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Não suficientemente traumática até aqui, a trama segue uma vertiginosidade sem fim ao revelar as paranoias e esquizofrenias de um homem encarregado de investigar a si mesmo e os amigos Ernie Luckman e Jim Barris em meio a uma escalada de abuso de drogas e de todos os problemas que isso pode gerar. Fred passa então a levantar suspeitas em todos os lados, e o fato de poder analisar ao fim do dia sua rotina em retrospecto não dá conta de aplacar suas desconfianças, mas, ao contrário, desencadeia em sua mente uma perturbação sem precedentes. Apesar de dramático em certo sentido, afinal, um posfácio inteiro é dedicado àqueles jovens que Philip K. Dick viu serem tragados pelo vício e pela morte prematura por causa das drogas, o autor consegue manter um clima ao mesmo tempo tenso e divertido, salpicado de boas tiradas com comicidade e sagacidade. Nessas tomadas, quem vem para roubar as cenas é o personagem Jim Barris - interpretado nos cinemas brilhantemente por Robert Downey Jr. – uma espécie de viciado esquizofrênico-paranóico cujas habilidades em destrinchar aparelhos mecânicos e tecnológicos e elaborar diálogos mirabolantes é admirável. O amor também tem seu espaço na narrativa, um amor problemático, claro, como não podia deixar de ser, centrado na relação de Fred, ou melhor, de Bob Arctor com Donna, uma típica junkie californiana envolvida com tráfico em pequena escala, que dizem ter sido inspirada em uma jovem companheira que Dick arrumara durante o período em que viveu uma vida semi-comunal com outros jovens após o rompimento com Nancy.

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Rubato  

Revista com espaço total dedicado à Literatura.

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