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Catálogo g

LAB Land Art Brasil |

natureza & criação

Primeira edição

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#1 Clovis Martins Costa #2 Felipe Cidade

LAnd Art 2.0 As obras de arte tentam responder os enigmas que o mundo propõe para engolir os homens. O mundo é a esfinge, o artista, seu Édipo cego, e as obras de artes parecem a sua sábia resposta que joga a esfinge no abismo. Então toda a arte se levanta frente a mitologia. » Adorno, PNM, p. 141.

Criar frente ao vazio, nessa página escrita por uma mão que não é somente nossa: a natureza, ampla e viva, movimentada e curiosa. Trata-se de um questionamento sobre si mesmo quando um artista enfrenta-se com o vivo porque sempre tem um fator que ele não domina, mas o jogo é mesmo de aceitar essa força que vai transformar não só a obra, mas também transformar o artista. Criar com a paisagem é aceitar esse acaso e fazer-lhe um elemento constitutivo da sua obra. A base de todo impulso criativo se encontra na nossa angústia e na nossa necessidade íntima de se religar ao mundo, necessidade de “ralliance” como explica Edgar Morin no seu texto. A arte questiona antes de tudo o artista e sua/nossa posição frente ao mundo. Muitas vezes se ouve falar da Land Art como uma disciplina ultrapassada, nascida numa época que não existe mais, porém como não perceber nas paisagens rasgadas do MarcoPolo Braga, nas sinuosidades do rio Tietê de Guillermo von Plocki ou nas planícies arenosas do Guaraci Gabriel? Como não perceber nessas paisagens a mais extraordinária das plataformas criativas? Na origem deste catálogo existe uma necessidade minha de conhecer e de entender aqueles que têm, como eu, as paisagens como espaços criativos, essa nova guarda do subtexto das paisagens. Não se trata mais aqui de criar com os materiais presentes in situ, como antes (o próprio termo de land art é conservado para sua essência prima da palavra land, a paisagem), mas sim de intervenções, de instalações, de desvios e até mesmo, às vezes, de destruição. Pouco importa o purismo da obra, importante é o impacto e o questionamento que ressoa em nós. Questionar a paisagem é questionar o mundo. O ser é então enraizado culturalmente e socialmente na paisagem. Um é o fruto do outro: a observação e as tomadas de graduações criam a paisagem que, portanto existe somente através nosso olhar cultural e por essa camada de imaginação que aplicamos: esse palimpsesto composto de nossos saberes, experiências e vivências com a cultura. Sem esse olhar não existe paisagem. Tem uma existência, é claro, mas de um espaço sem denominação. Um índio não olhava da mesma forma as cataratas de Iguaçu que os portugueses de Cabral, por exemplo. Isso porque o que habitava a paisagem era um olhar diferente, um genius loci diferente, ou seja, uma arte diferente. O artista absorve a paisagem na sua obra, regurgita-o e transforma-o diante dos nossos olhos. As pinturas de Gauguin do monte Sainte Victoire, no sul da França, deixaram nos nossos olhos os toques de cores pastel. Sendo assim, o que vemos não é a montanha como ela é, mas através do olhar do artista. As criações desses 11 artistas procuram essa capacidade de transformar nosso olhar sobre o mundo, de reformar nossa capacidade reflexiva sobre a natureza, sobre nós, o objetivo é a metamorfose. Eles se jogam por inteiro nas paisagens, confrontando e transformando-as, nos deixam com esse eco sensível que a arte na paisagem, a land art, é mais que nunca uma arte que liga o mundo ao Homem.

Edgar MORIN, « Ethique » La Méthode, T.VI 2005, p 115

Mathieu Duvignaud 2013

Notre civilisation sépare plus qu’elle ne relie. Nous sommes en manque de reliance, et celle-ci est devenue besoin vital; elle n’est pas seulement complémentaire à l’individualisme, elle est aussi la réponse aux inquiétudes, incertitudes et angoisses de la vie individuelle. Parce que nous devons assumer l’incertitude et l’inquiétude, parce qu’il existe beaucoup de sources d’angoisse, nous avons besoin de forces qui nous tiennent et nous relient. Nous avons besoin de reliance parce que nous sommes dans l’aventure inconnue. Nous devons assumer le fait d’être là sans savoir pourquoi.

