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editorial

Rubato. Roubado em italiano. Assim é a literatura: um pouquinho de roubo. São conversas, sentimentos, ideias, passado, nós e os outros. Acredito que, para contar uma história, aquele que a escreveu, pintou, desenhou, petrificou ou sonhou, reuniu um pouco daquilo que viu e ouviu e no final produziu um roubo criativo, um roubo simbólico, um roubo bom. Pensando nisso, e adicionando uma palavra que não me sai da cabeça, resolvi chamar esse projeto, esse filho, esse experimento de Rubato. É forte, é misterioso, é estranho e soa criativo. Uma mistura de revista literária com suplemento experimental. Talvez uma vontade, uma quimera ou um anseio. Tudo deve ter começado naquele instante em que as letras se juntaram e eu finalmente consegui ler o que estava escrito pela cidade enquanto olhava pela janela do ônibus. Essa foi a minha real independência: não precisar pedir para ninguém ler aquilo que eu queria saber. O afinco e a paixão que coloquei nessa simples e obstinada ação me fez entrar em bibliotecas e livrarias e com pouquíssimos anos devorar livros ao ponto de entristecer a carteira da minha mãe. Deve ser por isso que livrarias e bibliotecas exercem sobre mim um fascínio e me deixem em casa, em paz e ao mesmo tempo agitada e louca. Tenho vontade de deitar no chão delas ou então sair correndo, quem sabe passar com um carrinho de supermercado pelas prateleiras e levar todos aqueles livros que


me chamam pela capa ou pelo cheiro, ah o cheiro! Um fator importantíssimo! Quando pego o livro logo abro no meio e cheiro. Esse ritual me faz sentir como se estivesse abraçando o autor ou a obra e perguntando para o meu coração se posso criar aquela relação. Foi lendo e lendo, foi nas noites em claro ou nos ônibus lotados que decidi que queria fazer parte ou tentar fazer parte desse universo. Decidir que queria escrever, queria contar histórias, mostrá-las e fazer as pessoas se apaixonarem por elas assim como eu me apaixonava por aquelas que lia. Foi estudando jornalismo, nas aulas de leitura de ficção, um livro toda semana, autores consagrados, grandes clássicos e uma professora inspiradora ou nas especialização em jornalismo literário que de repente a literatura me chamou, gritou e implorou que daquela água eu bebesse e que daquela causa eu fosse atrás. Flip, listas e pesquisas depois fizeram com que eu resolvesse usar esse sopro de vontade e transformá-lo em um projeto de conclusão de curso. A possibilidade de falar de literatura e linguagem e usá-la de forma experimental e literária me envolveu e me realizou. A Rubato foi se transformando e saindo da cachola. Fui roubando um pouquinho daqui e dali, fazendo como aqueles autores que eu admiro que tentei criar um espaço para a literatura desfilar, além de discutir, fazer pensar ou ser aquilo que é ou, talvez, o que não é também.

Laíssa Barros


08 16 36 52

tertúlias literárias varal de poesia entrevista: márcio-andré diário FLIP 2012


66 76 86 94

uma outra hist贸ria entrevista: spacca eu, tu, eles

estante


tertĂşlias literĂĄrias


DESDE 1996, OPRAH WINFREY, a famosa apresentadora de talk shows dos Estados Unidos, mantém um clube de leitura. Com essa iniciativa a apresentadora já despertou a vontade de ler em muitas pessoas. Muitos dos livros recomendados e resenhados por Oprah viram best-sellers e fazem grande sucesso. Alguns críticos consideram que o clube de leitura de Oprah tenha o mesmo poder do The New York Times Book Review, prestigiado caderno literário do jornal, famoso pelos textos que aceleram ou atrapalham a vendagem dos livros. Usando com eficácia o poder de penetração do seu programa, seu clube do livro, o Book Club, que é o maior do mundo com 370 mil sócios, funciona nos moldes de qualquer outro, só que Oprah injeta nele altas doses do seu poder de celebridade, o que faz toda a diferença. Quando seu talk show estava no ar, Oprah convidava os autores para seu programa e selecionava espectadores-leitores para debates ao vivo, hoje em dia ela utiliza a internet para disponibilizar novos vídeos de suas conversas com os autores. Outro grande exemplo de clube de livro é o Harry Potter Reading Club criado pela escritora J.K. Rowling, autora da série de livros Harry Potter. O clube é online e tem o objetivo de contribuir na formação de novos leitores através das obras da autora e da manutenção dos leitores que já conhecem a série de livros. O site é destinado a fãs

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do menino-mago, além de professores e pais que desejam despertar o prazer da leitura por meio de clubes do livro. Em lugares como Estados Unidos e Reino Unido os clubes de leitura têm historicamente contribuído não apenas para a consolidação de um mercado editorial forte, mas também para a formação de um público leitor amplo. Na Inglaterra, por exemplo, estima-se que hoje aproximadamente 500 mil pessoas participam de clubes de leitura, reunindo-se esporadicamente em livrarias, bibliotecas, escolas e na casa dos integrantes do grupo para discutir e compartilhar suas leituras dos mais diversos títulos. Esse fenômeno vem se desenvolvendo aos poucos no Brasil, que experimenta um número crescente de grupos e reuniões. Isso, em grande parte, com a ajuda de grandes editoras que criaram seus próprios clubes influenciados por parcerias internacionais ou por verem o momento como propício para esse investimento. Companhia das Letras, Cosac Naify e livrarias como Saraiva e Livraria da Vila mantêm seus próprios grupos e investem nos encontros como forma de propagar a leitura – e seus lucros - em um país onde poucos leem ou compram livros físicos. Mas o interessante é notar que, juntamente com essa leva de clubes patrocinados, novos grupos independentes se formam e aumenta o sucesso dos antigos clubes. Marcelo Carvalho, supervisor de ações culturais da Biblioteca Mário de Andrade, localizada em São Paulo, conta que o projeto Leitores e Leituras surgiu com o objetivo de estimular o uso de um espaço público de convivência

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para a troca de ideias e informações. A proposta do grupo é apresentar e comentar livros de que os participantes gostem ou que estejam lendo. O objetivo principal é que os participantes troquem impressões e dicas de leitura e compartilhem essas experiências em reuniões quinzenais de modo espontâneo e livre. A ideia é transformar os encontros em grandes saraus nos quais os amantes da leitura possam expressar seus pontos de vista sobre os livros e dividi-los com outros leitores. Os encontros do Leitores e Leituras têm cerca de 15 pessoas e um mediador, um funcionário da biblioteca que estimula de um modo informal e respeitoso os participantes a se expressarem. “Ele não julga a qualidade literária dos títulos lidos ou apresentados tampouco instiga um juízo de valores sobre a qualidade de uma obra lida ou comentada por um participante. Ele apenas organiza e instiga os participantes”, ressalta Marcelo. Após cada encontro, os livros comentados e lidos são expostos, estimulando, assim, sua consulta e empréstimo. Marcelo acredita que o grupo contribui para a mudança de hábitos entre os que já estão acostumados a ler, pois uma experiência de leitura compartilhada possibilita aos demais participantes a oportunidade de conhecer novos títulos e autores, além de dividir ideias, gostos, sensações e sentimentos. Ele lembra ainda que a prática de leitura em bibliotecas costuma ser solitária e silenciosa e que o Leitores e Leituras busca criar um espaço para convivência e interação entre os usuários da biblioteca.

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E NCON T ROS

“Encontrei o Nosso Clube de Leitura através de um artigo publicado na revista Veja São Paulo, que logo foi destacado, pois me despertou enorme interesse à primeira passada de olhos”, conta a escritora Denise Bondan. “Eu já tinha frequentado um clube na cidade do Rio de Janeiro, de onde acabara de me mudar e também procurava preencher em parte o vazio deixado pela perda recente de meu filho mais velho. Sabia que ali encontraria um nicho não só de cultura, como de lazer e de aconchego humano”, diz ela. O Nosso Clube de Leitura funciona em um espaço em Barueri e foi criado pelas amigas Gabriela Colombo, escritora argentina erradicada no Brasil, e, Andrea Schmitz, professora de inglês. “Os livros estão presentes em situações importantes de nossas vidas. Cada livro é um entretenimento, uma aventura que nos ajuda a conhecer melhor o mundo e a nós mesmos. Ler pode ser uma atividade divertida, enriquecedora e inspiradora. Ter a possibilidade de compartilhar com outros esta experiência foi uma das causas que nos mobilizou a criar Nosso Clube de Leitura”, ressalta Gabriela. O Nosso Clube de Leitura é um espaço aberto que incentiva o gosto pela literatura. Os interessados a participar são convidados a ler um determinado livro por mês, previamente escolhido por votação dos participantes, diferenciando-se assim do projeto da biblioteca, que propõe leituras livres e não combinadas.

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Além dos leitores presenciais nos encontros há, também, os virtuais que através do blog http://nossoclubedeleitura. blogspot.com.br/ conversam e debatem o título do mês. “Para abrir a roda de conversas lemos poemas, contos ou artigos de literatura e pesquisamos sobre o tema e a época em que o livro do mês foi escrito. Também estudamos a biografia do autor e nos fazemos perguntas para instigar o debate” conta Gabriela. Os leitores que formam o grupo têm entre 25 e 80 anos de idade. São homens e mulheres de diferentes profissões que compartilham a paixão pela boa leitura. A maioria dos participantes é brasileira, mas há também um amplo número de leitores de outros países (argentinos, chilenos, colombianos, espanhóis que participam virtualmente). Gabriela lembra: “No mês de outubro comemoramos quatro anos de leituras ininterruptas! Lemos 50 livros e os comentários feitos sobre cada leitura estão disponíveis no blog. Temos fomentado o interesse e a paixão pela literatura em muitas pessoas que antes de nos conhecerem não tinham o hábito de ler. Estamos muito felizes de ter criado este espaço que não para de crescer. Gostamos de dizer que somos uma maratona de pessoas lendo juntas”. Segundo Denise, clubes são uma ótima oportunidade de conviver, compartilhar emoções e interpretações proporcionadas pela leitura. “Cada participante, com sua abordagem única e sua maneira particular de interpretação da obra, interfere positivamente, conduzindo à expansão

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do universo interior do outro”, diz ela, que ainda ressalta: “Meu feedback é o melhor possível. Tenho descoberto obras fantásticas que, provavelmente, jamais teria lido sozinha. Meus encontros favoritos foram os que trataram da obras de Fiódor Dostoievski, Memórias do Subsolo, O Mercador de Veneza de William Shakespeare, O Estrangeiro de Albert Camus e, em especial, nosso último e polêmico encontro que abordou o maravilhoso e sempre atual Dom Casmurro, do grande Machado de Assis”.

SE N T I DOS DA L E I T U R A

A professora Andrea Schmitz aproveitou sua imersão no grupo de leitura que ajudou a criar e foi estudar mais sobre o assunto. O resultado disso foi o artigo Clubes de leitura: a construção de sentidos em situações de leitura colaborativa, publicado na revista acadêmica de educação do ISE Vera Cruz. Andrea pesquisou como a leitura colaborativa pode contribuir para a formação de hábitos leitores e para a construção mútua de sentidos de leitura. Segundo suas conclusões, um ambiente que legitima o desejo de ler, em que há um “pacto de leitura”, contempla a possibilidade de criação de hipóteses interpretativas através dos “diálogo entre pares” que são favorecidos em uma relação onde os leitores se percebem mais atentos, críticos e conscientes. “Perceber essa mudança no hábito e na qualidade da leitura gera um comprometimento com a

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construção interpretativa, gerados pelo compromisso com o grupo. Compromisso que não é imposto, uma vez que a participação nos encontros é sempre livre, e não envolve resultados diretos, a não ser a própria fruição da leitura e o encontro com pessoas que partilham de interesse pela leitura”, ressalta Andrea. As palavras dos participantes incorporam, também, as relações afetivas estabelecidas com o texto. A escuta do outro transforma as impressões iniciais da leitura realizada antes do encontro e as falas ouvidas tornam-se parte de uma nova compreensão, ressalta o artigo de Andrea. “Assim, o diálogo e a discussão sobre a leitura, atividades centrais nas rodas de conversa do clube, inevitavelmente fazem com que a compreensão pessoal de cada um se modifique, ou se amplie, ou se confirme. Além disso, a comunicação oral que ocorre nos encontros leva em conta não apenas o ser ouvido, mas também o outro lado, o da escuta, tão importante quanto o primeiro. Há colaboração e enriquecimento mútuo. O fato de ouvir e ser ouvido aumenta a autoconfiança em falar sobre textos literários”, conclui Andrea. Obviamente um clube, um grupo, uma tertúlia literária ou uma reunião de leitura contribuem para a formação de leitores. Leitores que se tornam mais seletivos e mais atentos à qualidade das suas escolhas literárias e mostram, assim, que não importa se é um clube da Oprah, do Harry Potter, de uma biblioteca publica ou uma reunião na casa de amigos, esses encontros valem a pena e transformam os leitores e as leituras.

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varal de poesia conhecemos o outro pela roupa e pela poesia pendurada no varal


QUANDO SE PENSA em poesia logo vem à mente uma lista de autores clássicos e livros que nos encontram e reencontram algumas vezes na vida. Mas o que pouca gente sabe é que existe muito trabalho fresco, revigorante, divertido e inovador. Não que os clássicos fujam desses adjetivos, longe disso. Mas é interessante notar que os novos poetas, ou a nova geração de poetas brasileiros - infelizmente, muito pouco divulgados - possuem trabalhos de qualidade que revelam talentos consistentes. Eles leram Drummond, Bandeira, Hilda Hilst, Cecilia Meireles e tantos outros na infância e adolescência e hoje escrevem e publicam seus próprios poemas. “A poesia virou uma forma de investigar a vida, os limites do que eu consigo dizer. Mas não escrevo pensando nisso. Escrevo sobre coisas que me interessam, me intrigam ou me incomodam , escrevo como forma de reagir ao que não concordo”. — angélica freitas

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salta um rilke shake com amor & ovomaltine quando passo a noite insone e não há nada que ilumine eu peço um rilke shake e como um toasted blake sunny side para cima quando estou triste & sozinha enquanto o amor não cega bebo um rilke shake e roço um toasted blake na epiderme da manteiga nada bate um rilke shake no quesito anti-heartache nada supera a batida de um rilke com sorvete por mais que você se deite se deleite e se divirta tem noites que a lua é fraca as estrelas somem no piche e aí quando não há cigarro não há cerveja que preste eu peço um rilke shake engulo um toasted blake e danço que nem dervixe

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angélica freitas Rilke Shake


Dez entre dez críticos citam Angélica como exemplo da nova geração de poetas brasileiros e elogiam seu trabalho de personalidade. Seus livros Rilke Shake e o novíssimo Um útero é do tamanho de um punho, juntamente com seu blog Tome uma xicara de chá, já viraram referências. “Comecei a escrever meus próprios poemas com 9 anos de idade. Era uma coisa que eu fazia naturalmente e me dava muita alegria. Logo todo mundo ficou sabendo. Sempre fui a poeta da turma. Mas tudo isso era muito normal, era como ser a desenhista da turma, ou alguém que jogasse vôlei bem (o que nunca foi o meu caso)”. Influenciada por poetas como Whitman, Ginsberg, Williams, Rimbaud e Baudelaire, Angélica, 39 anos, mora atualmente em Pelotas (RS) e gosta de ler autores que façam coisas bem diferentes das que ela escreve. Pequenas aventuras pessoais, universo feminista e feminino e versos seguros, fortes e confessionais são facilmente encontrados em seu trabalho.

