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Universidade Federal de Ouro Preto Arquitetura e Urbanismo

ARQ131 - Projeto Arquitetônico II TP1

Izabella Flores Acadêmicos:

Lídia Gonçalves Matheus Garcia Pablo Morais

Profªs

Karine Carneiro e Monique Sanches


O que é lazer?

Para Dumazedier (1976) "o lazer é um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se, ou ainda, para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissionais, familiares e sociais.


Justificativa “O lazer desportivo proporcionava-lhes, e, tanto quanto se pode ver, continua a proporcionar hoje, a solução para o problema humano de particular significado nas sociedades, no quadro de um nível elevado de pacificação, e, por isso, com uma sensibilidade comparativa elevada dos seus membros contra a violência e, de fato, contra todos os gêneros de ferimentos físicos infligidos pelos seres humanos uns aos outros (...). Por outras palavras, o que procuro dizer é que a sociedade que não oferece aos seus membros, e, em especial, aos mais jovens, oportunidades suficientes para a excitação agradável de uma luta que não exige, mas pode envolver, força e técnica corporal pode, indevidamente, arriscar-se a entorpecer a vida dos seus membros; pode não proporcionar corretivos complementares suficientes para as tensões não excitantes produzidas pelas rotinas regulares da vida sócia” (ELIAS, 1992, pp. 94-95).


• Investigação de como a violência contra a mulher ocorre nos espaços de lazer ouropretanos. • Mapeando evidenciou que não há a apropriação desses espaços pelo público feminino. • Foi observado em “O lazer da mulher na modernidade” que: “É possível que dupla jornada (trabalho doméstico, mais trabalho formal) feminina esteja contribuindo para uma deterioração da autoestima, depressão, cansaço fisco, tornando-se um profundo estimulador do esgotamento mental. Sendo assim é preciso entender que esta tarefa não é apreciada pelo gênero feminino, mas pode estar sendo suportado de forma cultural e tradicional. Enfim, a inexistente cultura de lazer é de extremo interesse para o âmbito de saúde pública e alarmante em termos de políticas educacionais e culturais aos educadores físicos.” (GARCIA, 2006)

Por que lazer? Portanto, entende-se que a privação do lazer como a falta de tempo devido à dupla jornada, razões financeiras (no caso do recorte feito no Padre Faria) e a parca oferta de equipamentos de lazer urbanos, bem como a falta de segurança nesses locais, não apenas desencoraja a prática do lazer em locais públicos, como representa uma grave violência contra a mulher de baixa renda.


Mapa da RegiĂŁo Trabalhada: Padre Faria Fonte: Bing Maps


Por que Padre Faria? O bairro Padre Faria foi evidenciado como o segundo bairro com mais denúncias de violência em Ouro Preto, segundo dados do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS). Além disso, foi apontado como um dos bairros com a menor quantidade de equipamentos urbanos da cidade, segundo os anexos e tabelas da pesquisa “Equipamentos de lazer e esporte de Ouro Preto: contribuições para as políticas públicas” (ROSA, 2017).

Contando apenas com a Capela do Padre Faria, uma quadra, duas pequenas praças, um complexo poliesportivo, e as atividades oferecidas pelo Centro Cultural do bairro. Desses locais, todos são subutilizados pelo público feminino, que não se apropria desses locais (informação obtida através de cartografia).


Raquel Garcia. Projeto arquitetônico de um Centro de referência de atendimento à Mulher em Ouro Preto/ MG. 2016. Trabalho de Conclusão de Curso. (Graduação em Arquitetura e Urbanismo) - Universidade Federal de Ouro Preto. Orientador: Monique Sanches Marques.


Metodologia 1. Referências bibliográficas que relacionem com o tema e com o recorte adequado. 2. Eleito o recorte (mulheres de baixa renda moradoras do bairro Padre Faria), procuramos moradores 3. A partir daí, foi desenvolvido um questionário que abordasse a maioria das questões levantadas ao decorrer das orientações, bem como um mapa no qual estavam sinalizados os locais de maior visibilidade. Houve também a confecção de adesivos, nos quais os(as) entrevistados(as) poderiam sinalizar quais os sentimentos e atividades relacionados com os locais apresentados no mapa. 4. Dessa forma, a cartografia foi realizada utilizando-se de mapas, adesivos e aplicação de questionário.


Ouro Preto É possível depreender, do estudo de Cavalcante sobre “Um teto todo seu” de Virginia Woolf, que “o lazer é referido como um bem escasso para as mulheres, ao lado do tempo e do dinheiro”. Portanto, procuramos investigar as razões pelas quais o lazer é negligenciado às mulheres periféricas, realizando um corte no bairro Padre Faria devido às enumerações feitas no parágrafo acima. Raquel Garcia. Projeto arquitetônico de um Centro de referência de atendimento à Mulher em Ouro Preto/ MG. 2016. Trabalho de Conclusão de Curso. (Graduação em Arquitetura e Urbanismo) - Universidade Federal de Ouro Preto. Orientador: Monique Sanches Marques.


