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10 POETAS DO RN 1° Lugar Wescley J. Gama 2° Lugar Janilson Sales de Carvalho 3° Lugar Iara maria carvalho Menção Honrosa José de Souza Xavier Alexandre Magnus A. de Albuquerque Anna Carlla de Fontes Pereira Antoniel Campos Itamir Vieira Marcelo de Araújo Quirino Suely Magna de Carvalho Nobre

Catalogação na fonte: Biblioteca Pública Câmara Cascudo C744d Concurso de poesia Luis Carlos Guimarães 10 poetas do RN.---Natal(RN): Fundação José Augusto, 2010. 150p. 1.Poesia brasileira. I.Título. 2010/10 869.1

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CDD B


CONCURSO DE POESIA LUÍS CARLOS GUIMARÃES

ESTADO DO RIO GRANDE DO

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FICHA TÉCNICA Iberê Ferreira de Souza Governador Joaquim Crispiniano Neto Diretor Presidente da FJA Venâncio Pinheiro Barbosa Coordenador da Gráfica Manimbu Capa e Projeto Gráfico Socorro Soares Diagramação Hugnelma de Almeida Impressão Gilsomar Manoel André Montagem: Maria Rosimar José Guedes Belo Perfilamento: Lúcio de Medeiros Atendimento? Márcia Maria Luiz Gonzaga Ana Lúcia Maria Aparecida Fotomontagem: Gilsomar

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Apresentação

Luís Carlos Guimarães nasceu em Currais Novos, Rio Grande do Norte, em 1934. Viveu quase toda sua vida em Natal, onde foi jornalista, juiz de Direito e professor universitário. Nos anos 70, fez um curso de extensão universitária na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, e se apaixonou pela cidade, que visitava com muita freqüência. Estreou em poesia em 1961, com “O aprendiz e a canção”. Seguiram-se: “As cores do dia”, “Ponto de fuga”, “O sal da palavra”, “Pauta de passarinho”, “A lua no espelho” e “O fruto maduro”. Sem jamais ter saído da província natal, foi reconhecido como um dos grandes poetas do país, por escritores e poetas como Pedro Nava, Ledo Ivo, Francisco C. Dantas, Ivo Barroso, Affonso Romano de Sant’Anna. Do seu livro “Ponto de fuga”, assim falou: Pedro Nava: “Que poesia terrível e pungente é a sua! Todo o seu livro é uma onda me levando”. Luis Carlos Guimarães também utilizou seu talento de poeta como tradutor. Publicou em 1997 “113 traições bem-intencionadas,”onde traduziu mais de 100 poetas latino-americanos e poemas de Artur Rimbaud. A sua tradução de “O corvo”, de Edgar Allan Poe, é considerada de alta qualidade pelo tradutor e poeta Ivo Barroso. Luis Carlos faleceu em Natal, em 21 de maio de 2001, dois dias antes de completar 67 anos. 5


Morreu de um enfarte que ele previra num poema,”Ode mínima ao enfarte do miocárdio”, escrito em fevereiro de 1982 Nei Leandro de Castro

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Sumário

Wescley José da Gama (1° Lugar)...................13 Respirava montanhas..............................15 Lia alpendres à tardinha..........................16 Quando a enxada chambocava a terra.....17 Quando estava sozinha à noite................18 A chuva penteava a tarde........................19 Vários homens a caminho da olaria.........20 Na cacimba profunda...............................21 Nas paredes de barro..............................22 Toda vez que a lenha estalava no fogo....23 Mulheres lavavam roupa..........................24 Janilson Sales de Carvalho (2° Lugar)..............25 Despedida...............................................27 Lajeiro.....................................................28 A queimada.............................................29 Seca política............................................31 Rezadeira................................................33 Modelagem..............................................35 Fé............................................................36 O poeta puro...........................................38 Pouco me amo se pago afetos.................39 Nossa Senhora da Piedade......................40 Iara Maria (3° Lugar)........................................43 Destino....................................................45 Esquisita..................................................46 Encontro..................................................47 Erótica.....................................................48 Contraste.................................................49 Casamento..............................................50

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De perdas................................................51 Previsão..................................................52 Gravidez..................................................53 Promessa................................................54 MENÇÕES HONROSAS.......................................55 José de Sousa Xavier......................................57 Acme......................................................59 Adultério..................................................60 Arrependimento.......................................61 Dissimulador............................................62 Divórcio...................................................63 Existência................................................64 Êxtase.....................................................66 Meditação................................................68 Piada.......................................................69 Resquícios e Indícios...............................70 Alexandre Magnus Abrantes de Albuquerque..73 Sede........................................................75 Vulcão.....................................................76 Le petit mort............................................77 Cenários..................................................78 Vênus......................................................79 Estações..................................................80 Matrix......................................................81 A bolsa e a lâmina...................................82 Caldeidoscópio........................................83 Banquete.................................................84 Anna Karlla de Fontes Pereira..........................85 1. Guardião..............................................87 2. Parque.................................................88 3. Onipresença........................................89 4. Beijo de boa noite................................90 5. Solução...............................................91

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6. Prece...................................................92 7. Decoração infantil................................93 8. Mil desculpas.......................................94 9. De pele................................................95 10. Amuo................................................96 Antoniel Campos.............................................97 Alfabeto...................................................99 Contracanto...........................................100 Meu canto..............................................101 Ir daqui ao outro lado............................102 Necessário se faz que se comece..........103 Nesse espaço inexistente luz e fala........104 Sempre dói mais o que invento.............105 Era pra ser de repente...........................106 Sou mais versão do que fato.................107 Que essa coisa que inútil se desloca.....108 Itamir Vieira...................................................109 Suspiros matinais..................................111 Canavial.................................................112 Brisa viva...............................................113 Ser(tão)..................................................114 Despercebido........................................115 Eco........................................................116 Composição lírica..................................117 Conceito?..............................................118 Mumúrios do ser....................................119 Clariciando............................................120 Marcelo de Araújo Quirino.............................123 Ancorado...............................................125 Borges...................................................126 Chuva....................................................127 Pedido...................................................128 Rotina....................................................129

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Sete linhas mais três..............................130 Um casal...............................................131 Suely Magna de Carvalho Nobre Felipe..........133 As redes................................................135 Brouhahas.............................................136 Caatinga................................................137 Face oculta............................................139 O homem e o caçuá..............................140 Regresso...............................................142 Saudade sem fim...................................146 Sentimentos..........................................147 Basta ser humano.................................148 Zumbido................................................149

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POETAS PREMIADOS

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1° Lugar Wescley José da Gama

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Wescley JosĂŠ da Gama

respirava montanhas e respingava morenezas em tudo que via, aquele homem de barro. lia alpendres Ă  tardinha,

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Wescley José da Gama

comunicava ações às aves de rapina e, quando acordava, ninava o café na pequena cozinha de tirna e lembranças.

