimenta Quero ver quem é que aguenta O malandro encontra a brecha Pinga, pó e cerveja A vida que voou pelo capô E quem disse que acabou? A letra da lei tem entrelinha Quero ver a molecada entrar na linha Tapa na nuca, chute na costela Não tenho nada contra mas seguro a minha carteira Circulando, marginália, acabou a brincadeira O transporte é o camburão, todo mundo para o chão Mão na cabeça, mostra a mercadoria Aqui quem manda é a verdinha e a tal da meritocracia


Seca

A fonte secou A comida acabou O teto cedeu O bicho gemeu A fome chegou A renda escapou O alerta acendeu A parede tremeu A tinta descascou O espinho arranhou A guerra perdeu O homem morreu


Diz ele

Diz ele que sabe o que faz Diz ele que é bem capaz Diz ele que é capataz Diz ele que ficou pra trás Diz ele que amarra com força Diz ele que prepara a forca Diz ele que ela está louca Diz ele que vá lavar a louça Diz ele que sabe demais Diz ele que sabe o que faz Diz ele que é o capaz Diz ele que ela mereceu Diz ele que ela comeu Diz ele que fez porque quis Diz ele que é bem assim Diz ele que pode fazer Diz ele que manda e desfaz Diz ele que é bem capaz Diz ele que envolve o pescoço Diz ele que a cova é no poço Diz ele que ela nunca partiu Diz ele que depois ele riu Diz ele que tem o poder


Diz ele que faz o que quer Diz ele que tudo destrรณi Diz ele que o รณdio corrรณi Diz ele que o sangue escorreu Diz ele que ela morreu


Pim

A onomatopeia Que pinga das minhas veias Faz “pim�


Dois prisioneiros

Lado a lado Dois prisioneiros MĂŁos dadas na terra Aperto no peito O barulho da bala Algum foi primeiro Deitados na vala Os dois prisioneiros


Da forma

A tempestade que quebra o silêncio vem da forma e da força da cor da manhã A pele enrugada revela segredos de fome e de frio como a flor do romã Confusa, sua mente, que mente, que isola que prende sem dó A tempestade que força, que firme extravasa não resta o amanhã


Eles

Eles não gostam de crianças Nem de parques de diversão Eles gostam dos conflitos E de esculhambação

Sob pontas de canetas Destroem nações Quanto maior o número de mortes Maiores condecorações

Não, eles realmente não se importam Querem o poder todo na mão Já não importa mais o futuro O que vale é a destruição

Eles usam fraques enquanto nós morremos de fome


Se esvazia

Há um vão entre os fatos e a verdade que se apresenta na tela da televisão Um enorme buraco entre o que é e o que queriam que fosse Uma fenda ferina que fere, mata e mutila Um rasgo na alma e na pele Um grande vazio E nada


Libertos

Haviam ratos nos porões Que devoravam dedos quando a madrugada caía Do lado de dentro grilhões Lá fora a calmaria

Rei, súdito, ancião Nem criança foi poupada Sobre corpos jogados ao chão Uma nação inteira sequestrada

O negro da pele pura Misturado ao sangue da maldade Vivendo sob a amargura Sem direito à piedade

Aqueles poucos que chegaram Eram logo separados A vida lhe arrancavam Tinham corpos mutilados

Muito além da dor do corpo Doía forte a saudade Da casa tirada à força


De um passado de liberdade

E eles nunca foram realmente libertos.


Ataque

Disseram-na indecente Não importa se é inocente Ela tem que preservar Seu corpo sagrado Já foi violado Foi algum pobre coitado Que não pôde controlar A culpa é dela e sempre dela Quem mandou a vagabunda Se comportar como cadela? Saia curta, peito grande Tudo pode ser desculpa Pro malandro perdoar Só não perdoa a moça Essa exibicionista Que saiu à rua a noite Pro malandro atacar Passo a passo apavorada Ela sabe que é seguida Mas o que pode fazer ela Se o bicho vai pegar? Já é tarde, ela sabia Sua vida ia acabar