E NCON T R A R

“Nada mais chato do que ouvir aquele “gosta de teatro?” na Av. Paulista. Ou, bem, sim, há coisas piores: ouvir “gosta de poesia?” de alguém tentando vender um livro de poemas na fila do cinema. Não sei se dá pra convencer alguém a gostar de poesia. “É uma inclinação da pessoa, um gosto, uma sensibilidade”, ressalta Angélica. Mas como nos inclinamos à poesia? Como criamos gosto ou sensibilidade? Como ela é apresentada a nós?

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Para o crítico e poeta Paulo Ferraz, hoje em dia essa apresentação está sendo feita frequentemente na escola e de um jeito que leva os alunos a se posicionarem diante do texto com certo temor, um respeito indevido e desproporcional por uma forma de expressão supostamente mais elevada que as outras. “Isso acaba levando a um distanciamento que de modo algum contribui para que a poesia seja apreciada, entendida e lida com prazer. Na verdade isso contribui muito para que o potencial leitor passe a ter medo de um texto poético, vergonha de sua incapacidade de compreendê-la do modo supostamente correto, desconfiança de suas próprias habilidades de interpretação de texto, ou quem sabe um rancor com essa forma de expressão que parece rechaçar leitores”, ressalta Ferraz. Existe o preconceito (também surgido talvez no ambiente escolar) de que a poesia se restringe a alguns temas (como o amor romântico) ou a certa natureza supostamente sensível e delicada daquele que escreve ou lê poemas. São pessoas que insinuam que a poesia é algo para iniciados, de difícil acesso, cuja compreensão adequada exige muito conhecimento prévio. Pode ser verdade que parte da poesia é assim, mas isso não se aplica a toda a poesia. “Quanto à parte da poesia que de fato exige conhecimentos e vivências prévias não acessíveis a grande parte da população, democratização seria disponibilizar estas ferramentas de compreensão. Poesia é contemplação e reflexão, e, portanto, está em desvantagem no mundo reativo e acelerado de hoje”, lembra Ferraz.

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Democratizar a poesia passa, portanto, por levá-la ao público, porque o público está sem tempo de ir até ela ou sem as ferramentas que consigam fazer essa conexão. Tanto a divulgação dos antigos e novos poetas quanto a mudança na apresentação da poesia são necessárias nesse momento no país. Incentivar a leitura e demostrar a simplicidade e a facilidade desse encontro podem levar a uma transformação na literatura brasileira. Encontros, ferramentas eletrônicas, espetáculos e tecnologia podem ser um dos exemplos de formatos que podem atrair novos leitores e democratizar a poesia. “A busca por uma definição ‘pura’ da poesia é uma forma de masturbação conceitual, da qual procuro ativamente me afastar. Diria que a compreensão do que é poesia não é algo que se possa obter através de uma definição explícita, mas sim é o resultado de um contato prolongado com aquilo que culturalmente se tem chamado de poesia até hoje, ou seja, que podemos definir a poesia indutivamente, explicitando os casos do que se chama ‘poesia’ (uma definição que estará sempre incompleta).” — rafael mantovani

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se eu precisasse só de água e escova de dente ia morar onde quero cão em qualquer estrada ia pra rodoviária e escolhia pelo nome ia dormir cada noite junto com alguém diferente isso se eu só precisassse de água e escova de dente

meu cachorro sabe que eu sou mijão e me acompanha ele sabe que eu tenho medo de assalto e me acompanha ele sabe que eu nunca vou parar de fumar e me acompanha meu carinho é duro, parece uma garra mecânica e ele me acompanha.

Atualmente na Alemanha, Rafael, 29, linguista e tradutor, é um poeta muito promissor. Seu único livro, Cão, é um caso raro de amor entre aqueles que conhecem e estão conhecendo os novos autores brasileiros - ele conquista por seus versos tranquilos, debochados e inteligentes. “Faço mais ou menos assim: sempre que tenho uma ideia ou ima-

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rafael mantovani

meu cachorro sabe


gem para um poema, escrevo tudo o que consigo numa sentada só (anoto num caderno, no mesmo caderno onde anoto todo tipo de coisas). Depois releio e altero compulsivamente este esboço inicial, muitas vezes tornando-o irreconhecível. Depois de um tempo reviso o caderno, copiando todos os poemas pra um arquivo de computador, depois imprimo todos, vejo de quais gosto e organizo para tentar formar um livro (fiz isso uma vez, estou fazendo de novo)”.

TEMAS

Normalmente esses novos autores não se envergonham de fazer uma poesia que possa se comunicar com o leitor, ser compreendida por ele de modo emocional, não apenas intelectual. Nesse sentido, o olhar e a palavra são mais importantes que a forma ou os experimentos vanguardistas que deram a tônica em casos anteriores. Possivelmente esses novos autores façam uma poesia em que cada autor tenta desbravar seu próprio caminho para encontrar espaço e lugar dentro da pesada tradição do que em formar uma vanguarda, um grupo, uma escola. O combate do poeta hoje parece solitário. A nova poesia se comunica com o público pelo humor ou pela delicadeza. A personalidade, o experimentalismo e a vivência de cada autor produzem um novo e diferente material, que se preocupa mais em satisfazer a necessidade da escrita do que em seguir métricas e tons.

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O jornalista e crítico do Zero Hora, Carlos André Moreira, aponta algumas das características e temas abordados nos trabalhos os novos poetas. “É uma poesia que abre espaços em direção ao humor, ao nonsense, a certa metafísica do cotidiano para tentar estabelecer um diálogo com o que já foi feito antes sem repetir o que os poetas anteriores fizeram. O absurdo, o minimalista, o miniatural parecem ser os temas da atual geração de poetas, além da própria tradição literária e poética e, claro, a memória como matéria de poesia”. “Desde criança procurei me expressar por algum meio artístico, tentei pintar, tentei aprender música, fiz teatro por um tempo, mas foi quando passei a encarar a poesia como esse mecanismo que articula sons, melodias, imagens, juízos, conceitos por meio de palavras que me senti capaz de investigar as possibilidades da poesia. Não se trata de uma zona de conforto, ao contrário, é por não me conformar com a palavra, com a língua e com o discurso que investir na criação da poesia.” — paulo ferraz

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paulo ferraz ALBA

Não a resistência do vento, mas sim a densidade da água que envolve, que agarra o corpo, inoculando o veneno da espera até transformar pele em pensamento, menos, em vozes ouvidas, outras jamais ditas; o que se vê tem do sonho quase nada, apenas o desejo de tê-la outra vez à distância dos dedos, ela estaria próxima, não fosse a grita do mundo e do corpo, não fosse esse oriente, não fosse essa música que vem das árvores, não fosse ouvir do colchão, do lençol, do travesseiro: volta ao real, ao invés do leito te reclama a lida.

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Nascido em 1974 no Mato Grosso, Paulo Ferraz hoje vive em São Paulo e sua poesia conjuga esses dois territórios. Considerado por muitos um poeta urbano, faz um trabalho que contempla o dia-a-dia, além de não deixar de lado seu pé na academia, onde é mestre em teoria literária. O poeta que também é advogado publicou em 1999 seu primeiro livro, Constatação do óbvio, pelo selo Sebastião Grifo, fundado por ele, Matias Mariani e Pedro Abramovay. Com ambos editou ainda a revista Sebastião com a colaboração de Armando Freitas Filho, Paulo Henriques Britto e outros cânones da poesia brasileira. Em 2007, lançou dois novos livros De novo nada e Evidências pedestres, também pelo selo Sebastião Grifo. Tem poemas publicados em diversas revistas literárias e antologias. “De um modo geral, convivo algum tempo com a ideia ou o sentimento que pretendo transformar em poema. Permaneço refletindo, montando e desmontando imagens, testando formas de aproximação do leitor e os efeitos que pretendo obter. Só então passo para a escrita em si, procurando me ater ao projeto que me estipulei”, ressalta Paulo, que é autor de poemas corriqueiros, fundados numa linguagem cotidiana, voltada para temas que estão ao nosso redor.

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GRU PO

O que muitos questionam na nova literatura e consequentemente na nova poesia brasileira é a falta de interação entre os autores. Se os tradicionais poetas andavam sempre em grupo e participando de movimentos e criações literárias, hoje percebemos que tanto a distancia física, temática e a falta de vanguardas poéticas acabam levando cada autor a um caminho onde quase sempre se está só. Há uma pluralidade de vozes que torna difícil qualquer periodização, qualquer enquadramento dentro de um modelo teórico. “Não me sinto pertencente a nenhum grupo específico que eu possa identificar. Mas só o fato de várias pessoas estarem escrevendo ao mesmo tempo já as insere numa certa fase, mesmo que ela não seja definível. Ou seja, pertenço ao “grupo de pessoas que estão escrevendo em português brasileiro em 2012”, o que já significa muita coisa”, ressalta Rafael Mantovani. Já Angélica Freitas completa: “Não sei se pertenço a alguma fasee não consigo me incluir em nenhum grupo ou fase por vontade própria. Edito uma revista de poesia com três outros poetas, mas somos três pessoas com projetos de escrita diferentes, não somos um grupo. Sempre fui muito solitária, e prefiro continuar assim. Mas tenho amigos poetas, que leem minhas coisas e opinam”. “Poesia é o estado da palavra que mais me interessa. É o estado onde as palavras estão no lugar exato onde elas deveriam estar. A palavra na poesia tem um brilho, uma textura, uma visibilidade muito superior ao que elas têm na linguagem ou na prosa. Poesia o lugar onde eu tento chegar com as palavras. Poesia é a coisa mais importante da minha vida”. — fabrício corsaletti

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adeus, armários mofados adeus, armários mofados meus olhos porejando no deserto imaginário nunca tive ligações com esse ninho de traças sou do podre do quintal vivo a margem como vive a margem também o sol teu corpo lençol de sal a que vai mais um adues nem sempre procuro a morte mas sempre corro algum risco

O nome de Corsaletti, 39, é referência corriqueira quando se fala da nova geração de poetas brasileiros. Esquimó, um de seus quatro livros publicados, trouxe a ele reconhecimento, visibilidade e até o prêmio Bravo! 2010. Foi aos 15 anos e com a ajuda da professora Cidinha que Fabrício, hoje também um professor, iniciou suas desventuras poéticas. Bandeira e Drummond, seus preferidos, influenciaram o autor que hoje cria poesias contemporâneas, belas e marcantes. “A poesia tem o seu lugar. Acredito que hoje o lugar dela é mais evidente e estável, antes ela era mais seria e fechada, hoje em dia isso mudou”. Com importante contribuição para essa mudança, Fabrício desenvolve um trabalho que atrai pela simplicidade, sonoridade e um sentimentalismo que funciona.

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fabrício corsaletti adeus, armários mofados


PR Ê M IOS

Outro assunto em voga é o lugar da poesia nos prêmios literários. Além dos lugares reservados na categoria poesia na maioria dos prêmios, como o Jabuti, ultimamente muitos prêmios especializados somente em poesia, como o Damário Dacruz e o Prêmio SESC de Poesia Carlos Drummond de Andrade vem ganhando espaço no calendério de prêmios literários. Num mundo acelerado, com uma multidão de poetas publicando a cada dia, um prêmio pode ser um elemento que ajude a chamar a atenção para um livro o seu autor. Mas não necessariamente é um termômetro confiável de qualidade. O crítico do jornal Zero Hora Carlos André tem sua opinião sobre o assunto: “Eu poderia dizer que a poesia vem sendo ignorada em prêmios ou que recebe pouco espaço, mas minha percepção é de que nos últimos anos isso não é verdade. Vários prêmios literários importantes reconheceram recentemente livros de poesia entre concorrentes de outras categorias. Ó, de Nuno Ramos, venceu o grande prêmio do Portugal Telecom 2009. “Fim das Coisas Velhas”, de Marco de Menezes, foi agraciado como Livro do Ano pela Açorianos 2010. Temos sempre que lembrar que prêmios e eventos não podem ser o objetivo de um escritor, são, quando muito, a consequência de seu trabalho. Mas eles podem ser uma das ferramentas que consiga acabar com as distâncias entre a poesia e o leitor. “Poesia é o onde eu encontro a melhor maneira de escrever o que eu quero. Não sei se estou fazendo certo, só sei que estou fazendo aquilo que gosto e quero fazer. Gostaria de poder dedicar mais tempo a isso, alias, é algo que tenho que realizar”. — ana guadalupe

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quando cortam a internet coisas absurdas acontecem mas não sem a tentativa de refresh e do refresco de cogitar antes um lapso passageiro raios insetos no aparelho quando a página some levando embora um link que se perderá pra sempre, é aí que uma coceira aparece então descobre-se que o eu lírico carregava meses de urticária ou brotoejas ou micose da pior espécie quando ninguém mais digita palavra nenhuma, nosso herói ou heroína se levanta com tontura pra ir à esquina descobre árvores inesperadas na sacada, quatro ou cinco parentes desacordados na escada de casa

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ana guadalupe quando cortam a internet


Ana, 27, também redatora publicitária, é de Londrina, mas mora em São Paulo. Percebeu sua inclinação poética já na infância e com o incentivo dos pais começou a escrever bem novinha e não parou mais. A importância da decupagem das ideias e do tempo para conquistar um material de qualidade é para ela imprescindível. Com Relógio de Pulso, publicado pela editora 7 letras (que tem uma série de livros de poesia), Ana vem conquistando espaço na poesia brasileira. Ela publica alguns de seus poemas e de outros poetas em seu blog roxy carmichael nunca voltou e faz da internet uma aliada tanto na divulgação de seu trabalho, na comunicação com seus leitores e na descoberta de novas rimas. “Ter um blog me ajudou a ter um espaço onde não tinha vergonha de expor meus poemas e ter vontade de produzir cada vez mais”. Suas poesias são representações do olhar da autora enquanto vivência, experiência e contemplação. Assuntos variados, como problemas do dia-a-dia e da vida moderna, são sempre recorrentes. AC A DE M I A

