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Trabalho de Conclusão de Curso, orientado pelo professor Mateus Bastos, para obtenção do diploma de Jornalista. Faculdades Integradas Ipitanga - UNIBAHIA

Projeto gráfico Matheus Lins Produção gráfica Matheus Lins Ilustrações Marcos Paulo Catalogação na fonte Daniel Souza

_______________________________________________ S677 Sobrinho, Wesley Matos Queimadas e a prisão de Santo Antônio./ Wesley Sobrinho. _ Salvador: do Autor, 2009 92 p. il.: ISBN 1 Literatura . 2 Livro reportagem . 3 Jornalismo – História Social I Título/ UNIBAHIA CDU 070:94(813.8)

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Os direitos sobre esta obra literária pertencem exclusivamente ao autor. C Wesley Sobrinho, 2009


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Para meus pais Herm贸genes e Neilda


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Sumário

Prefácio Apresentação

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I. MALDIÇÃO

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II. APARIÇÃO

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III. CRIME

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IV. JULGAMENTO

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Entrevistados Igrejas Mapa

77 83 87

Refrências

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Prefácio

Ao concluir sua graduação,

Wesley Sobrinho, afirma duas certezas para seu futuro profissional. A primeira que ressalto é a opção pela reportagem escrita, que foi experimentando cotidianamente nos seus dois anos de estágio no grupo A Tarde. No início, sua missão primordial era ficar atento aos acontecimentos, por meio de diversas rondas, mas inúmeras vezes ele mesmo traduzia em texto cada uma dessas notícias, colaborando na alimentação do portal do grupo. Interessado em escrever mais e mais, Wesley não deixava passar nenhuma oportunidade de desdobrar essa informação imediata em matéria completa para o jornal impresso, desde já o veículo de sua preferência. Cheio de disposição para aprender, ele se entregava à pauta, nem que naquele contexto fosse assinar apenas por uma colaboração. Acompanhei de perto sua atuação na produção de matéria para a editoria de Bahia, quando complementava apurações ou assumia sozinho o trabalho que o repórter da sucursal estava impossibilitado de fazer. Ouvia as orientações e se lançava à missão do dia, sempre dialogando sobre o andamento da pauta, possíveis problemas e soluções. Sim, ele sabe que um jornalista nunca está pronto, está sempre aprendendo e se aperfeiçoando por meio dos desafios que resolve aceitar. A segunda determinação que pode ser percebida no livro-reportagem que marca sua formatura é o olhar voltado para suas origens. Após 9


quase dois anos dentro de uma redação de impresso, Wesley com certeza se deparou com um sem fim de temas interessantes e jornalisticamente ricos, mas preferiu dar visibilidade a um lugar pouco notado: a cidade de Queimadas, onde nasceu e viveu até terminar o ginásio. No livro, ele dá o primeiro passo de um projeto de vida, trazer Queimadas para a pauta do dia, mostrar que aquele município de calor escaldante tem muita história para contar. Embora saiba que onde estiver não perderá essa meta de vista, ele pretende um dia voltar a viver sobre o solo árido onde cresceu e presentear a cidade com o primeiro jornal local. O jornalista queimadense não se ilude, sabe que ainda terá alguns anos de trabalho pela frente até realizar esse sonho, mas mostra-se seguro quanto à boa receptividade da idéia. No que depender do tino de Wesley para identificar assuntos que suscitem interesse geral, a meta está a meio caminho de ser atingida. Soube escolher entre os diversos acontecimentos curiosos contados ao longo da sua infância, o mais nebuloso e interessante deles, um caso que interessa a juristas, religiosos, historiadores, enfim, a qualquer pessoa, independentemente da sua profissão ou credo. Afinal quem não quer saber mais sobre um santo que acabou preso? Em pesquisa aprofundada, ele reúne todas as informações existentes do inusitado caso da detenção e condenação de Santo Antônio, mostrando como o ocorrido – embora não falte quem jure ser tudo lenda – repercute séculos depois na cidade, onde não faltam moradores certos que são vítimas de uma maldição. Jane Fernandes Coordenadora das sucursais do jornal A Tarde