Na dor

Sรณ tinha o barulho Agora sabia Que havia melodia Na dor


O menino

Haviam sonhos perdidos E marcas de bala E corpos no chão

O menino chorava lembrança Tentando a sorte Com uma arma na mão

A infância há muito findara Quando a guerra chegou Arrasando a nação

Soldadinhos não eram brinquedos Eram pessoas feridas Pedindo perdão

Em prantos, vendo a ruína Seu futuro perdido Avistou o canhão

Seria sua vez, sua hora Encontraria a família Atingido no coração


Era só mais uma criança Empurrada à batalha Sem nenhuma razão


A inércia

A inércia afeta o jogo São dois lados mal definidos Há quem sequer saiba seu lado Há quem não tome partidos

A inércia afeta o jogo Pois deixa a guerra acontecer Um lado é livre pra matar E o outro pra morrer


Câmara

Era uma fila de gente desfigurada Pele sobre ossos, nos olhos o nada Caminhando vagarosos desconhecendo o destino Eram seres disformes, corpos famintos Desumanizados como gado marcado Emagrecidos na marra pelo trabalho forçado Carecas de roupas listradas e corpo em doença Prisioneiros, torturados e odiados pela sua crença Caminhavam em fila sem força para continuar Era hora do banho, o oficial veio avisar Entraram em grupo na sala, despidos em completo pavor Dos canos do teto não veio a água, somente o vapor Segundos, não mais, até entender Que eles ali estavam para morrer E viraram uma nova pilha de corpos a adubar a terra


O palhaço

A primeira voz que se cala É dos palhaços do circo Aqueles que falam verdades Mesmo que corram algum risco Cornetas e gritos disfarçam O verdadeiro tom do protesto Para o sistema corrupto Eu, o palhaço, não presto Entre piadas e cantigas Vou deixando a minha queixa Luto pela democracia Mas o silêncio não deixa Sob minha bola vermelha Disfarço a desilusão Em um porão escondido Fui amarrado no chão Tratado feito bandido Sem direito a perdão Perdi a vida no riso Falei o que quis sem querer Um pau de arara me disse Palhaço, você vai morrer De bobo eu não tinha nada


Falava em piada o problema Gente de mente quadrada Com gente de alma pequena Calaram o palhaço afinal Não deram direito à vida Nem corpo pra um funeral Para sempre “desaparecido”


Jeanne

Doce camponesa, sem fartura ou instrução Leal à Deus, virgem casta Empunhou espadas, vestiu armaduras Do campo de guerra, fez o seu chão

Das vozes que clamam, abençoada Crente nos santos, partiu na missão Ao rei da França jurou lealdade Ao da Inglaterra, nunca pediu perdão

Jamais violada, enfrentou injustiça Foi então condenada sem direito à defesa Trajada de calças, julgaram heresia Sem posses ou títulos de realeza

Joana, guerreira, sem medo ou temor Enfrentou batalhas com fé e amor Protegeu os seus, salvou seu país Negou à fogueira seu grito de dor

A louca, a crente dizia ouvir vozes Testaram sua fé, provaram real 

Nome original de Joana D’Arc, em francês.


Nada pesava ao coração dos algozes Homens dispostos a fazer-lhe o mal

E foi condenada em desrespeito ao senhor Mesmo que a vida a ele dedicou Calma e serena aceitou seu destino PorĂŠm seu legado pra sempre ficou


Procura-se

É procurado o pobre coitado que ficou calado enquanto o chão desabava a tormenta chegava o mundo acabava debaixo de suas fuças


Interrompe

Um ruído interrompe as preces É a barriga do menino, inchada Lombriga danada Faz o menino sofrer

Um ruído interrompe a madrugada É a turma bem armada Que veio botar essa cambada Inteirinha pra correr

Um ruído interrompe o sono É a bala libertada Da pistola carregada E vai fazer piá morrer

Um ruído interrompe a aula Vem um monte de fardado Com seu cinto equipado Pras crianças recolher

Um ruído interrompe a hora É a terra se mexendo E o povo sai correndo


Tentando se proteger

Um ruído interrompe a paz É a bomba poderosa Que destrói tudo o que existe E já não há o que fazer