E quanto à academia? Como ela lida com o estudo da poesia e com a própria poesia de hoje? O tempo da academia é o tempo da reflexão e da análise. Pesquisadores e professores trabalham com um corpo de poemas mais ou menos estável, que já passou pela prova do tempo. É natural, portanto, que estejam em descompasso com aqueles que se preocupam com a criação e a inovação, que diaria-

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mente estão fazendo novas leituras e novas conexões, produzindo continuamente novas obras, muitas das quais se esgotam em si mesmas, muitas das quais têm vida curta ou que só irão ganhar liga depois de outras experiências. Paulo Ferraz, que tem experiência e contato com os estudos acadêmicos, dá sua opinião: “Se não cabe à academia propor caminhos, tampouco cabe vedá-los. Não acredito em uma crítica prescritiva, que diga o que é certo ou não fazer. Creio que a academia pode sim abrir espaço para a presença de poetas, levá-los para expor suas experiências, debater sobre suas perspectivas ou sobre seus métodos de criação, ou que haja estímulo para que os estudantes criem suas revistas, que pratiquem tanto a criação quanto a crítica enquanto têm a total liberdade para errar”. Sim, é necessária uma aproximação tanto do público com a nova poesia quanto da academia com essa poesia. Uma vez mais temos que pensar que as ferramentas de conexão são importantes e úteis nessa comunicação. “A ponta do cume sempre é a poesia. Todos almejam a sublimidade. É onde todos os artistas querem chegar. Mesmo que você desconheça ou identifique a poesia em uma letra de música ou numa peça de teatro à poesia é o grande referencial para quem faz arte e ao mesmo é tempo a menos consumida. O importante é que ela quase sempre toca as pessoas que vão tocar e mudar o mundo”. — paulo scott

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depois do meio dia no arpoador

paulo scott

você olha para a pessoa e ela diz as mesmas coisas equivocadas que disse das outras vezes e ela já está inebriada pelo quinto copo de cerveja e segurando firme a sua mão e falando daquela vez em que chovia sem parar que por um tempo as coisas deram muito certo e você comenta que entre vocês seja agora ou antes as coisas nunca deram muito certo então o garçom se aproxima e passa a conta diz que precisa mesmo fechar o restaurante a pessoa larga sua mão e fala que pode ser depois sem eloquência apesar da claridade reaprender o jeito o modo como busca o ar enquanto a troça e a cremação desaparecem em teu cabelo curto e tuas unhas alimentam as porcelanas onde cristalizaram nossas manhãs sem adequação sempre mapa voltando ao cimento das palavras dígrafo pairando entre plural e lentamente modo de trazer o ar sem o fogo da pressa apenas com essa tua desafinação que torna todos os telefones e cartas iguais ao dia em que fomos a senha das barcelonas do centro promessa copiada num parque sem cordões carpetes de finais de semanas e pré-verão nó e temperatura das barras de chocolate

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suprimindo com as mãos junto ao corpo a intimidade que se criou enquanto você dizia que eu era a pessoa mais estranha e ridícula da festa : pagando de vaticano entre os amigos que apenas queriam encontrar o sábado naquela fila de drinques e pássaros e talvez as minhas paredes onde tua mão esteve

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre em 1966, mora atualmente no Rio de Janeiro e vive de seu trabalho como escritor. Publicou quatro livros de poemas (O monstro e o minotauro / Senhor escuridão / A timidez do monstro / Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros), além de flertar com a prosa, o que já lhe rendeu um livro de contos e dois romances. Traduz do inglês, escreve e revisa textos de dramaturgia e roteiros, colabora com revistas, jornais e suplementos de cultura do país e mantém o blog pauloscott.wordpress.com. Já ganhou e foi indicado para inúmeros prêmios tanto de prosa quanto de poesia. Scott diz que a poesia é seu xodó e a forma de manter vivo e justificar sua existência. Scott tem um processo único de fazer poesia e isso reflete em seu trabalho denso e diferente.

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FI M E COM EÇO

Fica aqui o meu convite, a partir dessa matéria e reflexão sobre o atual momento da poesia brasileira, para que façamos uma aproximação e tenhamos vontade de conhecer e reconhecer esses novos poetas e seus trabalhos marcados pela sensibilidade, a aproximação com os temas atuais e os problemas do nosso dia–a–dia. Os nomes citados nessa reportagem representam uma pequena parte. Podemos encontrar excelentes trabalhos também na poesia de Ricardo Domeneck, Francieli Spohr, Lorena Martins, Jorge Bucksdricker, Diego Grando, Marco de Menezes, Thelma Scherer, Ismar Tirelli Neto, Bruna Beber, Mariano Marovatto, Ana Kehl de Moraes, Luca Argel, e tantos outros. É só começar!

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O poder poético guardado nas coisas e no poema precisa ser aberto com chave ou soco.

MÁRCIO-ANDRÉ É ESCRITOR, artista sonoro e visual. Nasceu no Rio de Janeiro em 1978 e já lançou quatro livros de poesias e ensaios. Colaborou com diversos jornais e revistas, foi traduzido para dez idiomas e integrou diversas antologias. É professor e tradutor, além de performer literário. É também editor da revista literária Confraria do Vento e curador do Cidade a Travessa, evento literário e performático que acontece nas cidades de Lisboa, Rio de Janeiro e São Paulo. Poeta experimental, com obras na área da poesia visual e sonora, da instalação e da performance, realizou performances em inúmeros países. Em www.marcioandre.com pode-se encontrar seus vídeos, sons e textos. Por conta de sua Conferência Poético-Radioativa (2007) na cidade fantasma de Chernobyl, na Ucrânia, foi definido como "o primeiro poeta radioativo do mundo". Atualmente vive em Lisboa. Nessa entrevista, Márcio-André fala sobre a nova poesia brasileira, sobre seu trabalho e sobre o universo literário, suas experimentações e alcances.

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A escritora portuguesa Ana Luísa Amaral disse certa vez que a poesia é como um beijo e/ou um relâmpago. Você concorda? O que é poesia para você?

Depende do que ela queira dizer com beijo e relâmpago. Sou amigo da Luísa, mas não conheço essa frase dela. Assim descontextualizada é muito difícil concordar ou discordar. Prefiro pensar a poesia como uma dança, mas, na verdade, eu nem saberia dizer o que é poesia – é mais fácil até dizer o que não é poesia. A única coisa que percebi é que a poesia não está restrita ao poema. O poema é apenas uma das formas manifestas da poesia, como é a música, a arquitetura, a dança, ou mesmo um beijo e um relâmpago. Mas claro, a poesia pode ou não estar nessas coisas, depende de quem ou quando se olha ou se faz. Mesmo um poema no papel depende de um leitor aberto ao poema e a poesia que pode sacar dele. Sem essa abertura, esse “preparo”, o poema é apenas texto num papel. Ou seja, o poder poético guardados nas coisas e no poema precisa ser aberto com chave ou soco. Não está pronto e, portanto, exige uma intervenção “corporal”. A poesia não é “algo”, é justamente o contrário. É uma “não coisa” guardada em coisas que, ao nos permitir completá-las com o que há de poético em nós mesmos, revela-se em sua plenitude num ponto do tempo e do espaço.

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Como foram seus primeiros contatos com a poesia? Você acredita que hoje em dia essa apresentação está sendo feita corretamente? O meu contato foi com o poema O Corvo, que achei em uma coletânea de Edgar Allan Poe na casa de minha avó quando eu tinha 12 ou 13 anos de idade. Eu não entendi nada, claro, mas fiquei tão fascinado que não pude mais parar de querer recriar aquele “não entender” com minhas próprias palavras. Havia algo de desafiador e por isso mesmo fascinante. Depois comecei a me interessar pelos clássicos, por poesia medieval, poesia chinesa, poesia concreta, poesia sonora etc. Foi tudo meio ocasional e quase autodidático, porque a escola em que estudava não me mostrava esse tipo de literatura que eu achava mais interessante, só umas coisas mela cuecas do Sec. XIX. Eu estudei em escolas públicas, então não havia muito insistência para sermos bons leitores, ainda que a biblioteca estivesse cheia de muitos bons livros. Confesso que cheguei a roubar uma edição da Divina Comédia da biblioteca, quando descobri que o livro nunca tinha sido emprestado. Portanto, se posso dizer, acho que não há regras para ser apresentado à literatura. A poesia é algo que tem a ver com paixão e o primeiro contato com ela é como a primeira experiência sexual, nunca está previsto e tem sempre um risco envolvido. Portanto, ao se ensinar literatura, o professor deveria ensinar também esse gosto pela subversão, pelo risco e pela sedução. Quem ensina poesia deve ensinar a viver no

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limite. Literatura é feita para seduzir o corpo, em seus múltiplos sentidos, e não conformá-lo. Caso contrário, acaba sendo somente mais um dado a ser assimilado, como é a composição molecular da água ou a raiz quadrada de 9. A melhor forma de ser apresentado à poesia é sendo levado a correr o risco de se dar mal por causa dela – como, aliás, aconteceu comigo toda a vida.

Como você decidiu ser poeta? Quem são os poetas e escritores que te inspiraram/inspiram? Não foi uma questão de decisão. Eu simplesmente não sei fazer outra coisa. Ser poeta é uma espécie de enfermidade crônica e degenerativa. Logo, é fácil ser poeta (é só ser fraco o suficiente para não lutar com a doença). Difícil é encontrar motivos para continuar sendo. Eu, particularmente, tenho me apegado à ideia megalômana de que quero construir algo importante – ou, pelo menos, ser adorado pelas mulheres. Algumas inspirações na poesia são Guenadi Aigui, Roberto Juarroz, Stela do Patrocínio, Ana Harley, Roberto Piva, Octavio Paz, Caetano Veloso, Hilda Hilst, Haroldo e Augusto de Campos, Seiichi Niikuni, Bernard Heidsieck, Mathieu Bénézét, Ghérasim Luca entre outros enfermos.

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Quais dificuldades você enfrentou/enfrenta na carreira de escritor? Eu proponho mudarmos a palavra “carreira” por “vida”. Isso porque, em muitos níveis, para o escritor não há diferença entre essas coisas. E, justamente por isso, não há nada que seja fácil na vida de um escritor. Se for, não deveria ser. São as dificuldades que nos ajudam a escrever. E não estou sendo essencialista. Não falo de dificuldades materiais, mas de uma tragédia grega com inúmeras nuanças e reviravoltas que é encenada na alma do escritor e que é fundamental para que saia algo de proveitoso dele. E não é um conflito somente no nível da escrita, mas de tudo o que está em volta dela: a época em se vive; o que se está propondo de realmente inovador e ético para a sua escrita; as elaborações estéticas de seu trabalho; sua responsabilidade ou não com o mundo. Essa é a maior dificuldade na vida de um escritor: descobrir afinal que porra ele está fazendo ali, insistindo naquele exercício do inútil. Mesmo o mais ingênuo escritor que já apareceu na face da Terra (se é que um dia ele existiu) se deparou alguma vez com a dificuldade de entender para que afinal escrevia. E essa, muito mais que as dificuldades financeiras, sociais, de aceitação etc. é o que pode paralisar ou potencializar a “carreira” de um escritor.

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Como funciona a produção do seu trabalho? Quais são as características dele? Acho que meu trabalho parte sempre do exercício da experimentação. A poesia, para mim, nunca está pronta. É algo que estou sempre buscando. Quando encontro uma linha ou uma formula que me deixa satisfeito e consigo explorar com alguma competência, procuro recomeçar do zero e explorar outro caminho onde sou incompetente. É um processo longo e cansativo, pois há sempre muita coisa que não vai dar em lugar nenhum. Eu descarto mais do que publico. Mas para mim o processo é esse, é exercitar o que eu ainda desconheço. Nesse sentido, posso dizer que a característica essencial do meu trabalho é a experimentação. E é por isso que muitas vezes o papel é insuficiente para mim e acabo levando minha escrita para o museu ou para o palco, em forma de instalações, performances, vídeos etc. Mais do que um produto, busco sempre um estado por definir.

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I aqui do estômago desta baleia a cidade é um cardume cintilante e a estátua de drummond tem as costas ao oceano – [as estátuas são para os homens não para o mar] cultivar um peixe por dentro para um dia comê-lo esperando uma mulher surgir da precisão da ossada um dia somos felizes em nosso jardim cetáceo e ela caminha suavemente ao meu lado sonhando o domingo mais triste do mundo no subúrbio do lado de lá um dia estamos na meia idade e bebemos porque não há opção e o guindaste no cais estará esmagado como um inseto morto diante das mil falhas na goela das águas o mar está na foto dos homens não no sonho das estátuas

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márcio-andré O evangelho segundo a água (fragmento)


II : sua voz através do mar é o próprio mar em travessia chamamento remoto de mulher equilibrada nos rochedos é também credível viver fora dos peixes dentro de um farol no extremo das docas e nos encontrarmos agora mais por vício das marés que pelas sutilezas do acaso : o mar está entre nós e por isso nos une : a mesma palavra que cabe em minha boca cabe na dela : em sua boca cabem todos os oceanos :

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III você imersa em um peixe de nervura luminosa de neve e isso é como ser o oceano inteiro seu corpo é de terra mas pertence ao mar mesmo com teu nome e um sorriso tão adentro por uma noite e mil outras noites e é como se fosse a vida toda e eu abriria mão do que vivi até aqui para ter sido outra vez ao seu lado: e renasceria novamente o que é pelo poder líquido da palavra

Você se sente pertencente a algum grupo de escritores ou fase da poesia brasileira? Acho que isso hoje já não faz muito sentido, ainda que o pessoal ande por aí subclassificando o chifre do unicórnio. De qualquer forma, penso que minha situação é também singular, apesar de dividir certos pontos com outros poetas

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da minha geração e de ter feito muitos amigos com diferentes estilos de escrita. Como faço poesia sonora e instalações performáticas, há quem já tenha me chamado de poeta cibernético ou radioativo. Há alguma vantagem em ser classificado, claro. As pessoas conseguem falar tudo de você sem conhecer o seu trabalho; coisa com que os acadêmicos vibram e os poetas aceitam, porque querem ser assim facilmente biografados no futuro. Mas, sinceramente, acho meio besteirol essa coisa de taxonomia dos anjos. Se um dia eu for lembrado, espero que seja como poeta, sem predicativos.

