Page 104

ca ficava atenta ao sinal do jornalista para parar na letra desejada. Letra por letra, palavra por palavra, período por período. Ao som de uma constante repetição dessas letras, nasceu o livro O Escafandro e a Borboleta. Encontram-se nos capítulos curtos uma forma poética de relatar o que poderia ser monótono e maçante. Bauby intercala o cotidiano do hospital com as lembranças da própria vida. Isso sem que haja um apelo para a compaixão do leitor pelo seu estado quase vegetativo. Não por acaso, o jornalista utiliza-se de certa frieza, ironia e, às vezes, até bom humor para descrever sua condição. Não existe uma tentativa de exaltação do passado ou mesmo de redenção. O leitor é apenas convidado a sentir e viajar nas memórias e imagens do jornalista através do visor redondo do escafandro. De acordo com a ilustração de Bauby, em suas próprias palavras, depois de mergulhar em seu livro, “o escafandro já não oprime tanto e o espírito pode vaguear como borboleta. Há tanta coisa pra fazer. Pode-se voar pelo espaço ou pelo tempo, partir para a Terra do Fogo ou para a corte do rei Midas.” Aí está a imagem da borboleta encaixando-se perfeitamente à do escafandro. A adversidade que não impede a liberdade do espírito. Tão poético quanto o livro de Bauby é a adaptação do pintor norte-americano Julian Schnabel para o cinema. O longa-metragem estreou em 2007 e foi premiado com dois Globos de Ouro (melhor direção e melhor filme estrangeiro), além de três indicações ao Oscar e uma premiação no festival de cinema de Cannes. Schnabel sufoca e, ao mesmo

104

Rubato  

Revista com espaço total dedicado à Literatura.

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you