Progresso

O poder é o que corre nas veias Já nem importa o que mais Quantas vidas se perdem Quantos sonhos são deixados pra trás Na ponta da caneta vem a ordem E progresso é ilusão O zumbido na passagem É o sinal da destruição Apertos de mãos e bons negócios É a terra prometida Vale escravos prisioneiros Uma terra dividida De um lado estão barões Do outro o pé rapado Abafadas as reações De um povo indignado O poder corrompe a alma Empatia morre aos poucos Assina o tratado com calma Encarcera e mata os loucos Os grilhões deixam as marcas Nesse povo aprisionado Não há sequer a esperança


Hรก um futuro arruinado E a cada 4 anos eles fazem fotos com crianรงas


Contagem

“Bum!” A partir desse ruído Começa a contagem de corpos


Ela

Sob o sorriso embarrado rascunhavam-se nuvens

Da sombra dos pinheiros vinha o sossego das tardes de verão À beira do riacho morno ensaiava cantigas de paixão e sorte Dentro do vestido leve, crescia a criança forte Que disputava ventos e fazia deles o seu furacão

Mulher, de cabeça feita e chapéu de renda Cresceu sem medo de nada e pronta pra luta Criada para entrar pra história e ainda virar lenda Guerreira pronta pra vencer batalhas ou qualquer disputa

Das ondas de rádio veio a notícia bomba Um homem de coração perverso tomou o poder A fúria invadiu seu corpo, tomou à sua frente Disposta pegaria em armas pra matar e morrer

Sobre os galhos que um dia marcaram a sua infância Olhou o horizonte despida de qualquer esperança As marcas do fogo pintaram o chão em tom preto Não havia na casa mais móveis ou teto

Era o fim de toda uma era de paz e amor


Ditador, sanguinário e canalha espalhou na cidade a morte e o terror Ela, nem boba nem nada, ficaria pra trás Aquele maldito cretino sentiria na pele do que ela é capaz

Ele, ladrão ordinário, cercou-se de gente pra se proteger Ela, sozinha no mundo, munida de ódio, não ia parar A guerra estava travada, ela não tinha medo de perecer Mesmo que sua vida acabasse, prometeu que faria o safado sangrar

Se foram os tempos da espada, a briga seria de pedra e de pau Vendo seu povo faminto, morrendo nos cantos, decidiu atacar Ele, pomposo e parrudo, do povo ele ria com cara de mau Sem medo da pobre-coitada, abriu sua casa pra ela entrar

Na mão, um pedaço de corda que ela usaria para o enforcar Mostrar ao povo sofrido que o monstro vencido era pra celebrar Ele dela achou graça, sentou à sua frente a lhe observar Seus homens então a cercaram, tocaram seu corpo pra lhe aprisionar

Ela, criada na rua, sem medo e sem culpa, lutou sem parar Rendida, no chão de lajota, vendo seu sangue do corpo pingar Guardou o fim da sua força pra adaga escondida no homem enfiar Sabia que o destino assim o seria, ela morreria mas iria matar

Ele, sem saber de seu plano, se ajoelhou à sua frente e riu sem parar


Mas o riso mais contundente é de quem espera o fim para gargalhar Ela, ajoelhada e ofegante, olhou em seus olhos e sorriu também Ele, sem nem perceber, recebeu sua lâmina e foi pro além

O ciclo de ódio e de medo foram interrompidos por tempos de paz A moça, dona da coragem, recebeu homenagem e pra história entrou A memória do ditador sanguinário foi deixada pra trás Seu legado como governante, a partir desse instante, ninguém mais lembrou


Céu

Enquanto o tempo passa Meus demônios fazem festa Dentro dos meus lençóis

Enquanto o tempo voa Vão eles me convencendo Que meu tempo já acabou

Entre mortos e feridos Meus demônios me venceram E eu conheci o céu


Esqueleto

Havia um esqueleto de prédio Paredes que protegiam o nada Janelas que revelavam o vazio Ao redor da construção imponente Transformada em casca Ainda se viam seus restos mortais O que fora um dia uma casa Agora era apenas um retrato De um tempo passado Que não volta jamais Havia um esqueleto de prédio Revelando que um dia Houvera vida ali Havia o resto de coisas Objetos quebrados espalhados no chão O velho esqueleto de prédio era o retrato Da desolação Era o esqueleto de prédio Um cemitério de memórias perdidas Um dia o velho esqueleto encontrou o chão