#3 Felipe Góes & Marcelo Maffei #4 Guaraci Gabriel

Arte e design COGNIÇÃO, CIÊNCIA E VIDA COTIDIANA Humberto MATURANA

#5 Guillermo von Plocki #6

A arte surge no design, surge no projeto, mas a experiencia estética ocorre no bem-estar e na alegria que vivemos em estar coerentes com nossas circunstâncias. Assim, a arte tem a artificialidade da intenção, expressão ou objetivo, e tudo pode ser um meio para sua realização. Como tal, a arte existe no domínio psíquico da cultura na qual eia ocorre, a menos que haja a intenção ou objetivo de acabar com esse seu trazer à mão algumas dimensões relacionais da vida humana ou alguma oportunidade para a reflexão. Nós, humanos, vivemos experiências estéticas em todos os domínios relacionais nos quais lidamos. É devido ao fundamento Fernando Limberger biológico da experiência estética, bem como ao fato de que tudo o que vivemos como seres humanos pertence à nossa existência relacional, que a arte se entrelaça em nossa existência social e nosso presente tecnológico em qualquer época. Afirmo que a emoção que constitui a coexistência social é o amor. E o amor é o domínio desses comportamentos relacionais através dos quais um outro ser surge como um legítimo outro na coexistência com alguém. Uma vez que diferentes tecnologias abrem e feMarcelo Armani cham diferentes dimensões relacionais, elas oferecem diferentes possibilidades de coexistência social e não social, bem como diferentes possibilidades para o artista criar a experiência relacional que ele ou ela pode querer evocar. Em todos os casos, entretanto, o que quer que ele ou ela faça, o artista será um criador co-participante de alguma realidade virtual que pode MarcoPolo Braga ou não tornar-se uma realidade fundadora no curso da realidade humana. O artista não está sozinho nisto, é claro. Todos nós, seres humanos, e independentemente de estarmos ou não conscientes disso, somos co-criadores no fluir das realidades variáveis que vivemos, mas os artistas estão numa situação bastante peculiar. Os artistas são poetas da vida cotidiana, que mais do que outros seres humanos agem com projetos intencionais e, portanto, o que fazem para o curso Mathieu Duvignaud da história humana não é normalmente trivial. Os artistas, como poetas da vida cotidiana, vêem ou captam as coerências do presente que a comunidade humana à qual pertencem vive, revelando-as, de acordo com suas preferências e escolhas de um modo de viver.

#7

2013

LAB www.facebook.com/ LandArtBrasil

mathieuduvignaud@ gmail.com

#8

#9

#10 Rita Machado

#11 Thiago Bender Natal RN 2013


RS

Clovis Martins Costa

#1 Clovis

Martins Costa 38 anos Nacido em 1974, vive em Porto Alegre - RS - Brasil Desde 2000, venho investigando a construção do campo pictórico por meio do contato entre a superfície da lona crua com a margem do Rio Guaíba, na cidade de Porto Alegre. Através da disposição do tecido na margem, acontece a infiltração de água e de matéria trazidos pelo rio (areia, objetos, material orgânico e resíduos industriais). A ideia de contato se amplia, na medida em que não só o depósito de material concentrado ativa o campo pictórico, mas a própria experiência do estar à margem contamina o meu pensamento. É necessário salientar que a experiência só é possível quando há contato. Para haver contato torna-se necessário que um corpo toque outro corpo. Ao tocar o tecido, o rio aciona processos de troca e transformação, e vice-versa: o tecido também toca a água, provocando uma leve (quase micro) alteração no movimento-rio.

clovismartinscosta@gmail.com

Parceria com o artista Rogério Severo


SP

Felipe Cidade

#2 Felipe

Cidade 23 anos Nacido em 1989, vive em São Paulo - SP - Brasil A pesar de utilizar o desenho como uma prática diária, o artista não é preso a uma linguágem específica, sendo assim, tendo trabalhos de desenho, video, pintura, foto, colagem, objeto, performance, site-specífic, e outros - nos trabalhos de Felipe Cidade, é comumencontrar em seus trabalhos materiais efêmeros e comuns da rua, como papelão, fósforos, concreto, guardanapo de buteco, tijolo baiano, etc. - nos levando a repensar a matéria efêmera em uma tentativa utópica de mostrar que o sistema do homem têm problemas, e essas problemáticas precisam de atenção. Felipe por acreditar que a arte só existe por causa dos problemas que existem no mundo, relaciona seus trabalhos e pesquisa a uma possibilidade de que o homem e sua sociedade pode melhorar e compartilhar um espaço sem nenhum conflito, mesmo estando consciente de que isso é uma utopia sistemática.