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Wescley José da Gama

quando a enxada chambocava a terra, mané de barro coloria as espigas sementeadas ainda nos grãos de milho e descansava como um balaio de despensa, cheio de aguardos e cores novas. quando estava sozinha à noite,

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Wescley JosĂŠ da Gama

maria punha os meninos na cama e costurava a noite, como se fosse um sapato de bebê. a chuva penteava a tarde e dizia coisas nos ouvidos das açucenas.

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Wescley José da Gama

elas se enamoravam da inocência líquida da água e diziam-se em paz com os selos da chuva que caía e ninava a noite.

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Wescley JosĂŠ da Gama

vĂĄrios homens a caminho da olaria bicicletavam a estrada toda cheia de pedrinhas, miudinhas como dedo mindinho de menino recĂŠm-nascido.

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Wescley José da Gama

na cacimba profunda pairava água doce. na casinha profunda flutuavam bebês, à espera do resgate da água (da cacimba profunda). nas paredes de barro

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Wescley José da Gama

zé do né se encostava e emprestava gentilezas, dentro da tarde cinzenta. ele sabia, o café não tardava e as casas de marimbondos se preparavam rápidas para suas histórias de trancoso. toda vez que a lenha estalava no fogo o cheiro do café gritava,

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Wescley JosĂŠ da Gama

acordando todo mundo.

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Wescley José da Gama

mulheres lavavam roupa no olho d’água, cantando a brancura que renascia.

DESPEDIDA

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2째 Lugar Janilson Sales de Carvalho

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Janilson Sales de Carvalho

Os faróis cortando a noite; A porteira rangendo no escuro. Pessoas na varanda choram... Sob o lampião, O escuro ataúde Espalha-se Dentro do carro. Silêncio dos adultos... As crianças assustadas Buscam as saias das mães E as pernas dos pais... Olhos arregalados Descobrindo a morte Trêmulas na noite escura Ante o eterno Silêncio Do morto.

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Janilson Sales de Carvalho

LAJEIRO Lá no lajeiro tem Cobras de cores várias Tem galinhas fugitivas Com ninhos improvisados Guinés assustados Coelhos apressados Lagartixas preguiçosas Poças d’água Com rãs escorregadias Sapos empanturrados De insetos incautos Lá no lajeiro Tem velhos castelos De formas imaginárias Onde reis e condes Foram petrificados Após as festas Que sempre recomeçam Em noites de luar Ao som da bicharada.

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Janilson Sales de Carvalho

A QUEIMADA Capim seco ao sol Hora de replantio Fácil queima e limpeza Melhor que seja à noite Delimita-se a área Observa-se a direção do vento Todos a postos nas bordas Homens, meninos e mulheres Com varas e porretes improvisados Ateia-se o fogo na cabeceira Começa o lambe-lambe de chamas no capinzal Surgem apressados Desnorteados Desesperados No outro extremo Coelhos Preás Ratos do mato Tatus Pebas Cobras Sapos Jias Camaleões furta-cor Pássaros

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Janilson Sales de Carvalho

Asfixiados... Varas e porretes agitam-se MĂŁos apressam-se na coleta Sacos, caixas, balaios Enchem-se de bichos Agonizantes A batalha encerra-se Com o Ăşltimo fio de fogo Os humanos partem Carregados, cansados, felizes Para trĂĄs, fica a terra escura Com ninhos queimados Cobras carbonizadas Sapos enrijecidos.

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Janilson Sales de Carvalho

SECA POLÍTICA A água sumiu das cacimbas Rios e açudes Não deixou recado, Só um medo furtivo Os políticos providenciaram Caminhões-pipas Necessário salvar as vidas As famílias prepararam latas, Baldes Jarras Tanques Cisternas O carro-pipa vai chegar O motorista traz lista Por que lista? A água não é para todos? A ordem é clara : “os da lista!” Só os que votaram e apoiaram. Os outros se virassem. E a fila de latas vai diminuindo. Os tanques vão permanecer vazios.

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Janilson Sales de Carvalho

A ordem é clara: “os da lista!” Os outros que procurassem o adversário, Já que ele se comprometeu. O caminhão parte Soltando um fio de água Na estrada de barro Deixando para trás Latas vazias Olhares tristes.

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Janilson Sales de Carvalho

REZADEIRA O terço nas mãos A voz galopante citando nomes Pedindo a proteção dos santos O importante é não esquecer ninguém Irmãos, filhos, netos, sobrinhos, amigos A longa lista começa cedo Na semiluz do quarto E os santos? As almas esquecidas? Os sofredores do purgatório? As mãos trançando as pérolas do terço... Nomes, muitos nomes... parecidos Cantados, murmurados... distantes Misturados aos dos santos Santos como eles Gestos e palavras Cortando a longa noite Todas as noites Todos os nomes

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Janilson Sales de Carvalho

A mulher curvada do tempo Pedindo aos cĂŠus No silĂŞncio do leito.

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Janilson Sales de Carvalho

MODELAGEM O barro do rio é bom Dá pra fazer tijolo e telha Dá pra fazer bichos diversos Cavalos velozes Vacas mansas Dá pra fazer homens e mulheres Móveis e tigelas Jarras e potes Santos de altar O barro do rio é bom Tem cor de pele Como a pele dos homens da olaria E também dos meninos da olaria Seres de barro Moles e quebradiços.

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Janilson Sales de Carvalho

FÉ Oratório na mesinha da sala Madeira escura e sacra Cercada de silêncio e respeito Os transeuntes de passos leves Vozes abafadas Cantos e orações No cubículo sagrado. Santo Antonio imóvel Olha Nossa Senhora da Conceição Levita São Francisco Observa O mestre No crucifixo Ao centro Olhar sofrido Jarrinhos de plástico coloridos Recebem flores Portas abertas Atenção dos presentes Pedidos de chuva Saúde Felicidades Agradecimentos Mãos postas 36


Janilson Sales de Carvalho

Joelhos no chão Vozes quase inaudíveis O pequeno oratório É a porta do céu.

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Janilson Sales de Carvalho

O POETA PURO O poeta puro Morreu ao nascer Não queimou Os olhos ao sol Nem secou a garganta Sumiu Como um feto Abortado A pureza Não lhe legitimou A aurora Nem A humana Existência Sem perfume Ou flores Foi para o inferno Dos esquecidos O poeta puro não viu O luar de Natal Nem cenas De fome e guerra Ficou sem sombra No deserto Da ignorância.

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Janilson Sales de Carvalho

POUCO ME AMO SE PAGO AFETOS Pouco me amo Se pago afetos Fico em conflito Ante o espelho Meus devaneios Se liquefazem O que sou e qual o valor? Não vejo brilhos de paixão Em olhares fugidios Nem maciez na voz Nenhuma eletricidade Moeda corrente Por uma carícia Um beijo quente Na alma ardente Grito... Pouco me amo se pago afetos

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Janilson Sales de Carvalho

NOSSA SENHORA DA PIEDADE Piedade Toma o teu eterno janeiro Antes que desapareça De mim Lembro na estrada Os passos rápidos Pequena multidão em fé Oratórios e ladainhas Promessas feitas Graças recebidas Fé em Piedade Ela estava lá Branca como nuvem Era por ela, Piedade Que eu caminhava Talvez levando a ti O meu pedido Lembro o perfume O sorriso A voz macia Indo ao encontro de Piedade Onde estão esses janeiros,

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Janilson Sales de Carvalho

Piedade? S贸 sobraram dezembros, Sem piedade.

