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A DOUTRINA DA ELEIÇÃO A. W. Pink


Traduzido do original em Inglês

The Doctrine of Election By A. W. Pink

Via: PBMinistries.org (Providence Baptist Ministries)

Traduzido por William Teixeira, Camila Almeida e Amanda Ramalho Revisão por William Teixeira e Camila Almeida Capa por William Teixeira

1ª Edição: Janeiro de 2015

Salvo indicação em contrário, as citações bíblicas usadas nesta tradução são da versão Almeida Corrigida Fiel | ACF • Copyright © 1994, 1995, 2007, 2011 Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

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Sumário Prefácio ........................................................................................................................ 4 Uma Biografia de A. W. Pink, por Erroll Hulse .................................................................... 14 1 • Introdução ............................................................................................................. 22 2 • Sua Fonte .............................................................................................................. 28 3 • Sua Grandiosa Origem.............................................................................................. 35 4 • Sua Veracidade ....................................................................................................... 48 5 • Sua Justiça ............................................................................................................. 61 6 • Sua Natureza .......................................................................................................... 74 7 • Seu Propósito ......................................................................................................... 88 8 • Sua Manifestação ...................................................................................................102 9 • Sua Percepção .......................................................................................................124 10 • Sua Bem-Aventurança ...........................................................................................150 11 • Sua Oposição .......................................................................................................157 12 • Seu Anúncio ........................................................................................................171 Apêndices: Parte I – Doutrinária A Soberania de Deus na Salvação dos Homens - Jonathan Edwards .....................................191 Quem São Os Eleitos? - C. H. Spurgeon ...........................................................................209 Eleição e Vocação - R. M. M’Cheyne ................................................................................223 A Gloriosa Predestinação - C. H. Spurgeon .......................................................................229 Eleição e Santidade - C. H. Spurgeon ..............................................................................244 A Doutrina da Eleição, Artigo - A. W. Pink ........................................................................259 A Doutrina da Eleição - João Calvino ...............................................................................273 Feliz és Tu, ó Israel! - R. M. M’Cheyne ............................................................................283

Parte II – Apologética O Som Alegre do Evangelho da Graça de Deus - Augustus Tolpady ......................................301 O Mito do Livre-Arbítrio - Walter J. Chantry ......................................................................323 Objeções à Soberania de Deus Respondidas - A. W. Pink ...................................................328 Como Toda a Doutrina da Predestinação é Corrompida pelos Arminianos - John Owen ............338 Eleição Particular - C. H. Spurgeon .................................................................................355 A Prerrogativa Real - C. H. Spurgeon ..............................................................................368 O Que é Calvinismo? -— B. B. Warfield, John A. Broadus & Patrick Hues Mell .........................383 Uma Defesa do Calvinismo - C. H. Spurgeon ....................................................................385 Na Casa do Oleiro - A. W. Pink.......................................................................................397 Uma Carta de George Whitefield a John Wesley Sobre a Doutrina da Eleição .........................418 Referências da Biografia e dos Apêndices: .......................................................................436

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Prefácio DEUS decretou em Si mesmo, desde toda a eternidade, pelo mui sábio e santo Conselho de Sua própria vontade, ordenou livre e imutavelmente todas as coisas, seja o que for que venha a acontecer (Isaías 46:10; Efésios 1:11; Hebreus 6:17; Romanos 9:15, 18); ainda assim, de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem tem comunhão com algo nisso (Tiago 1:13; 1 João 1:5); nem é violentada a vontade da criatura, nem ainda é eliminada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas (Atos 4:27-28; João 19:11); nas quais demonstra-se a Sua sabedoria em dispor de todas as coisas, e poder e fidelidade em efetuar os Seus decretos (Números 23:19; Efésios 1:3-5). Embora Deus conheça tudo o que possa ou venha a ocorrer, sobre todas as circunstâncias imagináveis (Atos 15:18; Isaías 45:9-10; 48:3-5); ainda assim Ele não decretou qualquer coisa porque Ele a previu como futura, ou como aquilo que poderia ocorrer em tais condições (Romanos 9:11, 13, 16, 18). Por meio do decreto de Deus e para manifestação da Sua glória, alguns homens e anjos são predestinados ou preordenados para a vida eterna por meio de Jesus Cristo (1 Timóteo 5:21; Mateus 25:34), para o louvor de Sua gloriosa graça (Efésios 1:5-6); outros são deixados a agir em seus pecados para a sua justa condenação, para o louvor da Sua gloriosa justiça (Romanos 9:22-23; Judas 4). Esses anjos e homens, assim predestinados e preordenados, são particular e imutavelmente designados; e o seu número é tão certo e definido, que não pode ser aumentado ou diminuído (2 Timóteo 2:19; João 13:18). Aqueles da humanidade que são predestinados para a vida, Deus, antes da fundação do mundo, de acordo com o Seu propósito eterno e imutável, e o secreto conselho e beneplácito de Sua vontade, os escolheu em Cristo, para a glória eterna, por Sua pura livre graça e amor (Efésios 1:4, 9, 11; Romanos 8:30; 2 Timóteo 1:9; 1 Tessalonicenses 5:9), não por qualquer outra coisa na criatura, como condições ou causas que O movessem a isso (Romanos 9:13, 16; Efésios 2:5, 12). Assim como Deus destinou os eleitos para a glória, assim também, pelo propósito eterno e mui livre de Sua vontade, preordenou todos os meios para isso (1 Pedro 1:2; 2 Tessalonicenses 2:13). Portanto, aqueles que são eleitos, estando caídos em Adão, são remidos por Cristo (1 Tessalonicenses 5:9-10), são eficazmente chamados para a fé em Cristo pelo Seu Espírito, que opera no tempo devido; são justificados, adotados, santificados (Roma-nos 8:30; 2 Tessalonicenses 2:13) e preservados pelo Seu poder por meio da fé para a salvação (1 Pedro 1:5). Nem são quaisquer outros redimidos por Cristo, eficazmente chamados, justificados, adotados, santificados e salvos, senão somente os eleitos (João 10:26, 17:9, 6:64).

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A doutrina deste elevado mistério da predestinação deve ser tratada com especial prudência e cuidado, para que os homens, atendendo à vontade de Deus revelada em Sua Palavra, e prestando obediência a esta, possam, a partir da certeza do seu chamado eficaz, certificar-se de sua eleição eterna (1 Tessalonicenses 1:4-5; 2 Pedro 1:10). Portanto, esta doutrina deve motivar o louvor (Efésios 1:6; Romanos 11:33), reverência e admiração a Deus; e humildade (Romanos 11:5, 6, 20), diligência e consolação abundante para todos os que sinceramente obedecem ao Evangelho (Lucas 10:20). Estas palavras acima são a transcrição do Capítulo III, Sobre os Decretos de Deus, da Confissão de Fé Batista de 1689. Sinto como se o meu coração fosse explodir de gratidão e alegria no Senhor, cada vez que leio estas palavras e medito em como elas chegaram até a mim. Desde então tenho me alegrado muitíssimo nestas verdades gloriosas, e me sentido como quem poderia viver e morrer por elas. Eu acreditaria, amaria, viveria e anunciaria estas doutrinas mesmo que ninguém no mundo acreditasse nelas além de mim, pois, creio, elas nada mais são do que a verdade ensinada pelo Senhor Jesus Cristo, e depois por Seus apóstolos e profetas, segundo o testemunho do Espírito Santo, nas Escrituras. Por todas estas coisas, e por tudo que nosso Deus tem nos proporcionado nos últimos tempos, muito nos alegramos no Senhor e O louvamos por nos conceder fazer esta publicação, que é nossa de número 300, e por meio dela dar testemunho do que seja a verdade de Deus tal como ela é em Jesus Cristo, segundo o Espírito testifica nas Escrituras. Vivemos em uma época em que poucas pessoas se preocupam em dar testemunho de sua fé. Poucos são aqueles que possuem firmes convicções a respeito da verdade bíblica ou que estão dispostos e lutar e sofrer por ela. De fato, a grande maioria dos que se dizem Cristãos, estão embaraçados com negócios desta vida e seduzidos pelos encantos do mundo, querem estar em paz com o mundo e uns com os outros, mas recusam-se a lutar pela verdade e sofrer as aflições, como bons soldados de Jesus Cristo (2 Timóteo 2:3-5). “E não é de admirar; vendo que nos coube viver na escória dos tempos. Estes, sendo os últimos dias, só podem ser os piores. E como poderia haver piores, vendo-se que a vaidade não sabe como pode ser mais vã, nem a iniquidade como pode ser mais iníqua?” 1, estas palavras são do piedosíssimo Lewis Bayly, e foram ditas há mais de trezentos anos, e se eram aplicáveis ao tempo em que foram ditas pela primeira vez, agora o são muito mais. A grande maioria dos que se dizem Cristãos em nossos dias pensa que é melhor escutar __________ [1] BAYLY, Lewis. A Prática da Piedade. Diretrizes para o cristão andar de modo que possa agradar a Deus. 1ª Ed. [Tradução: Odayr Olivetti]. São Paulo: PES, 2010, p 37-38.

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um evangelho falso do que não escutar Evangelho nenhum, que é melhor estar dentro de uma “igreja” que não é bíblica do que estar no mundo, essas mesmas pessoas também devem pensar que é melhor beber veneno do que ficar com sede. É a profunda e firme convicção de quem escreve que poucas coisas são tão urgentes e necessárias como nos voltarmos para as veredas antigas, para o bom caminho, para que andemos nele e venhamos a encontrar descanso para as nossas almas (Jeremias 6:16). Este bom caminho ao qual me refiro não pode ser outro senão o antigo Evangelho, os Cinco Solas, as Doutrinas da Graça e da Soberania de Deus, segundo as Escrituras testificam. Estamos certos de que esta preciosa obra, este tratado sistemático e exegético sobre a eleição e predestinação Divinas, com a bênção de Deus, será de muita valia, para que retornemos à “fé dos eleitos de Deus, e o conhecimento da verdade, que é segundo a piedade” (Tito 1:1). Agora, se a pregação doutrinária, em geral, é tão impopular, a doutrina da eleição é particularmente e preeminentemente assim. Sermões sobre a predestinação são, com raríssimas exceções, acaloradamente ressentidos e amargamente denunciados. “Parece haver um preconceito inevitável na mente humana contra esta doutrina, e embora a maioria das outras doutrinas sejam recebidas por Cristãos professos, algumas com cautela, outras com prazer, contudo esta parece ser mais frequentemente desconsiderada e descartada. Em muitos de nossos púlpitos seria considerado um grande pecado e traição pregar um sermão sobre a eleição” (C. H. Spurgeon). Se esse era o caso há cinquenta anos, muito mais o é agora. Mesmo nos círculos declaradamente ortodoxos a simples menção da predestinação é como o acenar de um pano vermelho diante de um touro. Nada faz tão rapidamente manifesta a inimizade da mente carnal no presunçoso religioso e no fariseu hipócrita quanto o faz a proclamação da Soberania Divina e Sua graça distintiva; e, agora, poucos de fato são os homens remanescentes que se atrevem a lutar bravamente pela verdade (A. W. Pink, Cap. 12, Seu Anúncio). Vivemos em tempos de ignorância profunda, em dias de trevas que se podem apalpar, nos quais aqueles que se opõem a esta verdade são mais do que nós, que a defendemos com nossas vidas. Aqueles que desprezam e odeiam esta verdade arrumaram uma maneira muita astuta de negá-la ao afirmar que a Eleição ou Predestinação para a vida acontece pela presciência de Deus, que é corporativa, e que a Eleição não é incondicional, mas condicional e dependente da vontade da criatura e não do Criador. Mas o que de fato significa “eleição condicional por presciência”? Não é nosso objetivo oferecer neste prefácio uma refutação completa desta aberração

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doutrinária, pois os excelentes escritos dos autores que se seguem farão isso mil vezes melhor do que este pobre pecador que escreve estas linhas. Contudo, desejo somente oferecer alguns poucos pensamentos para mostrar o absurdo que necessariamente envolve o conceito pelagiano/papista/arminiano de “eleição condicional por presciência”. Antes de tudo, é errôneo por que distorce a ordem dos acontecimentos dizendo que a fé da criatura é a causa da eleição e da salvação, quando as Escrituras nos informam claramente que a eleição precede a fé e a salvação: “E os gentios, ouvindo isto, alegraram-se, e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (Atos 13:48). Este conceito é ilógico, um insulto à razão e ao bom senso. É ilógico porquanto, postula que o efeito vem antes da causa, ou que a eleição que aconteceu na eternidade passada, foi causada pela fé, arrependimento e perseverança em santidade, no tempo. Assim, a eleição que aconteceu antes da fundação do mundo (Efésios 1:4-5) é o efeito causado pelo homem que diferencia a si mesmo e usa seu livre-arbítrio para se converter e assim salvarse, depois, no tempo. Seria como se eu dissesse que matei a fome hoje (efeito) pelo fato de ter comido amanhã (causa). Mas o absurdo não para por aí, este conceito também implica que se eu crer hoje, então Deus me elegeu na eternidade passada para isso, mas se amanhã eu deixar de crer, então o que Deus decidiu na mesma eternidade passada acerca da minha eleição muda, e agora eu passo a não ser mais eleito, mas se eu voltar a crer de novo, então, novamente, o Deus imutável (Malaquias 3:6) muda de opinião antes da fundação do mundo e volta a me eleger para salvação. E assim quantas vezes eu mudar agora, Deus muda (Tiago 1:17) na eternidade passada. Desta forma, eu mudo a minha vontade diretamente e mudo a vontade de Deus indiretamente, ou por consequência. Isso parece lógico para você? [...] não é a previsão de Deus dessas coisas nos homens que O levou a elegê-los. A presciência de Deus do futuro está fundamentada sobre a determinação de Sua vontade em relação ao mesmo. O decreto Divino, a presciência Divina e a predestinação Divina é a ordem estabelecida nas Escrituras. Em primeiro lugar, “que são chamados segundo o seu propósito”; segundo, “por que os que dantes conheceu”; terceiro, “também os predestinou” (Romanos 8:28-29). O decreto de Deus, como precedente de Sua presciência também é afirmado em “a este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus” (Atos 2:23). Deus prevê tudo o que acontecerá, porque Ele ordenou tudo o que há ocorrer; portanto, estamos colocando a carroça na frente dos bois quando fazemos da presciência a causa da eleição de Deus (A. W. PINK, Cap. 2, Sua Fonte).

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Este conceito anula qualquer coisa como “eleição Divina”, sim, pois, diz que a eleição não é “segundo o beneplácito” da “vontade” de Deus (Efésios 1:5), mas, sim, segundo a vontade da criatura. Assim de fato, quem elege um homem para a salvação não é Deus, mas ele mesmo. Portanto, nega que Deus tenha “elegido” alguém “desde o princípio para a salvação” (2 Tessalonicenses 2:13), e estabelece “eleição humana”, ao dizer que o homem é quem elege a si mesmo ao crer. Este conceito nega o Sola Gratia, distorce o Sola Fide e etc., é uma mentira que, como o fermento, levedará toda a massa da verdade, a menos que seja retirado. Esta aberração transforma a fé e o arrependimento salvíficos, que são totalmente dons de Deus e frutos do Espírito Santo (Efésios 2:8, Atos 11:18), em meras obras humanas que podem ser desenvolvidas por qualquer homem sem que a interferência especial, livre e imediata de Deus seja sua causa necessária e eficaz. E desta forma, a fé e o arrependimento para a vida, e a salvação passam a “depender do que quer, e do que corre”, e não somente “de Deus, que se compadece” (Romanos 9:16). O que é isso senão negar as Escrituras e dizer que a salvação pertence ao homem? As Escrituras são claras ao declarar que “a salvação pertence ao Senhor”, “e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Jonas 2:9; Efésios 1:8), e Ele a dá a quem Ele quiser! Ou é mau ao teu olho que o grande Deus faça o que quiser com o que é dEle? Assim como a Salvação é do Senhor, assim também a “eleição” é “de Deus” (1 Tessalonicenses 1:4). Pois, Ele é a causa eficaz dela, e as pessoas escolhidas são denominadas “seus escolhidos” (Lucas 18:7; cf. Romanos 8:33). Também é dito por aqueles que negam a eleição incondicional, que ela não somente é condicional e por presciência, mas que também é uma “eleição corporativa”, contudo, isso nada mais é do que uma tentativa de minar qualquer sentido do verdadeiro conceito bíblico de eleição. Basta apenas dizer que no livro da vida do Cordeiro, que é o registo Divino da eleição, está escrito o nome de pessoas, pessoas particulares e não de nações ou povos; e que o Bom pastor chama Suas ovelhas pelo nome e não pela nacionalidade ou comunidade em que estão inseridas. Quando os setenta voltaram de sua viagem missionária, eufóricos, porque os próprios demônios se sujeitaram a eles, Cristo disse: “alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” (Lucas 10:20 e cf. Filipenses 4:3; Hebreus 12:23). Ou se for alegado que, no Antigo Testamento, Israel, como nação e não como indivíduos, era o povo eleito de Deus, responderemos que mesmo dentre o favorecido Israel nacional, havia o eleito e verdadeiro Israel de Deus, que consistia em indivíduos particulares eleitos, “um remanescente, segundo a eleição da graça” (Romanos 11:5) como Paulo claramente demonstra em Romanos 9:6-8: “Não que a palavra de Deus haja faltado, porque

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nem todos os que são de Israel são israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência”. A grande verdade por detrás do conceito de eleição “condicional”, “por presciência”, “corporativa” é nada mais do que a negação de que haja qualquer eleição ou predestinação Divina. O que “eleição condicional” significa? Na prática, não significa nada. O que significa “ser eleito condicionalmente por Deus”? O que significa ser “eleito corporativamente”? Nada, pois nestes casos o termo bíblico “eleito”, “escolhido”, perde toda a sua força e é anulado por tal conceito humano. E não é exatamente isso que eles querem? Você já ouviu alguém falando sobre eleição condicional por presciência, tendo algum outro objetivo senão negar a eleição incondicional? Para finalizar esta parte, citaremos algumas palavras do Príncipe dos teólogos Puritanos: “Somos nós mais excelentes que outros?”, “De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado” (Romanos 3:9). “Porque não há diferença. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”, (vv. 22-23); estando todos “mortos em delitos e pecados” (Efésios 2:1); sendo “por natureza filhos da ira, como os outros também”, (v. 3); “separados”, “mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto” (vv. 12-13); éramos “inimigos” de Deus (Romanos 5:10; Tito 3:3) [...] se a predestinação for por fé prevista, estas três coisas, com diversos tais absurdos, necessariamente seguirão: Em primeiro lugar, que a eleição não é “por aquele que chama”, como o apóstolo fala em Romanos 9:11, ou seja, a partir do beneplácito de Deus, que nos chama com uma santa vocação, mas por aquele que é chamado; pois, se depender da fé prevista, deve ser daquele a quem pertence a fé, ou seja, de quem crê. Em segundo lugar, Deus não pode ter misericórdia de quem quer ter misericórdia, pois a própria finalidade da mesma está assim vinculada às qualidades da fé e obediência, de modo que Ele deve ter misericórdia somente dos crentes antecedentemente ao Seu decreto. O que, em terceiro lugar, impede-O de ser um agente livre e absoluto, e fazer o que Ele quer com o que é Seu, também O impede de ter um tal poder sobre nós como o oleiro tem sobre o barro; pois Ele nos encontra sendo de matérias diferentes, um homem é de argila, o outro homem é de ouro e etc., quando Ele vem a nos designar para diferentes usos e fins. [...] Deus não vê em qualquer homem nenhuma fé, nenhuma obediência, nem perseverança, enfim nada, senão o pecado e a maldade, e o que Ele mesmo intenciona graciosa e livremente conferir-lhes; pois “a fé não vem de vós, é dom de Deus (Efésios 2:8); “a obra de Deus é esta: Que creiais” (João 6:29). Ele “nos abençoou com todas

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as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Efésios 1:3). Agora, todos esses dons e graças Deus concede apenas àqueles que Ele preordenou para a vida eterna, porque: “os eleitos o alcançaram, e os outros foram endurecidos” (Romanos 11:7); “acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar” (Atos 2:47). Portanto, certamente, Deus nos escolhe não porque Ele prevê essas coisas em nós, visto que, ao invés disso a verdade é que Ele concede aquelas graças por Ele ter nos escolhido. “Portanto”, diz Agostinho, “Cristo diz: ‘Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós’ [João 15:16], mas justamente porque eles não O escolheram é que Ele deveria escolhê-los; contudo Ele os escolheu para que eles pudessem escolhê-lO”. Nós escolhemos a Cristo pela fé; Deus nos escolhe por Seu decreto da eleição (JOHN OWEN, Como Toda a Doutrina da Predestinação é Corrompida pelos Arminianos). Quando uma pessoa diz que Deus não é soberano na salvação dos homens, automaticamente ela está dizendo que ela mesma ou a pessoa o é. Quando alguém diz que não é Deus quem dá a palavra final na salvação dos homens, então, ela está dizendo que a palavra final na salvação de um homem não pertence a Deus, mas a alguma criatura. Quando alguém diz que é falso dizer que a salvação de um homem não depende dele querer ou correr, que não depende da criatura, mas apenas de Deus usar de misericórdia, ela está ousadamente negando a Palavra de Deus e estabelecendo a sua própria palavra humana (Romanos 9:11-23). A grande verdade é que quem delira sonhado tomar o cetro da mão do Grande Rei, é porque quer colocar este mesmo cetro real na mão da criatura, para que ela seja semelhante ao Altíssimo. E o que é tudo isso senão a mais sórdida desonra lançada sobre o Rei dos reis e Senhor dos senhores? O que é isso, senão o vômito de uma mente humana sobre a veste real do criador, preservador e governador do Céu e da terra? Do que depende a salvação de um homem? Nós respondemos que depende de Deus somente, da Sua misericórdia, e dEle salvar por Sua graça, por meio da fé, sem obras humanas. E condenamos como antibíblica toda resposta que negue ou que se oponha a esta. Aqueles que estão em um estado de salvação atribuem à graça soberana somente, e dão todo o louvor Ele, que os faz diferente dos outros. Piedade não é motivo para se gloriar, a não ser em Deus: “Para que nenhuma carne se glorie perante ele. Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção; para que, como está escrito: Aquele que se gloria glorie-se no Senhor” (1 Coríntios 1:29-31). Tal não é, por qualquer meio, em qualquer grau atribuído à sua piedade, seu estado e condições seguras e felizes, a qualquer diferen-ça natural entre eles e os outros homens, ou a qualquer força ou justiça própria. Eles não têm nenhum motivo para exaltar-se, no mínimo grau; mas Deus é o Ser a quem eles devem exaltar. Eles devem exaltar a Deus, o Pai, que os escolheu em Cristo, que pôs

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o Seu amor sobre eles, e deu-lhes a salvação, antes deles nascerem e mesmo antes que o mundo existisse. Se perguntarem, por que Deus colocou Seu amor sobre eles, e os escolheu, em vez de outros, se eles pensam que podem ver qualquer causa fora de Deus estão muito enganados. Eles devem exaltar a Deus o Filho, que levou seus nomes em Seu coração, quando Ele veio ao mundo, e foi pendurado na Cruz, e no Qual somente eles possuem justiça e força. Eles devem exaltar a Deus, o Espírito Santo, que por graça soberana os chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz; que por Sua própria operação imediata e livre, levou-os a uma compreensão do mal e do perigo do pecado, e os resgatou de sua justiça própria, e abriu-lhes os olhos para contemplarem a glória de Deus, e as maravilhosas riquezas de Deus em Jesus Cristo, e os santificou, e os fez novas criaturas Vamos, portanto, laborar para nos submetermos à soberania de Deus. Deus insiste, que a Sua soberania seja reconhecida por nós mesmo neste grande assunto, um assunto que tão de perto e infinitamente nos interessa, como a nossa própria salvação eterna. Esta é a pedra de tropeço na qual milhares caem e perecem; e se continuarmos discutindo com Deus sobre a Sua soberania, isto será nossa ruína eterna. É absolutamente necessário que nós venhamos a nos submeter a Deus, como nosso soberano absoluto, e o soberano sobre as nossas almas; como alguém que pode ter misericórdia de quem quer ter misericórdia, e endurecer a quem Ele quiser (JONA-THAN EDWARDS, A Soberania da Deus na Salvação dos Homens). Eu peço que aqueles que pensam que a doutrina da eleição é uma doutrina abstrata, teórica, que não possui qualquer caráter prático ou relevante, medite nas seguintes palavras: Em uma recente conversa com um crente eminente, há algumas semanas, ele diziame: “senhor, sabemos que não devemos pregar a doutrina da eleição, porque ela não tem a capacidade de converter os pecadores”. Eu lhe respondi: “Mas quem se atreve a identificar falhas na verdade de Deus? Você está de acordo comigo em que a eleição é uma verdade e, entretanto, você afirma que não deve pregá-la. Eu não ousaria afirmar algo assim. Considero que é uma arrogância suprema ousar dizer que uma doutrina não deve ser pregada, quando Deus, em Sua suprema sabedoria, quis revelá-la aos homens”! Além disso, todo o objetivo do Evangelho é converter os pecadores? Existem certas Verdades que Deus abençoa para conversão dos pecadores, mas, acaso não existem outras verdades destinadas a trazer consolo aos santos? E, não deveriam estas verdades, ser objeto do ministério da pregação, como as demais? Devo considerar uma e descartar outras? Não: se Deus diz: “Consolai, consolai ao meu povo!”, se a eleição consola o povo de Deus, então devo pregá-la. Porém, não estou tão convencido de que a doutrina da eleição não possa converter pecadores. O grande Jonathan Edwards nos diz que, no momento culminante de um dos seus avivamentos,

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pregava sobre a Soberania de Deus tanto na salvação como na condenação do homem, e mostrava que Deus era infinitamente justo se enviasse os homens ao Inferno! Que Ele era infinitamente misericordioso se salvasse alguns, e que tudo vinha da Sua própria livre graça. E dizia: “Não tenho encontrado nenhuma outra Doutrina que promova tanta reflexão, nada adentra mais profundamente ao coração do que a proclamação desta verdade” (C. H. SPURGEON, Sermão 34, Pregar o Evangelho). OU talvez você esteja aflito e ansioso acerca da seguinte questão: “Eu sou um eleito de Deus?”. Se este é caso, aqui está a resposta. Como pode um crente verdadeiro saber se ele é um dos eleitos de Deus? Ora, o próprio fato de que ele é um Cristão genuíno o evidencia, pois uma crença em Cristo é a consequência segura de Deus tê-lo ordenado para a vida eterna (Atos 13:48). Porém, para ser mais específico. Como posso conhecer a minha eleição? Em primeiro lugar, pela Palavra de Deus tendo chegado em poder Divino à alma, de forma que a minha auto-complacência é quebrada e minha justiça própria renunciada. Em segundo lugar, pelo Espírito ter me convencido de minha condição lamentável, de culpado e perdido. Em terceiro lugar, por ter me revelado a adequação e suficiência de Cristo para atender o meu caso desesperado, e por uma concessão Divina de fé, levando-me a lançar mão de e descansar sobre Ele como minha única esperança. Em quarto lugar, pelas marcas da nova natureza dentro de mim: o amor a Deus, um apetite pelas coisas espirituais, um anelo por santidade, uma busca por conformidade com Cristo. Em quinto lugar, pela resistência que a nova natureza faz à velha natureza, levando-me a odiar o pecado e abominar-me por isso. Em sexto lugar, por diligentemente evitar tudo o que é condenado pela Palavra de Deus, e por sinceramente arrepender-me e húmildemente confessar cada transgressão. A falha neste ponto mui certa e rápida-mente trará uma nuvem escura sobre a nossa segurança, fazendo com que o Espírito retenha o Seu testemunho. Em sétimo lugar, empregando toda a diligência para cultivar as graças Cristãs, e usando todos os meios legítimos para essa finalidade. Assim, o conhecimento da eleição é cumulativo (A. W. PINK, Cap. 9, Sua Percepção). Por fim desejo exortar a todos os que lerem estas linhas a decidirem-se pela verdade e firmarem-se na doutrina de Cristo. É apenas a verdade que capacita qualquer alma a glorificar a Deus, e a doutrina da eleição é parte essencial e fundamental da verdade bíblica. Bem disse John A. Broadus: “Irmãos, nós devemos pregar as doutrinas; devemos enfatizar as doutrinas; devemos voltar às doutrinas. Temo que a nova geração não conhece as doutrinas como nossos pais as conheciam”. “É dever dos cristãos se firmarem na doutrina. É obrigação dos cristãos serem firmes na doutrina da fé. O apóstolo afirma: ‘Ora, o Deus de toda a graça..., Ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar’ (1 Pe 5:10)”2. Nossa fé é a nossa vida.

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Assim como ficar exposto à luz do sol aquece o corpo, aqueles que ficam expostos à luz do verdadeiro ensino da Escritura esquentam suas afeições e tornam-se fervorosos no amor, na fé e na verdade. O calor e fervor da piedade deve vir das brasas vivas da ortodoxia bíblica. O ensino das sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e da doutrina que é segundo a piedade (1 Timóteo 6:3) não podem resultar em outra coisa, senão em um coração puro e amoroso, numa boa consciência e numa fé não fingida (1 Timóteo 1:5). Se o seu conhecimento não produz estas coisas é porque você não possui “a fé dos eleitos de Deus”, e é ignorante, pois também não possui “o conhecimento da verdade, que é segundo a piedade” (Tito 1:1). Infelizmente muitas pessoas estão firmemente decididas a não aprender, e isso é triste. Eu espero que não seja assim com você, leitor. Se você está duvidoso e coxeia em dois pensamentos, se você está ansioso para descobrir a verdade e abraçá-la, custe o que custar, eu te suplico e desejo ardentemente que examines os textos deste volume, com o coração sincero, e dizendo somente: “fala, Senhor, porque o teu servo ouve”. Examine e veja “se estas coisas são assim” ou não, se de fato o que você lê “está escrito” ou não. Jesus Cristo te ilumine, Pelo Seu Espírito Santo, Para a glória de Deus Pai, Amém e amém!

William Teixeira, EC 28 de novembro de 2014

__________ [2] WATSON, Thomas. A Fé Cristã: Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster [O seu Clássico, A Body Of Divinity]. 1ª edição. São Paulo: Cultura Cristã. 2009. p 15.

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Uma Biografia de A. W. Pink, por Erroll Hulse

Arthur Walkington Pink (1886 – 1952) e sua esposa Vera E. Russell (1893 – 1962)

Quanto ao Calvinismo e Arminianismo durante a primeira metade do século XX, um estudo de caso mui interessante é a experiência de Arthur W. Pink. Ele foi um pregador e escritor de talento excepcional que ministrou na Grã-Bretanha, América e Austrália. Quando morreu, em 1952, em isolamento na ilha de Lewis, no nordeste da Escócia, ele era pouco conhecido fora de uma pequena lista de assinantes de sua revista, “Studies in the Scriptures” (Estudos nas Escrituras). No entanto, na década de 1970, havia grande demanda por seus livros e seu nome era muito conhecido entre os editores e ministros. Na verdade, nesse período, seria difícil encontrar um autor reformado cujos livros fossem mais lidos. O ministério de pregação de A. W. Pink fora notavelmente abençoado nos Estados Unidos, mas foi na Austrália que ele parece ter atingido o ápice de seu ministério público, e ali, em particular, o seu ministério de pregação alcançou grandes alturas. Ele foi então confrontado com o credenciamento pela União Batista e foi rejeitado por causa de suas opiniões Calvinistas. Depois, ele ministrou em uma igreja Batista do tipo Batista Estrita. Dali ele foi desvinculado, uma vez que o consideraram um Arminiano! Um grupo considerável, no entanto,

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apreciava Pink, reconhecia o seu valor, e separaram-se daquela Igreja Batista Estrita para formarem uma nova igreja de 27 membros. Então, de repente, em 1934, Pink pediu demissão e voltou à Grã-Bretanha. Sabe-se que uma rejeição é o bastante para prejudicar a vida de um ministro, mas duas, em rápida sucessão, podem destruir um pastor completamente. Assim isso se evidenciou para Arthur Pink. Ele nunca mais encontrou entrada significativa para o ministério, embora ele tentasse o seu melhor. Ele buscou aber-turas tanto no Reino Unido e nos EUA, sem sucesso. Ele tornou-se cada vez mais isolado. Ele terminou seus dias como um recluso evangélico na Ilha de Stornoway na costa da Escócia. Dizia-se que não mais do que dez almas compareceram ao seu funeral. Há muito que podemos aprender com a vida de A. W. Pink. Em primeiro lugar, delinearemos a sua infância, em linhas gerais. Em segundo lugar, descreveremos a sua experiência na Austrália, e traçaremos os efeitos adversos disso em sua vida. Em terceiro lugar, consideraremos o impacto de seu ministério de escrita. 1. Início da vida Arthur Pink nasceu em Nottingham, Inglaterra, em 1886. Seus pais eram piedosos. Eles viviam conforme a Bíblia e santificavam o dia do Senhor. Arthur foi o primeiro dos três filhos educados no temor e na admoestação do Senhor. Para a tristeza de seus pais, os três filhos caíram em vida de incredulidade. Mas o pior estava por vir: Arthur abraçou a Teosofia, um culto esotérico que reivindicava poderes do ocultismo! “Lúcifer” era o nome da principal revista de Teosofia. A marca natural da personalidade de Arthur era a entrega sincera e completa ao que fazia, e ele adentrou na Teosofia com zelo. A liderança foi oferecida a ele, o que significava que ele teria que visitar a Índia. Ao mesmo tempo, um amigo que era um cantor de ópera, observou que Arthur possuía uma aguda voz tipo barítono; ele instou com Pink para avaliar uma carreira na ópera. Depois, de repente, numa noite, durante 1908, Arthur foi convertido. Sua primeira ação foi pregar o Evangelho ao grupo Teósofo. Simultaneamente à conversão de Pink, ocorreu um chamado para o ministério Cristão. Mas as faculdades estavam nas mãos de liberais empenhados na destruição das Escrituras. Arthur, porém, ouviu falar do Instituto Bíblico Moody, que fora fundada por D. L. Moody em 1889 e em 1910, com 24 anos, Pink partiu para Chicago a fim de começar um curso de dois anos. Todavia, seu tempo em Moody durou apenas seis semanas. Ele decidiu que estava perdendo tempo, e que ele deveria entrar diretamente em um pastorado — e seus professores concordaram! Ele não estava descontente, mas, antes, frustrado, que o ensino estivesse lançado a um nível tão primário, de modo que este ensino não fez nada por ele. Ao longo de 1910, ele iniciou seu primeiro pastorado em Silverton, Colorado, um campo de

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mineração nas montanhas de San Juan. Nós possuímos poucos detalhes deste período, mas sabemos que a partir de Silverton, Pink mudou-se para Los Angeles. Ele sempre foi um trabalhador, e isso é ilustrado pelo fato de que de uma vez, em Oakland, ele esteve envolvido no evangelismo em tendas em seis noites por semana, durante 18 semanas! De Los Angeles, ele se mudou para Kentucky. Foi ali que ele conheceu e se casou com Vera E. Russell. Não poderia ter havido um melhor presente do céu. Vera era totalmente comprometida com o Senhor. Ela era trabalhadora, talentosa, inteligente e perseverante. Ela morreu apenas dez anos após morte de Arthur, na ilha de Stornoway. A próxima mudança foi para Spartanburg, Carolina do Sul, de 1917 a 1920. O edifício desta igreja consistia em uma pequena e frágil estrutura de madeira, enquanto ele e Vera viviam em uma pequena casa de madeira sustentada por colunas de madeira. O aquecimento era inadequado e, no inverno gelado a casa era como uma caixa de gelo. Foi durante esse tempo que Pink começou a escrever livros. Houve dois significativos: um com o título “Divine Inspiration of the Bible” (A Inspiração Divina da Bíblia), e segundo “The Sovereignty of God” (A Soberania de Deus), cujo prefácio é datado em junho de 1918. Este foi o livro posteriormente publicado pelos editores de The Banner of Truth. A primeira edição, de acordo com I. C. Herendeen, seu primeiro editor na época, foi apenas de 500 cópias, e foi uma luta vender esse número. Quando o livro chegou a Banner, foi editado por Iain Murray e melhorou bastante. Tornou-se um dos mais populares livros impressos da The Banner of Truth. Em 1980, haviam sido vendidos 92 mil exemplares. Após cerca de um ano em Spartanburg, Pink quase veio a sofrer. Ele sentiu uma forte convicção de desistir do ministério e dedicar-se apenas a escrever, e num dado momento, esteve desconsolado. Vera escreveu a uma amiga dizendo que o marido estava mesmo pensando em deixar o ministério e entrar em negócios, para ganhar dinheiro para o Reino como uma melhor maneira de servir a Deus. Em 1920, Arthur renunciou ao pastorado em Spartanburg. Ele e Vera mudaram-se e se estabeleceram em Swengel, Pensilvânia, a fim de estarem perto do editor I. C. Herendeen. Em meados de julho de 1920, ele permitiu-se realizar uma série de reuniões na Califórnia. Grandes multidões se reuniram e muitos foram salvos. Em dado momento, 1.200 se reuniam para ouvir o Evangelho. Outras cruzadas e conferências ocorreram a seguir; era evidente que Pink era eminentemente adequado para este tipo de ministério. Olhando para trás, ao longo de sua vida, é evidente que ele experimentou mais bênção no ministério itinerante do que ele o fez em um total de 12 anos no pastorado de igrejas. Isso relacionava-se ao seu temperamento; ele preferia gastar seu tempo estudando mais do que fazendo visitas.

