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Meu encontro com Caeto me fez lembrar - espero que por milésimos de segundo, caso contrário devo ter ficado com cara de paisagem por muito tempo - a primeira vez que o "conheci" através dessas páginas. No primeiro momento estranhei o traço e não achei que os desenhos fossem tão espetaculares. Minto. Logo na primeira página já havia uma diferença na composição do quadro, algo menos quadrado e formal - um padrão de quadros que vemos em muitas HQs -, no entanto o restante das páginas foi tomado por quadros mais comuns. Depois reparei nos desenhos; eles não eram extremamente elaborados, muito menos ousados. Ali se encontrava uma certa verdade no traço, ou a tentativa de transparecê-la. Notei que essa - aparente - falta de experiência era compensada na busca de retratar os acontecimentos através do seu ponto de vista. A narrativa tinha um papel importante. Quando falo dessa busca pela realidade, notei um problema que talvez pudesse ser causado apenas pela falta de prática, algo natural em quem publica primeiro livro. Alguns quadros, situações e conversas soavam desnecessários para o fluxo da história. Algo que me lembrou um pouco um formato de cinema norte-americano de explicar o que não se precisa. O cérebro humano é capaz de perceber sutilezas, pode vagar por entre os quadros, fazendo com que a imaginação preencha lacunas. Quem nunca se perguntou o que acontece entre um quadro e outro? De volta à narrativa, vale notar sua disposição: não se trata da ordem cronológica dos acontecimentos, o começo não é de fato o início de tudo. Caeto não nos apresenta diretamente sua infância, seus pais, sua adolescência ou o início de carreira. O que acontece é uma história mais voltada para o cinema, uma não linearidade dos fatos, o que torna a história muito mais interessante e fluida.

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Rubato  

Revista com espaço total dedicado à Literatura.

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