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14 POETAS DO RN 1° Lugar Kalline Sibelli de Amorim 2° Lugar Anchella Monte F. R. Dantas 3° Lugar Gustavo de Castro e Silva Menção Honrosa Adriana Duarte Ismael Carvalho Pimenta Jecson Augusto de Medeiros José de Sousa Xavier Jean Sartief José Antoniel C. Freitas Kathirine Kelly Gomes Marcos Ferreira Mário César Gomes Pedro Antônio Lima dos Santos Roberta Assunção Rachel Lúcio

Catalogação na fonte: Biblioteca Pública Câmara Cascudo C744q Concurso de poesia Luis Carlos Guimarães 14 poetas do RN.---Natal(RN): Fundação José Augusto, 2010. 200p. 1.Poesia brasileira. I.Título. 2010/10 869.1 2

CDD B

CONCURSO DE POESIA LUÍS CARLOS GUIMARÃES

ESTADO DO RIO GRANDE DO

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FICHA TÉCNICA Iberê Ferreira de Souza Governador Joaquim Crispiniano Neto Diretor Presidente da FJA Venâncio Pinheiro Barbosa Coordenador da Gráfica Manimbu Capa e Projeto Gráfico Socorro Soares Diagramação Hugnelma de Almeida Impressão Gilsomar Manoel André Montagem: Maria Rosimar José Guedes Belo Perfilamento: Lúcio de Medeiros Atendimento? Márcia Maria Luiz Gonzaga Ana Lúcia Maria Aparecida Fotomontagem: Gilsomar

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Apresentação

Luís Carlos Guimarães nasceu em Currais Novos, Rio Grande do Norte, em 1934. Viveu quase toda sua vida em Natal, onde foi jornalista, juiz de Direito e professor universitário. Nos anos 70, fez um curso de extensão universitária na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, e se apaixonou pela cidade, que visitava com muita freqüência. Estreou em poesia em 1961, com “O aprendiz e a canção”. Seguiram-se: “As cores do dia”, “Ponto de fuga”, “O sal da palavra”, “Pauta de passarinho”, “A lua no espelho” e “O fruto maduro”. Sem jamais ter saído da província natal, foi reconhecido como um dos grandes poetas do país, por escritores e poetas como Pedro Nava, Ledo Ivo, Francisco C. Dantas, Ivo Barroso, Affonso Romano de Sant’Anna. Do seu livro “Ponto de fuga”, assim falou: Pedro Nava: “Que poesia terrível e pungente é a sua! Todo o seu livro é uma onda me levando”. Luis Carlos Guimarães também utilizou seu talento de poeta como tradutor. Publicou em 1997 “113 traições bem-intencionadas,”onde traduziu mais de 100 poetas latino-americanos e poemas de Artur Rimbaud. A sua tradução de “O corvo”, de Edgar Allan Poe, é considerada de alta qualidade pelo tradutor e poeta Ivo Barroso. Luis Carlos faleceu em Natal, em 21 de maio 5

de 2001, dois dias antes de completar 67 anos. Morreu de um enfarte que ele previra num poema,”Ode mínima ao enfarte do miocárdio”, escrito em fevereiro de 1982 Nei Leandro de Castro

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Sumário

Kalliane Sibelli de Amorim (1° Lugar)...............15 Lições de Amor........................................17 As Rãs.....................................................18 As garrafas..............................................19 Estrelas...................................................20 Lembranças do Mundo Antigo (A Carlos Drummond de Andrade)..........................21 Canção Alumiada (A Mário Quintana).......22 A n c h e l l a M o n t e Fe r n a n d e s R i b e i r o D a n t a s (2° Lugar)........................................................23 O Poema..................................................25 No Livro, O Poema...................................26 O Banho..................................................27 Limpeza..................................................28 Família.....................................................30 Mesa Posta..............................................31 Escolha...................................................32 A Cadelinha.............................................33 Ex-Votos...................................................34 Fé............................................................35 Gustavo de Castro e Silva (3° Lugar)................37 Taos........................................................39 Aondestar?..............................................41 Homo Tottus...........................................42 Design.....................................................44 Sugestão.................................................45 Homem...................................................46 Homo Crepuscolares...............................48 Antes-e-depois-de-ser...............................49 Reflolhar-se..............................................50 Poço........................................................51 7

MENÇÕES HONHOSAS.....................................53 Jecson Augusto de Medeiros...........................55 Alimento..................................................57 Amo-ti......................................................58 Didática...................................................59 O Homem Se Fez no Tempo....................60 Palito de Pirulito.......................................61 Pingos.....................................................62 Poezia.....................................................63 José de Sousa Xavier......................................65 Crenças...................................................67 Devoção..................................................69 Efemeridades...........................................70 Enigma....................................................71 Ermo.......................................................72 Frustrações.............................................73 Metamorfoses..........................................74 Poetificar..................................................75 Relutâncias..............................................76 Resquícios...............................................77 A um palmo.............................................78 Cana Caiana............................................79 Ecos........................................................80 Estasia.....................................................81 Poema Bento...........................................83 Toró........................................................84 Zona de Intimação...................................85 Adriana Duarte de Oliveira Freitas...................87 Memória Inanimada.................................89 Cristal......................................................90 Quando Entraste em Mim I.......................91 Linda Rosa Louca....................................92 Linda Rosa Murcha..................................93 8

Linda Rosa Pálida....................................94 Restos Mortos Conceitos.........................95 Respire....................................................96 Elegia e seus Afluentes............................98 Tantos Medos..........................................99 Ismael de Carvalho Pimenta..........................101 Sobressaltos..........................................103 Roxa......................................................104 Três.......................................................105 Opostos.................................................106 O Palhaço..............................................107 Violetas do Oriente................................108 O Crespúsculo e a Neblina.....................109 Olho D’agua...........................................110 Jean Sartief....................................................111 Minha Primeira Morte.............................113 Minha Segunda Morte............................114 Minha Terceira Morte.............................115 Imenso..................................................116 Porque Minha Alma é Velha...................117 Aquela Mulher........................................118 Ele vem, Será que Eu Vou?....................119 “Meu Confuso Mundo”...........................120 Reflexão................................................121 Na Mesma..............................................122 José Antoniel Campos Feitosa.......................123 Vida.......................................................124 Três Sonetos Começando em para........125 A Face que eu Trago: Alegre e Triste......128 Ser Sem Ser...........................................129 Esses....................................................131 Contra...................................................132

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Kathirine Kelly Gomes....................................135 Homicida...............................................137 Tinta Mágica..........................................138 Meu Mar.................................................139 Retalhos................................................140 Um Homem...........................................141 Coisa.....................................................142 Novela...................................................143 Extraterrestre.........................................144 Passivo..................................................145 Execução...............................................146 Marcos Ferreira.............................................149 Confissão Tardia....................................151 Pecado Original......................................152 Desconcerto..........................................153 Regresso...............................................154 O Castelo...............................................155 Extrema Unção......................................156 Ausência...............................................157 Musa Morta............................................158 Diante do Espelho.................................159 A Hora Azul do Silêncio.........................160 Mário César Gomes.......................................161 Sortilégios da Manhã..............................163 Saturno..................................................165 A Cavalgada da Morte............................166 A Caixa dos Últimos Prazeres................167 Lucidez.................................................169 Do Fogo e da Névoa..............................170 Apocalipse.............................................172 O Tempo das Esferas............................173 Cernudos...............................................174 Presença...............................................175 10

Pedro Antonio Lima dos Santos....................177 A Chuva Cai...........................................179 De Manhã..............................................180 Pessoa..................................................181 O Escultor..............................................183 Um Marinheiro Quero Ser.......................184 Boca de Forno.......................................185 A Gente Caminhava...............................186 Mais Valia O Pássaro na Mão..................187 Rachel Gomes de Oliveira Lúcio de Sousa....189 DO Que Nem os Deuses Curam.............191 Querubim..............................................192 Dúvida...................................................193 Mutilante................................................194 Câncer...................................................195 Agora.....................................................196 Assim Seja.............................................197 Entre Aspas...........................................198 No Centro da Cidade..............................199 Margarida...............................................200

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POETAS PREMIADOS

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1ยบ Lugar Kalliane Sibelli de Amorim

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Kalliane Sibelli de Amorim

LIÇÃO DE AMOR Numa caixa de sapatos jazem sobrepostos os meus inúmeros corpos: um cartão de aniversário datado, um missal de amigo em memória datado, uma fitinha de São Francisco, conchinhas roubadas na praia (mania feia de amor falso), uma flor de papel e arame, desenhos inacabados e, num envelope amarelado, num último envelope, três cartas de amor datadas um rapaz que se perdeu um rapaz que se casou um rapaz que se encantou. Duma caixa de sapatos brotam meus habitantes. Minhas tardes se comovem, chegam mesmo a sorrir, e eu oferto minha ternura sem que ninguém desconfie.

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Kalliane Sibelli de Amorim

AS RÃS As rãs se amontoavam detrás da porta do banheiro. Uma película de musgo cobria o chão do banheiro. No banheiro, um tanque sem fundo e uma cuia pra se molhar. No banheiro, sabão de coco e uma esponja vegetal. E as rãs amontoadas sem parar de me olhar. As rãs, escorregadias. Aos oito anos, meu pudor. Que saudades não tenho!

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Kalliane Sibelli de Amorim

AS GARRAFAS Elas eram um exército sempre a postos, camuflado num quarto de despejo onde minha meninice, metódica, passava longos minutos a contar: cinco, dez, quinze, vinte... que também eram as horas de uma semana sem fim. Por que o domingo custava tanto? Tanto tempo e tanta garrafa? - Olha o picolé! Olha o picolé! Era ele, com suas bermudas gastas, as mãos grosseiras e o riso largo, e o saco de garrafas que eu ajudava a aflorar. E eu nem sei mais seu nome nem que itinerário misterioso desenhou para si. Só sei dos domingos verde-róseos que não posso mais esperar.

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Kalliane Sibelli de Amorim

ESTRELAS Nas noites de São João os meninos costuravam a rua exibindo chumbinhos, rojões e busca-pés só para aquarelar o céu de muitas fumaças breves. Como eu sofria sentada à beira da calçada! Mas aí meu pai punha fogo num pedaço de bombril e girava girava girava e a mim parecia que o céu estava caindo (porque o céu ainda não era o que dizem — essa coisa vaga) e que as estrelas eram amigas de quem se sentia só.