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Apresentação

Entre a gama de fatores que me motivaram a escrever este livro está o fato de eu ser filho da terra onde a história se passa. Queimadense que cresceu sobre este solo árido, respirando o ar seco de lá, escutei vários contos escabrosos contados pelos mais velhos: homem que se transforma em porco em tempo de quaresma na Rua São José; lobisomem com patas de bode comendo cachorrinhos na Rua da Palha e no Alto da Jacobina; monstros marinhos emergindo da Barragem dos Coxos; Negos D’água subindo, faceiros, a correnteza impiedosa do Rio Itapicuru em tempo de enchente. Histórias contadas, mas não registradas por escrito, perdem força e acabam morrendo com o passar das gerações. Reside aí o segundo fator motivador da decisão de escrever este livro. Como vimos, não faltam histórias a serem relatadas. Mas esta obra destina-se ao resgate de apenas um “fato”; para mim, o mais relevante para a cultura do município. É um mergulho num curioso caso diretamente ligado ao surgimento da cidade de Queimadas e à sua atual situação (marcada pela carência de um sistema educacional eficiente, de uma administração pública mais dedicada e, principalmente, de água). Trata-se de um crime que culminou na prisão da imagem de um santo, que, inconformado com a injustiça sofrida, teria rogado uma maldição sobre a cidade. Segundo relato de algum dos mo11


radores, a praga rogada tem duração predeterminada: mil anos. Quanto à crença dos moradores na história da maldição, as opiniões se dividem. Muitos acreditam ser impossível que um santo rogue praga em alguém, muito menos sobre uma cidade inteira. É o caso do advogado José Ferreira de Santana, 81 anos, mais conhecido como Dr. Zezito. Para ele, a carência de recursos, a falta de emprego, a estagnação econômica e outros tantos fatores negativos que compõem a áurea maléfica que dá a cidade esse aspecto de local mal assombrado, na verdade têm raízes em causas bem mais mundanas. “Todos os problemas sofridos pelo povo seriam resolvidos se políticos comprometidos trabalhassem em prol do desenvolvimento da cidade”, afirma, acrescentando que não crê, sequer, na ocorrência da prisão. O primeiro cômodo da casa de Dr. Zezito, logo após a porta de entrada, é seu escritório. Uma estante repleta de livros de Direito esconde a parede atrás da mesa e da poltrona de madeira. Sentado nela, o octogenário opina sobre a tão temida maldição. Abaixa o tom de voz para relatar o que, ao seu ver, é o segundo motivo para a estagnação da cidade: “A culpa, de certa forma, é do próprio povo. Tem gente que paga mil para o vizinho não ganhar quinhentos”, arremata, parafraseando Octávio Mangabeira. Também há quem afirme veementemente que a maldição é a única explicação para o mal que o povo queimadense sofre. É o caso da ex-parteira Raimunda Lírio de Souza, 73 anos, autora dos partos dos meus três irmãos mais velhos. Para ela, a condenação do santo que tantas vezes atendeu as preces dos fiéis cidadãos de Queimadas foi uma injustiça e um ato ingratidão. “Acusaram a imagem injustamente, por isso a cidade está como está”, diz. 12


O fato é que, céticos ou crédulos, todos sofrem com os lamentáveis fenômenos sociais e naturais que maltratam Queimadas. A imagem presa e condenada é a do tão popular Santo Antônio. O julgamento ocorreu no município de Água Fria, motivado pela acusação de que a imagem teria cometido um crime em Queimadas. Decidi investigar a polêmica prisão e a maldição que esta provocou. O resultado desta apuração está contido neste livro. Não foram poucas as contradições encontradas durante a apuração. As diferentes versões que o fato ganhou ao ser contado de geração para geração ficaram bem visíveis nos depoimentos que colhi. A escassez de documentação oficial pode ser justificada por um incêndio que consumiu os arquivos da prefeitura ninguém sabe precisar exatamente quando. No livro de Nonato Marques, Santo Antônio das Queimadas, escrito e publicado em homenagem ao centenário da emancipação do município, uma singela referência ao incêndio: “As dificuldades encontradas foram grandes. O arquivo da prefeitura desapareceu num incêndio. Nada de significativo restou, tendo o passado remoto de uma localidade se convertido num montão de cinzas”. A extinção da comarca jurídica de Água Fria, de onde os documentos referentes ao processo jurídico foram extraviados, foi outro fator que dificultou a pesquisa. Por conta destes percalços durante a apuração, tive que recorrer quase que exclusivamente a depoimentos de pessoas que conhecem a história. No entanto, a busca insistente por fontes mais concretas resultou na descoberta de uns poucos documentos referentes às posturas administrativas e descrições antigas da região. Livros com informações sobre personagens importantes para a história do município também deram suporte à narração. 13


