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E N T R E V I S T A

Mídia vs Paradigma Ambiental Washington Novaes

Paulo Skaf

Sustentabilidade é desenvolvimento Meio Ambiente & Economia

O valor da floresta em pé Meio Ambiente & Política

Município Verde e Azul Meio Ambiente & Social

Terceiro Setor

Votuporanga ensinando o Brasil a reciclar

I Fórum de Sustentabilidade Industrial


“O meio ambiente nas esferas econômica, política, social e cultural.”


E d i t or i a l

Revista Especializada em Meio Ambiente Entregamos a vocês leitores, um pioneiro veículo regional de divulgação e estratégia de marketing voltada à temática ambiental e sua integração com os setores econômico, político, social e cultural. A Ecologic Revista surge como um braço da Ecologic Projetos e Consultoria Ambiental, uma empresa de Votuporanga que atua na busca do desenvolvimento, qualidade, equilíbrio e sustentabilidade tendo como foco a adequação ambiental de seus clientes em todo território nacional, sempre em conformidade com os princípios de sua missão, com as normas e legislações vigentes. Buscamos uma abordagem inteligente e dinâmica da visão socioambiental no meio empresarial, público, acadêmico e terceiro setor. Queremos ainda permitir a inserção dos anunciantes em um conceito de sustentabilidade ambiental frente às atividades que desenvolvem. Nesta primeira edição da Ecologic Revista, teremos em seu conteúdo a divulgação e discussão de novidades, programas e projetos socioambientais veiculadas ao setor empresarial produtivo, industrial e de serviços, bem como junto às iniciativas e decisões promovidas por órgãos públicos, academia e terceiro setor. Os conceitos de sustentabilidade são integrados às diferentes esferas sociais através de matérias jornalísticas, entrevistas, artigos de opinião e científicos, ensaios fotográficos, agenda de eventos ambientais e notícias da área ambiental. Gostaríamos de dar as boas vindas aos nossos leitores e aproveitar para agradecer àqueles que acreditaram no potencial da Ecologic Revista e que fizeram esta revista acontecer. Aos patrocinadores e colaboradores que são de extrema importância e acrescentaram conteúdo de qualidade a esta revista, o nosso muito obrigado!

Equipe Ecologic Revista Fone 17 3421-4905 Rua Tietê, 3349, Sala 2, Centro, Votuporanga / SP revista@ecologicambiental.com.br www.ecologicambiental.com.br

e x pe d i en t e »» Primeira Edição (1000 exemplares) Periodicidade: Bimestral Direção »» Rafael Sanchez Navarro (rafael@ecologicambiental.com.br) »» Ricardo Zaccarelli Filho (ricardo@ecologicambiental.com.br) »» Tainá Barreto (taina@ecologicambiental.com.br) Jornalista Responsável »» Fabiola Fiorentino (MTB 44.302)

Colaboradores »» André Takahashi »» Mirian Grejanim »» Pedro Hauck »» Rodolfo Gomes

Produção »» Fone (17) 3423-2863 www.uparte.com.br Impressão »» Fernangraf Fone (17) 3442-3288 Rua Espírito Santo, 840 CEP 15.600-000 - Centro Fernandópolis - SP


Índice Mídia vs Paradigma Ambiental ENTREVISTA

Washington Novaes

M eio A m b iente

& Economia O valor da floresta em pé,

& Política Município Verde e Azul,

06 Notas 38 Ensaio fotográfico 50 Agenda 58 Charges

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Votuporanga: prêmio inédito,

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& Social visão geral sobre o Terceiro Setor,

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Artigos Rafael Navarro

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Evento 1º Fórum de Sustentabilidade Industrial em Votuporanga Panorama Um mundo de energia limpa é possível

Faces da Sustentabilidade Empresarial Ricardo Zaccarelli Filho

Ecoturismo Pantanal, patrimonio natural da humanidade

O Desafio da Biodiversidade

Paisagem Socioambiental Tragédias ambientais e a tragédia do dia a dia no Brasil

Paulo Skaf

Casa & Verde A moderna construção sustentável Científico Benefícios ambientais do uso de tecnologias na pecuária Congresso Congresso discute Brasil sustentável

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Sustentabilidade é desenvolvimento

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Miriam Bento Grejanim ARBORIZAÇÃO URBANA

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Cartas

“Com muita satisfação recebemos a Ecologic Revista, pois demonstra a iniciativa e preocupação regional de integrar o setor empresarial produtivo com a sociedade. O cuidado com nosso meio ambiente definirá, no futuro, a sustentabilidade e qualidade de vida de todos, fazendo com que consigamos não parar de gerar riquezas e tão pouco destruir e poluir a natureza.” Pedro Scamatti Filho, Mineração Grandes Lagos Ltda

“A Ecologic Revista vem preencher vácuo existente na informação sobre assuntos concernentes ao meio ambiente, aspecto econômicos, sociais, empresariais correlacionando os vários atores sociais com a quebra do tabu historicamente existente quanto a possibilidade de convivência harmoniosa entre técnicas ambientais de manejo adequadas para preservação e restauração, aliadas à resultados econômicos satisfatórios, afastando a dicotomia aparente dos diversos setores e atores em busca da compreensão do que significa desenvolvimento sustentável, princípio que afirma a existência única de corpo e alma.” Diretor CBRN Regional RP (Coordenadoria de Biodiversidade e Recursos Naturais), Eng.º José Orlando Mastrocola Lopes

“A questão ambiental vem-se constituindo em pauta permanente da civilização contemporânea, notadamente pela degradação acentuada e crescente observada no meio ambiente, causada, principalmente pela ação predatória daqueles que vislumbram o lucro imediatista sem preocupação com o futuro e as condições de sobrevivência das espécies viventes de nosso planeta. Assim, a divulgação da matéria ao maior número de pessoas tem importância fundamental na conscientização, na proteção e na concretização de ações que possam cercear a degradação ambiental e recuperar a fauna, a flora, em benefício das gerações futuras. Parabenizo, portanto, a Ecologic Revista pela contribuição que oferece à sociedade, com vistas ao alcance de resultados ambientais positivos, basilares para a preservação da vida na Terra.” Deputado Federal João Dado, PDT/SP

Secretário de Meio Ambiente da Saev Ambiental, Geól. Gustavo Gallo Vilela

“Não é de hoje que se tem debatido os impactos negativos da cultura do consumo e descarte e seu respectivo modo de produção no socioambiente. Normalmente, as informações até vêm, porém, desconectadas, fragmentadas, e não nos permitem uma análise crítica da realidade. Preocupar-se com o ambiente é não só uma questão filosófica, mas a prazo, uma questão de sobrevivência harmônica da nossa espécie. Ter acesso a informações de teor ambiental, entender a conexão entre todas essas coisas, ter novo repertório que oriente hábitos e costumes é necessário para cumprirmos com esse desafio de fazer da nossa cultura uma nova cultura, apoiada em valores como solidariedade, justiça e equilíbrio. Uma revista como essa pode ser um passo de uma longa caminhada, mas não há caminho que se percorra sem que se de os primeiros passos.” Fabrício Zambon, Coordenador de Assuntos Internos, Instituto Ambiente em Foco

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Reitor da Unifev, Profº Doutor, Marcelo Ferreira Lourenço

“Toda matéria importante na vida das pessoas tem que abrir mão de uma ou mais vias de comunicar seu conteúdo. Inegavelmente, o meio ambiente afeta tudo e todos e nosso interior de SP, que nos últimos anos vem dando lições de sustentabilidade ambiental, merecia uma publicação deste nível, com pessoas sérias e comprometidas. Parabéns pela iniciativa e tenham em mim e na entidade que represento um leitor e colaborador.”

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“Como Reitor da Unifev, uma Instituição que tem como um de seus principais valores a preservação da natureza, quero parabenizar a iniciativa da publicação Ecologic Revista voltada para os assuntos socioambientais e colocar-me à disposição para juntos fomentarmos a educação ambiental, o desenvolvimento sustentável e de novas tecnologias ambientais, incentivando nossos docentes e discentes para que se apliquem nos estudos mais aprofundados que os editores da publicação solicitarem à nossa comunidade acadêmica, como veículo de divulgação cultural e científica para o Estado de São Paulo.”


Nota A GESTÃO AMBIENTAL NA EMPRESA

O ANO DAS FLORESTAS Seguindo a recomendação da Organização das Nações Unidas (ONU),

que declarou 2011 como o Ano Internacional das Florestas, o Brasil prepara uma série de atividades para este ano. O país é detentor da maior área de florestas tropicais do planeta e o segundo em extensão de florestas, perdendo só para a Rússia, onde predominam as florestas temperadas. Acreditamos que a maior ação para este ano em prol das florestas é o impasse no Código Florestal.

MINISTRA PEDE QUE A POPULAÇÃO AJUDE COM A COLETA SELETIVA DO LIXO

A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, afirmou no dia 5/6, em pronunciamento em homenagem ao Dia Mundial do Meio Ambiente, que a população precisa colaborar com a coleta seletiva de lixo. A ministra pediu que a população “pense junto” a questão do lixo, considerada pelo governo como “um dos mais graves problemas do planeta”. Segundo a ministra, cerca de 183 mil toneladas de lixo são produzidas por dia no Brasil, sendo que boa parte deste material não é reaproveitado.

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EMISSÃO VEICULAR

O problema da poluição do ar tem-se constituído numa das mais graves ameaças à qualidade de vida de seus habitantes. As emissões causadas por veículos carregam diversas substâncias tóxicas que, em contato com o sistema respiratório, podem produzir vários efeitos negativos sobre a saúde. Só o estado de São Paulo enfrenta uma situação particularmente preocupante por deter cerca de 40% da frota automotiva do país. Transporte coletivo de qualidade já! O meio ambiente agradece.

Hoje, milhões de pessoas em todo o mundo lutam por esta nobre causa, tentando mostrar os perigos iminentes de uma postura agressiva ao meio em que vivemos, e os riscos concretos que corremos. Esta consciência coletiva vem crescendo dia-a-dia, transformando culturas, quebrando velhos paradigmas e obrigando todos a darem sua colaboração por uma justa causa, a saúde do nosso Planeta.

ADEUS SACOLAS PLÁSTICAS

A partir de 1º de janeiro de 2012 as famosas sacolas plásticas não poderão ser mais oferecidas em lojas e supermercados da capital paulista. O objetivo dessa lei é diminuir os impactos ambientais gerado por essas sacolas. Seu descarte indevido polui e degrada o ambiente, além de demorar aproximadamente 400 anos para se decompor. A opção para o consumidor será o uso de sacolas de papel, tecido ou de plástico biodegradável, oferecidas e/ou vendidas por alguns estabelecimentos comerciais. Diga-se de passagem, como nos velhos tempos.


even t o

1º Fórum de Sustentabilidade Industrial em Votuporanga A sustentabilidade industrial tem sido foco das discussões sobre a temática que envolve questões não apenas ambientais, mas que também visam o crescente lucro, ou de condições favoráveis às indústrias. Uma das perguntas centrais das discussões em torno do desenvolvimento sustentável das indústrias é a de como é possível torná-las ecologicamente éticas e ao mesmo tempo produtivas? Esta será uma das questões debatidas no 1º Fórum de Sustentabilidade Industrial, que será realizado em Votuporanga, pela Ecologic Projetos e Consultoria Ambiental no dia 17 de junho, às 7h30, no Centro de Convenções “Jornalista Nelson Camargo”. O evento terá a participação ilustre do empresário Ricardo Young, além de profissionais renomados representando universidades, órgãos ambientais e grandes empresas do segmento ambiental. Ao longo do dia serão abordados temas como: Sistemas de Gestão Ambiental, Certificações, Desenvolvimento Sustentável, Resíduos Industriais, Áreas Contaminadas, Legislação Ambiental, Prevenção e Controle de Poluição, Produção mais Limpa dentre outros.