DESTINO

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3째 Lugar Iara Maria Carvalho

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Iara Maria Carvalho

nasci da poeira das estrelas e sobreviverei atĂŠ o dia em que me varrerem pra debaixo da terra Ăşmida

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Iara Maria Carvalho

ESQUISITA gosto de coisas miúdas pérolas baratas fonemas mas uso salto bem alto só pra ver se roubo a cena

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Iara Maria Carvalho

ENCONTRO há um banco de praça vazio calcificado em meu peito desde a adolescência no banco de praça há marcas de minha silhueta estagnada porque esperar é moer futuros causar espantos examinar sementes mas nessa trama de pomares enredados eu sou o fruto que vinga de repente (fruto de vime talhado) pois o amor mordeu-me bem na anca e o banco de praça em meu peito desde então vive lotado

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Iara Maria Carvalho

ERÓTICA não quero colo nem calo: quero um falo entre as telhas do meu mel aguado coar o vinho pastoso com a minha fenda oblíqua e acender poesia com a flama recolhida

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Iara Maria Carvalho

CONTRASTE dor de l贸tus flor de pus no asfalto ao meio-dia s贸 o amor me seduz

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Iara Maria Carvalho

CASAMENTO colhi no cimo do dia o cheiro vermelhinho do tomate o azeite costurado na travessa de louça o alecrim embalsamado na canção na cozinha, emerge o nodoso jeito de avental as ancas se espalhando no azulejo no quarto, ressurge o suspiro e a sede oval dos que colhem das raízes do chão água, amor, filhos e pão

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Iara Maria Carvalho

DE PERDAS havia um grilo espocando cantarelas no fundo doce do meu quarto assovio de selva atravessando minha cama de casal e solidão silvo de trem furando nuvens entre pedras ouvidos (trilhos) lembranças (trevas) o sumo encardido que escorre de sua tez camurçada é-me gosto por dentro (no mais fundo dentro de mim) muito além do sono e do sonho sua canção me desperta o grilo canteiro é meu filho minha gravidez incompleta

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Iara Maria Carvalho

PREVISテグ nテ」o houvesse amor o cheiro de cafテゥ ecoaria nos telhados cafテゥ velho mal pisado sem doce

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Iara Maria Carvalho

GRAVIDEZ pĂľe-me no ventre coisas miĂşdas e castanhas que te absolvo do linho rasgado

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Iara Maria Carvalho

PROMESSA n茫o irei melanc贸lica quando morrida (farei mete贸rica a minha subida) ecos de meu grito entupindo de luz as estrelas e um rastro de formiga marcando do c茅u, as telhas ACME

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MENÇÕES HONROSAS

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Menção Honrosa José de Sousa Xavier

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José de Sousa Xavier

Visionário cavaleiro andante da Andaluzia ao Cariri: espada flamejante, punho em cabo, Cabul é perto e tão quente (pavio inapagável), Casablanca, doce berço (espera interminável) — promessa de se viver o inimaginável; cavalo em riste, amazona o cavalgará ardendo como onça de quadris devoradores que sangrará delirantemente profanada em seu mosteiro onde ele a possuirá com orgias orgásticas e cânticos — visões e delírios sobre a brancura impura dos mantos donde ressuscitará puramente mais mulher pronta ao fascínio e mistério da sedução, ecoando cantos de dentro das curvas das conchas onde uma bela pérola negra o atrairá ao vértice de suas coxas que o sugarão ao paraíso.

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José de Sousa Xavier

ADULTÉRIO — Com que mistérios despertarás pra me beijar amanhã? São esses tantos entre tantas desconfianças escondidas que, sem respostas, me perseguem o pensamento nesse afã de buscar redescobrir-te mais viva e menos dividida enquanto és mesmo o que não achei que eras a vida toda afora: ocaso, fim de chuva fina, sol pardo se erguendo no fim da aurora, perguntas soltas, alguma coisa que, se não me decifra, se entrega toda ao que prescrevo quando algo te devora sendo uma música estranha feita por quem te toca a cítara a qual jamais ouvi, mas a lembro qual algo esquecido vindo sem nunca antes com certeza em mim, resistindo, ressuscitar a paisagem clara da sala que me trás você de longe em que te entregas toda nua (na volúpia sem razão de pertencer) a tantos quantos quando teu corpo sente e não sabe donde a mão não minha que te afaga a flor trará o teu prazer, enquanto o feijão que me serves esfria na panela quente.

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José de Sousa Xavier

ARREPENDIMENTO Cerrei a porta atrás de mim. Ficou jantar, almoço, café, braço, boca, cabeça, mulher; (aprisionei-me no teu útero, e as várias formas de me libertar são asas inúteis derribadas). Ao abrires as pernas anos tantos após, eu me dissolvera, e o que ficou nem o gozo pode rejuntar. E vivo assim: perambulando entre o que perdi e o que não pedi.

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José de Sousa Xavier

DISSIMULAR No centro de mim, — praça repleta de rostos ansiosos —, remoem-se teus cabelos, que leem os segredos dos meus pêlos; teus lábios me transportam ao interior da Caxemira: extravasamento prenunciado reclama tua saliva — oceano que me ilha com teu idioma entalado que decifro há anos. Meu ventre, expondo minhas fronteiras às tuas armas, me transforma em bomba-relógio que não me explode, mas escreve meu epitáfio como eu gostaria que fosse quando você finge uma morte eterna me implodindo comigo encravado entre os dentes.

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José de Sousa Xavier

DIVÓRCIO Vamos dividir as coisas, dividir os lucros adquiridos; a casa hipotecada, repartir. Vamos dividir as crianças, dividir as mãos antes atadas; os corpos já separados, afastar. Vamos dividir os lençóis, dividir os trapos já dilacerados; as digitais há tanto lidas, extinguir. Vamos dividir o silêncio, dividir a fidelidade prometida; os segredos tão bem praticados, calar. Vamos nos dividir sem recidivas, nos dividir cada um em sua ilha; as fotografias nas quais fruímos, rasgar. Mas, ao menos me deixe a dor para eu poder senti-la depois dessa partilha.