Cruzes

Pequenas histórias enfileiradas Passados unidos num destino comum No campo sem flores as cruzes cravadas Pintadas de branco sem nome nenhum Outrora pessoas com histórias de vida Já foram crianças com sonho e futuro Transformados em corpos de balas perdidas Encolhidos em campos sem lugar seguro Choram os mortos que nunca voltaram Medalhas, bandeiras, o hino nacional As cruzes revelam que não se salvaram E sequer puderam ter um funeral

As cruzes que formam um monumento à morte.


Dรณi

Dรณi Mais do que o corpo ferido A alma partida A lembranรงa perdida O futuro roubado Dรณi Que tudo vai comeรงar outra vez


O morro

No alto do morro Se ergue a bandeira A cruz e a espada Na terra venci

Do alto do morro Vejo o povo que vibra Celebra a conquista Que eu promovi

Em cima do morro NĂŁo vejo os mortos Passado remoto VitĂłria eu vi

Castelo no morro Em paz eu governo O povo alegre Me prevaleci

Em cima do morro Criei meu legado Em nome de tudo


Que na guerra sofri


Na m찾o

Em prantos De arma na m찾o O menino esquece Que a inf창ncia n찾o foi feita para matar


Como sou

Só queria viver minha vida Amar meu amor Ser feliz como sou

Encontrei em qualquer esquina Alguém odioso Que não concordou

Um soco esvaziando meu peito Caí de qualquer jeito Meu corpo no chão

Destino cruzado com a morte Encontrei a má sorte Com pedras na mão


Aleppo

I Havia sim um elo entre todos Que não fossem de raça, credo ou origem Respiravam o mesmo ar pesado de morte Respiravam na dança macabra da fuligem Sob botinas de couro e borracha o chão parecia de nuvem Fumaça para todos os lados entre corpos marcados, anjos perdidos Povos sem lar, sem rumo e sem norte Dos restos da casa, o homem fardado fazia a guarda Boneca de pano no canto dos móveis marcados, quebrados, perdidos Um dia ali dentro crianças brincavam de polícia e bandido Os tempos mudaram, não havia inocência ou vida talvez Um som estremece a cidade, os sobreviventes entendem que começou tudo outra vez Um quadro mal pendurado revela a família que um dia foi feliz Agora, despedaçada, mantém em seu seio quem escapou por um triz Nas ruas resta o concreto estraçalhado e o pó que subiu Das bombas que ali atingiram, a beleza e a vida, o tudo sumiu Na praça central da cidade cachorros vadios não existem mais A vida, o sopro e a brisa, a paz e o futuro ficaram pra trás Nas ruas, ruínas e gente sem esperança Nas casas espalhavam-se corpos, velhos, adultos e crianças

Aleppo é a segunda maior cidade da Síria. Já considerada uma das cidades mais bonitas do mundo, foi completamente destruída na guerra.


O som que se escuta na trégua é o silêncio quebrado pelo choro baixinho Carregado de dor e descaso, de morte e abandono, sem paz, sem carinho. A bela cidade florida deu lugar ao inferno sem nem avisar Famílias inteiras em trapos, tentando fugir pra outro lugar Em barcos de ar e esperança encontram a morte nas margens do mar.

II - Vês? Nada resta! Chora a menina, olhando na fresta Vestido de bolinhas rasgado nas mangas

Dois passos pra fora, vem a escuridão Um soldado armado caminha ileso Sem um arranhão

Do lado de dentro não há nem telhado Se ainda houvesse chuva, tudo estaria molhado Mas até a chuva se refugiou em outras bandas

O prédio é ruína, nem lembra o passado A praça perdida fica lá do outro lado Não há mais crianças pra brincar de castelo de areia

Celebra um homem com um bote inflável de contrabando Exibe o peito aberto, caminha mancando


Seu rosto encontra o chão antes do corpo encontrar a porta

No lugar das pipas, os meninos contam mísseis Eles sabem que a queda encerra dias difíceis Já não há mais vagas no cemitério