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Em 1921, Arthur e Vera voltaram à Pensilvânia. A compilação mensal, os Estudos nas Escrituras, apareceu pela primeira vez em 1922. Esta revista esteve ativa de forma contínua, sem interrupção por 32 anos, até a morte de Arthur em 1952. Inicialmente, esta era uma revista de 24 páginas, contendo de 4 a 6 artigos, como porções de uma série. Escrever material expositivo em um elevado padrão, a este ritmo, a cada mês, é um tremendo testemunho de sua compreensão das Escrituras, e da benção e capacitação do Senhor. Todos os seus artigos tinham que ser escritos à mão e finalizados para impressão pelo menos dois meses antes da data de publicação. Estudos nas Escrituras tinha cerca de 1.000 exemplares em circulação, inicialmente, mas na maior parte de sua existência, o nível de subscrição pairava em cerca de 500. O aspecto financeiro sempre foi precário, com apenas o suficiente para cobrir os custos de impressão de um mês ao outro. Pink corres-pondia-se com alguns de seus assinantes; eventualmente, isso compôs o seu trabalho pas-toral. Durante todo o tempo, ele foi auxiliado por sua trabalhadora esposa, que atuava como secretária. Eles nunca tiveram filhos, sempre viveram mui humildemente, e sempre conse-guiam quitar suas despesas. Isso foi possível por meio de uma modesta herança deixada para ele por seus pais e por meio de ofertas que ele recebia de seus leitores. Durante 1923, Arthur caiu em uma profunda depressão, que culminou em um colapso nervoso. Neste momento um jovem casal que fora muito abençoado pelo ministério de Pink veio a auxilia-lo, e Arthur foi cuidado por um período de vários meses de descanso forçado, que o trouxe de volta à saúde normal. Em 1924, uma importante nova direção veio em forma de cartas de convite, de uma editora em Sydney, na Austrália. Antes de partir para a Austrália, não menos que a preparação de quatro meses teve que ser feita em Estudos. Em seu caminho para a Austrália, Pink envolveu-se em mais conferências bíblicas, pregando no Colorado, depois em Oakland, Califórnia, e também São Francisco — de onde ele e Vera embarcaram, através do Pacífico, para Sydney. 2. A Experiência de Pink na Austrália O casal Pink esteve por um total de três anos e meio na Austrália. Esse período foi para eles o melhor, mas também tornou-se o pior. Após a chegada, Arthur teve mais convites do que ele, possivelmente, cumpriria. Inicialmente o seu ministério na Austrália foi um grande sucesso. Uma multidão se reuniu; igrejas foram preenchidas; crentes foram reavivados; e almas foram conduzidas ao Salvador. A audiência crescia em todo lugar que ele pregava. No primeiro ano na Austrália, Arthur pregou por 250 vezes. Ele costumava trabalhar até 2:00 da manhã para manter a Studies

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in the Scriptures em atividade. O casal Pink realmente deve ter sentido que, finalmente, havia encontrado o lugar de realização permanente. Havia um poder evidente em seu ministério. Um crente maduro declarou que ele atraía as pessoas “como um ímã”, e que ele pregava “todo o conselho da Palavra de Deus”, e era capaz de pregar um sermão “de cada palavra do texto”. Este período revelou-se de grande alegria. Pink tinha neste momento 40 anos de idade. Ele esteve pregando quase diariamente por mais de uma hora. Ele poderia chegar em casa às 22:00 horas e, em seguida, trabalhar até às 02:00 horas. Ele escreveu, “nunca antes, durante nossos 16 anos no ministério, nós experimentamos tal bênção e alegria em nossas almas, tal liberdade de expressão, e uma resposta tão animadora quanto experimentamos nesta porção altamente favorecida da vinha de Cristo”. Podemos ter certeza de que um vívido e poderoso ministério que salva almas despertará a fúria de Satanás. E assim isso provou ocorrer, neste caso, quando a antiga serpente, o Diabo, montou um astuto contra-ataque. Os líderes da União Batista eram fundamentalmente opostos ao Calvinismo. Esses líderes convidaram Arthur Pink para ler um artigo sobre “A Responsabilidade Humana”. Infelizmente, Pink não sabia que isso era um complô para rebaixá-lo diante dos olhos do público, e em seu fervor sincero ele caiu na armadilha. Em vez de recusar o convite, ele apresentou o artigo e, em seguida, respondeu a perguntas por mais de uma hora. O resultado disso foi que a União Batista de New South Wales publi-cou uma declaração de que eles concordavam, por unanimidade, em não apoiar o seu ministério. O que eles realmente queriam dizer (pois que eles mesmos não esclareceram qualquer doutrina) é que eles não concordavam com a doutrina reformada de Pink. Eles eram fundamentalmente Arminianos. O efeito de tudo isso foi que os convites minguaram, e o amplo e eficiente ministério do Pink na Austrália foi reduzido drasticamente. Foi neste momento que uma das três Igrejas Batistas Restritas e Particulares convidaram Pink para tornar-se o seu pastor. Esta igreja era conhecida como a igreja da Rua Belvoir (Belvoir Street Church). Ali Pink ocupou-se como nunca em sua vida. Ele pregou 300 vezes até o fim do ano, em 1926. Além de pregar três vezes por semana em Belvoir Street, ele pregava em três lugares diferentes em Sydney a cada semana, para uma média de 200 pessoas em cada reunião. Ele ainda conseguia manter Studies in the Scriptures pela queima do óleo da meia-noite. Tribulação, no entanto, era iminente. A primeira parte do século XX foi um período de falta de clareza doutrinária. Uma das evidências disso era a confusão sobre o Calvinismo, Arminianismo e hiper-Calvinismo. Muitas igrejas estavam polarizadas. A União Batista era Arminiana, e os Batistas Restritas Particulares tendiam a ser hiper-Calvinistas. Este provou

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ser o caso da Rua Belvoir. Até por volta de maio de 1927, os Pinks criam que haviam encontrado uma igreja permanente. 3. O Impacto do Ministério de Escrita de Pink Se a história tivesse progredido normalmente, Arthur Pink teria sido esquecido. Há vários líderes em cada geração, que são bem conhecidos, mas é pouco provável que seus nomes serão lembrados por muito tempo. Quando Arthur Pink morreu, ele era conhecido por um pequeno círculo de leitores, cerca de 500 dos que liam os seus periódicos mensais, Studies in the Scriptures, os quais ele havia produzido fielmente com a ajuda de sua esposa Vera, por 31 anos. No entanto, após sua morte, à medida que seus escritos foram reunidos e publicados como livros, seu nome se tornou muito conhecido no mundo evangélico de Língua Inglesa. Durante os anos de 1960 e 70, houve uma escassez de escritos expositivos fiéis; os escritos de Pink preencheram uma importante necessidade. Suas exposições são centradas em Deus, teologicamente convincentes e fiéis, bem como práticas e experimentais. Isso era precisamente o necessário durante um período de seca espiritual. Os editores descobriram o valor de seus escritos. O resultado foi impactante. Por exemplo, Baker Book House publicou vinte e dois títulos diferentes por Pink, com um total combinado de vendas em 1980 de 350.000 exemplares. Por volta da mesma data, apenas três livros (Soberania de Deus, A Vida de Elias, e Enriquecendo-se com a Bíblia) somaram 211.000. No entanto, como autores reformados contemporâneos têm se multiplicado, então a demanda por livros de Pink diminuiu. Devemos lembrar que com o advento do século XX, as principais denominações já sofreram perdas enormes para a alta crítica e o modernismo. Tal era o avanço do modernismo no final do século XIX e na primeira metade do século XX, que a maioria das faculdades e seminários bíblicos perderam-se para uma contemporânea incredulidade e anti-Cristianismo. Em vez de produzir pregadores/pastores para as igrejas, eram enviados homens que esvaziavam as igrejas. O exemplo mais marcante é o Metodismo. A adesão global ao Metodismo cresceu de modo a ser a maior das igrejas Não-Conformistas. No entanto, esta denominação foi praticamente aniquilada pelo modernismo. Os escritos de Pink têm suprido não somente alimento para o espiritualmente faminto, mas como Iain Murray afirma em sua obra The Life of Arthur W. Pink: “Pink tem sido extremamente importante na revitalização e no estímulo à leitura doutrinária em nível popular. O mesmo pode ser dito de poucos outros autores do século XX”.

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Ora, eleição e predestinação são apenas o exercício da soberania de Deus nos assuntos da salvação, e tudo o que sabemos sobre elas é o que tem sido revelado a nós nas Escrituras da Verdade. A única razão para que alguém acredite na eleição é que ela se acha claramente ensinada na Palavra de Deus. Nenhum homem ou grupo de homens nunca originou esta Doutrina. Como o ensino da punição eterna, ela entra em conflito com os ditames da mente carnal e é incompatível com os sentimentos do coração não regenerado. E, como a doutrina da Santíssima Trindade e do nascimento milagroso de nosso Salvador, a verdade da eleição deve ser recebida com fé simples, inquestionável.

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Dou-lhes a Vida Eterna e Nunca Hão de Perecer Eu sou o Bom Pastor e desci pra resgatar As ovelhas do Meu pasto que andavam a vaguear. Para as Minhas ovelhas Eu Me faço conhecer E dou-lhes a vida eterna e nunca hão de perecer E dou-lhes a vida eterna e nunca hão de perecer, Ninguém as arrebatará da Minha mão. Eu conheço as Minhas ovelhas e delas sou conhecido. Eu as chamo pelo nome e elas Me seguirão. E dou-lhes a vida eterna e nunca hão de perecer, Ninguém as arrebatará da Minha mão. Foi Meu Pai, que mas deu, para a Mim Me pertencer; Ninguém pode arrebatá-las e nunca se perderão. — William Teixeira

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1 • Introdução Eleição é uma doutrina fundamental. No passado, muitos dos professores mais hábeis estavam acostumados a começar sua teologia sistemática com uma apresentação dos atributos de Deus, e, em seguida, uma contemplação de Seus decretos eternos; e é nossa examinada convicção, após ler os escritos de muitos de nossos contemporâneos, que o método seguido por seus antecessores não pode ser melhorado. Deus existia antes do homem, e Seu propósito eterno longamente antecedeu Suas obras no tempo. “Conhecidas por Deus são todas as suas obras desde o princípio do mundo” (Atos 15:18). Os conselhos Divinos vieram antes da criação. Como um construtor desenha seus planos antes de começar a construir, assim o grande Arquiteto predestinou tudo antes que uma única criatura fosse trazida à existência. Deus também não manteve isso como um segredo trancado em Seu próprio seio; aprouve a Ele dar a conhecer em Sua Palavra, os conselhos eternos da Sua graça, Seu desígnio na mesma, e a grande finalidade que Ele tem em vista. Quando um edifício está em construção, os espectadores muitas vezes não conseguem perceber a razão para muitos dos detalhes. Até agora, eles não discernem nenhuma ordem ou propósito; tudo parece estar em confusão. Mas, se eles pudessem examinar cuidadosamente o “plano” do construtor e visualizar a produção acabada, muito do que era confuso, se tornaria claro para eles. É o mesmo com a realização do propósito eterno de Deus. A menos que estejamos familiarizados com os Seus decretos eternos, a história continua a ser um enigma insolúvel. Deus não está trabalhando de forma aleatória. O Evangelho não foi enviado em nenhuma missão incerta. O resultado final no conflito entre o bem e o mal não foi deixado indeterminado. Quantos serão salvos ou perdidos não depende da vontade da criatura. Tudo foi infalivelmente determinado e imutavelmente fixado por Deus desde o princípio, e tudo o que acontece no tempo é apenas o cumprimento do que foi ordenado na eternidade. A grande verdade da eleição, então, leva-nos de volta para o início de todas as coisas. A eleição precedeu a entrada do pecado no universo, a Queda do homem, o advento de Cristo, e a proclamação do Evangelho. A correta compreensão da mesma, especialmente em sua relação com a aliança eterna é absolutamente essencial se quisermos ser preservados de erro fundamental. Se a própria fundação estiver com defeito, então o edifício construído sobre ele não pode ser sólido; e se erramos em nossas concepções desta verdade básica, então na mesma proporção será a imprecisão da nossa compreensão de todas as outras verdades. As relações de Deus com judeus e gentios, Seu objetivo em enviar Seu Filho ao mundo, Seu projeto por meio do Evangelho, sim, todo os Seus tratos providenciais,

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não podem ser vistos em sua devida perspectiva até que eles sejam vistos à luz da Sua eleição eterna. Isso se tornará mais evidente à medida que prosseguimos. A doutrina da eleição é uma doutrina difícil, e isto em três aspectos. Em primeiro lugar, no entendimento dela. A menos que tenhamos o privilégio de sentar-nos sob o ministério de algum servo ensinado pelo Espírito de Deus, que nos apresente a verdade de forma sistemática, um grande esforço e empenho são necessários para o exame das Escrituras, de modo que possamos coletar e tabular suas declarações dispersas sobre este assunto. Não agradou ao Espírito Santo nos dar uma definição completa e ordenada da doutrina da eleição, mas sim “um pouco aqui, um pouco ali”, na história típica, em salmo e profecia, na grandiosa oração de Cristo (João 17), nas epístolas dos apóstolos. Em segundo lugar, a aceitação da mesma. Isto apresenta uma maior dificuldade, pois quando a mente percebe que as Escrituras revelam a doutrina da eleição, o coração é relutante em receber uma verdade tão humilhante e abatedora da carne. Quão ardentemente precisamos orar a Deus para subjugar nossa inimizade contra Ele e nosso preconceito contra a Sua verdade. Em terceiro lugar, na proclamação da mesma. Nenhum iniciante é competente para apresentar o assunto em sua proporção e perspectiva escriturísticas. Mas, não obstante, essas dificuldades não devem desencorajar, e menos ainda deter-nos de um esforço honesto e sério para entender e sinceramente receber tudo o que Deus se agradou em nos revelar nesta doutrina. Dificuldades são projetadas para nos humilhar, para nos exercitar, para nos fazer sentir nossa necessidade da sabedoria do alto. Não é fácil chegar a uma compreensão clara e adequada de qualquer uma das grandes doutrinas da Escritura Sagrada, e Deus nunca pretendeu que fosse assim. A verdade tem de ser “comprada” (Provérbios 23:23); infelizmente tão poucos estão dispostos a pagar o preço: dedicar, em oração, ao estudo da Palavra o tempo que ele desperdiça em jornais ou recreações ociosas. Estas dificuldades não são insuperáveis, pois o Espírito foi dado ao povo de Deus para guiá-los em toda a verdade. Igualmente assim para o ministro da Palavra: uma espera humilde em Deus, juntamente com um esforço diligente para ser um obreiro que não tem do que se envergonhar, que, no devido tempo servirá para expor esta verdade para a glória de Deus e para a bênção de seus ouvintes. Esta é uma doutrina importante, como é evidente a partir de várias considerações. Talvez possamos expressar mais impressionantemente a importância desta verdade, apontando que, à parte da eterna eleição nunca teria havido qualquer Jesus Cristo e, portanto, não haveria Evangelho Divino; porque, se Deus não tivesse escolhido um povo para a salvação, Ele nunca teria enviado o Seu Filho; e se Ele não tivesse enviado nenhum Salvador, ninguém seria salvo. Assim, o próprio Evangelho se originou nesta questão vital da eleição. “Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter

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Deus elegido desde o princípio para a salvação” (2 Tessalonicenses 2:13). E por que devemos “dar graças”? Porque a eleição é a raiz de todas as bênçãos, a nascente de cada misericórdia que a alma recebe. Se a eleição for tirada, tudo é levado embora, pois aqueles que têm qualquer espécie de bênçãos espirituais são os que têm todas as bênçãos espirituais à medida que foram eleitos “nele antes da fundação do mundo” (Efésios 1:3-4). Foi bem dito por Calvino: “Nós nunca seremos claramente convencidos, como deveríamos ser, que a nossa salvação flui da fonte da misericórdia gratuita de Deus, até estarmos familiarizados com a Sua eleição eterna, que ilustra a graça de Deus, por esta comparação; que Ele não adota todos indiscriminadamente para a esperança da salvação, mas Ele dá a alguns o que Ele recusa a outros. Ignorância deste princípio evidentemente desvia a glória Divina, e diminui a verdadeira humildade. Se, então, precisamos lembrar que a origem da eleição prova que não obtemos a salvação de nenhuma outra fonte além daquela mera boa vontade de Deus, então aqueles que desejam extinguir este princípio fazem todo o possível para obscurecer o que deveria ser magnificamente e em voz alta celebrado”. A doutrina da eleição é uma doutrina abençoada, pois a eleição é a fonte de todas as bênçãos. Isto é feito inequivocamente claro por Efésios 1:3-4. Primeiro, o Espírito Santo declara que os santos foram abençoados com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo. Então Ele passa a mostrar como e por que eles foram tão abençoados, a saber, na medida em que Deus nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo. A eleição em Cristo, portanto, precede o sermos abençoados com todas as bênçãos espirituais, pois somos abençoados com elas apenas enquanto estando nEle, e nós apenas estamos nEle na medida em que somos escolhidos nEle. Vemos, então, que grande e gloriosa verdade é esta, pois todas as nossas esperanças e perspectivas pertencem a isso. Eleição, embora distinta e pessoal, não é, como, por vezes é descuidadamente afirmado, uma mera escolha abstrata de pessoas para a salvação eterna, independentemente da união com sua Cabeça do Pacto, mas uma escolha deles em Cristo. Isso implica, portanto, todas as outras bênçãos, e todas as outras bênçãos são dadas apenas por meio da eleição e, de acordo com ela. Corretamente entendido não há nada tão calculado para dar conforto e coragem, força e segurança, como uma apreensão cordial desta verdade. Pois ter certeza de que eu sou um dos altos favoritos do Céu dá a confiança de que Deus certamente suprirá todas as minhas necessidades e fará com que todas as coisas cooperem para o meu bem. O conhecimento que Deus me predestinou para a glória eterna fornece uma garantia absoluta que nenhum esforço de Satanás pode, eventualmente, levar à minha destruição, pois se o grande Deus é por mim, quem será contra mim?! Isso traz uma grande paz para o pregador, pois ele agora descobre que Deus não o enviou para levar um arco em uma aventura perigosa, mas

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que a Sua Palavra fará o que Lhe apraz, e prosperará naquilo para que Ele a envia (Isaías 55:11). E que incentivo isso deve dar ao pecador despertado. Quando ele descobre que a eleição é apenas uma questão de graça Divina, a esperança se acende em seu coração; enquanto ele descobre que a eleição destacou alguns dos mais vis dentre os vis para serem os monumentos da misericórdia Divina, por que ele deveria se desesperar!? A doutrina da eleição é uma doutrina desagradável. Alguém naturalmente pensou que uma verdade que honra tanto a Deus, exalta Cristo e é tão abençoada, teria sido cordialmente defendida por todos os Cristãos professos que tiveram-na claramente apresentada a eles. Em vista do fato de que os termos “predestinados”, “eleitos” e “escolhidos”, ocorrem com tanta frequência na Palavra, alguém com certeza concluiria que todos os que pretendem aceitar as Escrituras como Divinamente inspiradas receberiam com implícita fé esta grande verdade, relacionando o ato em si — como convém a criaturas pecadoras e ignorantes assim fazer — à boa vontade soberana de Deus. Mas isso está longe de acontecer, muito longe de ser o caso real. Nenhuma doutrina é tão detestada pela orgulhosa natureza humana como esta, que faz da criatura nada e do Criador, tudo; sim, em nenhum outro ponto a inimizade da mente carnal é tão descarada e acaloradamente evidente. Nós iniciávamos as nossas pregações na Austrália, dizendo: “Eu falarei hoje à noite sobre uma das doutrinas mais odiadas da Bíblia, ou seja, sobre a eleição soberana de Deus”. Desde então temos rodeado este globo, e entramos em mais ou menos estreito contato com milhares de pessoas pertencentes a várias denominações, e mais milhares de Cristãos professos que não estão ligados a nenhuma, e hoje a única mudança que faria nessa declaração é que, enquanto a verdade do castigo eterno é mais reprovável a não-professos, a da eleição soberana de Deus é a verdade mais odiada e insultada pela maioria daqueles que afirmam ser crentes. Que seja claramente anunciado que a salvação não teve origem na vontade do homem, mas na vontade de Deus (veja João 1:13; Romanos 9:16), que se não fosse assim, ninguém seria ou poderia ser salvo — pois por causa da Queda, o homem perdeu todo o desejo e vontade pelo que é bom (João 5:40; Romanos 3:11) — e que até mesmo os eleitos precisam ser feitos dispostos (Salmos 110:3) e altos serão os gritos de indignação levantados contra tal ensino. É neste ponto que a questão é distorcida. Os comerciantes de méritos não reconhecerão a supremacia da vontade Divina e a impotência da vontade humana para o bem; consequentemente, aqueles que são os mais implacáveis em denunciar a eleição pela vontade soberana de Deus, são os mais calorosos em declarar o livre-arbítrio do homem caído. Nos decretos do Concílio de Trento — em que o Papado definitivamente definiu sua posição sobre os principais pontos levantados pelos Reformadores, e os quais Roma nunca revogou — ocorre o seguinte: “Se alguém afirmar que, desde a queda de Adão, o livre-arbítrio do ho-

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mem está perdido, seja anátema”. Foi por sua fiel adesão à verdade da eleição, com tudo o que ela envolve, que Bradford e centenas de outros foram queimados na fogueira pelos agentes do Papa. Indescritivelmente triste é ver tantos Protestantes professos de acordo com a mãe das meretrizes neste erro fundamental. Mas seja qual for a aversão que os homens tenham quanto à está bendita verdade, eles serão obrigados a ouvi-la no último dia, ouvi-la como a voz de decisão final, inalterável e eterna. Quando a morte e o inferno, o mar e a terra seca, darão os mortos, então virá o Livro da Vida — o registo no qual foi gravado antes da fundação de todo o mundo a eleição da graça — que será aberto na presença dos anjos e demônios, com a presença dos salvos e dos perdidos, e aquela voz soará dos mais altos arcos do Céu, às mais baixas profundezas do inferno, ao extremo limite ao universo: “E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo” (Apocalipse 20:15). Assim, esta verdade que é odiada pelos não-eleitos acima de todos os outros, é o que deve soar nos ouvidos dos perdidos enquanto eles entram sua condenação eterna! Ah, meu leitor, a razão pela qual as pessoas não recebem e devidamente apreciam a verdade da eleição, é porque elas não sentem a sua devida necessidade. A eleição é uma doutrina que separa. A pregação da soberania de Deus, como exercida por Ele em preordenar o destino eterno de cada uma das Suas criaturas, serve como um mangual eficaz para dividir o joio do trigo. “Quem é de Deus escuta as palavras de Deus” (João 8:47). Sim, não importa quão contrárias sejam às suas ideias. É uma das marcas dos regenerados que eles estabeleceram por seu selo que Deus é verdadeiro. Nem eles escolhem no que desejam acreditar, como hipócritas religiosos o fazem, uma vez que eles percebem que uma verdade é claramente ensinada na Palavra, mesmo que seja totalmente oposta à sua própria razão e inclinações, eles humildemente se curvam a ela e, implicitamente, a recebem, e faria assim, embora nenhuma outra pessoa no mundo inteiro acredite nela. Mas é muito diferente com os não-regenerados. Como o apóstolo declara: “Do mundo são, por isso falam do mundo, e o mundo os ouve. Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus ouve-nos; aquele que não é de Deus não nos ouve. Nisto conhecemos nós o espírito da verdade e o espírito do erro” (1 João 4:5-6). Nós não sabemos de nada que aparte as ovelhas dos bodes como uma exposição fiel dessa doutrina. Se um servo de Deus aceita um novo cargo, e ele quer saber quem do seu povo deseja o leite puro da Palavra, e quais preferem substitutos do Diabo, que ele transmita uma série de sermões sobre este assunto, e este será rapidamente o meio de “apartares o precioso do vil” (Jeremias 15:19). Foi assim na experiência do Divino pregador, quando Cristo anunciou “Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lhe for concedido. Desde então muitos dos seus discípulos tornaram para trás, e já não an-

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davam com ele” (João 6:65-66)! Verdade é que, de forma alguma nem todos os que recebem intelectualmente o “Calvinismo” como uma filosofia ou teologia, dão provas (em suas vidas diárias) de regeneração; mas é igualmente verdade que aqueles que continuam a contrariar e firmemente recusar qualquer parte da verdade, não têm direito de serem considerados como Cristãos. A doutrina da eleição é uma doutrina negligenciada. Apesar de ocupar um lugar tão proeminente na Palavra de Deus, é pouco pregada, e menos ainda compreendida. Claro, não é de se esperar que os “altos críticos” e seus ingênuos cegos pregariam aquilo que faz do homem um nada; mas mesmo entre aqueles que desejam ser vistos como “ortodoxos” e “evangélicos”, há pouquíssimos que dão a esta grande verdade um lugar real tanto em suas ministrações no púlpito quanto em seus escritos. Em alguns casos, isso é devido à ignorância, não tendo sido ensinados no seminário, e certamente nem nos “Institutos Bíblicos”, eles nunca perceberam sua grande importância e valor. Mas, em muitos casos, é o desejo de ser popular com os seus ouvintes que amordaça suas bocas. No entanto, nem a ignorância, nem o preconceito, nem inimizade podem acabar com a própria doutrina, ou diminuir sua importância vital. Ao concluir estas observações introdutórias, que seja salientado que esta doutrina abençoada precisa ser tratada com reverência. Não é um assunto a ser discutido ou especulado, mas abordado num espírito de reverência e devoção. Ele deve ser tratado com seriedade: “Quando estás em disputa, engajado em uma justa discussão apenas para vindicar a verdade de Deus da heresia e distorção, olhe para o teu coração, estabeleça uma vigilância em teus lábios, tenha cuidado com o fogo selvagem em teu zelo” (E. Reynolds, 1648). No entanto, esta verdade deve ser tratada com intransigência e independentemente do temor ou favor do homem, confiantemente deixando todos os “resultados” na mão de Deus. Que seja graciosamente concedido a nós escrevermos de uma maneira que agrade a Deus, e que você receba tudo que é dEle.

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2 • Sua Fonte Precisamente falando, a eleição é um ramo da predestinação, sendo este último um termo mais abrangente do que o anterior. Predestinação diz respeito a todos os seres, coisas e eventos; mas a eleição é restrita aos seres racionais — anjos e humanos. A palavra predestinação significa que Deus desde toda a eternidade, soberanamente ordenou e imutavelmente determinou a história e o destino de todas e cada uma de Suas criaturas. Entretanto neste estudo nos limitaremos à predestinação enquanto ela se relaciona ou diz respeito às criaturas racionais. E aqui também deve ser notado uma outra distinção. Não pode haver uma eleição sem uma rejeição, uma seleção sem uma reprovação, uma escolha sem uma recusa. Como o Salmo 78 expressa: “Além disto, recusou o tabernáculo de José, e não elegeu a tribo de Efraim. Antes elegeu a tribo de Judá; o monte Sião, que ele amava” (vv. 67-68). Assim a predestinação inclui tanto a reprovação (a preterição ou o passar pelos não-eleitos, e então preordená-los para a condenação — Judas 4 — por causa de seus pecados) e a eleição para a vida eterna, o primeiro destes nós não discutiremos agora. A doutrina da eleição significa, então, que Deus escolheu alguns em Sua mente tanto entre os anjos (1 Timóteo 5:21) e dentre os homens, e ordenou-lhes para a vida eterna e bemaventurança; que antes que Ele os criasse, Ele decidiu o destino deles, assim como um construtor desenha seus planos e determina todas as partes do edifício antes que qualquer um dos materiais sejam reunidos para a realização de seu projeto. A eleição pode ser assim definida: é a parte do conselho de Deus pelo qual Ele, desde toda a eternidade, propôs em Si mesmo mostrar a Sua graça sobre algumas de Suas criaturas. Isto foi feito eficaz por um decreto definitivo relacionado a eles. Agora, em cada decreto de Deus três coisas devem ser consideradas: o início, a matéria ou substância e o fim ou propósito. Vamos oferecer algumas observações sobre cada uma. O início do decreto é a vontade de Deus. Origina-se unicamente em Sua própria determinação soberana. Quanto à determinação da condição de Suas criaturas, a própria vontade de Deus é a causa única e absoluta da mesma. Como não há nada acima de Deus para governá-lO, assim também não há nada fora dEle mesmo que seja de algum modo uma causa que o impulsione; dizer o contrário é fazer da vontade de Deus, uma vontade totalmente nula. Nisto Ele é infinitamente exaltado acima de nós, pois não somos apenas sujeitos a Alguém superior de nós, mas nossas vontades estão sendo constantemente modificadas e dispostas por causas externas. A vontade de Deus não poderia ter nenhuma causa fora de si mesma, ou de outro modo haveria algo anterior a si mesma (pois uma causa sempre precede o efeito) e algo mais excelente (pois a causa é sempre superior ao efeito), e, portanto, Deus não seria o Ser independente que Ele é.

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A matéria ou substância de um decreto Divino é o propósito de Deus de manifestar um ou mais de Seus atributos ou perfeições. Isto é verdade para todos os decretos Divinos, mas como há variedade nos atributos de Deus, assim há nas coisas que Ele decreta trazer à existência. Os dois principais atributos que Ele exerce sobre as Suas criaturas racionais são a Sua graça e Sua justiça. No caso dos eleitos, Deus determinou exemplificar a riqueza da Sua maravilhosa graça, mas no caso dos não-eleitos, Ele achou por bem demonstrar a Sua justiça e severidade, retendo Sua graça deles, porque foi a Sua boa vontade fazê-lO. No entanto, não deve ser admitido, sequer por um momento, que este último foi um traço de crueldade em Deus, pois Sua natureza não é somente graça, nem somente justiça, mas os dois juntos; e, portanto, na determinação de exibir os dois não poderia haver um ponto de injustiça. O fim ou propósito de cada decreto Divino é a própria glória de Deus, pois nada menos do que isso poderia ser digno dEle mesmo. Como Deus jura por Si mesmo porque Ele não pode jurar por ninguém maior, assim por que um maior e mais grandioso fim não pode ser proposto além de Sua própria glória, Deus estabeleceu isto como o fim supremo de todos os Seus decretos e obras. “O Senhor fez todas as coisas para atender aos seus próprios desígnios” (Provérbios 16:4), para a Sua própria glória. Como todas as coisas são dEle como a primeira causa, então todas as coisas são para Ele (Romanos 11:36), como a finalidade última. O bem de Suas criaturas é apenas o fim secundário; Sua própria glória é o fim supremo, e todo o restante é subordinado a isso. No caso dos eleitos, é a maravilhosa graça de Deus que será magnificada; no caso dos réprobos, Sua pura justiça será glorificada. O que se segue neste capítulo será em grande parte uma ampliação destes três pontos. A fonte da eleição, então, é a vontade de Deus. Deve ser malmente necessário salientar que por “Deus”, queremos dizer, Pai, Filho e Espírito Santo. Embora existam três pessoas na Divindade, há apenas uma natureza indivisível comum a todas Elas, e assim, apenas uma vontade. Eles são um, e Eles concordam em um: “Mas, se ele resolveu alguma coisa, quem então o desviará?” (Jó 23:13). Que também seja pontuado que a vontade de Deus não é uma coisa à parte de Deus, nem deve ser considerada apenas como uma parte de Deus, a vontade de Deus é o próprio Deus disposto, ou seja, se assim podemos dizer, Sua própria natureza em atividade, de forma que a Sua vontade é a Sua própria essência. Nem a vontade de Deus é sujeita a qualquer flutuação ou mudança, quando afirmamos que a vontade de Deus é imutável, estamos apenas dizendo que no próprio Deus “não há mudança nem sombra de variação” (Tiago 1:17). Por isso, a vontade de Deus é eterna, pois visto que o próprio Deus não teve princípio, e posto que a Sua vontade é a Sua própria natureza, então Sua vontade deve ser eterna. Para continuar e dar um passo adiante. A vontade de Deus é absolutamente livre, não influ-

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enciada e não controlada por qualquer coisa fora dEle mesmo. Isso aparece a partir da criação do mundo, bem como de tudo que nele há. O mundo não é eterno, mas foi feito por Deus, mas se esse seria ou não seria criado, foi determinado por Ele mesmo somente. O momento em que ele foi feito, se mais cedo ou mais tarde; o seu tamanho, se maior ou menor; a duração do mesmo, se para uma época ou para sempre; a condição dele, se ele permaneceria “muito bom” ou seria contaminado pelo pecado; tudo foi determinado pelo decreto soberano do Altíssimo. Houvesse Ele se agradado, Deus poderia ter trazido este mundo à existência milhões de anos mais cedo do que Ele o fez. Se assim Lhe aprouvesse, Ele poderia ter feito isso e todas as coisas nele em um instante do tempo, em vez de em seis dias e noites. Houvesse Lhe agradado, Ele podia ter limitado a família humana a alguns milhares ou centenas, ou tê-la feito milhares de vezes maior do que é. Nenhuma outra razão pode ser atribuída ao porquê, como e quando Deus o criou assim como ele é, além de Sua própria vontade imperial. A vontade de Deus era absolutamente livre em relação à eleição. Na escolha de um povo para a vida eterna e glória, não havia nada fora de Si mesmo, que moveu Deus a formar um tal propósito. Como Ele declara expressamente: “Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (Romanos 9:15), a linguagem não poderia afirmar mais definitivamente o caráter absoluto da soberania Divina nesta questão. “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Efésios 1:5), aqui novamente tudo se resolve no mero prazer de Deus. Ele concede Seus favores ou os retém como agrada a Si mesmo. Nem Ele fica em qualquer necessidade de que vindiquemos o Seu procedimento. O Todo-Poderoso não deve ser levado ao tribunal da razão humana, em vez de tentar justificar a elevada soberania de Deus, nós somos apenas obrigados a acreditar nela, segundo a autoridade de Sua própria Palavra. “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve” (Mateus 11:25-26), o Senhor Jesus estava contente em descansar ali, e assim devemos estar. Alguns dos expositores mais hábeis desta profunda verdade afirmaram que o amor de Deus é a causa motriz de nossa eleição, citando “em amor, nos predestinou” (Efésios 1:4-5); ainda assim fazendo, nós pensamos isto é imputável de uma ligeira imprecisão ou afastamento da regra de fé. Embora concordando plenamente que as duas últimas palavras de Efésios 1:4 (tal como estão na Versão Autorizada [da KJV]) pertencem adequadamente ao início do versículo 5, no entanto, deve ser cuidadosamente observado que o versículo 5 não está falando de nossa eleição original, mas de nossa predestinação para a adoção de filhos, as duas coisas são totalmente distintas, atos separados da parte de Deus, o segundo seguindo o primeiro. Há uma ordem nos conselhos Divinos, como existe nas obras da criação de

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Deus, e é tão importante prestar atenção no que se diz ao primeiro, quanto é observar o procedimento Divino nos seis dias de trabalho de Gênesis 1. Um objeto deve existir ou subsistir antes que possa ser amado. A eleição foi o primeiro ato na mente de Deus, no qual Ele escolheu as pessoas dos eleitos para que sejamos santos e irrepreensíveis (v. 4). A predestinação foi o segundo ato de Deus, pelo que Ele ratificou por decreto a condição daqueles a quem Sua eleição havia dado uma verdadeira subsistência diante dEle. Tendo os escolhidos em Seu amado Filho para uma perfeição de santidade e justiça, o amor de Deus seguiu adiante deles, e lhes concedeu a mais importante e maior bênção que Seu amor pode conferir, torná-los Seus filhos por adoção. Deus é amor, e todo o Seu amor é exercido sobre Cristo e sobre os eleitos nEle. Tendo feito a eleição de Seus próprios, pela soberana escolha de Sua vontade, o coração de Deus foi estabelecido sobre eles como o Seu tesouro peculiar. Outros atribuem a nossa eleição à graça de Deus, citando “Assim, pois, também agora neste tempo ficou um remanescente, segundo a eleição da graça” (Romanos 11:5). Mas aqui novamente devemos distinguir entre coisas que diferem, ou seja, entre o início de um decreto Divino e sua matéria ou substância. É verdade, abençoadamente verdade, que os eleitos são os objetos sobre os quais a graça de Deus é especialmente exercitada, mas isso é outra coisa bem diferente de dizer que a Sua eleição teve origem na graça de Deus. A ordem a que estamos aqui insistindo é claramente expressa em Efésios 1. Em primeiro lugar, “Como também [Deus] nos elegeu nele [Cristo] antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis [justos] diante dele” (v. 4), esse foi o ato inicial na mente Divina. Em segundo lugar, “em amor, e nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo”. E isso “de acordo com o beneplácito de sua vontade” (v. 5), isso foi Deus valorizando aqueles sobre quem Ele havia estabelecido o Seu coração. Em terceiro lugar, “Para louvor da glória de sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado” (v. 6), esse foi tanto o sujeito e o propósito do decreto de Deus: a manifestação e magnificação de Sua graça. “A eleição da graça” (Romanos 11:5), portanto, não deve ser entendida como o genitivo de origem, mas como o objeto ou característica, como em “Rosa de Sarom”, “A árvore da vida”, “os filhos da desobediência”. A eleição da igreja, como todos os Seus atos e obras, deve ser traçada de volta à não limitada e irreprimível vontade de Deus. Em nenhum outro lugar nas Escrituras a ordem dos conselhos Divinos é assim definitivamente revelada como em Efésios 1, e em nenhum outro lugar é tão forte a ênfase sobre a vontade de Deus. Ele predestinou para filhos de adoção “segundo o beneplácito de sua vontade” (v. 5). Ele fez conhecido a nós “o mistério da sua vontade” (não a “graça”) e isso “segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo” (v. 9). E então, como se isso não fosse suficientemente explí-

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cito, a passagem termina com “Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade; com o fim de sermos para louvor da sua glória” (vv. 11-12). Detenhamo-nos por mais um momento nesta notável expressão: “daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” (v. 11). Observe bem que não é: “o conselho de seu próprio coração”, nem mesmo “o conselho da sua própria mente”, mas da VONTADE, não “a vontade de seu próprio conselho”, mas “o conselho da sua própria vontade”. Nisto Deus difere radicalmente de nós. Nossas vontades são influenciadas pelos pensamentos de nossas mentes e modificam-se pelos afetos do nosso coração; mas não é assim com Deus. “Segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra” (Daniel 4:35). A vontade de Deus é suprema, determinando o exercício de todas as Suas perfeições. Ele é infinito em sabedoria, mas a Sua vontade regula as operações da mesma. Ele é cheio de misericórdia, mas a Sua vontade determina quando e para quem Ele a demonstra. Ele é inflexivelmente justo, mas a Sua vontade decide se a Sua justiça deve ou não ser expressada, observe cuidadosamente que não é: “Que ao culpado não pode ter por inocente” (como é tão comumente mal interpretado), mas “que ao culpado não tem por inocente” (Êxodo 34:7). Deus em primeiro lugar quer ou determina que uma coisa acontecerá, em seguida, Sua sabedoria efetua a execução da mesma. Apontemos agora o que tem sido negado. De tudo o que foi dito acima, é claro, primeiramente, que as nossas boas obras não são o que induziu Deus a nos eleger, pois esse ato aconteceu na mente Divina na eternidade, muito antes que nós tivéssemos qualquer existência real. Veja como este ponto é posto de lado em: “Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama)” (Romanos 9:11). Novamente, lemos: “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” (Efésios 2:10). Desde que, então, fomos eleitos antes de nossa criação, então, as boas obras não poderiam ser a causa motriz da mesma, não, elas são os frutos e os efeitos da eleição. Em segundo lugar, a santidade dos homens, seja no princípio ou na prática, ou ambos, não é a causa motriz da eleição, pois, como Efésios 1:4 tão claramente declara: “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele”, não porque éramos santos, mas para que sejamos santos. Que nós “fôssemos santos” era algo futuro, que segue sobre isso, e é o meio para um outro fim, ou seja, a nossa salvação, para o que os homens são escolhidos: “por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade” (2 Tessalonicenses 2:13). Desde que, então, a santificação do povo de Deus que foi o propósito de Sua eleição,

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não poderia ser a causa da mesma. “Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (1 Tessalonicenses 4:3), não meramente a aprovação da vontade de Deus, como sendo agradável à Sua natureza; nem meramente a Sua vontade preceptiva, conforme exigido pela Lei; mas a Sua vontade decretiva, Seu conselho determinado. Em terceiro lugar, nem a fé é a causa da nossa eleição. Como ela poderia ser? Ao longo de seu estado não-regenerado, todos os homens estão em uma condição de incredulidade, vivendo neste mundo sem Deus e sem esperança. E quando tivemos fé, não foi de nós mesmos, ou de nossa bondade, poder ou vontade. Não, antes foi um dom de Deus (Efésios 2:9), e a operação do Espírito (Colossenses 2:12), que flui de Sua graça. Está escrito: “e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (Atos 13:48), e não “todos que creram, foram ordenados para a vida eterna”. Uma vez que, então, a fé brota da graça Divina, a fé não pode ser a causa de nossa eleição. A razão pela qual os outros homens não creem, é porque eles não são as ovelhas de Cristo (João 10:26); o motivo pelo qual alguém crê é porque Deus lhe dá a fé, e por isso é chamada “a fé dos eleitos de Deus” (Tito 1:1). Em quarto lugar, não é a previsão de Deus dessas coisas nos homens que O levou a elegêlos. A presciência de Deus do futuro está fundamentada sobre a determinação de Sua vontade em relação ao mesmo. O decreto Divino, a presciência Divina e a predestinação Divina é a ordem estabelecida nas Escrituras. Em primeiro lugar, “que são chamados segundo o seu propósito”; segundo, “por que os que dantes conheceu”; terceiro, “também os predestinou” (Romanos 8:28-29). O decreto de Deus, como precedente de Sua presciência também é afirmado em “a este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus” (Atos 2:23). Deus prevê tudo o que acontecerá, porque Ele ordenou tudo o que há ocorrer; portanto, estamos colocando a carroça na frente dos bois quando fazemos da presciência a causa da eleição de Deus. Em conclusão, que seja dito que a finalidade de Deus em Seu decreto da eleição é a manifestação de Sua própria glória, mas antes de entrar em detalhes sobre este ponto citaremos várias passagens que estabelecem amplamente o fato em si. “Sabei, pois, que o Senhor separou para si aquele que é piedoso; o Senhor ouvirá quando eu clamar a ele” (Salmos 4:3). “Separou” aqui significa escolheu ou apartou do restante; “aquele que é piedoso” refere-se ao próprio Davi (Salmos 89:19-20); “para si mesmo”, e não apenas para o trono e o reino de Israel. “Porque o Senhor escolheu para si a Jacó, e a Israel para seu próprio tesouro” (Salmos 135:4). “Porque porei águas no deserto, e rios no ermo, para dar de beber ao meu povo, ao meu eleito. A esse povo que formei para mim; o meu louvor relatarão” (Isaías 43:20-21), isto é paralelo com Efésios 1:5-6. Assim, no Novo Testamento, quando aprouve a Cristo dar a Ananias um relato da conversão de Seu amado Paulo, ele disse:

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“Vai, porque este é para mim um vaso escolhido” (Atos 9:15). Mais uma vez: “Reservei para mim sete mil homens, que não dobraram os joelhos a Baal” (Romanos 11:4), o que é explicado no versículo seguinte como “um remanescente, segundo a eleição da graça”.