O que você considera como sendo a nova poesia brasileira? Em sua opinião, quais caminhos, assuntos e problemas circundam esse grupo? Quais autores e obras se destacam nessa nova geração? O que você gostaria de encontrar nessa geração e nessa nova poesia que você não encontrou? É uma pergunta difícil. Eu já respondi a ela algumas vezes, mas com o tempo vi como as minhas respostas eram idiotas. A verdade é que estamos ainda muito em cima dos acontecimentos e, por mais que queiramos, é impossível catalogar o presente – se catalogar o passado já é injusto e tendencioso, imagine o presente. Aliás, essa necessidade de catalogar o atual momento é fruto justamente da velocidade com que as coisas estão surgindo. O conceito de geração foi encolhendo em quantidade de anos. Por exemplo, eu comecei a publicar nos anos 2000, quando estava

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na faixa dos 20. Minha geração representava o que havia de mais novo na literatura e foi beneficiada em muito pela internet, pelos blogs etc. Nós mais ou menos nos conhecíamos todos, ainda que só de nome. Era a tal “Geração 00”. Mas, mal entramos na década de 10, eu já me sinto velho e não sei mais quem é quem. Começa a surgir gente nova, gente de que nunca tinha ouvido falar porque, claro, jogava bolinha de gude quando comecei. Mas já estão publicando, montando revistas, sites, blogs, estão interagindo e fazendo as mesmas coisas que fazíamos na nossa época. E gente muito boa, com um potencial cada vez maior se comparado com as gerações anteriores. O nível de exigência e amadurecimento está aumentando e estão trabalhando cada vez mais a sua escrita, o que é muito bom. Por outro lado, gosto dessa outra parte da pergunta, sobre o que espero dessa geração, que acaba sendo, essa sim, uma catalogação do futuro. Porque o futuro tem vários passados e presentes e é aí que devemos construir conscientemente as nossas escolhas. Se posso escolher, eu espero inteligência e autocrítica. Algo que falta na sociedade brasileira como um todo e que tem nos feito seguir caminhos muitas vezes duvidosos. Espero que as novas gerações saibam se mover não pela aparência das coisas, mas pelo que é verdadeiro e essencial nelas, pelo que pode desparafusar as máquinas da realidade, e não mantê-las funcionando. Está todo mundo tão crente nas estruturas midiáticas, jornalísticas, nos pensamentos já pensados e nos processos de canonização que me pergunto sempre se os poetas serão capazes

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de reverter isso. A nossa geração é muito forte em termos de articulação, comunicação e difusão, mas espero que sejamos lembrados pela nossa capacidade de termos, com inteligência e sabedoria, criado um mundo maior para o país – um Brasil além de suas fronteiras e das fronteiras da estupidez. É difícil dizer o que se destaca em nossa geração. São tantos bons poetas que seria até injusto fazer uma lista. Só para efeito ilustrativo, eu citaria alguns nomes que me vem à cabeça agora: Victor Paes, Karinna Gulias, Paulo Ferraz, Marcelo Ariel, Ronaldo Ferrito, Flávia Rocha, Ana Rüsche, Ricardo Domeneck, Donny Correa, Ligia Dabul, Jorge Bucksdricker, Thiago Ponce de Moraes, Aderaldo Luciano, Casé Lontra Marques, Leonardo Gandolfi, Beatriz Bajo, Edson Cruz, Lauro Marques, Wladimir Cazé, Thalles Machado Horta, Mariel Reis, Paulo Scott, Elisa Andrade Buzzo, Bárbara Lia, Alexandre Guarnieri, Rodrigo Petronio, Fabiano Calixto, Anderson Fonseca, Virna Teixeira, Adriana Zapparoli entre muitos outros. Isso para citar só poetas que surgiram comigo ou pouco depois de mim. É difícil mesmo fazer essa lista, o Brasil é um país gigantesco, há muito mais coisas aí, algumas que não consigo lembrar agora e outras que desconheço. Enfim, a lista é conscientemente incompleta.

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Como editar bem poesia nos dias de hoje? Como democratizar a poesia? Como fazer as pessoas prestarem atenção na poesia atualmente? Olha, para falarmos de democratização da poesia, acho importante nos perguntarmos antes o que quer dizer “democratização” e “poesia”. A poesia não precisa ser democratizada, simplesmente porque ela não pode ser apartada de nós. Ao contrário do que costumamos pensar, as pessoas tem contato com poesia diariamente, mas não necessariamente aquela que está nos livros. A poesia está em qualquer parte. O que tem faltado é o olhar correto para enxergá-la. Acho que é sobre isso que deveríamos parar para pensar. O que precisa ser democratizado é a possibilidade das pessoas terem acesso à poesia que está no mundo. Pois ela nos é usurpada diariamente com jornadas alienantes de trabalho; com a televisão; com o sistema de bens de consumo; com a violência e as injustiças; com as estruturas de poder e de conhecimento; com as máquinas de mercantilização da vida; com as fronteiras entre os países e sua balança que varia o valor do individuo conforme sua nacionalidade; com a forma como somos enganados todos os dias pela publicidade e pelos falsos moralistas; com a facilidade que nos deixamos alienar e assumir meias verdades porque é mais cômodo; com maneiras de agir extremamente nocivas a nós e ao próximo. Nesse ponto sou como o Nikola Tesla, que queria energia livre para todos – eu sonho com a poesia livre, não submetida aos “donos” dela. O essencial,

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portanto, não é ter acesso à poesia que está nos livros, mas perceber aqui e agora a poesia do mundo. A questão é que a poesia dos livros tem esse poder de nos ajudar a desvendar a poesia no real ao nos apresentar novas maneiras de dizê-lo. Mas ainda assim essa capacidade não é exclusividade dela e não pode ser restringida, controlada, ofertada ou negada. Portanto, quando falamos em “democratização da poesia”, podemos estar apenas fortalecendo uma estrutura que se formou em torno do poema e que nada tem a ver com a poesia, seja a de dentro ou de fora do livro (um poema pode estar tão sem poesia quanto uma pedra, se não soubermos segurá-los corretamente). As pessoas não precisam ir atrás do poema, é o poema que precisa ir atrás delas. Pois o que a poesia nos ensina é que mesmo essa essencialização e hipervalorização do livro são prejudiciais para ela mesma. No Brasil, sobretudo, onde a cultura letrada historicamente é exclusividade de uma elite, isso fica ainda mais evidente. Não estou fazendo um elogio da ignorância, mas é que até a forma que a democratização do conhecimento é aplicada deve ser repensada, pois na prática não nos tem ajudado muito, mas acentuado justamente esse ocultamento da poesia no mundo. Nossa educação não busca criar melhores seres humanos, apenas cria mão de obra barata para o mercado de trabalho – assim sendo, o livro acaba fazendo com a poesia o mesmo que o coronel faz com a poça d’água para subjugar a população local. E isso é anti-poesia. Enfim, o mundo é poético em sua essência, mas somos sempre levados a não percebermos essa

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poeticidade. É impossível viver fora da poesia. Somos seres essencialmente poéticos, a questão é que muitas vezes deixamos adormecer esse sentido, e isso porque, numa tentativa a qualquer custo de democratizar o livro, acabaram por privatizar a vida.

Qual sua opinião sobre os prêmios literários e o espaço dado a poesia dentro deles? Acredito que são importantes para incentivar a escrita, para dar um empurrãozinho na circulação das obras e deixar o sistema cardiovascular em dia. Mas devemos ter sempre a consciência de que são prêmios das instituições, não da literatura e, portanto, vão buscar premiar mais a instituição “autor” do que propriamente autores reais e suas obras. Muitas vezes, esses prêmios já possuem um olhar preconcebido do que quer premiar. Note que um prêmio cresce em importância, sobretudo, pelos autores que escolhe premiar, então, claro, é mais vantajoso premiar nomes já estabelecidos e consagrados em outra instância do que um autor emergente, por exemplo, ainda que este seja muito melhor que os outros. Isso é até bem evidente e não deve causar muito espanto. O problema é que nós assumimos essa balança das “autocanonizações” com muita passividade. Temos uma tendência a acreditar nas instituições como uma espécie de divindade maléfica: faz mal, mas

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ainda assim deve ser respeitada. E não deveria ser assim. Quando colocamos nossa fé nessas coisas criamos um grupo de gente que se leva à sério demais.

Você acredita na resistência literária? Seu trabalho parte desse princípio? Eu acredito na resistência à estupidez (do mundo, das pessoas, do senso comum, dos poetas, de mim mesmo). Minha poesia é uma constante luta para eu me tornar menos estúpido. É um processo auto-ofensivo de autoconhecimento, um constante tapa na cara para eu mudar a mim mesmo e nunca estar contente com as coisas que conquisto ou acredito. A velha história da metamorfose ambulante, que dizia Parmênides na sua canção. Bem, mas eu acho que essa postura não está restrita à literatura (e menos ainda a minha literatura), mas pertence a um grupo de pessoas no mundo que resistem a tudo o que vem pronto (e que tem falhado estupidamente, como eu). Às vezes, a literatura nem se importa com isso. Resistência para alguns setores literários é meramente um quociente.

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10ª Festa Literária Internacional de Paraty, minha segunda vez nessa viagem, imersão de cinco dias nos assuntos relacionados à literatura. Na outra vez, em 2011, eu não fazia ideia do que encontraria nem do que procurava ao participar das mesas e me hospedar em uma das pensões das famosas ruas de pedra de Paraty. A primeira vez foi maravilhosa, conheci grandes autores, comprei muitos livros e me perdi pelas ruas da cidade. Mas, dessa vez, fui munida de um caderno, várias ideias na cabeça, uma revista literária em andamento e uma vontade muito maior de me perder pelas ruas de Paraty. O resultado disso tudo foi esse diário de bordo da Flip 2012.


abertura (04/07/2012) Tirando minha terrível apresentação à estrada real, intacta desde a época das carruagens de Dom Pedro, a viagem foi tranquila e a pensão da dona Mariazinha continua linda e aconchegante como há exatamente um ano. A tenda dos autores lotada. Parece que estive aqui ontem. Meu encantamento não quer me deixar perder nada. Antonio Cícero e Silviano Santiago fazem uma conferência sobre o autor homenageado da Flip 2012, Carlos Drummond de Andrade. Lembrar a biografia de Drummond e a relação do poeta com o século XX. A Flip anuncia que antes de cada mesa será lido um poema de Drummond, como um mimo aos nossos ouvidos antes de cada conversa entre autores. Sinto que fazemos uma grande viagem quando sentamos nessas cadeiras da Flip e participamos de grandes encontros. Luiz Fernando Veríssimo abriu a noite com um texto diversíssimo sobre sua relação com a Flip e com a literatura e Lenine fecha a noite com um show muito belezinha e com imensa participação do povo que no fim ficou de pé perto do palco cantando antigos sucessos na voz e violão do cantor.

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primeiro dia (05/07/2012) Escritas da Finitude Minha primeira mesa da Flip 2012. Estou aqui assistindo pelo telão, de frente para o mar. Essa primeira mesa me surpreendeu muito, tanto pelo conteúdo das discussões quanto por descobrir autores de grande qualidade que me eram desconhecidos, coloquei os livros deles na minha lista: para serem lidos. Os novíssimos escritores da literatura brasileira Altair Martins, André de Leones e Carlos de Brito e Mello conversam sobre porque precisamos de ficção, e sobre a morte e a importância dela na literatura. Anotei no meu caderninho várias frases que que fui recolhendo e fazem pensar: sempre faço isso como exercício para não perder o que estão falando enquanto formo uma lista de pensamentos. Escrever ao invés de fazer.

— Literatura adia o inevitável: a morte, o transitório, a finitude. — A parede no escuro. Morte anímica. — Frequentemente assassinam nossas coisas. — Mortos ambulantes.

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— A arte de esquecer. — A literatura nos mata - livros que nos matam mais de uma vez — Mortes essências em torno da morte física — Escrever para esgotar aquilo que me propus — A vida continua igual depois da morte, depois da literatura e do livro lido? — Sedimentado, mas não deixamos descansar em paz, estamos sempre escrevendo sobre a morte. — O jogo pode continuar a partir da morte. Possibilidades. Impasses. Impedimentos. — Nós que ficamos que precisamos fazer alguma coisa. — Incorporar a morte — O que nasce depois da morte é a narrativa — A morte revive um personagem — A morte é sem tempo, espaço, já é a narrativa se configurando em tempo, espaço e destino. — A morte é um problema para a linguagem, mas é a condição para morrer. Prosa com vocação filosófica.

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Apenas Literatura Vila-Matas e Zambra em uma mesma mesa. Minha empolgação era mil, já que eu sou uma leitora de Vila-Matas e pretendo ler todos os seus livros. Falaram muito sobre a influência e a importância de outros escritores e o quanto isso traz referências aos livros deles. A metaliteratura que é tema em livros dos dois autores foi muito discutida e mais uma vez a morte foi tema de uma conversa. Para eles os mortos nos ajudam a escrever e o que já foi escrito tem muita importância. Memória, referência e metalinguagem. Como falar de lugares que nunca fomos? Como falar de livros que nunca lemos? - lendo os livros dos dois autores podemos perceber como eles respondem a essas perguntas. Zambra estava bem nervoso e até leu um pouco do seu livro traduzido do português. Vila-Matas e sua personalidade de sempre e seus óculos de sol de sempre. Gostei muito dessa mesa e da discussão sobre metanarrativa e literatura hispanófona.

Literatura e História A história é uma ficção. Ao se voltarem para episódios violentos do passado de seus países, os livros do espanhol Javier Cercas (Anatomia de um Instante e Soldados de Salamina) e do colombiano Juan Gabriel Vásquez (História Secreta de Constaguana) lançam também uma interrogação crítica ao

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presente. Preencher o vazio de como foi escrita a história do seu país influenciou os escritores a escreverem romances que tentam contar como a história aconteceu. Para esse tipo de livro é necessário outro tipo de refinação de texto. Tem-se que trabalhar o livro para descrever fatos históricos ou personagens que só poderiam existir em novelas. Não contar o que sabemos e sim o que não sabemos. Descobrir novos territórios. Coisas que os leitores não vão ler em livros de história. Evitar a redundância e criar uma nova realidade com as coisas poderiam acontecer. Mais uma surpresa no dia, não conhecia os autores e fiquei com muita vontade de lê-los após a discussão enriquecedora e super cativante.