• O mapa e adesivos foram levados a campo em dois dias úteis, consecutivos, nos períodos da manhã e tarde. • Foram entrevistados homens e mulheres, compondo diferentes mapas e, consequentemente, com diferentes resultados. O questionário foi mais utilizado que o mapa, pois os entrevistados sentiam-se mais à vontade com conversas informais.

• Foi visitada a Capela do Padre Faria, a quadra de futebol, as duas pequenas praças, o complexo poliesportivo, a Escola de Samba e o Centro Cultural do bairro.

Aplicação da metodologia


Qual a idade? É ouro-pretano? Você se declara: Branco/Negro/Pardo/Amarelo/Índigena? Você continua estudando estuda ou faz algum curso? Quais? Se não, por quê? Estuda próximo da sua casa? Se não quanto tempo leva para chegar no local? Qual o estado civil? Tem filhos? Quantos? Você trabalha? Quantas horas por dia? Trabalha no fim de semana? Trabalha próximo a sua residência? Quanto tempo você gasta em seu trajeto? O que você costuma fazer no dia de folga? O que você costuma fazer para se divertir? Espaço doméstico, público ou privado? 1.0 Se doméstico, o que faz e em qual cômodo? 1.1 Você faz isso durante suas folgas, momentos livres do dia ou férias? 1.2 Quais atividades realiza nesse tempo? 1.3. Sozinho ou acompanho (a)? 1.4 Onde? (em casa ou na rua?) 1.5 Atividade paga ou gratuita? 1.6 Qual o horário? 1.7 Você gosta do espaço? 1.8 É muito utilizado? Por quem? 1.9 Você considera seguro o dia todo? Por que? Você acha que tem espaços públicos o suficiente? Senão, o que poderia ter? Se sim, por quê? Você acha que os espaços públicos, incluindo as ruas, são seguros? Por quê? Quais os riscos? Há horários do dia que você se sente mais vulnerável? Quais?

Questionário aplicado Foram mais um roteiro de conversa, do que um questionário.


Cartografias geradas


Mapa: Pontos de ReferĂŞncias


Mapa: Pontos de ReferĂŞncias + trajeto do grupo


Mapa: Pontos de ReferĂŞncias + trajeto do grupo + entrevistados


Mapa: Pontos de ReferĂŞncias + trajeto do grupo + entrevistados + lazer masculino


Mapa: Pontos de ReferĂŞncias + trajeto do grupo + entrevistados + lazer feminino


Mapa Resultado das Entrevistas – Sobreposição Masculina


Mapa Resultado das Entrevistas – Sobreposição Feminina


Mapa Resultado Masculino


Mapa Resultado Feminino


Mapa 6. SĂ­ntese obtida


Resultado dos dados levantados Ao realizar a cartografia, foi evidenciada, primeiramente, a diferenciação do lazer de homens e mulheres.

Homens : No mapa destinado aos homens os lazeres enumerados foram: bares, quadra, centro cultural, circulação pelo bairro e sentem saudade da cachoeira próxima a fábrica antiga. Além disso apontaram a grande incidência policial que ocorre à noite e as poucas opções de atividades no Centro Cultural.


Mulheres

• Evidenciaram o grande problema com o tráfico de drogas na região. • Todas relataram o grande número de afazeres domésticos, e uma delas relatou que não gosta de passar muito tempo em casa, pois tem um marido e quatro filhos homens, e por isso há muito trabalho em casa. Dentre os lazeres domésticos estão enumerados o artesanato (em todos os casos citados, este era vendido), usar o smartphone, ouvir rádio e visitar parentes. • As idosas relataram não frequentar a ginástica do centro cultural, por não terem informações sobre mudanças de horários e frequência semanal. Já as mulheres mais jovens relataram que gostariam de realizar esse tipo de atividades, mas apenas se fossem ofertadas fora do horário comercial, pois têm que trabalhar, e não há atividades para as crianças nesse mesmo horário. • O posto de saúde não atende casos graves, apenas consultas, mas está sempre cheio de mulheres e crianças. Elas dizem preferir ir ao posto, já que é rápido e seguro (conhecem os profissionais), diferentemente da UPA. O enfermeiro é procurado por vezes para desabafar. A secretária do posto de saúde afirmou que os casos de violência física contra a mulher não são numerosos no bairro, já que só foram levados ao posto dois casos nos últimos seis anos. Nesses casos, encaminham-na para a policlínica ou santa casa. • Como lazeres antigos que acabaram foram enumerados a cachoeira, o cine Vila Rica e as festas tradicionais, como a queima de Judas.


