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conversa por semana e mais uma ou duas visitas por ano em que passaríamos um dia rápido e agradável fingindo que o tempo não passou, e que para sempre seria possível eu continuar escondendo dele o meu segredo mais importante, aquilo que de alguma forma sempre definiu o que sou, e que de algum forma também só pode ser explicado por um conceito - uma verdade, uma mentira ou as duas coisas, depende de como você reage a uma cena como a do meu avô caído na escrivaninha.”. (Diário da Queda) “Eu narro em primeira pessoa e tudo o que eu narro e existe nesse livro vem a partir do personagem principal. Coloquei tudo que eu queria colocar”, diz Michel. Talvez, ele disse, só faltou ter trabalhado mais a relação entre homem e mulher do narrador com sua terceira esposa, uma coisa meio Woddy Allen, num tom mais cômico, mas não tinha como sair do tom do livro, que não é esse. “Ele estava fluindo para outra direção e não tinha como mudar isso”, lembra. Uma marca do livro é não narrar a cena e sim narrar o olhar do personagem por cima da cena, o que desobrigou o autor a ter personagens redondos. “Não me interessava muito como era o personagem, mas como ele pensava. Busquei escrever com uma percepção linguística que tenta recriar a linguagem. Em uma conversa uma pessoa não vai te contar como ela é e sim como ela pensa”. Assim não se define muito o personagem, não é preciso deixá-lo pronto ou mostrar o que veio antes ou depois dessas suas memórias. “Às vezes um personagem tem situações simbióticas. É como um rádio, você vai batendo nas bordas e chegando

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Rubato  

Revista com espaço total dedicado à Literatura.

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