fcidade.wix.com/todoartistaeidiota vimeo.com/user9894366/videos


SP

Felipe Góes & Marcelo Maffei

#3 Felipe Góes Marcelo Maffei Felipe Góes 30 anos Nacido em 1983, vive em São Paulo - SP - Brasil Marcelo Maffei 29 anos Nacido em 1984, vive em São Paulo - SP - Brasil O trabalho “Paisagem: tempo em suspensão” foi apresentado na Praia do Forte em Natal/RN para o Edital Arte Praia 2013, organizado pela Casa da Ribeira com patrocínio da Funarte. O projeto consistia no posicionamento de três cubos coloridos na praia, sendo que as pessoas eram convidadas a adentrar os cubos. Dessa forma, o trabalho foi ao mesmo tempo uma intervenção visual na paisagem e também a possibilidade do publico observar o cotidiano de uma forma diferente.

fmgoes@yahoo.com.br www.fgoesarte.blogspot.com marcelomaffei@hotmail.com

O trabalho pode ser analisado conceitualmente sob duas chaves de interpretação. 1) a força da cor e 2) o tempo em suspensão. ArtePraia segunda edição


RN

Guaraci Gabriel

#4 Guaraci

Gabriel 52 anos Nacido em 1961, vive em Natal - RN - Brasil

Com a habilidade de um ourives, ele transforma ferro-velho em verdadeiras obras de arte. Utilizando como matéria-prima a sucata, o artista plástico vem esculpindo ao longo de duas décadas diversos monumentos históricos. O seu talento já é reconhecido mundialmente, desde 1998, quando entrou para o livro dos recordes por ter produzido, com material peculiar, a maior escultura já vista até hoje, intitulada de «Guerra e Paz». O escultor inspira-se no pintor espanhol Salvador Dali, em sua irreverência e criatividade. Ele já colocou a Brasília (automóvel) crucificado na Via Costeira, em Natal e Rosas de aço na ponte de Igapó. O artista levou três anos para erguer a mais alta escultura do planeta, a obra Guerra e Paz. Porém, com uma semana depois de publicado no Guiness World Records, as autoridades políticas da época ordenaram que ele retirasse o monumento de 24 metros de altura e 54 toneladas.

guaracigabrielartesvisuais. blogspot.com/


SP | Argentina

Guillermo Von Plocki

#5 Guillermo

von Plocki 55 anos Nacido em 1958 , vive em são Paulo - SP - Brasil .

Guillermo von Plocki creó siempre acuarelas con técnicas tradicionales
pero lo que nunca pensó es que su imaginación lo llevaría a realizar una, con el agua de los ríos y los pigmentos de la tierra, en un papel de grandes dimensiones acorde con el paisaje del lugar elegido.
Desde el río de Tanti en Córdoba a la naciente del Tietê en el estado de San Pablo, pasaron tres años y hoy nos presenta una serie de imágenes de sus obras y el registro de sus acciones, sumergiendo ese papel en el agua y frotándolo sobre las piedras con sus propias manos. 
Su desplazamiento de viajero con esos rastros en un rollo de papel hasta Buenos Aires desde San Pablo donde reside, se puede analogar con las aguas que bajan desde el sur del Trópico de Capricornio, se disuelven en el Río Paraná y se unen finalmente en nuestro Río de la Plata.
 