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3 • Sua Grandiosa Origem Os decretos de Deus, Seu eterno propósito, os conselhos inescrutáveis de Sua vontade, são realmente um grande abismo; ainda assim, isso nós sabemos: que do primeiro ao último eles têm uma relação estabelecida com Cristo, pois Ele é o Alfa e o Ômega, em todas as operações da Aliança. Spurgeon expressa isto maravilhosamente: “Examine a fonte celestial, a partir da qual todas as correntes da graça Divina fluem para nós, e você encontrará Jesus Cristo, o manancial na Aliança de Amor. Se os seus olhos jamais viram o rolo da Aliança, se você será permitido, em um estado futuro, ver todo o plano da reden-ção, que uma vez que foi traçado nas câmaras da eternidade, você deverá ver a linha de vermelhosangue do sacrifício expiatório percorrendo através da margem de cada página, e você verá que desde o início até o fim o objetivo sempre foi: a glória do Filho de Deus”. Portanto, parece estranho que muitos que veem que a eleição é o fundamento da salvação, ainda ignoram a glorioso Cabeça da eleição, em quem os eleitos foram escolhidos e de quem recebem todas as bênçãos. “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo” (Efésios 1:3-4). Visto que fomos escolhidos em Cristo, é evidente que fomos escolhidos fora de nós mesmos; e uma vez que fomos escolhidos em Cristo, segue-se necessariamente que Ele escolheu a nós antes de nós a Ele. Isto está claramente implícito no verso anterior, em que o Pai é expressamente designado “o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”. Agora, de acordo com a analogia da Escritura (ou seja, quando Ele se diz ser o “Deus” de alguém) Deus era o “Deus” de Cristo em primeiro lugar, porque Ele o escolheu para graça e união. Cristo como homem foi predestinado tão verdadeiramente como nós fomos, e por isso tem Deus como sendo o Seu Deus por predestinação e livre graça. Em segundo lugar, porque o Pai fez um pacto com Ele (Isaías 42:6). Deus tornou-se conhecido como “o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó” tendo em vista o pacto feito com eles, semelhantemente tendo em vista o pacto que fez com Cristo, Ele tornou-se seu “Deus”. Em terceiro lugar, porque Deus é o autor de toda a bem-aventurança de Cristo (Salmos 45:2, 7). “Como também [Deus] nos elegeu nele” significa, então, que na eleição Cristo foi feito o Cabeça dos eleitos. “Do ventre da eleição Ele, o Cabeça, saiu primeiro [esboçado em todo parto normal — A. W. P.], e depois nós, os membros” (Thomas Goodwin). Em todas as coisas Cristo deve ter a “preeminência”, e, portanto, Ele é “o Primogênito” na eleição (Romanos 8:29). Na ordem da natureza Cristo foi escolhido em primeiro lugar, mas, no fim dos tempos fomos eleitos com Ele. Nós não fomos escolhidos por nós mesmos à parte de

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Cristo, mas em Cristo, o que denota três coisas: Primeiro, fomos escolhidos em Cristo como os membros do Seu corpo. Em segundo lugar, fomos escolhidos nEle como o padrão ao qual devemos conformar-nos. Em terceiro lugar, nós fomos escolhidos nEle tendo-O como nosso fim último, ou seja, foi para a glória de Cristo, para ser Sua “plenitude” (Efésios 1:23). “Eis aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma” (Isaías 42:1), que essa passagem refere-se a ninguém menos do que ao Senhor Jesus Cristo é inegavelmente claro pela citação do Espírito dela em Mateus 12:15-21. Aqui, então, está a grandiosa origem da eleição, em sua primeira e mais alta instância eletiva é falada e aplicada em relação ao Senhor Jesus! Era da vontade dos Três Eternos eleger e predestinar a segunda Pessoa em estado e existência de criatura, para que, como Deus-homem, “o primogênito de toda criatura” (Colossenses 1:15), Ele fosse o centro dos decretos Divinos e o objeto imediato e principal do amor dos Três co-essenciais. E, como o Pai tem a vida em Si mesmo, assim deu também ao Filho — considerado como Deus-homem — ter a vida em Si mesmo (João 5:26), para ser uma fonte de vida, de graça e de glória, para Sua amada Esposa, que recebeu a sua existência e o bem-estar a partir da livre graça e amor eterno de Jeová. Quando Deus decidiu criar, entre todas as criaturas inumeráveis, tanto angelicais quanto humanas, que surgiram na mente Divina, para serem trazidos à existência por Ele, Jesus Cristo homem foi destacado deles, e nomeado para a união com a segunda Pessoa da Trindade bendita, e foi, portanto, santificado e estabelecido. Este ato original e maior da e-leição proveio da pura soberania e da maravilhosa graça. As hostes celestes foram ignora-das, e a semente da mulher foi tomada ao invés delas. Dentre as inúmeras sementes que seriam criadas em Adão, a linhagem de Abraão foi escolhida, em seguida, a de Isaque e de Jacó. Das doze tribos que descenderam de Jacó, a tribo de Judá foi escolhida, Deus não elegeu um anjo para a elevada união com seu Filho, mas “a um eleito do povo” (Salmos 89:19). O que dirão aqueles que tanto se desagradam da verdade de que os herdeiros do Céu são eleitos, quando eles aprendem que Jesus Cristo é o tema da eleição eterna!? Jeová é a causa primeira e o fim último de todas as coisas. Sua essência e existência são de e para Si mesmo. Ele é o Senhor, a essência auto-existente; a fonte da vida, e bem-aventurança essencial: “Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível, ao único Deus sábio, aquele que tem, ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver” [1 Timóteo 1:17; 6:16]. E ao longo de uma vasta eternidade os Três Eternos se deleitaram na bem-aventurança sem limites e incompreensível da contemplação daquelas perfeições essenciais que pertencem ao Pai, ao Filho e ao Espírito, o eterno Jeová, que é a Sua própria eternidade, e não pode receber qualquer adição à Sua felicidade essencial ou glória por qualquer uma ou por

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todas as Suas criaturas. Ele está exaltado sobre toda a bênção e louvor. Toda a Sua criação é vista como nada diante dEle, e ainda menos do que nada e uma vaidade. Se alguns curiosamente perguntassem a si mesmos: “O que Deus estava fazendo antes de ter estendido os céus e lançado os fundamentos da terra?”. A resposta é: os Três Benditos, co-iguais e co-essenciais Pai, Filho e Espírito Santo, tinham mútua comunhão juntamente, e eram essencialmente bem-aventurados no que diz respeito à vida eterna e Divina, no mútuo interesse e propriedade que Eles tinham um ao outro, em mútuo amor e deleite — bem como em posse de uma glória em comum. Mas, como é da natureza do bem o ser comunicativo de si mesmo, por isso agradou à Trindade eterna o propósito de manifestar Seus atos nas criaturas. Os três SempreBenditos, a Quem nada pode ser acrescentado ou diminuído, a nascente e fonte da qual aquelas benções essenciais brotam das imensas perfeições e da natureza infinita em que elas existem, do amor mútuo que Eles têm uns para com os outros, e da Sua mútua comunicação entre si, o prazer de deleitar-se na companhia e sociedade da criatura. O Pai eterno predestinou Seu Filho co-essencial em estabelecimento e existência de criatura, e desde a eternidade Ele apresentou a forma e deu luz à personalidade de Deus-homem. A criação de todas as coisas é atribuída nas Escrituras à soberania Divina: “Tu criaste todas as coisas, e por tua vontade são e foram criadas” (Apocalipse 4:11). Nada fora de Deus pode movê-lO, ou ser um motivo para Ele; Sua vontade é Seu governo, a Sua glória Seu fim último. “Porque dele (como a causa primária), e por meio dele (como preservador da causa), e para ele (como a causa final), são todas as coisas” (Romanos 11:36). Deus, em Sua efetiva criação de tudo, é a finalidade de tudo. “O Senhor fez todas as coisas para atender aos seus próprios desígnios” (Provérbios 16:4), e a soberania de Deus surge naturalmente a partir da relação de todas as coisas em relação a Ele mesmo como o seu criador, e sua dependência natural e inseparável dEle, no que diz respeito à sua existência e bem-estar. Ele tinha o ser de todas as coisas na Sua pró-pria vontade e poder, e dependia de Seu próprio prazer se Ele iria dar-se ou não. “Conhecidas são a Deus, desde o princípio do mundo, todas as suas obras” (Atos 15:18). Ele compreende e apreende todas as coisas em Sua infinita compreensão. Como Ele tem uma essência incompreensível, frente à qual a nossa nada é senão apenas como a gota de um balde, assim pois Ele tem um conhecimento incompreensível, frente ao qual o nosso é apenas como um grão de poeira. Seu decreto primário e visão, na criação do céu e da terra, anjos e homens, sendo a Sua própria glória, que deu base para isso e foi a base para apoiá-lo, foi o desígnio de Jeová exaltar o Seu Filho como Deus-homem, para ser o fundamento e a pedra angular de toda a criação de Deus. Deus nunca teria agido por meio dos atos da criatura, se não houvesse a segunda

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Pessoa condescendido em tomar sobre Si a nossa natureza para se tornar uma criatura. Embora isso tenha ocorrido após a Queda, no entanto, o decreto relativo existiu antes da Queda. Jesus Cristo, o companheiro do Senhor dos exércitos, foi o primeiro de todos os caminhos de Deus (S. E. Pierce). Em nenhum lugar a soberania de Deus brilhará tão conspicuamente como em Seus atos de eleição e reprovação, que são desde a eternidade passada, nos quais nada na criatura foi a causa disso. O ato de Deus de escolher Seu povo em Cristo se deu antes da fundação do mundo, sem a consideração da Queda, nem ocorreu sobre a previsão e posição das obras, mas foi totalmente por graça, e tudo para o louvor e glória da mesma. Em nada mais a soberania de Jeová é tão evidenciada, de fato, o maior exemplo desta foi ao predestinar a segunda Pessoa da Trindade para ser o Deus-homem. Que este esteve sob o decreto de Deus é claro, uma vez mais, a partir das palavras do apóstolo: “O qual, na verdade, [diz ele ao falar de Cristo], foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo” (1 Pedro 1:20). E de quem é dito como sendo posto “em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa” (1 Pedro 2:6). Esta grandiosa origem da eleição, tão pouco conhecida hoje, é de tal importância transcendente que nós nos estenderemos sobre ela um pouco mais, para apontar algumas das razões por que aprouve a Deus predestinar o homem Cristo Jesus para união pessoal com Seu Filho. Cristo foi predestinado para fins mais elevados do que a salvação de Seu povo contra os efeitos da Queda deste em Adão. Primeiro, Ele foi escolhido por Deus para deleitar-se, muito mais e infinitamente acima de todas as outras criaturas. Sendo unido com a segunda Pessoa, o homem Cristo Jesus foi exaltado a uma união mais estreita e comunhão com Deus. O Senhor dos Exércitos fala de Deus como “o homem que é o meu companheiro” (Zacarias 13:7), “meu eleito, em quem se apraz a minha alma” (Isaías 42:1). Em segundo lugar, Cristo foi escolhido para que Deus possa contemplar a imagem dEle mesmo e de todos as Suas perfeições em uma criatura, de modo que Suas excelências são vistas em Cristo como em nenhum outro: “O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa” (Hebreus 1:3), isto é dito a respeito da pessoa de Cristo como Deushomem. Em terceiro lugar, pela união do homem Cristo Jesus com o Filho eterno de Deus, toda a plenitude da Divindade habitando corporalmente nEle, Ele é “a imagem do Deus invisível” (Colossenses 1:15, 19). Jesus Cristo Homem, então, foi escolhido para uma maior união e comunhão com o próprio Deus. NEle o amor e a graça do Senhor resplandecem em Sua glória superlativa. O Filho de Deus deu subsistência e personalidade à Sua natureza humana, para que o Filho de Deus e Sua natureza humana não fossem apenas uma carne como homem e mulher (que é a união mais íntima entre a humanidade), nem um espírito só (como é o caso entre Cristo

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e a Igreja: 1 Coríntios 6:17), e assim, esta natureza de criatura é favorecida com uma comunhão em sociedade com a Santíssima Trindade, e, portanto, a Ele Deus se comunica sem medida (João 3:34). Descendo agora a um plano inferior, o homem Cristo Jesus também foi escolhido para ser um Cabeça de uma semente de eleitos, que foram escolhidos nEle [...] e abençoados nEle com todas as bênçãos espirituais. Se Deus ama, Ele deve ter um objeto de Seu amor, e tal objeto deve ter uma existência diante dEle para que Ele possa exercer o Seu amor, pois Ele não pode amar uma não-entidade. Deve, portanto, ser que o Deus-homem, e os eleitos nEle existiam na mente Divi-na, como objetos do amor eterno de Deus, antes de todos os tempos. Em Cristo, a Igreja foi escolhida desde a eternidade, este o Cabeça, a outra Seu corpo; esse é o noivo, e a outra Sua noiva, aquela que está sendo escolhida e designada para o Outro. Eles foram escolhidos em conjunto, mas Cristo veio em primeiro lugar na ordem dos decretos Divinos. Como, então, Cristo e a Igreja já existiam na vontade, pensamentos e propósitos do Pai desde o princípio, Ele podia amá-los e se alegrar-se neles. Como o Deus-homem declara: “Tu me enviaste a mim, e que os tens amado a eles como me tens amado a mim... porque tu me amaste antes da fundação do mundo” (João 17:23-24). O Filho de Deus é, antes de todos os tempos, predestinado para ser Deus-homem, Ele foi secretamente ungido ou estabelecido como tal, e Sua natureza humana teve uma subsistência pactual diante de Deus. Em consequência disso, Ele era o Filho do homem no Céu antes que Ele se tornasse o Filho do homem sobre a terra; Ele era o Filho do homem secretamente diante de Deus antes que Ele se tornasse o Filho do homem abertamente e manifestamente neste mundo. É por isso que o salmista exclama: “Seja a tua mão sobre o homem da tua destra, sobre o filho do homem, que fortificaste para ti” (80:17); e, portanto, o próprio Cristo declara: “Que seria, pois, se vísseis subir o Filho do homem para onde primeiro estava?” (João 6:62). “Deus, pela infinita bondade de Seu amor, ordenou a Cristo para se tornar uma criatura, e se comunicar com as Suas criaturas, ordenando em Seu eterno conselho que a pessoa da Divindade se unisse à nossa natureza e para uma de Suas criaturas em particular, a ponto de que que na pessoa do Mediador a verdadeira escada da salvação pudesse ser estabelecida, no qual Deus possa descer para as Suas criaturas e Suas criaturas subirem a Ele” (Sir Francis Bacon). “Cristo foi eleito no princípio como Cabeça e Mediador, e como a pedra angular que suportaria todo o edifício; pois o ato da eleição do Pai em Cristo supõe que Ele foi primeiramente escolhido para este trabalho de mediação e de ser o Cabeça da parte eleita do mundo. Após esta eleição de Cristo, outros foram predestinados ‘para serem

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conformes à Sua imagem’ (Romanos 8:29), isto é, a Cristo como Mediador, possuindo uma natureza humana; não de Cristo sendo considerado apenas como Deus. Esta conformidade sendo especialmente o propósito da eleição, Cristo era segundo o desígnio do Pai o primeiro exemplar e padrão dos eleitos. Um pé do compasso da graça estava em Cristo como o centro, enquanto o outro andou sobre a circunferência, apontando um aqui e outro ali, para desenhar uma linha, por assim dizer, entre cada um desses pontos e Cristo. O Pai, então, sendo a causa primeira da eleição de alguns dentre a massa da humanidade, foi a causa primeira da eleição de Cristo, ao trazêlos à fruição daquilo a que eles foram eleitos. É provável que Deus, na fundação de um reino eterno, deve consultar sobre os membros antes que ordena um Cabeça? Cristo foi registrado no topo do livro da eleição, e os Seus membros, após Ele. E portanto este livro se chama: ‘o livro da vida do Cordeiro’ [Apocalipse 13:8; 21:27]” (Stephen Charnock). Essa passagem da Escritura que introduz mais plenamente o que estamos aqui contemplando é Provérbios 8, e é para ela que vamos agora olhar. Há muitas passagens neste livro em que a “sabedoria” de que fala significa muito mais do que uma excelência moral, e algo ainda mais bendito do que a personificação de um dos atributos Divinos. Em não poucas passagens (1:20-21, por exemplo), a referência é a Cristo, um dos títulos usados é “sabedoria de Deus” (1 Coríntios 1:24). É, como tal, Ele deve ser considerado aqui no capítulo 8. Que é uma pessoa que está ali referida, é claro a partir do versículo 17, e que é uma Pessoa Divina aparece a partir do versículo 15; contudo não é uma Pessoa Divina considerada abstratamente, mas como o Deus-homem. Isso é evidente a partir do que é afirmado sobre Ele. “O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos, desde então, e antes de suas obras” (v. 22). Aqui quem fala é o próprio Cristo, o único Mediador entre o Criador e Suas criaturas. As palavras: “O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos” tendem a esconder o que está ali sendo afirmado. Não há prefixo no original hebraico, nada há para justificar a interposição “no”, enquanto a palavra traduzida como “princípio” significa o primeiro ou o principal. Assim, deve ser traduzida como “o Senhor me possuiu: o início (ou Principal) de seus caminhos, desde então, e antes de suas obras”. Cristo era o primogênito de todos os pensamentos e projetos de Deus, deleitando-Se em e por Ele muito antes do universo ter sido trazido à existência. “Desde a eternidade fui ungida, desde o princípio, antes do começo da terra” (v. 23). “Nosso Redentor saiu do ventre de um decreto desde a eternidade, antes que houvesse saído do ventre da virgem no tempo; Ele estava escondido na vontade de Deus antes que Ele se manifestasse na carne de um Redentor; Ele era um Cordeiro imolado no decreto antes que

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Ele fosse morto na cruz; Deus o possui no princípio, ou no início de seu caminho, o Arquiteto de Suas obras, e estabelecido desde a eternidade para ter Seus deleites entre os filhos dos homens” (Provérbios 8:22, 23, 31) — Stephen Charnock. “Quando ainda não havia abismos, fui gerada, quando ainda não havia fontes carregadas de águas. Antes que os montes se houvessem assentado, antes dos outeiros, eu fui gerada” (vv. 24-25). Cristo está aqui se referindo ao seu ser “gerado” na mente de Deus, predestinado à existência da criatura antes que o mundo fosse feito. A primeira de todas das intenções de Deus relacionou-se à união do homem Cristo Jesus a Seu Filho. O Mediador se tornou a base de todos os conselhos Divinos (veja Efésios 3:11 e 1:9-10). Como o Triuno Jeová O “possuía” como um tesouro em que foram colocados todos os Seus desígnios. Ele foi, então, “criado” ou “ungido” (v. 23) em Seu caráter oficial como Mediador e Cabeça da Igreja. Como o Deus-homem Ele teve uma influência eficaz e foi o executor de todas as obras e vontade de Deus. “Então eu estava com ele, e era seu arquiteto; era cada dia as suas delícias, alegrando-me perante ele em todo o tempo” (v. 30). Aqui não é a complacência do Pai no Filho que é considerada absolutamente como a segunda Pessoa, mas Sua satisfação e alegria no Mediador, à medida em que O via pelas lentes de Seus decretos. Foi como encarnado que o Pai disse: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mateus 3:17), e foi como préordenado Deus-homem, que tinha uma real subsistência diante da mente Divina, que Ele era as delícias de Jeová, antes que o mundo existisse. Em Seus pensamentos eternos e previsões, o homem que foi Seu companheiro, tornando-se o objeto de amor e complacência inefável de Deus. Isso foi muito mais do que Jeová simplesmente propondo que o Filho deveria encarnar-se; Seu decreto deu a Cristo uma verdadeira subsistência diante dEle, e como tal uma satisfação infinita foi conferida ao Seu coração. Tão pouco compreendido é este aspecto abençoado de nosso assunto, e tão importante que mais algumas observações adicionais sobre isso parecem necessárias. Que Cristo é o Primogênito ou Cabeça de eleição da graça foi prefigurado no início das obras de Deus, na verdade, a criação deste mundo e a formação do primeiro homem foram com o propósito de fazer Cristo conhecido. Como nos é dito em Romanos 5:14: “o qual é a figura daquele que havia de vir”. Em Sua criação, formação e constituição como o Cabeça federal da nossa raça, Adão era um tipo notável de Cristo como Eleito de Deus. Ao ampliar esta afirmação, será necessário seguir sobre o mesmo fundamento que nós percorremos em União Espiritual e Comunhão, mas nós confiamos que o leitor suportará que nós repitamos aqui uma certa quantidade de coisas. Há uma certa classe de pessoas — aquelas que desprezam toda a doutrina e, particular-

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mente, as que não gostam da doutrina da soberania absoluta de Deus — que muitas vezes nos exortam a “pregar a Cristo”, mas temos observado que eles nunca pregam a Cristo no Seu maior caráter oficial, como o Cabeça da Aliança do povo de Deus, que eles nunca dizem uma palavra sobre Ele como o Eleito de Deus “em quem se apraz a minha alma” [Isaías 42:1]! A pregação de Cristo é uma tarefa muito mais abrangente do que muitos supõem, nem pode ser feita de forma correta por qualquer homem, até que ele comece pelo princípio e mostre que o homem Jesus Cristo foi eternamente predestinado para a união com a segunda Pessoa da Trindade. “Exaltei a um eleito do povo” (Salmos 89:19), esta exaltação começou com a elevação da humanidade de Cristo para a união pessoal com o Verbo eterno — honra única! As próprias palavras “escolhidos em Cristo” implica necessariamente que Ele foi escolhido em primeiro lugar, tornando-se o fundamento em que os outros foram escolhidos. Quando Deus escolheu Cristo não era como uma pessoa única ou particular, mas como uma pessoa pública, como Cabeça do Seu corpo, sendo nós escolhidos nEle como os Seus membros. Assim, na medida em que foi então dado a subsistência representante diante de Deus, Deus poderia fazer um Pacto com Cristo em nosso favor. Que Ele assim entrou em um acordo eterno com Cristo na qualidade de Cabeça da eleição da graça, é claramente demostrado: “Fiz uma aliança com o meu escolhido, e jurei ao meu servo Davi” (Salmo 89:3), esta aliança foi esboçada no tempo com aquele que era tipicamente “o homem segundo o seu coração”, pois Davi era na verdade uma sombra de Cristo, quando Deus fez um pacto com ele; como José foi quando ele forneceu comida aos seus irmãos necessitados, ou como Moisés foi quando ele conduziu os Hebreus para fora da casa da servidão. Que aqueles, então, que desejam pregar a Cristo, cuidem para dar-Lhe a preeminência em todas as coisas, e a eleição não uma é exceção! Deixe-os aprender a dar a Jesus de Nazaré Sua plena honra, pois a honra que o próprio Pai deu a Ele é uma honra superlativa, a saber, que Cristo é o canal através do qual toda a graça e glória que temos, ou teremos, flui para nós, e foi estabelecido como tal desde o início. Como Romanos 8:29 ensina tão claramente, foi em relação à eleição que Deus designou Seu próprio Filho amado para ser “o primogênito entre muitos irmãos”. Cristo sendo apontado como a obra-prima da sabedoria Divina, o grande protótipo, e nós ordenados a sermos muitas pequenas cópias segundo o Seu Modelo. Cristo é o primeiro e último de todos os pensamentos, conselhos e caminhos de Deus. O universo nada é senão o teatro e este mundo o palco principal em que o Senhor Deus considera adequado executar alguns de Seus projetos mais profundos. Sua criação de Adão foi uma sombra para apontar para um melhor Adão, que teria uma liderança universal sobre todas as criaturas de Deus, e cujas glórias deveriam brilhar visivelmente em e

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através de todas as partes da criação. Quando o mundo foi criado e decorado, o homem foi trazido à existência. Mas, antes de sua formação lemos sobre aquela célebre consulta dos três eternos: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem” (Gênesis 1:26). Isto diz respeito a Cristo, o Deus-homem, que era desde toda a eternidade o objeto e sujeito de todos os conselhos da Trindade. Adão, foi criado e feito segundo a imagem de Deus, que consistia em verdadeira justiça e santidade, foi um tipo, pois Cristo é por excelência “a imagem do Deus invisível” (Colossenses 1:15). A formação do corpo de Adão, pela mão imediata de Deus, do pó da terra, era uma figura ou sombra do pressuposto da natureza humana por meio do Filho de Deus, cuja humanidade se formou imediatamente pelo Espírito Santo, assim como o corpo de Adão foi produzido a partir da terra virgem, semelhantemente a natureza humana de Cristo foi produzida a partir do ventre da virgem. Mais uma vez, esta união da alma e do corpo em Adão era uma maneira de expressar o mais profundo e maior de todos os mistérios, a união hipostática de nossa natureza na pessoa de Cristo, como é justamente expresso no que é comumente chamado de Credo de Atanásio: “como a alma racional e a carne são um só homem, assim Deus e homem são um só Cristo”. Mais uma vez; como a pessoa de Adão compreendeu as perfeições de todas as criaturas, e foi adaptado para desfrutar de todos os confortos e prazeres que eles podiam lhe conceder e transmitir, deste modo a glória da humanidade de Cristo supera todas as criaturas, até mesmo os próprios anjos. Quanto mais atentamente consideramos a pessoa e a posição do primeiro Adão, melhor podemos discernir quão total e apropriadamente ele era uma figura do último Adão. Como Adão, foi posto no Paraíso, tendo todas as criaturas da terra trazidas diante dele e foi constituído como dominador sobre todos elas (Gênesis 1:28), sendo assim coroado de glória e honra sobre o mundo, por isso também ele antecipou com precisão Cristo, que tem império universal e domínio sobre todos os mundos, seres e coisas, como pode ser visto no Salmo 8, que é aplicado ao Salvador em Hebreus 2:9, onde a soberania sobre todas as criaturas é atribuída a Ele; a terra, o céu, o sol, a lua e as estrelas O magnificam. Pois, ainda que Ele tenha sido por pouco tempo descido abaixo dos anjos em Sua humilhação, contudo agora em Sua exaltação, Ele é coroado Rei dos reis e Senhor dos senhores. Além disso, embora o Deus-homem, o “companheiro do Senhor dos Exércitos”, tenha passado por um período de degradação antes de Sua exaltação, não obstante Sua glorificação foi conhecida ainda antes que o mundo começasse: “E eu vos destino o reino, como meu Pai mo destinou” (Lucas 22:29); “Ele é o que por Deus foi constituído juiz dos vivos e dos mortos” (Atos 10:42). Que Cristo tinha tanto a precedência quanto à presidência na eleição também foi prefigurado neste tipo de parente-primitivo, pois lemos: “E Adão pôs os nomes a todo o gado, e às

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aves dos céus, e a todo o animal do campo; mas para o homem não se achava ajudadora idônea” (Gênesis 2:20). Observe ainda a precisão perfeita do tipo: quando Deus criou Adão, Ele criou Eva nele (e em abençoar Adão — Gênesis 1:28 — Ele abençoou toda a humanidade nele); do mesmo modo, quando Deus elegeu a Cristo, o Seu povo foi eleito nEle (Efésios 1:4), e, portanto, eles tiveram uma existência virtual e subsistência nEle desde toda a eternidade, e, consequentemente, Ele foi denominado “Pai da Eternidade” (Isaías 9:6 — Cf. Hebreus 2:13); e, consequentemente, ao abençoar a Cristo, Deus abençoou todos os eleitos nEle e com Ele (Efésios 1:3; 2:5). Embora Adão tenha saído “muito bom” das mãos de seu Criador, e tenha recebido o domínio sobre todas as criaturas da terra, ainda lemos: “mas para o homem não se achava ajudadora idônea”. Por isso, Deus proveu uma parceira idônea para ele, que sendo retirada de sua costela foi, então, “formada” (Gênesis 2:22), e em seguida trazida a ele, e Adão se agradou dela. Da mesma forma, apesar de Cristo ter existido no início dos caminhos de Deus, ter sido criado desde a eternidade, deleitando-Se no Pai (Provérbios 8:22-23, 30), contudo Deus não achou que fosse bom que para Ele estar sozinho, e Ele, portanto, decretou uma esposa para Ele, que devia compartilhar de Suas graças comunicáveis, honras, riquezas e glórias; um cônjuge que, em devido tempo, fosse o fruto de Seu lado traspassado, e fosse trazido a Ele pelas operações graciosas do Espírito Santo. Quando Eva foi formada pelo Senhor Deus e trazida a Adão, de modo a realizar uma união matrimonial, foi prefigurado o maior mistério da graça, a saber, Deus Pai apresentando os Seus eleitos e dando-lhes a Cristo: “eram teus, e tu mos deste” (João 17:6). Prevendo-os pelas lentes dos decretos Divinos, o Mediador amou e contentou-Se com eles (Provérbios 8:31), prometeu a eles para Si mesmo, tendo a Igreja assim como que sido apresentada por Deus a Ele, em um ato de acordo de casamento e contrato pactual como o dom do Pai. Como Adão confessou a relação entre Eva e ele mesmo, dizendo: “Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne” (Gênesis 2:23), semelhantemente, Cristo tornou-Se um marido eterno para a Igreja. E, assim como Adão e Eva estavam unidos antes da Queda, assim Cristo e a Igreja eram um na mente de Deus antes de qualquer ocorrência de pecado. Se, então, devemos “pregar Cristo” em Seu ofício mais glorioso, deve ser claramente demonstrar que Ele não foi ordenado no propósito eterno de Deus para a Igreja, mas a Igreja é que foi ordenada para Ele. Observe como o Espírito Santo tem enfatizado este ponto particular do tipo. “O homem, pois, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem. Porque o homem não provém da mulher, mas a mulher do homem. Porque também o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem” (1 Coríntios 11:7-9). No entanto, como Adão não estava completo sem Eva, do mesmo modo, Cristo também não estava sem a Igreja: ela é Sua

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“plenitude” ou “complemento” (Efésios 1:23), sim, ela é Sua coroa de glória e diadema real (Isaías 62:3). A Igreja pode ser considerada necessária para Cristo como um vaso vazio para que Ele a possa encher com graça e glória. Todo o Seu prazer está nela, e Ele será glorificado nela e por ela por toda a eternidade, colocando a Sua glória sobre ela (João 17:22). “Vem, mostrar-te-ei a esposa, a mulher do Cordeiro... que de Deus descia do céu. E tinha a glória de Deus” (Apocalipse 21:9-11) Em Seu caráter de “Eleito” o Cristo de Deus foi prefigurado por outros que não Adão. Na verdade, é impressionante ver que quantidade de pessoas que eram tipos importantes de Cristo e foram feitos sujeitos de uma eleição real de Deus, pelo qual eles foram designados para algum cargo especial. Quanto a Moisés, lemos: “Por isso disse que os destruiria, não houvesse Moisés, seu escolhido, ficado perante ele na brecha, para desviar a sua indignação, a fim de não os destruir” (Salmos 106:23). De Arão é dito, “E ninguém toma para si esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Arão” (Hebreus 5:4). Dos sacerdotes de Israel está registrado: “Então se achegarão os sacerdotes, filhos de Levi; pois o Senhor teu Deus os escolheu para o servirem, e para abençoarem em nome do Senhor” (Deuteronômio 21:5). Quanto Davi e a tribo de onde ele veio, está escrito: “Além disto, recusou o tabernaculo de José, e não elegeu a tribo de Efraim. Antes elegeu a tribo de Judá; o monte Sião, que ele amava... Também elegeu a Davi seu servo, e o tirou dos apriscos das ovelhas” (Salmos 78:67-68, 70). Cada um desses casos esboça a grande verdade de que o homem Cristo Jesus foi escolhido por Deus para um mais alto grau de glória e bem-aventurança do que que todas as Suas criaturas. “E não entrará nela coisa alguma que contamine, e cometa abominação e mentira; mas só os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro” (Apocalipse 21:27). Esta expressão “O livro da vida” é, sem dúvida, figurativa, pois o Espírito Santo se deleita em representar as coisas espirituais, celestiais e eternas, bem como a bênção e benefícios destas, sob uma variedade de imagens e metáforas, para que nossas mentes possam mais facilmente compreender e nossos corações sintam a realidade delas, e assim, nos tornamos mais capaz de recebê-las. Ainda assim, isto nós sabemos: a similaridade assim empregada para representá-las à nossa visão espiritual são apenas sombras, mas o que é representado por elas tem existência real e substancial. O sol no firmamento é um emblema instituído na natureza de Cristo, de que Ele é para o mundo espiritual, o que o sol é para o mundo natural. Entretanto o sol é apenas a sombra, mas Cristo é a substância real, portanto, ele é denominado “o Sol da justiça”. Assim, quando Cristo é comparado à luz, Ele é a “verdadeira luz” (João 1:9), quando comparado a uma videira, Ele é a “videira verdadeira” (João 15:1), quando comparado ao pão, Ele é “o verdadeiro pão”, o pão da vida, aquele Pão de Deus que desceu do céu (João 6). Deixe este

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princípio, então, ser devidamente mantido em mente por nós quando nos deparamos com muitas metáforas que são aplicadas ao Redentor nas Escrituras. Então, aqui em Apocalipse 21:27, admitindo que “livro da vida” é uma expressão figurativa, estamos longe de garantir que não há no Céu o que é figurado por ele, ou melhor, a própria realidade em si. Esta expressão “o livro da vida” tem suas raízes em Isaías 4:3, onde Deus se refere ao Seu remanescente escolhido como “todo aquele que estiver inscrito entre os viventes em Jerusalém”, e é isso que explica o significado de todas as outras referências que fazem ao mesmo. O ato eterno da eleição de Deus é descrito como o escrever dos nomes de seus escolhidos no livro da vida, e as seguintes coisas são sugeridas por esta figura: Em primeiro lugar, o conhecimento exato que Deus tem de todos os eleitos, Sua lembrança especial deles, Seu amor e prazer neles. Em segundo lugar, que a Sua eleição eterna trata cada pessoa em particular, cujos nomes são, definitivamente, inscritos por Ele. Em terceiro lugar, para mostrar que eles estão absolutamente seguros, pois Deus escreveu seus nomes no livro da vida, e eles nunca serão apagados (Apocalipse 3:5). Quando os setenta voltaram de sua viagem missionária, eufóricos, porque os próprios demônios se sujeitaram a eles, Cristo disse: “alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” (Lucas 10:20 e cf. Filipenses 4:3; Hebreus 12:23), o que mostra que a eleição de Deus para a vida eterna é de pessoas particulares — pelo nome — e, portanto, é segura e imutável. Vamos agora particularmente observar que este registro da eleição é designado “livro da vida do Cordeiro”, e isso por pelo menos duas razões. Primeiro, porque o nome do Cordeiro o encabeça, sendo Ele o primeiro a ser escrito nele, pois Ele deve ter a preeminência; após o qual segue a inscrição dos nomes particulares de todo o Seu povo. Observe como o Seu nome é o primeiro registrado no Novo Testamento em Mateus 1:1! Em segundo lugar, porque Cristo, é a raiz e Seus eleitos são os ramos, para que eles recebam a sua vida dEle como eles são nEle e sustentados por Ele. Está escrito: “Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória” (Colossenses 3:4). Cristo é a nossa vida, porque Ele é o próprio “Príncipe da vida” (Atos 3:15). Assim, o registro Divino da eleição em que estão inscritos os nomes de todos os membros de Cristo, é apropriadamente chamado de “livro da vida do Cordeiro”, pois são totalmente dependentes dEle para a vida. Entretanto é em conexão com a primeira razão que nós gostaríamos de fazer mais uma observação. Isso é chamado livro da vida do Cordeiro, porque Ele é o primeiro nome escrito no mesmo. Esta não é uma afirmação arbitrária da nossa parte, mas algo que é claramente justificado pela Bíblia: “Eis aqui venho (no rolo do livro está escrito de mim)” (Hebreus 10:7 – tradução literal). O orador aqui é o Senhor Jesus e, como é tão frequentemente o caso (tal é a plenitude de Suas palavras), há uma dupla referência aqui: primeiro aos arquivos

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eternos dos conselhos de Deus, o livro dos Seus decretos; em segundo lugar, às Escrituras Sagradas, que são uma transcrição de uma parte deles. De acordo com esta dupla referência é o duplo sentido da palavra “livro”. No Salmo 40:7, “rolo” é sem dúvida o significado da palavra hebraica aqui utilizada; mas em Hebreus 10:7 a palavra Grega certamente deve ser traduzida como “cabeça” — kephale ocorre setenta e seis vezes no Novo Testamento, e é sempre traduzida como “cabeça”, exceto aqui. Assim, devidamente traduzido, Hebreus 10:7 diz: “na cabeça do livro está escrito de mim”. Aqui, então, esta é a prova de nossa afirmação. O livro da vida — o registo Divino da eleição — é denominado livro da vida do Cordeiro, “porque Seu nome é o primeiro escrito nEle, e Ele, que tinha visto a Si mesmo no rolo disse, quando Ele entrou neste mundo, ‘na cabeça do livro está escrito de mim’. Uma outra referência a este livro foi feita por Cristo: “no teu livro todos os meus membros foram escritos” (Salmos 139:16 – tradução literal). O salmista estava se referindo ao seu corpo natural, primeiro como formado no útero (v. 15), e depois como sendo o tema dos decretos divinos (v. 16). Mas a referência mais profunda é a de Cristo, falando, como o antítipo de Davi, dos membros do Seu corpo místico. “A substância da Igreja, da qual esta deveria ser formada, estava sob os olhos de Deus, tal como proposto no decreto de eleição” (John Owen). Talvez um leitor preocupado esteja se perguntando: Como posso ter certeza de que agora meu nome está escrito no livro da vida do Cordeiro? Nós respondemos muito brevemente. Em primeiro lugar, por Deus ter te ensinado a ver e te conduzido a sentir sua corrupção interior, sua vileza pessoal, sua terrível culpa, a sua extrema necessidade do sacrifício do Cordeiro. Em segundo lugar, fazendo com que você dê a Cristo o primeiro lugar de importância em seus pensamentos e estima, compreendendo que somente Ele pode te salvar. Em terceiro lugar, por Deus ter te conduzido a crer nEle, descansar toda a sua alma nEle, desejando ser achado nEle, não tendo a sua própria justiça, mas a dEle. Em quarto lugar, fazendo-O infinitamente precioso para você, de modo que Ele é todo Seu desejo. Em quinto lugar, por estar operando em você a determinação de agradá-lO e glorificá-lO.

