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portanto, não é ter acesso à poesia que está nos livros, mas perceber aqui e agora a poesia do mundo. A questão é que a poesia dos livros tem esse poder de nos ajudar a desvendar a poesia no real ao nos apresentar novas maneiras de dizê-lo. Mas ainda assim essa capacidade não é exclusividade dela e não pode ser restringida, controlada, ofertada ou negada. Portanto, quando falamos em “democratização da poesia”, podemos estar apenas fortalecendo uma estrutura que se formou em torno do poema e que nada tem a ver com a poesia, seja a de dentro ou de fora do livro (um poema pode estar tão sem poesia quanto uma pedra, se não soubermos segurá-los corretamente). As pessoas não precisam ir atrás do poema, é o poema que precisa ir atrás delas. Pois o que a poesia nos ensina é que mesmo essa essencialização e hipervalorização do livro são prejudiciais para ela mesma. No Brasil, sobretudo, onde a cultura letrada historicamente é exclusividade de uma elite, isso fica ainda mais evidente. Não estou fazendo um elogio da ignorância, mas é que até a forma que a democratização do conhecimento é aplicada deve ser repensada, pois na prática não nos tem ajudado muito, mas acentuado justamente esse ocultamento da poesia no mundo. Nossa educação não busca criar melhores seres humanos, apenas cria mão de obra barata para o mercado de trabalho – assim sendo, o livro acaba fazendo com a poesia o mesmo que o coronel faz com a poça d’água para subjugar a população local. E isso é anti-poesia. Enfim, o mundo é poético em sua essência, mas somos sempre levados a não percebermos essa

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Rubato  

Revista com espaço total dedicado à Literatura.

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