Espacialidades e territorialidades


Questionamentos Quando questionados sobre o que gostariam de ter no bairro e onde, os entrevistados apresentaram as seguintes demandas: • Retirada de mato e entulho das praças e da escola de samba, limpeza das lixeiras; • Conserto da rede de esgoto próxima ao posto de saúde; • Troca de lâmpadas queimadas nas pracinhas; • Apoio à festa da Nossa Senhora Aparecida, na Rua Santa Rita. • Levando essas demandas em consideração, foram levantadas:


Percepções O que percebemos é que as mulheres no caminho de suas casas param para conversar com vizinhos em frente a casa delas, assim o lazer dessas pessoas são corriqueiros e temporários. Tomando isso em conta, pensamos em um espaço de ocupação para lazer, não definitivo. Mas uma intervenção onde essas mulheres pudessem ao longo do caminho se apropriarem de diversas formas. Além disso poderiam propor a troca e venda de seus produtos produzidos em casa.


Espaรงos


Espaรงos


Usina de reciclagem abandonada: grande espaço inutilizado, porém versátil, em um lugar acessível, muito próximo à quadra;


Complexo poliesportivo: espaço amplo e bem equipado, porÊm subutilizado.


Espacialidades • Reforma de alguma das territorialidades para abrigar um centro comunitário para eventos e festas tradicionais do Padre Faria. Dessa maneira, a comunidade receberia um incentivo claro para as festas religiosas e tradicionais, sem algo que as impeça financeiramente ou espacialmente. • Centro comercial e capacitante para mulheres (cursos e feiras de artesanato). As mulheres apontaram como uma das atividades de lazer mais frequentes o artesanato para venda. Dessa maneira, será possível a troca de conhecimentos através do encontro de artesãs, promovendo uma maior integração do público feminino do Padre Faria • Expansão das atividades do centro cultural para maior abrangência de públicos e atividades A maior reclamação, tanto de homens quanto mulheres, é a restrição de horários e atividades oferecidas pelo centro cultural. Ao visitar o local constatamos a decoração com motivos infantis e o conteúdo das oficinas e aulas ministradas. Dessa maneira, seria interessante que houvesse uma reforma ou um anexo do Centro Cultural, que oferecesse atividades à esses públicos, bem como gerando maior integração dos participantes, e motivando as ações de pertencimento e apropriação dos locais de lazer apresentados


Territorialidades (onde) 1. Usina de reciclagem: o local tem boa localização, e é anexado à quadra, já utilizada, mesmo que por um público restrito. Sendo assim mais propício à apropriação pelos moradores, e também contribuindo para reduzir a hegemonia masculina no local; 2. Fábrica abandonada: O local é motivo de forte memória afetiva e nostalgia pelos moradores mais velhos. Juntamente com a cachoeira (hoje poluída), a fábrica constitui um antigo lazer dos moradores, e poderia ser um espaço revitalizado. 3. Complexo poliesportivo: O local não foi citado em nenhuma das entrevistas, e não foi associado a nenhum público. Dessa maneira, seria possível aproveitar a ótima infraestrutura do local para o exercício de outras atividades mais interessantes à sociedade. 4. Terreno ocupado: Após a morte da proprietária, o local foi ocupado por pessoas de outros bairros, algo que não agrada aos moradores. O local foi apontado por duas das entrevistadas como um local acessível e com grande área, que seria ideal para fazer um espaço comum do bairro, que não incomodasse tanto aos moradores como a Escola de Samba


Bibliografia • • • • •

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DUMAZEDIER, Jofre (1976) Lazer e cultura popular - Debates, São Paulo: Perspectiva. ELIAS, Norbert. Ensaio sobre o desporto e a violência. In: DUNNING, Eric; ELIAS, Norbert. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992. Antônio Cavalcante (2015) - https://jus.com.br/artigos/43068/o-direito-ao-lazer-das-mulheres Julia Garcia (2014) - http://sengeba.org.br/artigo-a-cor-dessa-cidade-sou-eu-a-mulher-negra-na-cidade/. Acesso em 25 abril de 2018. ROSA, Maria Cristina (Org.). Lazer em Ouro Preto e Mariana: Espaços e equipamentos. 2013. Editora UFOP. Disponível em: <http://www.editora.ufop.br/index.php/editora/catalog/view/26/15/54-1>. Acesso em: 26 abr. 2018. GARCIA, Alessandro Barreto. O Lazer da Mulher na Modernidade. 2006. Disponível em <https://www.recantodasletras.com.br/trabalhos-academicos-de-educacao-fisica/202570> Acesso em 24 abr. 2018. Imagens de fundo: https://unsplash.com


Interseções entre violência contra a mulher e o acesso ao lazer  

É possível depreender, do estudo de Cavalcante sobre “Um teto todo seu” de Virginia Woolf, que “o lazer é referido como um bem escasso para...

Interseções entre violência contra a mulher e o acesso ao lazer  

É possível depreender, do estudo de Cavalcante sobre “Um teto todo seu” de Virginia Woolf, que “o lazer é referido como um bem escasso para...

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