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4 • Sua Veracidade Antes de prosseguir com uma exposição ordenada desta profunda, mas preciosa doutrina, pode ser melhor (especialmente para o benefício daqueles menos familiarizados com o assunto), que agora seja demostrada a sua origem bíblica. Não devemos tomar nada como garantido, e como alguns dos nossos leitores nunca têm recebido qualquer instrução sistemática sobre o assunto — sim, alguns deles não sabem quase nada sobre isso — e como outros já ouviram e leram apenas perversões e caricaturas desta doutrina, parece essencial que façamos uma pausa para que estabeleçamos a sua veracidade. Em outras palavras, o nosso presente objetivo é fornecer provas de que o que estamos escrevendo. A doutrina da eleição não é uma invenção teológica de Calvino ou de qualquer outro homem, mas é algo claramente revelado na Sagrada Escritura, a saber, que Deus, antes da fundação do mundo, fez diferença entre as Suas criaturas, escolhendo algumas pessoas para serem os objetos especiais de Seu favor. Vamos lidar com o assunto de uma forma mais ou menos geral, ocupando-nos com o fato em si; reservando a análise mais detalhada e esboços de distinções para capítulos posteriores. Vamos começar com a pergunta: Será que Deus tem um povo eleito? Agora, esta questão deve ser proposta para o próprio Deus, pois só Ele é competente para responder. É, portanto, para a Sua Santa Palavra que devemos nos voltar se quisermos conhecer Sua resposta àquela pergunta. Todavia, antes disso, precisamos sinceramente pedir a Deus que nos conceda um espírito dócil, para que possamos humildemente receber o testemunho Divino. Ninguém pode conhecer as coisas de Deus até que o próprio Deus as declare; mas quando Ele as declara, não é somente loucura crassa, mas uma presunção ímpia, alguém contender ou descrer nelas. As Sagradas Escrituras são a regra da fé, bem como a regra da conduta. À lei e ao testemunho, agora nos voltamos. No que diz respeito à nação de Israel, lemos: “o Senhor teu Deus te escolheu, para que lhe fosses o seu povo especial, de todos os povos que há sobre a terra” (Deuteronômio 7:6); “Porque o Senhor escolheu para si a Jacó, e a Israel para seu próprio tesouro” (Salmo 135:4); “Porém tu, ó Israel, servo meu, tu Jacó, a quem elegi descendência de Abraão, meu amigo; tu a quem tomei desde os fins da terra, e te chamei dentre os seus mais excelentes, e te disse: Tu és o meu servo, a ti escolhi e nunca te rejeitei” (Isaías 41:8-9). Estes testemunhos tornam inequivocamente claro que o antigo Israel foi o eleito e favorecido povo de Deus. Nós aqui não levantamos a questão de por que ou como Deus os escolheu, ou para que eles foram escolhidos; mas estamos enfatizando somente o fato em si mesmo. Nos tempos do Antigo Testamento Deus tinha uma nação eleita.

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Em seguida, deve-se observar que, mesmo no favorecido Israel, Deus fez uma distinção: houve uma eleição dentro de uma eleição; ou, em outras palavras, Deus teve um povo especial dentre a Sua própria nação. “Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência” (Romanos 9:6-8). “Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu... Reservei para mim sete mil homens, que não dobraram os joelhos a Baal. Assim, pois, também agora neste tempo ficou um remanescente, segundo a eleição da graça... o que Israel buscava não o alcançou; mas os eleitos o alcançaram, e os outros foram endurecidos” (Romanos 11:2-7). Assim, vemos que, mesmo no Israel visível, a nação escolhida para desfrutar de privilégios externos, Deus havia feito uma eleição: um Israel espiritual, os objetos de Seu amor. O mesmo princípio de seleção Divina aparece clara e visivelmente no ensino do Novo Testamento. Lá também é revelado que Deus tem um povo peculiar, os súditos de Seu favor especial, Seus próprios filhos amados. O Salvador e Seus apóstolos descrevem este povo de várias maneiras, e muitas vezes se referem a eles pelo termo de que estamos aqui tratando. “Por causa dos escolhidos serão abreviados aqueles dias... se possível fora, enganariam até os escolhidos... os quais ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus” (Mateus 24:22, 24, 31). “E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles?” (Lucas 18:7). “Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus?” (Romanos 8:33). “Para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme” (Romanos 9:11). “Portanto, tudo sofro por amor dos escolhidos” (2 Timóteo 2:10). “A fé dos eleitos de Deus” (Tito 1:1). Muitas outras passagens poderiam ser citadas, mas estas são suficientes para demonstrar claramente que Deus tem um povo eleito. Deus diz que Ele tem, quem ousará dizer que Ele não tem!? A palavra “eleito”, e seus derivados, ou seu sinônimo “escolhido” em seus derivados, ocorrem nas páginas sagradas consideravelmente mais de cem vezes. O termo, então, pertence ao vocabulário Divino. Deve significar alguma coisa; deve transmitir alguma ideia definida. Qual, então, é o seu significado? O inquiridor humilde não forçará uma construção em cima da palavra, ou tentará ler para ele seus próprios preconceitos, mas se esforçará humildemente para assegurar-se da mente do Espírito. Não deveria haver tal dificuldade, pois não há palavra em linguagem humana que tenha um significado mais específico. O conceito universalmente expressa que um é tomado e outro deixado, pois se todos fossem tomados não haveria nenhuma “escolha”. Além disso, o direito de escolha sempre pertence àquele que escolhe; o ato é seu, e as motivações também são suas. É aí que a “escolha” difere de compulsão, do pagamento de uma dívida, do cumprimento de uma obrigação ou do atendimento das exigências da justiça. A escolha é um ato livre e soberano.

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Que não haja incerteza sobre o significado do nosso termo. Deus fez uma escolha, pois eleição significa seleção e designação. Deus exerceu Sua própria vontade soberana e selecionou a partir da massa de Suas criaturas aqueles sobre os quais Ele determinou conferir Seus favores especiais. Não pode haver uma eleição sem uma seleção, e não pode haver seleção sem rejeição. A doutrina da eleição significa que desde toda a eternidade Deus fez uma escolha de quem viria a ser o Seu tesouro especial, os Seus queridos filhos, os coerdeiros de Cristo. A doutrina da eleição significa que antes que Seu Filho encarnasse Deus marcou aqueles que deveriam ser salvos por Ele. A doutrina da eleição significa que Deus não deixou nada ao acaso, a realização de Seu propósito, o sucesso do empreendimento de Cristo e nem o povoamento do Céu estão subordinados ao capricho da criatura inconstante. A vontade de Deus, e não a vontade do homem, estabelece o destino. Vamos agora chamar a atenção para um exemplo muito notável e pouco conhecido da eleição Divina. “Conjuro-te diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, e dos anjos eleitos” (1 Timóteo 5:21). Se, há “anjos eleitos” então, necessariamente devem haver anjos nãoeleitos, pois não pode haver um sem o outro. Deus, então, no passado, fez uma seleção entre as hostes do céu, escolhendo alguns para serem vasos de honra e outros para serem vasos de desonra. Aqueles a quem Ele escolheu para Seu favor, permaneceram firmes, mantiveram-se em sujeição à Sua vontade. O restante caiu quando Satanás se revoltou, e em sua apostasia arrastou para baixo com ele um terço dos anjos (Apocalipse 12:4). A respeito destes lemos: “Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo” (2 Pedro 2:4). Mas aqueles deles que pertencem à eleição da graça são “santos anjos”, santos como consequência de sua eleição, e não eleitos, porque eles eram santos, pois a eleição antecedeu a sua criação […]. Vamos agora observar e admirar a maravilha e a singularidade da escolha de Deus entre os homens. Ele selecionou uma parte da raça de Adão para serem os altamente favorecidos do céu. “Agora, isso é a maravilha das maravilhas, quando passamos a considerar que o Céu, o Céu dos céus, é do Senhor. Se Deus deve ter uma raça escolhida, por que Ele não seleciona uma da ordem majestosa dos anjos, ou a partir dos querubins e serafins que flamejando ficam ao redor de Seu trono? Por que Gabriel não foi tomado? [...] O que poderia haver no homem, uma criatura menor que os anjos, para que Deus o escolhesse, em vez dos espíritos angelicais? Por que querubins e serafins não foram dados a Cristo? Por que Ele não assumiu a natureza dos anjos, e os levou à união com Ele? Um corpo angelical pode estar mais de acordo com a Pessoa da Divindade do que um corpo fraco e sofredor formado por carne e sangue. Haveria algo congruente se Ele tivesse dito aos anjos: ‘Sereis meus filhos’. Mas não! embora todos estes fossem Seus; Ele passa por eles e se inclina para o homem” (C. H. Spurgeon).

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Alguns podem sugerir que a razão pela qual Deus elegeu os descendentes de Adão, preferindo-os em relação aos anjos, foi a de que a raça humana caiu em Adão e, portanto, proporcionou uma situação mais adequada para Deus mostrar Sua rica misericórdia. Mas tal suposição é completamente falaciosa, pois, como vimos, um terço dos próprios anjos caíram do seu elevado estado, mas muito pelo contrário de Deus usar de misericórdia com eles, Ele antes os “reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia” (Judas 6). Nem qualquer Salvador foi provido para eles, nem algum Evangelho já foi pregado a eles. Quão impressionante e solene é este fato: os anjos caídos foram deixados e os caídos filhos de Adão se tornaram os objetos da misericórdia Divina. Aqui está algo verdadeiramente maravilhoso. Deus determinou possuir um povo que seria o Seu tesouro peculiar, para serem mais próximos e mais caros a Ele do que qualquer outra criatura; um povo que deveria ser conformado à própria imagem de Seu Filho. E que Seu povo seria escolhido dentre os descendentes de Adão. Por quê? Por que não ter reservado essa honra suprema para as hostes celestes? Eles são uma ordem superior de seres; eles foram criados antes de nós. Eram criaturas celestiais, mas Deus passou por eles; nós somos terrenos, mas o Senhor pôs o Seu coração sobre nós. Novamente perguntamos, por quê? Ah, permitam que aqueles que odeiam a elevada verdade da soberania de Deus e lutam contra a doutrina da eleição incondicional, cuidadosamente ponderarem neste exemplo flagrante desta. Que aqueles que tão descaradamente insistem que seria injusto para Deus mostrar parcialidade entre homem e homem, nos digam por que Ele mostra parcialidade entre raça e raça, concedendo favores sobre os homens que Ele nunca concedeu aos anjos? Apenas uma resposta é possível: porque assim Lhe agradou. A eleição é um segredo Divino, um ato na vontade de Deus na eternidade passada. Mas não para que permanecesse em segredo para sempre. Não, em devido tempo, Deus tem o prazer de manifestar abertamente Seus conselhos eternos. Isto Ele fez em graus variados, desde o início da história humana. Em Gênesis 3:15 Ele deu a conhecer o fato de que haveria duas linhas distintas: a “semente” da mulher que faz referência a Cristo e ao Seu povo, e a “semente” da Serpente que significava Satanás e aqueles que estão conformados com sua semelhança; Deus colocou uma “inimizade” irreconciliável entre elas. Estas duas “sementes” compreendem os eleitos e os não-eleitos. Abel pertencia a eleição da graça, a e evidência disto sendo provida pela sua “fé” (Hebreus 11:4), pois somente os “ordenados para a vida eterna” (Atos 13:48) creem salvificamente. Caim pertencia aos não-eleitos, a evidência disso é encontrada na declaração: “Caim, que era do maligno” (1 João 3:12). Assim, no início da história, dos dois filhos de Adão e Eva, Deus “tomou” a um para Ser seu favorecido, e “deixou” o outro para sofrer o castigo de suas iniquidades. Em seguida, vemos a sequência da eleição na linhagem de Sete, pois era de seus descen-

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dentes (e não dos descendentes de Caim) que lemos: “então se começou a invocar o nome do Senhor” (Gênesis 4:26). Mas, no decorrer do tempo, eles também foram corrompidos, até que toda a raça humana tornou-se tão maligna que Deus enviou o dilúvio e os levou a todos. No entanto, mesmo assim, o princípio da eleição Divina foi exemplificado: não só em Enoque, mas em que “Noé achou graça aos olhos do Senhor” (Gênesis 6:8). Era o mesmo depois do dilúvio, pois uma diferenciação foi observada entre os filhos de Noé: “Bendito seja o Senhor Deus de Sem” (Gênesis 9:26), que significava que Deus o havia escolhido e abençoado. Por outro lado: “Maldito seja Canaã; servo dos servos seja aos seus irmãos” (Gênesis 9:25), esta expressão denota a preterição de todas aquelas que estão envolvidos na rejeição de Deus. Assim, Deus fez diferença mesmo entre aqueles que saíram da arca. A partir dos filhos de Noé surgiram as nações que têm povoado o mundo. “E destes [isto é, três filhos de Noé] foram divididas as nações na terra depois do dilúvio” (Gênesis 10:32). A partir dessas setenta nações Deus escolheu aquele em que a grande corrente de sua eleição prosseguiria. Em Gênesis 10:25 lemos que esta divisão das nações foi feita no tempo de Éber, o neto de Sem. Por que isso nos é dito? Para insinuar que Deus, então, começou a separar a nação Judaica, para si mesmo em Éber, pois Éber seria o seu pai; por isso também é que no início da genealogia de Sem nos é dito: “E a Sem [os eleitos e abençoados por Deus] nasceram filhos, e ele é o pai de todos os filhos de Éber” (10:21). Isso é muito marcante, pois Sem tinha outros filhos mais velhos (cuja linha de descendência também está registrada), como a Assur e Elão, os pais dos Assírios e dos Persas. O detalhe aparentemente seco e desinteressante em Gênesis 10 a que acabamos de aludir, marca um passo muitíssimo importante no desenrolar dos conselhos Divinos, pois foi então que Deus começou a separar para Si mesmo os israelitas em Éber, a quem Ele havia nomeado para ser seu pai. Até então os Hebreus tinham ficado promiscuamente misturados com as outras nações, mas agora Deus os “separou” do restante dos povos, assim como também as nações foram dividas umas das outras. Assim, encontramos a posteridade de Éber, mesmo quando eram pouquíssimos em número, foram designados “Hebreus”, como sua denominação nacional (“Israel” sendo o seu nome religioso) na distinção entre aqueles entre os quais viviam: “Abraão, o hebreu” (Gênesis 14:13), “José, o hebreu” (Gênesis 39: 14). Assim, quando se tornou uma nação numerosa, e ao mesmo tempo vivendo no meio dos egípcios, permaneciam identificados como “hebreus” (Êxodo 1:15), enquanto que em Números 24:24 estão distintamente chamados de “Éber”! O que temos procurado explicar acima é definitivamente confirmado por “Lembra-te dos dias da antiguidade, atenta para os anos de muitas gerações: pergunta a teu pai, e ele te informará; aos teus anciãos, e eles te dirão. Quando o Altíssimo distribuía as heranças às nações, quando dividia os filhos de Adão uns dos outros, estabeleceu os termos dos povos,

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conforme o número dos filhos de Israel. Porque a porção do Senhor é o seu povo; Jacó é a parte da sua herança” (Deuteronômio 32:7-9). Observe, em primeiro lugar, o Senhor mandou aqui Israel voltar suas mentes para os tempos antigos, para as tradições que haviam sido transmitidas por seus pais. Em segundo lugar, o evento especial aludido foi quando Deus “dividia” às nações, isto se refere à famosa divisão de Gênesis 10. Terceiro, essas nações não são ditas “como os filhos de Noé” (que era da linhagem dos eleitos), mas como “os filhos de Adão”, outra dica simples de quem encabeçou a linhagem dos réprobos. Em quarto lugar, Deus atribuiu às nações não-eleitas suas porções de terras, contudo, o Seu olhar de graça e favor estava sobre os filhos de Israel. Em quinto lugar, “conforme o número dos filhos de Israel”, que era de setenta quando se estabeleceram no Egito (Gênesis 46:27), o número exato das nações mencionadas em Gênesis 10! O ponto de ligação e conexão entre Éber e a nação de Israel foi, é claro, Abraão, e no seu caso o princípio da eleição Divina brilha com a uma rutilante luz solar. O chamado Divino que Abraão recebeu marcou mais uma etapa importante no desenvolvimento do propósito eterno de Deus. Na torre de Babel Deus deixou que as nações andassem nos seus próprios maus caminhos, depois de tomar a Abraão para ser o fundador da nação favorecida. “Tu és o Senhor, o Deus, que elegeste a Abrão, e o tiraste de Ur dos caldeus” (Neemias 9:7). Não foi Abraão, que escolheu a Deus, mas foi Deus que escolheu Abraão. “O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, estando na Mesopotâmia” (Atos 7:2), este título de “o Deus da glória” é empregado aqui para enfatizar o sinal do favor que foi mostrado a Abraão, a glória da Sua graça em elegê-lo, pois não havia nada nele, por natureza, que o fizesse sobressair de seus companheiros e lhe conferisse o direito ao conhecimento Divino. Foi bondade imerecida, misericórdia soberana, que foram mostradas a ele. Isto é muito evidente pelo que nos é dito em Josué 24 de sua condição diante de Jeová, quando este apareceu-lhe: “Assim diz o Senhor Deus de Israel: Além do rio habitaram antigamente vossos pais, Terá, pai de Abraão e pai de Naor; e serviram a outros deuses” (v. 2). Abraão estava vivendo na cidade pagã de Ur, e pertencia a uma família idólatra! Em data posterior Deus trouxe esse fato à memória de seus descendentes, lembrando-os do estado modesto e corrupto em que se encontravam originalmente, e dando-lhes a conhecer que não era por nada de bom naqueles que Ele havia escolhido: “Ouvi-me, vós os que seguis a justiça, os que buscais ao SENHOR. Olhai para a rocha de onde fostes cortados, e para a caverna do poço de onde fostes cavados. Olhai para Abraão, vosso pai, e para Sara, que vos deu à luz; porque, sendo ele só, o chamei, e o abençoei e o multipliquei” (Isaías 51:12). Que palavra fulminante para a carne é esta: o grande Abraão é aqui comparado (por Deus) com uma “caverna do poço”, tal era a sua condição quando o Senhor apareceu-lhe inicialmente.

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Mas há algo mais na passagem acima. Observe cuidadosamente as palavras “sendo ele só, o chamei”. Lembre-se que isto aconteceu enquanto ele morava em Ur, e, como escavações modernas têm mostrado, esta era uma cidade de grande extensão, de toda o seu enorme número de habitantes Deus revelou-se a um só! O Senhor aqui enfatizou esse fato e nos convida a observarmos a singularidade de Sua eleição por esta palavra “só”. Veja aqui, então, a soberania absoluta de Deus, exercendo Sua vontade imperial na escolha de quem Ele quer. Ele teve misericórdia de Abraão simplesmente porque Ele se agradou em fazer assim, e Ele deixou o resto de seus compatriotas na escuridão pagã, simplesmente porque assim pareceu bem aos Seus olhos. Não havia nada mais em Abraão do que em qualquer de seus companheiros pelo que Deus deveria tê-lo escolhido, qualquer bondade foi achada nele mais tarde foi a que o próprio Deus colocou ali, e, portanto, foi a consequência e não a causa de sua escolha. É impressionante o caso da própria eleição de Abraão, contudo o trato de Deus para com sua prole é igualmente digno de nota. É aí que Deus fornece um resumo do que foi amplamente caracterizada a história de todos os seus eleitos, pois é uma coisa muito rara encontrar uma família inteira que (não simplesmente faz uma profissão, mas) dá evidências de desfrutar de Seu favor especial. A regra comum é que um é tomado e o outro é deixado, pois aqueles a quem é concedido realmente acreditar nesta verdade preciosa, mas solene, são levados a experimentalmente perceber a força disso em conexão com a sua própria parentela. Assim, a própria família de Abraão esboça em seus próximos e imediatos sucessores, um protótipo da futura experiência dos eleitos. Em sua família, eis que os exemplos mais marcantes de ambos, a saber, da eleição e da preterição, pela primeira vez em seus filhos, e, em seguida, seus netos. Isaque era um filho da pura graça eletiva (e isto foi a causa e não a consequência de sua fé e santidade), e que, como tal, ele foi colocado na família de Abraão como um dom precioso, enquanto Ismael foi excluído desse favor preeminente, é bastante evidente a partir da história de Gênesis. Antes que ele nascesse, sim, antes de ser concebido no ventre, Deus declarou a Abraão que Isaque seria o herdeiro da mesma salvação com ele, e tinha irrevogavelmente estabelecido o Pacto da Graça sobre ele, diferenciando-o assim de Ismael; que, apesar de abençoado com misericórdias temporais, não estava no Pacto da Graça, mas estava sob o pacto de obras (veja Gênesis 17:19-21 e compare os comentários do Espírito sobre esta passagem em Gálatas 4:22-26). Mais tarde, enquanto Isaque ainda era jovem, e ficou ligado como um sacrifício no altar, Deus ratificou as promessas de bênçãos que Ele havia feito antes de seu nascimento, confirmando-as com um juramento solene: “E disse: Por mim mesmo jurei, diz o Senhor: Porquanto fizeste esta ação, e não me negaste o teu filho, o teu único filho, que deveras te

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abençoarei, e grandissimamente multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus” (Gênesis 22:16-17). Esse juramento dizia respeito à semente espiritual, aos herdeiros da promessa, como Isaque, que foi declarado o filho da promessa. A quem o apóstolo se referiu quando disse: “querendo Deus mostrar mais abundantemente a imutabilidade do seu conselho aos herdeiros da promessa, se interpôs com juramento” (Hebreus 6:17). E o que era seu “conselho imutável”, senão Seu decreto eterno, Seu propósito de eleição? Os conselhos de Deus são os Seus decretos que estavam ocultos nEle mesmo desde a eternidade (Efésios 1:4,9,10). E o que é uma promessa com juramento, senão o imutável conselho ou eleição de Deus posto em forma de promessa? E quem são os “herdeiros da promessa”, senão os eleitos, como Isaque o foi? Um objetor diria que a escolha de Isaque, em detrimento de Ismael não foi um ato de pura soberania, visto que o primeiro foi o filho de Sara, enquanto o último foi o filho de Agar, a escrava egípcia, supondo, assim, que os dons de Deus são regulados por algo na criatura. Mas a próxima ocorrência impede este sofisma e totalmente nos faz calar a boca frente à vontade não-causada e não-influenciada do Altíssimo. Jacó e Esaú tiveram o mesmo pai e mãe, e eram gêmeos. Referente a eles lemos: “(para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito a ela: O maior servirá ao menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú” (Romanos 9:11-13). Vamos nos inclinar em silêncio reverente diante de tal passagem. A nação que surgiu a partir de Abraão, Isaque e Jacó, foi o povo escolhido e favorecido por Deus, escolhido e separado de todas as outras nações, para serem os destinatários das ricas bênçãos de Deus. Foi isso mesmo que acrescentou tão grandemente à enormidade de seus pecados, pois o maior número de privilégios implica maior responsabilidade e maior responsabilidade não cumprida leva à maior culpa. “Ouvi esta palavra que o SENHOR fala contra vós, filhos de Israel... De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido; portanto eu vos punirei por todas as vossas iniquidades”. Desde os dias de Moisés até o tempo de Cristo, passou-se um período de 1500 anos, e Deus permitiu que todas as nações pagãs andassem em seus próprios caminhos, deixando-as entregues às suas corrupções e à escuridão de seus corações malignos. Nenhuma outra nação tinha a Palavra de Deus, nenhuma outra nação tinha um sacerdócio Divinamente destinado. Somente Israel foi favorecido com uma revelação escrita do céu. E por que o Senhor escolheu os israelitas para serem Seus favoritos especiais? Os caldeus eram mais antigos, os egípcios eram muito mais sábios, os Cananeus eram mais numerosos; mas eles foram passados por alto. Qual, então, era a razão por que o Senhor escolheu Israel? Certamente não foi por causa de qualquer excelência neles, como toda a sua história mostra. De Moisés até Malaquias foram um povo de cerviz e coração duros, insatisfeitos

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com os favores Divinos, e que não atendiam à vontade Divina. Isto não poderia ter sido por causa de alguma bondade neles, este foi um caso claro da soberania Divina: “O Senhor teu Deus te escolheu, para que lhe fosses o seu povo especial, de todos os povos que há sobre a terra. O Senhor não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos; mas, porque o Senhor vos amava, e para guardar o juramento que fizera a vossos pais” (Deuteronômio 7:6-8). A explicação dos atos e de todas as obras de Deus devem ser encontradas nEle mesmo, na soberania de Sua vontade, e não qualquer coisa que haja na criatura. O mesmo princípio de seleção Divina é tão claramente e de forma proeminente revelada no Novo Testamento assim como o foi no Antigo. Isto foi surpreendentemente exemplificado em conexão com o nascimento de Cristo. Em primeiro lugar, no lugar em que Ele nasceu. Quão surpreendentemente a soberania de Deus foi demonstrada nesse acontecimento. Jerusalém não foi o local de nascimento do Salvador, nem o foi uma das cidades importantes da Palestina; em vez disso, Ele habitou em uma pequena aldeia! O Espírito Santo tem chamado especial atenção a este ponto em uma das principais profecias Messiânicas: “E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel” (Miquéias 5:2). Quão diferentes são os pensamentos e caminhos de Deus em relação aos dos homens! Como Ele despreza o que nós mais estimamos, e honra que nós olhamos com desprezo. Um dos mais insignificante de todos os lugares foi escolhido por Deus para ser o cenário do mais estupendo de todos os eventos. Mais uma vez; a elevada soberania de Deus e o princípio da Sua eleição singular apareceram naqueles a quem Ele primeiro comunicou estas boas novas. Para quem Deus enviou anjos para anunciar o bendito fato do nascimento do Salvador? Suponha que a Escritura tivesse estado em silêncio sobre a questão, quão diferente nós teríamos concebido o assunto. Será que não teríamos, naturalmente, pensado que os primeiros a serem informados sobre este glorioso evento haviam sido os líderes eclesiásticos e religiosos em Israel? Certamente os anjos entregariam a mensagem no templo. Mas não, não foi nem para os principais dos sacerdotes, nem para os governantes que eles foram enviados, mas aos humildes pastores que vigiavam seus rebanhos nos campos. E mais uma vez nós dizemos, quão completamente diferentes são os pensamentos e caminhos de Deus dos pensamentos e caminhos dos homens. E o que assim ocorreu no princípio da era Cristã foi indicativo da maneira de Deus ao longo de todo o seu curso (veja 1 Coríntios 1:26-29). Vamos agora observar que essa mesma grande verdade foi enfatizada pelo próprio Cristo em Seu ministério público. Olhe para sua primeira mensagem na sinagoga de Nazaré. “E foi-lhe dado o livro do profeta Isaías; e, quando abriu o livro, achou o lugar em que estava

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escrito: O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres [isto é, os pobres de espírito, e não para ricos de Laodicéia]. Enviou-me a curar os quebrantados de coração [e não aos de coração impenitente, mas àqueles que estão aflitos diante de Deus por seus pecados], a pregar liberdade aos cativos [e não para aqueles que tagarelam sobre o seu “livre-arbítrio”], e restauração da vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos [não àqueles que se consideram donos de si mesmos], a anunciar o ano aceitável do Senhor” (Lucas 4:17-19). A consequência imediata é de fato solene: “Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos. E todos lhe davam testemunho, e se maravilhavam das palavras de graça que saíam da sua boca” (vv. 21-22). Até aí tudo bem, eles estavam satisfeitos em Suas “palavras de graça”; sim, mas eles tolerariam a pregação da graça soberana? “Em verdade vos digo que muitas viúvas existiam em Israel nos dias de Elias, quando o céu se cerrou por três anos e seis meses, de sorte que em toda a terra houve grande fome; e a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a Sarepta de Sidom, a uma mulher viúva. E muitos leprosos havia em Israel no tempo do profeta Eliseu, e nenhum deles foi purificado, senão Naamã, o siro” (vv. 25-27). Aqui Cristo pressionou sobre eles a elevada verdade da soberania de Deus, e isto eles não puderam suportar: “todos, na sinagoga, ouvindo estas coisas, se encheram de ira. E, levantando-se, o expulsaram da cidade” (vv. 28-29) e observe bem que eram os adoradores respeitáveis da sinagoga que, assim, deram vazão a seu ódio a esta preciosa verdade! Então, não deixe que o servo de hoje se surpreenda se ele se encontrar com o mesmo tratamento que foi dado ao seu Mestre. Seu sermão em Nazaré não foi de forma alguma o único momento em que o Senhor Jesus proclamou a doutrina da eleição. Em Mateus 11 nós O ouvimos dizer: “Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve” (versos 25 e 26). Para os setenta Ele disse: “Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” (Lucas 10:20). Em João 6, será encontrado que Cristo, na presença da multidão, não hesitou em falar abertamente de um determinado número de pessoas a quem o Pai havia “dado a ele” (vv. 37, 39). Para os apóstolos Ele disse: “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto” (João 15:16): como teria chocado a grande maioria dos frequentadores da igreja de hoje se ouvissem o próprio Senhor dizer essas palavras! Em João 17:9 nós O encontramos dizendo: “Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste” (João 17:9). Como ilustração interessante e instrutiva da ênfase que o Espírito Santo tem colocado sobre esta verdade chamamos a atenção para o fato de que os integrantes do povo de Deus

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do Testamento Novo são chamados de “crentes” apenas duas vezes, de “cristãos” apenas três vezes, enquanto que são designados como eleitos catorze vezes e santos ou separados umas sessenta e duas vezes! Também quero salientar que vários outros termos e frases são usadas nas Escrituras para expressar a eleição: “Então disse o Senhor a Moisés: Farei também isto, que tens dito; porquanto achaste graça aos meus olhos, e te conheço por nome” (Êxodo 33:17); “Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei” (Jeremias 1:5; cf. Amós 3:2). “Não falo de todos vós; eu bem sei os que tenho escolhido” (João 13:18; cf. Mateus 20:16). “Creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (Atos 13:48). “Deus visitou os gentios, para tomar deles um povo para o seu nome” (Atos 15:14). “Igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus” (Hebreus 12:23). Esta verdade básica da eleição fortalece todo o esquema da salvação, é por isso que nos é dito: “Todavia o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus” (2 Timóteo 2:19). A eleição é necessária e claramente implicada por alguns dos termos mais importantes utilizados na Escritura sobre vários aspectos da nossa salvação, sim, estes termos tornam-se ininteligíveis se ela não existisse. Por exemplo, cada passagem que faz menção de “redenção” pressupõe eleição eterna. Como assim? Porque “redenção” implica uma posse anterior, é Cristo comprando de volta e libertando aqueles que eram de Deus no princípio. Mais uma vez; as palavras “regeneração” e “renovação” significam necessariamente uma vida espiritual anterior, perdida quando caímos em Adão (1 Coríntios 15:22). Então mais uma vez o termo “reconciliação” não somente denota que havia um estado de alienação antes da reconciliação, mas uma condição de harmonia e amizade, antes deste estado alienação. Já vimos o suficiente; a verdade da eleição já foi abundantemente demonstrada pelas Escrituras. Se estas muitas e indubitáveis provas não são suficientes, seria um desperdício de tempo continuar a multiplicá-las ainda mais. Vamos agora salientar que esta grande verdade foi definitivamente mantida e apropriada por nossos antepassados. Primeiro, uma breve citação do antigo credo dos Valdenses (século XI), esses confessores renomados da fé Cristã viveram na idade das trevas, no meio das mais terríveis perseguições do Papado: “Este Deus salva da corrupção e da condenação aqueles a quem Ele escolheu desde a fundação do mundo, não por qualquer disposição, fé ou santidade que previu neles, mas de Sua simples misericórdia em Cristo Jesus, Seu Filho, passando por todo o resto, de acordo com a razão irrepreensível de Sua própria vontade e justiça”. Agora, citamos um dos Trinta e Nove artigos da Igreja da Inglaterra: “A predestinação para a vida é o eterno propósito de Deus, pelo qual (antes de lançados os fundamentos do mundo) tem constantemente decretado por Seu conselho, a nós oculto, livrar da maldição e condenação os que elegeu em Cristo dentre o gênero humano, e conduzi-los por Cristo à salvação eterna, como vasos feitos para a honra” [Artigo XVII].

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Este é da Confissão de Fé de Westminster, subscrito por todos os ministros Presbiterianos: “Por meio do decreto de Deus e para manifestação da Sua glória, alguns homens e anjos são predestinados para a vida eterna, e outros preordenados para a morte eterna” [Cap. III, parágrafo 3]. E este é o terceiro capítulo da antiga Confissão Batista de Londres: “Por meio do decreto de Deus e para manifestação da Sua glória, alguns homens e anjos são predestinados ou preordenados para a vida eterna por meio de Jesus Cristo, para o louvor de Sua gloriosa graça; outros são deixados a agir em seus pecados para a sua justa condenação, para o louvor da Sua gloriosa justiça”. Que não se pense que nós fizemos as citações desses padrões humanos, a fim de reforçar a nossa causa. Não é assim, este escritor, pela graça Divina, acreditaria e ensinaria esta grande verdade mesmo que ninguém antes dele já houvesse ensinado-a, e mesmo que cada um que faz parte da Cristandade agora a repudiasse. Mas o que acaba de ser apresentado é uma boa evidência de que não estamos avançando aqui para nenhuma novidade herética, mas para uma doutrina proclamada no passado em cada seguimento da Igreja ortodoxa sobre a terra. Fizemos também as citações acima com o propósito de mostrar o quanto a atual geração de Cristãos professos se afastaram da fé daqueles a quem, em Deus, eles devem suas atuais liberdades religiosas. Assim como as negações modernas da inspiração Divina e autoridade das Escrituras (pelos altos críticos), a negação da criação imediata (pelos evolucionistas), a negação da Divindade de Cristo (por Unitários), de modo que a presente negação da soberana eleição de Deus e da impotência espiritual do homem, são igualmente desvios da fé de nossos antepassados, fé esta que se baseava na inerrante Palavra de Deus. A verdade da Divina eleição foi mais visivelmente exemplificada na história da Cristandade. Se é verdade que durante os últimos dois mil anos da dispensação do Antigo Testamento, as bênçãos espirituais de Deus estavam em grande parte confinadas a um único povo, é igualmente verdade que nos últimos 500 anos uma parte da raça humana tem sido mais assinalada para serem os favorecidos pelo céu mais do que todos as outras partes juntas. As relações de Deus com os anglo-saxões têm sido tão singulares e soberanas como o Seu trato para com os Hebreus no passado. Este é um fato que não pode ser negado, todos nós olhando no rosto, expomos a loucura daqueles que negam esta doutrina, porque em séculos passados, a grande maioria dos santos de Deus estavam reunidos dentre os AngloSaxões! Assim, o próprio testemunho da história moderna inequivocamente repreende a loucura daqueles que repudiam os ensinamentos da Palavra de Deus sobre este assunto, tornando sua incredulidade indesculpável. Digam-nos, vocês que murmuram contra a soberania Divina, por que é que a raça anglosaxã tem sido selecionada para a fruição de grande parte das bênçãos espirituais de Deus?

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Será que não haviam outras raças igualmente necessitadas? Os chineses praticavam um sistema mais nobre de moralidade e eram muito mais numerosos; por que, então, eles foram deixaram por tanto tempo em ignorância quanto ao Evangelho? Por que todo o continente africano foi deixado por muitos séculos até que o jol da justiça brilhasse ali novamente trazendo a cura em Suas asas? Por que a América é hoje mil vezes mais favorecida do que a Índia, que possui uma população três vezes mais numerosa? Para todas estas perguntas somos obrigados a recorrer à resposta de nosso bendito Senhor: “Sim, ó Pai, porque assim te aprouve” [Mateus 11:26]. E, assim como no antigo Israel havia uma eleição dentro de uma outra eleição, assim a Alemanha, a Grã-Bretanha e os EUA são alguns lugares específicos que foram favorecidos com um ministério fiel após outro, enquanto outros lugares foram amaldiçoados com os falsos profetas. “Fiz que chovesse sobre uma cidade, e não chovesse sobre a outra cidade” (Amós 4:7) — Isto é verdade agora, embora de forma espiritual. Finalmente, a veracidade da eleição é claramente evidenciada pela feroz oposição de Satanás contra ela. O Diabo luta contra a verdade, e não contra o erro. Ele deu vazão ao seu ódio contra ela quando Cristo a proclamou (Lucas 4:28-29); ele fez isso quando Paulo a pregou (como é mais do que sugerido em Romanos 9:14, 19); ele fez isso quando os Valdenses, os Reformadores e os Puritanos a proclamavam, usando os papistas como suas ferramentas para atormentar e matar milhares deles que confessam esta doutrina. Ele ainda se opõe a ela. Hoje ele faz isso disfarçado como um anjo de luz. Ele finge ser muito zeloso da honra do caráter de Deus, e declara que a eleição faz de Deus um monstro de injustiça. Ele usa a arma do ridículo: se a eleição é verdade, por que pregar o Evangelho? Ele procura intimidar: mesmo que a doutrina da eleição seja bíblica, não é sábio pregá-la. Assim, o ensino das Escrituras, o testemunho da história e a oposição de Satanás, juntos testemunham a veracidade da doutrina da eleição.