Objetivo É provado que o empresário ou grupo empresarial que se propõe a investir na qualidade da gestão da empresa tem maior valorização no produto, redução de custos, credibilidade perante seus consumidores, maior facilidade de acesso a programas de financiamentos e maior aceitação no mercado externo. Para isso, é preciso que se ofereça aos empresários, informação, conhecimento e, principalmente, recursos para iniciar a implantação dessas políticas econômicas, sociais e ambientais, contribuindo para o desenvolvimento regional. O I Fórum de Sustentabilidade Industrial vem de encontro ao auxílio de esclarecer e assistir aos interessados em adequar seus empreendimentos na área ambiental, otimizar processos, reduzir gastos, produzir produtos de boa qualidade, ecológicos, concomitantemente com a diminuição dos impactos ambientais gerados pela empresa, expansão nos negócios e por fim a busca pela sustentabilidade.

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Ricardo Young é empresário, graduado em Administração de Empresas pela FGV, presidente do Conselho Deliberativo do Yázigi Internexus; foi presidente da Associação Brasileira de Franquias (ABF). Foi presidente do Instituto Ethos; conselheiro das organizações Global Reporting Initiative (GRI) em Amsterdam, Holanda, Accountability, em Londres (Inglaterra) e Grupo de Zurich (Suiça). Nas eleições passadas foi candidato ao Senado por São Paulo pelo Partido Verde.

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Ricardo Young


panorama Relatório de energia:

energia limpa Um mundo

com

é possível

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geração de energia elétrica de forma renovável é ingrediente chave para reduzir as incertezas quanto à segurança energética, poluição e às mudanças climáticas.

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Eficiência energética em edificações, veículos e indústria seria um ingrediente chave, ao lado de geração de energia elétrica de forma renovável e fornecida por meio de smart grids (redes inteligentes), para fazer face ao aumento da demanda mundial por eletricidade. De acordo com a visão desenhada pela Ecofys, em 2050 a demanda total de energia será 15% menor do que em 2005, a despeito do crescimento da população, da indústria, das necessidades de transporte e da energia que estará sendo fornecida àqueles que hoje não se beneficiam dela. O mundo não mais dependerá de carvão ou fontes nucleares, enquanto regras internacionais e cooperação entre os países limitarão o dano ambiental potencial representado por hidrelétricas e pela produção de biocombustíveis.


Todo esse cenário permitiria a redução de emissões de carbono em cerca de 80% até 2050, mantendo o aquecimento do planeta abaixo dos 2ºC – considerado o limite máximo para evitar um dramático o futuro ambiental para o mundo. Por gerar a maior parte de sua energia a partir de usinas hidrelétricas, o Brasil tem certa vantagem competitiva rumo à concretização da visão apresentada pela Ecofys. Mesmo assim, o país precisar reforçar sua vocação como provedor de energias limpas e sustentáveis. Para isso, precisa ampliar seu parque de fontes renováveis não-convencionais, garantir a sustentabilidade no crescimento do setor de bioenergia e intensificar ações de eficiência energética. “O relatório demonstra que o planeta pode, sim, ter economias vivas e energia limpa, barata e renovável, nos próximos quarenta anos”, disse Denise Hamú, secretária geral do WWF-Brasil.

Brasil na frente O fato de o Brasil produzir eletricidade a partir de hidrelétricas dá ao país certa vantagem competitiva rumo à concretização da visão da respeitada consultoria Ecofys. “Entretanto, não podemos nos acomodar, porque estamos sujando nossa matriz energética e claramente temos oportunidades de diversificação de nossas fontes, com mais investimentos eficiência energética e em energias renováveis modernas, como a eólica, solar e solar-térmica”, avaliou Carlos Rittl, coordenador do programa de Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil.

“O mundo está cada vez atento a cada tonelada de gases de efeito estufa jogada na atmosfera e seus impactos no aquecimento global”, disse Carlos Rittl. Dividido em duas partes, o relatório contém análise e cenário detalhados, apresentados pela Ecofys, e uma avaliação do WWF. O documento demonstra que, até 2050, as necessidades de eletricidade, transporte, energia industrial e doméstica, poderiam ser supridas com uso apenas residual e localizado de combustíveis fósseis e nucleares, reduzindo drasticamente as incertezas quando à segurança energética, poluição e às catastróficas mudanças climáticas. Eficiência energética em edificações, veículos e indústria seria um ingrediente chave, ao lado de uma geração de energia elétrica de forma re-

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Futuro otimista

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O fato de o Brasil produzir eletricidade a partir de hidrelétricas dá ao país certa vantagem competitiva

Rittl destaca, ainda, que a demanda mundial por bioenergia irá crescer muito. Como os biocombustíveis serão uma parte cada vez mais importante na matriz energética mundial, cabe ao Brasil fazer sua expansão neste setor, seguindo critérios rigorosos de sustentabilidade, sem pressão sobre os ecossistemas naturais.


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novável e fornecida por meio de smart grids (redes inteligentes), para fazer face ao aumento da demanda mundial por eletricidade. De acordo com a visão desenhada pela Ecofys, em 2050, a demanda total de energia será 15% menor do que em 2005, a despeito do crescimento da população, da indústria, das necessidades de transporte, e a energia estará sendo fornecida àqueles que hoje não se beneficiam dela. O mundo não mais dependerá de carvão ou fontes nucleares, enquanto regras e cooperação internacionais limitarão o dano ambiental potencial representado pela produção de biocombustíveis e hidrelétricas.

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“Neste relatório, não estamos deliberadamente assumindo metas extravagantes sobre os benefícios das tecnologias que ainda virão, disse o diretor da Ecofys, Kees van der Leun. “Trata-se de uma estimativa moderada sobre a energia renovável da qual poderemos desfrutar em 2050. A Ecofys entende que as soluções para o desafio energético global estão ao alcance das nossas mãos. Existem inúmeros sistemas que usam energia de forma mais eficiente, o que nos permite administrar as atuais fontes de energia mais cuidadosamente. Além do mais, entendemos as oportunidades de uso de uma enorme quantidade de energia sustentável que nos cerca”, disse. O fornecimento de energia confiável, barata e limpa na escala necessária demandará um esforço mundial, similar à resposta do mundo à crise financeira global. Mas os benefícios seriam muito maiores no longo prazo, e a economia realizada com custos mais baixos em energia irá equilibrar o total de novos investimentos em energia renovável e eficiência energética até 2040. E mais: a economia de recursos financeiros em relação à maneira tradicional de produzir energia será de cerca de quatro trilhões de euros até 2050.

Outros benefícios virão da prevenção de conflitos relacionados à segurança energética, desastres ambientais e à escassez de recursos decorrentes da redução da disponibilidade de combustíveis fósseis e dos desafios ambientais e políticos. Igualmente importante é o fato de que o cenário do Relatório da Energia permitiria assistirmos a uma redução de mais de 80% nas emissões de carbono até 2050, o que elevaria o grau de confiança de que o aquecimento global seria mantido abaixo dos 2ºC reduzindo os riscos inaceitáveis de uma catástrofe ambiental global. “Viveremos de forma diferente, mas viveremos bem”, disse Jim Leape. “Temos que fornecer energia a todos sem colocar em risco nosso planeta e, isto, nosso relatório mostra que é possível”.

Saiba mais Relatório de Energia, 2050; Um Mundo com Energia Limpa é possível em 2050, fevereiro/2011. WWF Brasil.


ECOTURISMO

Turismo Ecológico Por Tainá Barreto, Bióloga

Cada vez mais se tem escutado falar sobre o Turismo Ecológico. Ele vem crescendo e se expandindo no mundo todo. Atraindo turistas preocupados com o meio ambiente e que queiram explorar lugares belíssimos. É considerada uma atividade sustentável de exploração e conservação dos recursos naturais, afinal, respeita e envolve as comunidades locais, as condições naturais e conserva o meio ambiente e interação educacional.

Tainá Barreto é bióloga pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Consultora Ambiental da Ecologic Projetos e Consultoria Ambiental, Pesquisadora e Colaboradora da Unicamp & IDRC/Canadá (Institute Development Resourch Canada)

Turismo Ecológico pode trazer benefícios às populações locais com geração de emprego e renda

Os principais objetivos do Ecoturismo

Dicas para o Ecoturista

»» Promover e desenvolver turismo com bases cultural e ecologicamente sustentáveis;

»» Planejamento é fundamental;

»» Promover e incentivar investimentos em conservação dos recursos culturais e naturais utilizados; »» Fazer com que a conservação beneficie materialmente comunidades envolvidas, pois somente servindo de fonte de renda alternativa estas se tornarão aliadas de ações conservacionistas; »» Ser operado de acordo com critérios de mínimo impacto para ser uma ferramenta de proteção e conservação ambiental e cultural; »» Educar e motivar pessoas através da participação e atividades a perceber a importância de áreas natural e culturalmente conservadas.

»» Você é responsável por sua segurança; »» Cuide das trilhas e dos locais de acampamento; »» Traga seu lixo de volta; »» Deixe cada coisa em seu lugar; »» Seja cortês com outros visitantes; »» Não faça fogueira;

A Embratur define o Ecoturismo como "segmento de atividade turística que utiliza de forma sustentável, o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista através da interpretação do ambiente, promovendo o bem-estar das populações envolvidas”.

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O turismo Ecológico pode trazer benefícios também às populações locais como, novas oportunidades de empregos, geração de renda extra, preservação de patrimônios históricos e culturais, valorização da região entre outros.

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»» Respeite os animais e plantas;


ECOTURISMO Pantanal

Patrimônio Natural da

Considerado Patrimônio Natural da Humanidade pela Unesco, motivado pela preservação do meio ambiente. O Pantanal possui uma biodiversidade extremamente rica, espécies de plantas e animais tornam-se incontáveis aos olhos dos turistas.

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Seus campos alagados, sua vegetação com influência da floresta Amazônica, Cerrado e Caatinga, fazem do Pantanal um lugar único e pode ser contemplado o ano todo. O equilíbrio vai depender das águas e das épocas chuvosa e/ou seca. Durante a seca ou inverno podemos observar os extensos campos de gramíneas e vegetação do cerrado, espécies resistentes à falta de água, os bancos de areias e ilhas descobertos e os rios e lagoas perenes, com seus leitos bem definidos. A seca pode ser tão intensa sendo necessário recorrer aos estoques subterrâneos da região. Na época chuvosa ou verão poucos dias de chuva já são suficientes para encharcar o solo pantaneiro. A baixa declividade de sua planície e a dificuldade de escoamento das águas faz com que quase toda sua

terra se transforme em um imenso mar. Lagos, rios e riachos se unem permitindo o encontro de diversas espécies, um dos motivos do Pantanal ter fauna e flora com grande diversidade. Os bancos de areia e as ilhas são formados dando abrigo a muitos animais que ali se refugiam, outros necessitam atravessar longas distâncias em busca de um local seguro para sua sobrevivência. O melhor período para conhecer a fauna e flora das terras pantaneiras é na época da seca. Onde os animais são encontrados com mais facilidade, encantando os turistas.


Humanidade

Fonte: Magalhães, Nicia Wendel de. “Conheça o Pantanal”. 1992. São Paulo, SP: Terragraph. 1992. Embratur – Ministério do Turismo

As opções de lazer no Pantanal são muitas, é possível conhecer e explorar a região de maneira sustentável. Dentre os passeios podemos destacar »» Cavalgada; »» Caminhadas nas matas; »» Manejo de gado; »» Observação de animais e pássaros; »» Focagem noturna de animais; »» Passeios de barco e charrete; »» Safári fotográfico; »» Canoagem;

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“No Pantanal, uma das mais belas regiões naturais do nosso país, a grande variedade de fatores ambientais determina condições para a coexistência de milhares de animais e plantas, numa contínua explosão de vida. Quem vai ao Pantanal entende, com facilidade, que na natureza tudo tem ligação e que, interferências estranhas podem, também facilmente, romper seu equilíbrio. As cores, sons e formas que se sucedem em espetáculos de beleza constante, provocam um grande impacto nos visitantes. Surge neles a vontade de ampliar os conhecimentos sobre os personagens e melhor compreender os mecanismos responsáveis por toda a riqueza e complexidade da região”, diz Nicia Wendel Magalhães, Conheça o Pantanal.

