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O peso das primeiras páginas das anotações de Heller pode fazer com que muitos desistam da leitura ou tentem, em vão, prevê-la em seu restante como uma análise psicanalítica de um personagem cujo pano de fundo está seu próprio autor, que realiza críticas a burguesia, ao seu pensamento e vomita grandes quantidades de uma crítica de arte que faz ode aos clássicos, reprime a bohêmia e lamenta as impossibilidades contemporâneas de se apreciar os grandes gênios da arte. Mas é uma de suas andanças sombrias, solitárias e despretensiosas em que o misantropo Heller se depara com o Teatro Mágico, e com personagens como Hermínia, Maria e Pablo que o conduzirão para significados que fogem à estética elementar do real. O Teatro Mágico questionará o que Heller nos fundamentou como o código da vida erudita, como a verdade absoluta sobre o sentir. O Lobo da Estepe vai além da mera dicotomia entre racionalidade e instinto; entre aparência e interior. Apesar de esta ser uma linha condutora do livro, não é a única e muito menos a regente principal desta ópera cuja orquestra interpreta desde Mozart ao foxtrote. A obra foi escrita em 1927 e é um clássico porque apresenta e critica as premissas modernas, sem necessariamente direcionar-nos a discussões pós-modernas. O caminho do raciocínio não é lógico e nem composto de equações ou dogmas acadêmicos: é escrito com batom em meio a um baile de máscaras.

Mônica Bulgari

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Rubato  

Revista com espaço total dedicado à Literatura.

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