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5 • Sua Justiça Contrariando um pouco as nossas inclinações decidimos sair novamente do método lógico de exposição, e em vez de prosseguirmos com um desdobramento ordenado dessa doutrina, fazemos uma pausa para lidar com a principal objeção que é feita contra a mesma. Tão logo seja anunciada a verdade que Deus escolheu algumas das Suas criaturas para serem os sujeitos de Seus favores especiais, um grito geral de protesto é ouvido. Não importa o quanto a Escritura seja citada, nem quantas passagens claras são apresentadas para ilustrá-la e demonstrá-la, a maioria dos que professam ser Cristãos objetam contra ela em alta voz, alegando que tal ensino calunia o caráter Divino, tornando Deus culpado de injustiça grosseira. Parece, então, que essa dificuldade deve ser encontrada, a saber, que esta resposta deve ser feita a tal criticismo desta doutrina, antes de seguirmos em frente com a nossa tentativa de dar uma definição sistemática para ela. Em uma época como a nossa, em que os princípios da democracia, do socialismo e do comunismo são tão ampla e calorosamente defendidos, em dias em que a autoridade e o domínio humanos estão sendo cada vez mais desprezados, quando é costume comum “vituperar as dignidades” (Judas 8), é pouco surpreendente que muitas pessoas que não fazem nenhuma pretensão de se curvar à autoridade da Sagrada Escritura devem se rebelar contra o conceito de Deus ser parcial. Mas é indescritivelmente terrível ver que a grande maioria dos que professam receber as Escrituras como Divinamente inspiradas, ranjam os dentes contra o Seu autor quando informados de que Ele soberanamente elegeu um povo para ser o Seu tesouro peculiar, e os ouçamos acusando-O de ser um tirano odioso, um monstro de crueldade. No entanto, tais blasfêmias somente mostram que “a inclinação da carne é inimizade contra Deus” [Romanos 8:7]. Não é porque temos alguma esperança de converter tais rebeldes do erro de seus caminhos que nos sentimos constrangidos a abordar o presente aspecto de nosso tema, embora possa agradar a Deus em Sua infinita graça usar estas fracas linhas para a iluminação e convencimento de alguns deles. Não, pelo contrário, mas porque algumas das pessoas queridas de Deus são perturbadas por esses delírios de seus inimigos, e não sabem como responder em suas próprias mentes a essa objeção, a saber, que se Deus faz uma escolha soberana entre as Suas criaturas e as predestina para as bênçãos que Ele retém de incontáveis milhões de seus companheiros, então tal parcialidade O torna culpado de tratar estes últimos com injustiça. E ainda os espanta o fato que à face tanto da criação e provi-dência, Deus distribui as Suas misericórdias mui desigualmente. Não há igualdade em Suas concessões tanto de saúde física quanto de força, capacidades mentais, status social ou dos

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confortos da vida. Por que, então, devemos nos surpreender quando aprendemos que as Suas bênçãos espirituais são distribuídas de forma desigual? Antes de prosseguirmos, deve ser salientado que o propósito de cada falso esquema e sistema de religião é descrever o caráter de Deus de tal maneira que seja agradável ao gosto do coração carnal, aceitável para a natureza humana depravada. E isso só pode ser feito por uma espécie de distorção: a ignorância das pessoas sobre as Suas prerrogativas e perfeições que são objetáveis, e a ênfase desproporcional de Seus atributos que apelam ao egoísmo deles, como o Seu amor, misericórdia e longanimidade. Mas, que o caráter de Deus seja fielmente apresentado como Ele realmente é retratado nas Escrituras — no Antigo Testamento, bem como no Novo e nove em cada dez dos frequentadores da igreja francamente afirmarão que eles acham que é impossível amá-lO. O fato é, caro leitor, que para a geração atual o Altíssimo da Escritura Sagrada é o “Deus desconhecido”. É justamente porque as pessoas de hoje são tão ignorantes sobre o caráter Divino e tão carentes de temor a Deus, que elas estão em grande escuridão quanto à natureza e à glória da justiça Divina, e ponto de terem a presunção de acusá-lO. Esta é uma época de irreverência flagrante, na qual pedaços de barro animado atrevem-se a prescrever o que o TodoPoderoso deve e o que não deve fazer. Nossos antepassados semearam o vento, e hoje seus filhos estão colhendo tempestades. Os “direitos Divinos dos reis”, foram zombados e transformados em tabu pelos senhores, e agora sua prole repudia os “direitos Divinos do Rei dos reis”. A menos que os supostos “direitos” da criatura sejam “respeitados”, então os nossos contemporâneos não terão nenhum respeito pelo Criador, e se Sua alta soberania e domínio absoluto sobre tudo forem enfatizados, eles não hesitarão em vomitar sua condenação sobre Ele. E, “as más conversações corrompem os bons costumes” (1 Coríntios 15:33)! O próprio povo de Deus está em perigo de ser infectado pelo gás venenoso que agora infecta o ar do mundo religioso. Não é só a atmosfera miasmática que se constitui, na maioria das “igrejas”, como uma séria ameaça para o Cristão, mas há em cada um de nós uma tendência grave para humanizar Deus, vendo Suas perfeições através de nossas próprias lentes intelectuais em vez de através das lentes da Escritura, interpretando Seus atributos através de qualidades humanas. Foi isto mesmo que Deus se queixou no passado, quando Ele disse: “Pensavas que era tal como tu” (Salmos 50:21), esta é uma advertência solene para levarmos a sério. O que queremos dizer é o seguinte: quando lemos sobre a misericórdia ou a justiça de Deus nós somos muito propensos a considerá-los de acordo com as qualidades da misericórdia e da justiça do homem. Mas este é um erro grave. O Todo-Poderoso não deve ser medido por qualquer padrão humano: Ele está tão infinitamente acima de nós que qualquer compara-

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ção é totalmente impossível e, portanto, é o cúmulo da loucura qualquer criatura finita julgar os caminhos do Senhor. Mais uma vez; precisamos estar muito atentos contra a loucura de fazer distinções injustas entre as perfeições Divinas. Por exemplo, é muito errado que suponhamos que Deus é mais glorificado em Sua graça e misericórdia do que Ele é em Seu poder e majestade. Mas este erro é muitas vezes cometido. Quantos são mais gratos a Deus por lhes abençoar com a saúde do que por Ele ter concedido Seu evangelho a eles, mas será que, portanto, concluise que a bondade de Deus em dar coisas materiais é maior do que a Sua bondade ao conceder bênçãos espirituais? Certamente não. A Escritura muitas vezes fala da sabedoria e do poder de Deus sendo manifestados na Criação, mas onde nos é dito da Sua graça e misericórdia em fazer o mundo? Na medida em que os homens geralmente não glorificam a Deus pela Sua sabedoria e poder não se segue que Ele não é tão adorado por eles? Cuidado para não exaltar uma das perfeições Divinas em detrimento das outras. O que é a justiça? É tratar cada pessoa de forma equitativa e justa, dando o que lhe é devido. A justiça Divina é simplesmente fazer o que é certo. Mas isso levanta a questão: O que é devido à criatura? O que Deus deve conceder a ela? Ah, meu amigo, cada pessoa sóbria vai ao mesmo tempo opor-se à introdução da palavra “dever” em tal conexão, e com razão. O Criador não tem obrigação, seja qual for, para com as obras de Suas próprias mãos. Somente Ele tem o direito de decidir se tal e tal criatura deve existir. Somente Ele tem a prerrogativa de determinar a natureza, status e o destino daquela criatura; se deverá ou não ser um animal, um homem ou um anjo; se deverá ou não ser dotado de uma alma que existirá para sempre, ou seja, não uma alma que subsistirá apenas por um breve tempo; se ele será vaso para honra e desfrutará de comunhão com Ele, ou se será um vaso para desonra, e será rejeitado por Ele. Como o grande Criador possuía perfeita liberdade para criar ou não criar, para trazer à existência qualquer criatura que Ele quisesse (e uma visita ao zoológico mostrará que Ele criou algumas que impressionam o expectador por serem extremamente estranhas); e, portanto, Ele tem o direito inquestionável de decretar, concernente a eles, o que Lhe agrada. A justiça de Deus na eleição e na preterição, então, é fundamentada em Sua elevada Soberania. A dependência de todas as criaturas em relação a Ele é completa. Sua propriedade de todas as criaturas é indiscutível. Seu domínio sobre todas as criaturas é absoluto. Deixe esses fatos serem confirmados a partir da Escritura — e sua demonstração completa daí é uma questão muito simples: onde está a criatura que pode com a menor propriedade dizer ao Senhor Altíssimo: “O que fazes?”. Em vez do Criador estar sob qualquer obrigação à Sua criatura, é a criatura que está sob vínculos de obrigações para como Aquele que deu existência e agora sustenta a sua vida.

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Deus tem o direito absoluto de fazer o que quiser com as criaturas da Sua própria mão: “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (Romanos 9:21), esta é a Sua própria afirmação. Portanto, Ele pode dar a um e reter de outro, dar cinco talentos a um e somente um único talento para outro, sem qualquer imputação de injustiça. Se Ele pode dar graça e glória a quem Ele quer sem tal inocorrência em injustiça, então Ele pode também decretar fazê-lo sem qualquer ônus adicional. Os homens são sujeitos à cobrança de injustiça quando escolhem os seus próprios favoritos, amigos, companheiros e confidentes? Então, obviamente, não há injustiça em Deus de escolher quem Ele quer para conceder Seus favores especiais, para entrar em comunhão com Ele agora e viver com Ele por toda a eternidade. Um homem é livre para escolher a mulher que ele deseja para sua esposa? E faz ele faz algo de errado para com as outras mulheres a quem ele rejeita? Assim é o grande Deus menos livre para escolher aqueles que serão a Noiva de Seu Filho? Envergonhem-se! Envergonhados sejam aqueles que atribuem menos liberdade ao Criador do que à criatura. [...] A menos que a perversidade de seus corações cegue os seus julgamentos, os homens facilmente perceberiam que a justiça Divina deve necessariamente ser imensamente de outra ordem e caráter em relação à justiça do ser humano; sim, quão diferente e superior a ela, como o amor Divino é do amor humano. Todos concordam que um homem age injustamente, que ele peca, se ele tolera as transgressões de seu irmão quando está em seu poder impedi-lo de cometê-las. Então, se a justiça Divina fosse do mesmo tipo, embora superior em grau, se seguiria necessariamente que Deus peca cada vez que Ele permite que uma de Suas criaturas transgrida, pois muito certamente, Ele tem poder para impedilas; sim, e pode exercer esse poder sem destruir a liberdade da criatura: “Eu te tenho impedido de pecar contra mim; por isso não te permiti tocá-la” (Gênesis 20:6). Cessai, então, ó rebeldes de acusar o Altíssimo, tentando medir Sua justiça por suas fitas métricas mesquinhas, assim procuram entender Sua sabedoria ou definir Seu poder, bem como compreender a Sua justiça inescrutável. “Nuvens e escuridão estão ao redor dele” e isto é observado, e expressamente dito em relação a isto, “justiça e juízo são a base do seu trono” (Salmo 97:2). Para que alguns de nossos leitores não objetem a nossa citação de um alto Calvinista como o Sr. Twisse, nós adicionamos a seguinte de um Calvinista mais brando, James Usher. “O que é a justiça Divina? É uma propriedade essencial de Deus, na qual Ele é infinitamente justo em Si mesmo, de Si mesmo, para, de, e por Si mesmo, e nenhum para outro: ‘Porque o Senhor é justo, e ama a justiça’ (Salmo 11:7). Qual é a regra de Sua justiça? Resposta: Sua própria vontade, e nada mais, pois aquilo que Lhe aprouver é justo, o que Ele deseja

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é o que é justo, e não porque isto é justo que Ele o deseja (Efésios 1:11; Salmo 115:3). ‘E aqueles dos fariseus, que estavam com ele, ouvindo isto, disseram-lhe: Também nós somos cegos? Disse-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece’ (João 9:40-41)”. Então, mais uma vez justamente o renomado professor William Perkins: “Não devemos pensar que Deus faz uma coisa porque esta coisa seja boa e certa, mas a coisa é boa e certa, porque Deus quer e pratica. Temos exemplos disto na Palavra. Deus mandou Abimeleque entregar Sara a Abraão, ou então Ele iria destruí-lo e toda a sua casa (Gênesis 20:7). Para a razão do homem isto pode parecer injusto, pois, por que os servos de Abimeleque seriam punidos por culpa de seu senhor? Então, novamente Acã pecou, e toda a casa de Israel foi penalizada por ele (Josué 7). Davi contou o povo, e toda a nação foi ferida por uma praga (2 Samuel 24). Para a razão humana tudo isso pode parecer falta de equidade; contudo sendo estas as obras de Deus, devemos com toda a reverência julgá-las como muitíssimo justas e santas”. Ai, quão pouco dessa humildade e reverência se manifesta nas igrejas de hoje! Quão imediatamente a geração atual crítica e condena qualquer dos caminhos de Deus e as obras que não entendem adequadamente! Tão longe da verdade estão a maioria dos que agora são vistos mesmo como “os campeões da ortodoxia”, de modo que até eles mesmos são muitas vezes culpados de virar as coisas de cabeça para baixo, ou colocar a carroça na frente dos bois. Geralmente é suposto por eles que o próprio Deus está sob a lei, que Ele está sob uma restrição moral para fazer o que Ele faz, de modo que Ele não pode fazer o contrário. Outros o envolvem em termos mais sofisticados, insistindo que é a Sua própria natureza que regula todas as Suas ações. Mas isso é apenas um subterfúgio ardiloso. É por uma necessidade de Sua natureza ou pelo livre exercício da Sua soberania, que Ele concede favor às Suas criaturas? Deixe a Escritura responder: “Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer” (Romanos 9:18). Por que, meu leitor, se a natureza de Deus o obrigasse a mostrar misericórdia para a salvação de qualquer um, então, por paridade de razão, isto iria obriga-lO a mostrar misericórdia para com todos, e assim, levar toda a criatura caída ao arrependimento, fé e obediência. Mas chega dessa insensatez. Vamos agora abordar este aspecto de nosso assunto por um ângulo totalmente diferente. Como poderia haver alguma injustiça em Deus eleger aqueles a quem Ele elegeu, quando se Ele não tivesse feito isso todos teriam inevitavelmente perecido, anjos e homens? Isto não é nem uma invenção nem uma inferência particular nossa, pois a própria Escritura expressamente declara: “Se o Senhor dos Exércitos nos não deixara descendência, teríamos nos tornado como Sodoma, e teríamos sido feitos como Gomorra” (Romanos 9:29). Nenhuma das criaturas racionais de Deus, seja celestial ou terrena, teria sido salva eterna e

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efetivamente à parte da solene eleição Divina. Embora ambos os anjos e os homens foram criados em estado de santidade perfeita, contudo eles eram criaturas mutáveis, susceptíveis de mudança e queda. Sim, na medida em que a sua permanência neste estado de santidade dependia do exercício de suas próprias vontades, a menos que Deus se agradasse de preservá-los de maneira sobrenatural, sua queda era certa. “Eis que ele não confia nos seus servos e aos seus anjos atribui loucura” (Jó 4:18). Os anjos eram perfeitamente santos, mas se Deus não lhes desse outra assistência a mais do que aquela com que Ele os havia capacitado na sua criação, então não há “confiança” ou segurança posta sobre eles, ou em sua posição. Se eles eram santos hoje, eles estavam sujeitos ao pecado amanhã. Se Deus, os enviasse em uma missão para este mundo, eles podem cair antes de voltarem para o céu. A “loucura” que Deus imputa a eles na passagem acima é a sua mutabilidade de criatura, pois, eles manterem a sua santidade imutavelmente até a eternidade, sem o perigo de perdê-la, era totalmente além da capacidade deles como criaturas. Portanto, para que eles sejam preservados imutavelmente deve haver uma graça sendo emitida a partir de outra e maior fonte do que o pacto das obras ou o dom da criação, ou seja, a graça da eleição, a superior criação da graça. Isto foi conhecido desde o princípio, a saber, que Deus tornaria manifesto o abismo infinito que divide a criatura do Criador. Só Deus é imutável, sem mudança ou sombra de variação. Foi, então, adequado que Deus retirasse Sua mão de preservação daqueles a quem Ele havia criado retos, de modo que pudesse parecer que a maior criatura de todos (Satanás, “o querubim ungido”, Ezequiel 28:14) era mutável e inevitavelmente cairia em pecado, quando saiu para o fazer sua vontade própria. Somente sobre Deus pode ser dito que Ele “não pode ser tentado pelo mal” (Tiago 1:13). A criatura, embora seja santa, pode ser tentada a pecar, cair, e ser irremediavelmente perdida. A queda de Satanás, então, abriu caminho para evidenciar mais claramente a necessidade absoluta da graça eletiva, a comunicação à criatura, da imagem da própria santidade imutável de Deus. Por causa da mutabilidade do estado da criatura, Deus previu que se todas as Suas criaturas fossem deixadas para serem conduzidas pelas suas próprias vontades, elas estariam em risco contínuo de cair. Ele, então, fez uma eleição da graça para remover todo o perigo de queda final e total no caso de Seus escolhidos. Isso nós sabemos ser o que é revelado de sua história. Judas nos fala de “anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação” (v. 6), e o restante deles, mais cedo ou mais tarde, fariam isto também, se fossem deixados à mutabilidade das suas próprias vontades. Assim também se mostrou com Adão e Eva, ambos evidenciaram a mutabilidade de suas vontades por sua apostasia. Assim, Deus prevendo tudo isso desde o início, fez uma “reserva” (Romanos 11:4 – explicado no verso 5 como “eleição”), determinando que Ele teria um remanescente

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que devia ser abençoado por Ele e que iria eternamente bendizê-lO em retorno. A eleição e preservação da graça nunca devem ser separadas. Temos mostrado, até agora, em primeiro lugar que a justiça Divina é de uma ordem e de um caráter inteiramente diferentes dos da justiça humana; segundo, que a justiça Divina está fundamentada sobre o domínio soberano de Deus sobre todas as obras de Suas mãos, sendo assim o exercício da Sua vontade imperial. Terceiro, que o Criador não deve absolutamente nada à criatura, nem mesmo aquilo que Ele se agradar em conceder, e que, longe de Deus estar sob qualquer obrigação para ela, a criatura está sob obrigações eternas para com Ele. Em quarto lugar, que tudo o que Deus quer e faz é certo e devemos nos submeter a isto com reverência, sim, e devemos adorá-lO por isto. Em quinto lugar, que é impossível acusar Deus de injustiça pelo fato dEle ter elegido algumas pessoas para serem os objetos de Sua maravilhosa graça, desde que, à parte disso, todos teriam perecido eternamente. Vamos agora descer a um nível mais baixo e mais simples, e contemplar a eleição de Deus em conexão com a raça humana caída em Adão. Se não houve injustiça em Deus por fazer uma escolha de alguns para receberem Seu favor especial e bênção eternas à medida que Ele via as Suas criaturas pelas lentes do Seu propósito de criar, então, certamente, não poderia haver injustiça no fato dEle ter determinado mostrar-lhes Sua misericórdia à medida que Ele os viu de antemão entre a massa dos arruinados descendentes de Adão; pois, se uma criatura sem pecado não tem direito algum sobre o seu Criador, estando totalmente dependente de Sua caridade, então, com toda a certeza, uma criatura caída não tem direito a nada de bom vindo das mãos de Seu juiz ofendido. E este é o ângulo a partir do qual devemos agora ver o nosso assunto. O homem caído é um criminoso, um fora-da-lei e se a pura justiça deve ser dada a ele, então ele deve ser deixado para receber a devida recompensa por suas iniquidades, o que não pode significar nada menos do que a punição eterna, por ter, por meio de suas transgressões, incorrido em culpa infinita. Antes de ampliarmos o que acaba de ser dito, também precisa ser salientado que se a única esperança para uma criatura santa está na graça eletiva de Deus, então isso é duplamente verdade em relação a uma criatura profana, totalmente depravada. Se um santo anjo estava em perigo constante, incapaz de manter a sua pureza, por causa da mutabilidade de sua natureza e da inconstância de sua vontade, o que deve ser dito de uma criatura diabólica? Por que o homem caído possui uma natureza que é arraigada no mal, nada mais nada menos do que isso, e, portanto, sua vontade já não tem qualquer poder de se voltar para o que é espiritual, sim, ele é inveteradamente endurecido contra Deus; portanto, seu caso é absoluta e eternamente impossível, a menos que Deus, em Sua graça soberana, tenha o prazer de salvá-lo de si mesmo.

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Os pregadores podem tagarelar tudo o que quiserem sobre os poderes inerentes do homem, sobre a liberdade de sua vontade, e sobre sua capacidade para o bem, mas é inútil e loucura ignorar o fato solene da Queda. A diferença e desvantagem entre o nosso estado e o estado de Adão antes de ter caído dificilmente podem ser concebidas. Em vez da posse de uma santidade perfeita das inclinações de nossas mentes e vontades, como ele possuía, não existe tal princípio vital deixado em nossos corações. Em vez disso, há uma deficiência completa para o que é espiritual e santo, sim, há inimizade, contrariedade e oposição em relação a estes. “Os homens erram, não conhecendo o poder do pecado original, nem a profundidade da corrupção que está em seus próprios corações. A vontade do homem agora é o principal e apropriado assento do pecado, o trono dele está estabelecido ali” (Thomas Goodwin). Auxílios exteriores e subsídios são de nenhuma consideração, pois nada menos que uma nova criação é de algum proveito. Não importa a instrução que homens caídos recebem, ou quais incentivos sejam oferecidos a eles, o etíope não pode mudar a sua pele. Nem luz, nem convicção, nem as operações gerais do Espírito Santo, são de qualquer proveito, a menos que Deus sobre e acima deles dê um novo princípio de santidade para o coração. Isto foi clara e plenamente demonstrado sob a Lei e o Evangelho. Leia Êxodo 20 e Deuteronômio 5 e veja a manifestação maravilhosa e inspiradora de Si mesmo que Deus concedeu a Israel no Sinai: isso mudou seus corações e inclinou a vontade deles a obedecê-lO? Em seguida, leia os quatro evangelhos e eis o Filho encarnado de Deus habitando no meio dos homens, não como juiz, mas como um benfeitor, que andou fazendo o bem, alimentando os famintos, curando os enfermos, proclamando o Evangelho, isto fez derreter seus corações ou os ganhou para Deus? Não, eles O odiaram e O crucificaram. Eis, então, o caso da humanidade caída: alienados da vida de Deus, mortos em delitos e pecados, sem coração, sem vontade para as coisas espirituais. Em si o seu caso é desesperado, irremediável, sem esperança. À parte da eleição Divina ninguém iria e nem poderia jamais ser salvo. Eleição significa que Deus se agradou em reservar o remanescente, de modo que toda a raça de Adão não perecerá eternamente. E que ações de graças Ele recebe para isso? Nenhuma, exceto daqueles que têm seus olhos cegos pelo pecado abertos para perceber a bem-aventurança inefável de tal fato. “Obrigado”? não; em vez disso, a grande maioria, mesmo daqueles que fazem parte da professa Cristandade quando ouvem desta verdade, ignorantes de seus próprios interesses e dos caminhos de Deus, contendem contra Sua eleição, e O insultam por causa da mesma, O acusam de injustiça e de ser um tirano impiedoso. Ora, o grande Deus não está em nenhuma necessidade de defender-se de nós: em devido tempo, Ele efetivamente fechará a boca de todos os rebeldes. Mas devemos fazer mais

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algumas observações para aqueles crentes que estão perturbados por tais que insistem fortemente que Deus é culpado de injustiça quando Ele soberanamente elege alguns. Primeiro, então, pedimos a esses caluniadores de Jeová para que façam boa a sua acusação. O ônus da prova recai sobre aqueles que a fazem. Eles afirmam que um Deus que elege é injusto, então que eles demonstrem isto que afirmam. Eles não podem. Para isso, eles devem mostrar que os infratores merecem algo de bom vindo das mãos do legislador. Eles devem mostrar que o Rei dos reis está moralmente obrigado a sorrir para aqueles que têm blasfemado o Seu nome, profanado Seus sabaths, menosprezado Sua Palavra, injuriado Seus servos, e acima de tudo, desprezado e rejeitado Seu Filho. “Há um homem em todo o mundo que teria a impertinência de dizer que ele merece alguma coisa de seu Criador? Se assim for, seja conhecido de vós que ele deverá ter todos os méritos! E sua recompensa será as chamas do inferno, para sempre, pois esse é o máximo que qualquer homem já mereceu de Deus; Deus não está em dívida para com nenhum homem e, no último grande dia todo homem deve ter tanto amor, tanta piedade e tanta bondade como ele merece! Até mesmo os perdidos no inferno terão o que todos eles merecem, sim, e ai do dia quando eles terão a ira de Deus, que será o ápice do que eles merecem! Se Deus dá a cada um tanto quanto ele merece, Ele é, por isso, acusado de injustiça, porque Ele dá a alguns infinitamente mais do que eles merecem?” (C. H. Spurgeon [Sermão 303, Eleição e Santidade]). Muitos agora falam dele elogiosamente, e se referem a ele como “amado Spurgeon”, mas rangeriam os dentes e o execrariam se o ouvissem em sua maneira fiel e simples de pregar. Em segundo lugar, gostaríamos de informar esses detratores de Deus que Sua salvação não é uma questão de justiça, mas de pura graça, e graça é algo que não pode ser reivindicado por ninguém. Onde está a injustiça se qualquer um faz o que quiser com o que é seu próprio? Se eu sou livre para fazer caridade como eu achar melhor, a Deus será concedida menos liberdade para conceder Seus dons a quem Ele quer!? Deus não está em dívida com ninguém, e, portanto, se Ele concede Seus favores de uma maneira soberana ninguém pode reclamar. Se Deus passa por ti, Ele não te fez agravo; mas se Ele te enriquece, então és um devedor à Sua graça, e então, tu irás cessar de tagarelar sobre Sua justiça e injustiça, e de bom grado te juntarás com aqueles que surpreendentemente exclamam: “Não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos recompensou segundo as nossas iniquidades” (Salmo 103:10). A salvação é dom gratuito de Deus, e, portanto, Ele a dá a quem Ele quer. Em terceiro lugar, gostaríamos de perguntar a essas criaturas arrogantes, a quem Deus alguma vez recusou a Sua misericórdia quando esta foi sincera e penitentemente buscada? Será que Ele não proclama livremente o Evangelho a toda criatura? Sua Palavra não

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ordena que todos os homens derrubem as armas da sua guerra contra Ele e venham a Cristo para que recebam o perdão? Será que Ele não promete apagar as suas iniquidades, se você se converter a Ele da forma por Ele apontada? Se você se recusa a fazê-lo, se você tão profundamente ama o pecado, se você está tão apegado às suas concupiscências de forma que você está determinado a destruir sua própria alma, então de quem é a culpa? Certamente de Deus não é. Suas promessas do Evangelho são confiáveis, e qualquer um tem a liberdade de prová-las por si mesmo. Se ele faz isso, ou seja, se ele renuncia ao pecado e coloca sua confiança em Cristo, então ele descobrirá por si mesmo que ele é um dos eleitos de Deus. Por outro lado, se ele deliberadamente rejeita o Evangelho e rejeita o Salvador, então, o seu sangue é sobre a sua própria cabeça. Isso nos leva a perguntar, em quarto lugar: Você diz que é injusto que alguns devam ser perdidos enquanto outros serão salvos, mas quem causa a perdição dos estão perdidos? Alguma vez Deus fez alguém pecar? Em vez disso Ele adverte, avisa e exorta contra ele. A quem o Espírito Santo alguma vez impeliu a uma ação errada? Em vez disso Ele uniformemente o inclina contra o mal. Onde as Escrituras apoiam qualquer maldade Sua? Em vez disso, elas constantemente condenam sua maldade em todas as suas formas. Então Deus é injusto se Ele condena aqueles que voluntariamente Lhe desobedecem? Ele é injusto se Ele pune aqueles que desafiadoramente desconsideram os Seus sinais de perigo e expostulações? Certamente que não. Para cada um destes Deus ainda dirá: “Tu destruíste a ti mesmo” (Oséias 13:9 – KJV). É a criatura que comete suicídio moral. É a criatura que rompe todas as restrições e atira-se para o precipício da desgraça eterna. No último grande dia será demonstrado que Deus é justo quando Ele fala, e puro quando Ele julga (Salmo 51:4). A eleição é o tomar de um e o deixar de outro, e implica a liberdade por parte do eleitor de escolher ou recusar a escolher. Daí a escolha de um não faz nenhum dano para o outro que não é escolhido. Se eu escolher um só dentre cem homens para uma posição de honra e proveito, eu faço isso sem prejudicar os outros noventa e nove que não foram escolhidos. Se eu tomar duas dentre vinte crianças maltrapilhas e famintas, e adotá-las como meu filho e filha, alimentá-las e vesti-las, dar-lhes uma casa e educação, e eu faço-lhes um imenso bem; mas enquanto eu distribuo meus bens e escolho fazer aquelas duas crianças felizes, eu o faço sem prejudicar as outras dezoito crianças que foram deixadas. É verdade, elas permanecem em trapos, mal alimentadas e sem instrução, mas elas não estão em condição pior depois que o meu favor foi mostrado às suas duas companheiras, elas somente continuam exatamente na situação em que elas estavam. Mais uma vez; se entre dez homens justamente condenados à morte, o rei da Inglaterra se agrada de escolher cinco para receberem sua soberana misericórdia, e serem perdoados

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e libertados, eles devem a sua própria vida ao seu favor real; no entanto, ao conceder bondade para com eles, nenhum dano é feito para os outros cinco, eles são deixados a sofrer a pena de justiça da Lei, que lhes é decida por suas transgressões. Eles somente sofrem o que teria sofrido se a misericórdia do rei não tinha sido concedida para com os seus companheiros. Quem, então, pode deixar de ver que seria um mau uso dos termos, uma calúnia grave do rei, acusá-lo de injustiça, porque ele se agradou de exercer sua prerrogativa real e mostrar seu favor a um e não a outro. Nosso Salvador definitivamente expressa essa ideia de eleição, quando Ele disse: “Então, estando dois no campo, será levado um, e deixado o outro” (Mateus 24:40). Se ambos fossem “deixados”, então, ambos teriam perecido, daí o ser “levado” de apenas um não causou nenhum dano ao seu companheiro. “Estando duas moendo no moinho, será levada uma, e deixada outra” (Mateus 24:41). O fato de uma ter sido levada foi um grande favor a ela, mas isto não causou nada de errado para com sua companheira. A eleição Divina, então, é uma escolha a favor dentre aqueles que não têm direitos sobre Deus. É, portanto, Ele não comete injustiça para os que são deixados, pois eles somente continuam como e onde eles estavam, e como e onde estariam se os eleitos não houvessem sido levados do meio deles. No exercício de Sua graça eletiva Deus tem misericórdia de quem Ele quiser ter misericórdia, e na concessão de Seu favor Ele faz o que quer com o que é Seu próprio. Não é difícil perceber a base sobre a qual o falso raciocínio de detratores de Deus descansa: por trás de todas as murmurações dos opositores contra a justiça Divina está o conceito de que Deus tem a obrigação de prover a salvação para todas as Suas criaturas caídas. Mas tal raciocínio (?) não consegue ver que se tal alegação fosse válida, então nenhuma ação de graças poderia ser dada a Deus. Como poderíamos louvá-lO por redimir aqueles que Ele tinha a obrigação de resgatar? Se a salvação é uma dívida que Deus tem para com o homem por ter permitido que ele caísse, então a salvação não pode ser uma questão de misericórdia. Mas não devemos esperar que aqueles cujos olhos estão cegos pelo orgulho venham a entender algo sobre os deméritos infinitos do pecado, ou de sua própria indignidade absoluta e vileza; e, portanto, é impossível que eles formem um verdadeiro conceito da graça Divina, e percebam que quando a graça é exercida, ela necessariamente é exercida de forma soberana. Mas, depois de tudo o que foi pontuado acima alguns estarão prontos a perguntar sarcasticamente: “A Bíblia não declara que Deus ‘não faz acepção de pessoas’, então, como Ele pode fazer uma seleção entre os homens?”. Os caluniadores da predestinação Divina supõem que, ou as Escrituras são inconsistentes entre si, ou que, em Sua eleição Deus leva em consideração os méritos. Vamos primeiro citar Calvino:

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“A Escritura nega que Deus faz acepção de pessoas, em um sentido diferente daquele em que eles entendem; pois a palavra pessoa não significa um homem, mas essas coisas em um homem que, sendo visíveis aos olhos, geralmente conciliam favor, honra e dignidade, ou atraem o ódio, desprezo e vergonha. Tais são as riquezas, poder, nobreza, magistratura, país, elegância da forma, por um lado; e, por outro lado, a pobreza, a necessidade, nascimento ignóbil, desleixo, desprezo, e assim por diante. Assim, Pedro e Paulo declaram que Deus não faz acepção de pessoas, pois Ele não faz distinção entre Judeu e Grego, para rejeitar um e receber o outro, apenas por conta de sua nacionalidade (Atos 10:34, Romanos 2:11). Então, Tiago usa a mesma línguagem quando afirma que Deus, em Seu julgamento, não considera riquezas (2:5). Não haverá, portanto, nenhuma contradição em nossa afirmação, a saber, que de acordo com o que agrada à Sua vontade, Deus escolhe quem Ele quer para ser Seus filhos, independentemente de todo o mérito, enquanto Ele rejeita e reprova os outros. No entanto, por uma questão de satisfação adicional, o processo pode ser explicado da seguinte maneira: Eles perguntam como isso acontece, isto é, que duas pessoas que não se distinguem umas das outras por nenhum mérito, Deus, em Sua eleição, deixe uma e tome outra. Eu, por outro lado, pergunto a eles, se eles supõem o que aquele que é levado possui qualquer coisa que possa atrair o favor de Deus? Se eles confessarem que ele não tem, como de fato deverão fazer, se seguirá, que Deus não se baseia no homem, mas deriva Seu motivo para favorecê-lo a partir de Sua própria bondade. A eleição de um homem por Deus, portanto, enquanto Ele rejeita o outro, não procede de qualquer aspecto do homem, mas somente procede de Sua própria misericórdia; que pode ser demonstrada e livremente exercida onde e quando Ele quiser”. Fazer “acepção de pessoas” é considerar e tratá-las de forma diferente por causa de uma suposta ou real diferença em si ou suas circunstâncias, que não possua base ou razão que seja justificável para tal tratamento preferencial. As características de uma acepção de pessoas pertencem, sim, àquele que avalia e reputa as outras pessoas de acordo com as suas características e obras. Acepção de pessoas acontece quando um juiz justifica e recompensa um ao invés de outro, porque este é rico e o outro pobre, ou porque ele lhe deu um suborno, ou é um parente próximo ou um amigo íntimo, enquanto o caráter e a conduta do outro é mais reta e sua causa mais justa. Mas tal denominação é inaplicável a uma concessão de caridade, quem concedeu os Seus favores e deu gratuitamente dons imerecidos para um e não para outro o faz sem qualquer consideração de mérito pessoal. O benfeitor tem todo o direito de fazer o que quiser com o que lhe pertence, e aqueles que são negligenciados por ele não têm nenhum motivo válido para se queixarem. Mesmo que esta expressão seja considerada em sua acepção mais popular, nada tão im-

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pressionante evidencia que Deus “não faz acepção de pessoas” do que as características daqueles que Ele escolheu. Quando os anjos pecaram e caíram Deus não providenciou nenhum Salvador para eles, no entanto, quando a raça humana pecou e caiu um Salvador foi providenciado para muitos deles. Deixe o crítico hostil pesar cuidadosamente este fato: se Deus houvesse feito acepção de “acepção de pessoas” Ele não iria escolher os anjos e deixar os homens? O fato de que Ele fez o inverso O livra desta calúnia. Considere novamente a nação que Deus escolheu para serem os destinatários de seus favores terrenos e temporais muito mais do que todos os outros povos durante os últimos dois mil anos de história do Antigo Testamento. Que tipo de pessoas eles eram? Por que, Deus escolheu um povo ingrato e murmurador, duro de cerviz e coração, rebelde e impenitente, desde o início de sua história até o fim? Se Deus tivesse sido uma acepção de pessoas Ele certamente nunca havia escolhido os judeus para tal favor e bênção! O verdadeiro caráter, então, daqueles a quem Deus escolhe refuta essa objeção tola. O mesmo é igualmente evidente no Novo Testamento. “Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo?” (Tiago 2:5). Bendito seja o Seu nome, por isso ser assim, pois, tivesse Ele escolhido os ricos, isso passaria a prejudicar a muitos de nós, não iria? Deus não escolhe magnatas e milionários, financistas e banqueiros, para serem objetos de Sua graça. Nem os de sangue real ou nobres do reino ou o sábio, o talentoso, o influente deste mundo, pois poucos deles têm seus nomes escritos no Livro da Vida do Cordeiro. Não, é o desprezado, o fraco, a vil, os sem-nome deste mundo, a quem Deus escolheu (1 Coríntios 1:2629), e isto, a fim de que “nenhuma carne se glorie perante ele”. Os fariseus foram deixados e os publicanos e as meretrizes foram escolhidas! “Amei a Jacó”: e o que havia nele para Deus amá-lo!? — E ainda ecoa pergunta: “por que?”. Se Deus fizesse “acepção de pessoas” Ele certamente nunca teria escolhido um inútil como eu!

