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holocausto e não estabelece relações entre a história do avô e a sua. Essa semi-ignorância conduz o leitor a participar dessa descoberta junto com o protagonista. A mesma coisa acontece com sua relação com o pai e com a doença dele. Ao longo de seus relatos no diário o narrador vai aos poucos relembrando essa relação e a ideia de que sempre somos um pouco do nosso passado. Mesmo quando não escolhemos isso vamos sempre ser um pouco daquilo que nossos pais e avôs foram e escolheram.

Do meu pai eu herdei a cor dos olhos (castanhos, meio amarelos em dias de muita luz), o habito de ler (ficção no meu caso, não ficção no caso dele) alguns dos pratos preferidos (churrasco, queijo derretido, arroz misturado com molho de carne e gema de ovo). Sou teimoso como ele. A descoberta do Alzheimer foi o único momento desses quarenta anos em que pensei de verdade nessa teimosia, se é que dá para chamá-la assim, se é que pra creditar a ele o fato de eu ter chegado a essa idade tendo contado ao meu pai a maioria das minhas histórias, cada decisão que eu tomei sobre o que na época parecia relevante, o aluguel de um apartamento, a escolha de uma profissão, a dança de careira e de cidade, o inicio do fim de dois casamentos, os livros que escrevi e as coisas de que mais gostei e aquilo que num telefonema semanal para Porto Alegre resumia o que eu achava que seria gentil contar para ele, ao menos no sentido de distraí-lo e distrair a mim mesmo para que nenhum dos dois precisasse dizer nada sobre o fato de dali para frente seria mais ou menos aquilo, meia hora de

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Rubato  

Revista com espaço total dedicado à Literatura.

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