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José de Sousa Xavier

EXISTÊNCIA Por sermos pornograficamente doces num poema próximo ao perfeito, reunidos em química, mecânica: matéria que parece sem defeito, é que continuamos inacabados mesmo enquanto inertes e inúteis e sem estâncias estanques para pousar embora tanto tenhamos vivido; por sermos romance escrito com coerentes capítulos incertos de finais incompletos em que a mão de algum insistente escritor nos deixa vazios ou repletos, é que não capitulamos no coerente modo contínuo de sermos destino sem fim e não passamos de personagens perenes apesar da carne que sempre parte; por sermos filhos da mão de quem não sabe se nos escreveu em prosa ou em verso e nos guardou em seus cadernos, papiros, pergaminhos, tábuas, livros, universo... é que não vemos o diagnóstico nem o prognóstico agnóstico da cura pros labirintos em que nos prescrevemos rotina a rotina, enquanto não somos a obra que queríamos; por não sermos aquele que nos compôs no seu deleite de ter qualquer coisa criada como complexos computadores com programas e senhas criptografadas, é que nos tornamos hackeres para que ele não nos

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José de Sousa Xavier

decifre ou nos delete antes do backup de nossas realizações plenas; por sermos mistérios de nós mesmos, incerteza da origem, pó de galáxias, vácuo ilimitado, nebulosas de fuligem... é que permanecemos feitura ou feitor cheios de mistérios eternos para que não sejamos projetos abortados ou órfãos derrotados, e por sermos o que não somos quando em êxtase queimando em pavio, ainda que a jura de amor tenha adormecido em barris e apodrecido em silêncio, é que somos mesmo o que sempre seremos — embora sem querermos: procriadores, eternos fugitivos da frígida e fugidia forma de viver.

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José de Sousa Xavier

ÊXTASE Estamos ardentemente chegando a um passo da eternidade. Se aproxima ansiosa vontade de manter o mundo entre os braços. Sendo eu a tua existência, sou teu Universo agora, constelação de Órion refluindo luz (que me apresso em reter quando pelo teu corpo se emana), complexas sensações, Vesúvio em chamas... enquanto clamas camas de cetim me queimando a pele, onde, deslizando esguia, circunavegas meus portos. Oásis vemos ao longe se despindo da areia tempestuosa. Minha bandeira hasteada se retesa em entranhas tuas, e me sugas um Universo imenso que cresce e dentro de nós nos cabe sem medida. Nossas necessidades além de nós é que não cabem em lugar nenhum. Finitos somos, mas não vemos nada maior que o tamanho do cosmo que somos. Gamas de planetas e cometas errantes imensos não são tão como os nossos gametas procriando em renovo enlevo e relevo dos nossos eus. Maior não há nada que viva sem a plenitude que amiúde completa os seres;

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José de Sousa Xavier

por isso, somos essencialmente sem limites quando atingimos o cume do lume juntos enquanto todos os astros nos esquecem no exato momento em que nos deglutimos como matéria ardente.

MEDITAÇÃO

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José de Sousa Xavier

É dentro de mim que volto a existir; meu corpo se despede lá de fora, e nada sobra enquanto o pensamento — essa nave sideral — medita e me dita a medida do que posso possuir ao beber sua bebida. Quem dera seu porre perene pudesse me preencher como o pão que me sacia, e além do meu ventre nada me preenchesse enquanto eu me arremessasse tanto adentro profundamente quanto quero pra perceber meus prazerosos arco-íris imensos colorindo os dentes, a língua, a saliva com que transportar me tento. Tão profundamente a eclodir, feito semente consumindo o que invento, a saudade não me alenta (tão imensamente) nesse afã de ser você dentro de mim neste divã.

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José de Sousa Xavier

PIADA Meus deuses são tão mortais que assumi minha divindade enviando-lhes cartões postais (e manuscrevendo poemas sensuais) da favela em que coabito.

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José de Sousa Xavier

RESQUÍCIOS E INDÍCIOS De repente, germina a necessidade de não mais existires, mas te inventas em mim a qualquer custo, embora eu te necessite mais que esquecimento eterno; te inventas no Chanel, no Jeans, na calcinha — com que me tocas ainda úmida, embora seja despida que exales cheiro de relva fina sobre a cama, e sem Zorba meu orvalho espesso inunde o quarto com seu odor de hipoclorito; te inventas nas preces e nos anjos que na tez das minhas mãos se tecem, embora, debalde, eu deseje decepar dedo a dedo arraigado ao corpo e apagar as rugas, as digitais e os desejos que neles encravo; te inventas espectro vivo me purgando na Inquisição sem indulgências, embora o céu buscado alimente a fogueira onde queimas Joana d’Arc e não te exorcize na casa em que me assombras, e vacilo se me condeno contigo; te inventas ossos e carne magra necessários ao corpo teu que quero quando me palpo, embora insistas em devoluto espírito mover montes, abater muralhas e me deixar sem forma enquanto almejo a fôrma

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José de Sousa Xavier

tua para ser indivíduo ao menos; te inventas profunda e invisivelmente em tudo que respira em meu redor até que esse tudo seja algo por si próprio, sem precisar da vida que te dou e nessa nova ficção caduques desencarnada se eu não te der o quero que percas. Te inventas, mas não te crias. Criar-te por si própria em mim, não me permito, porque criar é muito mais denso e profundo que simples ilusões a incursões exógenas. Quem cria não esquece, e preciso esquecer a facilidade de ser tuas invenções.

SEDE

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Menção Honrosa Alexandre Magnus Abrantes de Albuquerque

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Alexandre Magnus Abrantes de Albuquerque Quero tua chuva em minhas gramíneas, teu corpo sólido medindo-me as linhas. E se pairamos em planos infindos, o que é volume vê profundidade. Tua volúpia me invade em fissuras e o que me fere me cura, ai, o amor. Eu quero ser a sede para sempre se essa água for gozo e corrente.

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Alexandre Magnus Abrantes de Albuquerque

VULCテグ Acordo cheia de terra テコmida, hテコmus. Ardendo inteira, preparo a casa para o fumo. Velas, veleiros, humores,vapores: o fogo espreita, o mar espuma. Meu acordo contigo テゥ receber as sementes, aberta e em suspiros, um despetalar quente.

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Alexandre Magnus Abrantes de Albuquerque

LE PETIT MORT Noite, ponte para a morte: moita, motim, mistério forte. Não tenho medo de ser, meu fogo dura, e o que só quero é consumir-me, terna e firme. Da lenha mítica, tua árvore se aproxime, um tronco pleno de furor e de ternura.

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Alexandre Magnus Abrantes de Albuquerque

CENÁRIOS Sabe, há pouco eu era criança, coberta de véu, translúcidas telas, cortinas, inocente seda. O tempo me fez não mais caber nas vestes pueris, me doou feridas, poeiras e um bicho me espiando entre as telhas. Foi logo e estava marcada de Sade, de dentes, espinhos, ardente rosa a tecer labiríntica teia.

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Alexandre Magnus Abrantes de Albuquerque

VÊNUS Ah, teu monte, montando-me ao luar ávido-crescente. Subir no teu pico, picando-me a carne, toda fragmentos. Ai, teu ápice, matando-me tão viva e um cálice de êxtase.

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Alexandre Magnus Abrantes de Albuquerque

ESTAÇÕES Minha fenda, tua chave, minha lua, tua fase, minha selva, tuas garras, minha sede, tuas águas, meu olhar, tua janela, meu pulsar, tua chancela, meu ardor, tua labuta, meu gozar, tua cicuta.