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6 • Sua Natureza Foi bem dito que: “A razão por que qualquer um acredita na eleição é que ele a encontra na Bíblia. Nenhum homem jamais poderia imaginar tal doutrina, pois ela é, em si mesma, contrária ao pensamento e aos desejos do coração humano. Cada um, a princípio, se opõe a esta doutrina, e é só depois de muitas lutas, sob a ação do Espírito de Deus, que somos levados a recebê-la. A aquiescência perfeita a esta doutrina, descansar, maravilhar-se em adoração, no estrado da soberania de Deus, é a última realização da alma santificada nesta vida, como é o início do Céu. A razão pela qual qualquer um acredita na eleição é apenas isso, e só isso: que Deus a tornou conhecida. Fosse a Bíblia uma falsificação ela nunca poderia ter contido a doutrina da eleição, pois os homens são muito avessos a tal pensamento para dar-lhe expressão, e muito mais para dar-lhe destaque” (G. S. Bishop). Até agora, em nossa exposição desta bendita verdade, nós mostramos que a fonte de eleição é a vontade de Deus, pois nada existe ou pode existir fora disso. Em seguida, vimos, que a grandiosa origem da eleição é o homem Cristo Jesus, que foi ordenado para a união com a segunda pessoa na Divindade. Então, a fim de abrir o caminho para um exame mais detalhado dessa verdade assim como ela é apresentada a nós, demonstramos a verdade e, em seguida, a justiça dela, visando remover das mentes dos leitores Cristãos a profanação e efeitos perturbadores da principal objeção que é feita contra a eleição Divina por seus inimigos. E agora buscaremos apontar os principais elementos que adentram na eleição. Em primeiro lugar, a eleição é um ato de Deus. É verdade que chega um dia em que cada um dos eleitos escolhe a Deus como seu absoluto e sumo Bem, mas este é o efeito, e em nenhum sentido a causa da escolha de Deus. Nossa escolha dEle é no tempo, mas Seu escolher-nos foi antes dos tempos eternos; e certo é que a menos que Ele nos escolhesse em primeiro lugar, nós jamais O escolheríamos de modo algum. Deus — que é um Ser soberano, faz tudo o que Lhe agrada, tanto no céu e na terra —, tem um direito absoluto de fazer o que quiser com Suas próprias criaturas e, portanto, Ele escolheu um certo número de seres humanos para ser Seu povo, Seus filhos, Seu tesouro peculiar. Tendo feito isso, este ato foi chamado de “eleição de Deus” (1 Tessalonicenses 1:4). Pois Ele é a causa eficaz dela; e as pessoas escolhidas são denominadas “seus escolhidos” (Lucas 18:7; cf. Romanos 8:33). Esta escolha de Deus é absoluta, sendo inteiramente gratuita, não dependendo de absolutamente nada fora de Si mesmo. Deus elegeu aqueles que Ele quis, simplesmente porque Ele escolheu fazê-lo, não partir de alguma bondade, mérito ou atrativo na criatura, nem a partir de qualquer mérito ou atrativo previsto na criatura. Deus é absolutamente autossufi-

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ciente e, portanto, Ele nunca irá para fora de Si mesmo para encontrar uma razão para qualquer coisa que Ele faz. Ele não pode ser influenciado pelas obras de Suas próprias mãos. Não, Ele é Aquele que os move, da mesma forma que somente Ele é foi Aquele que lhes deu existência. “Nele vivemos, e nos movemos, e existimos” [Atos 17:28]. Foi, então, simplesmente a partir da espontânea bondade de Sua própria vontade que Deus destacou, a partir da massa daqueles que Ele se propôs a criar, um povo que expressará os Seus louvores por toda a eternidade, para a glória de Sua soberana graça para todo o sempre. Esta escolha de Deus é uma questão imutável. Necessariamente assim, pois não é fundamentada sobre qualquer coisa na criatura, ou estabelecida sobre qualquer coisa fora de Si mesmo. Ela é antes de tudo, antes mesmo de Sua “presciência”, porque embora Ele conheça de antemão, contudo, Ele conhece de antemão porque Ele infalível e irrevogavelmente o fixou, caso contrário, Ele meramente a adivinharia. Mas visto que Ele a conhece de antemão, então Ele não supõe, Ele assegura; e sendo a previsão dos acontecimentos futuros algo seguro, então Ele deve tê-la fixado. A eleição, sendo o ato de Deus, é para sempre, pois seja o que for que Ele faça em uma forma de graça especial, é irreversível e inalterável. Os homens podem escolher alguns para serem seus favoritos e amigos por um tempo, e depois mudam de ideia e escolhem outros em seu lugar. Mas Deus não age de tal maneira; Ele é de uma mente, e ninguém pode mudá-lO; Seu propósito, segundo a eleição permanece firme, seguro, inalterável (Romanos 9:11; 2 Timóteo 2:19). Em segundo lugar, o ato de eleição de Deus é feito em Cristo: “Como também nos elegeu nele” (Efésios 1:4). A eleição não encontra homens em Cristo, mas os enxerta nEle. Ela concede a eles o estar em Cristo e união com Ele, que é o fundamento de sua manifestação como estando nEle por ocasião de conversão. Na mente infinita de Deus, Ele quis amar uma companhia da posteridade de Adão com um amor imutável, e do amor com que Ele os ama, Ele os escolheu em Cristo. Por meio deste ato de Sua mente infinita, Deus lhes concedeu serem participantes da bem-aventurança em Cristo desde a eternidade. Todavia, ao mesmo tempo, todos caíram em Adão, ainda assim, todos não caíram semelhantemente. Os não-eleitos caíram, de modo a serem condenados, sendo eles deixados a perecer em seus pecados, porque não tinham nenhuma relação com Cristo, Ele não relacionou-se com eles como o Mediador da união com Deus. Os não-eleitos tiveram seu tudo em Adão, sua cabeça natural. Mas os eleitos tiveram toda sorte de bênçãos espirituais concedida a eles em Cristo, sua graciosa e gloriosa Cabeça (Efésios 1:3). Eles não podiam perder estas, porque eles foram assegurados delas em Cristo. Deus os havia escolhido como Seus próprios: Ele seria o seu Deus, eles o Seu povo; Ele, seu Pai e eles, Seus filhos. Ele os deu a Cristo para serem Seus irmãos, Seus companheiros, Sua noiva, Seus consortes em toda a Sua graça comunicável e glória. Na previsão

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da sua Queda em Adão, e quais seriam os seus efeitos, o Pai propôs erguê-los das ruínas da Queda, mediante a consideração do compromisso de Seu Filho realizando toda a justiça por eles, e como seu Fiador, suportando todos os seus pecados em Seu próprio corpo no madeiro, oferecendo Sua alma como oferta pelo pecado. Para executar tudo isso, o amado Filho encarnou. Foi a isso que o Senhor Jesus se referiu em Sua oração sacerdotal, quando disse ao Pai: “Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste; eram teus, e tu mos deste” (João 17:6). Ele estava se referindo a todos os sujeitos da eleição da graça. Eles eram os objetos de prazer do Pai: Suas joias, Sua porção; e aos olhos de Cristo eles eram o que o Pai viu que eles seriam. Quão grandemente, então, o Pai estima o Mediador, ou Ele nunca teria concedido Seus eleitos a Ele e os entregado todos ao Seu cuidado e governo! E quão altamente Cristo valorizou esta dádiva de amor do Pai, ou Ele não teria realizado a salvação deles em tal enorme custo para Si mesmo! Agora, a entrega dos eleitos a Cristo foi um ato diferente, um ato distinto do ato da eleição deles. Os eleitos foram primeiramente do Pai por meio da eleição, que escolheu as pessoas; e, em seguida, Ele as deu a Cristo, como o Seu amor e dom: “eram teus [por eleição], e tu mos deste”, da mesma forma, esta graça é dita ser dada a nós em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos (2 Timóteo 1:9). Em terceiro lugar, este ato de Deus foi independentemente de e anterior a qualquer previsão da entrada do pecado. Antecipamos um pouco este ramo de nosso assunto, ainda assim, como é um assunto sobre o qual pouquíssimos hoje são seguros, e algo que consideramos de importância considerável, nos propomos conceder-lhes uma consideração separada. O ponto específico que devemos ponderar agora é, quanto a saber se o Seu povo era visto por Deus, em Seu ato de eleição, como caídos ou não-caídos; como na massa corrupta através de sua deserção em Adão, ou na massa pura da criação, ainda para ser criada. Aqueles que consideram o primeiro ponto de vista são conhecidos como infralapsarianos; aqueles que tomaram o último são conhecidos como supralapsarianos, e no passado esta questão foi debatida consideravelmente entre os altos e baixos Calvinistas. Este escritor sem hesitação (após estudo prolongado) assume a posição supralapsariana, embora ele saiba muito bem que poucos de fato estarão dispostos a segui-lo. O pecado, tendo posto um véu sobre o maior de todos os Divinos mistérios da graça, excetuado somente aquele da encarnação Divina, torna a nossa tarefa presente a mais difícil. É muito mais fácil para nós aprendermos sobre a nossa miséria, e sobre a nossa redenção dela — pela encarnação, obediência e sacrifício do Filho de Deus — do que é para nós concebermos a original glória, excelência, pureza e dignidade da Igreja de Cristo, como o eterno objeto dos pensamentos, conselhos e propósito de Deus. No entanto, se nos apegarmos firmemente às Sagradas Escrituras, é evidente (ao escritor, pelo menos) que o povo

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de Deus tinha uma criação de qualidade superior e união espiritual com Cristo antes mesmo que eles tivessem uma criação e união natural com Adão; de forma que eles foram abençoados com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo (Efésios 1:3), antes que eles caíssem em Adão e se tornassem sujeitos a todos os males da mal-dição. Em primeiro lugar, vamos resumir as razões dadas por John Gill em apoio a isso. O decreto eletivo de Deus deve ser dividido em duas partes ou níveis, ou seja, o Seu propósito a respeito da finalidade e Seu propósito sobre os meios. A primeira parte relacionase com o propósito de Deus em Si mesmo, no qual Ele determinou ter um povo eleito e isso, para Sua própria glória. A segunda parte tem relação com a execução real da primeira, fixando os meios pelos quais a finalidade será realizada. Estas duas partes do decreto Divino não devem ser nem separadas nem confundidas, mas consideradas distintamente. O propósito de Deus sobre a finalidade significa que Ele ordenou certas pessoas para serem os destinatários de Seu favor especial, para a glorificação de Sua soberana bondade e graça. Seu propósito sobre os meios significa que Ele determinou criar aquelas pessoas, permitir-lhes cair e resgatá-las com base na redenção de Cristo e na santificação do Espírito. Estes não devem ser considerados como decretos separados, mas como partes componentes e níveis de um propósito. Há uma ordem nos conselhos Divinos, como reais e definidos, como Gênesis 1 mostra que houve em conexão com a criação. Na medida em que o propósito da primeira extremidade está em vista (em ordem de natureza), antes da determinação dos meios, portanto, o que é o primeiro em intenção é último em execução. Agora, como a glória de Deus é última em execução, segue-se necessariamente que ela foi a primeira em intenção. Por isso os homens devem ser considerados no propósito Divino, concernente à finalidade, nem como criados nem caídos, desde que ambos, sua criação e permissão ao pecado, pertencem ao conselho de Deus sobre os meios. Não é óbvio que, se Deus primeiro decretou criar homens e permitir-lhes cair, e, em seguida, a partir da massa caída escolheu alguns para a graça e glória, que Ele se propôs a criar os homens sem qualquer finalidade em vista? E não é esta a acusação de Deus, a saber, eu Ele fez algo que nem mesmo um homem sábio jamais faria, pois quando o homem determina fazer uma coisa, ele propõe uma finalidade (como a construção de uma casa) e depois estabelece formas e meios para concluí-la. Pode ser pensado por um momento que o Onisciente agiria de outra forma? A distinção acima, entre o propósito Divino a respeito da finalidade e indicação de meios para assegurar este propósito de Deus, é claramente confirmada pela Escritura. Por exemplo: “Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles” (Hebreus 2:10). Aqui há primeiro o decreto relacionado à finalidade: Deus ordenou

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Seus muitos filhos “à glória”; em Seu propósito dos meios Deus ordenou que o príncipe da salvação deles fosse consagrado “pelas aflições”. Da mesma forma foi em conexão com o próprio Cristo. “Disse o SENHOR ao meu Senhor” (Salmos 110:1). Deus decretou que o Mediador tivesse esta alta honra conferida a Ele, mas com este objetivo foi ordenado: que “Beberá do ribeiro no caminho” (v. 7), Deus, então, decretou que o Redentor deve beber da plenitude desses prazeres que estão em sua mão direita eternamente (Salmos 16:11), contudo isto aconteceu antes que Ele devesse tomar o cálice amargo da angústia. Assim é com o Seu povo: Canaã é a sua porção designada, mas o deserto é apontado como aquele através do qual eles passarão a caminho da mesma. O fato de Deus ter predestinado seu povo à santidade e glória, anteriormente à Sua presciência da Queda deles em Adão, se adequada muito melhor com os exemplos dados sobre Jacó e Esaú em Romanos 9:11-12 do que faz o ponto de vista infralapsariano de que o decreto Divino os contemplou como criaturas pecadoras. Ali, lemos: “Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito a ela: O maior servirá ao menor”. O apóstolo está mostrando que a preferência foi dada a Jacó independente de toda o fundamento de mérito, porque foi feito antes de que as crianças nascessem. Se for mantido em mente que o que Deus faz no tempo é apenas uma manifestação do que Ele secretamente decretou na eternidade, o ponto que estamos aqui defendendo será muitíssimo conclusivo. Os atos de Deus, tanto da eleição quanto da preterição — escolha e rejeição — foram totalmente independentes de qualquer “bem ou mal” previstos. Observe também que maneira como essa expressão é composta: “o propósito de Deus, segundo a eleição” apoia a tese da existência de duas partes para o decreto de Deus. Também deve ser salientado que a predestinação de Deus de Seu povo para a bem-aventurança eterna, antes que Ele os contemplasse como criaturas pecadoras concorda, muito melhor do que a ideia infralapsariana, com o barro sem forma do Oleiro: “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (Romanos 9:21). Sobre isso, Beza (co-pastor com Calvino na igreja em Genebra) observou que: “se o apóstolo tivesse considerado a humanidade como corrompida, ele não teria dito que alguns vasos foram feitos para honra e alguns para desonra, mas antes, que todos os vasos eram aptos para desonra, alguns sendo deixados para desonra, e outros transportados da desonra para a honra”. Mas deixando de inferências e deduções, voltemo-nos agora para algo mais evidente e definitivo. Em Efésios 1:11 lemos: “havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade”. Agora, um estudo cui-

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dadoso do que precede revela uma clara distinção em “todas as coisas” que Deus opera “segundo o conselho da sua vontade”, ou, para indicá-lo de outra maneira, as bênçãos espirituais que Deus concede ao Seu povo são divididas em duas classes distintas, de acordo como Ele os contemplou pela primeira vez em um estado não-caído e, em seguida, em um estado caído. A primeira e mais elevada classe de bênçãos são enumerados nos versículos 4 a 6 e relaciona-se com o decreto de Deus sobre a finalidade; a segunda e subordinada classe de bênçãos são descritas nos versos 7 a 9 relaciona-se com o decreto de Deus sobre os meios que Ele designou para a realização desse fim. Estas duas partes do mistério da vontade de Deus para com o Seu povo desde a eternidade são claramente marcadas pela mudança de tempo que é usada: o passado de “também nos elegeu” (v. 4), “e nos predestinou para a adoção de filhos” (v. 5) e “nos fez agradáveis a si no Amado” (v. 6), torna-se em tempo presente, no versículo 7: “em quem temos a redenção pelo seu sangue”. Os benefícios mencionados nos versículos 4-6 não são, de forma alguma, dependentes de uma consideração sobre a Queda, mas seguem o fato de termos sido escolhidos em Cristo, sendo dados sobre fundamentos altos e distintos, a partir de Seu ser o nosso Redentor. Deus nos escolhe em Cristo, nosso Cabeça, para que sejamos “santos”, porém isto se refere à santidade imperfeita que temos nesta vida, mas a uma santidade perfeita e imutável, até mesmo como a que os anjos não tinham por natureza; e a nossa predestinação para adoção denota uma comunhão imediata com o próprio Deus, bênçãos que teriam sido nossas mesmo que o pecado jamais houvesse entrado no mundo. Como Thomas Goodwin destacou em sua inigualável exposição de Efésios 1: “A primeira fonte de bênçãos — santidade perfeita, adoção, e etc. — foram ordenadas a nós sem levar em consideração a Queda, embora não antes da consideração da Queda; pois todas as coisas que Deus decreta existem ao mesmo tempo em Sua mente; elas estavam todas, tanto uma quanto a outra, ordenadas às nossas pessoas. Mas Deus, nos decretos sobre esta primeira sorte de bênçãos nos viu como criaturas que Ele poderia e gostaria de fazer assim gloriosos... entretanto a segunda sorte de bênçãos foi ordenada a nós apenas em consideração à Queda, e às nossas pessoas consideradas como pecadoras e incrédulas. A primeira sorte foi para “louvor da graça de Deus”, considerando a graça pela gratuidade do amor; enquanto o segundo tipo é para “o louvor da glória da sua graça”, considerando a graça da livre misericórdia”. As primeiras e maiores bênçãos devem ter a sua plena realização no Céu, sendo adequadas para aquele estado em que estaremos estabelecidos, e como na principal intenção de Deus, elas estão diante da outra e são ditas terem sido “antes da fundação do mundo” (Efésios 1:4), então elas devem ser realizadas após este mundo estar terminado, a “adoção” a que estamos predestinados (Efésios1:5) ainda esperamos (Romanos 8:23); enquanto que

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as segundas são bênçãos derramadas sobre nós no mundo inferior, pois é aqui e agora que recebemos a “remissão dos pecados” através do sangue de Cristo. Mais uma vez; as primeiras bênçãos são fundadas unicamente sobre a nossa relação com a pessoa de Cristo, como é evidente, “escolhidos nele... no Amado”; mas as bênçãos da segunda sorte são baseadas em Sua obra, a redenção que advém do sacrifício de Cristo. Assim, as últimas bênçãos são apenas a remoção daqueles obstáculos que por causa do pecado se interpõem em nosso caminho de glória intencionada. Mais uma vez; esta distinção das bênçãos que nós recebemos em Cristo, como criaturas, e por meio de Cristo como pecadores, é confirmada pelo duplo ofício que Ele sustenta em relação a nós. Isto é claramente expresso em: “Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo” (Efésios 5:23). Observe cuidadosamente a ordem desses títulos: Cristo é primeiramente o nosso Cabeça e marido, o que estabelece as bases dessa relação com Deus na qualidade de Seus filhos adotados, como pelo casamento com Seu Filho. Em segundo lugar, Ele é o nosso “Salvador”, o que necessariamente relaciona-se ao pecado. Efésios 5:23 deve ser comparado com Colossenses 1:18-20, onde a mesma ordem é estabelecida: nos versos 18 e 19 aprendemos que Cristo é absolutamente ordenado e Sua igreja com Ele, através do que Ele é o fundador desse estado que nós entraremos após a ressurreição, e, em seguida, no versículo 20 O vemos como redentor e reconciliador: primeiro a “Cabeça” da Sua Igreja, e, em seguida, o seu “Salvador”! A partir desta dupla relação de Cristo com os eleitos surge uma dupla glória para a qual Ele é ordenado: a intrínseca, devida a Ele por ser o Filho de Deus que habita em natureza humana e sendo aí a cabeça de uma Igreja gloriosa (veja João 17:5); e outra mais extrínseca, como adquirida pela Sua obra de redenção e comprada com a agonia de Sua alma (veja Filipenses 2:8-10)! Temos chamado a atenção para o fato de que a única razão para que qualquer alma temente a Deus creia na doutrina da eleição é porque ela a encontra revelada em destaque na Palavra de Deus e, portanto, segue-se que a nossa única fonte de informação sobre a mesma é a Palavra em si. No entanto, o que acaba de ser dito é demasiado geral para ser de ajuda específica para o investigador sério. Quando nos voltamos para as Escrituras por luz sobre o mistério da eleição, é mui essencial que tenhamos em mente que Cristo é a chave para todas as partes delas: “no rolo do livro de mim está escrito” [Salmos 40:7], declara Ele, e, portanto, se tentarmos estudar este assunto à parte dEle, certamente erraremos. Em capítulos anteriores nós evidenciamos que Cristo é a grandiosa origem da eleição, e é a partir desse ponto de partida que devemos proceder, se quisermos fazer qualquer avanço correto. O que acaba de ser sinalizado é válido não apenas no geral, mas em particular: por exem-

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plo, em relação a esse ramo especial de nosso assunto que foi discutido, nós agora seguiremos a partir deste ponto de vista particular. Se formos corretamente de volta para o início propriamente dito, então, aparecerá que Deus Se agradou, e assim resolveu, vir à comunhão com a criatura, o que significa que Ele determinou trazer à existência criaturas que deveriam gozar de comunhão com Ele mesmo. Sua própria glória era unicamente o fim supremo desta determinação, pois “o Senhor fez todas as coisas para atender aos seus próprios desígnios” (Provérbios 16:4). Nós repetimos, que a Sua própria glória foi o motivo único e suficiente que levou Deus a criar a todos: “Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém” (Romanos 11:35-36). A principal glória que Deus projetou para Si mesmo na eleição foi a manifestação da glória de Sua graça. Isto é irrefutavelmente estabelecido por: “E nos predestinou para filhos de adoção por [através, no Grego] Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça” (Efésios 1:5-6). A graça é uma daquelas perfeições ilustres no caráter Divino, que é gloriosa em si mesma, e sempre teria permanecido assim embora nenhuma criatura fosse formada; mas Deus mostrou este atributo na eleição de tal forma que o Seu povo ainda a louvará e glorificará para todo o sempre. Deus mostrou a Sua santidade ao entregar a Lei, o Seu poder na criação do mundo, a Sua justiça em lançar os ímpios no inferno, mas a Sua graça resplandece especialmente na predestinação e a que Seus eleitos são predestinados. Assim, também, quando se diz que Deus deu a “conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou” (Romanos 9:23), a primeira referência é à Sua graça, como Efésios 1:7 demonstra. A segunda pessoa da Trindade foi predestinada para ser Deus-homem, sendo primeiro decretado, pois somos “escolhidos nele” (Efésios 1:4), o que pressupõe que Ele seja escolhido em primeiro lugar, como o fundamento em que nós somos estabelecidos. Somos predestinados para a adoção de filhos, no entanto, é “por Jesus Cristo” (Efésios 1:5). Assim lemos: “O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” (1 Pedro 1:20); como veremos mais tarde que a expressão “antes da fundação do mundo” não é apenas uma observação de tempo, mas, principalmente, uma indicação de eminência ou preferência, que Deus tinha de Cristo em Sua visão antes de Sua intenção de criar o mundo para Ele e Seu povo. Agora, temos mostrado que Cristo foi ordenado para ser Deus-homem para fins muito mais elevados do que a nossa salvação, a saber, para que o próprio Deus Se delei-tasse; para contemplar a imagem perfeita de Si mesmo em uma criatura, e por essa união, comunicarSe com aquele homem de uma maneira e nível que não é possível a qualquer mera criatura como tal.

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Juntamente com o Filho sendo predestinado a ser Deus-homem, ali repousa a Sua gloriosa pessoa, como Sua herança, para ser o fim soberano de todas as outras coisas que Deus faria e a finalidade de quaisquer de suas criaturas racionais que Ele se agradaria em escolher para a glória. Isso fica claro em: “por que tudo é vosso, e vós de Cristo, e Cristo de Deus” (1 Coríntios 3:21-23), que é falado em referência à consumação. Como vocês, os santos, são o fim para o qual todas as coisas foram ordenadas, assim Cristo é o fim de vocês, e Cristo é o propósito de Deus ou o propósito em ação. Nós dizemos que Cristo é “o fim soberano”, e não o fim supremo, pois o próprio Deus está acima e sobre tudo; mas Cristo é o fim soberano de toda a criação, tendo co-autoridade com Deus, abaixo de Deus. Assim, declara-se que “por ele” e “para ele” foram criadas todas as coisas (Colossenses 1:16), como se diz de Deus em Romanos 11:36. Assim, este fim soberano na criação repousa nEle como a herança do Mediador: “O Pai ama o Filho, e todas as coisas entregou nas suas mãos” (João 3:35). Na predestinação do Filho do homem quanto à união com o Filho de Deus, e na constituição dEle através dessa união para ser o nosso fim soberano e de todas as coisas, foi conferido ao homem Cristo Jesus, assim, exaltado ao favor mais alto possível, incomensuravelmente transcendendo toda a graça mostrada para os eleitos, de qualquer forma considerada, de modo que se a nossa eleição é para o louvor da glória da graça de Deus, a Sua muito mais. Mais honra foi conferida “ao santo ser” que nasceu da virgem do que a todos os membros do Seu corpo místico juntos; e isso foi a graça pura e simples, graça soberana, que a concedeu. O que havia em Sua humanidade, simplesmente considerada, o que lhe concedeu direito a tal exaltação? nem poderia haver qualquer mérito previsto que o exigia, por isso deve ser dito sobre o homem Jesus Cristo, como sobre todas as outras criaturas: “Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido?” (1 Coríntios 4:7). Que não seja esquecido que ao decretar a união do Filho do homem com a segunda pessoa da Trindade, com toda a honra e glória envolvidas nisso, Deus era perfeitamente livre, como em todo o restante, para tê-lO decretado ou não, como Ele quisesse; sim, tivesse Ele se agradado, Ele poderia ter nomeado o arcanjo ao invés da semente da mulher, para tal inestimável privilégio. Foi, portanto, a livre graça de Deus, que fez esse decreto, e quanto mais elevada foi a dignidade conferida a Cristo acima de Seus companheiros, tanto maior foi a graça. A predestinação do homem Jesus, então, é o maior exemplo de graça e, portanto, o maior propósito de Deus na predestinação para manifestar a Sua graça (de onde tem o seu título denominado “a eleição da graça” — Romanos 11:5) foi realizado nEle sobre Seus irmãos, para que Ele seja para o louvor da glória da graça de Deus, muito acima do que nós somos. Desde que no caso de Cristo nós temos tanto o padrão quanto o exemplo da eleição, a

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grandiosa origem, é bastante evidente que a graça não deve ser limitada ou entendida apenas como o favor Divino em direção às criaturas que estão caídas e estão entregues à ruína e miséria. A graça não necessariamente supõe pecado nos objetos em que é mostrada, pois a mais alta instância de todas, esta da graça concedida ao homem Cristo Jesus, foi conferida Àquele que não teve pecado e era incapaz disso. Graça é favor mostrado a quem não merece, pois a natureza humana no Deus-homem não mereceu a distinção que lhe foi conferida. Quando estendida às criaturas caídas, é favor demonstrado a merecedores do mal e merecedores do Inferno, mas isso não está implícito no termo em si, como pode ainda ser visto no caso da graça Divina sendo estendida aos anjos não-caídos. Assim, como Cristo é o padrão em quem Deus predestinou Seu povo para ser conforme, Sua eleição deles para a glória eterna estava sob Sua visão deles como criaturas não-caídas e não como criaturas corrompidas. Deus, tendo, assim, absolutamente escolhido o Filho do homem, com isso dotou-O de tal realeza como a ser o fim soberano de todos a quem Ele criaria ou elegeria para a glória, segue-se, portanto, que aqueles de nós que foram escolhidos, foram destinados pela própria ordenação de Deus em nossa escolha de existirmos para a glória de Cristo como a finalidade de nossa eleição, bem como para a própria glória de Deus. Nós não fomos absolutamente ordenados — como Cristo em Sua predestinação única foi no primeiro propósito dEle — senão a partir do primeiro de nós, a intenção de Deus a nosso respeito é que sejamos de Cristo e tenhamos a nossa glória a partir dAquele que é “o Senhor da glória” (1 Coríntios 2:8). Aqui, como em toda parte, Cristo tem a preeminência, pois a pessoa de Cristo, Deus-homem, foi predestinada para a dignidade de Si mesmo, mas nós para a glória de Deus e de Cristo. Embora Deus o Pai, primeiro e unicamente, designou quem os favorecidos seriam, ainda assim, qualquer eleição que houve deveria ser por causa de Cristo, bem como a Sua própria. Em nossa eleição Deus tinha o Seu Filho em vista como Deus-homem, e em Seu propósito sobre Ele como a nossa finalidade, Ele nos escolheu por amor dEle, para que fôssemos Seus “companheiros” ou companhias (Salmos 45:7), assim como Ele era o deleite de Deus (Isaías 42:1), de modo que nós pudéssemos ser o Seu deleite (Provérbios 8:31). Assim, nós fomos dados a Cristo em primeiro lugar, não como pecadores a serem salvos por Ele, mas como membros sem pecado a uma Cabeça sem pecado, como um dom soberano de Sua pessoa, para Sua honra e deleite, e para participar da glória sobrenatural com Ele e dEle. “‘E eu dei-lhes a glória que a mim [como Deus-homem] me deste’, em conformidade com Tua eleição deles e Teu entregar-lhes a Mim para serem Meus. Tu os tens amado como Tu Me tens amado a Mim [ou seja, com um amor eterno na eleição], sim, Tu lhes deste a Mim, para a Minha glória como a finalidade deles, e pelo que, principalmente, Tu lhes amaste” (João 17:22-23).

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E o que se segue imediatamente em João 17? Isto: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo” (v. 24). Cristo foi amado em Sua eleição desde a eternidade, e a partir do amor de Deus por Ele, pessoas foram dadas a Ele — com que propósito? Mesmo para contemplá-lO, admirá-lO e adorá-lO em Sua pessoa e glória, como sendo a própria coisa a que eles foram ordenados, mais do que para a própria glória deles, pois a glória deles surge a partir de contemplar a dEle (2 Coríntios 3:18). E o que é esta glória a que Cristo foi ordenado? A glória de Sua pessoa primeiro absolutamente decretada a Ele é a elevação de Sua glória no céu, onde somos ordenados a contemplála. E observe como Ele aqui (João 17:24) revela o principal motivo de Deus nisso: “porque tu me amaste”, Cristo sendo escolhido em primeiro lugar na designação de Deus, os membros foram escolhidos e dados a Ele para que eles redundassem em Sua glória. Sendo nós escolhidos para a glória de Cristo como nossa finalidade, e por amor a Ele, bem como para a glória da graça de Deus para conosco, Deus ordenou uma dupla relação de Cristo para conosco para a Sua glória, adicional àquela glória absoluta de Sua pessoa. Primeiro, a relação de uma “Cabeça”, onde nós fomos entregues a Ele como membros de Seu corpo, e como uma esposa ao seu marido para ser seu cabeça. Em segundo lugar, a relação de um “Salvador” e Redentor, que é, em adição à sua liderança; e ambos para adicional glória de Cristo, e também para a manifestação da graça de Deus em relação a nós. Estas duas relações são bastante distintas e não devem ser confundidas. “Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo” (Efésios 5:23), cada um desses ofícios foi nomeado a Ele pelo beneplácito da vontade de Deus. Esta mesma dupla relação de Cristo em relação ao Seu povo é apresentada novamente em Colossenses 1:18-20, esta honra oficial dupla conferida a Ele está além e acima das realezas absolutas de Sua pessoa como Deus-homem. Agora vimos que a dupla relação de Cristo quanto ao Seu povo tem, adequadamente, um duplo e distinto aspecto e consideração quanto a nós e sobre nossa eleição por Deus, que não foi absoluta como a de Cristo foi, mas em relação aos Seus dois ofícios principais. O primeiro diz respeito às nossas pessoas, sem a consideração de nossa Queda em Adão, pelo qual fomos contemplados na pura porção da criação como a ser criada, e nesta consideração Deus nos ordenou para a glória final, sob relação com Cristo como “Cabeça”, seja como membros de Seu corpo ou como Sua noiva, ou melhor, tanto como sendo Ele a Cabeça da Igreja; como um ou como ambas, as nossas pessoas eram plenamente capazes anteriormente ou sem qualquer consideração de nossa Queda. Em segundo lugar, as nossas pessoas vistas como caídas, como corruptas e pecaminosas, e, portanto, como objetos a serem salvos e redimidos da escravidão do mesmo, sob a nossa relação com Ele como um “Salvador”.

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Cada uma dessas relações foi para a glória da graça de Deus. Primeiro, em Seu desígnio de favorecer-nos, considerados puramente como criaturas, para uma maior glória por Seu Cristo do que era atingível pela lei da criação. Ordenar-nos a esta glória foi pura graça, não menos do que redimir-nos do pecado e da miséria em que caímos; pois isso foi totalmente independente das obras ou mérito, assim como a eleição de Cristo (que é o padrão da nossa) se deu além da consideração de obras de qualquer tipo, como Ele declarou: “a minha bondade não chega à tua presença” (Salmo 16:2). “Embora o trabalho da vida e agonia da morte do Filho refletiu um brilho incomparável sobre cada atributo de Deus, contudo, o Deus mui bendito e infinitamente feliz não tinha nenhuma necessidade da obediência e da morte de Seu Filho, foi por nossa causa que a obra da redenção foi empreendida” (C. H. Spurgeon). É a esta graça original que 2 Timóteo 1:9 refere-se, foi a graça somente, que levou Deus a nos resgatar e chamar, à parte das obras, mas “segundo” esta graça matriz pela qual fomos ordenados para a glória desde o início. Nessa graça original repousa o grandioso e último desígnio de Deus, pois ela terá sua realização última em todos, e com a perfeição de todos. Deus poderia imediatamente, sobre a nossa primeira criação, ter nos tomado nesta glória. Mas em segundo lugar, para adicional magnificação de Cristo e demonstração mais ampla de Sua graça, para estendê-la ao seu alcance máximo; como a palavra em Hebraico é: “Estende a tua benignidade” (Salmo 36:10). Ele não quis conduzir-nos à plena posse da nossa herança em contemplar a glória pessoal de Cristo, nossa cabeça; mas permissivamente ordenou que cairíamos em pecado, e, portanto, decretou criar-nos em condições mutáveis (como a lei da criação requeria), o que abriu caminho para a abundância de Sua graça (Romanos 5:15). Isto é confirmado por: “Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia [um termo que denota nosso merecimento do mal], pelo seu muito amor com que nos amou” (Efésios 2:4). Primeiro Deus nos amou, vistos como criaturas sem pecado; e isso se tornou a base da “misericórdia” para conosco, quando considerados como pecadores. Foi sobre esta determinação Divina que os eleitos não entrariam imediatamente após a sua criação na glória a que foram ordenados, antes primeiro seriam permitidos cair em pecado e miséria e, em seguida, seriam libertos do mesmo, de forma que Cristo tivesse Sua grandiosa e maior glória do ofício de Redentor e Salvador acrescentada à Sua eleição de preeminência. É nosso ser pecador e miserável que ocupa a nossa preocupação presente e imediata, como a que estamos mais solícitos quanto a deixar este mundo, e é por isso que as Escrituras, principalmente, apresentam a Cristo como Redentor e Salvador. Dizemos “principalmente” pois como vimos elas não são, de forma alguma, silenciosas sobre a maior glória advinda do fato dEle ser o Cabeça da Igreja; sim, suficiente é dito nelas para atrair os nossos pensamentos, afeições e esperanças para contemplá-lO em Sua grandiosa glória.

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Ao concluir este esboço sobre a ordem Divina da eleição de Cristo, e nossa, como é representada nas Escrituras, que seja destacado que não supomos um intervalo de tempo entre Deus predestinar a Cristo, como Cabeça e O predestinar como Salvador, pois tudo foi simultâneo na mente de Deus; mas a distinção é da ordem de natureza, e para a nossa melhor compreensão dos mesmos. Cristo não poderia ser o “Cabeça”, sem o correlato de Seu “corpo” místico, como Ele não poderia ser o nosso “Salvador”, a menos que houvéssemos caído. “Eis aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma” (Isaías 42:1), Cristo foi primeiramente o eleito e deleite de Deus, e depois Seu servo — sustentado por Ele na obra da redenção. Absoluta e principalmente Cristo como Deushomem foi ordenado para Ele mesmo, para Sua própria glória; relativa e, secundariamente, Ele foi escolhido para nós e para a nossa salvação. A glória da pessoa do Deus-homem, absolutamente considerada, foi o desígnio primário de Deus, a que Ele determinou em Seu coração; próximo a isso foi a Sua ordenação de Cristo para ser um Cabeça para nós e de nós para sermos um corpo para Ele, isso por nossa união com Ele como nossa Cabeça; Ele foi o autor suficiente e eficiente de tais bênçãos, à medida que nos tornarmos imutavelmente santos; da filiação a partir de Sua Filiação; da aceitação graciosa de nossas pessoas nEle como o principal Amado, e herdeiros de uma mesma glória com Ele, todas estas benções nos capacitam a sermos considerados por Deus como criaturas puras através da nossa união com Cristo, e não necessitados de Sua morte para comprá-las para nós, sendo bastante distintas da bênção da redenção como Efésios 1:7 (seguido dos versos 3-6) mostra com suficiente clareza. Como fazer de Cristo a nossa cabeça foi o primeiro no plano de Deus, assim será o último a ser efetuado, sendo esta a maior de todas as bênçãos da “salvação”, a coroa de tudo, quando nós estaremos “para sempre com o Senhor”. Descendo a um nível muito mais baixo, que seja sinalizado que certamente os santos anjos não podiam ser considerados na massa corrupta quando eles foram escolhidos, uma vez que nunca caíram; por isso, é mais razoável supor que eram considerados por Deus mesmo quando estavam na mesma pura massa da criação, quando Ele os elegeu. Assim foi com a natureza humana de Cristo, que é o objeto da eleição, pois nunca caiu em Adão, nem nunca entrou em um estado corrupto, mas foi “escolhido dentre o povo” (Salmos 89:19), e, consequentemente, as pessoas das quais Ele foi escolhido devem ser consideradas como ainda não-caídas. Isso por si só concorda com o tipo de Eva (a Igreja) que está sendo dada a Adão (Cristo) antes do pecado entrar no mundo. Assim, a dupla ordenação dos eleitos para a glória e para a salvação (tendo em vista a Queda) de Deus concorda com a dupla ordenação dos não-eleitos: preterição como criaturas e condenação como pecadores.

Nota: Por muito do que foi exposto acima, estamos em dívida com Thomas Goodwin. Em alguns

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lugares temos sido propositadamente repetitivos neste capĂ­tulo, pois a maior parte do fundamento examinado ĂŠ inteiramente nova para a maioria dos nossos leitores.

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7 • Seu Propósito No último capítulo procuramos voltar ao começo de todas as coisas e seguir a ordem dos conselhos de Deus em conexão com Seu decreto eterno da eleição, na medida em que são revelados nas Sagradas Escrituras. Agora buscaremos projetar os nossos pensamentos para o futuro, e contemplar o grande propósito de Deus, ou o como Ele ordenou o Seu povo a isso. Aqui estaremos em terreno mais familiar a muitos de nossos leitores, mas não podemos ignorar o fato de que, mesmo esta fase do nosso assunto será inteiramente nova para um bom número de pessoas que analisará estas linhas, e por causa deles, especial-mente, caberá a nós prosseguir lentamente, não considerando nada como garantido, a não ser a clara prova bíblica para o que avançamos. O que estará diante de nós é indizivelmente bendito, oh! que agrade a Deus assim vivificar os corações de ambos, escritor e leitor, para que possamos realmente nos regozijar e adorar.

1. O propósito de Deus em nossa eleição foi que fôssemos santos: “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Efésios 1:4). Tem havido muita diferença de opinião entre os comentaristas sobre se isso se refere a esta santidade imperfeita da graça que temos neste mundo, ou àquela santidade perfeita da glória, a qual será nossa no mundo vindouro. Pessoalmente, acreditamos que ambas estão incluídas, mas que esta última é a que é principalmente intencionada, e por isso vamos expô-la. Em primeiro lugar, que esta é a perfeita santidade do Céu. Pois esta é a principal referência a partir da cláusula de amplificação “e irrepreensíveis diante dele”, esta é uma tal santidade na qual o próprio Deus não pode encontrar nenhuma falha. Agora, a santidade imperfeita que os santos têm pessoalmente nesta vida, ainda que seja uma santidade diante de Deus em verdade e sinceridade, ainda assim não é uma santidade “irrepreensível”, não é uma sanidade em que Deus se deleita plenamente. Em segundo lugar, assim como Deus ordenou aperfeiçoar a santidade no mundo vindouro, assim também Ele nos tem nos ordenado a uma santidade evangélica neste mundo, ou então nunca chegaremos ao Céu; a menos que sejamos nos tornemos puros de coração aqui, nunca veremos a Deus lá. A santidade é a imagem de Deus na alma, uma semelhança com Deus que nos torna aptos à comunhão com Ele; e, portanto, o apóstolo declara que devemos “seguir a santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hebreus 12:14). Assim como a razão é o fundamento do conhecimento, e nenhum homem é capaz de chegar ao conhecimento, a menos que ele obtenha a razão, assim não podemos alcançar a glória do

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Céu, a menos que o princípio da santidade seja Divinamente comunicado a nós. Portanto, assim como o primeiro propósito de Deus em nossa eleição foi que fôssemos santos diante dEle, agora façamos disso a nossa preocupação primordial. Aqui também está o sólido conforto para aqueles que encontram que o pecado interior é o seu fardo mais pesado, ainda que a sua santidade seja mui imperfeita nesta vida, contudo ela é o penhor de uma santidade perfeita na vida vindoura. A santidade deve ser o fruto de nossa eleição em Cristo, pois é essencial que tenhamos uma existência nEle. Seria uma contradição nos termos dizer que Deus elegeu um homem para estar em Cristo e não o fez para ser santo. Se Deus ordena um homem para estar em Cristo, então Ele ordenou que ele fosse um membro de Cristo, e deve haver conformidade entre a Cabeça e os membros. Os sujeitos da eleição da graça foram dados a Cristo como Sua Esposa, e marido e mulher devem ser do mesmo tipo e imagem. Quando Adão foi ter uma esposa, ela deveria ser da mesma espécie; nenhum dos animais estava apto para ser um parceiro para ele. Deus os trouxe todos à sua frente, mas entre todos eles, “para o homem não se achava ajudadora idônea” (Gênesis 2:20), porque eles não eram da mesma imagem e espécie. Portanto, se Deus escolhe um homem em Cristo, o Santo, tal homem deve necessariamente ser santo, e esta é a razão pela qual a nossa santidade está vinculada ao fato de termos sido eleitos nEle (Efésios 1:4). Deus, então, decretou que o Seu povo fosse perfeitamente santo diante dEle, que estivesse em Sua presença para sempre, para ali frui-lO para sempre, e deliciar-se naquele gozo, pois, como o salmista nos diz: “na tua presença há farturas de alegria” [Salmos 16:11]. Nisso é revelado a nós no que consiste a inefável bem-aventurança de nossa herança eterna, a saber, a perfeita santidade, o perfeito amor a Deus; esta é a essência da glória celestial. Se todos os apóstolos tivessem passado toda a vida útil deles em uma tentativa de retratar e descrever o que é o Céu, eles não poderiam ter feito mais do que expandirem-se sobre estas palavras: perfeita santidade na presença de Deus, perfeito amor a Ele, perfeito gozo dEle, assim como somos amados por Ele. Este é o Céu, e é para ele que Deus decretou trazer o Seu povo. Este é seu primeiro propósito em nossa eleição, a saber, conduzir-nos a uma santidade irrepreensível diante dEle.

