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o cenário de tal cena, etc. Procuro ver a estrutura como uma peça musical ou um filme, analiso o ritmo, os pontos de maior tensão, como se vai construindo o roteiro até o desenlace. É bem isso, vou “sentindo” o ritmo da história como se fosse uma sinfonia; como se fosse um gráfico com altos e baixos, com transições suaves ou repentinas. Com base no “esqueleto” da obra, ou seja, sua estrutura, começo a rechear de “carne” as situações que compõem a história ou as várias histórias entrelaçadas. Vou fazendo versões do roteiro, primeiro como história narrada, depois com diálogos. Conhecendo o conjunto da obra é que sei escolher, do livro, as partes fundamentais. Pois, em geral, é preciso selecionar, cortar. Num livro como Jubiabá, em sua conversão para HQ, preciso encolher, enxugar. Se eu tivesse fazendo uma novela de TV, seria o contrário, teria que esticar, encher linguiça. Essas escolhas são feitas quando a gente conhece muito bem a obra e os recursos e limitações do meio em que a obra será adaptada. Tem coisas na literatura impossíveis de representar e tem experiências que a imagem proporciona que a literatura só pode indicar, não mostrar. Paralelamente vou fazendo a pesquisa. Como acontece na adaptação para qualquer meio visual, há coisas que o autor apenas sugere que o desenhista recomponha cuidadosamente. Por exemplo, se Jorge Amado escreve que “Baldo voltou à ladeira do Taboão” e o leitor imagina uma ladeira qualquer de Salvador, eu preciso desenhar AQUELA ladeira. E se sei que a história se passa nos anos 20. A pesquisa me mostra

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Rubato  

Revista com espaço total dedicado à Literatura.

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