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Alexandre Magnus Abrantes de Albuquerque

MATRIX Pronto, estou pronta, estou no ponto de ser sorvida. Eu sou filha, eu sou pura, tenho a dor na rachadura. Eu sou mato, caverna, Tua, a raiz, tua, a nervura. Eu sou mito, legenda, tua matriz, tua sepultura.

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Alexandre Magnus Abrantes de Albuquerque

A BOLSA E A LÂMINA É tempo de poda: aplainar o ramo, desbastar a roda. Minha bolsa é formosa: fino ouro em moldura de bronze. Tua prata está longe, chega perto, me aperta, eu dou de graça. Tua faca está cega? Chega cedo, me beija, eu limo a lâmina. Tua face está seca? Chega sempre chovendo, suspende o monge.

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Alexandre Magnus Abrantes de Albuquerque

CALEIDOSCĂ“PIO Sou Eva e Lilith, sou Afrodite. Sou Marta e Joana, sou Madalena. Sou Sara e Ana, eu sou Helena. Maria e Isabel, eu sou Diana. Santa e serpente, porta e abismo, altar e cama.

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Alexandre Magnus Abrantes de Albuquerque

BANQUETE Vede, hombre, como o vinho está doce. É cedo e a noite quer beijar a aurora. Vem, teus ombros são pilares rijos, base para suster nossa fauna e flora. Teu pássaro em meu ninho, asa e bico grandes. Eu calo o falo – ao me achar, se esconde. Esse talo é livre, se embriaga e come, essa alma é presa ao meu corpo – enxame. Vide a boca – esse céu se expande, dá-me o cabo que esperou distante. Cheia fica a lua que se entrega às cordas. Videira cálida, viola túrgida: leite no mel me engorda.

1. GUARDIÃO

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Menção Honrosa Anna Karlla de Fontes Pereira

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Anna Karlla de Fontes Pereira

não sei se estava no modo como me falou da lua ou em gestos outros de inconfundível zelo nus, como se a rotina do ouro virado pó fosse aos seus cuidados viver só sei que faz frio e ardo e fatal mesmo é esse jeito doce e manso de me querer que em mim só desata a vontade de agoramente ser sua

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Anna Karlla de Fontes Pereira

2. PARQUE a cada volta lá dava pra ver a ponte e um cordão de luzinhas amarelas enfileiradas aqui a ponte também existe e a fantasia enfileira histórias de luzinhas em cordão mas falta nessa cidade grande aquela roda gigante de onde eu pudesse avistar a rua de quem cintilou meu coração

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Anna Karlla de Fontes Pereira

3. ONIPRESENÇA tudo ao mesmo tempo agora era o que eu queria ser: bailarina, cantora, benzedeira uma alquimista das ervas e temperos... radioatriz ou astronauta embalados pra presente quereria a paz monástica e algo do porte da profundeza do mar todas as artes do mundo em mim talentos em força-tarefa com a finalidade única de expressar você

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Anna Karlla de Fontes Pereira

4. BEIJO DE BOA NOITE sossega, meu bem que à distância velo seu sono e nessa peregrinação imaginária afasto pedras do caminho divido o peso com você olho estrelas e faço preces para que volte logo para que volte sempre e assim eu não perca jamais esse rebrilho no olhar

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Anna Karlla de Fontes Pereira

5. SOLUÇÃO minha razão e a sua há tempos saíram pra passear estavam de mãos dadas e foram vistas entrando no cinema desprezaram o relógio a lógica dos homens e reverenciaram o luar inebriadas, reluzentes de emoção

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Anna Karlla de Fontes Pereira

6. PRECE meu benfazejo meu zeloso e virtuoso amor que esse regozijo de corpo e alma fale por nós e se a felicidade é pra ontem dá-me e toma de comer dá-me e toma de beber agora e para sempre, amém

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Anna Karlla de Fontes Pereira

7. DECORAÇÃO INFANTIL na parede da casa o ponteiro tem um ritmo meu coração, outro o mais impaciente pulsando na pele alega horas três senhores a marcar que existo e se entre um carinho e outro você demora todos eles me pegam pra cristo

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Anna Karlla de Fontes Pereira

8. MIL DESCULPAS nuns dias sou rude sou pedra atravanco caminhos noutros, estou rosa mas tão travestida em espinhos... ainda assim, rosa amarelo eu avermelho você apaziguados nós quando quero, relva e se você me beija planto prosa

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Anna Karlla de Fontes Pereira

9. DE PELE não tem laços nem fita. mas é epidérmico, multicor faz festa comigo o meu vestido esse que você finge que mira tecido sem rubor de alumiar perdidas trilhas as que morna e vagalumemente percorre sua mão acumulando mil milhas

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Anna Karlla de Fontes Pereira

10. AMUO não me venham com hortelã inútil o ar condicionado até o Everest se transportado aqui pro lado a essa altura brisa pra mim só sua voz ao pé do ouvido e sua pele na minha tipo refrigério espalha brasa

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Menção Honrosa Antoniel Campos

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Antoniel Campos

ALFABETO Inexato objeto deixo escrito, esquisito, incorreto e caricato; sem extrato, abjeto e contradito, em conflito e em completo anonimato. De formato maldito o seu projeto, dialeto interdito no palato, seja hiato o seu grito e o seu trajeto incompleto e ao finito cognato. Pois vomito no prato em que eu habito, no n達o-dito e abstrato me concreto, no que eu veto retrato o que acredito. Circunscrito, sem tato e circunspecto, rarefato, sem teto e adstrito, seja exato em seu rito esse alfabeto.

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Antoniel Campos

CONTRACANTO Eu canto se nĂŁo sinto o que aparento e invento um contraponto, se nem tanto. E enquanto me desmonto em fingimento, sustento o que pressinto em contracanto. Suplanto esse confronto e me arrebento: me enfrento, me desminto e me quebranto. Por manto, em labirinto me apresento: me ausento, nada aponto e me decanto. No entanto, me remonto e me acrescento. Sedento de absinto me transplanto, conquanto o desaponto seja alento. E ao vento eu seja extinto, sem espanto, sem pranto, sem apronto e desatento, pois lento ĂŠ que, sucinto, me levanto.

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Antoniel Campos

MEU CANTO Meu canto eu invento inteiriço e pedaço, no espaço que é disso: o cinzento — se tanto. Fracasso o feitiço, alimento de pranto, enquanto acrescento sumiço e cansaço. Transplanto o momento se omisso lhe traço, aumento o quebranto e desfaço o seu viço, tormento o acalanto, me enlaço e me enliço, me enguiço e me amasso e me planto no vento, cobiço o estilhaço por manto e unguento no intento de um canto onde nasço demisso. Rebento esse canto e renasço remisso e nisso me embaço — no entanto a contento, maciço mormaço de espanto aparento e atento adianto meu passo enfermiço. O alento suplanto e em bagaço aterrisso, decanto o andamento e espreguiço o compasso, o canto que eu tento é só isso: erro crasso, refaço o serviço se isento me encanto, no abraço postiço apresento o não-canto que eu canto e me ausento e permisso me faço.

