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toda assim - apenas em raríssimos momentos, ela se completa com imagens, quando Lobato pede ao leitor que veja algum diagrama, como um recurso didático. Mas ela toda se sustenta em palavras e a imagem só entra como atrativo extra para o leitor. O outro caso é o dos quadrinhos, em que a imagem e a palavra se combinam para produzir uma coisa só. Isto quer dizer que a palavra abre mão de contar tudo - e ela é certamente capaz disso - e o desenho abre mão de mostrar tudo - ele pode representar qualquer exterior, mas é capaz apenas de sugerir e indicar o interior, ou as realidades subjetivas e as relações abstratas. Na HQ, forma gráfica e palavra estão unidas como melodia e letra em uma canção. Elas realmente dançam, uma conduz a outra, e podem alternar os papéis ativo e passivo. Às vezes quem manda é a palavra, às vezes quem domina é o desenho. É importante notar que o discurso é algo (como a palavra sugere, “curso”) que percorre um tempo, e imagem, ao contrário, dá-se instantaneamente. Você até pode percorrer com os olhos uma tela de pintura, mas ela está ali estática, mostrando tudo de uma só vez. Assim, a união da palavra com a forma gráfica é a união de um meio discursivo com um meio estático, união que não é problemática, já que cada um contém, de certa forma, o outro (pois o discurso é uma sucessão de momentos, e o estático perdura no tempo).

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Rubato  

Revista com espaço total dedicado à Literatura.

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