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Kalliane Sibelli de Amorim

LEMBRANÇA DO MUNDO ANTIGO (A CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE) Chaguinha passeava com suas panelas pela rua. Para ela, o céu era cor de alumínio e cheirava a sabão lavandeira. Não havia guardas-civis, não havia nem mesmo muros — o que havia eram batentes pra barrar a água da chuva e meninos malvados brincando com as panelas de Chaguinha. O perigo que as mães temiam era não ter onde cozinhar, mas é certo que pediam pelo furto, é certo que facilitavam: naquele tempo, tudo durava tanto — a infância, o tempo, as panelas... Até os loucos podiam florir naquele tempo!

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Kalliane Sibelli de Amorim

CANÇÃO ALUMIADA (A MÁRIO QUINTANA) Há nos teus versos aquela luzinha distante dos vaga-lumes cintilando a noite: claro claro escuro escuro E é tanto o fremitar que a gente vira criança e salta pra conseguir ter as formas da luz nas mãos... E é tanto o alumiar que a gente mesmo acredita não haver noite alguma: só o dia com suas brancas, róseas nuvens.

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2ยบ Lugar Anchella Monte Fernandes RibeiroDantas

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Anchella Monte Fernandes Ribeiro Dantas

O POEMA Minha oração É o poema. Diária e contrita. Reservado tempo Que me habilita À vida. Leitura do poema: Puro rito. Sem cheiro de vela Ou dor de joelho posto. Só o gosto de infinito.

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Anchella Monte Fernandes Ribeiro Dantas

NO LIVRO, O POEMA O poema emerge das palavras lavas em precipício riscos e desafogos, percalços do ofício. O poema estanca a alma, essa que se faz escrita, proscrita do corpo rediviva. No livro, o poema se abriga e emigra dobra enrolada em nuvens indo e vindo.

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Anchella Monte Fernandes Ribeiro Dantas

O BANHO A água nas mãos espuma sabonete e tato. A água limpa e louva o corpo. O banho perfuma. A água dos cabelos pinga. Língua de sol e vento insolente secam. Pente de precisa competência apreende os fios entrança. A água dança. Banhada penteada vestida. Corpo limpo alma lavada.

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Anchella Monte Fernandes Ribeiro Dantas

LIMPEZA Escaldar garrafa coar café cortar o pão amanteigá-lo e a satisfação da conversa na refeição leve e ligeira de tardezinha. A sopa ardente na panela ariada vontade espalhada pela casa juntam-se todos novas conversas na cozinha. Louça lavada pingam as xícaras no escorredor brilham os pratos tão bem tratados com detergente. Lençóis e fronhas de cores claras alfazema exalam e pela sala a poeira tirada

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Anchella Monte Fernandes Ribeiro Dantas

espanta agouros atrai simpatia. Da limpeza diĂĄria se extrai conforto saĂşde, sossego. E poesia.

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Anchella Monte Fernandes Ribeiro Dantas

FAMÍLIA As vozes tomam a sala atravessam corredores e quadros chegam aos quartos. A filha sonolenta prepara o abraço e as notícias. Há que mostrar o novo vestido, a nova cor do cabelo o boletim do menino as canseiras do trabalho. A família fala junto dos ausentes, o carinho e a queixa. Reclamam, contam casos e comem as receitas da família. O calor está sempre horrível o mundo tão violento e eles ali conversam enchendo a tarde de risos. O amor faz guardar a tristeza como indesejável sobremesa.

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Anchella Monte Fernandes Ribeiro Dantas

MESA POSTA Conheço casas em que café, almoço e jantar acontecem em horas certas. A refeição só começa depois de todos presentes. Assim se entende que a refeição une a família permite a conversa. Na minha casa não é assim. A toda hora a mesa está feita com garrafa de café, bolo de leite e um convite permanente. Não somos gordos ou vorazes mas respeitamos o apetite como um dos prazeres da vida. Na minha casa o diálogo aparece nas horas incertas e como numa festa procuramos o pão e o vinho encontrados na mesa posta. O que vale para um não vale para outro. Nem mesmo quando se gosta.

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Anchella Monte Fernandes Ribeiro Dantas

ESCOLHA Entre o gostar e o amar prefiro o gostar: sossegado, desaflito. Amar – rede de ferro sobre mar de porcelana não dá para mim pequena aranha que mal tece seus soluços. Gostar – proficiência, desafogo: rede etérea sobre mar cristalizado, dá para mim aracnídea que executa mandala de leves contornos enaltecendo vazios. Entre o gostar e o amar fico com o que não entranha. Nem calor, nem frio.

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Anchella Monte Fernandes Ribeiro Dantas

A CADELINHA Quintal. Acerolas, mamoeiro cebolinha e tomate. Jardim. Pé de café, papoulas primaveras, coqueiro. A cadelinha late no jardim alto açulada pelo movimento da calçada. No quintal litúrgica ao revolver os canteiros. Vista. O homem a castiga. O tapa. O chute. Grita. Grita. Arrasta as patas traseiras. Não entende. A noite se estende sobre as feridas. 33

Anchella Monte Fernandes Ribeiro Dantas

EX-VOTOS De madeira, de massa, de barro, de pano São tantas as dores dos seres humanos! De pano, de barro, de madeira, de massa Rezando, rezando, só assim a dor passa. De barro, de pano, de massa e madeira Partes expostas de uma dor verdadeira. De pano, madeira, de massa ou de barro São olhos tão tristes, mãos de longos dedos Pernas de caminhadas, mechas de cabelos E velas que rezam e ardem nos jarros. No pequeno quarto, na praça modesta A madeira esculpida a fé ela atesta. No altar dos santos as flores fabricadas A boneca de pano é menina recuperada. De barro e de massa, do barro que amassa O que tem a dor acredita que a dor passa. São os votos cumpridos das dores carregadas Esculturas de fé que aliviam a alma penitente Romarias e cantos, testemunho de cada gente Atestam os milagres de cada lágrima derramada.

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Anchella Monte Fernandes Ribeiro Dantas

FÉ Macia, macia a água do rio que carrega o barco e a Virgem Maria. Macio, macio o cântico. E a fé que aquece contra os desvarios da vida. Amacia, amacia. Afofam o leito das dores as rezas que carregam as lágrimas mais pesadas. Macias, macias as lágrimas derramadas. Sem cânticos e sem velas não há preces nas bocas caladas dos incrédulos. Macio, macio corre o rio de águas conspurcadas arrastando suas mazelas. O rio corre ainda e sempre lavando-se nas pedras e esperando o mar. Maior o mar que está a sua frente e de longe já sente os cheiros e as cintilações. Como o rio há certas gentes que desvelam o próprio coração.

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3ยบ Lugar  Gustavo de Castro e Silva

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Gustavo de Castro e Silva

TAOS Para onde retorna a névoa após nascer o sol, para dentro da casca da nuvem? Para onde segue o sol após nascer a noite, para o interior dos olhos das trevas? Para onde vai a fumaça após o fogo, para o íntimo da língua da chama? Para onde escoa a água da maré que seca, para o âmago das gotas do mar? Para onde mergulha a lua após a aurora, para o peito da lembrança do louco? Tudo volta para casa um dia. Mas ao voltar nada é como antes, dissolve-se em outros estados para formar estados cheios de outros estados-d’alma. Para onde retorna a palavra após a fala, para dentro da alma do silêncio? Para onde se esconde a criança após o homem feito, para o interior da alma do velho? Para onde caminha a vida após a morte, para o íntimo da alma do nada?

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Gustavo de Castro e Silva

Algumas fusões só se completam na sua incompletude. Algumas palavras são melhor ditas no silêncio. Alguns amores se fazem redondos na solidão. Alguns caminhos só começam no fim da jornada. Todas as estradas levam para dentro. Até mesmo as que levam para fora.

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Gustavo de Castro e Silva

AONDESTAR? Não são poucas as arestas a aparar. Tanto no real como no irreal esculpimos sem parar. No sonho, somos alguém de mentira. Na realidade um ninguém de verdade. Ou será o inverso? Será que é sempre assim: o que está dentro do sonho desperta para fora, e o que está dentro do real sonha sonhar? Ou será o inverso? Dormir, dormir sempre: porque realidade demais mata. Despertar, despertar sempre: porque sonhar demais desbarata. Ou será o inverso? Eterno sair-para-dentro-entrar-para-fora navegamos no desconhecimento de onde ficar.

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Gustavo de Castro e Silva

HOMO TOTTUS Há que transportar o olho à coisa e deter-se nela, para que se possa ver a partir da coisa e enxergar o mundo a partir da louça, do bule, da pena e da chama. Porém isso já não basta. É preciso levar o coração à coisa e pulsar dentro dela para que se possa sentir o mundo a partir dela e sentir o que sente a folha, o sapato, o brinco, a fogueira. Porém, isso também já não basta. É necessário então levar-se por inteiro para dentro da coisa e ser coisa por inteiro. E viver ali a solidão de ser coisa. E ao ficar isolada, muda, inerte, a coisa saber o que é ser coisa. Ao perceber-se assim, a coisa talvez desperte de seu estado parado, acorde de sua quietude e utilidade. Sonhe sair de si para deixar de ser coisa coisamente, e ter um nome que possa ser cantado em lábios e bocas. É quando a coisa sonha também em ser homem. Há que transportar então a coisa ao homem e fazer a coisa ver com os olhos de homem, 42

Gustavo de Castro e Silva

sentir com o peito de homem, ser homem por inteiro. E ao ser coisa, o homem talvez viva a solidão de ser homem. Ao ficar isolado com os outros, falar, agir, andar, trabalhar, o homem talvez sinta o que é não ser nada, ou o que é não ser coisa nenhuma.

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Gustavo de Castro e Silva

DESIGN Pintar intensamente um palhaço triste até que o quadro ganhe contornos de riso, e admirar nele algum traço sem graça até que a graça se reverta em pensamento. Colorir intensamente a própria face até que as trevas do rosto se dissipem e um arco-íris se forme na alma, até que a cor se reverta em pensamento. Ilustrar a realidade ao limite até que ela se transforme em ficção e viver numa galeria interior até que a arte se reverta em pensamento. Artesanar o corpo com adornos e tintas até que uma pintura permeie toda a pele e desenhe-se em nós uma tatuagem tribal, até que a beleza se reverta em pensamento. Cada desenho íntimo do homem se assemelha todavia a outra lógica de traço e de cor. A figura que o compõe tem o signo e a forma do mistério. Há então que reverter o mistério em pensamento e pensar o impensável.

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Gustavo de Castro e Silva

SUGESTÃO Colocar uma pena de índio na cabeça para que as idéia possam ser escritas de forma natural. Colocar pétalas entre as falanges dos dedos para que as palavras possam ser escritas de forma suave. Colocar água na cuia das mãos para que as histórias possam ser escritas de forma fluída. Colocar tinta colorida nas unhas para que quadros possam ser escritos de forma marcante. Colocar espirais nos cachos do cabelo para que os pensamentos possam ser escritos de forma elevada.