Compartilho com você, leitor, alguns dos desafios nos quais esbarrei durante a apuração em coordenadas que denomino Improváveis Coincidências. Faça bom proveito deste livro. Ele propõe um mergulho numa história fantástica e real que teve início na última metade do século XVII. Vamos aos “fatos”... O autor

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Na entrada da cidade, um Santo Antônio de gesso “recepciona” os que chegam. Nada de acenar ou sorrir gentilmente. Lá, no final da tarde, quando o chão ainda está coberto pela camada de mormaço, bate uma leve brisa. Arbustos se abraçam na pequena praça. Às costas da imagem, uma cidade pacata castigada pelas longas estiagens. É o município de Queimadas, localizado a 300 quilômetros de Salvador, capital da Bahia. Por trás dos olhos azuis da imagem sacra se escondem segredos que provocam medo. Certa vez, dizem os moradores, o padroeiro de semblante tão pacífico se irou contra a cidade e rogou uma maldição sobre ela. Cerca de dois séculos se passaram e a crença na maldição sobre a cidade ainda exerce forte influência no modo de ser e pensar do queimadense. O motivo da ira teria sido uma acusação injusta e sentença desfavorável que sofreu. É esta sina – provocada pela prisão da imagem de Santo Antônio – a responsável pelo sentimento comum de comodismo notado na população local. Tudo de mal é atribuído à maldição, o que gera uma situação cômoda até mesmo para o poder público municipal.

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Vestígios desta história – que muitos qualificam como fantástica – estão presentes em alguns websites regionais pouco acessados. Relatos dela também podem ser encontrados em livros e antigos exemplares de jornais aqui e acolá. Na maior parte dos registros existentes, geralmente pobres e desprovidos de embasamento documental que confirme sua veracidade, o acontecimento é tratado pelos próprios autores como “lenda”. Não os culpo. A história da prisão de Santo Antônio está recheada de elementos comumente utilizados em fábulas. Poucas pessoas acreditariam numa história sobre uma cidade que foi amaldiçoada por um dos mais populares santos do catolicismo. No entanto, dar uma volta a pé pela cidade numa tarde qualquer seria suficiente para que o cético respirasse um pouco da maldição e, talvez, mudasse de opinião. O calor na cidade é insuportável. O sol escaldante faz os paralelepípedos esquentarem como panelas ao fogo. Dá pra fritar ovos neles. O mormaço deixa a vista embaçada. Até o nome irradia calor. Notei, ainda criança, que o município nunca aparecia nos jornais televisivos. Isso causava grande consternação entre os moradores. Nem mesmo nos quadros de notícias policiais, falava-se do lugar. Quando algo ocorrido nas proximidades era noticiado na TV, a família inteira se amontoava na sala, na esperança de ouvir algum tipo de referência a Queimadas. Lembro-me do dia em que, na casa de Denis Willian, amigo de infância, o pai dele, José Martins – mais conhecido como Bambá – reclamou do jornalista que saltou o nome de Queimadas quando narrava a rota de fuga de assaltantes. “Como é que pode?! De Santa Luz pularam para Cansanção!”, bradou inconformado.