A culinária pantaneira é uma das mais ricas do Brasil, uma mistura de etnias da herança indígena, influência da população local e também das regiões fronteiriças, Paraguai e Bolívia. Muitas receitas fazem sucesso, a maioria com carne, por causa da atividade intensa da pecuária e receitas com peixes da região como o pacu, pintado, dourado. Também o famoso suco ou caldo de piranha, arroz carreteiro, frutas como o pequi, o guaraná e doces da época.

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»» Pesca esportiva e recreativa;


meio ambi en t e & econom i a Romeu Thomé é doutorando em Direito pela PUC-MG, mestre em Direito pela UFMG e especialista em Direito Ambiental pela Faculdade de Direito de Genebra, Suíça. É advogado e professor de Direito Ambiental em cursos de Graduação, Pós-Graduação e preparatórios para concursos públicos. É autor de diversos artigos sobre Direito Ambiental e co-autor da obra “Direito Ambiental” publicada pela editora Juspodivm.

O valor da floresta em pé

A ideia é atribuir valor econômico ao bem ambiental preservado

Por Romeu Thomé, doutorando em Direito

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om o advento da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 as normas de proteção ambiental são alçadas à categoria de normas constitucionais com a elaboração de capítulo especialmente dedicado à proteção do meio ambiente, tema que permeia todo o texto constitucional. A constitucionalização do meio ambiente no Brasil proporcionou um verdadeiro salto de qualidade das normas de proteção ambiental a partir do momento em que os grandes princípios ambientais são içados ao nível constitucional, assumindo um posto eminente, ao lado das grandes liberdades públicas e dos direitos fundamentais. Na atuação do Poder Público, as normas constitucionais de proteção ambiental legitimam e facilitam a intervenção estatal em favor da manutenção e recuperação dos processos ecológicos essenciais. Eis aí um benefício decorrente da constitucionalização do meio ambiente. A atuação do Estado, a partir da Constituição de 1988, deve sempre estar direcionada à implementação do princípio do desenvolvimento sustentável e à proteção do meio ambiente saudável.

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Para tanto, o Poder Público utiliza-se de uma série de instrumentos, como a regulamentação, a fiscalização e o controle das atividades potencialmente degradadoras do meio ambiente. Mas vale ressaltar a crescente utilização, em todo o mundo, de mecanismos complementares, como os mecanismos econômicos de proteção ambiental. A ideia é atribuir valor econômico ao bem ambiental preservado. Na Suíça, os camponeses estabelecidos nos arredores dos Alpes recebem isenções tributárias para que mantenham preservado o cartão postal do país. Nas proximidades de Nova Iorque, as propriedades rurais que contribuem para a preservação das nascentes e olhos d´água também são recompensadas economicamente. Há uma inegável economia de recursos

públicos, tendo em vista os custos para a preservação serem muito menores do que os custos de reparação do meio ambiente degradado. Além disso, práticas ambientalmente sustentáveis são implementadas à medida em que os seus “responsáveis” são compensados economicamente. Resultado final dessa equação: todos saem ganhando. O Plenário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo aprovou, em fevereiro de 2011, dispositivos legais que regulamentam o pagamento por serviços ambientais. O objetivo da proposta é “adaptar


Mas o valor da floresta em pé não pode ser quantificado pelos reais recebidos pelos proprietários conservacionistas. O real valor está na preservação das folhas verdes das copas das árvores, no dourado

A proteção dos recursos naturais com o pagamento por serviços ambientais tem o claro intuito de valorizar ainda mais o maior bem: a vida.

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Trata-se de um exemplo a ser seguido em todo o País. O pagamento àqueles que prestam serviços de proteção ambiental é um instrumento econômico de incentivo aos proprietários de terras na tentativa de estimulá-los a implementar práticas sustentáveis. Os proprietários são recompensados economicamente por manter a floresta em pé.

reluzente do mico-leão, na riqueza ainda desconhecida do patrimônio genético da fauna e da flora e na transparência cristalina da água. O pagamento por serviços ambientais apresenta-se como importante instrumento complementar de implementação dos princípios da prevenção e do desenvolvimento sustentável.

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o fundo para sua utilização em operações financeiras relacionadas ao pagamento por serviços ambientais, admitindo o recebimento de receitas relacionadas a esses serviços, bem como a previsão de pagamentos não reembolsáveis aos proprietários rurais conservacionistas que participem de projetos na condição de provedores de serviços ambientais, previstos na Política Estadual de Mudanças Climáticas, instituída pela Lei 13.798/2009”.


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Mídia vs Paradigma Ambiental

Washington Novaes Por Fabiola Fiorentino

Aquecimento global, tempestades, enchentes, terremotos têm se tornando assuntos frequentes na mídia mundial. Os desastres naturais deixaram 295 mil mortos e causaram um prejuízo de US$ 130 milhões em 2010, segundo relatório da seguradora alemã Munich Re. Enfim, não dá mais para ficar indiferente às discussões sobre a preservação do meio ambiente. Falar de meio ambiente tornou-se uma obrigação e a mídia não está fora deste debate. Pensando na região Noroeste Paulista, a Ecologic Revista foi criada e traz em sua primeira edição uma entrevista com um dos nomes mais importantes e respeitados na área. O jornalista Washington Luiz Rodrigues Novaes trata com destaque os temas de meio ambiente e povos indígenas. Atualmente, é colunista dos jornais O Estado de São Paulo e O Popular, consultor de jornalismo da TV Cultura, documentarista e produtor independente de televisão. Por sua trajetória de mais de 50 anos de jornalismo, Novaes desperta o interesse de muita gente, seja dando entrevistas, consultorias ou proferindo palestras em empresas, ONGs e universidades. “Trato dos temas ambientais porque acho difícil falar de economia, de política de qualquer coisa sem falar sobre meio ambiente”. É desta forma que o jornalista explicou à Ecologic o motivo de sua dedicação ao assunto. Na entrevista, ele fala ainda sobre políticas públicas, emissão de poluentes, tragédias ambientais e o papel da mídia brasileira e dos cidadãos nesta luta por dias melhores.

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Após concluir o curso de Direito, como foi a escolha pela causa ambiental como comunicador?

Me formei como Advogado e já trabalhava como jornalista na Folha de SP. Fiquei uns três anos um pouco indeciso sobre que rumo tomar, me dividindo entre as duas coisas. Advogava durante o dia e trabalhava como jornalista à noite. Depois, decidi optar por jornalismo. Hoje, eu não sou ambientalista, eu sou apenas jornalista e trato dos temas ambientais porque acho difícil falar de economia, de política de qualquer coisa sem falar sobre meio ambiente. Eu penso que tudo o que o ser humano faz tem impacto sobre os meios físicos, sobre o solo, a água, o ar, sobre os outros seres. Esses impactos foram se tornando cumulativos e cada vez mais fortes e eu acho impossível tratar de qualquer outro tema, economia, política, social ou cultura, sem tratar também desses impactos. Nós temos

Com mais de 50 anos no jornalismo, Washington Novaes é referência em discussões sobre meio ambiente


Acho que isso não é só um papel de mídia ambiental, é um papel de comunicação como um todo. Todos os veículos têm que falar disso porque a questão é muito grave. O Koff Anan, ex-secretário da ONU, um homem muito inteligente, diz que os problemas centrais de hoje são mudanças climáticas e consumo de recurso além da capacidade de produção do nosso planeta. Quer dizer, estamos consumindo 30% a mais do que o planeta pode repor. Estas duas questões ameaçam a sobrevivência da espécie humana. Isso é muito grave e configura uma crise nos nossos padrões de vida. Os nossos modos de viver não são compatíveis com as possibilidades do nosso planeta; são inadequados. Falar disso é uma tarefa de todo jornalista. Nos últimos anos, a mídia tem aberto mais espaço para a causa ambiental. Como o senhor analisa a atuação da mídia brasileira neste sentido?

A consciência da sociedade cresceu muito e avançou muito e pede informação, uma vez que os acontecimentos são cada vez mais graves e é impossível ficar indiferente a eles. O reparo que eu faço é que a comunicação de modo geral trata do meio ambiente nos momentos de grandes crises, catástrofes, grandes emoções e, passados estes momentos, se deixa de lado aquele assunto quando na verdade, eles teriam que ser acompanhados previamente. Por exemplo, há dois anos houve o desastre na Serra Catarinense e as condições para aquilo não se formaram da noite para o dia. A ocupação de encostas, beiras de rios, se dá ao longo de décadas; a mesma coisa ocorreu na região serrana do Rio de Janeiro e a mesma coisa no litoral de Alagoas, Sergipe e Pernambuco que está novamente com os problemas do ano passado. Quer dizer, no ano passado aconteceu e eles esqueceram... Agora está acontecendo de novo! Eventos extremos vão continuar e é preciso tirar as pessoas das áreas de risco, é preciso criar obras de ocupação que não favoreçam estes eventos. Enfim, a comunicação precisaria ter um papel de ajudar, de forçar o poder público a trabalhar em ações imedia-

Como inserir o conceito de sustentabilidade socioambiental em uma região em franco desenvolvimento econômico e estrutural como a do Noroeste Paulista?

Na Noroeste, como em todos os lugares, não se respeita a questão de reserva legal, não se respeita a preservação das margens de rios, até que chega um dia em que as coisas começam a acontecer. Então, temos que trabalhar preventivamente e isso não está sendo feito. Podem-se aferir impactos relevantes das mudanças climáticas globais em microrregiões como a nossa, por exemplo? Em que aspectos?

O Brasil já é o 4º país em matérias de desastres naturais e é um dos maiores emissores de poluentes da atmosfera que contribuem para as mudanças climáticas. Se você desmata lá na Amazônia você vai mudar os regimes de chuva, mudar os re-

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Qual o papel da mídia ambiental para a mitigação ou atenuação dos impactos ambientais causados pelas atividades antrópicas?

tas de adaptação às mudanças climáticas (que podem ser entendidas como uma série de respostas aos impactos atuais e potenciais da mudança do clima, com objetivo de minimizar possíveis danos e aproveitar as oportunidades).

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que saber o que está gerando tudo isso. O assunto também me atrai por uma história de vida de 50 e poucos anos no jornalismo. Sou paulista, depois fui para o Rio de Janeiro e depois Goiás e, nas últimas décadas, acompanhei tudo o que foi acontecendo e a gravidade do que está acontecendo.


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gimes de umidade, os regimes de temperatura e tudo isso vai ter um efeito. Não é só o que acontece localmente que tem importância. Por exemplo, por que o café, que foi a base da economia do Estado de São Paulo, de repente desapareceu e foi para as montanhas de Minas? A Embrapa tem a resposta: porque a temperatura média aumentou mais de 3 graus reduzindo a produtividade. O café migrou, hoje já está enfrentando problemas em Minas e provavelmente vai migrar de novo. No Centro Oeste, a temperatura média está tendo efeito na produtividade da soja, da cana, do feijão, do milho e a Embrapa já está tentando encontrar variedades mais resistentes ao calor.

Quais indicadores são imprescindíveis para o Brasil se despontar frente ao cenário mundial no setor da sustentabilidade?

O Brasil tem que implantar programas de mitigação que promovam iniciativas de redução das emissões, mas o país se recusa a assumir compromissos obrigatórios. Segundo Sir Nicholas Stern, consultor do governo britânico, a emissão anual per capita de dióxido de carbono no Brasil está entre 11 e 12 toneladas. É muito alto. O Brasil precisa trabalhar em programas que reduzam as emissões, seja na questão de desmatamento, de transporte, na indústria; precisa consumir menos fontes de energia que sejam poluentes, como as derivadas de petróleo, e construir prédios que consumam menos energia. As mudanças estão acontecendo e é preciso adaptação. Isso significa ainda ser capaz de prever com antecedência o que vai acontecer e avisar a população para que tome providências e não sofra com efeitos desastrosos.

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Por outro lado, como a população pode fazer seu papel?

A população pode economizar energia, por exemplo, com sistemas para reutilizar água da chuva em descargas, regas de jardins. É possível fazer muitas coisas com a água da chuva. Mesmo que não recicle a água, retenha e solte só depois de passada a chuva para evitar inundações. As pessoas precisam mudar os padrões de construção para que não consumam tanta energia, tanta água e pressionar para que haja mais transporte coletivo e menos transporte individual. Enfim, temos que repensar os nossos hábitos em todas as áreas para torná-los compatíveis com as possibilidades do nosso planeta e para evitar que se agravem questões como as mudanças climáticas, por exemplo.