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Gustavo de Castro e Silva

HOMEM O homem tem sempre pressa. Corre age avança acelera. O homem quer chegar, partir, seguir... O homem tem pressa até quando está parado. Mas ele nunca sabe onde quer chegar. Também nunca sabe para onde ir. Às vezes, é preciso cair para poder levantar, é preciso aprender a parar para poder seguir, é preciso tropeçar para caminhar adiante. Coisas da vida: tropeçar na pedra. Coisas da morte: nunca tropeçar ou tropeçar por inteiro no abismo da pressa. Para aprender a caminhar o homem não deve apressar o passo, antes, deveria dar um passo atrás, ou dois, para ver melhor o que lhe espera à frente. Ou não dar passo algum sem pensar o passo a ser dado. Porém, o homem não sabe dar passo algum à frente ou atrás sem destruir o caminho. Pés de chumbo, coração de pedra, olhos frios, o que é isto que se diz homem? Fogo que destrói, geleira desolada?

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Gustavo de Castro e Silva

Homem: esse frio escaldante. Homem: essa pedra apressada.

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Gustavo de Castro e Silva

HOMO CREPUSCOLARES Iluminado de noites encontro seivas e amoras nos campos de Mil Sóis. Toco a mão na pedra fria, absorto, descasco dias, queimo poléns frito cebolas na imaginação. Iluminado de noites perfilo pontos de luz nos amanheceres sem clarim, abraço a estrada sem perguntar para onde ela vai, porque o seu ir se esvai sob os pés de quem pesinha a erva daninha. Iluminado de noites sacio a fome dos sapos nos charcos de Cem Solidões. Estendo a língua, atirando-a do corpo, capturo um ser no ar, em voo saco em vão a palavra veloz pela sua fronte, cuspindo no mundo a sua voz.

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Gustavo de Castro e Silva

ANTES-E-DEPOIS-DE-SER Depois que se é avó é que se está pronto para ser mãe. Depois que se é poeta é que se aprende a calar. Depois que se envelhece é que se começa a viver. Um estado completa-se sempre em outro estado. A flor na espada, a água na pedra, o dia na noite, o fogo no vento, o todo no nada. O homem é uma sucessão de incompletudes, uma praia que não cessa de encher e de secar, para que a completude possa se completar. É por isso que nenhum estado é todo inteiro. Para que se faça inteiro pelas partes que faltam. A fruta não é inteira sem a árvore. A árvore não é a mesma sem a sombra. A sombra não existe sem o sol. O sol nada aquece sem amor. Não há estado em si isolado. Não há estado em si inteiro. Na dissonância sinfônica das almas não há estado que não busque encaixe de cantos e de calmas.

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Gustavo de Castro e Silva

REFLOLHAR-SE Toda semente é uma casa de espelhos. Toda palavra é pedaço de caco colado a outro caco. Tanto a semente como a palavra são flores, estilhaços sensíveis, prontos a saírem de si. Como as palavras, as sementes não esperam. Como as sementes, as palavras germinam. Ambas são jogadas sobre terras diversas e sobre essas terras crescem e entroncam-se. Ambas são cordões de continuidades e só se realizam quando se erguem. Ambas são bocas abertas cuspindo raízes aéreas. E nenhum homem é capaz de explicá-las.

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Gustavo de Castro e Silva POÇO Olhar para dentro e ver como se é. Ter olhos cegos. Acender uma vela no interior de si para procurar a si mesmo no fundo da cisterna vazia. E descer na roldana uma lata d’água até o fundo. Descer até acabar a corda. Ouvir o oco da lata tocar a parede e o mundo. E ouvir soar o nada do lugar. Olhar para dentro e ver como se é. Mesmo vazia, não cuspir nem escarrar na cisterna. Meditar o processo, parar. Depois, recolher a corda e a lata. Para, em seguida, meditar o processo, parar. Depois, acender na lata uma chama. Ou talvez uma vela. Dependurar também um sininho mágico. E repetir o descer na roldana até o fundo. E olhar para dentro de si. E ver como se é.

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MENÇÕES HONROSAS

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Menção Honrosa Jecson Augusto de Medeiros

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Jecson Augusto de Medeiros

ALIMENTO Procuro um vaso de boca larga que encha de farta comida para que eu possa me alimentar por longos dias. Procuro um gigante armazém e este, cheio de vasos deste, seja minha morada também. Preciso ainda de um estábulo, onde eu deite meus cavalos fortes e robustos. Meus fiéis companheiros.

Após adquirir estas coisas, terei por fim, a minha espada empunhada, imponente e reluzente em minha destra: a marca de um homem a vida de um menino o fardo de um medroso o sexo de um cretino o berço de um covarde a sujeira de um destino há leveza no pintar, porém preciso é trabalhar sol a pino 57

Jecson Augusto de Medeiros

AMO-TI amo-ti como a palavra amo-ti como o eterno falar amo-ti como mais ainda assim amo-ti amo-ti és bela e rara amo-ti és palavra amo-ti és minha língua assim Ti Amo minha fala

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Jecson Augusto de Medeiros

DIDÁTICA Como Omo Somo e tomo. O pomo no humo: Vamo, e não fumo. A onu não une, Ela trama o trono. O bromo no prumo Pro humo nós vamo. Tomo e como. No bambo Não tombo, E até sambo Meu tango Às vezes bambo. E como sem queixume O aluno ao chegar no cume Transparecerá seu lume...

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Jecson Augusto de Medeiros

O HOMEM SE FEZ NO TEMPO E o que é longo Anda devagar. A voz – Devagar soa, A cabeça, Os gestos, O fechar dos olhos... Tudo mais. A lembrança não vem, A dificuldade de saber do passado É pedra, é mar a se atravessar. E o querer que não manda É um menino, o faz menino. A distância de um tempo Dá-lhe o diploma de ter vivido tanto. As decepções passaram Num bater de asa de pardal. As lágrimas se transformaram em rios perenes. E todo húmus se fez feijão. Sua moral e suas rugas, A voz arrastada, a tosse arranhada... É o tempo E o quanto se fez E o quanto passou. É o Homem.

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Jecson Augusto de Medeiros

PALITO DE PIRULITO Parabéns aos loucos! Que em risos aos doutos Os fazem sorrir. Parabéns aos poetas! (de “rimas fáceis”) Que como setas apontam para algum lugar. Parabéns aos vagabundos! Que comem em pratos imundos e não adoecem. Parabéns para mim! Que nesses versos (?) para muitos chinfrim, Os fiz sorrir.

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Jecson Augusto de Medeiros

PINGOS Pingos, cálidos pingos, como galos distraídos dormem à noite. Pingos, evasivos pingos, cheios de ternura me banham com açoite. Pingos, mórbidos pingos, feitos insetos invisíveis me atacam com seu som. Pingos, Sonoros pingos. De sua alvorada, pelejo eu e não escuto nada...

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Jecson Augusto de Medeiros

POEZIA O que eu quero escrever diante dessa brancura miserável de papel coisa tão horrível quanto a minha caligrafia os vechames da hortografia os esquecidos e desnecessarios acentos estão todos guardados em canto também miserável de minha mente desacostumada a escrever poezia sobre ou sob olhos severos grandes e brancos de papel e me olham com a severidade da brancura da alma de um anjo é quando tremo o intestino a boca seca o pescoço treme eu, um começo de dedo sobre tão alvo autoritarismo de íris-de-neve descubro agora sobre este Senhor que de tão branco ficou transparente inerte sem vida e me matou e mata-me ao olhar-me dessa forma tão superior e forte

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Menção Honrosa José de Sousa Xavier

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José de Sousa Xavier

CRENÇAS Por que culpar as pedras esculpidas pela nossa inconsequente adoração, se sabemos que as rochas não têm mãos? É desde a escravidão nas areias desérticas, que os bustos e os ângulos erguidos a pé arrancam a fé e a devoção humanas; desde o dragão e a fênix chineses, além das crenças indianas, que as filosofias cristalizadas em esculturas milenarmente separam ossos e mentes; desde as milimétricas formas gregas e romanas que buscamos ajuda para os males cotidianos, evocando, de Esculápio ou de Asclépio, a Panacéia; desde a inteligência nas catedrais européias, retratadas em finos mármores, azulejos, ouros ou tijolos, que escutamos a voz que dizem ser de Deus; desde os gritos e ritos desenvolvidos nas savanas que tememos e nos rendemos às danças de entidades representadas em máscaras mágicas; e, também, desde a minha infância nos oratórios de vovó, onde estão guardados todos os seus rosários e oráculos, 67

José de Sousa Xavier

que ela cria que eles me protegeriam a vida toda. Mas quem a ensinou a amar as pedras, se ela nem sequer acreditava, às cegas, na fiel santidade que eu sentia em vovô?

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José de Sousa Xavier

DEVOÇÃO Não me envergonha a atitude de eu, amiúde, seguir imagens esculturadas em gessos sobre os andores das procissões, se os endereços dos meus interesses não se concentram naqueles lugares. Nas mãos que outrora esculpiram as formas por longas horas é que me detenho. E então, embevecido pelos traços das esculturas e pelas auras translúcidas de imaginárias divindades que os desejos da humanidade põem onde só há arte, vou recriando a reverência.

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José de Sousa Xavier

EFEMERIDADES Parece inútil a postura das rochas: ficar em pé, inerte, bilhões de anos enquanto a vida passa, e tudo se move em seu redor. E eu que giro e giro na matéria que gira ao longo da história, enganando o tempo, não encontro artifícios para deixar de ser tão-somente fútil no meu barro estéril que sequer um século na carne efêmera, que sobrevive frágil, não se sedimenta.

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José de Sousa Xavier

ENIGMA Num cometa que se arremessa na vastidão do Universo, moram mais promessas do que as que espero habitar a minha rota na superfície deste planeta. Durante sua enigmática rota, não encorpa a esperança dos sedentos que aborrecem os astros de modo persistente, pois não frequenta horóscopos nem calendários em que os homens roubam, das estrelas, o alívio. E em sua triunfante volta, após o mergulho em galáxias desconhecidas, encontra-me mais velho e perto de partir, talvez pelos mesmos caminhos, anos-luz, após cumprir a profecia: O astro vaga e retorna, habita-nos dia a dia; o corpo fica no pó que o toma, e o espírito abandona os minerais na solidão da pedra fria para suas viagens espectrais.