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A cidade passou as últimas décadas praticamente ausente dos jornais, mas nem sempre foi assim. Queimadas foi citada com destaque durante a Guerra de Canudos, e figura na famosa cobertura do escritor Euclides da Cunha, publicada no jornal O Estado de São Paulo e, posteriormente, no clássico Os Sertões. Nos anos de 1896 e 1897, período da resistência dos fiéis que lutaram contra o Exército Brasileiro na cidade de Canudos, pela causa de Antônio Conselheiro, Queimadas foi a região escolhida para acomodar as expedições militares, armazenar suas munições, armas e alimentos trazidos de trem. Vale ressaltar que a escolha da cidade deu-se devido a sua posição geográfica, de fácil acesso à Canudos, e por ser passagem de linha férrea. A penúltima e antepenúltima expedições militares, comandadas, respectivamente, pelo Major Febrônio de Brito e pelo sanguinário general Moreira César, o Corta-Cabeça, voltaram derrotadas de Canudos para Queimadas. Muitos dos habitantes da cidade a abandonaram neste período. Segundo Nonato Marques, em seu livro Santo Antônio das Queimadas, a guerra – e, por conseqüência, Queimadas - ganhou destaque nos jornais que circulavam na Bahia (Diário da Bahia, Diário de Notícias e Jornal de Notícias). Posteriormente, repercutiu em São Paulo e no resto do país. O Estado de São Paulo, Gazeta de Notícias, Jornal do Comércio e Notícia, entre outros, enviaram correspondentes para cobrir as operações do Exército. A forma como os jornais descreviam o município, em sua maioria, era depreciativa. Euclides da Cunha não é um caso a parte, diz o atual diretor do Centro Educacional Santo Antônio Queimadas (Cesaq), José Ailson Oliveira. Segundo ele, o jornalista “exagerou” ao afirmar que a igreja de Santo Antônio parecia mais um “barracão de feira”. Em Os Ser-

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tões, o autor dedica uma coordenada, intitulada Páginas Demoníacas, para descrever a Igreja de Santo Antônio: “(...) a capela exígua e baixa como um barracão murado. E nas suas paredes, cabriolando douradamente, a caligrafia manca e a literatura bronca do soldado. Todos os batalhões haviam colaborado nas mesmas páginas escalifando-as a ponta do sabre ou tisnando-as, no gravarem as impressões do momento. Eram páginas demoníacas aqueles muros sacrossantos, perminantes imprecações, e brados e vivas calorosos regavam-nas em todos os sentidos profanando-as mascarando-as em caracteres negros espetados em pontos de admiração compridos como lanças.” Além disso, como era de se esperar, os repórteres davam destaque aos desastres da guerra em curso. E era para Queimadas que voltavam, para serem medicados, os soldados mutilados. As descrições que os jornalistas enviados faziam da cidade era de uma terra semelhante ao inferno. A todo o momento, ouviam-se gritos de dor intensa e se sentia cheiro de morte por onde quer que se andasse. Acabada a peleja, a cidade desapareceu do mapa. Passou dos jornais aos livros de história, sendo citada sem nenhum destaque no capítulo sobre a Guerra de Canudos. O povo queimadense se sentiu, mais uma vez, vivendo numa terra esquecida. Coisas simples. Prováveis coincidências na opinião da maioria. Porém, para uma minoria que não ignora os efeitos da maldição, não se trata de obra do acaso. Esse isolamento e essa terrível imagem que é passada sobre a cidade integram os castigos rogados por Santo Antônio. Queimadas permaneceu, assim, esquecida por muito tempo, até que reapareceu em rede nacional mais uma vez, em fevereiro de 2008. O então prefeito do município, José Mauro de Oliveira Filho, 20


