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O leitor mergulha em um mundo de distúrbios psicológicos gerados pelos abusos e desconfianças paranoicas no qual é muito difícil manter-se equidistante. Já foi dito paranoia? Triplique isso! Poucos escritores conseguem transmitir com honestidade as sensações emanadas de percepções tão subjetivas como a paranoia e a esquizofrenia como faz Philip K. Dick. O recurso aos monólogos internos do personagem, que lembra vagamente a técnica que Fiódor Dostoievsky utiliza em Crime e Castigo, de monólogos expiatórios, revela tal qual fizera o russo uma dimensão psicológica muito bem trabalhada nas personagens do romance. Embora um bom número de suas obras tenha sido adaptado para as telonas, Philip K. Dick passou boa parte de sua vida como escritor lidando com o fantasma da pobreza. Suas obras pouco lhe renderam em termos financeiros, e o sonho em atingir o mainstream americano com alguma de suas publicações morreu prematuramente. Qualquer semelhança com Dostoievsky, já citado, é pura coincidência, mas que nos faz pensar a relação em que as dificuldades materiais matérias e psicológicas tornaram mais agudas as percepções de certos escritores. Talvez, para melhor conhecer o humano, alguns tenham tido que descer até os limites que os separam das condições mais sórdidas de existência e emergir com a percepção afiada sobre as realidades mais banais. Philip K. Dick, conseguiu produzir uma pérola da vida junkie, sempre conturbada, porém rica em humanidade. Saindo do meio da ficção científica onde sempre se

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Rubato  

Revista com espaço total dedicado à Literatura.

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