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José de Sousa Xavier

ERMO Nas cidades enormes, pessoas são cordilheiras com sopés petrificados que suportam topos gelados, ruas são galerias extensas escondidas por concretos empilhados se esgueirando no asfalto estafado onde estátuas se espalham frias. Inutilmente, atiro-lhes dardos com a força inútil de mil soldados para bani-las da minha vida solitária, já que não me acrescentam nada. Só a minha própria voz, escorrendo de mim mesmo, ecoa improdutiva pelas paredes estáticas, pois nem na morte um cristão me salvaria. E enquanto travo essa batalha, a natureza segue sendo construída por coisas tão fúteis e tão sólidas que por nada parece ser repartida. Assim, estando vivo no divã dessa vida, meu espírito metaboliza a maçã mundana, e mesmo que eu me sedimente sob gritos, não posso me dissipar desse mundo.

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José de Sousa Xavier

FRUSTRAÇÕES Sempre esperas tu que eu cultive avencas para te ofertar, mas nos campos secos, só encontro pedras para te atirar. Sempre esperas tu que eu refaça o Taj Mahal para o nosso amor ao mundo alardear, mas nos solos imperfuráveis, eu não encontro mármores para o teu altar. Deixe-me somente te oferecer o que simplesmente espero encontrar em ti: um ciclo eterno de bem-querer.

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José de Sousa Xavier

METAMORFOSES Me deixo nas pedras. Me idealizo estátua: metade homem, metade animal, metade mente, metade medula... E carpintejando sal, cultivo as formas e as culpas da minh’alma; e esculpindo diamantes, cultuo meu próprio espírito nas minhas divindades de semideuses quase Deus.

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José de Sousa Xavier

POETIFICAR Não há pedra concreta perante o poeta. À luz dele, suas facetas se retorcem, se arquitetam, se lapidam, se reconstroem e se infiltram nas lentes humanas para que captem o sedimento milenar, que na alma do poema não tem entranhas definidas nem superfícies estabelecidas. Não há pedra sólida indefinidamente que não possa, tão-somente, adquirir a forma gasosa da longínqua e nebulosa galáxia imaginária, ou encorpar-se da nova anatomia que o sagaz poeta recria na carne dura de olhos líricos ao lapidar versos livres de estados físicos.

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José de Sousa Xavier

RELUTÂNCIAS Velhos poemas em sólidos argilosos é o que restarão nos países se os homens matarem as mães dos papéis, cultivarem traças que envelhecerão fartas, infectarem-se com DNA de bilhões de bytes e sepultarem as mentes das carnes que pensam. E em cada busto pétreo em pé nas praças restará somente o barro rijo de um crânio morto e sem nome, ressuscitado e sem memória, pois suas vísceras não descansaram livres nos livros. Embora o rumo do mundo seja inconsistente, o poeta segue sempre se esculpindo na poesia para um dia sua cinzenta substância metamorfosear seus minérios preciosos em concreto em cura para habitar os Homens como estátuas de conceitos eternos.

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José de Sousa Xavier

RESQUÍCIOS A cibernética contemporânea me perscruta e me recheia nas luzes dos letreiros das ruas, sob os tetos dos cybercafés e nas ilusões de cada ser virtual. Mas no meu quarto escuro ainda moram imagens mudas, esculturas sem carnes nem unhas, que vestem meu lado desnudo e deixam insinuar suas faces inúteis. Minhas mãos me traem quando ainda esculpem rochas e criam recheios de deuses antigos e latentes que se fartam de minha alma ardente para que sejam, em minha fraqueza, mais forte do que nunca fui no meu surto de infinita fé e possam, mesmo que ilusoriamente, me socorrer quando fraquejo. A despeito de eu seguir procissões de internautas, não consigo fingir que não cultuo as crenças, as tradições, os padroeiros e as superstições que povoam e moldam as pedras.

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José de Sousa Xavier

A UM PALMO Inda ontem choramos nossos mortos Porém sem amargor e sem ternura Enterramo-nos em crus travesseiros Ao bel-prazer de torpe desventura Engasgamo-nos de tola saudade Debulhamo-nos de corpo inteiro Quando o Sol se esconde sorrateiro Somos nós a deflorar a nua tarde Como a noite vem sem novidades O querosene queima a lamparina Sua fumaça polvilha purpurina Mas quem conseguiria repousar Enquanto a laje inda está quente E há tanto pó a pairar no ar?

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José de Sousa Xavier

CANA CAIANA Contornar-te em tua cama, Ana Suspiras os teus pesadelos e insônias Conspiras com o mundo inteiro, ama Enquanto galgas terras errôneas Controla essa tua sanha, Ana Que cedo ou tarde o mundo será teu Corre os olhos de doçura tanta No palco parco onde és Corifeu Cantarola tuas façanhas, Ana Das paixões, das amigas madrugadas Mas que magia teu corpo emana? É tarde, mana, e nunca estás deitada Toda ternura é tua, Ana Que se resume em largo riso Menina, mulher, madame, mucama Mas se te ponho em letras, dou-te o infinito.

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José de Sousa Xavier

ECOS Entre seus joelhos O bater de asas de uma borboleta Que naquela noite violeta Parecia vapor vulcânico Calava o suor que pingava Rasgava o seu travesseiro E o lumiar do abajur sorrateiro Era tolo desengano Em um minuto desfilaram tantos anos Que um gemido de espanto desprendeu-se... Quantas mãos abafam aquela boca Que deixavam as molas triunfantes? E o ócio momentâneo dos amantes Indicava o apogeu O deleite do gozo era um alívio Um corpo desabava sobre o outro Que entre sussurros frouxos Já falava em nostalgia Então tudo se enrubescia Com um torpor sub-humano Suspensos no ar resíduos mundanos Cobertos por lençóis amarrotados O expirar dos espíritos suados Os faziam soberanos

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José de Sousa Xavier

ESTASIA Vamos que a noite é tarde O mundo virou ao avesso É momento de celebrar-te E fugir deste ato dantesco Soletra no meu ouvido O epíteto mais específico Do covarde homem aturdido Sela minha sina, beija meu espírito Segura nos meus ombros Realinha nossa moda Ignora os olhares sonsos Dancemos a madrugada morta! Corra por essa chuva Que eu me liquefaço Podes te enxugar na minha blusa Aconchega-te nos meus braços Voa que eu vigio O teu corpo que cintila Vamos curtir o infinito Dentro de nós realizar uma orgia Faz-me cócegas nas costelas Acaba-me de tanto rir Cerra logo essa tramela Deixa eu me lambuzar em ti Agarra minh’alma imunda

81

José de Sousa Xavier

Faça amor com o meu ego Recita-me um poema, me inventa uma alcunha Encostado na tua barriga viro teu feto Cai aqui no meu peito E teus cabelos me embaraçam Andemos no mesmo eixo Bebamos a aurora apressada Muda a cor desse Sol Nada neste nosso chão Enlaça-te no meu lençol Lava-te em águas de aluvião Acompanha o cortejo das estrelas Que eu cortejo a Lua que vai Aninha teu corpo de qualquer maneira Fecha os olhos num sonho loquaz...

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JosĂŠ de Sousa Xavier

POEMA BENTO Era uma menina de cabelos negros E um corpo tĂŁo belo e opulento Linda menina, mas de olhos vesgos E que piorava com o passar do tempo Mas os seus olhos viraram branco ermo Agora suas pupilas a enxergam por dentro

83

José de Sousa Xavier

TORÓ Foi um quadro surreal Quando o Sol brilhava alto A chuva teimou em cair impiedosa Não o fez por mal Mas por marasmo E por tórridos dez minutos foi formosa

84

José de Sousa Xavier

ZONA DE INTIMAÇÃO Tira esta roupa molhada Esta magra malha Que te encharca o medo Enxágua este rosto sem cores Enxuga este corpo de amores Que te despem os segredos Levanta este olhar dos outros Perscruta o silêncio, esse estorvo Com teus lábios úmidos Tateia os sonhos insolentes Dos travesseiros de tanta gente Onde, só, gritaste em uníssono Perfuma as tuas angústias Acende velas macambúzias Que não poderás enxergar Apalpa o teu sexo gélido Entre o cio e o funesto Que não podes identificar Amarga o teu ventre infértil Que exibe a todos os néscios Ouve o vento a te conclamar Nesta luta, cadê foices? Nesta vida, cadê flores? Deita e chora o teu próprio lar

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Menção Honrosa Adriana Duarte de Oliveira Freitas

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Adriana Duarte de Oliveira Freitas

MEMÓRIA INANIMADA Escura e sem luz de uma vida passada Vivo sem saber em que vida me designo. Sua e qualquer estrela que brilha a mostrar O que vejo, mas não entendo! Quando um olhar Quer revelar a regressão Sofro sem entender O pobre e inculto do meu coração Sozinha e inanimada Procuro intermitente A palavra de uma vida passada E costumo sentir presente O passado de eternamente O hoje que me duvido Sentido só terá Se pela morte eu me entenda. É na morte que procuro Achar em outra dimensão A certeza que precisa O meu pobre e inculto coração.

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Adriana Duarte de Oliveira Freitas

CRISTAL O horizonte sorri seus pesadelos E uma infinitude de versos Espalham-se no caos invisível! No meio do atordoante começo, Um cristal se quebra! Os pedaços formam abstratamente O desenho impossível do medo. Uma farpa identifica o impossível Emitindo sons que anulam o vento! Outra vez ao olhar pra dentro Uma luz brilha! Há ainda um pedaço perdido. Por fora eu não vejo nada Os restos estão escondidos Os restos desperdiçados No desperdício do tempo! Há algo inusitado no meio de dentro Um ponto que não se inibe A luz não se divide Os versos se consomem mortos Os restos não se unem mais!

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Adriana Duarte de Oliveira Freitas

QUANDO ENTRASTE EM MIM I Quando entraste em mim Eu não senti a dor Que deveria sentir, Confesso que chorei Chorei de tanto rir! Quando me pegaste E me rolaste pelo ar Eu perguntei: – Ai, Deus por que tanto tempo fiquei a esperar? Eu sei que todos os meus atos Nunca tiveram os pés no chão Invariavelmente, nenhum foi em vão! Quando me prendeste Nos braços da ocasião Antes que perguntaste Eu te falei: – Toma-me então!

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Adriana Duarte de Oliveira Freitas

LINDA ROSA LOUCA Amáveis sensações esplendo(rosas) No íntimo significativo desta alma Razões desencadeadas em incertezas Nesse mar azul de lindas rosas Meu corpo é um mar aberto E há no que faço uma voz que grita Serenas palavras desertas Miragens transcendentais raramente vistas Meu mundo todo é um devaneio errado Uma inconstância fortemente rítmica Um agrado sem pecado me é sem gosto Nos meus seios há um desenho exposto: Linda Rosa Louca! São palavras escassas que não digo. E é essa inexistência que aflora Vem dos olhos para abaixo do umbigo E tão dentro de mim mora: Linda Rosa Louca! Eu queria ser alguém Para beijar a minha boca!