doou um terreno de 120 metros quadrados – uma praça de propriedade do Poder Municipal – a Gutenberg Dourado da Mota, conhecido como Cigano Careca. Os burburinhos se restringiram aos limites da cidade até o dia 18 de fevereiro, quando o Ministério Público Estadual (MPE) instaurou ação civil pública para apurar o caso. Uma nota foi disseminada pelo MPE e a mídia cuidou em espalhar a notícia. O então presidente da Câmara de Vereadores de Queimadas, Eleilton Alves (PR), deu o seguinte depoimento ao A Tarde Online no dia 20 de fevereiro: “A cidade inteira comenta as relações ‘obscuras’ entre o prefeito e o Cigano. Em todas as datas que a Prefeitura recebe repasses financeiros, vários ciganos são vistos em propriedades de José Mauro Filho e na sede da Prefeitura”. Na época, eu estagiava na Agência A Tarde. Vi a matéria produzida para a edição impressa ser vendida para jornais do país inteiro. Em reportagem do Jornal Hoje, da Rede Globo, o próprio prefeito afirma, indiferente, que não há mal em sua atitude: “Houve a doação. O que é que tem? Deu prejuízo a quem, por Nossa Senhora?”. Na mesma matéria, o cigano Gutenberg fala ao repórter Giácomo Mancini: “Sim senhor. Ele me doou como amigo. A gente foi criado junto”, explica. A veemência ao afirmar que a praça foi uma doação pela amizade entre ambos foi a resposta do cigano aos boatos de que, na verdade, o prefeito teria sanado, com a doação, uma dívida de cerca de R$ 10.000 com ele. Na praça, o cigano já estava construindo um imóvel que funcionaria como lanchonete. Por causa do “presente” – registrado em cartório, mas entregue ao cigano sem o consentimento da Câmara Municipal – a cidade passou a ser motivo de chacota no Brasil inteiro. Queimadenses passaram a ser alvo de constantes avacalhações, tendo de ouvir frases do tipo “será que rola 21


uma praça lá pra mim também?” Criaram até comunidade no Orkut para caçoar do município. Eu, mesmo estando em Salvador na época em que a notícia explodiu, recebi telefonemas, e-mails e mensagens de amigos. Todos empenhados no objetivo comum de gozar do queimadense. Coisas simples? Prováveis coincidências? Talvez.

Voltando ao clima, há algo importante a ressaltar. O calor exagerado não é o único fenômeno anormal. Pasmem! A cidade já foi vítima de enchentes torrenciais – duas das quais, ocorridas nos anos de 1910 e 1911 – que derrubaram praticamente todas as residências e as poucas casas comerciais da antiga Vila Bela de Santo Antônio das Queimadas. Foram doze dias de aguaceiro ininterrupto. O Rio Itapicuru ganhou volume de forma surpreendente, como nunca visto antes. Transbordou e invadiu ruas e habitações. O povo, acostumado a clamar aos céus por água, rezou para que a chuva cessasse. Das 450 casas existentes, sobraram pouco mais de 300 depois da primeira enchente. Mal houve tempo para que os moradores começassem a reconstruir suas vidas e uma segunda enchente, no ano seguinte, se encarregou de derrubar as casas restantes e deixar apenas as ruínas da Igreja local, o único vestígio remanescente daquela época. A primeira capela construída na cidade foi engolida pelas águas, junto com as lembranças de quando Santo Antônio respondia de bom grado às preces do povo queimadense. Tudo da velha Queimadas foi destruído, com exceção de cerca de ciquenta residências situadas no alto – umas dez na altura da Estação 22


de Trem e outras quarenta espalhadas pela Rua da Bomba e nos Altos de Boa Vista e Jacobina1. Para ter uma ideia do impacto do desastre na vila, basta lembrar, como o faz matéria publicada no extinto Jornal da Bahia, edição do dia 10 de maio de 1976, que: “Antes das inundações de 1910 e 1911, Queimadas era o maior núcleo populacional do município de Bonfim.” Outra ocorrência que reforça os argumentos de quem acredita na maldição é o fato do temido cangaceiro dos sertões, Virgulino Ferreira da Silva, famoso Lampião, ter passado por Queimadas com seu bando e deixado lá o seu rastro de sangue. A “visita” inesperada aconteceu no dia 22 de dezembro de 1929, um domingo. Lampião e mais quinze cangaceiros foram deixados à margem esquerda do Rio Itapicuru por um caminhão que circulava pelo sertão a serviço da Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (Ifocs), órgão já extinto. Os primeiros a topar com o bando após a chegada deste à beira do rio foram os irmãos Carlos Hilário e Irênio Marques. Ambos foram obrigados a providenciar canoas para que o bando atravessasse o rio. O bando se dividiu. Metade seguiu em direção ao quartel (onde hoje funciona a delegacia de polícia, que divide a parede central com a prefeitura) e a outra parte seguiu para a estação da estrada de ferro, para cortar os fios do telégrafo e extinguir a possibilidade de qualquer pedido de socorro. Chegaram sem alarde à cidade. Nem a população nem a polícia imaginavam que se tratava do temível bando de Lampião, já que se pensava que estes não ousariam entrar na vila, protegida por sete soldados e um comandante. Os moradores não esboçaram reação ao ver aqueles homens desconhecidos rondando a vila. Acharam que se tratava de um grupo da força policial pernambucana.