Artigo Rafael Navarro Engenheiro Florestal pela ESALQ/USP e Coordenador Executivo OSCIP Instituto Ambiente em Foco - Piracicaba/SP

Faces da Sustentabilidade Empresarial

Por Rafael Navarro, Engenheiro Florestal

O

conceito de sustentabilidade tem sido pauta das principais tomadas de decisões nos diferentes setores da sociedade ao redor do mundo. Organismos públicos e privados que visam retorno imediato de seus investimentos, sem os olhos voltados à mitigação e atenuação dos impactos socioambientais gerados por suas atividades, perdem cada vez mais credibilidade no cenário político e econômico.

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É de extrema importância que a sociedade em geral compreenda que os recursos naturais devem ser utilizados de acordo com sua capacidade de auto-renovação, atentando para a nossa dependência dos mesmos. Neste sentido, aliando a preservação do meio ambiente ao bem-estar e qualidade de vida das populações no presente e futuro, cria-se o conceito de sustentabilidade social. Essa perspectiva torna-se meta indispensável das instituições do setor privado para a busca da sustentabilidade econômica de suas atividades, no instante em que as boas relações, motivação e bem-estar do corpo funcional das empresas refletem positivamente nos resultados das mesmas. No entanto, estar com a casa em ordem e um ambiente de trabalho de qualidade não é o bastante para que haja sustentabilidade empresarial de fato.


Muitos empresários projetam uma imagem verde contrária à realidade de seus produtos

Nesta ótica, muitos empresários ainda “pegam carona” na chamada “fachada sustentável”, na visão imediatista de propaganda e marketing empresarial, projetando uma imagem verde contrária à realidade de seus produtos. Entretanto, nesta linha de ação, os riscos de insucesso são altos, no instante em que a classe de alto poder aquisitivo, principal público-al-

Sendo assim, é fato que as empresas devem se apoiar em conceitos de sustentabilidade que visem eficiência produtiva e responsabilidade social, para que a tão almejada solidez econômica seja constituída em seus programas e ações.

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Tendo em vista as constantes variações no ambiente em face das mudanças climáticas, uma classe exigente de consumidores está em contínua formação no mercado atual, em busca de produtos e serviços que garantam a mitigação dos impactos ambientais.

vo do setor empresarial, é a primeira classe consumidora a incorporar o conceito de consumo consciente e primar por produtos e serviços com compromisso junto ao meio ambiente.

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Neste ponto, a política externa responsável se torna uma ferramenta fundamental para a formação de uma imagem de sucesso no mercado.


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Município Verde Azul

Por uma causa global Por Fabiola Fiorentino

Em 2007

, o Governo do Estado de São Paulo criou uma das maiores ações do Brasil para o incentivo a práticas de preservação ambiental: o programa Município Verde Azul. Com o propósito de premiar municípios paulistas que cumprissem ações em defesa do meio ambiente, a iniciativa trouxe bons frutos e completou três anos em 2010 com a adesão de 100% dos municípios paulistas. As prefeituras que têm sucesso no cumprimento de 10 diretivas básicas ganham o Selo Verde Azul. Para isso, o programa abre inscrições anualmente e exige a apresentação de um plano de ação que comprove a execução das atividades.

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Em 2010, todos os 645 municípios paulistas aderiram ao projeto, dos quais 614 protocolaram os planos de ação e 143 obtiveram a nota necessária, superior a 80 pontos. O ranking completo está disponível em www. ambiente.sp.gov.br/municipioverdeazul A nota máxima foi de 94.31 do município Santa Rosa de Viterbo, na região de Ribeirão Preto. O desafio de 2011, é que um número maior de cidades consiga cumprir as diretivas.

Adesão Realizado anualmente pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente, o programa tem adesão voluntária dos municípios. O principal indicador de que o Estado está cada vez mais “Verde e Azul”, são os resultados atin-

gidos no decorrer dos primeiros anos de Projeto. Em 2008 eram 44 e em 2009 passou para 156 cidades certificadas. Em 2008, a nota média foi de 51,5% e em 2009 passou para 62,6%. Em 2010, do total de 645 municípios participantes, 143 foram certificados. Lançado em junho de 2007, o projeto Município Verde Azul surgiu como uma proposta de descentralização da agenda ambiental paulista. A gestão ambiental compartilhada cria uma responsabilidade mútua, estimulando o desenvolvimento da competência gerencial nos municípios. Ao Estado cabe prestar colaboração técnica e treinamento às equipes locais.

2011 No último dia 17 de fevereiro, o secretário estadual do Meio Am-


Foto: André Takahashi

Prefeituras que conseguem cumprir 10 diretivas ganham o Selo Verde Azul

Diretivas ambientais As diretivas ambientais que devem ser seguidas pelos municípios para receber o Selo Verde Azul são: 1. Esgoto tratado - Realizar a coleta e o tratamento de esgoto doméstico;

3. Mata Ciliar - Ampliar e recuperar as matas ciliares existentes; 4. Arborização Urbana - Planejamento e gestão de áreas verdes municipais; 5. Educação Ambiental - Estabelecer programa de educação ambiental na rede de ensino municipal.      6. Habitação Sustentável - Desenvolver ações estratégicas com conceitos de sustentabilidade em obras e outras atividades municipais; 7. Uso da Água - Implantar programa municipal contra o desperdício de água e estimular a articulação com políticas públicas já existentes; 8. Poluição do Ar -  Auxiliar nos programas voltados à qualidade do ar; 9. Estrutura Ambiental - Criar órgão municipal de meio ambiente; 10. Conselho de Meio Ambiente - Constituir o Conselho de Meio Ambiente paritário e deliberativo, envolvendo a comunidade local.

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O secretário lembrou o sucesso que o Município Verde Azul obteve até o momento. “Nada mais adequado do que começar rediscutindo com os prefeitos e interlocutores para ver o que precisa mudar e melhorar”. São Paulo é o único Estado a contar com o projeto Município Verde Azul.

2. Lixo Mínimo - Eliminar lixões e promover a coleta seletiva e a reciclagem;

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biente, Bruno Covas, abriu oficialmente os trabalhos do Projeto Município Verde Azul, durante a primeira reunião técnica consultiva com a participação de aproximadamente 30 prefeitos e interlocutores de vários municípios, além de técnicos da SMA e da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo – Cetesb. Também foi apresentado o novo gerente do projeto, o advogado Mauro Haddad.


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Votuporanga:

prêmio inédito Por Fabiola Fiorentino

Votuporanga participa do projeto Município Verde Azul desde a sua criação, mas a certificação veio apenas em 2010 quando a cidade conseguiu cumprir as diretivas básicas determinadas pelo Governo do Estado. O histórico da participação de Votuporanga foi marcado pela superação. Em 2008, a cidade conseguiu apenas 34 pontos e em 2009 pulou para 79,08, ficando a menos de um ponto para conseguir o certificado. Em dois anos, saltou da posição 262ª posição para o 163º lugar no ranking. Em 2010, obteve 89,52 pontos comemorando a 26ª posição entre 143 cidades.

A importância do Selo A nomeação de Votuporanga como um município “Verde Azul”, além de ser um orgulho para os moradores, fortalecerá as ações ambientais e deve facilitar a conquista de novos recursos. O secretário de Meio Ambiente, Geól. Gustavo Gallo Vilela, afirma que “teremos ainda mais facilidade para obtenção de recursos e incentivos em geral junto aos Governos Federal e Estadual”.

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O programa tem credibilidade ainda junto a instituições de financiamentos públicas e privadas. “A consulta à lista de municípios certificados é muito comum entre estas empresas o quê poderá contar pontos para Votuporanga na hora de uma avaliação”. Na oportunidade da certificação, o prefeito Junior Marão comentou que além dos benefícios ambientais, o Selo Verde Azul servirá como um grande atrativo aos empresários. “A Prefeitura tem trabalhado no sentido de buscar mais investimentos e desenvolvimento para o município. A certificação nos dará ainda mais vantagens junto ao meio empresarial que consulta o ranking na hora de decidir pela melhor cidade para a instalação de indústrias e negócios. A preocupação com o meio ambiente mostra que somos uma cidade organizada e preparada para o desenvolvimento sustentável”. O superintendente da Saev Ambiental, Eng. Marcelo Marin Zeitune também está otimista e cita mais um benefício. “O Selo vai incentivar a população a seguir o exemplo da Saev Ambiental e fazer sua parte na proteção do verde e dos nossos recursos hídricos. Acredito que teremos mais apoio ainda em projetos como o Ecotudo e o Adote o Verde”.


Foto: André Takahashi

Desafios para 2011 Nos últimos anos, toda a população de Votuporanga pôde acompanhar os avanços da cidade e do mundo na busca por ações em defesa do meio ambiente. Para 2011, o superintendente da Saev Ambiental, Eng. Marcelo Marin Zeitune, fala da importância de dar continuidade aos projetos de sucesso do município e garantir sua eficiência. “Nosso desafio para 2011 é operar o esgoto com eficiência e conquistar, dessa forma, a recuperação das águas da nossa região e trabalhar pela recuperação de matas ciliares e das nascentes do córrego Marinherinho”.

Palavras de quem entende Outro fator de destaque na pontuação de Votuporanga no Município Verde Azul é a política de Gestão de Resíduos Sólidos, sendo o Ecotudo seu carro chefe. Em abril deste ano, em visita à cidade o representante da empresa alemã Schafer, Stephan Weissenbacher, elogiou o projeto.

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A empresa de Stephan é uma multinacional alemã que fabrica e comercializa um conjunto diversificado de produtos (entre eles, contêiner para coleta seletiva) e está representada em mais de 50 países.

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Cidade do interior paulista saltou 236 posições em três anos

“Em nenhum lugar da Alemanha é possível encontrar um espaço como o Ecotudo que recebe todo tipo de lixo, 24 horas por dia”, disse em encontro com o prefeito Junior Marão. A frase ganha ainda mais força porque a Alemanha é conhecida mundialmente por sua consciência ambiental. Nos últimos anos, o país europeu desenvolveu modernas práticas de proteção socioambiental que servem como exemplo para o mundo.


PA ISAGE M SoCIOA M BI E N TA L

Pedro Hauck é Géografo, formado pela UNESP - Rio Claro SP, mestre em Geografia Física na UFPR - Curitiba PR e montanhista desde 1998.

Tragédias ambientais e a tragédia do dia a dia no Brasil Por Pedro Hauck, Géografo

Recentemente, temos assistidos com alarde casos de tragédias

ocasionadas por chuvas fora da normalidade que vitimou algumas milhares de pessoas no Brasil. Estes episódios, que são discutidos como resultados nas mudanças climáticas globais, atingiram cidades do vale do Itajaí em Santa Catarina em 2008, São Luis do Paraitinga em 2009, Angra dos Reis no Reveillon de 2010, Rio de Janeiro e Niterói neste mesmo ano e a grande tragédia da Serra fluminense em Petrópolis e Teresópolis que produziu o maior número de vítimas ambientais na história do Brasil em 2011.

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A causa direta destas tragédias, como já falado, é o clima que está cada vez mais quente e chuvoso. Este tipo de clima, quente e úmido, é o clima típico de boa parte do Brasil e ao longo de milhares de milhões de anos foi responsável pela elaboração do relevo do Sudeste, com seus “Mares de Morros” e solos profundos anteriormente florestados. Não é novidade, no entanto, que as chuvas resultem em tragédias quando elas ocorrem com uma concentração acima da média. Foi o que houve no dia 18 de março de 1967 em Caraguatatuba-SP. Neste dia, uma tempestade de poucas horas despejou sobre a Serra do Mar uma quantidade de água esperada para o mês inteiro. As vertentes da Serra do Mar não suportaram o volume d´água despejando toneladas de lama e vegetação sobre a cidade, numa tragédia de proporções superiores aos eventos recentes, mas que vitimaram menos pessoas pois na época o município era menos habitado que hoje.