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Adriana Duarte de Oliveira Freitas

LINDA ROSA MURCHA Audaz tentativa de suprir prenúncios Investindo em fantasias e falsos assuntos Comendo plantas secas para essa doença nefasta Buscando erroneamente formas exatas. Eu não ganhei o concurso de outrora Não consegui entender que o que é bom demora Ou sempre vai embora cedo demais (é o frio que dentro de mim se liquefaz) Intimamente me disperso do meu ser E procuro no teu rosto outra forma de viver Raros tempos em que o novo permito sentir. As rosas daquele vaso murcharam Meus dedos vãos caducaram O que vier não conseguirei definir.

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Adriana Duarte de Oliveira Freitas

LINDA ROSA PÁLIDA Escondestes as palavras Guardando o rancor pelo medo do amor Sábias pronúncias que não foram ditas As mais belas palavras estão escondidas (certos pensamentos escondem sua glória) sou como aquela linda rosa que um dia murcha pálida sou tão forte sem o medo (sou nada). consolo meus pensamentos alimento quem me maltrata. não é por bondade que assumo a loucura mas talvez no câncer esteja minha cura! O meu mal é provar do veneno Tal qual mortífero ele seja. Eu preciso desse gosto amargo (ainda é preciso sentir o sabor desse desejo falso) todos aqueles sonhos foram desfigurados os gastos não serão ressarcidos. Meus braços assumirão a culpa E esse sangue todo será limpo com as lágrimas que ainda escondo.

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Adriana Duarte de Oliveira Freitas

RESTOS MORTOS CONCEITOS Sou uma arbitrária ameba Perdida nos preceitos Nestes restos mortos conceitos. Aceito o que a humanidade anula Escondendo o vazante tiro esquizofrênico. Tenho nos olhos uma profundidade Claramente imperceptível, Tenho meus dedos descontroladamente Compondo a música dos aflitos. (uma melodia apreciada por surdos) As horas passam e me conduzem a isto: Uma pobre veia pulsando involuntariamente Na discordância entre a chama que queima E as cinzas que contam a história, De uma verdade nunca vista (um mistério nunca sentido) Eu prefiro estar só Enquanto enlouqueço a lucidez que não tenho!

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Adriana Duarte de Oliveira Freitas

RESPIRE... Sim, me dê um pedaço do meu fracasso desfragmentado pela incoerência das minhas mãos. Sim, me dê um pedaço do meu escárnio expelido pela boca podre da necessária razão. Sim, me dê um pedaço dos retalhos desse corpo rasurado por tanta incompreensão. Apenas um minuto para encontrar a demência Essa porta aberta na consciência inconsistente, (oscilantemente pertinente) passeando pela ardência da frustração. Torture meus membros Essa estupidez enfadonha Computadorize meus pensamentos Descompactando o sofrimento que sinto Tal qual ebulição tamanha. Decifre minha alma e se puder mande um resultado científico. Receite um remédio Eu sei que preciso desse momento de alienação. Sim, me dê um pedaço Dessa rosa de plástico Que enfeita a naturalidade da sua intenção. 96

Adriana Duarte de Oliveira Freitas

Respire em outro tom... Respire um outro tom... Respire...

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Adriana Duarte de Oliveira Freitas

ELEGIA E SEUS AFLUENTES Os nossos rios deságuam em diversas sensações Numa profundidade misticamente rítmica! Não fazemos apologia a nossa maternidade Nascemos mudos, mas cheios de vontades Nascemos gritando as nossas enfermidades Nascemos urgentes de um ventre imaculado Nossa Musa é bendita no pecado. A nossa dor é aventureira E deságua em águas virgens Mas não esquece do berço Que consagra a nossa origem. Somos frutos inerentes Numa mesa repleta de gostos Não selecionamos nossos risos Nem apontamos nossos rostos. Não abençoamos os aflitos Nem alimentamos os bondosos. Somos apenas mais um rastro na enorme multidão A nossa mediocridade tem a excelência da humilde originalidade E o pecado da insuportável inutilidade.

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Adriana Duarte de Oliveira Freitas

TANTOS MEDOS Vejo-a linda sobrevoando tantos medos Ocultando tantos versos Pousando os dedos em canetas desnorteadas Talvez fosse melhor fazer bolos Ou o almoço da casa Ela não tem casa Ela não pára! Segurar esse pau tão denso e veloz Segurar tantas rimas soltas Ela corre atrás. Nem percebe, mas faz! Talvez fosse melhor esperar o marido Com uma janta quentinha Talvez fosse melhor arrumar a mesa Ela não sabe esperar ausências Ela esquece, mas não é casada! Nessa santa morbidez O maior entusiasmo é a solidão Ela sabe como inventar felicidades Mas ela não quer falsear verdades!

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Menção Honrosa Ismael de Carvalho Pimenta

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Ismael de Carvalho Pimenta

SOBRESSALTOS

De súbito a noite se veste de luto e de renda a mortalha reveste seus mortos. De súbito as ruas se enchem de vultos e na senda da lua o silêncio é absorto. De súbito O gatuno faz nó de gravata e um banco suíço digita seus vícios. De súbito o morro sucumbe à navalha e é dado início a um game de surtos. De súbito uma mãe se contorce de dores e de cores o caos contorna seus muros. De súbito um infante irrompe nas sombras e a tal esperança renasce nos homens.

103

Ismael de Carvalho Pimenta

ROXA A dor dentro de mim é roxa, violeta entretecida num jardim inexorável. Tem motivos insondáveis esta dor insofismável no lilás da solidão. Valei-me, santa alegria, que esta dor é toda minha na ampola da saudade... Trocai as vestes de pranto no líquido em que me decanto por linhos de felicidade.

104

Ismael de Carvalho Pimenta

TRÊS A dança é intensa e a tarde é imensa. Quem dança é o vento na tarde que é tanta. O vento é imenso na tarde que dança. Intenso é o vento na dança que é tanta. A tarde é intensa no vento que é tanto. Quem dança é a tarde no vento que é imenso.

105

Ismael de Carvalho Pimenta

OPOSTOS Tu és o avesso do inverso universo onde agora me teço. Eu sou teu sumário, suposto inventário de lendário endereço. Tu és o sofisma na íntima cisma que em vão me sublima. Eu sou o teu ópio no cálido copo em que torno meu corpo. Tu és o sufrágio na frágil miragem em que me refugio. Eu sou teu vestígio, o verdugo, a vertigem, teu hangar fugidio.

106

Ismael de Carvalho Pimenta

O PALHAÇO Sob a pintada e flácida face que o velho palhaço usa férvidas almas disputam um filete de alegria. Fluidos de sorrisos são a paga dos ingressos à margem de um mundo purgatório de concreto. E o palhaço rodopia numa ciranda de momices em que todos se espelham numa tosca terapia. Conter o choro entesourado, ludibriar a própria mente, sorrir o riso encomendado, eis a saga dessa horda penitente. E o palhaço se despede. Quer verter também seu pranto. Em que canto? Não há tempo. A platéia pede bis.

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Ismael de Carvalho Pimenta

VIOLETAS DO ORIENTE Violetas absurdas brotam em ácido e fúnebre solo enquanto ogivas de metáforas reverberam por um céu de cinza e aço. Infância aviltada maturando em campos de senhores algozes que se revezam na feitura de um funesto mausoléu. Violetas obtusas sangrando em sonhos depauperados num presente de fel e furto, sem futuro, num horizonte de nada. Infância subtraída que explode (mas não de alegria), que implode em minas de agonia. São flores intermitentes num jardim incandescente essas flores, violetas do oriente.

108

Ismael de Carvalho Pimenta

O CREPÚSCULO E A NEBLINA Mesclado foi de carmesim meu ex-azul sem fim, horizonte das minhas tardes. Vê, eu sou esta vil neblina que distorce nas retinas o crepúsculo que me deixaste.

109

Ismael de Carvalho Pimenta

OLHO D’ÁGUA No frio mundo onde não te vejo um céu sem lua, revolto e turvo, é simbiose do que não tenho. Amar-te assim neste mar salobre é falar ao vento, que não me ouve, do amor-tormento que me carcome. Amar-te assim sob céu tão rude é morrer sozinho, choroso e mudo no olho d’água em que me desnudo.

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Menção Honrosa Jean Sartief

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Jean Sartief

MINHA PRIMEIRA MORTE Vem ainda hoje Essa dor De sentir Que nunca seria vocĂŞ Que nunca seria eu.

113

Jean Sartief

MINHA SEGUNDA MORTE Não é verdade Nem o olho Nem o louvor. Só a faca Atravessada... A descoberta Matou aquele que não fui.

114

Jean Sartief

MINHA TERCEIRA MORTE Só então acreditei E vi meu sangue, Vi meus olhos, Vi minhas mãos trêmulas E não havia nenhuma de tuas palavras.

115

Jean Sartief

IMENSO Esse céu Não suporta O tamanho dessa dor.

116

Jean Sartief

PORQUE MINHA ALMA É VELHA Porque minha alma é velha E não é leve E dentro disso serei você Outras quinhentas vezes. Carregado De máculas, Das mãos cheias de assopro. Da língua em assombro.

117

Jean Sartief

AQUELA MULHER N達o queria ser aquela mulher, Que carrega o dedo marcado Pelo arco apertado Que sufoca Sua carne, Seu corpo, Sua vida E apodrece viva.

118

Jean Sartief

ELE VEM, SERÁ QUE EU VOU? E me vem essa dúvida E todos os medos E tudo o que eu quero. Estremeço em pé, no claro e no silêncio. Porque tudo se perde nessa hora: Qualquer discurso, Qualquer razão; Toda a muralha construída.

119

Jean Sartief

“MEU CONFUSO MUNDO” Horas paradas No silêncio desse meu antigo peito Não mais procuro Bocas abençoadas, Sorrisos escondidos E olhares de esperança. Confuso mundo Em que me encontro Entre clarões, Árvores tombadas E algumas palavras.

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Jean Sartief

REFLEXテグ Depois do tremor Sテウ ficou o tempo Latejando; Me dizendo Quem eu nテ」o fui, repetindo O que eu nテ」o fiz.

121

Jean Sartief

NA MESMA... Ainda não voltei das nuvens cinzas Ainda não voltei de dentro Ainda sigo quieto De olhos abertos E coração em silêncio.

