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Falar hoje sobre a mãe de João e o meu avô é deturpar o relato com o enfeite da lógica, da retórica e do ritmo, como quando sabe que a plateia ficará impressionada se você deixar as cenas violentas para o final, as mais chocantes e cruéis, as que causam mais identificação e pena um instante antes da catarse, e com o tempo e a experiência e a leitura reiterada de É isto um homem? você aprende a fazer isso muito bem, e reproduzir isso sem que em nenhum momento sofra de verdade, porque o sofrimento se esgota na primeira ou na segunda ou na terceira vez que você narra as atrocidades, a voz grave que você aprendeu a fazer quando informa que um milhão e meio de adultos chegaram a Auschwitz, e começaram a trabalhar, e dormiram e comeram sob o regime do campo, e dá para acrescentar que em poucas semanas esses adultos estavam pesando algo como cinquenta quilos, ou quarenta, ou trinta, e que os funcionários pegaram um a um desse milhão e meio de adultos de trinta quilos, e caminharam ao lado de um a um desse milhão e meio de adultos de trinta quilos, e abriram a porta da câmara para um a um desse milhão de adultos de trinta quilos, e abriram a torneira que fazia sair gás na câmara onde um a um desse milhão e meio de adultos de trinta quilos estavam, você pode repetir isso até cansar porque nunca mais vai sentir o que sentiu aos quatorze anos, ao voltar para casa depois de escrever o último dos bilhetes sobre a mãe de João, e receber o último dos bilhetes com o desenho de Hitler, e entrar no quarto e sentar na cama e ter pela primeira vez noção do que tudo isso significa.”

Diário da Queda

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Rubato  

Revista com espaço total dedicado à Literatura.

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