Tragédia Ambiental Quando falamos de meio ambiente temos que ter em mente que os sistemas ambientais têm uma dinâmica e uma história de evolução no tempo. As tragédias que mais assustaram os brasileiros aconteceram em paisagens dominadas pelos mares de morros e não dá para falar nas origens deste tipo de paisagem se antes comentar as idéias do geólogo Francês Henri Erhardt, que na década de 1960 elaborou a teoria da bioresistasia. Erhardt estudou camadas geológicas no litoral de Madasgacar e notou grandes diferenças nos sedimentos, atribuindo isso à transições de climas tropicais secos para úmidos. Em climas tropicais úmidos, a ten-


dência é que a vegetação se desenvolva em extensas florestas, as chuvas e o calor seriam responsáveis pela evolução de solos profundos e o relevo ficaria ao longo do tempo amorreado com formas mais suaves. Para este tipo de dinâmica de paisagem ele deu o nome de “biostasia”. Já a resistasia seria o oposto. Em um clima tropical seco, a vegetação desapareceria e o solo desnudo ficaria desprotegido, favorecendo a remoção de solos, exposição das rochas e formação de planícies com o material proveniente desta erosão. Milhares de milhões de anos da presença de uma dinâmica biostática na orla atlântica do litoral brasileiro resultaram na elaboração do chamado domínio morfoclimático dos mares de morros florestados, hoje, um domínio quase totalmente alterado com séculos de ocupação sem planejamento do espaço brasileiro.

proteção, a gota da chuva chega diretamente ao solo com alta energia, desorganizando a estrutura superficial deste solo que perde a impermeabilidade e favorece o escoamento superficial, causando enchentes nos rios que recebem mais água que o normal, além de sedimentos, que pioram ainda mais a capacidade de drenagem dos cursos d´água cada vez mais sobrecarregados. Este fenômeno não ocorre somente em áreas desmatadas. Em áreas reflorestadas com Pinus e Eucalipto elas também são comuns, uma vez que estas árvores têm um porte arbóreo muito elevado e suas folhas não barram a energia da água, pois tem um formato alongado. Uma gota de água que cai da copa de um Eucalipto adulto tem o mesmo efeito de uma gota que cai do céu sem a proteção do dossel de uma floresta. Não é de se estranhar que muitos destes acidentes ocorreram em locais que além de terem um relevo acidentado, tinham também enormes eucaliptais, como no vale do Itajaí, São Luis do Paraitinga e na Serra da Mantiqueira. A mudança no clima, mais o mau uso do solo são responsáveis por fenômenos de deslizamento de massas, enchentes e fluxos de lama.

Tragédia do dia a dia

O rápido êxodo do campo para as cidades, a falta de um planejamento e de infraestrutura levou o

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A floresta além de ajudar na evolução dos solos, ainda os protege da ação da água. A copa das árvores quebra a energia das gotas de chuva, que chegam ao solo e percolam pelos poros, alimentando os lençóis freáticos. Sem esta

Nos últimos 50 anos, o Brasil passou por um forte processo de industrialização seguido de uma forte e rápida urbanização. Se até 1950 o Brasil era um país rural, hoje, com 83,75% da população vivendo em cidades, vivemos outra realidade, uma realidade de cidades gigantes!

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Com a remoção da mata atlântica, passamos de uma dinâmica biostática para uma resistásica forçada. O livro “Ecodinâmica” do geógrafo Jean Tricart está todo baseado nesta mudança de energia e ele situa bem, ainda na década de 1970, os problemas ambientais que iríamos enfrentar com o desrespeito à dinâmica da natureza.

Mais do que apontar as causas diretas para as recentes tragédias no Brasil, precisamos ter em mente as relações humanas que levaram estas tragédias a chegar à dimensão digna de uma tragédia.


PA ISAGE M SoCIOA M BI E N TA L Brasil a um tipo de urbanização espontânea conhecido mundialmente com o nome de favela. Hoje, as favelas estão presentes em todas as regiões metropolitanas e de acordo com a ONU, ali vive 26,4% da população brasileira. As favelas se caracterizam pela ocupação rápida e sem planejamento de terrenos ociosos pela população. O que provoca estas ocupações, no entanto, não é a renda baixa, mas sim o déficit habitacional seguida pela especulação imobiliária e a concentração de emprego nas áreas centrais das cidades. Desta forma, é mais fácil ocupar terrenos ociosos como encostas e fundos de vale do que conseguir financiamento de uma casa própria.

As ocupações da população de baixa renda são as mais prejudicadas pelos problemas ambientais, pois são as que têm as estruturas mais precárias, como, por exemplo, a ausência de rede de esgoto, o que leva a construção de fossas onde é despejado substâncias saponáceas que floculam as argilas e desestabilizam encostas.

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Nos casos recentes das tragédias ambientais, condomínios de luxo e casas de alto padrão também foram afetados, mostrando que exceto pela diferenciação do padrão arquitetônico, muitas das construções do lado oposto da pirâmide social brasileira segue o mesmo caminho das favelas. Estas são as tragédias do dia a dia os quais os brasileiros estão fadados a viver. A tragédia do mundo sem planejamento, onde as regras do mercado imobiliário dita a história da vida privada do brasileiro e influencia nas tragédias ambientais. Nossas cidades estão cada vez mais apinhadas, ocupando encostas, fundos de vale. Não temos mais áreas verdes e o que resta de verde no cinturão ao longo das grandes metrópoles estão ameaçados por este fenômeno de “rurbanização” que fazem condomínio de luxo viver lado a lado às grandes periferias. Se não bastasse vivermos sem a mínima qualidade de vida urbana, a ausência de um planejamento provocado pela voracidade do mercado imobiliário de todas as classes está levando o brasileiro a conviver mais e mais com as tragédias da natureza, que as causas na verdade são mais humanas que ambientais.

Políticas para a tragédia Além do Brasil não conseguir reverter a voracidade da especulação, não há perspectivas de melhora deste quadro. Muito se discute sobre as mudanças climáticas globais e seus efeitos para a sociedade brasileira. Equipa-se as defesas civis, cria-se alarmes para as tragédias, mas as políticas públicas, ao invés de resolver o problema, são coniventes ou senão são culpadas pelas tragédias. Pouco se fala em planejamento local. As prefeituras têm pouco conhecimento e mão de obra para realizar um planejamento que permita um uso do solo com mitigação de impactos e muitas vezes o que vemos é o contrário disso, prefeituras sendo colaboradoras das tragédias com mudanças de planos diretores que permitem a ocupação de áreas de risco, como ocorre, por exemplo, na prefeitura de Valinhos – SP, onde está sendo discutida a ocupação da Serra dos Cocais para a construção de condomínios de luxo. Além da ausência de políticas locais, o mau exemplo vem também da esfera federal, com a alteração do código florestal que permite ainda mais a alteração da dinâmica da natureza que provocam as tragédias. Por todos estes motivos não podemos mais falar em tragédias ambientais isoladamente e devemos situar nosso período histórico, marcado pelo paradigma da crise ambiental, como resultado de um longo processo que ainda está longe de terminar e enquanto houver chuva de verão, haverá mais uma tragédia: A tragédia brasileira.


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André Luiz Sanchez Navarro é biólogo, Conselheiro Fiscal do Instituto Ambiente em Foco (fiscal@institutoaf.org.br)

Uma visão

geral sobre o Terceiro

Setor Por André Luiz Sanchez Navarro, Biólogo

Definições não faltam para o chamado “Terceiro Setor”. Uma breve busca sobre o assunto denota a multiplicidade de visões sobre sua composição e atuação. Uma definição ampla o bastante para abarcar a variedade inerente a este conceito é apresentada por Rosa Maria Fischer (2002), pesquisadora do Centro de Empreendedorismo Social e de Administração do Terceiro Setor, da USP, que o conceitua como “(...) o espaço composto por organizações privadas, sem fins lucrativos, cuja atuação é dirigida a finalidades coletivas ou públicas”.

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O novo Código Civil Brasileiro elenca as organizações detentoras de personalidade jurídica de direito privado, ou seja, que não fazem parte do aparato estatal. São elas: associações, sociedades, fundações, organizações religiosas e partidos políticos. Dentre estas, caracterizam-se como entidades sem fins econômicos, as associações, fundações e organizações religiosas. O termo ONG (Organização Não-Governamental), muito relacionado à ideia de terceiro setor, denota apenas a natureza privada de uma organização. Assim, uma entidade poderá ser considerada como integrante do terceiro setor se suas finalidades forem não econômicas, isto é, a entidade não deve distribuir eventuais excedentes entre os diretores, bem como possuir como razão primeira de existência a geração de lucros (podendo até gerá-los, desde que aplicados nas atividades-fim). Ainda, suas finalidades devem ser voltadas a finalidades coletivas ou públicas, como a pro-

teção ao meio ambiente, a assistência social, a valorização da cultura. No livro “Como mudar o mundo: empreendedores sociais e o poder das novas ideias”, de 2004, David Bornstein apresenta alguns dados sobre o crescimento do terceiro setor no mundo. Na Indonésia, o número de organizações ambientalistas cresceu de uma para duas mil de 1984 a 2004. A Índia tem mais de um milhão de ONGs atuando no terceiro setor. Bangladesh tem boa parte das atividades de desenvolvimento do país realizada por cerca de 20 mil ONGs. Na França, durante a década de 90, foram criadas, em média, 70 mil dessas organizações por ano. Nos Estados Unidos, o número de


associações de serviço público cadastradas no Serviço de Receitas Internas cresceu de 464 mil para 734 mil, de 1989 a 1998. Pesquisa do IBGE, intitulada “As Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos no Brasil - 2005”, realizada em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais (ABONG) e o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE), demonstra que, em 2005, havia 338 mil associações e fundações privadas sem fins lucrativos em todo o país, divididas nas seguintes categorias de atuação: Habitação; Saúde; Cultura e Recreação; Educação e Pesquisa; Assistência Social; Religião; Associações Patronais e Profissionais; Meio Ambiente e Proteção Animal; Desenvolvimento e Defesa de Direitos; e Outras. Vale ressaltar que, segundo o estudo, 35,2% das instituições atuam diretamente na defesa dos direitos e interesses dos cidadãos.

No entanto, esse crescimento em número não é acompanhado de homogeneidade quanto à distribuição espacial dessas organizações: 48,5% delas estão sediadas na região Sudeste, contando a região Nordeste e Norte, respectivamente, com apenas 6,4% e 8,2%. Tal realidade pode ser constatada também pela análise das informações constantes do Cadastro Nacional

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Segundo o estudo do IBGE, o número de entidades com atuação em “Meio Ambiente e Proteção Animal”, teve crescimento de 66% entre 2002 e 2005. No entanto, ainda é pequeno se comparado com o total de entidades do Brasil, contabilizando cerca de 8,0% do total.

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Tal fato justifica a posição de David Bornstein, que prefere, ao invés de “terceiro setor”, utilizar o termo “setor cidadão”. Muito adequado, uma vez que tais organizações, nas mais diversas áreas, atuam como a extensão do Estado no desenvolvimento de políticas públicas e promoção do bem-estar social. Algumas delas, inclusive, às quais são outorgados os títulos de Organização Social (OS) e Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), podem firmar, com o poder público, instrumentos jurídicos – “Contrato de Gestão” no caso de OS e “Termo de Parceria” no de OSCIP – para a realização dessas atividades.