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Menção Honrosa  José Antoniel Campos Feitosa

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JosĂŠ Antoniel Campos Feitosa

Quero gritar a vida numa palavra : digo teu nome numa palavra quero gritar teu nome : eu digo vida

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José Antoniel Campos Feitosa

TRÊS SONETOS COMEÇANDO EM PARA 1. Para escrever grande, comece assim: “em tese”. E lá pras tantas um rotundo “em princípio” (nem tanto lá pras tantas, pode ser no início). No final: “ou seja”. Mas, veja, não se apresse... A turma gosta dessa coisa tipo ascese. Então, aproveite: meta o malho no vício (no de linguagem, não, irmão. No mais difícil de encarar: o seu. Mas, e daí? tergiverse!). Importa é o seu discurso altivo e escorreito, como faz (copia!) o neófito em Direito (neófito! e eu quase me esquecia dessa). Olhe a coisa feita. Se orgulhe do seu texto! Você é o cara inserido no contexto! Um Machado temporão —oh!—quiçá um Eça! 2. Para escrever um poema bem cabeça, desses que o leitor faz que entende e não entende pê ene (aliás, nem você compreende), escreva com desdém e muito tédio e desça o verbo (vê lá: com desdém) em quem pareça só saber escrever com start, middle & end. Você, não. Você é do tal que não se rende nunca a qualquer inspiraçãozinha besta. Cite um poeta esquecido (é mão na roda!).

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O leitor vai dizer: rapaz, o cara é foda! “Eu sou a última Coca-Cola do deserto!”, (você vai se achar). Depois (sempre com desdém), diga ao leitor: que é isso, meu brother!, nem vem! Ah! “concisão” é a palavra. Fique esperto. 3. Para escrever sobre o que não se conhece, nada como uma busca básica no Cadê ou no Google (todo mundo faz!). E você estará apto pra dizer o que acontece quando a pressão sobe e a temperatura desce e o que isso implica no fato de chover ou fazer sol no seu quintal. E perceber que, se você não é o tal, tal se parece. Vale até (vá por mim) pesquisar o latim e, como quem não quer nada, dizer assim uma frase ou outra, citando sempre o autor. O seu conceito vai subir que benzadeus! O tema é verso grego? busca-se “troqueu”. E dirão (juro!) de você: puta escritor!

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José Antoniel Campos Feitosa

A FACE QUE EU TRAGO: ALEGRE E TRISTE Que nada me traduza o que ora sinto. Nem traços deixe eu: se alegre ou triste. Se alegre eu parecer, saiba que eu minto, e em triste nada mais do que despiste. Não é que eu seja assim por puro chiste, tampouco por missão ou por instinto. Eu sou porque me apraz. Porque consiste que eu seja de mim mesmo o labirinto. Portanto, alegre e triste eu sou os dois. E tudo ao mesmo tempo e no depois, bem como fui no antes. Eis-me a face. Que eu nunca me decifre ou me descubra. Eu quero é mais um manto que me cubra e a própria face nua me disfarce.

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José Antoniel Campos Feitosa

SER SEM SER Ser sem ser é ser não sendo sim e no não sendo sim parecer. É sentir ser início — e ser fim, é saber-se que é — mas não ser. É ser sempre e em talvez se saber, sem saber que se foi sempre assim. Ser sem ser é dar sim e o não ter, é dizer tudo em nós e ouvir mim. Sou sem ser e apetece-me assim. Tenho a mim se eu de mim não me ser e, se início, prefiro-me fim. Se não sou, basta a mim parecer, sou metade do não e do sim e ter tudo é ter isso: não ter.

Digo não e por dentro digo sim, tudo em mim é perfeita contramão. Sou canção começando pelo fim, estopim onde acendo a escuridão. Guardião desse nada de onde eu vim, folhetim não escrito pela mão, sou clarão incontido no nanquim e o latim exilado do sermão. Sou senão em sinônimo de assim, sou enfim o meu sim que me diz não. 129

José Antoniel Campos Feitosa

Eu sou esse que diz no início: eu sou. Mais esse que no início diz: mais esse. Eu sou esse terceiro em que eu estou e o quinto que do quarto se fez desse. E em cada um de mim, sou quem passou. E fui quem sou e além me vejo nesse. E em tanto ser um só, não me restou sequer um que comigo parecesse. Não sei se sou de fato ou sou de vento. Talvez eu só me sinta em pensamento, no espaço entre o lembrar e o esquecer. Pois sou, em sendo um só, esse que eu tento fazer dizer-me em outros que eu invento, e em sendo em outro eu, eu eu não ser.

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José Antoniel Campos Feitosa

ESSES Esse estigma, esse ranço, esse receio. Essa cólera de ironia travestida. Essa patrulha, essa partilha, esse guia, essa vontade dos caminhos da poesia. Esse achismo, esse ismo, esse outro ismo, esse atavismo em vã guardismo: esse fascismo. Esse apartheid, esse dedo indicador, essa receita, essa doença, esse doutor. Essa palavra, essa não, essa palavra. Esse escaninho, esse jeitinho bonitinho. Essa postura, esse salto, essa impostura, essa rede de sim-sim, essa costura. Essa estratégia, essa falácia, esse tribuno, esse quartel, essa polícia, esse coturno. Essa salada, essa sopa, essa lavagem, essa ordem de beber goela abaixo. Esse arauto apocalíptico e demiurgo, esse moicano derradeiro desse burgo. Esse poema de outdoor e passarela. Essa tramela, esse embuste, essa panela.

131

José Antoniel Campos Feitosa

CONTRA Contra a ordem, o rito, o senso, o correto e o seu primado; contra quando me convenço que é errado o errado. Contra tudo que é consenso — sim, por favor, obrigado. Contra quando contra penso ao que foi contra pensado. E por ser do contra feito, tenho parte do meu peito da outra desencontrada. Mas se sou contra, contudo, uma parte é contra tudo; a outra, a favor de nada.

É de antes, de sempre e é de agora. É rebento da busca e do encontrado. É presente presente e em mim guardado. É meu lado de dentro e o de fora. Pigmento que o tempo não descora, é o instante de todos os instantes. É o dia dos meus dias restantes, é a causa e o efeito em que sou feito, é o que pulsa no esquerdo do meu peito, é de agora, é de sempre e é de antes.

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JosĂŠ Antoniel Campos Feitosa

Entre a verdade e o que sou, entre o que falo e o que penso, nem a mim mesmo convenço, nem essa chance me dou. Fico no instante em que vou, uno de duplicidade, sou minha cara-metade quando, gritando, me calo entre o que penso e o que falo, entre o que sou e a verdade.

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Menção Honrosa Kathirine Kelly Gomes

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Kathirine Kelly Gomes

HOMICIDA Assassino minha própria criação. Todos os dias desperdiço a mim mesma. Abro os olhos e travo as mãos. Privo o papel de ser impresso Privo as letras de sua profusão. Com um sadismo frio Deixo as letras dentro de mim, Ainda soltas entre si, Ainda em formação.

Assassino minha própria poesia em formação, Sinto as letras se agrupando, As vírgulas e pontos buscando seus espaços, Palavras chegam a se assumir Então dissimulo. Finjo que nada está acontecendo, Apago a luz E fujo de qualquer papel em branco....

137

Kathirine Kelly Gomes

TINTA MÁGICA A minha vida é feita de silêncios, De espaços vãos De horas vazias.

Meus dias são como páginas em branco, Cujas maiores impressões devem estar marcadas com tinta mágica, Pois não consigo enxergar.

As minhas horas são feitas de suspiros sem fim, De sonhos e desejos não postos no papel, Não vividos, não concretizados.

Quem sou além da folha branca? Quem vive além do tédio e da rotina a que me submeto?

138

Kathirine Kelly Gomes

MEU MAR Navego todos os dias No mesmo mar Percorro as mesmas ruas E acabo por me perder nos mesmos becos.

Sou abatida pelas mesmas ondas Sou levada pelas mesmas correntes E sempre fico presa No mesmo banco de areia.

Ou meu mar 茅 muito vasto Ou sou eu pequena demais para transp么-lo.

139

Kathirine Kelly Gomes

RETALHOS Faço poesia de retalhos

As vezes meus As vezes roubo dos outros Não pago a conta Ninguém me cobra...

Acham bonito o produto do roubo Admiram-me.

Retalho a vida dos outros Por vezes a minha própria

Pelo menos assim o conjunto é mais bonito.

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Kathirine Kelly Gomes

UM HOMEM Bati numa mulher

Firmei a mão devagar e Apliquei-lhe a bofetada

Ela sorriu Ela sangrou Ofereceu-me novamente a cara e Lasquei-lhe uma potente porretada

Ela caiu Ficou estendida no chão gelado, Gelada Ela sangrou e

Levantou novamente. Aí então o tiro. O corpo gelado no chão quente

– Quero ver me desafiar novamente!

141

Kathirine Kelly Gomes

COISA Dizem que os poetas são Uma coisa. Todos somos. Coisas. Todos sentimos. Coisas. Todos choramos. Por coisas. Coisa. Existe noutra língua? Coisa. Existe noutra galáxia? E outro mundo existe? Coisas? Sou uma! Coisa! Você é diferente? Não é. Coisa? Você é melhor. Coisa. Estes rabiscos? Nada! Coisa nenhuma!

142

Kathirine Kelly Gomes

NOVELA Descobri, Esses dias Que novelas fazem mais sentido Que a minha vida.

Esperta, Deixei de viver.

Agora s贸 assisto novelas...

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Kathirine Kelly Gomes

EXTRATERRESTRE Um dia Um poeta enlouqueceu

Descobriu que n達o era extraterrestre...

144

Kathirine Kelly Gomes

PASSIVO Assis assistiu Meio assim, Mas assentiu, Embora sem sentir, Pois n達o era bem assim. Assentiu simplesmente. E n達o falou mais no assunto. Foi encontrado morto no quarto, partiu. Apenas um bilhete, Disse que preferia participar

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Kathirine Kelly Gomes

EXECUÇÃO Devo ser assassinada, Executada. Para o meu caso específico defendo a pena de morte. Um homicida deve morrer. Há anos sepulto palavras, Poemas inteiros, Frases completas, Também assassino inspirações pela metade. Frases bonitas me sobem pelo peito, Querem ser escritas. Eu as ignoro. Devo ser eliminada da face da terra. Um tiro na nuca? Rápido demais! Uma luta de espadas com um exímio esgrimista? Não, eu seria covarde e me precipitaria sobre sua espada... Uma fogueira enorme? Eu, convencida, me julgaria Joana D’Arc, Forte, corajosa, sorvida pelo fogo, imolada em sacrifício. Uma cerimônia de enforcamento? Todos aqueles tambores para me enlouquecer, um horrível carrasco para me meter medo

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Kathirine Kelly Gomes

E a corda grossa e suja, pendurada em minha frente, pronta para me silenciar, assim como fiz com os poemas. Assistindo à cerimônia grotesca todas as letras, ordenadas, desordenadas, as grandes e as breves, enfileiradas, sorridentes. Eu lhes daria um sorriso triste, seria gentil, cumprimentaria cada uma delas e tentaria me esconder baixando os olhos envergonhada. Uma cerimônia de enforcamento. Pronto! E todas as letras veriam minha cara e cuspiriam em meu rosto quando as últimas palavras pendessem de minha língua, já morta, posta para fora.