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Antoniel Campos

Ir daqui ao outro lado, lá me vejo e nem estou. Ando rápido parado e a cada passo não vou. Estando eu noutro lado, olho pra trás: lá estou. Aceno pra mim parado, me diz meu outro: não vou. E sem saber de qual lado é o lado em que agora estou, não sei quem sou se parado, nem me sei mais se me vou.

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Antoniel Campos

Necessário se faz que se comece de uma forma qualquer, desde que urgente, e que finde também tão de repente que um plural nem pergunte por seu S. O que é, com o que é, é o que parece (ninguém vai perceber), e Inês é morta. Nada diga de nada. Nada importa. E da porta, dispare: “Quem me visse fazer arte com aquilo que eu não disse, me dirá um inventor!”. E feche a porta.

Nesse espaço inexiste luz e fala,

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Antoniel Campos

o seu tempo é estático e indefinido, seu formato é de nunca concebido e um aroma de frio se lhe exala. Nada fixa e tudo lhe resvala, tem seu sim quando um não lhe tangencia, não diz nada e de nada se anuncia, traz em si tudo o quanto não tem nome, regurgita esse nada e se consome, só, então, feito nada, se inicia.

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Antoniel Campos Sempre d贸i mais o que invento, do que de verdade sinto. Esse, porque sei momento; aquele, em dobro, pois minto. D贸i, porque, falso, consinto que seja dor, sendo alento. Finjo na calma um tormento que nele pr贸prio desminto, pois, se disfar莽o, acrescento uma dor que sequer pressinto.

Era pra ser de repente, sem que se visse e escutasse;

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Antoniel Campos

passasse em quase tangente, bem rente, mas não tocasse. Melhor se fora fugace — prelúdio de quando ausente — restasse a voz reticente (no benefício do impasse). Era pra ser, tão-somente, meu rosto sem tua face.

Sou mais versão do que fato, bem mais talvez que decerto;

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Antoniel Campos

indecifrável retrato, num álbum jamais aberto. Nunca fui Sol, só deserto. Só fui supérfluo e aparato. Trago um discurso barato onde me finjo liberto. Solenemente abstrato, sou bem mais longe que perto.

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Antoniel Campos Que essa coisa que inútil se desloca e tomada de inteiro se divide; que é aqui, mas é noutra que se toca e na réstia o reflexo coincide; que é certeza no tanto que equivoca e do equívoco mesmo se duvide; que essa pedra que em ângulo se coloca e na ponta a si mesmo dilapide, seja a coisa que valha nada em troca e em inaudita sentença se liquide, letra morta que nada convalide e a palavra que nada mais invoca, seja a coisa parada que se choca sem querer, sem desculpas, sem revide.

SUSPIROS MATINAIS A madrugada

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Menção Honrosa Itamir Vieira

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Itamir Vieira

chora lágrimas de orvalho ressequidas pelo vento. O silêncio atravessa o vácuo ]O P A C O[ da noite que se foi... e não volta.

CANAVIAL Cana Caiana

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Itamir Vieira

Cana Ceifada da lama Prensada me chama! que bebo O açúcar do teu suor.

BRISA VIVA O vento que varria As calçadas da minha vida

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Itamir Vieira

Sopra agora a poeira de outras cercanias. Levou consigo meus sonhos desfeitos, meus amores perdidos Empoeirados pelo tempo. ... Sopra, vento que se foi.

SER[Tテグ] cheio de vida pulsante

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Itamir Vieira

dos rios ou das pedras dos açudes ou do chão. Sertão!

DESPERCEBIDO Nenhum olhar se ergue no centro da noite cálida

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Itamir Vieira

para escoltar teus pensamentos imprecisos delicados nenhum olhar cruza tua existência ignóbil. Nenhum olhar [reflete] o clarão da lua cega que foge ao ar nem as intempéries do tempo. Nenhum olhar S ed e sf ez Nem existiu... somente a insignificância se perpetua no leito de agonia enquanto velo teu eterno sono.

ECO

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Itamir Vieira Um grito v e m de l o n g e [abafado] pelos galhos das catingueiras Indefinível. Suplanta na agonia do ser clemência pra saciar a sede que lhe corrói a alma e lhe torna indigente!

COMPOSIÇÃO LÍRICA O poema que nasce do chão 116


Itamir Vieira ou brota do leito de dor tem cheiro de vida vivida! O poema que surge de m達os calejadas e surradas tem cheiro de vida vivida, sofrida! O poema que brota de vozes e passos unidos tem cheiro de vida vivida, sofrida, reunida! O poema Nasce, Surge, Brota e cheira!

CONCEITO?!

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Como uma foice que fere Itamir Vieira repele a poesia corta destroça mutila os ouvidos imprecisos a poesia corta destroça sangra lábios sábios a poesia corta destroça também é linguagem universal que aproxima os amantes delirantes A poesia une {R}{e}{ú}{n}{e}

MURMÚRIOS DO SER

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Hoje naqueles passos lentos Itamir Vieira sob a chuva a melancolia se foi e pude abraçar a água que caía. Ouvi o grito das pedras anunciando tua chegada e vi teu nome escrito nas curvas do rio. Portanto, venha traga o teu canto doce e a poesia que escorre de teus lábios. Quero a luz dos teus olhos vivos e a beleza de teus passos vindos. refaz minhas retinas fatigadas! E não me deixes aqui Sem o lirismo e a força viva do teu ser porque inexisto!

CLARICIANDO A Descoberta do Mundo um sopro de vida para não esquecer Como nascem as estrelas.

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Itamir Vieira Água viva Quase de verdade rompe a cidade Sitiada Veios Perto do coração selvagem mordem A felicidade clandestina Chão De corpo inteiro laços de família bela e a fera que ladra numa legião estrangeira

onde estiveres de noite acende o lustre para descobrir a via crucis do corpo e, na hora da estrela, entre uma aprendizagem ou o livro dos prazeres revelar as memórias da paixão segundo, G H. ANCORADO Foge, passado, pois tuas lembranças

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Itamir Vieira

(matĂŠria-prima de um ruminante) corroem nosso tempo e ancoram nossas vidas, ĂĄvidas por seguirem a brisa (e a brisa nĂŁo espera).

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Menção Honrosa Marcelo de Araújo Quirino

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Marcelo de Araújo Quirino

Que afago nos faz a brisa!… mas ai de nós que só avançamos se nos atingem as ondas. Avançai, ondas (ainda que nos açoitem)! Arremessai-nos (ainda que sobre as pedras)! Seguiremos, sim, a trajetória incerta, pois certo nessa vida só o passado. Volvei, ondas, quebrai as correntes dessa âncora!

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Marcelo de Araújo Quirino

BORGES Borges deixou de enxergar. Morreu no exílio da escuridão, Sem gozar a beleza da paisagem literária. Só ouvia e suspirava recordando da biblioteca Que apenas tateava. O olhar, para tantos mortiço, Eram janelas fechadas Que escondiam uma conspiração. Impedido de usar as mãos para escrever, Empunhava a bengala E ditava seu testamento literário A uma secretária que imaginava linda. Como um Davi moribundo Agasalhou-se com ela, A sunamita datilógrafa. Morreu feliz o Borges.