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de Entidades Ambientalistas (CNEA), mantido pelo Ministério do Meio Ambiente, que revelam que 44% das entidades cadastradas situam-se na região Sudeste, sendo 41% destas no estado de São Paulo. Mesmo em São Paulo a distribuição é desigual, concentrando-se nas regiões metropolitanas e grandes centros urbanos, conforme se verifica por meio da análise das informações presentes no Cadastro das Entidades Ambientalistas do Estado de São Paulo (CadEA), mantido pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente. Na região Noroeste do estado há poucas organizações cadastradas. Em função dos dados apresentados, fica evidente o crescimento do setor cidadão. Embora também seja constatada a importância do terceiro setor na defesa e promoção dos direitos e políticas públicas voltadas à coletividade, observa-se que esta ampliação tem ocorrido de maneira desigual, tanto em relação às áreas de atuação das organizações criadas, quanto à distribuição regional destas. Urge que sejam fortalecidas as entidades existentes, bem como incentivada a criação de novas organizações sérias nas regiões onde sua presença ainda é tímida. O fortalecimento da atuação do terceiro setor, em espacial na área ambiental, é fundamental para que as demandas da sociedade sejam realmente discutidas em espaços participativos previstos em lei, como Conselhos Municipais de Defesa do Meio Ambiente, Conselhos Gestores de Unidades de Conservação, Comitês de Bacias hidrográficas, Conselhos das Cidades, entre outros. A ausência das ONGs nesses espaços regionais enfraquece o debate e a construção cidadã de políticas públicas locais.

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Cabe ressaltar, neste contexto, a especial atenção e incentivo que devem ser oferecidos à atuação das entidades na área de meio ambiente, em razão da importância que a temática ambiental tem alcançado em nível mundial e local. A preocupação com os impactos socioambientais de projetos públicos e privados de desenvolvimento, a necessidade de sensibilização frente aos problemas ambientais e da busca de alternativas que permitam à sociedade empreender um desenvolvimento sustentável estão cada vez mais presentes nas diferentes esferas de decisão que permeiam a sociedade. Nesse contexto, e considerando a multiplicidade de interesses existentes nas questões afetas ao Meio Ambiente, é fundamental que seja ampliada a atuação de organizações capazes de garantir que o interesse da coletividade seja considerado nas decisões públicas e privadas relativas às questões socioambientais. Quando a atuação do terceiro setor, enquanto setor cidadão, estiver consolidada nos diversos espaços participativos existentes, contribuindo efetivamente, com rigor técnico e filosófico, para a tomada de decisão pública e privada voltada ao bem-estar da coletividade, poder-se-á, de fato, atestar o devido atendimento ao espírito cidadão e participativo conclamado pela tão querida Carta Cidadã, também conhecida por Constituição da República Federativa do Brasil.

Saiba mais Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Disponível em: <http:// poup.me/5w>. Acesso em: 20 mai 2011. Bornstein, David. Como mudar o mundo: empreendedores sociais e o poder das novas ideias. Rio de Janeiro: Editora Record, 2005. 403 p. Ministério do Meio Ambiente – MMA. Disponível em: <http://poup.me/5x>. Acesso em: 20 mai 2011. Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. Disponível em: <http:// poup.me/5y>. Acesso em: 20 mai 2011. Sistema Integrado de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Disponível em: < http://poup.me/5z>. Acesso em: 25 mai 2011.


Artigo Ricardo Zaccarelli Filho Biólogo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Especialista em Gerenciamento Ambiental e Direito Ambiental, Consultor Ambiental da Ecologic Projetos e Consultoria Ambiental e Chefe de Setor da Divisão de Meio Ambiente na SAEV Ambiental (Superintendência de Água, Esgotos e Meio Ambiente de Votuporanga)

O Desafio da Biodiversidade Por Ricardo Zaccarelli Filho, Biólogo

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Assembléia Geral das Nações Unidas (ONU) declarou 2010 como o Ano Internacional da Biodiversidade, com o propósito de aumentar a consciência sobre a importância da preservação da biodiversidade em todo o mundo. No dia 22 de maio, em meio ao contexto de discussões sobre o Código Florestal na Câmara dos Deputados e no Ano Internacional das Florestas, foi celebrado o dia Internacional da Biodiversidade.

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Em Nova York, o secretário geral das Nações Unidas, Ban-Ki-Moon, aproveitou para ressaltar o valor das florestas para a humanidade. No Brasil, país com maior biodiversidade do mundo e detentor, junto com China, Canadá, Estados Unidos e Rússia, de 50% das florestas, a data é um bom momento para lembrar a importância da biodiversidade e florestas para a vida no planeta.

Mas afinal, o que é Biodiversidade? Na verdade não há uma definição consensual do que é biodiversidade , mas o termo refere-se a quase uma totalidade de definições a toda e qualquer variedade do mundo natural e sua riqueza. Os cientistas não sabem responder qual é a biodiversidade mundial. Na verdade não se tem qualquer informação sobre este valor. Admiti-


O Homem vem destruindo a biodiversidade há cerca de 7 mil anos Muitas espécies de animais e vegetais já desapareceram e não poderão jamais ser recuperadas. Extinção é para sempre!

Cada uma dessas espécies é o resultado de milhões de anos de evolução orgânica, representando assim, um patrimônio genético de um valor inestimável. Milhares de espécies de vegetais e animais são utilizadas pelo Homem na alimentação, na produção de energia e trabalho, na produção de remédios e vacinas. A filosofia conservacionista não é altruísta, mas egoísta, pois pensa sempre na preservação das espécies para futuro uso da humanidade, preocupando-se, sobretudo com a sobrevivência do Homem. É o nosso antropocentrismo dominante. Em um vegetal qualquer da Floresta Atlântica ou Amazônica não estaria a cura do câncer? Em um pequeno macaco destas florestas não poderia ser desenvolvida a vacina contra a AIDS? Quantos defensivos agrícolas serão desenvolvidos com o auxílio da biodiversidade? Quais as doenças novas da humanidade do futuro que terão suas curas nos elementos da natureza? O Homem vem destruindo a biodiversidade há cerca de 7 mil anos.

Entretanto, as florestas tropicais do planeta estão sendo inutilmente destruídas, buscando-se lucros imediatistas, sendo substituídas por pastagens que duram poucos anos

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-se que o número de espécies biológicas no planeta esteja entre 2 a 80 milhões. Pois é. Isso mesmo! Não conhecemos quase nada, ainda.

“Os benefícios das florestas são extensos. Florestas capturam e armazenam água, estabilizam o solo, abrigam a biodiversidade e dão uma contribuição importante para a regulação climática e dos gases de efeito estufa que as estão causando. Elas geram lucros para empresas internacionais e proporcionam renda e recursos essenciais para centenas de milhões das pessoas mais pobres do mundo. Contudo, apesar de nossa crescente compreensão e apreciação do quanto nós colhemos das florestas, elas ainda estão desaparecendo em ritmo alarmante”, afirma a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação).

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As florestas tropicais são responsáveis pela maior biodiversidade mundial. O Brasil, detentor da maior floresta tropical úmida, é considerado como o país mais rico do mundo, pois a biodiversidade é ponderada hoje, principalmente pelos países desenvolvidos, como a maior riqueza da Terra, pois é a matéria prima da Biotecnologia.


Artigo além de acarretarem outros sérios problemas ambientais. Garantir a proteção da biodiversidade, por meio de implementação de instrumentos que promovam o desenvolvimento sustentável, é prioridade para as políticas públicas nacionais, regionais e locais. Atualmente, a biodiversidade situa-se no centro dos debates mundiais, envolvendo, múltiplas dimensões e percepções tais quais debates fundamentados nas preocupações sobre a sobrevivência humana, nas relações internacionais e na emergência de um novo modelo de desenvolvimento. Esses debates se expressam em conflitos de uso e de opiniões pelas sociedades, o que faz com que sejam necessários novos instrumentos para a construção de consensos sobre ações de proteção da biodiversidade , em um cenário que valorize formas diversificadas de agir, nos níveis global, nacionais e locais, e que criem práticas capazes de conservá-las.

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Esses são alguns exemplos da realidade brasileira. O fato de haver um grande número de espécies que só podem ser encontradas no Brasil torna ainda mais importante a preservação dessa nossa megadiversidade. Mas essa preservação só pode ser conseguida com a continuidade da implementação dos instrumentos nacionais e internacionais e com novas maneiras sustentáveis de o ser humano viver, já que a maior ameaça à preservação da biodiversidade é o próprio padrão de funcionamento da economia, das instituições e das atitudes do ser humano, que, nas cidades ou no campo, cuja visão sobre o ambiente, o conjunto de toda a vida, a biodiversidade como “recurso” a ser explorado ainda predomina. Portanto, a destruição da biodiversidade significa a destruição da vida em nosso planeta. Não podemos ser cúmplices ou vítimas disso. Mudanças terão de ser feitas. É necessário agir! Programas e projetos inovadores socioambientais que visam à sustentabilidade nas esferas pública, privada e terceiro setor podem ser os veículos dessas mudanças. Portanto, saúdo a todos que estão conosco neste desafio!


Ensaio Fotográfico

André Takahashi Fotografo, formado em Comunicação Social na Unifev, autando a 9 anos na prefeitura do município de Votuporanga

Vivemos em uma cultura visual em expansão e mais amplificada pelas tendências tecnológicas. Aprender a ler uma imagem é cada vez mais necessário. Uma fotografia será sempre um recorte do real, em determinado tempo e espaço.

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Uma investigação para o encontro de correlações e influências na sociedade em que vivemos.

“Quando plantamos as árvores, também plantamos a semente de paz.” Boff, L. 2004. Boff, L. Ecologia: Grito da Terra, Grito dos Pobres. Rio de Janeiro-RJ: Sextante, 2004.


“O que é o homem sem os animais? Se todos os animais se acabassem, o homem morreria de solidão de espírito. Porque tudo o que acontece aos animais, logo acontece também ao homem. Tudo está relacionado entre si.”

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Boff, L. Ecologia: Grito da Terra, Grito dos Pobres. Rio de Janeiro-RJ: Sextante, 2004.

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Boff, L. 2004.


Ensaio Fotográfico

André Takahashi

“A ética ambiental reivindica os valores do humanismo: a integridade humana, o sentido da vida, a solidariedade social, o reencantamento e a erotização do mundo.” Leff, E. 2001.

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Leff, E. Saber ambiental: Sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. Petrópolis-RJ: Vozes, 2001.


“Um olhar que não domina: contempla. A sensibilização frente à natureza representa um modo de conhecer que transcende os limites exclusivos da lógica.”

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Pelizzoli, M. L. A emergência do paradigma ecológico: Reflexões ético-filosóficas para o século XXI. Petrópolis-RJ: Vozes, 1999.

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Pelizzoli, M. L. 1999.


Artigo Paulo Skaf Presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP)

Sustentabilidade é desenvolvimento Por Paulo Skaf

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á há algum tempo o conceito de desenvolvimento sustentável vem aparecendo nos discursos de líderes empresariais e políticos mundo afora. A ideia de que devemos aliar o crescimento econômico ao respeito ao meio ambiente e às pessoas surgiu a partir da percepção de que nossos recursos naturais não são infinitos. Demandas legítimas da sociedade – por melhores condições de trabalho, consumo e qualidade de vida – completam um cenário para o qual as empresas e governos não podem mais dar as costas. Inicialmente vista como ameaça, essa nova ordem agora se apresenta como oportunidade. Não se trata mais de buscar um modelo de desenvolvimento sustentável: o exercício da sustentabilidade é o verdadeiro desenvolvimento que vamos construir neste século XXI.

Por sustentabilidade devemos entender a permanência de nossas organizações, públicas e privadas, no tempo e no espaço. Quem não atuar de acordo com essas regras estará fora do jogo em muito pouco tempo. Para as empresas, o momento é de reflexão, planejamento e reestruturação. Os bons empreendedores são aqueles que sabem transformar riscos em inspiração. Apostar no chamado triple bottom line – people, planet, profit (pessoas, planeta e lucro) é condição fundamental para quem busca a expansão e o fortalecimento de seus negócios. Investidores e consumidores estão igualmente atentos ao tema e aqueles que se destacarem em sua gestão serão capazes de criar marcas e produtos de sucesso.


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Portanto, a missão de cada um de nós é perseguir e adotar, cotidianamente, hábitos mais saudáveis de produção, consumo e relacionamento. O desenvolvimento sustentável só vai se confirmar com a participação e o engajamento de toda a sociedade.

