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Um espetáculo que celebra as origens da arte circense e a importância do palhaço Por Matheus Lima

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daptação da ópera I Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo, a peça homônima é um espetáculo de celebração ao circo brasileiro e um reconhecimento do palhaço como artista. Escrita por Luís Alberto e dirigida por Chico Pelúcio, a peça foi criada em comemoração dos 20 anos do grupo La Minima, composto por uma dupla de palhaços que têm como objetivo valorizar a arte circense e aplicar em suas obras as diversidades dramatúrgicas dos elementos desse contexto através do humor do palhaço. Com essa base, Pagliacci conta a história de uma trupe de palhaços que busca o reconhecimento como artistas e, para isso, começam a trabalhar em um espetáculo que foge dos clichês humorísticos e tentam inserir drama em seus diálogos. A todo momento, os palhaços, que querem ser levados a sério pelo seu trabalho, demonstram de forma simples e delicada, a comédia desse mundo. É algo natural, que está na essência deles, e quanto mais tentam adentrar no drama, mais fazem o público gargalhar com a inocência presente nessa arte. Esse contraste entre drama e comédia que o elenco trabalha é, com certeza, o ponto alto da peça. Não há como não rir quando Silvio, palhaço atrapalhado e que sofre por uma paixão, tenta impressionar seu grande amor, Neda, palhaça que está presa em um relacionamento e vive em busca de um motivo para ser feliz. A interpretação dos dois atores dá todo o tom da peça, mostrando drama e comédia sem ficar algo forçado. Aliás, Neda, interpretada brilhantemente por Keila Bueno, apresenta uma personagem complexa que, em seus diálogos, faz com que o público se emocione e reflita sobre a constante busca de felicidade em que o ser humano se encontra. Em uma de suas cenas, a jovem pergunta a Strompa (outra personagem que rouba a cena, aliás), se um dia será feliz, e é nessa pequena fala que nos conectamos com a personagem e o dilema em que ela se encontra. Mas se Neda oferece o drama com seu romantismo e sensualidade, é Silvio que se destaca com a mistura

Divulgação

entre drama e comédia. As caras e bocas de Fernando Sampaio demonstram um domínio da arte circense e seu arco narrativo é, de longe, o mais divertido. Além da arte, a peça aproveita alguns momentos para falar de feminismo e da independência da mulher. Stronda, é a personagem que mais exemplifica isso. Surgindo como a mulher barbada, ela foge dos estereótipos que cercam o ideal feminino e junto de seu parceiro, Tonio, palhaço assanhado e um pouco machista, a moça dá boas lições nele. Mas além do roteiro, a parte técnica do espetáculo é algo que merece ser mencionado. As músicas que acompanham os diálogos se encaixam perfeitamente nas situações vividas. Temos até alguns números musicais, muito bem coreografados e mesmo que alguns atores não sejam dançarinos, percebemos a sincronia do elenco. Os instrumentais ao vivo demonstram a versatilidade do elenco que, além de atuarem, dançarem, cantarem, ainda aproveitam algumas cenas para tocar instrumentos. São artistas em sua forma mais completa.

Já o cenário é rico em detalhes e o jogo de luz de Wagner Freire, criando sombras e dando destaque para determinados espaços do palco ajuda o público a não se perder em meio de tantos objetos e coreografias. E os figurinos de Inês Sacay são simples e transmitem de forma precisa a personalidade de cada personagem. Pagliacci é, em sua essência, uma bela homenagem aos artistas circenses e, sobretudo, aos palhaços. A peça nos diverte e em meio ao seu melodrama humorístico, carrega uma mensagem poderosa de que o riso pode ser o melhor caminho para a felicidade. Ao final, saímos com a sensação de que o palhaço brasileiro, assim como os demais artistas, merecem mais reconhecimento. E assim como o palhaço Peppe disse em seu prólogo: “A vida não é uma ópera, como queria Machado de Assis, mas um circo, e somos todos palhaços", percebemos a importância de rir de si mesmo e como esses artistas são capazes de tirar um pequeno sorriso do mais triste dos seres humanos, e só por isso, o trabalho deles já vale a pena.

“A peça é um espetáculo de celebração ao circo brasileiro e um reconhecimento do palhaço como artista”

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Um espetáculo que celebra as origens da arte circense e a importância do palhaço  

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