2. O propósito de Deus em nossa eleição foi que viéssemos a ser Seus filhos: “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Efésios 1:5). Santidade é aquilo que nos habilita para o Céu, pois uma pessoa profana não poderia apreciar o Céu, se ele entrasse ali, estaria completamente fora de seu elemento nativo. Santidade, então, é o que constitui a iminência dos santos para a sua herança na luz (Colossenses 1:12). Mas a adoção é aquilo que dá o direito à glória do céu, sendo concedido a eles como uma dignidade ou prerrogativa (João 1:12). Como nós

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já apontamos em outras ocasiões, as duas últimas palavras de Efésios 1:4 pertencem corretamente ao versículo 5: “Em amor nos predestinou para filhos de adoção”. O amor de Deus por Seu Filho amado era tão grande que, tendo nos escolhido nEle, Seu coração se inclinou a nós, como sendo nós um só com Cristo, e, portanto, Ele nos ordena a mais esta honra e privilégio. Isto concorda perfeitamente com: “Vede quão grande amor nos tem concedido o Pai, que fôssemos chamados filhos de Deus” (1 João 3:1). Deus poderia ter-nos feito perfeitamente santos em Cristo e não acrescentado mais nenhuma bênção a isso. “Tendes o vosso fruto para santificação”, diz o apóstolo (Romanos 6:22), e este é fruto precioso; mas ele não para por aí: “e por fim a vida eterna”, isso é acrescentado como um fruto e privilégio adicionais. Da mesma maneira, Deus acrescentou à adoção a santidade, como diz o salmista: “o Senhor dará graça e glória” (84:11). Como o nosso Deus, Ele nos escolheu para a santidade, de acordo com esta declaração expressa: “Santos sereis, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo” (Levítico 19:2). Mas, como Ele se tornou nosso Pai em Cristo, Ele nos predestinou para a adoção de filhos. Aqui, então, está a dupla relação na qual o Altíssimo sustenta o Seu povo em e por meio de Cristo, e há a consequente bênção dupla sobre nossas pessoas por causa de Cristo. Observe quão minuciosamente isso corresponde com: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Efésios 1:3). Pela adoção nos tornamos filhos de Deus segundo a lei, assim como pela regeneração somos feitos Seus filhos segundo a natureza. Pelo novo nascimento nos tornamos (experimentalmente) membros da família de Deus; pela adoção temos o status jurídico de filhos, juntamente com todos os elevados privilégios que esta relação envolve: “E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho” (Gálatas 4:6). A adoção faz conhecidas as elevadas prerrogativas e bênçãos que são nossas em virtude da união com Cristo, o direito legal que temos a todas as bênçãos que desfrutamos, tanto aqui como no por vir. Como o apóstolo nos lembra que se nós somos filhos, então somos “herdeiros”, coerdeiros com Cristo; sim, herdeiros de Deus (Romanos 8:17), para possuir e desfrutar de Deus como Cristo o faz. “Parece-vos pouco aos vossos olhos ser genro1 do rei, sendo eu homem pobre e desprezível?”, exclamou Davi, quando foi sugerido que ele se casasse com Mical (1 Samuel 18:23); você pode alegremente ser o favorito do rei e Ele pode engrandecêlo, mas tornar-se seu filho, segundo a lei, é a maior honra de todas. É por isso que nos é dito logo após, em 1 João 3:1: “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é mani__________ [1] A palavra genro em inglês escreve-se “son-in-law”, e a tradução literal para o português é “filho segundo a lei”. Semelhantemente a palavra nora escreve-se “daughter-in-law” e significa literalmente “filha segundo a lei”. Aqui e a seguir A. W. Pink, fará uma bela analogia entre essas palavras usadas para designar genro e nora, e a nossa adoção por parte de Deus, em Cristo.

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festado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se mani-festar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” (v. 2); como Ele em nossa proporção, como Ele frui perfeitamente Deus, assim nós fruiremos. Que seja devidamente observado que é “por Jesus Cristo” que somos filhos e herdeiros de Deus. Cristo é o nosso padrão na eleição, Aquele em cuja imagem nós somos predestinados para sermos conformes. Cristo é o Filho natural de Deus, e nos tornamos (pela união com Cristo), filhos legais de Deus. “A fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Romanos 8:29), isso significa que Deus estabeleceu a Cristo como o protótipo e obraprima, e nos fez para que sejamos muitas pequenas cópias e modelos dEle. Cada dignidade que possuímos, todas as bênçãos que desfrutamos, salvo nossa eleição quando Deus nos escolheu nEle, devemos a Cristo. Ele é a causa eficaz da nossa adoção. Cristo, como já dissemos, é o Filho natural de Deus; como, então, nos tornamos Seus filhos? Da seguinte maneira: Deus nos deu a Cristo para nos casarmos com Ele, e Deus nos prometeu a Ele desde a eternidade, e assim nos tornamos genros de Deus, assim como uma mulher chega a ser a nora de um homem ao se casar com seu filho. Nós devemos a nossa adoção à nossa relação com a pessoa de Cristo, e não à Sua obra expiatória. A nossa adoção como originalmente ocorreu na predestinação, derramou-se sobre nós, não foi fundada no momento do resgate ou na obediência de Cristo, mas em Cristo ser o Filho natural de Deus. Nossa justificação está de fato fundamentada na obedi-ência e sofrimentos de Cristo: “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas” (Efésios 1:7). Mas nossa adoção e o fato de nos tornarmos, segundo a lei, filhos de Deus é através de Cristo ser o Seu Filho natural, e nós seus irmãos em relação à Sua pessoa. “Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor” (1 Coríntios 1:9). Essa relação ou comunhão envolve a nossa participação em Suas dignidades e tudo aquilo que nEle fomos capacitados; exatamente como uma mulher adquire um direito legal sobre todas as posses do homem com quem ela se casa. Assim como o fato de Cristo ser o Filho natural de Deus é o fundamento da Sua obra possuir valor infinito, assim, nossa adoção é fundada sobre a nossa relação com a Sua pessoa, e então nossa justificação sobre a Sua obra meritória. Devemos, no entanto, adicionar esta palavra de cautela sobre o que acaba de ser apontado: quando caímos em Adão, perdemos todos os nossos privilégios, e, portanto, Cristo dignouse a comprá-los novamente; e, portanto, segue-se que a adoção, e todas as outras bênçãos, são os frutos do Seu mérito desde que o Seu favor real está em causa. Assim, o apóstolo nos diz que Cristo se encarnou “para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos” (Gálatas 4:5), nossos pecados e escravidão sob a Lei e sua maldição colocavam um obstáculo contra a real concessão Divina da adoção. Mas

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observe a precisão imediata da linguagem usada: a redenção de Cristo não é dita obter a adoção para nós, mas apenas para que possamos recebê-la. Aquilo que adquiriu a adoção foi nossa relação com Cristo como genros de Deus: sendo este o propósito de Deus desde a eternidade. Agora, consideremos devidamente a grandeza deste privilégio. Adão foi criado santo, e Lucas 3:38 nos diz que ele era “o filho de Deus”, mas em nenhum lugar é dito que ele era o filho de Deus por adoção através de Cristo. Assim também em Jó 38:7 os anjos são chamados de “estrelas da manhã” e “filhos de Deus”, mas nunca dizem que eles assim o são por adoção através de Cristo. Eles eram “filhos” de fato pela criação, pois, Deus os fez; mas não genros de Deus por estarem casados com Seu filho, que é uma graça e dignidade peculiar aos crentes. Assim, nós excedemos os anjos pela nossa relação especial com o Filho do amor de Deus. Cristo em nenhum lugar chama os anjos de Seus “irmãos”, como Ele faz conosco! Isso é confirmado por Hebreus 12:22, onde, ao contrário dos anjos mencionados anteriormente, lemos sobre “a Igreja dos primogênitos”, um título que denota superioridade (Gênesis 49:3); nós, estando relacionados com o “Primogênito” de Deus temos maior privilégio de filiação do que aqueles que os anjos possuem. “Uma figura talvez nos ajude aqui. Um pai escolhe uma noiva para o seu filho, como Abraão escolheu uma dentre sua parentela para Isaque, e dá-lhe um dote consideravel, além de presenteá-la com ornamentos de noiva, como Eliezer colocou sobre Rebeca. Mas, ao se tornar a esposa de seu filho, ela se torna a sua filha, e agora seus afetos fluem a ela, não apenas como uma noiva adequada para o seu querido filho; ele não apenas admira a sua beleza e graça, e fica encantado com a doçura de sua disposição, mas ele é movido também com amor paternal em relação a ela, como se a tivesse adotando para si mesmo, e assim ela passa a ocupar uma nova e mais próxima relação. Figuras são, é claro, necessariamente imperfeitas, e como tal não devem ser muito enfatizadas; mas se o que temos aqui apresentado a todos nos ajuda a chegarmos a uma melhor compreensão do maravilhoso amor de Deus em nossa adoção para Si mesmo, isso não estará fora de lugar. Vemos, portanto, que a predestinação para a adoção de filhos, é uma bênção mais elevada, mais rica e maior do que ser escolhido para a santificação, e pode-se dizer a seguir sobre ela como um fruto adicional e especial do amor de Deus. Mas o amor de Deus, ao predestinar a Igreja para a adoção de filhos por Jesus Cristo, para Si mesmo, tem uma raiz ainda mais profunda se a vermos como a noiva de Seu amado Filho. Isso brota e é mais próximo e intimamente ligado à verdadeira filiação, real e eterna de Jesus. Sendo escolhidos em Cristo, os eleitos se tornaram filhos de Deus. Por quê? Porque Ele é o verdadeiro, real e essencial Filho do Pai; e, portanto,

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quando em união com Ele, que é o Filho de Deus por natureza, eles tornam-se os filhos de Deus por adoção. Fosse Ele apenas um Filho por ofício, ou encarnação, este não seria o caso, pois Ele mesmo, então, seria apenas um filho por adoção. Mas, sendo o Filho de Deus por subsistência eterna, Ele pode dizer: “Eis-me aqui a Mim, e aos filhos que Tu Me deste, Eu Teu Filho por natureza, eles Teus filhos por adoção”. Vemos, então, que tão grande, tão especial foi o amor de Deus por Seu Filho unigênito, para que, vendo a Igreja em união com Ele, Seu coração abraçou-a com o mesmo amor com o qual Ele O amava” (J. C. Philpot).

3. O propósito de Deus em nossa eleição foi que viéssemos a ser salvos, salvos da Queda e de seus efeitos, do pecado e de suas decorrentes consequências. Esta particular ordenação de Deus estava sobre Sua presciência de nossa deserção em Adão, que era a nossa cabeça natural e representativa; pois como apontado nos capítulos anteriores, Deus decretou permitir a Queda de Seu povo, a fim da maior manifestação de Sua própria graça e maior glória do Mediador. Obviamente, o próprio termo “salvação” implica pecado, e este por sua vez pressupõe a Queda. Mas essa determinação de Deus para permitir que Seu povo caísse em pecado e, em seguida, o libertasse dele, era inteiramente subserviente ao Seu desígnio primordial sobre os eleitos e a glória final para a qual Ele lhes ordenou. A subordinação deste terceiro propósito de Deus em nossa eleição àqueles que já consideramos aparece em “que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” (2 Timóteo 1:9). Se a Escritura acima for cuidadosamente analisada, será visto, em primeiro lugar, que Deus formou um “desígnio” em relação ao Seu povo, e que “graça” lhes foi dada em Cristo Jesus “antes dos tempos dos séculos” historicamente ou na mente de Deus, a referência sendo ao Seu ato soberano em destacá-los a partir da pura massa da criação, dando a eles a existência em Cristo, e concedendo-lhes a graça da filiação. Em segundo lugar, que Deus “nos salvou” (aqui a referência é aos crentes) e “nos chamou com uma santa vocação”, que se refere ao que ocorre no momento em que Ele nos traz de nossa morte em pecado por meio de um chamado eficaz para a santificação (cf. Tito 3:5). Em terceiro lugar, que essa salvação e chamado a nós foi “não segundo as nossas obras”, quer reais ou previstas, mas “segundo o seu próprio propósito”, isto é, foi baseado em Sua intenção original que devemos ser Seus filhos. Nem os nossos méritos (pois não temos nenhum), nem a nossa miséria, moveu Deus a nos salvar, mas o fato de que Ele nos deu a Cristo desde o início. Como já apontado anteriormente, Deus atribuiu a Cristo uma dupla relação ao Seu povo: “Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo” (Efésios 5:23). Na

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mesma Epístola Ele é visto pela primeira vez como Cabeça em quem nós fomos originalmente abençoados “com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais” (1:3); depois, Ele é apresentado como Salvador, como o Cristo que amou a Igreja, “e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a” (5:25-26). Ao falar dEle como “o salvador do corpo” é indicado que Ele não é o Salvador de ninguém mais, o que é claramente confirmado por: “Portanto, tudo sofro por amor dos escolhidos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus com glória eterna” (2 Timóteo 2:10), observe, não apenas “salvação”, indefinidamente, mas “a salvação” decretada por Deus para os Seus. Nem a passagem “esperamos no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis” (1 Timóteo 4:10) de maneira algum entra em confronto com isso: o “Deus vivo” faz referência ao Pai, e “Salvador” é mais corretamente traduzido como “Preservador”, na Interlinear de Baxter. Agora, esta “salvação” que Deus decretou para os Seus eleitos, vistos como caídos em Adão, pode ser resumida em dois pontos: da culpa e da penalidade pelo pecado, e de seu domínio e poder; estes se relacionando, respectivamente, com as posições legais e experimentais. Eles são realizados no tempo, pelo que Cristo fez por nós, e por aquilo que o Espírito opera em nós. Sobre o primeiro está escrito: “Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para a aquisição da salvação, por nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5:9); sobre este último, lemos: “por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade” (2 Tessalonicenses 2:13). É por este último que obtemos provas e garantia do primeiro: “Sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus; porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo” (1 Tessalonicenses 1:4-5). Quando a nossa salvação do pecado for consumada, nós seremos libertos da própria presença dele.

4. O propósito de Deus em nossa eleição foi existíssemos para Cristo: “Tudo foi criado por ele e para ele” (Colossenses 1:16). Deus não somente nos escolheu em Cristo e nos predestinou para a filiação por meio dEle, mas deu-nos a Ele, para que Cristo fosse também o fim do propósito de Deus na escolha de aperfeiçoar a santidade e adoção. Deus tendo um Filho natural, a segunda pessoa da Trindade, a quem Ele designou tornar visível em natureza humana, por meio de uma união dela ao Seu Filho, decretou para Sua maior glória, nos ordenar para a adoção de filhos a Ele e, como irmãos para Ele, de forma que Ele não estivesse sozinho, mas fosse “o primogênito entre muitos irmãos”. Como em Zacarias 13:7 o homem Jesus Cristo é designado “companheiro” de Jeová, assim no Salmo 45:7 nós aprendemos que Deus predestinou outros a existirem para o Seu Filho, para serem Seus companheiros: “te ungiu com óleo de alegria mais do que a teus companheiros”.

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O assunto dos decretos Divinos é tão vasto em seu alcance (quer olhemos para trás ou para a frente) e tão abrangente em seu escopo (quando contemplamos tudo o que está envolvido e incluído no mesmo), que está longe de ser uma tarefa fácil apresentar um esboço resumido (que é tão elevado quanto este escritor aspira) do mesmo; e quando é feita a tentativa de fornecer um esquema ordenado e lidar separadamente com as suas características mais essenciais e distintivas, é quase impossível evitar uma medida de sobreposição; no entanto, se tal repetição torna mais fácil para o leitor assimilar os aspectos principais, nossa finalidade será cumprida. Parte do que queremos agora contemplar em conexão com o projeto de Deus em nossa eleição foi de alguma forma antecipada, inevitavelmente antecipada, no capítulo sobre a natureza da eleição, quando, ao mostrar que a intenção original de Deus foi anterior à Sua previsão de nossa Queda, nós abordamos o lado positivo de Seu desígnio. Temos procurado destacar a distância infinita entre a criatura e o Criador, o Alto, o Sublime, e que, devido à mutabilidade de nosso primeiro estado, por natureza, houve uma necessidade da graça de criação superior se a condição e posição de ambos, homens ou anjos, deveriam ser imutavelmente fixadas, o que Deus Se agradou designar por meio de uma eleição da graça. E, portanto, Deus por essa eleição também ordenou aqueles a quem Ele escolheu a uma união de criação superior com Ele e comunicação de Si mesmo, como o nosso fim mais elevado e final, que está muito acima daquela relação que tivemos com Ele por mera criação; esta sendo realizada por e através de Cristo. “Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele” (1 Coríntios 8:6). Notemos primeiro a línguagem discriminante utilizada neste versículo: há a indicação de uma diferença feita aqui entre o “nós” e “todas as coisas”, como sobre um grupo seleto e especial, o qual é repetido na segunda metade do verso. Nós, e todas as outras coisas, somos do Pai, “dEle” ou por Sua vontade e poder, como a causa de origem: isso é comum a “nós” e todas as Suas criaturas. Mas o “nós” é falado aqui por Ele como de um remanescente à parte, separado para alguma maior excelência e dignidade, e este grupo especial é também referida como “nós por ele” (o Senhor Jesus), em contraste com o “pelo qual são todas as coisas”. A Versão Americana [da KJV] mostra “um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas, e nós, (Grego eis) nEle”, o que é bastante justificável, a referência aqui sendo de Deus levando-nos a Si mesmo por um amor especial e por uma união especial conSigo; compare “à igreja dos tessalonicenses em Deus, o Pai” (1 Tessalonicenses 1:1). Mas o Grego significa o fato de termos sido escolhidos para a Sua glória, “para Ele”, o nosso ser nEle é o fundamento do nosso ser para Ele. A distinção a que acabamos de advertir recebe outra ilustração e confirmação em Efésios

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4:6 onde está escrito: “Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós”. Aqui, novamente, encontramos a mesma diferença utilizada nas frases sobre todas as coisas e nós. Sobre todas as coisas, Deus é dito ser “sobre todos”, pelo que entendemos a sublimidade e transcendência da natureza e essência Divinas como sendo infinitamente superiores a essa existência a qual todas as criaturas têm pela participação a partir dEle. No entanto, em segundo lugar, o transcendente Alguém também é iminente, próximo, transpassando “por” todas as criaturas. Ele está presente com todos, ainda assim sustentando um ser diferente de todos, como o ar permeia todas as nossas habitações, sejam elas palácios ou casebres. Mas em terceiro lugar, quando se trata dos santos, é “em todos vós”, esta é a graça soberana fazendo-os diferir de todo o restante. Deus é tão unido a eles a ponto de ser feito um com eles, de uma forma especial e por meio de uma relação especial. Quão maravilhosa é esta graça que tomou tais criaturas como nós somos, em união com Alguém tão elevado e inefável como Deus é! Este é o ápice de nosso privilégio e felicidade. Se compararmos Isaías 57:15 com 66:1-2, veremos como ali o próprio Deus destacou a sublimidade e a transcendência de Sua própria pessoa e a maravilha e medida de Sua graça em relação a nós. No primeiro, Deus fala de Si mesmo como “o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito”, enquanto no outro Ele declara: “O céu é o meu trono, e a terra o escabelo dos meus pés... mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito, e que treme da minha palavra”. Como isso demonstra a infinita condescendência de Seu favor que toma o pó animado, habita em nós, Se comunica conosco, como com nenhum outro, e nos dá uma participação nEle, como os anjos não têm! Antes de prosseguir com a nossa exposição de 1 Coríntios 8:6, na medida em que ele recai sobre o nosso assunto presente, talvez devêssemos divagar por um momento e fazer um breve comentário sobre as palavras: “Mas, para nós há um só Deus, o Pai”, que foram grosseiramente pervertidas por aqueles que negam uma Trindade de pessoas na Divindade. O termo “Pai” aqui (como em Mateus 5:16; Tiago 3:9, e etc.) não é usado sobre a primeira pessoa em contraste com a segundo e a terceira, mas se refere a Deus como Deus, à natureza Divina como tal. Se pudesse ser mostrado a partir deste versículo que Cristo não é Deus no sentido mais absoluto (veja Tito 2:13), então por paridade de razão seguese necessariamente que “o único Senhor” negaria que o Pai é Senhor, desmentindo Apocalipse 11:15, e etc. O principal pensamento de 1 Coríntios 8:6 torna-se bastante compreensível quando percebemos que este versículo fornece uma antítese perfeita e oposição aos falsos dispositivos das religiões pagãs mencionados no versículo 5. Entre os pagãos, havia muitos “deuses” ou divindades supremas e muitos “senhores” ou pessoas intermediárias e mediadores. Mas os Cristãos têm apenas uma Divindade supre-

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ma, o Deus Uno e Trino, e apenas um Mediador, o Senhor Jesus Cristo (cf. João 17:3). Cristo tem um duplo “Senhorio”. Primeiro, um natural, um não-derivado, pertencente a Ele considerado simplesmente como a segunda pessoa da Trindade. Em segundo lugar (a que 1 Coríntios 8:6 se refere), um derivado, o Senhorio econômico e dispensatório, recebido por comissão de Deus, considerado como Deus-homem. Foi a esta alusão feita anteriormente, na qual foi declarado que Deus decretou que o homem Cristo Jesus fosse considerado em união com o Seu Filho, e assim indicou a Ele a Sua “finalidade soberana”. A administração do universo foi colocada debaixo dEle, todo o poder está comissionado a Ele (João 5:22, 27; Atos 2:36; Hebreus 1:2). Cristo como Deus-homem tem a mesma autoridade com Deus (João 5:23), ainda assim, sob Ele, como Coríntios 3:23 diz: “Pede-me” (cf. Salmos 2:8). Filipenses 2:11 também demonstra isso. A próxima coisa em 1 Coríntios 8:6 que gostaríamos de nos alongar é a cláusula “e nós nEle” (Grego) ou como a margem [da versão bíblica usada pelo autor, King James – N. do R.] o apresenta “nós por Ele”. Tal união sobrenatural com Deus e comunicação de Deus é o Seu último propósito para nós em Seu escolher-nos. Por isso, é que tantas vezes lemos que: “Porque o Senhor escolheu para si a Jacó, e a Israel para seu próprio tesouro” (Salmos 135:4). “A esse povo que formei para mim” (Isaías 43:21). “Reservei para mim sete mil homens” (Romanos 11:4). Esse Seu escolher-nos não é apenas uma separação de todos os outros para sermos Sua propriedade peculiar (Êxodo 19:5), nem apenas que Deus tem nos separado para a Sua adoração e serviço peculiar para que sejamos santos para Ele mesmo (Jeremias 2:3), nem apenas que devemos relatar o Seu louvor (Isaías 43:21), pois mesmo os ímpios fazem isso (Provérbios 16:4; Filipenses 2:11); mas somos peculiarmente para Ele mesmo e para Sua glória, plenamente em uma forma de graça e amável bondade. Tudo o que a graça pode fazer por nós ao comunicar o próprio Deus para nós, e tudo o que Ele fará por nós para a magnificação da Sua glória, surge completamente a partir do livre favor que Ele demonstra para conosco. Em outras palavras, Deus não terá mais glória em nós e sobre nós, do que a que surge a partir da graça que Ele nos concede, assim esta nossa felicidade, como o efeito, se estenderá tanto quanto a extremidade de Sua própria glória. Quão maravilhoso, quão grande, quão indizivelmente bendito, que a glória de Deus em nós não deve ser em nada dissociada de nosso bem, Deus ordenou as coisas de tal maneira que estas não são apenas duas coisas inseparáveis, mas co-extensivas. Se, portanto, Deus tem designado ter uma glória manifestada ao extremo, Ele também manifestará Sua graça em nós ao extremo. Não é meramente que Deus concede dons, chuvas de bênçãos, mas que Ele comunica a Si mesmo a nós, ao máximo que nós, como criaturas, somos capazes. Isto está tão acima da pobre razão humana que nada, senão a fé pode apreendê-lo, que

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nós ainda devemos ser “cheios de toda a plenitude de Deus” (Efésios 3:19). Ao comunicar a Si mesmo, Deus comunica tudo de Si mesmo, as Suas perfeições Divinas como para nos abençoar com as mesmas, ou todas as três pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo, para que possamos desfrutar e ter comunhão. Tudo em Deus tão verdadeiramente servirá para tornar os eleitos abençoados (de acordo com a capacidade da criatura), quanto servirá para torná-lO bendito em Seu próprio Ser imenso infinito. Se nós temos o próprio Deus, e tudo dEle mesmo, então somos “herdeiros de Deus” (Romanos 8:17), pois somos “coerdeiros com Cristo”; e que o próprio Deus é a herança de Cristo é provado por Sua própria declaração: “O Senhor é a porção da minha herança” (Salmos 16:5). Mais do que isso não podemos ter ou desejar: “Quem vencer, herdará todas as coisas; e eu serei seu Deus, e ele será meu filho”. Em consequência de ter nos escolhido para Ele, Deus reserva a Si mesmo para nós, e tudo o que há nEle. Se Romanos 11:4 fala de Deus ter “reservado para Si mesmo” os eleitos (veja o v. 5 e observe o “também”), assim 1 Pedro 1:4 diz que Deus está “reservado nos céus para nós” como é evidente a partir do fato de que o próprio Deus é a nossa “herança”, e ninguém poderá compartilhar esta herança maravilhosa, senão os herdeiros predestinados. E ali Ele espera, por assim dizer, até o momento em que estaremos reunidos a Ele mesmo. Ali Ele esperou ao longo dos séculos, suportando os grandes de cada geração passar, reservando a Si mesmo (como na eleição Ele designou) para os Seus santos: “como se um grande príncipe em um sonho ou visão visse a imagem de uma mulher ainda por nascer, e assim se apaixonasse por sua previsão dela, de modo que ele se reservasse até que ela nascesse e crescesse, e até que isso acontecesse não pensaria nem entreteria qualquer outro amor” (Thomas Goodwin). Leitor Cristão, se Deus tem tal amor por ti, o que deveria ser o teu amor por Ele! Se Ele entregou a Si mesmo totalmente a ti, quão plena deve ser a tua dedicação a Ele! Quando Deus tiver nos trazido em segurança para o Céu, através de todas as provações e tribulações deste mundo inferior, então Ele fará manifesto que Seu primeiro e último propósito na nossa eleição foi Ele mesmo e, portanto, o nosso primeiro bem-vindo ali será uma apresentação de nós a Ele mesmo: “Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória” (Judas 1:24), o que é aqui mencionado para que possamos louvar e dar-Lhe glória de antemão. A referência aqui é (acreditamos) não a Cristo (que temos em Efésios 5:27; Hebreus 2:13), mas ao próprio Pai, como “a presença de sua glória” indica, isso sendo que nós somos “apresentados” diante. Essa é a mesma pessoa que nos apresenta a Si mesmo, cuja glória é essa. Isto é ainda corroborado por “ao único Deus sábio, Salvador nosso [observe que o “Pai” é claramente chamado de “nosso Salvador” em Tito 3:4] seja glória e majestade,

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domínio e poder, agora e sempre. Amém” (v. 25), todos os atributos que são os de Deus, o Pai, no uso habitual das doxologias. Deus nos apresentará a Si mesmo “com alegria”. Esta “apresentação” tem lugar na primeira vinda de cada indivíduo santo ao Céu, mas será mais formalmente repetida quando todos os sujeitos da eleição da graça chegarem ali. Como nós de nossa parte, e com razão, nos alegraremos, assim Deus de Sua parte também. Ele tem o prazer de apresentar-nos com grande alegria a Si mesmo, como fazendo de nossa entrada no Céu mais Seu próprio interesse do que é nosso. Este apresentar-nos a Si mesmo “perante a Sua glória” é uma questão de grande alegria para Ele mesmo, por ter-nos assim com Ele, como os pais são muito felizes quando as crianças, há muito ausentes, retornam para casa, para eles. Compare a alegria do Pai em Lucas 15. Isso é porque o Seu propósito é cumprido, o Seu eterno desígnio realizado, Sua glória assegurada, e nisso Ele se alegra. Com isto concorda: “O Senhor teu Deus, o poderoso, está no meio de ti, ele salvará; ele se deleitará em ti com alegria; calar-se-á por seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo” (Sofonias 3:17). Foi para o próprio Deus, que fomos primeiramente escolhidos como Seu fim último, e isso é agora aperfeiçoado. Outra Escritura que ensina que Deus escolheu o Seu povo para Si mesmo é: “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Efésios 1:5). A palavra grega traduzida como “para si mesmo” pode tão indiferentemente (com uma variação de aspirado) ser traduzido como: “para Ele”, assim, com igual garantia e justeza, podemos entendê-lo, em primeiro lugar, como se relacionando a Deus, o Pai, tendo Ele nos predestinado para Si mesmo como Seu fim último nesta adoção; ou em segundo lugar, a Jesus Cristo, que também é um fim em Deus assim nos predestinando à adoção. Que a preposição [grega] eis muitas vezes significa “para” como denotando o fim ou causa final, aparece a partir de muitos lugares, por exemplo, no versículo seguinte: “a [ou “para”] o louvor da glória de sua graça” como Seu grande propósito; assim também em Romanos 11:36 “a Ele” (ou “para ele”) são todas as coisas”. Devemos, portanto, tomar esta expressão no seu sentido mais abrangente e dar-lhe um duplo significado de acordo com o seu contexto e a analogia da fé. Deus ter nos predestinado “para Si mesmo” não deve ser entendido como referindo-se principalmente ou somente para nos adotar como filhos para Si mesmo, mas como denotando distinta e imediatamente o fato dEle ter nos eleito e predestinado para o Seu próprio grande e glorioso Ser, para Seu grandioso e bendito Filho. Em outras palavras, a cláusula que estamos considerando agora aponta para outro e maior fim de Seu nos predestinar do que simplesmente nossa adoção; apesar de que esta seja mencionada como uma finalidade especial, no entanto, é apenas uma extremidade inferior e subordinada, em comparação com a

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que Deus nos predestina para Ele mesmo. Primeiro, Ele nos escolheu em Cristo para uma santidade irrepreensível, que satisfaria a Sua própria natureza; além disso, Ele nos predestinou para a honra e glória da adoção; mas, acima de tudo, a Sua graça alcançou à extensão máxima ao nos predestinar para Si mesmo — anteriormente, já nos dedicamos a mostrar o significado e à maravilha disto. Deus ter nos predestinou “para Si mesmo” denota uma propriedade especial em nós. Os animais do campo são dEle, e eles O honram da sua forma (Isaías 43:20), mas a Igreja é Seu tesouro peculiar e meio de glória. Os eleitos são consagrados a Ele, a partir de um todo, de uma forma peculiar: “Então Israel era santidade para o Senhor, e as primícias da sua novidade” (Jeremias 2:3), o que denota o fato de Deus tê-los consagrado para Si mesmo, como o tipo em Números 18 explica. Cristo fez do fato de pertencermos a Deus uma grande questão: “Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus” (João 17:9); assim também o apóstolo Paulo enfatizou a mesma observação em: “O Senhor conhece os que são seus” (2 Timóteo 2:19). Isso também denota uma escolha para que sejamos santos diante dEle, como consagrando-nos ao Seu serviço e adoração, que é especialmente exemplificado em Romanos 11:4, onde “reservei para mim” está em contraste com o restante que Ele deixou para o culto a Baal. Mas, acima de tudo, indica o Seu escolher-nos para a união mais próxima, para uma comunhão e participação de Si mesmo. Considere-se agora a frase em Efésios 1:5 como significando “para Ele”, isto é, para Jesus Cristo. As palavras gregas autos e hautos são usadas indiscriminadamente, tanto para “ele” ou “ele mesmo”, de modo que de modo algum estamos forçando-as na tradução “para Ele”. É nas preposições que são usadas com referência a Cristo em conexão com a relação da Igreja com Ele que Sua glória é anunciada: eles são nEle, por Ele, para Ele. Cada um destes é empregado aqui em Efésios 1:4-5 e nessa ordem: fomos escolhidos nEle como nosso Cabeça, predestinados para a adoção por meio dEle como meio de nossa filiação, e designados para Ele como um fim — a honra de Cristo, bem como a glória da Sua própria graça foi feito o objetivo de Deus em nos predestinar. As mesmas três coisas são atribuídas a Cristo em conexão com criação e a providência, veja, em Grego, Colossenses 1:16. Mas é sobre Deus o Pai somente, como a fonte, que lemos: “dEle” (o Originador) (Romanos 11:36; 1 Coríntios 8:6; 2 Coríntios 5:18). Primeiro Deus decretou que o Seu próprio Filho amado fosse feito visivelmente glorioso em uma natureza humana, através de uma união desta com a Sua própria pessoa; e, em seguida, para Sua maior glória, Deus decretou adotar-nos como filhos por meio dEle, como irmãos dEle, pois Deus não queria que Seu Filho em humanidade estivesse só, mas que tivesse “companheiros” ou companhias para realçar a Sua glória. Em primeiro lugar, por

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sua comparação com eles, pois Ele é “ungido acima de seus companheiros” (Salmos 45:7), sendo “o primogênito entre muitos irmãos” (Romanos 8:29). Em segundo lugar, Deus deu ao Seu Filho uma honra única e glória incomparável, ordenando que Ele seja Deus-homem, e para abrilhantar o mesmo, Ele ordenou que haveria aqueles ao redor dEle, que veriam a Sua glória e O engrandeceriam pela mesma (João 17:24). Em terceiro lugar, Deus nos ordenou para a adoção de modo que Cristo fosse o meio de toda a glória de nossa filiação, que temos por Ele, pois Ele não é apenas o nosso padrão na predestinação, mas a causa virtual dessa. Agora nos conselhos da eleição de Deus, a consideração do pressuposto da natureza humana de Cristo não estava fundada sobre a suposição ou previsão da Queda, como o nosso ser predestinados para Ele como finalidade declara. Certamente, isso é óbvio. Ora, levar Cristo ao mundo apenas por causa do pecado e para a obra da redenção seria sujeitálO a nós, fazendo de nossos interesses a finalidade de Sua encarnação! Isso é realmente colocar as coisas de cabeça para baixo, pois Cristo, como Deus-homem é a nossa finalidade, e de todas as outras coisas. Além disso, isso seria subordinar o valor infinito de Sua pessoa aos benefícios que recebemos a partir de Sua obra; enquanto que a redenção é muito inferior ao dom de Si mesmo a nós e nós a Ele. Isso também pode ser mostrado em que a própria redenção foi designada por Deus, em primeiro lugar para a própria glória de Cristo, em vez de atender à nossa necessidade.

Obs.: Estamos novamente em débito para com os escritos inestimáveis de Thomas Goodwin.

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8 • Sua Manifestação Por Seu ato eletivo, Deus tomou a Igreja em uma relação definida e pessoal com Ele, de forma que Ele reconhece e considera seus membros como Seus filhos queridos e povo. Consequentemente, mesmo quando eles estão em um estado natural, antes de sua regeneração, Ele os vê e os possui como tal. Isso é muito abençoado e maravilhoso, embora, infelizmente, seja uma verdade que é quase desconhecida na atual Cristandade. Agora é comumente assumido que só nos tornamos filhos de Deus, quando nascemos de novo, que não temos nenhuma relação com Cristo até que O abracemos com os braços da fé. Mas, com as Escrituras em nossas mãos, não há desculpa para tal ignorância, e ai de quem deliberadamente repudia o seu claro testemunho, ao Seu Divino Autor eles ainda terão que responder por tal impiedade. Parece estranho que os mesmos que são os primeiros na propagação (inconscientemente, nós fingimos acreditar) do erro mencionado acima, são os que provavelmente disseram e escreveram mais sobre o ensino típico do livro de Êxodo do que qualquer outra pessoa. Gostaríamos de perguntar aos tais: Não eram os Hebreus definitivamente reconhecidos por Deus como pertencentes a Ele antes que Ele enviasse Moisés para livrá-los da casa da servidão, antes que o sangue do cordeiro pascal fosse derramado, sim, enquanto eles eram totalmente idólatras (Ezequiel 20:5-9)? Verdadeiramente, pois a Moisés Ele declarou: “Tenho visto atentamente a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus exatores, porque conheci as suas dores” (Êxodo 3:7); e de Faraó Ele exigiu, “Assim diz o SENHOR Deus de Israel: Deixa ir o meu povo, para que me celebre uma festa no deserto” (5:1). E os Hebreus eram um tipo divinamente ordenado do Israel de Deus, a espiritual eleição da graça! É bem verdade que os eleitos de Deus são “por natureza filhos da ira, como os outros também” (Efésios 2:3), no entanto, as suas pessoas foram amadas por Ele com um amor eterno. Consequentemente, antes que o Espírito seja enviado para vivificá-los e fazer-lhes andar em novidade de vida, o Senhor Deus contempla e fala sobre eles como Seus. Como isso é agora tão pouco conhecido, vamos fazer uma pausa e ofereceremos provas da Palavra. Em primeiro lugar, Deus os chama de filhos Seus: “Todos os teus filhos serão ensinados do Senhor” (Isaías 54:13) — Seus filhos antes de [serem] ensinados por Ele; e novamente: “[...] para reunir em um corpo os filhos de Deus que andavam dispersos” (João 11:52) — Seus filhos antes de “serem reunidos” por Ele. Em segundo lugar, Ele os designa o Seu povo. “O teu povo será mui voluntário no dia do teu poder” (Salmos 110:3) — Seu povo antes de serem “feitos dispostos”, “Porque eu sou contigo, e ninguém lançará mão de ti para te fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade” (Atos 18:10) — antes de Paulo ter

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pregado o Evangelho naquele centro pagão. Em terceiro lugar, Cristo denomina os eleitos de Deus [como] Suas ovelhas antes de serem trazidos ao rebanho: “Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas” (João 10:16) — mas quem eram aquelas “outras ovelhas” senão aqueles Seus eleitos entre os gentios? Em quarto lugar, os eleitos são mencionados como o tabernáculo de Davi, enquanto eles estão nas ruínas da queda: “Simão relatou como primeiramente Deus visitou os gentios, para tomar deles um povo para o seu nome. E com isto concordam as palavras dos profetas; como está escrito: Depois disto voltarei, e reedificarei o tabernáculo de Davi, que está caído, levantá-lo-ei das suas ruínas, e tornarei a edificá-lo” (Atos 15:14-16). Na era apostólica, Deus começou a retirar dentre os gentios um povo para o Seu nome, e relativamente a estes Amós profetizara no passado: “‘O tabernáculo de Davi’, ou seja, os eleitos de Deus, que uma vez estiveram em Adão com os não-eleitos, e com eles caíram; mas o Senhor reedificará o Seu eleito novamente, não no primeiro Adão, mas no segundo Adão, em Quem eles serão habitação de Deus através do Espírito” (James Wells). O amor no coração de Deus era um segredo em Si mesmo desde a eternidade, sendo totalmente desconhecido antes do começo do mundo, a não ser para Cristo, Deus-homem, ainda assim, ele tem sido exercido em relação à eleição da graça. Embora eles fossem amados com um tal amor como contido no extremo da boa vontade de Deus por eles, e no extremo da bênção, graça e glória, ainda assim, isso era de tal maneira e forma que, por um período, eles estiveram completamente não familiarizados com o mesmo. Embora os atos da vontade de Deus na Pessoa de Cristo a respeito deles e sobre eles eram tais que jamais poderiam cessar, no entanto, eles deveriam estar em um estado, por um período, em que nenhum destes atos deveria ser desvelado a eles e conhecidos por eles. Tudo estava na mente insondável de Jeová desde a eternidade, e o mesmo será para sempre; mas a revelação e manifestação disto foram feitas em momentos diferentes e em diversos graus. As variadas condições em que os eleitos de Deus se encontram não somente exibem a multiforme sabedoria de Deus, mas ilustram a nossa última observação acima. Os eleitos deveriam estar na condição em que foram criados possuindo pureza e santidade; tal como eles foram feitos naturalmente em Adão. Disto, eles caíram em um estado de pecado e miséria, compartilhando a culpa e depravação de sua cabeça federal. Eles devem ser levados dali a um estado redimido pela obra expiatória de Cristo, e conhecem isso através da vivificação e operações santificadoras do Espírito. Depois de sua carreira terrena estar terminada são levados a um estado sem pecado, enquanto eles descansam dos seus trabalhos e aguardam a consumação de sua salvação. No devido tempo, eles serão levados para o estado de ressurreição, e dali para o estado de glória eterna e felicidade indizível.