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Nesse caminho, a inovação aparece como importante vetor da transformação, principalmente de processos. Porque é necessário que as cadeias produtivas se apropriem de práticas renovadoras para atingirem o grau de maturidade exigido pelo mercado. Sustentabilidade não é fim, é meio. Produzir com respeito ao meio ambiente e comprometimento com trabalhadores e consumidores é o grande desafio, que exige novas abordagens para velhos problemas. As empresas que mais avançaram nessa direção colecionam ganhos de eficiência e lucratividade, pela melhor utilização de recursos naturais e humanos. Em um segundo momento, é imprescindível que essas mudanças sejam incorporadas à cultura das organizações, para que possam se propagar de maneira orgânica, sem perder a capacidade de atualização de acordo com as necessidades que venham a surgir.


casa & ver de

Márcio Augusto Araújo é consultor do IDHEA – Instituto para o Desenvolvimento da Habitação Ecológica (www.idhea.com.br / idhea@idhea.com.br)

A moderna construção sustentável Por Márcio Augusto Araújo

Construção sustentável é um sistema construtivo que promove alterações conscientes no entorno, de forma a atender as necessidades de edificação, habitação e uso do homem moderno, preservando o meio ambiente e os recursos naturais, garantindo qualidade de vida para as gerações atuais e futuras. Essa definição encontra-se de acordo com o conceito de sustentabilidade proposto pelo relatório Bruntland, da ONU, que lançou as bases da economia sustentável a partir do axioma: “Desenvolvimento sustentável é aquele que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações em satisfazer suas próprias necessidades”. Desde seus primórdios, em 1973, ano da Crise do Petróleo, até o presente, a visão sobre o que é Construção sustentável vem se modificando e aprofundando. Começou-se a perceber que a construção sustentável não é um modelo para resolver problemas pontuais, mas uma nova forma de pensar a própria construção e tudo que a envolve. Trata-se de um enfoque integrado da própria atividade, de uma abordagem sistêmica em busca de um novo paradigma: o de intervir no meio ambiente, preservando-o e, em escala evolutiva, recuperando-o e gerando harmonia no entorno.

Pensar e viver sustentável

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O conceito de moderna construção sustentável baseia-se no desenvolvimento de um modelo que enfrente e proponha soluções aos principais problemas ambientais de sua época, sem renunciar à moderna tecnologia e à criação de edificações que atendam as necessidades de seus usuários.

Obra responsável Quanto mais sustentável uma obra, mais responsável ela será por tudo o que consome, gera, processa e descarta. Sua característica mais marcante deve ser a capacidade de planejar e prever todos os impactos que pode provocar, antes, durante e depois do fim de sua vida útil.

Edificação saudável Toda edificação sustentável é saudável. A finalidade de uma construção sustentável não é apenas preservar o meio ambiente, mas também proteger seus ocupantes ou moradores da poluição dos grandes centros urbanos. Ela não pode gerar doenças, como os prédios que acarretam a Síndrome do Edifício Doente (SEE*). A edificação sustentável deve funcionar como uma segunda pele do morador ou usuário. Ela é a sua extensão, como ensina o geobiólogo espanhol Mariano Bueno.


Materiais

9 Passos da Obra Sustentável 1. Planejamento sustentável da obra

A escolha dos produtos e materiais para uma obra sustentável deve obedecer a critérios específicos – como origem da matéria-prima, extração, processamento, gastos com energia para transformação, emissão de poluentes, biocompatibilidade, durabilidade, qualidade, dentre outros.

2. Aproveitamento passivo dos recursos naturais

5. Gestão dos resíduos na edificação 6. Qualidade do ar e do ambiente interior 7. Conforto termo-acústico 8. Uso racional de materiais 9. Uso de produtos e tecnologias ambientalmente amigáveis

Construção sustentável é uma nova forma de pensar a própria construção e tudo que a envolve

Tipos de construção sustentável Os principais tipos de Construção sustentável resumem-se, basicamente, a dois modelos: construções coordenadas por profissionais da área e com o uso de ecoprodutos e tecnologias sustentáveis modernas, fabricados em escala, dentro das normas e padrões vigentes para o mercado; esistemas de autoconstrução, feitos pelo próprio interessado ou usuário, sem contar diretamente com suporte de profissionais (daí serem chamados de autoconstrução). Este tipo de construção ultrapassa mais de 60% das obras civis no Brasil e incluem grande dose de criatividade, vontade pessoal do proprietário e responsável pela obra.

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4. Gestão e economia da água

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3. Eficiência energética


ci en t íf ico

Judson Ferreira Valentim é Engenheiro Agrônomo Ph.D. pesquisador da Embrapa Acre Carlos Maurício Soares de Andrade é Engenheiro Agrônomo M.Sc. pesquisador da Embrapa Acre

Benefícios ambientais do uso de tecnologias na pecuária Por Judson Ferreira Valentim e Carlos Maurício Soares de Andrade

Atualmente, o Acre possui cerca de 2 milhões de cabeças

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de gado em aproximadamente 17.500 propriedades com 1.450.000 hectares de pastagens. Mais de 50% do rebanho bovino do Acre encontrase em cerca de 16.800 pequenas e médias propriedades com até 500 cabeças de gado. A adoção de tecnologias na pecuária bovina permitiu evitar o desmatamento de mais de 300 mil hectares de florestas para a implantação de pastagens no Acre entre 1970 e 2002. No início da década de 70, um hectare de pastagem alimentava 1,14 cabeça de gado bovino por ano e as pastagens geralmente degradavam 3 a 5 anos depois de formadas. Pastagens estabelecidas com gramíneas e leguminosas recomendadas pela Embrapa Acre, por serem adaptadas às condições ambientais da região, atualmente estão apresentando capacidade de suporte de até 3 cabeças de gado por hectare, quando manejadas em sistemas de pastejo rotacionado. Diversas áreas de pastagens estabelecidas com essas forrageiras e manejadas de forma correta têm se mantido produtivas e com a presença de leguminosas por mais de 20 anos. Isso tem contribuído para aumentar a produtividade, a rentabilidade e, principalmente, a sustentabilidade dos sistemas de produção pecuários no Acre. Atualmente, o Acre possui cerca de 2 milhões de cabeças de gado em aproximadamente 17.500 propriedades com 1.450.000 hectares de pastagens. Mais de 50% do rebanho bovino do Acre encontra-se em cerca de


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Há quase 5 anos, a Embrapa Acre, em parceria com o governo do Estado do Acre (Seap, Seater, Imac), Projeto Fogo: Amazônia Encontrando Soluções, Faeac-Senar/Acre, Fundepec, Ibama, Fetacre, Banco da Amazônia, Banco do Brasil, Programa Alternativas a Agricultura de Derruba e Queima (ASB/Icraf) e

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16.800 pequenas e médias propriedades com até 500 cabeças de gado. O baixo nível tecnológico e o manejo inadequado, com altas taxas de lotação, vêm causando a degradação das pastagens dessas propriedades. Além disso, estudos desenvolvidos pela Embrapa Acre em parceria com o Instituto de Meio Ambiente do Acre - Imac indicam que o problema da morte da Brachiaria brizantha cultivar Marandu poderá resultar na degradação de mais de 500 mil hectares de pastagens nos próximos anos no Estado, caso os produtores não ajam preventivamente introduzindo espécies forrageiras adaptadas nessas pastagens.


ci en t íf ico Programa Proteger têm investido em treinamentos constantes de produtores, técnicos, estudantes e multiplicadores e na implantação de propriedades de referência no uso de tecnologias nos sistemas de produção da pecuária de corte e leite em todo o Estado. Em Xapuri e Acrelândia, o modelo de pecuária sustentável não só garantiu aumento da produtividade do gado de corte e leite como também evitou o desmatamento de novas áreas de floresta nativa. A população urbana também se beneficiou com a redução no volume de queimadas an-

A modernização da pecuária tem focado ações de transferência de tecnologia adequadas às necessidades de pequenos, médios e grandes produtores. Prova disso são os treinamentos na forma de cursos, palestras, seminários e monitoramento de propriedades demonstrativas que já permitiram a capacitação de mais de 1.500 pessoas entre extensionistas e produtores.

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O resultado positivo é possível graças a um conjunto de tecnologias que envolve desde a recuperação de áreas degradadas, uso de gramíneas e leguminosas forrageiras adaptadas às condições de clima e solo de cada propriedade, divisão das pastagens com uso de cercas eletrificadas por energia solar, até o melhoramento genético do rebanho com inseminação artificial feita pelos próprios produtores.

uais que impregnam as cidades com fuligem. Há 3 anos, os produtores comprometidos com o programa não fazem uso do fogo para reforma de pastagens. O sucesso da iniciativa conta com o apoio do Ministério das Relações Exteriores da Itália e tem atraído produtores e autoridades públicas de diversos estados da Amazônia.

Mantida a taxa de crescimento de 12% ao ano, observada entre 1995 e 2001, é possível prever que o rebanho do Acre alcançará cerca de 4 milhões de cabeças em 2008. Com o nível tecnológico atualmente utilizado na maioria das propriedades, o aumento de 100% do rebanho bovino implicará no desmatamento de 1,45 milhão de hectares de florestas para a implantação de novas áreas de pastagens no Estado, em apenas 5 anos. Entretanto, existem alternativas a esse cenário. A adoção das tecnologias desenvolvidas pela Embrapa


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Agentes financeiros como o Banco do Brasil e o Banco da Amazônia, respaldados por informações técnicas de diversas instituições, acreditam neste cenário. Tanto que, o Banco do Brasil, por meio do Programa Propasto, só em 2003, destinou mais de R$ 9,8 milhões para modernização da pecuária no Estado. Ao mesmo tempo, nos últimos dois anos, o

Banco da Amazônia liberou outros R$ 6,8 milhões em financiamentos para reforma de quase 7,5 mil hectares de pastagens degradadas. No entanto, ainda é necessário que estas linhas de crédito sejam expandidas para incrementar cada vez mais o nível tecnológico e assegurar a sustentabilidade da pecuária no Estado.

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Acre e pelo setor privado em todas as propriedades do Estado permitirá recuperar áreas degradadas e aumentar a capacidade de suporte das pastagens já existentes. Assim será possível alimentar adequadamente um rebanho duas vezes maior do que o atual sem aumentar as pressões de desmatamento.


Agenda »»14 a 19 de junho

»»10 a 15 de julho

»»23 de julho

XIII Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental Fica Goiás

63ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso Da Ciência (SBPC) Universidade Federal de Goiás (UFG), em Goiânia http://www.sbpcnet.org.br/ goiania/sobre/

VII Conferência De Pequenas e Grandes Centrais Hidrelétricas

www.fica.art.br

»»13 a 15 de junho

9ª Edição Congresso Ambiental

São Paulo http://www.informagroup.com. br/congressoambiental/

»»29 a 30 de junho Am Conferência Lige 2011 Manaus http://lige2011.mgt.unm.edu

»»30 de junho

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Fibops Técnica: Mercado e Consumo São Paulo http://www.institutomais.org

»»6 a 8 de julho Rio Ambiente 2011 – Resíduos Sólidos Rio de Janeiro www.firjan.org.br

»»11 a 16 de julho XIV - Simpósio Brasileiro de Geografia Física Aplicada “Dinâmicas Socioambientais Das Inter-Relações Às Interdependências” Universidade Federal da Grande Dourados Dourados - MS www.xivsbgfa.com.br

»»17 de julho

Centro de Convenções do Novotel Center Norte Vila Guilherme, SP www.conferenciadepch.com.br

»»26 a 28 de julho Fibops – Feira e Congresso Internacional de Boas Práticas Socioambientais Centro de Eventos, São Luis, em São Paulo, SP http://www.fibops.com.br

Dia de proteção das florestas

»»18 a 21 de julho 12º Simpósio de Controle Biológico: “Mudanças Climáticas e Sustentabilidade: Quebra De Paradigmas” Palácio das Convenções do Anhembi, São Paulo http://www.seb.org.br/ siconbiol2011/

»»31 de julho a 5 de agosto XXXIII Congresso Brasileiro de Ciência do Solo Uberlândia-MG www.cbcs2011.com.br

»»01 a 03 de agosto XXII Encontro Técnico AESABESP e Fenasan 2011 Saneamento ambiental - A qualidade de vida no planeta Pavilhão Branco - Expo Center Norte www.fenasan.com.br


»»09 de agosto

»»14 a 18 de agosto

»»21 a 24 de julho

Dia Interamericano da Qualidade do Ar

1ª Conferência Brasileira de Tecnologia e Ciência de Bioenergia

31º Congresso Brasileiro de Espeleologia

»»14 de agosto Dia do combate à poluição

Campos do Jordão

»»25 de agosto Encontro Técnico Gerenciamento de Resíduos São Paulo, SP www.rmai.com.br

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Conferência Olhar Verde, tema: Energia e Mudanças Climáticas Ciesp – Regional Bauru – Bauru-SP www.olharverde.com.br

Campus Uvaranas da Universidade Estadual de Ponta Grossa, PR www.sbe.com.br/31cbe.asp

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»»10 de agosto


congresso

Fonte: Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável

Congresso discute Brasil sustentável

O

Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) promove nos dias 27, 28 e 29 de setembro o 4º Congresso Internacional Sustentável, com o tema Visão 2050: agenda para uma nova sociedade, a ser realizado no Armazém 2 do Píer Mauá, no Rio de Janeiro.