Curiosidades da Viagem Vim com mais dois amigos e estamos hospedados em uma pousada com um quarto kit net. Tem uma cozinha onde nós, por economia, vamos fazer nosso almoço e jantar. Cada um faz seu próprio roteiro do dia e temos liberdade de fazer o que quisermos. Muitas vezes damos voltas pela cidade juntos ou nos encontramos no final do dia para comer e conversar sobre como foi o dia. Na correria nem temos tempo de incrementar muito o cardápio e fazemos macarrão com vários tipos de molhos mesmo. Logo no segundo dia foram anunciados os escritores brasileiros que estariam na Granta e fomos correndo ver se nossas apostas tinham dado certo. O bacana da Flip é que temos a opor-

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tunidade de encontrar os escritores andando ao lado da gente na rua, como alguns dos escolhidos da Granta, que estavam comemorando as boas novas pelos bares ao redor da nossa pousada.

segundo dia (06/07/2012) Drummond – o poeta moderno Uma das minhas mesas favoritas das duas Flips a que eu já fui. Antonio C. Secchin e Alcides Villaça discutem o que significa ser moderno para Drummond abordando tanto os livros mais famosos do poeta quanto escritos praticamente desconhecidos de seus anos de formação. Gostei muito desse encontro não só por serem escritores que estudaram Drummond, mas também porque analisaram meu poema favorito dele, O Elefante. (Poema o elefante/encontro de forças de Drummond/além da matéria há o olhar do elefante, espiritualizado/Rosa do povo - provocações sobre ser ou não político/O elefante andando para fora a procura de amigos em um mundo que não é fácil, onde podemos perceber a condição igual do poema. Reconhecer o outro/ Palavras que são fugitivas da imagem. Elefante faminto do que? Interioridade das coisas, faminto de essência; marca de Drummond, ele quer o absoluto. Problema da figuração. Amanha recomeço/Como poeta só posso fabricar elefantes que procuram amigos. Questão central do poema. Procurar

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um amigo/Rosa para poucos. Cultivar um jardim secreto. Problema que não é resolvido/Prisioneiro e prisão./Drummond funde-se na sua poesia. Criador na coisa criada/Dramatiza um desencontro que é do mundo). Foi um momento muito bonito entender um pouco mais sobre o que o poeta quis passar com aquele poema.

O mundo de Shakespeare Dois dos maiores estudiosos da obra de William Shakespeare, Stephen Greenblatt e James Shapiro discutem como as peças e poesias do autor se vinculam profundamente com as circunstâncias em que foram escritas, ao mesmo tempo em que, ainda hoje, continuam a atrair novas leituras, adaptações e controvérsias. Mais uma grande surpresa. Normalmente compramos os ingressos sem saber o que esperar de assuntos e autores que pouco conhecemos e essa mesa foi um desses exemplos. Eles discutiram Shakespeare e a importância da convivência do autor com outros artistas que poderiam ter colaborado literalmente com sua obra. As palavras criadas por ele e como ser dono de uma companhia influenciava os textos finais. Foi bem bacana saber mais sobre um dos autores mais famosos e importantes do mundo e como existe uma magia e uma busca sempre viva por conhecer a identidade dele e como isso influenciou sua obra.

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Curiosidades da Viagem À noite fomos dar uma volta pelo centro histórico e experimentamos cachaças de várias lojas. Paraty, famosa por suas cachaças, não decepciona no quesito. Comentamos sobre os vendedores super bem informados das livrarias e procuramos aproveitar as caminhadas pelas ruelinhas, apreciando a decoração característica dos bares e cafés.

terceiro dia (07/07/2012) Pelos olhos do outro Ao explorarem diferentes maneiras de apreender a realidade, por meio do mergulho na consciência de seus personagens, os livros de Ian McEwan e Jennifer Egan revelam a necessidade de um distanciamento da perspectiva individual e tentativa de aproximação do alheio. Era umas das mesas mais esperadas por mim. Com a confirmação desses dois autores eu decidi que iria definitivamente a Flip 2012. Cheguei cedo e sentei pertinho dos dois. Não foi uma mesa muito densa, nem foram aprofundados muitos assuntos, normalmente as grandes estrelas e as mesas mais aguardadas são assim. Eles discutiram a construção de personagens, a importância da música em suas histórias e como fazem manipulações literárias através de personagens que muitas vezes fazem vezes de espiões ao nos contar percep-

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ções do livro como um todo. Foram os únicos autores que eu já tinha lido livros e gostado bastante. Particularmente o de Egan, A visita cruel do tempo, um dos melhores livros que li do ano. Sua forma peculiar de construção de narrativa e personagens chamou a atenção do mundo literário e empolgou Paraty em uma mesa ao lado de um dos maiores escritores em língua inglesa atual.

Música para malogrados: conferência de Enrique Vila-Matas Confesso, minha expectativa era gigantesca. Uma mesa só para Vila-Matas. Colocaram uma mesa e uma cadeira no palco e ele sentou lá com seus mesmos óculos vermelhos do outro dia e desatou a ler alguns de seus ensaios. Um deles sobre seu novo livro Ar de Dylan, outro sobre o a literatura e o outro, uma reflexão sobre si mesmo e alguns de seus escritores preferidos como Samuel Beckett, Thomas Bernhard e Roberto Bolaño. Uma das grandes curiosidades da mesa foi quando Vila-Matas contou sobre ser convidado para uma conferência sobre o fracasso e como isso mexeu com seus pensamentos e com sua escrita ao se sentir lembrado como um escritor do fracassou ou talvez fracassado. Foi bem especial assistir a esse momento da Flip. Claro que minhas palavras são de uma fã incorrigível, mas é sempre especial assistir um escritor poder falar sobre assuntos de que se gosta por um bom tempo.

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Curiosidades da Viagem Tiramos a noite para jantar em uma feirinha que tem na área do centro histórico. Encontramo-nos com alguns amigos que foram apenas passar o sábado na Flip e aproveitamos para tirar fotos da cidade. No fim da noite, já tivemos que arrumar nossas malas, pois o dia seguinte já seria o último.

quarto dia (08/07/2012) Drummond – o poeta presente Um outro momento único e especial dessa Flip e decerto de todas as outras foi essa mesa em que Armando Freitas Filho (em vídeo), Eucanaã Ferraz e Carlito Azevedo falaram sobre Drummond, sua poesia e sua influência – inclusive em suas próprias carreiras. Num depoimento em vídeo gravado por Walter Carvalho, Armando Freitas Filho deixou todos com lágrimas nos olhos ao contar suas experiências ao lado de Drummond, principalmente sobre sua morte. Foi bem emocionante. Logo após, Carlito Azevedo leu uma poesia que fez para Drummond e seguiu-se uma grande discussão com Eucanaã Ferraz sobre o que Drummond deixou aos novos poetas e sobre a grandiosidade de sua obra.

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Balanço Claro que nem tudo foram flores e emoções, muitas mesas decepcionam ou mudam o enfoque como a tão esperada de Jonathan Franzen. Grandes surpresas para mim também foram os escritores Teju Cole e os poetas Adonis e Amin Maalouf. Tentei mostrar um pouco disso com essas anotações em formato diverso dos textos jornalísticos sobre a Flip. Não voltei pela estrada real e cheguei em casa com muito livros, novas descobertas e muito aprendizado. Claro, que muita dor nos pés de me perder de propósito pelas ruas de Paraty.

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DESENHOS E PALAVRAS se encontram e formam novas possibilidades de expressão. A união de escritores e quadrinistas vêm estimulando a experimentação literária e trazendo um vasto, curioso e criativo espaço no mercado editorial brasileiro. Nesses encontros, os profissionais fazem do processo criativo uma cooperação e acabam criando obras que só poderiam ser produto desse método específico. Assim como Alan Moore e Dave Gibbons em Watchmen e Neil Gaiman e Dave McKean em Sandman, muitos autores brasileiros híbridos vêm sendo sucesso de público e crítica.

PA RCE R I A

Seguindo a tendência da atual geração, que tem como característica a mistura de gêneros e formas, a produtora de vídeo e conteúdo RT/Features e a editora Companhia das Letras lançaram um projeto de parcerias entre quadrinistas e escritores com o objetivo de desenvolverem graphic novels brasileiras, gênero que está em seu auge no exterior e que não era muito explorado no país. Com o enorme sucesso do primeiro livro oriundo dessa ideia, Cachalote, de Rafael Coutinho e Daniel Galera, outros nomes da literatura e do quadrinho brasileiro foram reunidos pelo organizador desse trabalho, o escritor Joca Terron, para a criação de novas histórias. “Minha parte no trabalho, além de criá-lo, foi unir as duplas de escritores e desenhistas, aprovar o argumento inicial de cada livro e

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acompanhar a realização de roteiro, esboços e arte-final. Após essa etapa, o livro é enviado para a editora para aprovação”, diz Joca. Os próximos lançamentos do selo Quadrinhos na Cia são V.I.S.H.N.U, de Eric Acher, Ronaldo Bressane e Fabio Cobiaco, Campo em branco, de Emilio Fraia e DW, A máquina de Goldberg, de Vanessa Barbara e Fido Nesti, Guadalupe, de Angélica Freitas e Odyr, Mulungú, de Marcelino Freire e Guazzelli e Não me mande flores, de Paulo Scott e Eduardo Medeiros. Todos previstas para o fim de 2012 e começo de 2013.

C A M PO E M BR A NCO

O escritor Emilo Fraia e o quadrinista DW Ribtski estão há quatro anos desenvolvendo a Campo em Branco, graphic novel que conta a história do reencontro de dois irmãos em uma viagem em que buscam algo que nem eles sabem ao certo o que é. "São assuntos presentes na história o tom onírico de um grande pesadelo, o sentimento de como as coisas mudam e se movem, as experiências que não conseguimos retomar, a intimidade forçada e o estranhamento com o outro que é na verdade um irmão. Quis criar e ao mesmo tempo resgatar esse universo quando, ao ser convidado para o projeto, me lembrei de que modo as histórias em quadrinhos estavam presentes na minha vida, muito na relação com meus irmãos e nas viagens em família onde líamos muitos quadrinhos da Disney ou da Turma da Mônica",

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conta Emilio. “Não é uma história com uma lição de vida ou um formato clássico. É a junção de um lado metafísico e de um lado concreto que estão presentes tanto no meu trabalho quanto no do Emilio. É o real e o simbólico em um mesmo plano com um resultado muito bom, com uma originalidade que não procuramos, mas que nasceu dessa parceria", ressalta DW. Emilio e DW acreditam que as diferentes possibilidades dos quadrinhos e da literatura podem ao mesmo tempo limitar e abrir vários aspectos. Nesses projetos é importante que exista um processo de investigação e percepção dos dois artistas e que eles, juntamente, decidam como contar a história. “Lembrando sempre que nesses casos o escritor não vai aparecer no trabalho apenas quando surge um balão para o personagem. As escolhas gráficas e linguísticas são parte de um acordo e de uma parceria entre quadrinista e escritor, formando assim, no final, um projeto que não apresentará aspectos de cada profissional, e, sim, um projeto criado por duas pessoas com as características específicas dessa parceria”, afirma Emilio. A relação dos dois é o principal ponto para o sucesso do projeto, pois cada um tem que não só aceitar, se adequar e se recriar a um novo traço, ritmo e estilo do outro, como também enxergar e entender os interesses do outro e do que querem juntos para o trabalho final. Por isso, ela tem que ser afinada e ter sintonia. Pensar na estrutura da novela gráfica, ou seja, como contar a história através da união

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do desenho e da literatura, com quantos quadros, balões, situações oníricas ou não, etc, é um trabalho detalhista e trabalhoso. É preciso ter em mente como o leitor receberá a história e como ele entenderá o que os autores querem passar com ela e, por fim, como se dará a junção dos desenhos e das palavras. Os procedimentos que farão o leitor conseguir ter uma visualização interessante da imagem tem que ser bem discutidos e minuciosamente trabalhados. Talvez por isso leve-se tanto tempo para criar um projeto como esse. Emilio conta: “tivemos muita sorte, pois a minha escrita combinou muito com o jeito de desenhar do DW, o estilo mais alternativo e com um acabamento não tão perfeito do trabalho dele casou muito bem com a minha forma de enxergar essa história através desse ângulo de sonho e realidade e essa atmosfera de duvida e incertezas”. “O resultado acaba sendo uma nova possibilidade de expressão. A união da arte com as letras proporciona a criação de um novo trabalho, como um novo tempo e um novo espaço, que chegará para o leitor de uma nova forma e será entendido diferentemente do que seria nas formas comuns da leitura de livros e quadrinhos. Ou seja, um, duas, três e milhões de histórias e interpretações se abrem a partir disso”, acredita DW.

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V.I. S.H.N.U.

Outro aguardado trabalho nesses moldes é a graphic feita a seis mãos V.I.S.H.N.U. "O Eric Acher tinha uma ideia para uma história mas não sabia como passá-la pro papel, o Joca me chamou como roteirista e nos 'casou' com Fabio Cobiaco, que é uma verdadeira lenda no universo da ilustração e da HQ, domina todas as técnicas e traços. Pegamos a história, desenvolvemos, criamos os personagens e novas tramas. O argumento virou V.I.S.H.N.U., uma graphic novel de 230 páginas”, conta o escritor e jornalista Ronaldo Bressane, um dos três autores de V.I.S.H.N.U. Ela será a primeira graphic novel de longo curso e de ficção científica lançada no país e também será o primeiro livro de ficção científica lançado pela Companhia das Letras. A história se passa em 2030 quando as pesquisas com inteligência artificial foram proibidas depois que uma IA (Inteligência Artificial) fugiu do controle e provocou vários desastres pelo planeta. Mesmo assim, pesquisas continuaram em centros de pesquisa obscuros, como o Limbo 5, em Trivandrum, na Índia, onde surge uma IA chamada V.I.S.H.N.U., que escapa totalmente do comum. Em Trivandrum, as IAs podem fazer download de tudo, mas não upload. V.I.S.H.N.U. quer garantir acesso aos uploads e para isso sequestra o Limbo. Então o cientista que cuida do Limbo, o americano Leon Wilczenski, chama um neurocientista para tentar resolver o problema, o brasileiro Alexandre Karabalis. Cientistas rivais, eles brigam pelo domínio de V.I.S.H.N.U., que na verdade os manipula. Os fatos

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colapsam quando uma jornalista independente chamada Oriana Skarlat descobre V.I.S.H.N.U e o transforma em um ícone pop mundial. Bressane conta que já tinha lido bastante Moebius, cujas graphic novels, embora silenciosas, possuem uma sofisticação narrativa que transformaram o autor num grande clássico. Mas Bressane só foi se dar conta de que HQ era alta literatura lendo o Monstro do Pântano e Watchmen, ambas de Alan Moore. De lá pra cá sempre quis fazer alguma coisa, mas nunca achava o parceiro certo e, infelizmente, ele não sabe desenhar. Foi quando surgiu o projeto e ele teve que aprender a criar em conjunto um livro com outras possibilidades de linguagem. "Havia sempre a necessidade de pensar em cenas e sequências de ação, porque o argumento é complexo e requer muitos diálogos. Então a história foi sempre sendo pensada de modo a criar uma dinâmica de sequências espetaculares e longas inserções de texto, o que trouxe um ritmo muito peculiar”, diz Bressane. Os quadrinhos, segundo ele, iluminaram totalmente o texto. “Em uma sequência, a inteligência artificial V.I.S.H.N.U. precisava demonstrar que podia agir sobre a matéria, mas ao mesmo tempo ela não poderia ser liberada de dentro do ambiente confinado em que foi criada, por questões de segurança. Então pensamos em um globo de cristal, como se fosse um outro mundo em que os cientistas que queriam entender V.I.S.H.N.U. desembarcassem, como astronautas. Foi uma imagem tão iluminadora que nos levou a reescrever totalmente a passagem. Já nem sei de quem é a ideia já que tivemos que refazer tudo em conjunto", finaliza.

