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Como foram seus primeiros contatos com a poesia? Você acredita que hoje em dia essa apresentação está sendo feita corretamente? O meu contato foi com o poema O Corvo, que achei em uma coletânea de Edgar Allan Poe na casa de minha avó quando eu tinha 12 ou 13 anos de idade. Eu não entendi nada, claro, mas fiquei tão fascinado que não pude mais parar de querer recriar aquele “não entender” com minhas próprias palavras. Havia algo de desafiador e por isso mesmo fascinante. Depois comecei a me interessar pelos clássicos, por poesia medieval, poesia chinesa, poesia concreta, poesia sonora etc. Foi tudo meio ocasional e quase autodidático, porque a escola em que estudava não me mostrava esse tipo de literatura que eu achava mais interessante, só umas coisas mela cuecas do Sec. XIX. Eu estudei em escolas públicas, então não havia muito insistência para sermos bons leitores, ainda que a biblioteca estivesse cheia de muitos bons livros. Confesso que cheguei a roubar uma edição da Divina Comédia da biblioteca, quando descobri que o livro nunca tinha sido emprestado. Portanto, se posso dizer, acho que não há regras para ser apresentado à literatura. A poesia é algo que tem a ver com paixão e o primeiro contato com ela é como a primeira experiência sexual, nunca está previsto e tem sempre um risco envolvido. Portanto, ao se ensinar literatura, o professor deveria ensinar também esse gosto pela subversão, pelo risco e pela sedução. Quem ensina poesia deve ensinar a viver no

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Rubato  

Revista com espaço total dedicado à Literatura.

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