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Menção Honrosa Marcos Ferreira

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Marcos Ferreira

CONFISSÃO TARDIA Os passos no corredor, a luz acesa. O perfume da inocência brincando entre as mãos pervertidas do vento. O pai caído no sofá, o cigarro no chão. Apenas o céu emoldurado na janela, a tia nas orações — tateando o paraíso nas contas encardidas do rosário. O buraco na parede e a prima no banho.

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Marcos Ferreira

PECADO ORIGINAL Ao pingo do meio-dia, virgem e pura como fora esta pรกgina, ela sempre cruza o patamar da igreja, desencaminhado devotos e fazendo pecarem os santos.

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Marcos Ferreira

DESCONCERTO Quando perdeste a fome do meu corpo e a sede de minh’alma, um comboio de salinas ardeu no chão nervoso de minha face. O sol deitou a cabeça vermelha nos ombros da montanha e todas as cores vestiram o luto dos meus olhos. Até a Moça da Foice (com piedade ou com remorso) deixou que voasse uma prece de sua boca de aragem.

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Marcos Ferreira

REGRESSO Ontem voltei à rua dos meus anos verdes... O fantasma do amor imberbe me atravessou num abraço diáfano. Sob a campa soturna do asfalto jazia o esqueleto do meu cavalinho de pau. Não vi balouçando na cadeira de palha o velho ferroviário com seu cachimbo de nuvens recém-nascidas. No recreio do vento a cantiga azul do meu pião de linha. Acho que a velha casa dos meus sonhos mirins ameaçou um sorriso de janelas. Também não avistei a máquina laranja da prefeitura fazendo refeição no terreno baldio — era o dragão de ferro dos meus olhos castos.

O CASTELO 154

Marcos Ferreira

Após tantas auroras e crepúsculos, retorno à estranha paz deste castelo. E tudo é como sempre na impune eternidade das coisas mortas. Um vento de abandono vai movendo as dobradiças do silêncio. As teias do tempo se espalharam por todos os cômodos e móveis. Nem mesmo o velho relógio de pêndulo reagiu à minha súbita presença. Apenas Mona Lisa, um tanto grisalha e coberta de rugas, ofertou-me o seu tímido sorriso de moldura. O mais é tudo sombra e frialdade. Três ou quatro lembranças arderam no véu lacrimoso dos meus olhos, mas logo se afogaram no fosso emocional deste último soluço. Vejo-me assim neste insólito regresso, ruminando a solidão resignada de velhos desenganos e antigas saudades. E o Senhor Deus dos desgraçados, sempre tão soberano em seu reino de enormidade e esquecimento, nem reparou nos sonhos que morreram neste escuro penhasco de minh’alma. Agora um vulto lívido e sereno me aguarda no final do corredor vazio. Estendo-lhe o braço e atravessamos as grossas paredes do castelo, em direção à eternidade morta.

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Marcos Ferreira

EXTREMA-UNÇÃO Arde em teus graves olhos a tristonha e muda exposição do amor desfeito — esse encanto fugaz que a gente sonha conservar toda a vida em nosso peito. É que o mundo é este antro de peçonha que adultera o que é puro e o que é perfeito. A ventura mais longa e mais risonha morre sob os lençóis do próprio leito. Entretanto prossegue, não desiste; fecha logo o caixão dos sonhos mortos e sepulta isso tudo quanto é triste! Não te afogues no amor que se desfez — ser feliz é seguir por muitos portos e morrer por amor mais de uma vez.

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Marcos Ferreira

AUSÊNCIA É Noite de Natal... E o mundo se alumia. Sentamo-nos tranqüilos em redor da mesa. Alguém sugere um brinde, com delicadeza. As taças se entrechocam em desarmonia. Remoto um galo tece uma oração baldia, e aqui nos irmanamos sob a luz acesa. Há vírgulas de pranto, olhos de incerteza, perante esta cadeira agora assim vazia. Vai alta a meia-noite. O vinho tinto exala um cheiro de saudade que percorre a sala e vem se amotinar no coração da gente. É Noite de Natal, é meia-noite e meia, e todos contemplamos, junto à Santa Ceia, a foto na parede de meu pai ausente.

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Marcos Ferreira

MUSA MORTA Sem nome, sem respeito, malfalada; com tinta no cabelo, um dente escuro. A boca muito rubra quanto usada no leito coletivo, atrás do muro. O vício do cigarro e tanto nada no olhar daquela vida sem futuro. A cruz dentro do peito, ensangüentada — um feto sepultado no monturo. A perna com platina... A tosse feia — o busto avantajado de baleia; a voz muito sonora, mas confusa. Portanto, assim morreu na primavera (doente de si mesma e de quimera), na casa do meu peito, a minha musa.

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Marcos Ferreira

DIANTE DO ESPELHO Não sou eu este homem que diviso na moldura do espelho à minha frente, sem a mínima sombra de um sorriso a pender-lhe do lábio descontente. Não são meus estes olhos de granizo, que me encaram completa e friamente, nem o queixo rotundo e tão conciso sob os fios da barba intermitente. Não são meus estes lóbulos caídos como estranhos e lânguidos badalos na capela insondável dos ouvidos. Pois não sou este espírito a esmo, que me busca por sombras e abalos na infinita procura de si mesmo.

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Marcos Ferreira

A HORA AZUL DO SILÊNCIO No coração da noite segue uma tristeza com passos muito lentos e desmotivados, enquanto novamente a solidão retesa a corda no pescoço dos abandonados. Porém, no meu silêncio, com a luz acesa, eu vejo a roda-viva dos sonhos alados girando e espatifando toda natureza de santos e demônios por todos os lados. Também eu sei da vida azul dos vaga-lumes com suas lanterninhas, loucos de ciúmes da Lua sonolenta, que nunca se importa. E tarde, na penumbra, junto à minha cama, reparo que um fantasma de mulher me chama ao reino vaporoso de uma deusa morta.

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Menção Honrosa Mário César Gomes

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Mário César Gomes

SORTILÉGIOS DA MANHÃ A lua criou máscaras de gesso Em teu rosto exposto. Quando o manto caiu Vi toda a nudez da tua alma Envolta em uma chama azul. E você estava aqui. Diante de mim. Sedenta por uma palavra Que seria concebida em ti. Mas que nascesse também em mim. Mas a lua nos deixou Com aquele gosto de boca Ainda não beijada, De uva macerada Por sátiros embriagados. Toda manhã eu te vejo Como um pequeno sol Iluminando os corredores De um coração escuro. Atraindo fantasias e Afugentando esperanças Em sua órbita louca. Sem medo de ferir os santos E se compadecendo dos malditos! E o amor a tua crueldade me redime De mais um dia de pecados silenciosos. Não posso ir mais adiante 163

Mário César Gomes

Sem que, com a ponta da língua, Entrar no mundo que escondes Dentro da tua boca.

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Mário César Gomes

SATURNO Estou distante de qualquer dia de sol. Preso numa eterna madrugada Com vinho que não aquece. Doente, olhando a dor nascer do meu umbigo. A morte passeia sob a chuva E me espreita com promessas De um navio de cristal. Redemoinho... Vendaval... .................................... Espiral. Não vou mais voltar. Por onde comecei Há muitos naufrágios. Agora você sabe: O tempo se esgota com palavras amargas. Há um lugar onde nenhuma criança brincou. Nas cinzas do teu último abraço O sol se pôs.

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Mário César Gomes

A CAVALGADA DA MORTE O fim vem Sobre cascos peludos. Seguido por uma nuvem púrpura, Eu o vejo com olhos de bêbado. O antigo palácio cai E por toda a terra Não se encontra nenhum deus. Sopros gelados de uma manhã que sangra Me acordam para outro dia Onde a esperança foi assassinada Por uma louca que vestia cetim preto. Não há nada no sol Que abrande O desespero de Faetonte. Morto ao amanhecer Minha alma ainda vagueia Entre as árvores de um paraíso arruinado. Treme meus lábios Ao pensar no que nunca mais volta. Há fogo em minha mão assassina. Nunca mais poderei voltar Através da antiga aurora. Entrego minhas flores mortas À louca que grita na madrugada.

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Mário César Gomes

A CAIXA DOS ÚLTIMOS PRAZERES Escolha seus prazeres Dentro da caixa. A chuva vai começar. Deite e mergulhe Enquanto a areia escorrega Por debaixo da tua cama. Onde você deixou Os despojos da tua última noite? Onde estão as crianças Que te esconderam? A praia é vasta E se estendeu por mais 10 km Quando você dormiu. Alguém deve saber Que horas você deixou de ser Deus. Volte daqui a 10 segundos. O mundo ainda não acabou E o papa está morto outra vez. Sem saber porquê Você acorda de repente E o sol ainda é vermelho. Mate o primeiro Que bater a sua porta Com boas novas de um mundo Abortado.

167

Mário César Gomes

Você sabe quantos dias São necessários para o corpo Apodrecer? Não esqueça as virgens No campo de centeio. Amanhã tudo estará em chamas.

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Mário César Gomes

LUCIDEZ A luz é áspera. O fogo suspende a dor. Nunca mais verei tua alma Caminhar entre as ruínas de um antigo amor. Chora até que passe a dor. O mar beija a lua Como uma filha que cresce Sob um olhar tenro. Não vou esquecer você, Grande Mãe da minha embriaguez! Tua lua cresce atrás dos meus olhos E aos poucos eu vejo Um mundo sem sombras.

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Mário César Gomes

DO FOGO E DA NÉVOA Ela tinha sete braços E cantava em três línguas herméticas Antes do Sol magoar a Lua. Havia magia antes dos gigantes Caminharem sobre os lírios. Máscaras frias me espreitam Atrás de uma cortina de nostalgia. Gostaria de ter parte na sua herança. Mas uma tempestade vinda de longe Nos alcançou ainda no meio do caminho E nos levou para um longo exílio numa terra fria Onde, por muito tempo, Eu não veria mais seus olhos de fogo e névoa. Há areia em meu corpo E algo que queima Como se quisesse me fazer lembrar Do que perdi Quando fechei a porta essa noite. Um grande lobo branco Ronda a casa em busca dos meus olhos. A porta do quarto está aberta Para a sala Onde um tornado encontrou sua paz Corroendo o piso e o sofá. Ela me deixou só Em uma das suas babilônias, Vagando nas ruas e colhendo remorsos 170

Mário César Gomes

Dos nossos dias loucos. Mendigando sabores de um tempo que passou. Sendo o único a saber Que o rei está morto E que sua filha cria uma serpente Sobre seu dorso frio.