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U M OU T RO PA S TOR E IO

A imersão em outro projeto dessa natureza também pode ser encontrada no livro Um Outro Pastoreio, de Rodrigo DMart e Indio San. Nesse caso os autores aproveitaram a parceria entre quadrinhos e literatura para fazer uma adaptação de uma lenda muito famosa no país, a do negrinho do pastoreio. Foram cinco anos de ideia, busca de referências, pesquisas em campo, trabalho criativo propriamente dito e até estratégias de mercado, como tratativas com editoras, o lançamento de forma independente, turnê e divulgação da primeira edição. "Eu diria que essa fusão entre literatura e quadrinhos se dá com muita experimentação, percebendo as variadas formas com que texto e imagem se relacionam, em que momento eles são complementares ou em quais situações um ou outro deve se sobressair. Um Outro Pastoreio se transmuta em livro ilustrado, livro tradicional de prosa, livro de poesia, novela gráfica e quadrinhos. Mas este foi o nosso processo, um método um tanto caótico", diz o escritor e jornalista Rodrigo DMart. DMart ressalta: "É um jogo com múltiplas trocas e escolhas. Uma cama de gato que vai se modificando junto com o parceiro no projeto. Foi assim com o Indio San em Um Outro Pastoreio. O Indio tem background do design, animação, ilustração digital, conhece as novas tecnologias. Deste modo, realizamos diferentes trocas, pensando sempre na fluência da narrativa do livro como um todo".

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O cenário editorial atual, vagarosamente, está se modificando. Trabalhos como esses que requerem maior investimento de tempo, energia e verba para dedicação estão ganhando espaço e abrindo novas possibilidades. É interessante ressaltar a importância desses projetos e parcerias para as experimentações de todos os artistas e da própria linguagem e do modo de contar histórias. Eles podem atingir diversos públicos e com isso contribuir para a difusão não só da leitura, mas também das experimentações e de novos gêneros capazes de contar histórias de formas originais.

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Às vezes quem manda é a palavra, às vezes quem domina é o desenho.

João Spacca de Oliveira, o Spacca, 48, quadrinista e ilustrador, tem um vasto legado de trabalhos que desenvolvem a linguagem e a experimentação. Consagrado profissional, possui vários projetos que são referências no universo editorial. Filho de uma professora e de um desenhista arquitetônico, Spacca se formou em Comunicação Visual pela FAAP. Começou a carreira como ilustrador, fazendo storyboards para filmes publicitários aos 15 anos de idade. Estreou como cartunista em 1985, no Pasquim, e no mesmo ano venceu um concurso de novos talentos do jornal Folha de S. Paulo, onde trabalhou até 1995. Atualmente se dedica a profissão de quadrinista. Em seu blog www.spacca.com.br podemos encontrar muitos de seus trabalhos e curiosidades sobre sua carreira. Nessa entrevista, Spacca comenta a união dos quadrinhos com a literatura, adaptações literárias e as dificuldades e curiosidades de se criar projetos que inovem, eduquem e transformem o modo de se pensar a linguagem.

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Quais foram seus primeiros contatos com a literatura e com os quadrinhos? Foi na infância, claro; Disney e Maurício de Sousa imperavam, mas outros quadrinhos importantes também, como Mortadelo e Salaminho do espanhol Ibañez, e o mundialmente famoso Asterix, fizeram parte dessa iniciação. Quanto à literatura, ganhei antes de aprender a ler a coleção completa das obras infantis de Monteiro Lobato, que devo ter lido em dois anos. Outra leitura importante não veio da literatura (no sentido estrito de obra artística autoral), mas de enciclopédias e dicionários ilustrados, e obras de não-ficção de ciências para crianças, e outros conhecimentos gerais.

Como se dá a união da literatura com os quadrinhos? A literatura está para os quadrinhos como a música está para a canção. Há formas de arte puras e formas de arte combinadas (fruto da combinação de outras artes). Na canção há música e poesia, na HQ temos arte narrativa combinada à arte pictorial. Literatura e quadrinhos são duas artes narrativas, geralmente publicadas no mesmo meio físico, o livro ou a revista. Literatura, quadrinhos, teatro e cinema têm mais ou mesmo o mesmo objetivo: fazer uma pessoa reviver, imaginativamente, experiências de vida de outras pessoas, reais ou possíveis.

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Como surgiu a ideia das adaptações? E as parcerias? Quando criança, quando era lançado um novo filme da Disney nos cinemas, eu via que a mesma história era contada em filme, HQ, livro infantil, disquinho, e que muitas vezes era adaptação de outro livro, como Pinocchio (de Carlo Collodi) e Mowgli (O livro da selva, de Rudyard Kipling). Teve obras do Júlio Verne (como Vinte Mil Léguas Submarinas) que eu li primeiro em HQ adaptada de filme Disney, depois li o livro, e finalmente, adulto, assisti ao filme. Então o conceito de adaptação de um meio para outro era bastante familiar e, sempre que eu gostava de um livro, queria fazer a adaptação em quadrinhos. Sempre percebi as semelhanças e diferenças entre o livro original e sua adaptação para HQ ou cinema: as mudanças que o novo meio exige, e a história essencial que precisa ser preservada nas diferentes versões. Já as parcerias são fruto dos vários encontros e oportunidades com que vamos topando pela vida. Como eu também faço HQs sozinho (como Santô e Os Pais da Aviação), quando faço uma parceria preciso abrir mão de algumas decisões para deixar o outro participar criativamente. É importante fixar algumas responsabilidades, alguns terrenos onde cada um dos parceiros tem a última palavra, e no meio disso um território comum onde ambos palpitam e negociam os caminhos da obra. A primeira adaptação que publiquei foi na revista Níquel Náusea a adaptação de um conto de Machado de Assis chamado Quem conta um conto, na década de 90. Bem depois, em

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2008, adaptei Jubiabá de Jorge Amado. Com a historiadora Lília Schwarcz, tenho dois trabalhos diferentes: uma parceria (livro feito em co-autoria), D.João Carioca, e agora estou fazendo uma adaptação de um livro já existente, As Barbas do Imperador, que não é um literatura, mas um ensaio histórico-antropológico sobre D. Pedro II.

Como é construir um projeto com outra pessoa pensando nas várias possibilidades expressivas da linguagem e do desenho? Pois é, como eu disse, os parceiros precisam ter suas competências específicas e complementares, como um território comum. E esse território comum é feito tanto de sensibilidade verbal como pictórica. Por exemplo, a Lília Schwarcz não desenha, mas os temas que aborda (a pintura de Taunay, a propaganda no século XIX, a teatralidade da corte, etc) são relacionados à comunicação visual, seus livros são bastante ilustrados, e eu, por minha vez, sou um desenhista que gosta de ler e escrever. Então nós temos esse território comum e, ao mesmo tempo, sabemos fazer obras independentes. A HQ permite, conforme se queira, deixar-se aproximar ora mais da literatura, ora mais do cinema ou do teatro. Num quadrinho a ação pode ser contada em palavras e ilustrada com uma imagem que apenas sugere o conteúdo; e em outro a palavra pode estar totalmente ausente, enquanto o desenho se encarrega de narrar ou mos-

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trar. A imagem também narra, mesmo se não tivermos uma sequência. Uma pintura pode contar uma história, ou pelo menos indicar que algo aconteceu ou está para acontecer. Todo roteiro, mesmo sem sabermos se será filmado, encenado ou desenhado, é uma sequência de cenas, de momentos. Portanto, é possível representá-lo por imagens. Assim, conscientes do potencial narrativo tanto da “linguagem móvel” como da “linguagem estática”, vamos escolhendo qual recurso usar, de acordo com o que cada momento da narrativa sugere ou exige. Às vezes, recursos de cinema (enquadramentos, sequência de planos). Às vezes, recursos de revista (composição da página, design gráfico do livro todo, efeitos da virada da página na narrativa). E, às vezes, recursos literários, quando a imagem se recolhe e deixa a palavra falar.

Como funciona a união da palavra com a forma gráfica? Penso nos códices medievais, aquelas bíblias ilustradas com pequenos desenhos, as iluminuras, e decoradas com grafismos. Todo texto impresso chega ao leitor em alguma forma gráfica e física. Temos o papel, o tipo de letra, o tamanho do livro etc. E, às vezes, temos imagens acrescentadas. Temos aí dois casos distintos: um, quando o texto não precisa de imagem absolutamente. A inclusão de imagens é uma decisão editorial, o texto por si só basta. Temos aí a literatura. A obra de Monteiro Lobato é quase

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toda assim - apenas em raríssimos momentos, ela se completa com imagens, quando Lobato pede ao leitor que veja algum diagrama, como um recurso didático. Mas ela toda se sustenta em palavras e a imagem só entra como atrativo extra para o leitor. O outro caso é o dos quadrinhos, em que a imagem e a palavra se combinam para produzir uma coisa só. Isto quer dizer que a palavra abre mão de contar tudo - e ela é certamente capaz disso - e o desenho abre mão de mostrar tudo - ele pode representar qualquer exterior, mas é capaz apenas de sugerir e indicar o interior, ou as realidades subjetivas e as relações abstratas. Na HQ, forma gráfica e palavra estão unidas como melodia e letra em uma canção. Elas realmente dançam, uma conduz a outra, e podem alternar os papéis ativo e passivo. Às vezes quem manda é a palavra, às vezes quem domina é o desenho. É importante notar que o discurso é algo (como a palavra sugere, “curso”) que percorre um tempo, e imagem, ao contrário, dá-se instantaneamente. Você até pode percorrer com os olhos uma tela de pintura, mas ela está ali estática, mostrando tudo de uma só vez. Assim, a união da palavra com a forma gráfica é a união de um meio discursivo com um meio estático, união que não é problemática, já que cada um contém, de certa forma, o outro (pois o discurso é uma sucessão de momentos, e o estático perdura no tempo).

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Pensar com imagens ilumina o texto? Penso que o que ilumina o texto, qualquer texto, é a experiência vivida contida na memória, é a realidade. É impossível entender um texto só bom base nele mesmo, ou em outro texto. A pura literatura, sem nenhuma imagem desenhada acrescentada a ela por um editor, já utiliza imagens metafóricas, alusões, figuras de linguagem. A metáfora remete a duas experiências simultâneas: quando digo "a aurora da minha vida", remeto às experiências do nascer do sol e à da infância. Imagens são apenas outros símbolos, um símbolo não basta para iluminar outro, quem ilumina e recheia de substância os símbolos é a vida, a existência.

Como é o processo de adaptação das obras clássicas? Primeiro, eu leio o livro como leitor comum; deixo-me conduzir pelo autor, vou imaginando a história à medida que leio, me surpreendendo. Nessa primeira leitura, procuro captar e viver o “espírito” da obra, a personalidade do escritor, seu ritmo peculiar, seu humor; e eventualmente começo a esboçar situações e personagens. Procuro já fixar a aparência dos personagens principais, que deve espelhar seu temperamento, suas emoções. Depois, faço releituras mais técnicas: capto a estrutura geral da obra; releio para anotar detalhes como um personagem se veste, como é

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o cenário de tal cena, etc. Procuro ver a estrutura como uma peça musical ou um filme, analiso o ritmo, os pontos de maior tensão, como se vai construindo o roteiro até o desenlace. É bem isso, vou “sentindo” o ritmo da história como se fosse uma sinfonia; como se fosse um gráfico com altos e baixos, com transições suaves ou repentinas. Com base no “esqueleto” da obra, ou seja, sua estrutura, começo a rechear de “carne” as situações que compõem a história ou as várias histórias entrelaçadas. Vou fazendo versões do roteiro, primeiro como história narrada, depois com diálogos. Conhecendo o conjunto da obra é que sei escolher, do livro, as partes fundamentais. Pois, em geral, é preciso selecionar, cortar. Num livro como Jubiabá, em sua conversão para HQ, preciso encolher, enxugar. Se eu tivesse fazendo uma novela de TV, seria o contrário, teria que esticar, encher linguiça. Essas escolhas são feitas quando a gente conhece muito bem a obra e os recursos e limitações do meio em que a obra será adaptada. Tem coisas na literatura impossíveis de representar e tem experiências que a imagem proporciona que a literatura só pode indicar, não mostrar. Paralelamente vou fazendo a pesquisa. Como acontece na adaptação para qualquer meio visual, há coisas que o autor apenas sugere que o desenhista recomponha cuidadosamente. Por exemplo, se Jorge Amado escreve que “Baldo voltou à ladeira do Taboão” e o leitor imagina uma ladeira qualquer de Salvador, eu preciso desenhar AQUELA ladeira. E se sei que a história se passa nos anos 20. A pesquisa me mostra

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que no Pelourinho naquele tempo tinha postes de iluminação, e que hoje não tem mais; e que as roupas das pessoas eram outras, de vez em quando o escritor diz “fulano tirou o relógio da algibeira” e eu tenho que saber como é que se pendurava o relógio no colete, etc. É um trabalho enorme, mas gosto muito de fazer esse tipo de pesquisa, de reconstrução de época e lugar. Até aqui só falei das necessidades interiores, da obra em si; além disso, tenho em mente os aspectos práticos e comerciais. Por exemplo, a quantidade de páginas aceitável para esse projeto editorial (cerca de 80 páginas), dentro dos limites dos custos editoriais e comerciais, e também dentro dos limites da minha própria produção: precisa ser uma adaptação que eu consiga realizar em um tempo determinado (de um a dois anos por projeto, não exclusivamente). Resumindo, eu adapto com um olho na obra, e outro no editor.

Quais pontos interessantes você destacaria na sua parceria e no resultado do seu projeto? Um deles é a viabilidade desse projeto - refiro-me não a uma obra só, mas à sequência de obras de HQ em formato de livro, lançados pela Companhia das Letras, com biografia, literatura, história etc. Depois de muitos anos dedicados a trabalhos rápidos e de resultado imediato e efêmero - charge, propaganda - este formato de livro em HQ me dá a chance de realizar trabalhos duradouros. Lembro-me do Guimarães

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Rosa, quando disse “não faça biscoitos, faça pirâmides”. Não sou pretensioso como o Rosa nem quero fazer pirâmides, que no fim das contas são só túmulos. Mas acho importante, e raro em nossa cultura, tentar fazer algo que dure. E as coisas que duram precisam ser construídas sobre outras coisas que duram mais ainda. Por isso a ligação com o histórico, com o clássico. Meus livros já nascem velhos, por isso espero que não saiam de moda. É uma carreira que estou construindo, é um aprendizado (que nunca termina) na arte dos quadrinhos que posso levar adiante, é um trabalho que, aos poucos, vai se pagando. É o que eu sempre quis fazer - diante da dificuldade de fazer um filme animado como Walt Disney, e de não saber narrar só com palavras como Monteiro Lobato. Também não sei chefiar pessoas, departamentos - é um trabalho que eu posso fazer do início ao fim e chamar de “obra”. E espero fazer isso por muitos e muitos anos.

