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A escritora portuguesa Ana Luísa Amaral disse certa vez que a poesia é como um beijo e/ou um relâmpago. Você concorda? O que é poesia para você?

Depende do que ela queira dizer com beijo e relâmpago. Sou amigo da Luísa, mas não conheço essa frase dela. Assim descontextualizada é muito difícil concordar ou discordar. Prefiro pensar a poesia como uma dança, mas, na verdade, eu nem saberia dizer o que é poesia – é mais fácil até dizer o que não é poesia. A única coisa que percebi é que a poesia não está restrita ao poema. O poema é apenas uma das formas manifestas da poesia, como é a música, a arquitetura, a dança, ou mesmo um beijo e um relâmpago. Mas claro, a poesia pode ou não estar nessas coisas, depende de quem ou quando se olha ou se faz. Mesmo um poema no papel depende de um leitor aberto ao poema e a poesia que pode sacar dele. Sem essa abertura, esse “preparo”, o poema é apenas texto num papel. Ou seja, o poder poético guardados nas coisas e no poema precisa ser aberto com chave ou soco. Não está pronto e, portanto, exige uma intervenção “corporal”. A poesia não é “algo”, é justamente o contrário. É uma “não coisa” guardada em coisas que, ao nos permitir completá-las com o que há de poético em nós mesmos, revela-se em sua plenitude num ponto do tempo e do espaço.

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Rubato  

Revista com espaço total dedicado à Literatura.

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