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Mário César Gomes

APOCALIPSE Refiz sete vezes o caminho do Inferno Por amor a teu nome. A água O vinho E a loucura Em lábios carmim. Sem nome nem palavra Que nos salvasse De hedionda tormenta. Numa orgia de dragões Meu coração foi dilacerado Entre as nuvens do céu. Mas a chuva caiu Com gelo e fogo Sobre nossos corpos nus. Havia lama e destroços E a solidão que surgiu Era um novo deus. E, como uma nova religião Vinda de muito longe, Eu ouvi teu cântico De saudade e de dor. E antes que o abismo Se abrisse mais uma vez Eu saltei em teus olhos enfeitiçados.

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Mário César Gomes

O TEMPO DAS ESPERAS Só vou embora No último momento. Quando as luzes se apagarem. Quando os olhos fecharem E a boca esquecer O gosto do mundo. Só vou embora Quando não estiver mais ninguém aqui Para contar como foi; Como chegou; Como partiu... Eis que será finda O tempo das longas esperas E por nada valerá O tempo que ficou.

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Mário César Gomes

CERNUDOS Ele dança sobre a erva úmida. Sete voltas ele faz em torno do campo. Sem esperar por ninguém ele morre Para no próximo solstício nascer. Chove para dentro do mundo. Canta o que não pode mais ser cantado. Corre com as crianças Que seguem a lua por toda a noite. Há sinais que não apagarão Com a chuva do verão. No inverno ele dançará Para as flores voltarem. Ainda há vinho no porão. Corra pequeno menino verde, Ainda há tempo para mais uma celebração. Soltem os cães para caçarem suas donzelas Na densa floresta dos nossos desejos. Acedam fogueiras para abrir o caminho Entre nós, e nós te seguiremos sem hesitar.

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Mário César Gomes

PRESENÇA Eu me deito e você passa Ao lado da cama, Vestida de céu. Eu acordo E você recolhe Os vestígios do meu sonho. Eu morro mil vezes Toda noite e toda manhã E você passa por mim Sem deixar evidências do teu crime. Mas sei que você está aqui, Agora, Ao lado da porta, No canto do olho, Nas teclas do computador, Esperando um não-sei-o-quê de mim, Um insight difícil de segurar com as mãos. Ou talvez me dizendo coisas No pé do meu ouvido, No pé da cama, Numa língua que eu ainda não entendo. Você sabe, eu sei, E todos os anjos sabem Onde estamos quando adormecemos Nesse sono místico.

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Menção Honrosa Pedro Antonio Lima dos Santos

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Pedro Antonio Lima dos Santos

A CHUVA CAI A chuva cai como espelhos partidos no quintal e no jardim. Os meninos e meninas brincam esquecidos de si molhados da chuva. Os velhos vigiam da janela e embaçam os vidros e os olhos de saudade. Lá fora as águas formam rios rápidos e efêmeros onde o futuro navega sonhos em barcos de papel. O tempo teima em parar nos remansos das esquinas enquanto meninos e meninas disputam suas regatas fazem suas apostas superam seus naufrágios curam suas feridas e aprendem os mistérios do mundo e da vida.

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Pedro Antonio Lima dos Santos

DE MANHÃ De manhã o sol abraça a natureza viva aves, onças, peixes rios, flores sempre-vivas. De tarde o sol a pino declina atrás da porta a triste ladainha a natureza morta. De noite o sol a míngua recolhe suas faíscas embainha suas lâminas lambe suas feridas. Agora convém acalentar o fogo assoprar as cinzas renascer de novo as brasas dormidas.

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Pedro Antonio Lima dos Santos

PESSOA Pessoa poeta diverso de si mesmo verso e reverso. No espelho onde se via um poeta duvidava outro consentia um chorava outro sorria. Pessoa poeta vário, não o que é mas, ao contrário aquele que nega quando dá o que navega em alto mar o que caminha em linha reta o que pede e se entrega. Pessoa entre razão e sentimento. Um poeta é equação o outro, fingimento um é amor e humor outro é prazer e dor esclarecimento. 181

Pedro Antonio Lima dos Santos

Pessoa Poeta plural. um sente saudade outro de verdade ama Portugal.

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Pedro Antonio Lima dos Santos

O ESCULTOR O escultor analisa a pedra inerte, silenciosa e dura. Põe nela suas mãos ágeis e precisas e cinzela a escultura: uma bela mulher de formas sensuais um altar barroco com folhas tropicais. O escultor faz enfim com a pedra música tal qual com a palavra o poeta faria. Assim enquanto a poesia fala a pedra cantaria.

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Pedro Antonio Lima dos Santos

UM MARINHEIRO QUERO SER Um marinheiro quero ser. Quero ter uma mulher em cada porto não pelo prazer de voltar a cada dia e encontrá-la sempre pronta, calma, maria não quero a calmaria. Quero antes a ressaca a maré alta, a tempestade e quero muito mais. Quero sem soluço poder deixar o cais e aprender que suas pedras são pedras de saudade unidas com argamassa amarga, doce, ambígua de tristeza e de felicidade. Quero ser o companheiro da mulher amiga para quando, às vezes ela cismar pensando sempre olhando a praia e de alegria correr ao ver chegar navio ao porto poder dizer pra ela – Pronto nêga é hora de ser de novo marinheiro pois em cada navio que chega a mulher tem também seu companheiro.

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Pedro Antonio Lima dos Santos

BOCA DE FORNO Boca de forno? – forno Tirando bolo? – bolo Jacarandá? – dá Se eu pedir? – ............................... Silêncio foi sua última palavra se cala a boca e alma tão pouco fala? Triste, muda esta conversa amarga embora clara. Preferia o grito solto a gargalhada alta que afagos e sussurros já não esperava. Mas sendo escura a noite quase madrugada também me calo e calmo espero o dia novo, a Alba com seu apelo inexorável: Boca de forno?

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Pedro Antonio Lima dos Santos

A GENTE CAMINHAVA A gente caminhava de mãos dadas pelas ruas inventando alegrias pro futuro: com u’a mão com a outra bate palmas piruetas... Mas entre uma outra brincadeira entre uma e outra mão cresceram o tempo e a distância e a gente foi ficando sem rir sem falar sem chorar sem porquês.

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Pedro Antonio Lima dos Santos

MAIS VALIA O PÁSSARO NA MÃO Mais valia o pássaro na mão quando se o tinha valia mais vê-lo voando na imensidão. Colorido o papagaio ia ao céu cheio de armadilhas aqui embaixo evitávamos cair no alçapão. Se às vezes o caminho era difícil a gente se detinha e a mão de cada um buscava uma outra mão. Mais valia a dor de dizer não quando se devia qualquer palavra valia mais que a indecisão. E se o silêncio se fazia longo e sem razão isto sim, era o que mais doía seguir só na escuridão.

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Menção Honrosa Rachel Gomes de Oliveira Lúcio de Sousa

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Rachel Gomes de Oliveira Lúcio de Sousa

DO QUE NEM OS DEUSES CURAM pintei com álcool iodado na sola do pé esquerdo um anjo desenganado saí pela areia quente pulava, queimava o anjo escaldava pulava, queimava o anjo o diabo que me acompanhava viu minha sombra dançando desengonçada violeta genciana num grafite da parede cheguei perto a sombra pulou o muro pintei asas de mercúrio no calcanhar do diabo mandei procurar a sombra o diabo pulou o muro foi embora com a sombra da dança desesperada fiquei escaldando o anjo no caldeirão do diabo.

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Rachel Gomes de Oliveira Lúcio de Sousa

QUERUBIM que será de mim querubim? perdi as asas e os anzóis que será de mim querubim? podei as roseiras e os lençóis querubim, que será? que será querubim? que será de mim? sem pena sem peixe cem pétalas mil fronhas... não me aponte assim, querubim que assim eu sufoco

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Rachel Gomes de Oliveira Lúcio de Sousa

DÚVIDA arranco os teus cabelos um após o outro bem-me-quer malmequer bem-me-quer ..................... divagar agora que falta um só fio fica a dúvida pendurada

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Rachel Gomes de Oliveira Lúcio de Sousa

MUTILANTE enterraram meu umbigo no jardim de São Domingos enterraram meu umbigo na porteira do curral morão morão dente podre dente são maturei maturi não sou daqui não sou “Dali” enterraram meu umbigo no jardim de São Domingos enterraram meu umbigo na porteira do curral morão morão dentre podres dentição maturei maturi enterraram meu umbigo nos jardins de sant-antão

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Rachel Gomes de Oliveira Lúcio de Sousa

CÂNCER a minha avó tem câncer aos sábados degusto lentamente caranguejos

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Rachel Gomes de Oliveira L煤cio de Sousa

AGORA neste momento; nesta hora, sofro agoraf贸bico ave! volto pro ovo goro

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Rachel Gomes de Oliveira Lúcio de Sousa

ASSIM SEJA doravante a minha inveja alvejará a tua assim viveremos em branco (...) desdenhando círculos

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Rachel Gomes de Oliveira Lúcio de Sousa

ENTRE ASPAS quando te vejo correndo falando e ao mesmo tempo abanando tuas mãos parece-me que és um neologismo um estrangeirismo um desses personagens de quadrinhos que para mover-se precisa estar sempre entre aspas

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Rachel Gomes de Oliveira Lúcio deSousa

NO CENTRO DA CIDADE meu espanto dobrou a esquina! sangue de boi papoulas brinco de princesa palmeiras e rosas vermelhas. as duas senhoras no portão na casa da avenida noutro tempo outras vidas. golados gaiolas canários e pintassilgos. meu espanto avizinhou-se do tempo dos bugaris.

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Rachel Gomes de oliveira Lúcio de Sousa

MARGARIDA boa a velha Margarida as latinhas de óleo rasgadas na horizontal tão coloridinhas das florzinhas nove horas... tão desbotadinha a velha Margarida nem era mais preta nem tinha mais cor nem no vestido acinturado de saia franzida nem nos chinelos empoeirados nem no cabelo nem na memória tão desbotadinha tadinha que eu nem me lembro mais

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Este livro foi impresso na Editora, Livraria e Grรกfica Manimbu, Rua Aรงu, 666-A - Tirol - Natal-RN. Em papel Polen Bold 90g, fonte 12 Verdana BT com tiragem de 1000 exemplares.

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Livro 2005 14 Poetas