À noite, cansada, a criança não conta mais carneirinhos Conta estouros, bombas, barulhos de bala E dorme sem saber se vai acordar outra vez

Um estampido à curta distância e o pai corre pro berço A criança ainda respira, sem marcas ou feridas Ajoelhado, ele fala baixinho – eu agradeço

Ela levanta os bracinhos pra se render Nem sabe bem o que significa Mas sabe que ainda pode morrer

III Já houve tempo de paz, há muito esquecida Pessoas como eu e você, vagando em ruas em ruínas Sua vida, sua história, perspectiva perdida Um corte na alma, o corpo exibe a ferida

Já houve, no passado, alegria e progresso


Do futuro brilhante, restou o regresso À selvageria, ao ódio e ao caos Em tempos de guerra, o ódio é réu confesso

O barulho das bombas interrompe o silêncio Da terra arrasada desprovida de sorte Nas ruas, ruínas não contam histórias Nas manchas de sangue, um rastro de morte

Passado é o tempo de um dia feliz Crianças cresciam em paz e união Na guerra o ódio não se contradiz Nas ruas e esquinas a marca profunda da destruição

No campo de guerra não tem aliado Tem homens buscando alimento e proteção Família escondida, futuro dilacerado A vida e a esperança sem rumo caindo ao chão

Os canteiros floridos dão lugar aos cartuchos de balas As escolas tomadas de poeira e vazio Não há mais ensino nas salas de aulas Acordam sabendo que a vida está por um fio

IV


Um dia, quem sabe, tudo volta ao normal Terá se passado uma era talvez A vida findada tal qual vendaval O barulho da bomba revela tudo outra vez A esperança veste luto onde um dia foi vida Vida? Não restam mais dúvidas da história perdida! Logram vitória como se fosse possível O sangue escorrido do povo invisível Família, o que sobra, vira refugiada Em terra estranha porque a sua foi arrasada

V Bum O zumbido no ouvido deixa marca profunda Bum A mãe pega o filho e se esconde no quarto Bum A parede desaba com um novo impacto Bum Entre tijolos encontram a mão da criança Bum Não nasce mais flores em nenhum jardim Bum A vida, entre balas, chegou ao fim


VI Era eu apenas uma garotinha Cabelos ao vento, vestido de bolinha Nas ruas da cidade, traçava meu trajeto Da escola à minha casa não era traço reto Cruzava ruas e avenidas Todo mundo trabalhava, cuidava de sua vida Eu gostava de aventuras, no mercado me escondia Vivíamos tempos doce, de paz à noite, vida ao dia Até que a guerra a nós chegou Pouca gente entende ao certo como tudo começou Bala e bomba toda hora Ajoelhada, a mãe à vida implora Sob o pó pela bomba levantado Jaz o corpo de mais um pobre-coitado Fardado, o menino não entende Todo o ódio que à arma agora o prende Acordamos todo dia sem saber pra onde ir Papai um dia disse que a nós resta fugir Mas quem somos nós nesse mundo sem fim? A história aniquila a esperança e termina assim Depois de muito tempo, nos unimos aos conterrâneos Fugimos de barco e encontramos a morte no Mediterrâneo

VII


Ela chora baixinho ao lado do corpo da mãe O pai foi pra guerra e ela sabe que ele não volta mais O irmão soterrado não pede socorro Sozinha no quarto espera o milagre que não virá O zumbido no céu e a esperança “Será essa a bomba que vai me matar?” Nos sonhos inocentes tem um jardim pra brincar Pela janela só restam ruínas, a vida parou Não há mais futuro, o país acabou Sai solitária com a boneca na mão O tiro, perdido, acerta o coração Ela, enfim, encontra a paz

VIII As lápides sem nomes fazem fila Nem todo mundo será encontrado Nem mesmo inocentes terão funeral A guerra não mata apenas vidas Mas aniquila dignidades Histórias interrompidas por pura maldade A guerra há de acabar por falta de gente para matar

Poemas para ler no front  

Poesias de guerra. E um pouco de esperança.

Poemas para ler no front  

Poesias de guerra. E um pouco de esperança.

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