 Nora Dobarro, texto para exposição Rastros, Buenos Aires, 2007

guillermovonplocki.com/site/


ArtePraia segunda edição

SP

Fernando Limberger

#6 Fernando

Limberger 51 anos Nacido em 1962, vive em São Paulo - SP - Brasil Fernando Limberger, artista plástico e paisagista, iniciou sua pesquisa artística no início dos anos 80, quando começa a trabalhar em diferentes meios, como desenho, escultura, pintura, instalação e intervenção, muitas vezes em parceria com outros profissionais. Sendo a natureza e seus desdobramentos tema recorrente em seus trabalhos, a partir de 2002, passa a desenvolver projetos em paisagismo, realizando intervenções em espaços públicos e privados além de projetos específicos para jardins residenciais e comerciais. Ao longo de sua trajetória profissional, tem realizado diferentes oficinas para públicos diversos com temas relacionados a arte, jardinagem e paisagismo.

fernandolimberger.wix.com/fertil


RS

Marcelo Armani

#7 Marcelo

Armani 35 anos Nacido em 1978, vive em Canoas- RS - Brasil

Marcelo Armani é artista sonoro e músico improvisador. Possui registros fonográficos editados na Argentina, Brasil, Chile, Venezuela, México e Espanha. Seus projetos e pesquisas estão apoiados no diálogo entre peças sonoras e suportes visuais. Na conversão de elementos industriais em estruturas orgânicas. Um conjunto que mergulha na psique urbana, na memória, em aglomerações, nas relações entre objeto e indivíduo. Em Campo Elétrico #02 (fotos) intervenção sonora aplicada no II Arte Praia, o artista se apropria da paisagem acústica local e a utiliza como base para produzir texturas através de manipulações sonoras e composições. Todo o resultado é enviado em tempo real a uma série de autofalantes inseridos em diferentes pontos do ambiente.

m.amani78@gmail.com marceloarmani.hotglue.me/ 1take.hotglue.me

ArtePraia segunda edição


MG

Marco Polo Braga

#8 MarcoPolo

Braga

33anos Nacido em 1980, vive em Brumadinho - MG - Brasil Sua pesquisa inovadora ,busca nos modelos microscópicos a inspiração para sua criação contemporânea. Ele desenvolve uma pesquisa transdisciplinar envolvendo aspectos artísticos, científicos e biogeográficos e coloca em questão a proximidade e a influência dos microrganismos na própria evolução humana. Simboliza a vida em sua arte representando formas biomórficas.Aglutinação,hemólises,fluxos e vivacidade estão quase sempre inseridos no contexto criativo do artista.Propõe questionamentos ambientais cotidianos, que nem sempre são exteriorizados para a maioria da população.Realiza um trabalho sustentável reaproveitando resíduos laboratoriais e também utilizando a cerâmica como suporte e substrato.

marcopolobraga.com.br


RN | França

Mathieu Duvignaud

#9 Mathieu

Duvignaud 37 anos Nacido em 1976, vive em Natal - RN - Brasil. Mathieu Duvignaud trabalha com a perspectiva da transformação dos elementos, as suas instalações sempre se transformam ao longo do tempo. O processo criativo tem assim seu foco na transformação contínua da obra e não somente na obra acabada. Olhar o mundo como um elemento vivo e aceitar o acaso das transformações e das interações nas instalações é o tema que segue o artista desde seus primeiros trabalhos. mathieuduvignaud.com


RN

Rita Machado

#10 Rita

Machado 27 anos Nacido em 1986, vive em Natal - RN - Brasil O projeto de intervenção Entrelinhas e peixes levou à praia de Ponta Negra (Natal-RN) uma enorme pescaria. Peixes produzidos com materiais reciclados e com sensores magnéticos foram dispostos em uma área de terra. O publico leitor teve a disposição uma vara de pesca e um fone de ouvido. Ao pescar o peixe – puxar o peixe através da linha com a vara – o leitor aciona um dispositivo que emite através do fone de ouvido uma historia fantasiosa/lenda, narrada por um pescador de Ponta Negra. São 7 (sete) histórias e cada peixe carregará uma delas. O peixe ainda possui um QR-Code que leva o leitor a conhecer o pescador através do blog www.entrelinhasepeixes.blogspot.com.br

ritamachado.xpg.com.br

ArtePraia segunda edição


SP

Thiago Bender

#11 Thiago

Bender

35 anos Nacido em 1978, vive em São Paulo - SP - Brasil Thiago Bender dedica seu tempo criando objetos e imagens onde pouca gente consegue ver que dali pode sair alguma coisa. O que caracteriza, basicamente, seu trabalho é seu caráter sustentável. São muros descascados, plásticos que se transformam em qualquer coisa, desde passarinhos até seres humanos, land arts (desenhos em areia, terra, etc.), etc. facebook.com/thiago.bender1


próxima cidade edição & criação setembro 2013

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