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Falar hoje sobre a mãe de João e o meu avô é deturpar o relato com o enfeite da lógica, da retórica e do ritmo, como quando sabe que a plateia ficará impressionada se você deixar as cenas violentas para o final, as mais chocantes e cruéis, as que causam mais identificação e pena um instante antes da catarse, e com o tempo e a experiência e a leitura reiterada de É isto um homem? você aprende a fazer isso muito bem, e reproduzir isso sem que em nenhum momento sofra de verdade, porque o sofrimento se esgota na primeira ou na segunda ou na terceira vez que você narra as atrocidades, a voz grave que você aprendeu a fazer quando informa que um milhão e meio de adultos chegaram a Auschwitz, e começaram a trabalhar, e dormiram e comeram sob o regime do campo, e dá para acrescentar que em poucas semanas esses adultos estavam pesando algo como cinquenta quilos, ou quarenta, ou trinta, e que os funcionários pegaram um a um desse milhão e meio de adultos de trinta quilos, e caminharam ao lado de um a um desse milhão e meio de adultos de trinta quilos, e abriram a porta da câmara para um a um desse milhão de adultos de trinta quilos, e abriram a torneira que fazia sair gás na câmara onde um a um desse milhão e meio de adultos de trinta quilos estavam, você pode repetir isso até cansar porque nunca mais vai sentir o que sentiu aos quatorze anos, ao voltar para casa depois de escrever o último dos bilhetes sobre a mãe de João, e receber o último dos bilhetes com o desenho de Hitler, e entrar no quarto e sentar na cama e ter pela primeira vez noção do que tudo isso significa.”

Diário da Queda

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O ÚLTIMO ROMANCE de Michel Laub, Diário da Queda, lançado em 2011 pela Companhia das Letras, foi uma surpresa da literatura nacional, tanto pelo conteúdo quanto pelo estilo. O personagem principal narra sua história a partir de um acidente com um de seus colegas de sala quando tinham treze anos e vai mostrando como esse episódio teve consequências em sua vida ao longo de décadas. Escrito na forma de um diário em pequenos parágrafos numerados, o protagonista também explora a relação de seu pai, que sofre do Mal de Alzheimer, com seu avô, que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, e sua própria relação com esses outros dois homens. O livro, como dito em sua orelha, é: “uma viagem pela memória de um homem no momento em que ele precisa fazer a escolha de sua vida e tentar explicar como alguém se torna aquilo que é”. Em uma conversa rápida com o autor matei minha curiosidade em relação à criação e ao desenvolvimento dos personagens, o crescimento do personagem principal durante a narrativa e a diante da obra e como, particularmente em Diário da Queda, isso tudo contribuiu para que o livro representasse uma grata surpresa e um outro olhar sobre a narrativa com o uso da língua portuguesa. Michel Laub acabou de ser incluído na edição de Os melhores jovens escritores brasileiros da revista britânica Granta. Nasceu em Porto Alegre, em 1973, é escritor e jornalista e já trabalhou na revista Bravo e no Instituto Moreira Salles. Publicou cinco romances, todos pela Companhia das Letras: Música Anterior (2001);

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Longe da água (2004), lançado também na Argentina; O segundo tempo (2006), O gato diz adeus (2009) e Diário da queda (2011), que sairá na Alemanha, Espanha, Estados Unidos, França, Holanda, Inglaterra, Itália, Israel e Portugal e teve os direitos vendidos para o cinema. Michel contou que, quando pensou em fazer um novo livro, quis explorar uma relação entre avô e neto e planejou um personagem com Alzheimer. Por conta da faixa etária, o pai do protagonista incorporou essa característica. A morte do avô também já havia sido prevista, mas as características dos personagens foram criadas e experimentadas ao longo da escrita, assim como o personagem João, o amigo que sofre o acidente na infância, o único, aliás, nomeado no livro, foi ganhando importância a ponto de sua participação tornar-se essencial no processo de criação. O autor ressalta que "as coisas vão acontecendo e se desenvolvendo e quando você menos espera já vão tomando rumo e a história começa a crescer e ter suas peculiaridades". O tema do judaísmo e do holocausto teve uma abordagem original. Laub optou por não tratar o avô sobrevivente de um campo de concentração como vítima, o que normalmente é muito explorado pelos escritores, mas explorar o ponto de vista de uma pessoa que passou pela tragédia e teve que crescer e viver em um país diferente do seu, com uma cultura inversa e como isso interferiu em suas atitudes e na vida de seu neto. Com experiências e conhecimentos de sua própria vida dentro da cultura judaica, Laub mostra que o neto não conhece em profundidade a história do

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holocausto e não estabelece relações entre a história do avô e a sua. Essa semi-ignorância conduz o leitor a participar dessa descoberta junto com o protagonista. A mesma coisa acontece com sua relação com o pai e com a doença dele. Ao longo de seus relatos no diário o narrador vai aos poucos relembrando essa relação e a ideia de que sempre somos um pouco do nosso passado. Mesmo quando não escolhemos isso vamos sempre ser um pouco daquilo que nossos pais e avôs foram e escolheram.

Do meu pai eu herdei a cor dos olhos (castanhos, meio amarelos em dias de muita luz), o habito de ler (ficção no meu caso, não ficção no caso dele) alguns dos pratos preferidos (churrasco, queijo derretido, arroz misturado com molho de carne e gema de ovo). Sou teimoso como ele. A descoberta do Alzheimer foi o único momento desses quarenta anos em que pensei de verdade nessa teimosia, se é que dá para chamá-la assim, se é que pra creditar a ele o fato de eu ter chegado a essa idade tendo contado ao meu pai a maioria das minhas histórias, cada decisão que eu tomei sobre o que na época parecia relevante, o aluguel de um apartamento, a escolha de uma profissão, a dança de careira e de cidade, o inicio do fim de dois casamentos, os livros que escrevi e as coisas de que mais gostei e aquilo que num telefonema semanal para Porto Alegre resumia o que eu achava que seria gentil contar para ele, ao menos no sentido de distraí-lo e distrair a mim mesmo para que nenhum dos dois precisasse dizer nada sobre o fato de dali para frente seria mais ou menos aquilo, meia hora de

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conversa por semana e mais uma ou duas visitas por ano em que passaríamos um dia rápido e agradável fingindo que o tempo não passou, e que para sempre seria possível eu continuar escondendo dele o meu segredo mais importante, aquilo que de alguma forma sempre definiu o que sou, e que de algum forma também só pode ser explicado por um conceito - uma verdade, uma mentira ou as duas coisas, depende de como você reage a uma cena como a do meu avô caído na escrivaninha.”. (Diário da Queda) “Eu narro em primeira pessoa e tudo o que eu narro e existe nesse livro vem a partir do personagem principal. Coloquei tudo que eu queria colocar”, diz Michel. Talvez, ele disse, só faltou ter trabalhado mais a relação entre homem e mulher do narrador com sua terceira esposa, uma coisa meio Woddy Allen, num tom mais cômico, mas não tinha como sair do tom do livro, que não é esse. “Ele estava fluindo para outra direção e não tinha como mudar isso”, lembra. Uma marca do livro é não narrar a cena e sim narrar o olhar do personagem por cima da cena, o que desobrigou o autor a ter personagens redondos. “Não me interessava muito como era o personagem, mas como ele pensava. Busquei escrever com uma percepção linguística que tenta recriar a linguagem. Em uma conversa uma pessoa não vai te contar como ela é e sim como ela pensa”. Assim não se define muito o personagem, não é preciso deixá-lo pronto ou mostrar o que veio antes ou depois dessas suas memórias. “Às vezes um personagem tem situações simbióticas. É como um rádio, você vai batendo nas bordas e chegando

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ao ponto da melodia que você consegue ouvir. Não sei por que não coloquei um nome nos personagens, talvez porque, quando você vai contar uma história sua, você nunca se posiciona em terceira pessoa”. A narrativa é diferente da vida. O livro é pura linguagem porque você não vai ficar lembrando tudo que girou na sua vida ou de aspas e parentes ou de tudo o que aconteceu ou foi dito. Essa característica utilizada magistralmente no livro dá a ele um ar de novidade e essa surpresa . Para conectar a vida dos três homens, dramatizar e tornar importantes as relações, Michel cria rituais diferentes para cada um e faz com que esses rituais influenciem profundamente a vida deles. “Contar a vida de três pessoas diferentes acabava levando a muita coisa pra se narrar então acabei escolhendo uma coisa para conectar”. O narrador e personagem principal conta suas memórias de forma muito bem planejada, afinal, ele tem que falar sobre isso depois de muitos anos e vai explorando o passado como se estivesse escrevendo um diário no qual ele já soubesse de tudo, mas precisasse escrever coisas essenciais, e onde nos vamos ler apenas o que ele quer dizer. Michel brinca com o fato de que o narrador não quer falar do campo de concentração fazendo com que o modo como o campo aparece no texto seja martelado a partir da escrita pontuada o que leva o personagem a falar do assunto mesmo dizendo que não queria. Essa parte do texto tenta furar a sensibilidade e a instabilidade do que o leitor estava lendo desde então. O livro que é mais realista do que otimis-

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ta cumpre a ideia de mostrar como é a vida de uma pessoa e como ela tem poucos altos, mas que conseguem minimizar os tantos baixos. O final acaba sendo uma carta na manga que apareceu para o escritor durante o processo de escrita e que conseguiu englobar o esquema narrativo de carta tornando tudo arredondado e surpreendente para o leitor.

Há longo prazo a bebida causa diminuição de reflexos, mas não foi por isso que minha terceira mulher fez o pedido. Quem bebe está propenso a desenvolver gastrite, úlcera, hepatite, problemas cardíacos e depressão arterial, desnutrição crônica e comportamento bipolar, cirrose e falência generalizada de órgãos, mas não foi por isso que ela falou que iria embora se eu não a ouvisse. A minha terceira mulher sabia do meu histórico e poderia dizer que eu estava doente, e argumentar que eu não tinha controle sobre nenhum ato, e alegar que na verdade ainda era por causa de João e da lembrança do último dia em que falei com ele, eu com aquela garrafa no quarto, a primeira e a última vez que chorei pelo que me tornaria a partir dali, um choro solitário, em silencio, sem nenhum orgulho nem alívio eu poderia largar o que quisesse, mas não era disso que se tratava: não era apenas questão de escolha, nem de vontade, e sim a condição que a minha terceira mulher propunha para que eu pudesse continuar com ela, e sabendo que continuar seria levar adiante a ideia de termos um filho”. (Diário da Queda)

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Memória de Elefante

caeto

companhia das letras

HÁ UMA SENSAÇÃO estranha na hora que se conhece o autor de uma obra. Maior ainda é a estranheza se você leu e, principalmente, admirou o que preenchiam aquelas páginas que inicialmente se encontravam em branco, pedindo histórias e tintas. Quando conheci o ilustrador e quadrinista Caeto, já havia lido e relido seu livro-diário de estreia pela Companhia da Letras, Memória de Elefante. Engraçado que, no momento do aperto de mão, todo o livro me veio à cabeça. Ele havia escrito e ilustrado um catatau; chamativo, encorpado, que, na capa, possuía um elefante que ao mesmo tempo era envolto - e bem possivelmente engolido - por uma grande cidade. Na época do lançamento, o livro estava na boca da crítica: as resenhas e opiniões de especialistas falavam sobre uma certa originalidade e também delicadeza na forma de retratar a própria história de vida; acho que até diziam palavras como "cru" e "marcante", mas não lembro ao certo se "brilhante" aparecia como uma definição. Na graphic novel, nada de personagem principal inventado e uma narrativa com toques de realidade. Ali há simplesmente o próprio criador num autorretrato extenso, 232 páginas de preto no branco. Nas memórias quadrinísticas de Caeto vemos o autor duro, vivendo em São Paulo, tentando sobreviver tanto na vida quanto na arte, lidando com pais divorciados, a bebedeira, os relacionamentos conturbados e uma banda punk que parecia dar certo.

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Meu encontro com Caeto me fez lembrar - espero que por milésimos de segundo, caso contrário devo ter ficado com cara de paisagem por muito tempo - a primeira vez que o "conheci" através dessas páginas. No primeiro momento estranhei o traço e não achei que os desenhos fossem tão espetaculares. Minto. Logo na primeira página já havia uma diferença na composição do quadro, algo menos quadrado e formal - um padrão de quadros que vemos em muitas HQs -, no entanto o restante das páginas foi tomado por quadros mais comuns. Depois reparei nos desenhos; eles não eram extremamente elaborados, muito menos ousados. Ali se encontrava uma certa verdade no traço, ou a tentativa de transparecê-la. Notei que essa - aparente - falta de experiência era compensada na busca de retratar os acontecimentos através do seu ponto de vista. A narrativa tinha um papel importante. Quando falo dessa busca pela realidade, notei um problema que talvez pudesse ser causado apenas pela falta de prática, algo natural em quem publica primeiro livro. Alguns quadros, situações e conversas soavam desnecessários para o fluxo da história. Algo que me lembrou um pouco um formato de cinema norte-americano de explicar o que não se precisa. O cérebro humano é capaz de perceber sutilezas, pode vagar por entre os quadros, fazendo com que a imaginação preencha lacunas. Quem nunca se perguntou o que acontece entre um quadro e outro? De volta à narrativa, vale notar sua disposição: não se trata da ordem cronológica dos acontecimentos, o começo não é de fato o início de tudo. Caeto não nos apresenta diretamente sua infância, seus pais, sua adolescência ou o início de carreira. O que acontece é uma história mais voltada para o cinema, uma não linearidade dos fatos, o que torna a história muito mais interessante e fluida.