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Os sete soldados foram mortos na frente do quartel. Lampião ordenava, um a um, que desabotoassem as caneleiras. Assim que se abaixavam, recebiam um tiro de mosquetão na cabeça. O terceiro deles, de pré-nome Aristides, não se sabe se por excesso de coragem ou medo em demasia, resistiu à ordem dos facínoras e não baixou a cabeça. Ficou de pé e, conta a história, vociferou com autoridade surpreendente: “Vocês são uns bandidos covardes. Ponham em minha mão uma destas armas e vamos ver quem é mais homem”, disse. Além do tiro, Aristides foi sangrado no pescoço por Volta Seca, o mais jovem dos cangaceiros.2 Terra seca, enchentes, numerosas mortes provenientes da Guerra de Canudos, assalto do bando de Lampião - para não falar da praça doada pelo prefeito altruísta - são apenas algumas das ocorrências que, de maneiras diferentes, contribuem para a baixa auto-estima dos queimadenses. Tudo reforça a idéia de que Queimadas é um município amaldiçoado. Porém, o município não foi o único lugar castigado pelo santo. Água Fria compartilha com ela este mal milenar. Os povos das duas cidades reagiram ao fenômeno da mesma forma? As consequências sofridas têm a mesma intensidade? Em Água Fria, as mazelas da maldição vieram rápido e surpreenderam os moradores. Anos após o fatídico julgamento, o município deixou de ser cabeça de comarca jurídica, sede para todos os municípios localizados dentro do limite que ia do Castelo da Torre de Garcia D’Ávila, na Praia do Forte, até o município de Jacobina. A comarca passou a funcionar em Irará. O juiz, autor da sentença, sobre o qual nos aprofundaremos mais adiante, foi transferido para a Comarca de Cachoeira. A oficiala e tabeliã do cartório de Água Fria, Maria Valdete de Oliveira Cunha, filha do município e autora do vídeo-documentário O 24


Santo que Foi Preso conta que a maldição exerce grande influência no modo de agir das pessoas, mesmo depois de tantos anos. A reação à praga rogada por Santo Antônio revoltou os moradores. As paredes do local onde funcionava a importante comarca jurídica, monumentos e imagens espalhados pela cidade e que faziam referência ao fato, ou o lembravam de alguma maneira, foram destruídos e queimados pelo povo. “A população viu a cidade minguar depois do julgamento e condenação da imagem de Santo Antônio. Por isso, tentaram se livrar de tudo na cidade que remetia ao fato”, explica Valdete. Perder o status de cabeça de comarca não é a única queixa dos moradores de Água Fria. A cidade teve sua própria paróquia entre os anos de 1717 e 1843, mas, por conta da condenação da imagem, a paróquia foi rebaixada para capela e, somente no dia 29 de agosto de 2008, recuperou sua antiga posição. Na mesma matéria do Jornal da Bahia que falava da enchente de Queimadas, há o depoimento da então estudante de Direito Ana Lúcia, que se debruçou sobre o tema e tentou, sem êxito, encontrar o processo que condenou Santo Antônio: “O prefeito reside fora da sede do município, assim como acontece com o de Queimadas. E do antigo centro jurídico, hoje só resta um pequeno cartório de registro civil. Água Fria não tem vigário residente e, num local onde havia escolas e cátedras de latim, funcionam poucas escolas primárias de professores também residentes fora da cidade.” O atual padroeiro de Água Fria é São Sebastião. A escolha deste como padroeiro foi motivada pela atuação histórica do mesmo contra pestes, fome e guerra. Certa feita, a cidade foi acometida por uma série de epidemias de doenças como tuberculose, varíola e peste bubônica. Famílias inteiras morreram. Atribuiu-se isto à maldição. São Sebastião foi, então, escolhido como padroeiro para amenizar os males impostos pelo outro santo. 25