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As discussões da Rio +20 e a construção de uma agenda que aponte os caminhos para um Brasil sustentável em 2050 serão os pilares do Congresso. Para o evento já estão confirmadas as presenças de Brice Lalonde, conselheiro sobre meio ambiente do Governo francês; Sérgio Margulis, PHD em economia ambiental pela Universidade de Londres (trabalhou para o Banco Mundial desde 1996) e Peter Paul, formado pela Universidade de Harvard, Diretor de Comunicação e Negócios da World Business Council for Sustainable Development. A Conferência da ONU vai discutir, de 14 a 16 de maio de 2012, no Rio de Janeiro, a chamada “economia verde” e os caminhos para promover um novo modelo de desenvolvimento. Foi justamente pensando nessa nova economia que incorpora valores desconsiderados até agora – tais como bem-estar das pessoas, sol, água limpa, biodiversidade, terra boa para plantio – que o World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) lançou no ano passado oVision 2050: a new agenda for business. O documento encantou empresários e acadêmicos do mundo inteiro e serve de orientação ao planejamento estratégico de diversas empresas por apresentar o rumo da sustentabilidade nas próximas décadas.

Agenda brasileira da sustentabilidade É com base nesse documento, que o CEBDS vai construir, em parceria com os participantes do Sustentável 2011 – ONGs, empresas, governo e academia – a agenda brasileira da sustentabilidade. Com a mesma metodologia usada pelo WBCSD, o Visão 2050  brasileiro vai indicar os caminhos para que o país chegue a 2050 com qualidade de vida para seus habitantes. O resultado das discussões vai subsidiar a elaboração do documento que será apresentado durante a Rio+20.


Durante três dias, lideranças vão discutir os temas mais efervescentes da sustentabilidade

“Sustentabilidade é o ponto de intersecção entre os negócios e os interesses da sociedade e do planeta” Andrew Savitz, autor de A empresa Sustentável

O formato Durante três dias, presidentes de empresas, executivos, acadêmicos e representantes das ONGs, dos governos e da sociedade vão discutir os temas mais efervescentes da sustentabilidade em ambientes e formatos diferentes para proporcionar a interação entre os diversos públicos. São eles: »» Plenárias – Palco principal do Sustentável 2011. Palestrantes vão abordar temas de interesse geral sobre a Rio+20 e o Visão 2050 direcionados a um público maior (cerca de 600 pessoas), que será incentivado a participar com perguntas. »» Diálogos Multissetoriais – Serão realizados no mesmo espaço da Plenária, em horários alternados, com mais interferência do público, que poderá participar com perguntas e comentários, evidenciando as várias visões que existem sobre um determinado assunto.

Sustentável 2011 Visão 2050: agenda para uma nova sociedade Quando: 27, 28 e 29 de setembro de 2011 Onde: Píer Mauá, Armazém 2, Rio de Janeiro Inscrições pelo site www.cebds.org Mais informações pelo telefone: (21) 2483.2250

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»» Open Space – espaço aberto para debates não previstos na agenda oficial. Quem tiver um assunto relevante poderá apresentá-lo como proposta de debate. Caso haja interessados em participar da discussão, forma-se um grupo que se reúne para debater o assunto. Se o grupo formular uma proposta consistente, um de seus componentes poderá levá-la para discussão na plenária.

Serviço:

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»» Oficinas – Com um público menor, cerca de 60 pessoas, as nove oficinas vão abordar os pilares do Visão 2050: Valores das Pessoas, Desenvolvimento Humano, Economia, Agricultura, Florestas, Energia e Eletricidade, Edifícios, Mobilidade e Materiais. As discussões vão subsidiar a construção do Visão 2050 brasileiro, que será complementado com outros dois workshops – um antes e outro depois do evento.


Artigo Miriam Bento Grejanim Ecóloga pela Unesp Rio Claro; Chefe de Setor de Serviços Ambientais da Saev Ambiental (Superintendência de Água, Esgotos e Meio Ambiente de Votuporanga)

ARBORIZAÇÃO

URBANA Por Miriam Bento Grejanin, Ecóloga

Num momento em que tanto se fala a respeito de questões ambientais como o aquecimento global, as mudanças climáticas e a captura de carbono, o incentivo à arborização urbana deve ser discutido e planejado.

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As árvores estão presentes na história da humanidade desde seus primórdios. A prática de plantar árvores em praças e ao longo de ruas teve início no século XVII com Luiz XIV, na França, estendendo-se por toda a Europa. No Brasil, provavelmente essa prática foi iniciada no final do século XVIII em Belém-PA, pelo arquiteto naturalista Antônio José Landi, que teria plantado mangueiras pelas ruas da cidade para estudar e adaptar a espécie. E posteriormente no início do século XX, época em que se difunde pelo mundo o plantio de árvores nas cidades, dá-se o início do plantio das mesmas na cidade do Rio de Janeiro. Atualmente a arborização urbana tornou-se objeto de estudo de várias ciências devido aos seus fatores ecológicos e ambientais. Vários conceitos foram criados a fim de classificar essa arborização e de oferecer critérios para o seu planejamento. Mesmo com algumas discordâncias quanto à inclusão ou não das áreas particulares é de comum acordo que no conceito de arborização urbana tem-se incluída toda a vegetação arbórea ao longo do sistema viário, bem como nos canteiros centrais das avenidas, nas praças e nas áreas verdes públicas.

A arborização urbana proporciona inúmeros benefícios: »» Melhoria e estabilidade microclimática; »» Rebaixamento da temperatura; »» Diminuição da reflexão de luz solar; »» Aumento da umidade do ar; »» Retenção de material particulado sólido; »» Diminuição da poluição sonora; »» Diminuição do escoamento superficial de áreas impermeabilizadas; »» Oferta de abrigo e alimento para avifauna; »» Redução da poluição visual e melhoria da paisagem; »» Oferta e valorização de espaços de convívio social, pela disponibilidade de praças, parques e jardins de uso púbico; »» Valorização econômica das propriedades, pela agregação de valores indiretos de qualidade ambiental e paisagística dos imóveis; »» Melhoria das condições de saúde física e mental da população.


A arborização urbana tornou-se objeto de estudo de várias ciências devido aos seus fatores ecológicos e ambientais

O clima em geral é não é alterável, mas o micro clima pode ser alterado. Deste modo, a vegetação urbana interfere diretamente na melhoria microclimática de uma cidade.

radiação solar em até 98% e as que possuem copas ralas em até 80%. Por meio da evapotranspiração uma única árvore pode liberar até 400 litros de água por dia, o equivalente a cinco aparelhos de ar condicionado com capacidade de 2500 quilocalorias cada, ligados por 20 horas.

As árvores no ambiente urbano podem atenuar as temperaturas devido a sua capacidade de interceptação da radiação solar e aumento da umidade do ar. Árvores que possuem copas densas podem interceptar a

A copa dos indivíduos arbóreos é muito eficiente na retenção de material particulado suspenso no ar.

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Nas cidades a absorção da radiação solar diurna e a reflexão noturna é maior devido à concentração de áreas construídas e pavimentadas, podendo ocorrer o fenômeno das “ilhas de calor”, no qual há alterações no balanço de energia provocando um diferencial térmico bastante significativo quando comparado com locais vegetados.

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Foto: André Takahashi


Artigo Ruas bem arborizadas retém até 70% da poeira em suspensão. E reduzem a poluição sonora através da absorção e refratação das ondas sonoras. A presença de árvores com copas mais adensadas interceptam parte da pluviosidade precipitada, o que diminui o escoamento superficial em áreas impermeabilizadas. A arborização das ruas pode conectar fragmentos florestais urbanos, áreas verdes e espaços livres, colaborando com a diversidade da flora e fauna. A diversidade de espécies na arborização urbana é muito importante, pois a utilização de poucas espécies ou a dominância de uma única espécie cria um sistema vulnerável a pragas e doenças. Algumas cidades brasileiras, já passaram ou estão passando por problemas devido à homogeneidade de sua arborização o que acarreta perda parcial a quase totalidade das árvores presentes nas calçadas. O recomendado é que se utilize o maior número de espécies possível, preferencialmente espécies nativas e regionais, garantindo, assim maior diversidade biológica e sustentabilidade a essa comunidade. No entanto, mesmo com inúmeros benefícios, a arborização urbana torna-se um assunto muito delicado devido a fatores, muitas vezes, de caráter subjetivo, além do que, na maioria dos casos, os problemas causados pela arborização viária são geralmente resultantes de erros e falhas no planejamento e implantação dessa arborização. Em geral os problemas constatados são os seguintes: »» Entupimento de calhas; »» Rachaduras no piso de calçadas; »» Canalizações deslocadas, obstruídas ou quebradas; »» Quebra de fios da rede elétrica e telefonia; »» Emboloramento em fachadas de prédios; »» Obstrução a posteação e placas de sinalização;

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»» Encobrimento de letreiros ou propagandas comerciais. Muitos moradores também se queixam da “sujeira” causada pelas folhas das árvores, porém tanto esse problema como os apresentados acima são ainda menores do que os benefícios proporcionados e podem ser evitados. A falta de planejamento na arborização pode influenciar as pessoas a ver as árvores como algo incomodo e indesejável, resultando em um grande número de pedidos de corte às Prefeituras, podas drásticas, anelamentos, depredações e consequentemente a escassez de árvores nas calçadas. Determinar onde, como e o quê plantar na frente de uma residência é fundamental para obter no sucesso na implantação da arborização viária. Para isso vários aspectos devem ser considerados como largura da calçada, recuo predial, presença ou ausência de fiação, presença de pos-


Foto: André Takahashi

tes, placas de sinalização, semáforos, bueiros, tubulações de água e esgoto. As características do espaço disponível para a planta crescer determinarão o porte e as espécies mais adequadas para o local. Outro aspecto importante na saúde e bom desenvolvimento da planta é a qualidade e o tamanho da muda a ser utilizada; bem como o tamanho canteiro, o estaqueamento, a condução e poda adequadas, o que evitará futuros problemas com os equipamentos urbanos.

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Em fim, a existência de uma legislação específica para cada município, e de medidas administrativas que garantam a estrutura e qualidade da execução dos trabalhos como mão de obra qualificada e utilização dos equipamentos adequados são fundamentais para o sucesso de projetos de implantação e manejo da arborização urbana. Outro aspecto relevante é o envolvimento de empresas que ajudem sustentar financeiramente os projetos, e o envolvimento dos moradores que são os principais atores para o sucesso que qualquer projeto na área ambiental.

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Orientar a população no plantio e na escolha das espécies garante o bom desenvolvimento da muda e a permanência dela quando adulta no ambiente urbamo. Por exemplo, problemas como entupimento de calhas podem ser evitados utilizando espécies perenifólias, ou com folhas maiores; rachaduras nas calçadas podem ser evitadas com canteiros no tamanho adequado; obstruções de postes e placas de sinalização e canalizações quebradas não ocorrem quando as mudas são plantadas respeitando as distancias mínimas destes objetos.


Charges Rodolfo Gomes da Silva

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Biólogo pela Unicamp e Mestrando em Construções Rurais e Ambiência pela Unicamp


Unifev


Ecologic 1ª edição digital  

Revista Ecologic

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