Page 1

encontro marcado

D

escolado, despojado, culto, jovial, muito bem-humorado, show man por essência. Vários adjetivos podem definir Maurício Nunes, ator, jornalista, apresentador do programa Cinelândia e, além disso, vocalista da banda de rock AeroSilva. Dependendo do ponto de vista, faltam adjetivos para definí-lo. Leia a entrevista abaixo e tire suas próprias conclusões. AP: Fale sobre Maurício Nunes. MN: Eu gosto deste rapaz. É uma figura simpática, educada, interessante, inteligente, absurdamente sensível pela ótica da minha mãe e um cara bonito, romântico e charmoso pela ótica da minha namorada (risos). Mas falando sério agora, sou um ser com necessidade de criar o tempo todo, de tal forma que sem a criação de músicas, textos, peças ou qualquer outra forma de expressão artística, sinto como se minha respiração fosse interrompida. Faço da arte o meu oxigênio. Eu vivo constantemente em processo de formação, onde o mestre sempre será o tempo e o melhor material é a observação constante, dia após dia, sobre tudo que há ao meu redor. AP: Como surgiu o interesse pelo cinema e o projeto do “Cinelândia”? MN: Creio que no ultrassom feito na gravidez de minha mãe, eu já sorria e criava alguma cena ou piada. Sempre fui aficionado por imagens. Na infância, enquanto os garotos jogavam bola ou empinavam pipa, eu criava histórias, personagens e vivia pregado no meu Mini Cine – relíquia até hoje guardada. Aliás, de tanto brincar de médico, fui o precursor da série ER (Emergency Room - Plantão Médico) (risos). O cinema é e sempre será a minha igreja. O Cinelândia surgiu exatamente desta devoção e se tornou um programa reconhecido dentro e fora da cidade. Fui duas vezes entrevistado por Jô Soares, estive ao vivo falando de humor e cinema em rádios importantes de São Paulo. O Cine foi matéria de inúmeros jornais, pois tudo era feito com verdade e com amor. Gravei o Cine nos EUA por 30 dias e foi uma experiência inesquecível... Pena que nossa cidade sempre será madrasta e, nunca mãe de seus filhos.

18

REVISTA.indd 18

ALPHA ENCONTRO MARCADO

AP: Nos últimos anos, houve aumento significativo da participação de atores e de diretores brasileiros em produções estrangeiras (Walter Salles, por exemplo, irá adaptar o clássico “On the Road”, de Jack Kerouac, para a “telona”). Você considera que isso possa aumentar a visibilidade do cinema nacional no exterior? E quão valorizado ele tende a ficar? MN: Acredito que sim. Fazendo uma analogia com o futebol, onde nossos craques são contratados pelo exterior, está ocorrendo semelhante olhar para os profissionais do cinema nacional e com grande mérito, diga-se de passagem. “Cidade de Deus” foi escolhido pelo renomado jornal inglês “The Guardian” como o sexto melhor filme de ação de todos os tempos. “Tropa de Elite 2”, por exemplo, é uma obra absolutamente perfeita nos padrões do melhor cinema do mundo. Já bateu 3 milhões de espectadores, derrubando blockbusters e consagrando como grande diretor auteur, José Padilha, que tem sua base em filme documental e conseguiu mantê-la mesmo numa ficção. Seu parceiro, Wagner Moura, que, na minha opinião, figura hoje como um dos mais competentes atores do mundo (e eles lá fora já notaram isto), está no nível de gente como Sean Penn, De Niro, Johnny Depp, entre outros. É um tesouro nacional. E como se já não bastasse ser tão bom, ele e Padilha ainda estão revolucionando a indústria local, se libertando do apoio de leis de incentivo fiscais e abrindo um novo caminho para o cinema, com investimento de quotas, pois enquanto o cinema depender de leis de incentivo, vencerá muito mais uma boa influência do que uma boa ideia. Há cartéis no país que não permitem que novos diretores executem suas obras. Afinal, sem verba e sem distribuição, fica inviável realizar um filme. É como piscar para uma mulher linda, porém dentro de um quarto escuro. AP: Conte sobre seu projeto musical, o AeroSilva. MN: O AeroSilva é o megafone dos meus sentimentos ou, como disse Zé Simão, admirador da banda, o AeroSilva é o grito de liberdade dos excluídos, pois fala a língua da nação. É a minha resposta à toda artilharia de assuntos como política, religião, sexo, arte e tudo que

» 26/10/2010 11:21:27


Arte da liberdade 2  

Entrevista elaborada à Revista Alpha 16.

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you