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Um pouco agressivo dizer que o período da vida do Caeto retratado na HQ é praticamente catastrófico. Uma vida ferrada de alguém tentando lidar com situações difíceis no início da vida adulta. Claro que a falta de dinheiro, trabalho e a vida amorosa em ruínas são situações comuns em qualquer pessoa saída da adolescência, só que em Memória de Elefante, Caeto teve que ir além da queda profissional e enfrentar uma tragédia familiar. O pai, um livreiro beirando a falência, era homossexual assumido que mais tarde descobriu ser uma vítima do vírus HIV. Caeto dedicava parte de seu tempo a cuidar do pai, que a cada dia se sentia mais fraco e não queria tratamento. A angustia é transmitida - e sentida - nessa parte da história, tornando-se desfecho para todo o livro. Por mais triste que a história seja, não há como tirar os olhos dos quadrinhos. A narrativa é simples, porém irresistível. Você quer ler mais, saber mais e conhecer muito daquele personagem que poderia ser qualquer um a cruzar o semáforo, vendendo obras de arte na rua ou simplesmente tomando uma cerveja na mesa ao lado de um boteco de esquina. Quando conheci Caeto, não participei diretamente de nenhum desses acontecimentos, apenas pude poder tomar uma cerveja e jogar conversa fora. Tive a chance de conhecer Caeto como quadrinista e como pessoa. Pude ver quem é o verdadeiro Caeto, uma pessoa com uma leve tristeza no olhar. Ele deu um longo abraço ao partir. Até a próxima história.

Rafael Roncato

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LIVRO QUE DEU ORIGEM ao filme homônimo dirigido por Richard Linklater, O Homem Duplo é uma das joias raras da literatura underground norte-americana. Escrito no final da década de 1970 por Philip K. Dick, autor de grandes sucessos de ficção científica adaptados para os cinemas, tais como Blade Runner e Minority Report, a obra acompanha a vida de um agente de narcóticos disfarçado, Fred, cuja missão é desmascarar uma grande rede de distribuição da Substância D, uma poderosa droga psicoativa que causa dependência aguda em seus usuários. O livro todo é ambientado na Orange County californiana do ano de 1994, o que confere à trama ares de ficção científica. Contudo, os elementos modernos da paisagem não são a pedra de toque da narrativa, e é possível notar um forte elemento autobiográfico revelador de passagens da vida de Philip K. Dick. O fim do relacionamento com Nancy, quarta mulher do escritor, no início da década de 1970, levou Dick a imergir em um quadro de profunda solidão. A saída encontrada pelo autor para tentar de escapar da sensação do vazio opressor, foi abrir as portas de sua casa para todo tipo de gente que encontrava nas ruas. Eram em sua maioria jovens com quem o autor convivia, muitos deles usuários ou viciados, que entravam e saíam de sua casa incessantemente. Este capítulo de sua vida teria servido de laboratório experimental para a narrativa de O Homem Duplo, tornando sincera e ao mesmo tempo brilhante sua análise da "cultura das drogas" da Califórnia hippie. Do ponto de vista mais

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O Homem Duplo

philip k. dick editora rocco


pessoal, Dick tivera experiências com psicodélicos como parte da busca por novas experiências sensoriais que marcaram as décadas de 60 e 70. Ele, inclusive, desenvolvera uma dependência crônica de anfetaminas da qual se reabilitara pouco tempo antes de começar a escrever O Homem Duplo. O livro, segundo ele, foi o primeiro romance completo escrevera sem estar sob efeito da droga. O ponto forte do enredo do romance começa quando Fred, cumprindo parte de sua rotina profissional, é incumbido de espionar a si mesmo, ou melhor, o personagem que criou no submundo das drogas. O alter-ego Bob Arctor é suspeito de ser um elo na corrente de abastecimento da Substância D. Fred implanta aparelhos de monitoramento em sua própria casa com o objetivo de editar o conteúdo do material armazenado e entregá-lo às autoridades. Essa sua vida dupla só se torna possível - e esse é um dos poucos elementos de ficção científica pura no livro - devido ao uso que Fred faz de uma roupa especialmente desenvolvida com aparatos tecnológicos. A scramble suit transforma aqueles que a usam em verdadeiros “borrões” ambulantes e falantes. Sua identidade como policial permanece anônima graças ao uso que faz da roupa quando está em serviço, mas é garantida sob o preço de colocar o próprio protagonista em uma aguda crise de identidade, agravada à medida que sua dependência da Substância D aumenta. Isso causa uma separação entre seus dois hemisférios cerebrais, um efeito colateral da droga que o faz confundir a percepção que tem de si mesmo, bipolarizando sua personalidade em dois indivíduos diferentes: Fred e Bob Arctor.

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Não suficientemente traumática até aqui, a trama segue uma vertiginosidade sem fim ao revelar as paranoias e esquizofrenias de um homem encarregado de investigar a si mesmo e os amigos Ernie Luckman e Jim Barris em meio a uma escalada de abuso de drogas e de todos os problemas que isso pode gerar. Fred passa então a levantar suspeitas em todos os lados, e o fato de poder analisar ao fim do dia sua rotina em retrospecto não dá conta de aplacar suas desconfianças, mas, ao contrário, desencadeia em sua mente uma perturbação sem precedentes. Apesar de dramático em certo sentido, afinal, um posfácio inteiro é dedicado àqueles jovens que Philip K. Dick viu serem tragados pelo vício e pela morte prematura por causa das drogas, o autor consegue manter um clima ao mesmo tempo tenso e divertido, salpicado de boas tiradas com comicidade e sagacidade. Nessas tomadas, quem vem para roubar as cenas é o personagem Jim Barris - interpretado nos cinemas brilhantemente por Robert Downey Jr. – uma espécie de viciado esquizofrênico-paranóico cujas habilidades em destrinchar aparelhos mecânicos e tecnológicos e elaborar diálogos mirabolantes é admirável. O amor também tem seu espaço na narrativa, um amor problemático, claro, como não podia deixar de ser, centrado na relação de Fred, ou melhor, de Bob Arctor com Donna, uma típica junkie californiana envolvida com tráfico em pequena escala, que dizem ter sido inspirada em uma jovem companheira que Dick arrumara durante o período em que viveu uma vida semi-comunal com outros jovens após o rompimento com Nancy.

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O leitor mergulha em um mundo de distúrbios psicológicos gerados pelos abusos e desconfianças paranoicas no qual é muito difícil manter-se equidistante. Já foi dito paranoia? Triplique isso! Poucos escritores conseguem transmitir com honestidade as sensações emanadas de percepções tão subjetivas como a paranoia e a esquizofrenia como faz Philip K. Dick. O recurso aos monólogos internos do personagem, que lembra vagamente a técnica que Fiódor Dostoievsky utiliza em Crime e Castigo, de monólogos expiatórios, revela tal qual fizera o russo uma dimensão psicológica muito bem trabalhada nas personagens do romance. Embora um bom número de suas obras tenha sido adaptado para as telonas, Philip K. Dick passou boa parte de sua vida como escritor lidando com o fantasma da pobreza. Suas obras pouco lhe renderam em termos financeiros, e o sonho em atingir o mainstream americano com alguma de suas publicações morreu prematuramente. Qualquer semelhança com Dostoievsky, já citado, é pura coincidência, mas que nos faz pensar a relação em que as dificuldades materiais matérias e psicológicas tornaram mais agudas as percepções de certos escritores. Talvez, para melhor conhecer o humano, alguns tenham tido que descer até os limites que os separam das condições mais sórdidas de existência e emergir com a percepção afiada sobre as realidades mais banais. Philip K. Dick, conseguiu produzir uma pérola da vida junkie, sempre conturbada, porém rica em humanidade. Saindo do meio da ficção científica onde sempre se

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movimentou com grande conforto, o autor nos mostrou um mundo que pode nos dizer muito sobre nós mesmos. O Homem Duplo é um livro imperdível para aqueles curiosos sobre os percalços da mente e suas singularidades.

Thiago Panini

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O Escafandro e a Borboleta

jean-dominique bauby

editora martins fontes

DENTRO DO ESCAFANDRO. Não haveria melhor metáfora para descrever o estado em que Jean-Dominique Bauby se encontrou após ser acometido por um acidente vascular cerebral no dia 8 de dezembro de 1995, que o deixou trancafiado na rara “síndrome do encarcerado”. Um escafandro. A ideia de permanecer dentro do aparelho de mergulho sufoca e parece dar conta de exprimir o que o jornalista francês vivenciou durante cerca de um ano, período em que esteve internado no hospital de Berck-sur-Mer, no norte da França, até sua morte em nove de março de 1997. Mas e a borboleta? Qual seria o sentido em aproximar a leveza, a agilidade e a liberdade desse belo inseto com a rusticidade, o peso e a claustrofobia do estrambótico escafandro? A resposta para tal indagação só se torna consistente após a leitura do livro em que o próprio Bauby concentra algumas memórias de vida e sua experiência como paciente da síndrome do encarcerado. Paciente que não podia mover nenhum de seus membros, mas que tinha perfeita consciência e se comunicava através do piscar do olho direito. Uma piscada significava sim, duas não. Além disso, a fonoaudióloga de Bauby desenvolveu um método para que ele pudesse comunicar-se em outras palavras. Por meio do ditado do alfabeto em ordem de frequência de uso na língua francesa e muita paciência, a médi-

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ca ficava atenta ao sinal do jornalista para parar na letra desejada. Letra por letra, palavra por palavra, período por período. Ao som de uma constante repetição dessas letras, nasceu o livro O Escafandro e a Borboleta. Encontram-se nos capítulos curtos uma forma poética de relatar o que poderia ser monótono e maçante. Bauby intercala o cotidiano do hospital com as lembranças da própria vida. Isso sem que haja um apelo para a compaixão do leitor pelo seu estado quase vegetativo. Não por acaso, o jornalista utiliza-se de certa frieza, ironia e, às vezes, até bom humor para descrever sua condição. Não existe uma tentativa de exaltação do passado ou mesmo de redenção. O leitor é apenas convidado a sentir e viajar nas memórias e imagens do jornalista através do visor redondo do escafandro. De acordo com a ilustração de Bauby, em suas próprias palavras, depois de mergulhar em seu livro, “o escafandro já não oprime tanto e o espírito pode vaguear como borboleta. Há tanta coisa pra fazer. Pode-se voar pelo espaço ou pelo tempo, partir para a Terra do Fogo ou para a corte do rei Midas.” Aí está a imagem da borboleta encaixando-se perfeitamente à do escafandro. A adversidade que não impede a liberdade do espírito. Tão poético quanto o livro de Bauby é a adaptação do pintor norte-americano Julian Schnabel para o cinema. O longa-metragem estreou em 2007 e foi premiado com dois Globos de Ouro (melhor direção e melhor filme estrangeiro), além de três indicações ao Oscar e uma premiação no festival de cinema de Cannes. Schnabel sufoca e, ao mesmo

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tempo, faz e espectador voar numa fotografia meticulosa e bem articulada. O ponto de vista de Bauby, estrelado por Mathieu Amalric, é bastante explorado no filme. Na maioria dos enquadramentos, a íris da câmera assume o olho direito de Bauby e a voz em off de seu pensamento constrói a sensação de interioridade no escafandro do jornalista. Quase todas as memórias do livro estão presentes no filme de forma fidedigna e a montagem nos moldes do cinema moderno só contribui para uma harmonia perfeita do filme com o livro. Em ambos encontra-se a experiência de um jornalista que, nos últimos dias de sua vida, esteve preso em si mesmo, mas que voou na imaginação e fez surgir de um escafandro milhares de borboletas.

Dinoê Urbano

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EM NOTA QUE SE SEGUE ao final de O Lobo da Estepe da edição de 1961, Hermann Hesse demonstra preocupação com a maneira pela qual a sua obra tem sido interpretada desde seu lançamento, em 1927. Ele diz: “Parece-me que, de todas as minhas obras, O Lobo da Estepe é a que vem sendo mais frequente e violentamente incompreendida, e o curioso é que, em geral, a incompreensão parte mais dos leitores entusiastas e satisfeitos com o livro do que com os leitores que o rejeitaram.”. Qualificar o trabalho mais notório do escritor suíço-alemão não é uma tarefa carente de instrumentos. O livro, que é considerado uma das obras cânones do século XX, é um clássico porque envolve aspectos biográficos da vida do autor, faz referências à história política e social de sua época – a Alemanha pré-nazista - e conjuga elementos da ciência da qual Hesse foi apóstolo e que estava em destaque, a psicanálise, na configuração dos cenários, personagens e de sua própria narrativa. A cortina se abre e nós, público, somos apresentados ao enredo por meio de um relato do editor desta obra. O editor mais tarde se revela ser sobrinho da dona de um pensionato no qual Harry Heller – O Lobo da Estepe – se hospeda durante alguns meses. Ele encontra manuscritos que o homem misterioso, de poucas palavras e de aparência ambígua no que se refere à sociabilidade. A nossa primeira sugestão de quem vem a ser Heller é construída pelos rápidos diálogos e impressões do editor-sobrinho. Depois, somos introduzidos às suas anotações.

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O Lobo da Estepe

hermann hesse editora best bolso


O peso das primeiras páginas das anotações de Heller pode fazer com que muitos desistam da leitura ou tentem, em vão, prevê-la em seu restante como uma análise psicanalítica de um personagem cujo pano de fundo está seu próprio autor, que realiza críticas a burguesia, ao seu pensamento e vomita grandes quantidades de uma crítica de arte que faz ode aos clássicos, reprime a bohêmia e lamenta as impossibilidades contemporâneas de se apreciar os grandes gênios da arte. Mas é uma de suas andanças sombrias, solitárias e despretensiosas em que o misantropo Heller se depara com o Teatro Mágico, e com personagens como Hermínia, Maria e Pablo que o conduzirão para significados que fogem à estética elementar do real. O Teatro Mágico questionará o que Heller nos fundamentou como o código da vida erudita, como a verdade absoluta sobre o sentir. O Lobo da Estepe vai além da mera dicotomia entre racionalidade e instinto; entre aparência e interior. Apesar de esta ser uma linha condutora do livro, não é a única e muito menos a regente principal desta ópera cuja orquestra interpreta desde Mozart ao foxtrote. A obra foi escrita em 1927 e é um clássico porque apresenta e critica as premissas modernas, sem necessariamente direcionar-nos a discussões pós-modernas. O caminho do raciocínio não é lógico e nem composto de equações ou dogmas acadêmicos: é escrito com batom em meio a um baile de máscaras.

Mônica Bulgari

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Laíssa Barros

edição, redação e reportagem laissadbm@gmail.com

André Matiazzo

projeto gráfico

matiazzoandre@gmail.com

Rafel Roncato

fotografia

rafael.roncato@gmail.com


Fabrício Marques

orientador do tcc frmarques@gmail.com

Dinoê Urbano Mônica Bulgari Thiago Panini colaboradores

agradecimentos Agradeço meu parceiro André, meu orientador Fabrício, as fotos lindas do Rafael e a disponibilidade dos colaboradores. Minha mãe, minha avó e meu irmão. Minhas professoras Joana Benetton Junqueria e Maria Rita Palmeira. Meus amigos, todos os meus 24 entrevistados e todos que diretamente ou indiretamente contribuiram para que o sonho Rubato virasse realidade. Obrigada!



Rubato