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Marcelo de Araújo Quirino

CHUVA A terra transpira; No espaço, a lã das nuvens, Produto da tosquia dos vapores, Ganha volume ao soprar a brisa. Pranteia o céu em gotas frias, Universal solvente das substâncias. Os elementos se tocam, Se mesclam, Se completam. Goza a terra os carinhos Que a chuva, ruidosa, Deita no regaço de onde, Invisível e silenciosa, Saiu a matéria que a formou. Assim a terra reclama A devolução daquilo Que emprestou ao céu.

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Marcelo de Araújo Quirino

PEDIDO Pede-se a quem encontrar A honra perdida dessa nação O obséquio de levar, sem dilação, A quem de direito pertence, Antes que quem a perdeu pense Que não vale a pena a ter. Enquanto ainda está a bater De quem a perdeu o coração, Leve-a, faça essa boa ação, Não a deixe assim perecer.

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Marcelo de Araújo Quirino

ROTINA Com passos lentos, percorrendo as avenidas, Assistindo as mesmas, repetidas cenas Da história comum de tantas vidas Que sobrevivem neste mundo a duras penas, Se tem no peito retardadas as batidas, Deseja a carne as coberturas terrenas, Morre-se aos poucos sem vontades atendidas, Anda-se morto, vivo parecendo apenas. Até que um dia se sacuda essa algema, Até que um dia se proclame a liberdade, Até que um dia se reaja com bravura, Antes que chegue a hora em que se gema Se encurvando ante a mortalha da idade Que o vestirá no seu caminho à sepultura.

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Marcelo de Araújo Quirino

SETE LINHAS MAIS TRÊS Bem, amanhã é outro dia. Como se os dias se repetissem! Talvez, digo, é bem provável, Que estejamos acumulando para o futuro Um depósito abarrotado de palavras inúteis, Frases inúteis que repetimos Simplesmente para não ficarmos calados. Calo-me. Talvez já tenha acrescentado Em pelo menos Sete linhas de puro devaneio.

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Marcelo de Araújo Quirino

UM CASAL Vi-os tão tristes na praça, Ainda que forçassem um sorriso; Não pude ignorar-lhes a desgraça, A falta de roupa, de pão e de siso. Deixar não posso, por mais que faça, De pesar a mim mesmo em juízo, Se eu ajo como age toda a massa, Quando agir diferente é o que eu preciso. Pobre casal. Enquanto toda gente passa, Com destino certo ou impreciso, Eles permanecem na mesma praça, Abrigados em seu lar de improviso. Lado a lado, conversando, achando graça De quem passa. Uma garrafa, sem aviso, Erguem e, num copo, entornam a cachaça Que os faz pensar que o inferno é o paraíso. Porque o álcool, seja em copo seja em taça, É o remédio que do triste arranca o riso. Bêbado, o homem dança e se abraça Com a mulher e quase se joga no piso. A esses dois espécimes de minha raça, Em que meus tristes pesares diviso, Deixo esses versos que um dia, na praça, Eu desejei compor de improviso.

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Menção Honrosa Suely Magna de Carvalho Nobre Felipe

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Suely Magna de Carvalho Nobre Felipe

AS REDES Quando o sol ensaiava partir As redes enfeitavam o salão Redes miúdas Sem eira nem beira Enfileiradas, suspensas no ar Embalavam os sonhos da gente Balançavam desencontradas Esbarravam no mesmo lugar Redes miúdas Sem eira nem beira Choviam pela madrugada Em qualquer das estações E quando desavisados Não olhávamos para o chão Os pés ficavam encharcados Não importava a estação Um riacho de águas turvas Deslizava pelo salão.

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Suely Magna de Carvalho Nobre Felipe

BROUHAHAS Defronte da camarinha Vislumbrei sua silhueta Esguichando um sopro Um sussurro, um socorro O canto do acauã Rasgou a noite Inflamando Um mau agouro A vida à meia luz Numa sofreguidão Pelo silêncio Ensaiou um tímido adeus Brouhahas Despertaram as chamas A morte disfarçou sua face Vestígios de esperanças Respirei um ledo alívio Deixei a camarinha Vagueei feito alma penada Por entre avencas descoradas Caminhei despercebida Brouhahas, brouhahas Como uma punhalada O sino badalou Quedei inerte Diante da camarinha Vozes roucas entoaram A primeira Ave Maria.

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Suely Magna de Carvalho Nobre Felipe

CAATINGA Uma mulher desnuda Exposta ao sol Fértil feito terra agreste Uma mulher frondosa Feito árvore bisavó Vestida de plumagem rara Verdejante prenúncio De noite sem luar Intocada no meio da mata Vivenciando as agruras Destinadas à aridez De um solo infértil Suavizada apenas Pelo olhar do poeta Observador astuto De belezas raras Soprada em versos Filigranas de uma Réstia selvagem Caatinga enegrecida Trocando de vestes Colorindo-se de esperança Ao gotejo do primeiro Ensaio de ano bom Rica pastagem Lavoura e ave De arribação Coroam o seu reinado Embalada pelo som de Um único canário Anunciando um reisado divino E à sombra da mata

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Suely Magna de Carvalho Nobre Felipe

Da Serra da Cajarana A mulher desnuda Banha-se de prazer Exalando aroma De terra molhada!

FACE OCULTA

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Suely Magna de Carvalho Nobre Felipe

Não me olhe Nem deseje-me Com esses olhos de macho Cobiçando o outro sexo Olhe-me antes Com os olhos aguçados de uma fêmea Deseje-me antes Com a força que aproxima os semelhantes Não me olhe Nem deseje-me Com esse apetite de lobo Como se eu fosse de fato uma mulher Afinal, qual a hora exata Em que somos um Ou deixamos de ser o outro? Olhe-me e deseje-me, antes, Com os olhos de um dragão Cuspindo ao vento Lâminas incendiadas Pela certeza de um talvez Pois antes de ser homem E depois de ser mulher Sou universo!

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Suely Magna de Carvalho Nobre Felipe

O HOMEM E O CAÇUÁ Num ritual místico sagrado e profano A lua rompeu-se maculada Pelos raios solares que ainda Beiravam as profundezas do infinito Aquele espetáculo transcendia A alma do indigitado mortal Que pelas agruras da vida Daquilo nem se apercebia Rompia as barreiras do sol Numa cavalgada frenética Em lombos de magros cavalos Deixando rastros esvoaçados Cruzava rios sinuosos Banhados de águas turvas Assemelhados a cipó retorcido Cipó-cravo, cheiro da Índia Relâmpagos desnudavam os céus Provocando trovejos avassaladores Recortando a atmosfera embaralhada Aroma estonteante de terra molhada Anúncio premente de enxurrada Cortando o peito já espalmado Temeroso pela vida errante Protegia o corpo miúdo quase em transe

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Suely Magna de Carvalho Nobre Felipe

Um leve gemido sangrava-lhe o peito Sinalizando seguir adiante A um destino às vezes incerto Onde a solução parecia tão certa Carecia sim! Seguir adiante Amargurado pela dor do rebento Agasalhado entre os mangaios Jerimum, batata doce e melancia E numa compensação de medidas Rapadura brejeira e feijão de corda Farinha de mandioca, um quilo de jabá E tudo mais quanto guarnecia o caçuá Naquele entrelaçado de cordão-cipó Torneado com ripa de macambira A alma virgem se convalescia Dos calafrios no corpo nu Teria que aportar em outra freguesia Mesmo envolvido por novas miragens Como se o inferno fosse ali Quem sabe o céu não estaria por vir?