A fama da maldição era tão disseminada no século XIX que os trabalhadores que construíam uma linha férrea na região, em 1888, preferiram trabalhar dobrado, fazendo a linha passar por fora da cidade numa volta inexplicável, que colocar os pés em Água Fria. Atualmente, uma casa em construção ocupa o local do antigo fórum. Ao lado, o alicerce da comarca e da forca onde os condenados eram esgoelados pode ser visto. Valdete conta haver ossadas sob o solo onde ficava a forca, num buraco com pontas de ferro apontadas para o céu. Seria nesta forca que Santo Antônio seria enforcado caso fosse condenado à morte, o que, segundo ela, quase aconteceu. Até hoje, pessoas afirmam ouvir, à noite, os gritos das almas dos enforcados. A forca foi destruída somente na década de 70. Tal qual Água Fria, Queimadas foi, aos poucos, tomando suas punhaladas. As marcas são visíveis até hoje e, quando em vez, um novo golpe é desferido e mais uma prova é inserida no acervo da maldição. Atualmente, uma cópia da antiga imagem de Santo Antônio se encontra na entrada do município, de costas para a cidade. A postura dela traduz o sentimento do povo queimadense, que se vê desprezado pelo tão popular padroeiro. No entanto, antes de julgá-lo mais uma vez, é preciso saber como o santo apareceu na cidade, se tornou padroeiro da mesma, e como acabou indo parar na cadeia. Diz-se que o passado explica o presente. Talvez não convença, mas explica.

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Improváveis Coincidências - Parte I Acabara de iniciar a pesquisa para a construção desta obra quando tentaram me lograr. Era uma quantia insignificante, mas o logrador queria passar adiante o pequeno prejuízo. Fui eu o escolhido. Aconteceu num desconfortável transporte alternativo. Uma Perua. As moedas tilintavam na palma da mão do cobrador. Seus olhos alternando entre os meus e os metais gastos. Estendemos o braço direito, um na direção do outro. Ele despejou várias moedas de cinco centavos na minha mão. “O troco”, disse. Demonstrei minha insatisfação. Abri a mão, fitando as moedas com desprezo. Foi aí que notei uma peça incomum. Uma delas não era uma moeda de cinco centavos de Real, mas cinco centavos de Euro. Na coroa, uma cruz templária cercada por doze estrelas num círculo ao redor. Outras doze figuras – cinco escudos e sete guaritas – “protegiam” a cruz do centro, formando um círculo ao redor dela. As hastes do símbolo do sacrifício de Jesus separando a palavra Portugal em quatro: Por-tu-ga-l. Isso mesmo. Uma moeda oriunda de Portugal, País onde Fernando Martins de Bulhões, o Santo Antônio, nasceu. Pasmo, balbuciei para mim mesmo: “É só coincidência”. Desci do veículo com o punho cerrado. A moeda escondida na mão parecia pulsar, querendo libertar-se. Bastou uma busca na Internet e descobri, com certo temor, devo acrescentar, que o mesmo símbolo presente naquela minha moeda também tinha sido contemplado por Santo Antônio, quando ainda era apenas Fernando de Bulhões. Trata-se do símbolo criado pelo primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, para autenticar decretos e outros documentos da Coroa. Nossa! O símbolo na minha moeda fazia as leis do tempo de Santo Antônio valerem. Por via das dúvidas, passei a levar a moeda comigo durante a apuração.

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Dias depois, quase pago um corte de cabelo com meu Euro precioso, mas, ao perceber, o coloquei de volta do bolso da calça jeans azul. Certifiquei-me de que a moeda estava no bolso e fechei a abertura com o ziper. Noutro dia, quando saía para continuar o trabalho – tinha uma entrevista marcada às 9 horas com as freiras beneditinas missionárias no convento da cidade – percebi que minha moeda não estava no bolso. Procurei em cada canto da casa, nos bolso das outras roupas, em cada gaveta. Minha moeda havia desaparecido.

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Livro Wesley