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Suely Magna de Carvalho Nobre Felipe

REGRESSO I Campina Grande in festa Numa expo bucólica Revirando pensamentos Conheci o Sítio São João Tapera de taipa Ainda sem reboco Quis ser pedra Não teve jeito As lágrimas... As lágrimas! Vi num canto tia Etelvina Irmã mais nova De minha avó E andando devagarinho Bem na sala de jantar Vejo uma moça na janela Ozaete sua sobrinha Estavam diante de mim Bibi, Etinha e minha avó II Logo que avistei o quarto A garganta deu um nó Vi uma gente sem pátria Se rindo de fazer dó Do expressivo urinol Lembrei-me da infância Na casa de pai Uó Quando a noitinha caía E bem mal escurecia As puçás já espichadas

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Suely Magna de Carvalho Nobre Felipe

Hora de contar estrelas Pedir a benção de Ati De Sant’Ana e Pai Uó Por Deus! Como me foi útil Aquele velho urinol Que agora virava peça De grande admiração Para alguns de gozação! III Saí dali cabisbaixa Tomada de emoção Vendo os costumes Da minha gente Ameaçados de extinção E para aliviar minha dor Resolvi entrar na capela Avistei santos e velas E três mocinhas magrelas Confundindo a exposição Com cenário de novela Pousavam, tiravam fotos Zombavam de São João Uniam as mãos em prece Imitando nossa Senhora Já outra bem sorridente Abrindo os braços ao céu Clamava por mais um flash! IV Açoitada pela frieza Que tangia

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Suely Magna de Carvalho Nobre Felipe

Minhas lágrimas Entrei na bodega ligeiro Para aquecer-me Ao candeeiro Tomei de um gole só Uma lapada de saudade Ao ver vovô Nô querido Sentado ao tamborete Ensinando-me A embalar sabão Naquele papel De embrulho Que também Embrulhava o pão E a esperança Amarela De chover Lá no sertão. V Buscando me consolar Fui pra venda de cordel Vi uma estória esquisita Com um título de arrepiar E faço questão de falar Que coisa veja seu moço! “O Filho que estuprou a mãe, depois virou um cachorro” Desisti de ler a novela E fui assistir o debate De Lampião Com São Pedro Do poeta pernambucano Cordelista José Pacheco

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Suely Magna de Carvalho Nobre Felipe

Fiz José Alves Sobrinho Autografar-me Com carinho A sua saga derradeira Exaltando Nysia Augusta Nossa poetisa estrangeira VI Já ia deixando a venda Quando fui interpelada Pelo grande cordelista Antonio da Mulatinha Que vendendo-me Alguns dos seus sonhos Recomendou-me Especialmente A obra de sua amiga Cordelista campinense Maria Julita Nunes Li ligeiro e deparei-me Com o mestre Manoel Camilo Anunciando com prazer: “Assinei o Codicilo Pra direito o povo ter A viver muito tranqüilo Aqui em São Saruê”. Um sorriso serenou-me Ao lembrar-me de você!

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Suely Magna de Carvalho Nobre Felipe

SAUDADE SEM FIM Não marque a hora Nem calcule os minutos Se a saudade impera Reina fria, absoluta Não faça conta Nem tenha pressa! Não guarde receio Nem espere ansiosa Pela próxima aurora Enfrente a estiagem Feito um bom carvalho Desafie a tempestade Enquanto espera Permita ao vento Suavizar sua dor Pela semente Lançada à incerteza Na lavoura da vida Pelo tempo de ser Deixando o seu coração Em desalinho Em solidão Deixe a vida Ensaiar a sua história E então, quando For chegada a hora Reinvente um abraço Um ninho farto de carinho De palavras e de bênção!

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Suely Magna de Carvalho Nobre Felipe

SENTIMENTOS Volta e meia Quedo-me agonizante Ao insinuar-se Do outro lado da lua A monotonia De um martelo agalopado Enquanto pulsa A realidade crua, nua Latejante Pedindo passagem Desencontrada Do lirismo passadista Que em mim Arde, açoita Urge lançar fora O verso metrificado A rima maldita Controladora, Impondo amarras Mascarando a vida Que sangrando Escorre rápido Pelas veias Desce às ruas Encharcando as vielas Ali onde há pressa De saciar a sede Estancar a dor Que não passa compassada Antes grita, agoniza Em versos escandalosos Descompassados

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Suely Magna de Carvalho Nobre Felipe

BASTA SER HUMANO Não quero estar, Antes quero ser! Ser sem distinção Feminino ou masculino Ser humano basta! Um que dá a luz Outro que mantém Acesa a chama Um que sente a dor Outro que ampara A ficção da vida Um que germina Outro que alimenta O fruto da criação Ser homem! Ser mulher! Numa única esperança Basta ser um só! Ser o que quiser Ser o que tem de ser! Para ser feliz, Ser humano basta!

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Suely Magna de Carvalho Nobre Felipe

ZUMBIDO Chega com a noite Ambienta-se Inquieta-me Revira minha atenção Golpeia-me traiçoeiro Apunhalá-me inclemente Lança-me Num beijo breve Sua peçonha Quase letal Conturba minha hora Desaparece Não deixa réstia Como a noite persiste Não descuido Com a vida Que me resta Fico alerta Ao próximo zumbido Diminuo meu espaço Giro lenta Sobre o meu corpo Inquieto-me Largo a hora Embaralho a visão Diante do silêncio Quase sepulcral Ressoa alto Um zumbido solitário Pressentindo-me desarmada Desiste de atacar Porém resisto

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Suely Magna de Carvalho Nobre Felipe

Não cedo agora Diante do seu silêncio Posiciono-me Mantenho-me inerte Necessito de alguns segundos Retenho a respiração Não desisto Com as mãos espalmadas Fito-lhe nos olhos Permito uma aproximação E ao primeiro movimento Ensaio um contra-ataque Sem piedade, sem clemência Uma badalada fúnebre Corta o silêncio Respiro fundo, relaxo Outro suspiro Olho ao meu redor Alcanço a hora Que já distanciava Chamo a vida à ordem Até o próximo zumbido!

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Este livro foi impresso na Editora, Livraria e Grรกfica Manimbu, Rua Aรงu, 666-A - Tirol - Natal-RN. Em papel Polen Bold 90g, fonte 11 Americana BT com tiragem de 1000 exemplares.

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Livro 2007 10 Poetas