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Da mesma forma, existem diferentes fases do desdobramento do propósito eterno de Deus a respeito de Seu povo. O princípio da eleição Divina tem operado desde o início da história humana. Tão logo a Queda ocorreu, o Senhor anunciou a linha de distinção que foi traçada entre a semente da mulher e a semente da serpente, primeiro exemplificado no caso evidente de Caim e Abel (1 João 3:12). Em um capítulo anterior, somos chamados à atenção para a operação contínua deste princípio eletivo, como foi visto nas famílias de Noé, Abraão, Isaque e Jacó, e depois ainda mais conspicuamente na separação de Israel de todas as outras nações, como o povo escolhido de Jeová e os objetos de Seu favor especial. Mas o que nós consideramos agora não é tanto a operação do eterno propósito da graça de Deus, quanto a manifestação dele. Em todos esses estados, através dos quais os eleitos são ordenados a passar, o amor de Deus é exercido e exibido em direção a eles e sobre eles, segundo o beneplácito de Sua vontade. O secreto e eterno amor de Deus por Seus eleitos e Sua aberta revelação do mesmo, embora em partes distintas, são um e o mesmo amor. O primeiro ato de amor de Deus pelas pessoas daqueles a quem Ele escolheu em Cristo consistiu em conceder a eles que estivessem em Cristo, o bem estar em Cristo desde a eternidade: este foi o ato fundamental de toda a graça e glória, pois Deus, então, os “abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Efésios 1:3). O amor de Deus em Seu próprio coração pela Pessoa de Cristo, a Cabeça de toda a eleição da graça, não pode ser expresso, e Seu amor em relação às pessoas dos eleitos em Cristo é tão grande e infinito que as Escrituras declaram “que excede todo o entendimento” (Efésios 3:19). Meditar na aberta expressão e manifestação desse amor é, agora, nosso propósito.

1 – A encarnação e a missão de Cristo: “Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos” (1 João 4:9). Observem o conhecimento das pessoas a quem o amor de Deus foi assim manifestado, expresso na palavra “conosco”. Este é um termo utilizado pelos escritores sagrados para incluir e pelo qual expressam os santos de Deus. É uma excelência distintiva dos apóstolos que eles trazem para casa os seus temas com toda a sua energia para as mentes dos santos, e depois os aplicam, de modo que por isso a verdade seja sentida em toda a sua vasta importância. Quer o assunto seja eleição, redenção, chamado eficaz ou glorificação, mui geralmente eles usam o termo “conosco”, incluindo, assim, eles mesmos e todos os crentes a quem escreveram. Isso serve adequadamente para evidenciar que todos eles são igualmente participantes em todas as bênçãos e benefícios de graça, o que abre o caminho para eles se apropriarem e desfrutarem do bem deles nas Escrituras. Para ilustrar o que acaba de ser apontado: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus

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Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; e nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, Para louvor da glória de sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado” (Efésios 1:3-6). Nessa passagem, o repetido “nós” mostra a participação que todos os santos têm em sua eleição eterna em Cristo. Com relação ao chamado eficaz, o apóstolo usa a palavra “nós” em Romanos 9:24. Assim, em conexão com a salvação (observe o “nos” em 2 Timóteo 1:9) e glorificação (cf. Efésios 2:7; Romanos 8:18). Seja cuidadosamente observado que, enquanto esta repetição de “nós” nas Epístolas inclui toda a eleição da graça, ainda assim, isso exclui todos os outros e não pode com qualquer verdade ou decoro ser aplicado a qualquer um, senão aos chamados de Deus em Cristo Jesus. A seguir, consideraremos em que esta manifestação aberta do amor de Deus consiste, nomeadamente, na encarnação e na missão de Cristo. Na mente infinita de Jeová, todo o Seu amor sobre as pessoas dos eleitos foi concebido desde a eternidade, com as diversas formas e os meios pelos quais o mesmo deve ser apresentado e feito conhecido em uma condição de tempo, para que a Igreja possa mais claramente obtê-lo. Como aprouve ao Senhor, não obstante o Seu amor eterno por Seu povo em Cristo, o querer a sua queda de um estado de criatura pura para um estado de depravação, assim também a Sua redenção do mesmo foi predeterminada. Uma transação da aliança eterna ocorreu entre o Pai e o Filho, no qual este último comprometeu-Se a assumir a natureza humana e agir como seu Fiador e Redentor. Sua encarnação, vida e morte foram estabelecidos como os meios da salvação deles. Isto tornou-se o tema da profecia do Antigo Testamento, a saber, que Cristo deveria ser manifestado na carne, com o que Ele deveria fazer e sofrer, a fim de tirar o pecado e trazer a justiça eterna. Aquilo que foi revelado nas Escrituras pelos profetas a respeito de Cristo tornou totalmente evidente que era da parte de Deus, que tudo isso foi originalmente o conselho-transação no Céu antes do tempo começar, o fruto da consulta entre Jeová e o Cristo, do qual o Espírito eterno foi testemunha, Ele comunica o mesmo para os homens santos, que falaram ao serem movidos por Ele, porque Ele penetra todas as coisas, mesmo as profundezas de Deus. Na pessoa do Emanuel, Deus conosco, pela Sua evidente encarnação e a salvação que Ele operou e mui honradamente consumou, todo o amor da Santíssima Trindade se reflete mais gloriosamente. Deus brilhou em toda a grandeza e majestade do Seu amor por Sua Igreja, em Cristo e, portanto, exibiu Sua eterna boa vontade para com eles. Ele tanto os amou a ponto de dar o Seu Filho unigênito. Isto está claramente estabelecido em Sua Palavra, de modo que é totalmente suficiente para manter um senso vívido do mesmo em nossas mentes, como o Espírito se agradar em manter-nos crentes neste conhecimento em nossos corações.

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Uma breve palavra sobre a finalidade desta manifestação do amor de Deus, como mencionado em 1 João 4:9, é “para que por ele vivamos”. “É através da encarnação e da mediação do Senhor Jesus Cristo que nós vivemos por meio dEle uma vida de justificação, paz, perdão, aceitação e acesso a Deus. Os eleitos de Deus em seu estado caído estavam totalmente em pecado, corrupção, miséria e morte; nessas circunstâncias Deus recomendou o Seu amor em direção a eles, na medida em que, enquanto eles ainda eram pecadores, Cristo morreu por eles. Ele por Sua morte removeu os pecados deles. Ele os amou e os lavou de seus pecados em Seu próprio sangue, e os trouxe para perto de Deus, de modo que aqui o amor eterno do Pai por eles é mais claramente evidenciado” (S. E. Pierce, de quem o amável sermão em 1 João 4:9 nós aqui de bom grado reconhecemos nossa dívida). Um paralelo mais marcante com a Escritura, nós vemos sobre a declaração feita pelo Senhor ao Seu Pai em João 17:6: “Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste; eram teus, e tu mos deste”. A manifestação do nome de Deus, ou o mistério secreto de Sua mente e vontade, só poderia ser realizada por Cristo, que estava no seio do Pai desde a eternidade, que Se encarnou, a fim de tornar visível Aquele que é invisível. Era o ofício e obra do Messias desvelar a “sabedoria oculta” (1 Coríntios 2:7), desbloquear o santo dos santos, declarar o que havia sido mantido em segredo desde a fundação do mundo; e aqui em João 17, Ele declara que Ele havia fielmente cumprido isso. Mas observe bem como o “conosco” de 1 João 4:9 é aqui definido como “homens que do mundo me deste”. Sim, foi para eles que Cristo manifestou o inefável nome de Deus. Em João 17, Cristo manifestou todo o coração de Deus, tornando conhecido o Seu amor eterno, como nunca fora revelado antes. Ali, Ele expôs a boa vontade que o Pai concedeu aos eleitos em Cristo Jesus, de forma suficiente para encher a mente espiritual com conhecimento e compreensão, mesmo tal como foi projetado para conduzir a uma completa fé e confiança no Senhor para todas as bênçãos desta vida e das que estão por vir. E quem poderia dar essa informação, senão Ele mesmo? Ele desceu do céu com esta expressa finalidade e propósito. Ele foi o grande Profeta sobre a Casa de Deus. Ele tinha a chave de todo o tesouro da graça e glória. NEle, pessoalmente, estão “escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Colossense 2:3). Pelo “Nome” de Deus entende-se tudo o que Ele é, em uma forma manifesta e comunicativa. É o Seu amor pela Igreja, Sua relação de aliança com o Seu povo em Cristo, o eterno deleite do Seu coração por eles, o que Cristo Se agradou em revelar tão plenamente. É pelo Senhor admitir-nos ao conhecimento de Si mesmo, que somos levados a conhecer a nossa eleição de Deus. A verdadeira apreensão disto é um fundamento de alegria, por isso Cristo disse: “alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” (Lucas 10:20). Nós não podemos saber que somos os amados de Deus, a não ser por crer em Seu

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Filho, de modo que este é o fruto do conhecimento espiritual. Cristo tem a chave do conhecimento e abre a porta da fé, de modo que nós O recebemos como revelado na Palavra. É Ele, que pelo Seu Espírito, tem o prazer de derramar o amor de Deus no coração. Ele concede o Espírito para fazer uma revelação da aliança eterna para nossas mentes, e, assim, somos levados a conhecer e sentir o amor de Deus como sendo a fonte e manancial de toda graça e consolação eterna. Como Jeová fez toda a Sua bondade passar diante de Moisés, e mostrou-lhe a Sua glória (Êxodo 33:19), assim Ele nos admite ao conhecimento de Si mesmo como “O Senhor, o Senhor Deus, misericordioso e piedoso” [Êxodo 34:6].

2 – Por um chamado sobrenatural. Nós antecipamos um pouco disso nos dois últimos parágrafos, mas devemos agora considera-lo mais distintamente. O chamado de um santo é o primeiro fruto imediato a irromper do propósito da eletiva graça de Deus. “O rio corria sob a terra desde a eternidade e elevava-se e borbulhava ali primeiramente, e em seguida, flui acima do solo até a eternidade. Esta é a diferença inicial e grandiosa que Deus coloca entre homem e homem, a primeira marca que Ele coloca sobre Suas ovelhas, pelo que Ele as possui e visivelmente significa que elas são Suas” (Thomas Goodwin). “E aos que predestinou a estes também chamou” (Romanos 8:30). O benefício original foi o fato dEle ter nos predestinado, e a próxima bênção é o Seu chamar-nos. A mesma ordem é observada em “Que nos salvou, e chamou... segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” (2 Timóteo 1:9). O propósito eterno se torna evidente no tempo por meio de um chamado Divino. Outra Escritura que apresenta esta mesma verdade são aquelas palavras bem conhecidas “procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição” (2 Pedro 1:10). Não é a nossa fé, nem a nossa justificação, que é aqui especificamente apontada, mas a nossa “vocação”, a que nós somos ordenados a “fazer firme”, pois assim a nossa eleição será atestada a nós, ou seja, confirmada à nossa fé. Não é que a eleição não seja firme sem isso, pois “o fundamento de Deus [Seu decreto eterno] fica firme” (2 Timóteo 2:19) antes de nossa vocação; mas aqui isso é certificado para nossa fé. Assim, os apóstolos falam uma língua uniforme, e, portanto, ao escreverem aos crentes mostram que os dois termos são coextensivos. Assim, Paulo “À igreja de Deus que está em Corinto... chamados santos” — santos pelo chamado (1 Coríntios 1:2). Pedro “A vossa co-eleita em babilônia” (1 Pedro 5:13). Os termos são equivalentes, os apóstolos não reconhecendo nenhum outro verdadeiro “chamado” senão o que era a prova imediata da eleição, sendo coextensivos às mesmas pessoas. É realmente abençoado observar — quão graciosamente o Espírito condescendeu em inclinar-Se e ajudar a nossa enfermidade — quão frequentemente esta preciosa verdade é repetida na Palavra, de modo que não pode haver espaço para qualquer dúvida sobre a

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questão. “Há muito que o Senhor me apareceu, dizendo: Porquanto com amor eterno te amei, por isso com benignidade te atraí” (Jeremias 31:3). Duas coisas são aqui afirmadas, e a relação íntima e inseparável entre elas é enfaticamente atestada. Primeiro, o amor eterno de Deus pelos Seus; segundo, o efeito e a demonstração do mesmo. Pelo chamado eficaz do Espírito os eleitos são trazidos do seu estado natural de alienação e atraídos para Deus em Cristo. Esse chamado ou atração sobrenatural é aqui expressamente atribuído à “benignidade” do Senhor, e o vínculo entre este e o Seu amor eterno por eles é assinalado em “por isso”. Assim, é por meio de Deus nos reconciliar conSigo mesmo que obtemos a prova da Sua eterna boa vontade em relação a nós. O eterno amor e graça do Deus Triuno por Seus escolhidos são evidenciados para eles neste mundo por meio do fruto ou efeitos imediatos dos mesmos: o que era secreto no coração de Jeová é gradualmente trazido à manifestação aberta através das Suas próprias obras maravilhosas em relação à igreja. Não se pode esperar que o mundo dos ímpios tenha qualquer participação nestas operações, mas para os regenerados elas devem ser uma fonte de prazer inesgotável e sempre crescente. Como dissemos anteriormente, o amor eletivo de Deus foi evidenciado, em primeiro lugar, na encarnação e na missão de Seu Filho amado, que foi ordenado para realizar a redenção de Seu povo que havia caído em Adão. Em segundo lugar, o propósito eterno da graça de Deus se revela no e através de um chamado Divino que os eleitos recebem, enquanto estão aqui na terra. Nós devemos agora considerar mais definitivamente o que este chamado Divino realmente é. Em primeiro lugar, devemos distinguir cuidadosamente entre este chamado que é recebido pelos eleitos e aquele que vem a todos os que estão sob o anúncio da Palavra: um é particular, o outro geral. Todo aquele que vem sob o som da Palavra, sim, todos os que a têm em suas mãos em forma escrita, são chamados por Deus a abandonar seus pecados e buscar a Sua misericórdia em Cristo. Este chamado geral é feito aos eleitos e aos nãoeleitos da mesma forma, mas, infelizmente, ele é recusado por todos eles. Isso é descrito em passagens como: “A vós, ó homens, clamo; e a minha voz se dirige aos filhos dos homens” (Provérbios 8:4), “Muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mateus 20:16). Sua rejeição do mesmo é descrita assim: “Entretanto, porque eu clamei e recusastes; e estendi a minha mão e não houve quem desse atenção” (Provérbios 1:24), “E todos à uma começaram a escusar-se” (Lucas 14:18). Mas é em relação ao chamado especial e particular, do qual somente os eleitos são os sujeitos, que nos interessamos. Em segundo lugar, então, este chamado dos eleitos é um chamado individual e interior, não caindo sobre o ouvido exterior, mas penetrando aos seus próprios corações. É a Palavra do poder de Deus, atingindo-os em seu estado natural de morte espiritual e vivificando-os em novidade de vida. É o Bom Pastor buscando e salvando a ovelha perdida e restaurando-

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a ao Seu Pai, como está escrito: “A este o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz, e chama pelo nome às suas ovelhas, e as traz para fora. E, quando tira para fora as suas ovelhas, vai adiante delas, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz” (João 10: 3-4). Do lado legal das coisas, a salvação dos eleitos de Deus tornou-se um fato consumado quando Cristo morreu e ressuscitou, mas não até que o Espírito do Filho de Deus seja enviado aos seus corações — “pelo qual clamamos: Aba, Pai” — isso é bem realizado em sua experiência real. É pelo Espírito somente que nos é dado um conhecimento salvífico da Verdade, a somos guiados por Ele em uma apreensão correta do mesmo: O Espírito, então, ilumina sobre o nosso entendimento de forma que somos capazes de ter o conhecimento espiritual de Deus e de Seu Filho Jesus Cristo. Em terceiro lugar, então, é um chamado eficaz, sendo realizado pelas operações sobrenaturais do Espírito. Isso é bem igualmente verdadeiro sobre a nova criação quanto sobre a velha: “Porque falou, e foi feito; mandou, e logo apareceu” (Salmos 33:9). Em tais passagens como: “O teu povo será mui voluntário no dia do teu poder” (Salmos 110:3), este chamado eficaz é referido. Sua relutância natural para entregarem-se completamente às reivindicações do Senhor é docemente derretida pela comunicação de um enorme senso de graça e do amor de Deus por eles. Mais uma vez: “E todos os teus filhos serão ensinados do Senhor” (Isaías 54:13), e tão ensinados que Ele “nos deu entendimento para que conheçamos ao Verdadeiro” (1 João 5:20). Uma vez mais, este chamado eficaz é Deus cumprindo as promessas da nova aliança: “Porei as minhas leis no seu entendimento, e em seu coração as escreverei; e eu lhes serei por Deus, e eles me serão por povo” (Hebreus 8:10). Teólogos sabiamente chamaram isso de “chamado eficaz” de modo a distingui-lo do geral e exterior que vem a todos os que ouvem o evangelho. Este chamado eficaz não é um convite, mas é a real concessão de vida e luz. É o fruto imediato do maravilhoso e infinito amor de Deus pelas nossas pessoas, quando ainda somos totalmente detestáveis, sim, os sujeitos de nada, senão do que nos torna repulsivos e odiosos (veja Ezequiel 16:4-8!). É nessa ocasião que o Espírito Santo é dado aos eleitos, concedido para bem realizar neles o que Cristo fez por eles. Que seja clara e gratamente reconhecido que o dom do Espírito para nós é um dom tão grande e grandioso como o dom de Cristo por nós. Pelo Espírito habitando em nós, somos santificados e selados para o dia da redenção. Pela habitação do Espírito em nós, nos tornamos os templos do Deus vivo, Sua morada na terra. Não é suficientemente reconhecido que todas as misericórdias do pacto estão na mão do bendito Espírito Santo, cujo ofício e obra é trazer os eleitos para casa, e (pelo chamado eficaz) a Cristo, e para dar a conhecer e aplicar às suas almas a salvação que o Senhor Jesus consumou e realizou para eles. Ele vem do céu em consequência da expiação e ascensão de Cristo e proclama a salvação do Senhor para os pecadores miseráveis. Ele entra em

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seus corações pecaminosos e miseráveis e dá a conhecer a salvação de Deus. Ele os coloca, pelo crer na pessoa e obra de Cristo, na posse das coisas que acompanham a salvação, e então Ele se torna um Consolador para eles. Tais pessoas não oram para que o Espírito venha e os regenere, pois eles já o receberam como Espírito doador de vida e santificação. O que agora eles devem fazer é orar por graça para recebê-lO como o Espírito de adoção, para que Ele possa testemunhar com o seu espírito que eles são filhos de Deus. Agora, este chamado eficaz é uma consequência necessária e adequada, e um efeito da eleição eterna de Deus, pois ninguém é o destinatário deste chamado sobrenatural, senão os Seus eleitos. Onde quer que a predestinação para a glória eterna exista em relação a qualquer pessoa, então o chamado eficaz para a fé e santidade infalivelmente a segue. “...por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade” (2 Tessalonicenses 2:13). Os eleitos são escolhidos para a salvação pela livre e soberana graça de Deus; mas como a salvação é realmente obtida? Como Seus favorecidos são trazidos para a posse pessoal dela? Através da santificação do Espírito e fé da verdade, e não de outra forma. O decreto da eleição de Deus é uma ordenação para a vida eterna e glória, e é evidente pela santidade sendo efetivamente operada em seus objetos pela regeneração e operações santificadoras do Espírito. É assim que o Espírito comunica o que Cristo adquiriu para eles. “Para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou, os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?” (Romanos 9:23-24). Nos versículos imediatamente anteriores, o apóstolo havia tratado do assunto indescritivelmente solene de como Deus mostra a Sua ira e dá a conhecer o Seu poder em relação aos não-eleitos, mas aqui ele retoma o bendito tema de como Deus desvela as riquezas da Sua glória nos vasos de misericórdia. Isso ocorre pelo chamado eficaz, que é recebido individualmente por Seu povo. Esse chamado é útil para fazer manifesta a graça eterna de Deus para conosco: como Romanos 8:28 o expressa, nós somos “chamados segundo o Seu propósito”; em outras palavras, o Espírito é dado a nós, a fim de cumprir o decreto de Deus, ou para expressar isso de outra maneira, através de Seu chamado eficaz o crente pode olhar para o alto, para o eterno amor de Deus por ele, tanto quanto ele pode observar através de uma fenda na parede o brilho do sol nos céus. Como o amor de Deus, o Pai, é principalmente descrito como o ato da eleição e manifesto pelo fato dEle ter dado o Seu Filho unigênito para ser nossa Cabeça e Mediador, e como o amor de Deus, o Filho, é mais brilhante e resplandecente em Sua encarnação, obediência e entrega de Sua vida por nós, assim o amor de Deus, o Espírito, é demonstrado em Seu revelar, na Palavra, as transações eternas entre o Pai e o Filho, e por iluminar as nossas

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mentes para um conhecimento verdadeiro, vital e espiritual do Pai e do Filho. É no chamado eficaz que o Espírito se agrada de fazer uma revelação interior e aplicação da salvação de Cristo para a alma, o que é de fato o céu raiando sobre nós, pois através disso os pecadores mortos são vivificados, os corações duros são suavizados, as vontades obstinadas são flexibilizadas, os grandes pecados são abertamente perdoados e a infinita misericórdia é apresentada e magnificada. É nessa ocasião que o Espírito Santo, que é o Senhor e doador de toda a vida espiritual, permite que grandes pecadores conheçam que Deus é amor. Por Seu Espírito, Cristo tem o prazer de derramar o amor de Deus no coração, e por meio do Evangelho Ele manifesta a nós o conhecimento do amor do Pai. Ele concede o Espírito para fazer uma revelação deste às nossas mentes, e, assim, somos levados a conhecer e sentir o amor de Deus como sendo o fundamento de toda a graça e consolação eterna. À medida que o conhecimento de nossa eleição pessoal (obtido através de nosso chamado eficaz) torna evidente para nós que somos íntimos e queridos por Deus, então segue-se que nós percebemos que somos queridos por Cristo. À medida que o Espírito dá-nos um conhecimento do amor do Pai por nós em Seu Filho amado, somos levados a examinar e estudar este maravilhoso assunto da eleição, e quanto mais sabemos sobre ele, mais somos maravilhados com o mesmo. Por este meio, sob a influência do Espírito Santo, somos levados a tais percepções da graça do Senhor Jesus a ponto de encher o nosso coração de santo contentamento e deleite.

3 – O propósito eterno da graça de Deus para conosco é manifesto por uma mudança sobrenatural realizada em nós. Estritamente falando, isso não é um ramo distinto do nosso assunto, pois o novo nascimento é um e o mesmo que o nosso chamado eficaz; no entanto, por uma questão de clareza e para resolver essas dúvidas a que os regenerados estão sujeitos, julgamos por bem considerar os dois separadamente. Quando uma alma sincera aprende que há tanto um chamado geral e exterior quanto um chamado particular e interior, ela fica profundamente preocupada para saber qual deles ela recebeu, ou melhor, se ela foi favorecida com o último, pois é apenas o chamado sobrenatural do Espírito que é eficaz para a salvação. É neste ponto que muitos que fazem parte do querido povo de Deus são tão profundamente perplexos e exercitados, a saber, verificar e certificar-se de que eles já passaram da morte para a vida e foram levados a uma união vital com Cristo. Na tentativa de esclarecer este ponto, o escritor tem de se proteger contra o muito infringir do próximo ramo de nosso assunto, isto é, o conhecimento da nossa eleição. No momento estamos tratando da manifestação da mesma, em especial no que se vê nessa mudança sobrenatural que se manifestou em Seus sujeitos no momento em que receberam o chamado eficaz de Deus. Vamos, portanto, contentar-nos aqui com o esforço para descrever algu-

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mas das principais características desta mudança sobrenatural. Essa mudança sobrenatural é descrita em termos gerais: “se alguém está em Cristo, nova criatura é” (2 Coríntios 5:17). Outra passagem tratando do mesmo: “Visto como o seu divino poder [Ele] nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude” (2 Pedro 1:3). Fica logo evidente que este último versículo é muito objetivo, pois ele se refere especificamente ao nosso chamado eficaz e atribui o mesmo ao Divino poder. Esta mudança sobrenatural consiste, então, em sermos transformados em novas criaturas em Cristo Jesus. Aquele que é objeto desta obra do Espírito, no novo nascimento, embora, seja apenas um bebê fraco e pequeno espiritualmente falando, é, no entanto, “uma nova criatura”. Uma nova vida foi comunicada, novos princípios comunicados a partir do qual novas ações se seguem. É então que “todos nós recebemos também da sua [de Cristo] plenitude, e graça por graça” (João 1:16), ou seja, toda a graça espiritual da Cabeça é transmitida aos Seus membros; toda a obra da graça de Cristo no Cristão é agora completada em suas partes por “graça sobre graça”, assim como uma criança recebe membro sobre membro de seus pais. No nosso chamado eficaz, o poder Divino nos dá “tudo o que diz respeito à vida e à piedade”; o que eles compreendem consideraremos a seguir, brevemente. Em primeiro lugar, a compreensão espiritual. O homem natural não pode perceber, nem receber as coisas espirituais de uma forma espiritual (embora ele possa refletir sobre elas de uma forma natural e intelectual), porque ele é desprovido de discernimento espiritual (1 Coríntios 2:14). Mas, quando somos chamados eficazmente Deus nos dá “entendimento para que conheçamos ao Verdadeiro” [1 João 5:20]. Disso, 2 Pedro 1:3 declara que os todas as coisas relativas à vida e à piedade nos são dadas “pelo conhecimento daquele que nos chamou”. A primeira luz que a alma recebe, quando o Espírito entra em seu coração é uma nova visão de Deus, e nessa luz, nós começamos a ver o que é o pecado, como ele é em si mesmo contra um Deus santo, e, assim, percebemos o que a santidade é. É este novo e espiritual conhecimento do próprio Deus que constitui o âmago e a essência da bênção e da obra da nova aliança da graça: “E não ensinará cada um a seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece o Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor deles até ao maior” (Hebreus 8:11). Este conhecimento espiritual de Deus, então, é a semente e a raiz da mudança espiritual que acompanha o chamado eficaz. Em segundo lugar, um princípio de santidade é operado na alma. Deus escolheu o Seu povo em Cristo de forma que eles devem ser “santos” (Efésios 1:4), e, portanto, Ele os chama “com uma santa vocação” (2 Timóteo 1:9). Assim, nós somos feitos “idôneos para participar da herança dos santos na luz” (Colossenses 1:12). O nosso título para o céu repousa sobre o que Cristo fez por nós, mas a nossa aptidão para o céu consiste na imagem de Cristo que

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está sendo formada em nós. Este princípio de santidade é plantado no coração pelo Espírito Santo, e é chamada de “a nova natureza” por alguns escritores. Evidencia-se pela ponderação da mente uma e outra vez que Deus é um Deus santo, cujos olhos puros não podem suportar a iniquidade, e pelo apegar-se do coração a Ele sob esta apreensão dEle. Aqui, então, está o teste pelo qual devemos examinar e medir a nós mesmos: eu, tanto em meu coração quanto em minha vida me humilho e sou levado a lamentar o que em mim é contrário à santidade divina? Aprovo todos os mandamentos de Deus como sendo santos e bons, embora possam ser contrários aos meus desejos? E o meu desejo constante é que Deus me faça, cada vez mais, um participante dessa santidade? Em terceiro lugar, um amor por objetos e coisas espirituais. Não apenas um “novo coração” é comunicado a nós através de nosso chamado eficaz, mas há tal Divina renovação de nossa vontade, que ela agora é habilitada a escolher o que é espiritualmente bom, uma capacidade que o homem natural não tem em sua condição caída. É a conversão do coração e o anelo por objetos santos que conduz a vontade a desejá-los. Quando o amor de Deus é derramado em nossos corações não podemos deixar de amá-lO e de amar tudo o que Ele ama. Um amor verdadeiro e sincero por Deus é o fruto e efeito da sua vocação eficaz: as duas coisas são inseparáveis: “daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Romanos 8:28). Infelizmente, os nossos desejos naturais ainda anseiam o que é profano, no entanto, no coração renovado há um princípio que se deleita em e procura pelo que é puro e santo: “Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos” (1 João 3:14). Você não encontra (misturado com outras obras em você) verdadeiros impulsos de amor em relação ao próprio Deus? Em quarto lugar, um princípio espiritual de fé. Fé natural é suficiente para objetos naturais, mas os objetos espirituais e sobrenaturais exigem uma fé espiritual e sobrenatural. Essa fé espiritual é “o dom de Deus” (Efésios 2:8), operada no regenerado pelo “poder de Deus” (Colossenses 2:12). Esta fé é o efeito e acompanhamento do nosso chamado eficaz: “com benignidade te atraí” (Jeremias 31:3) significa, em primeiro lugar, que o coração é atraído para o Senhor, de forma que ele repousa sobre Suas promessas, repousa em Seu amor e responde à Sua voz. “Pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia” (Hebreus 11:8), as duas coisas são inseparáveis, a fé responde ao chamado de Deus. Por isso é que lemos sobre “a fé dos eleitos de Deus” (Tito 1:1), o que difere radicalmente da “fé” dos religiosos formais e entusiastas extravagantes. Em primeiro lugar, porque esse é um dom divino e não a obra de um princípio natural. Em segundo lugar, porque ele recebe com simplicidade semelhante à de criança tudo o que é afirmado na Palavra, sem tergiversar diante de “dificuldades” encontradas na mesma. Em terceiro lugar, porque o seu possuidor percebe que só Deus pode sustentar e manter a fé em sua alma, pois não está no poder da criatura exercitá-la ou aumentá-la.

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Em conclusão, destacamos que esta mudança sobrenatural operada nos eleitos em seu chamado eficaz, por este efetuar neles uma compreensão espiritual para que eles conheçam a Deus, a comunicação a eles de um princípio de santidade, de amor e de fé, são o fundamento de todas as atuações da graça que seguem. Toda atuação da graça, até o fim da vida do crente, evidencia esta primeira obra do chamado eficaz para ser são e salvo. Na regeneração, Deus dota a alma com todos os princípios e sementes de todas as graças, e a vida futura do Cristão, e seu crescimento na graça (através do conflito entre a “carne” e “Espírito”) é apenas um chamado a colocá-los em operação e manifestação. Trataremos agora sobre como Deus faz conhecido no tempo o efeito da graça que Ele formou sobre a Igreja na eternidade passada. O amor eterno de Deus por Seu povo escolhido é desvelado em uma variedade de formas e meios, o principal deles sendo os dons inestimáveis de Seu Filho por eles e de Seu Espírito neles. Assim, temos até agora permanecido acima, primeiro, a encarnação e a missão de Cristo como a principal demonstração [da afeição] do coração do Pai para como os Seus próprios, pois enquanto a glorificação da Trindade era Seu desígnio principal nisso, ainda assim, inseparavelmente conectado com o mesmo estava a bênção de Seus santos. Em segundo lugar, o gracioso propósito de Deus manifesta-se pela comunicação do Espírito para os eleitos, segundo a que são feitos os sujeitos de um chamado sobrenatural. Em terceiro lugar, isso é ainda mais evidentemente realizado pela mudança sobrenatural operada neles, pela regeneração e santificação do Espírito.

4 – Pela preservação Divina. “E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória, depois de havemos padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça” (1 Pedro 5:10). Este versículo apresenta a maravilhosa e poderosa graça de Deus dispensada aos Seus eleitos em efetivamente chamá-los, em preservá-los da tentação e do pecado, em fortalece-los e habilita-los a perseverar até o fim, e — não obstante toda a oposição da carne, do mundo e do diabo — trazê-los em segurança, por fim, até a glória eterna; pois, como Romanos 8:30 declara: “E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou”. Mais uma vez extrairemos livremente do mais excelente dos escritos do Puritano Thomas Goodwin, em primeiro lugar, porque suas obras não são impressas atualmente e são desconhecidas para a nossa geração, e segundo porque temos recebido pessoalmente tanta ajuda daí que queremos compartilhar o mesmo com os nossos leitores. Deve ser devidamente notado que, no contexto imediato (1 Pedro 5:8) o Diabo é retratado em todo o seu horror: como nosso “adversário”, pela malícia; comparado a um “leão”, pela

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força; a um “leão que ruge” pelo pavor; descrito como “andando em derredor”, pela diligência incansável, “buscando a quem possa tragar” a menos que Deus evite. Agora observe o bem-aventurado e consolador contraste: “Mas Deus”, o Todo-Poderoso, o Autossuficiente e Todo-suficiente Único “Deus de toda graça”: quão reconfortante é destacar este atributo quando temos que lidar com Satanás no ponto da tentação. Se o Deus de graça é por nós, quem será contra nós? Quando Paulo estava sob tentação um mensageiro (ou anjo) de Satanás sendo enviado para lhe esbofetear, o que foi que Deus imediatamente colocou diante dele para alívio? Isso: “A minha graça te basta” (2 Coríntios 12:9); a graça no coração de Deus em direção a ele e a graça operando em seu próprio coração, ambas o ajudam efetivamente. Mas há algo ainda mais precioso aqui, em 1 Pedro 5:10: “O Deus de toda graça”, que faz referência primeiramente às abundantes riquezas da graça que estão em Sua natureza, em seguida, aos propósitos benevolentes que Ele tem pelos Seus próprios e, em seguida, aos Seus graciosos lidares com eles. A graça em Sua natureza é a fonte, a graça de Seu propósito ou conselhos é o manancial, e a graça em Suas dispensações ou lidares conosco são os córregos. Deus é um Deus todo-misericordioso em Si mesmo, assim como Ele é o Todo-Poderoso, o qual é um atributo essencial. Há um oceano ilimitado de graça em Si mesmo para nutrir todos os fluxos em que os Seus propósitos e desígnios de graça devem comunicar adiante. Nosso consolo a partir daqui é que toda a graça que existe na natureza de Deus está na promessa de Ele ser o “Deus de toda graça” para a Sua Igreja, declarado estar tão envolvido como o suprir-lhes dela, sim, ao extremo das necessidades dessas riquezas, como as suas dificuldades (faltas) requererão. Deus não é assim conhecido por Seu povo somente na era do Novo Testamento. Davi, que era o maior sujeito, bem como adorador desta graça que encontramos no Antigo Testamento, apreendeu e reconheceu a mesma. “[...] Segundo o teu coração, fizeste toda esta grandeza, para fazer notória todas estas grandes coisas” (1 Crônicas 17:19). E observe o que se segue imediatamente, “Senhor, ninguém há como tu, e não há Deus fora de ti”, ou seja, Tu és o Deus de toda a graça, pois esta era uma questão de graça, de elevada graça que Davi está ali exaltando, ou seja, a aliança da graça de Deus com ele em Cristo, exatamente revelada a ele. “Que mais te dirá Davi?” (v. 18); tal favor divino está além dele; assim como Paulo em Romanos 8:31, “Que diremos, pois, a estas coisas?”. Quando Deus perdoa, Ele o faz à maneira de um grande Deus, cheio de toda a graça: Ele “grandioso é em perdoar” (Isaías 55:7), e não de acordo com nossos pensamentos, diz Ele (v. 8), mas segundo o Seu próprio. A isso os antigos teólogos referiam-se quando falavam que a proposital graça de Deus era o oceano dela em Sua própria natureza, do qual brotam aqueles propósitos benéficos que

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Ele tem em direção ao Seu povo, desígnios que o profeta descreveu como “pensamentos de paz” (Jeremias 29:11), que Ele teve sobre eles ou que Ele “pensa em direção a” eles. Seria impossível falar de todos esses pensamentos, pois, como Davi declara: “Muitas são, Senhor meu Deus, as maravilhas que tens operado para conosco, e os teus pensamentos não se podem contar diante de ti; se eu os quisera anunciar, e deles falar, são mais do que se podem contar” (Salmo 40:5). Devemos, então, resumi-los e nos alongar naqueles particulares que servem diretamente à questão diante de nós, ou seja, a nossa preservação, ou Deus nos transportando com segurança através de todas as tentações para a glória eterna. 1 Pedro 5:10 manifestamente fala sobre a proposital graça de Deus, aquela graça que estava em Seu coração em relação ao Seu povo antes que Ele os chame, a partir do que, de fato, este chamado procede e o que O leva a isso, como é expressamente afirmado em 2 Timóteo 1:9. O primeiro ato de Sua graça proposital estava em Seu escolher-nos, Seu destacar aquelas pessoas a quem Ele designou para ser um Deus de graça. A escolha de suas pessoas é, portanto, denominada “a eleição da graça” (Romanos 11:5), sendo este o ato fundamental da graça, sobre o qual todos os outros são construídos. Ser um Deus de graça para a Sua Igreja é amar seus membros simplesmente porque Ele escolheu ama-los, pois a graça é a gratuidade do amor. “Recebe-nos graciosamente” é a oração da Igreja (Oséias 14:2); “Eu voluntariamente os amarei” (v. 4) é a resposta do Senhor. A graça divina e os méritos humanos são tão distantes quanto os polos: como Romanos 11:6 mostra, um mutuamente exclui o outro. Deus ser o Deus de toda graça para o Seu povo é Ele resolver amá-los, e isso para sempre; ser imutável em Seu amor e nunca ter o coração afastado deles. Isto é claramente indicado na linguagem de 1 Pedro 5:10, pois Ele “nos chamou para a sua glória eterna.” Não é simplesmente que Ele nos chamou para a Sua graça ou favor, mas para a glória, e essa, “glória eterna”, ou seja, pelo chamado eficaz Ele nos apropria de todo e pleno direito disso para sempre. O que isso pode significar, senão que Deus nos chamou para tal graça e amor, como Ele fez e resolve ser o Deus de toda a graça para conosco pela eternidade, portanto, nos chama para além do arrependimento (Romanos 11:29). Isto é claramente confirmado pelo que se segue imediatamente: “depois de havemos padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça”. Esta graça, assim, fixada na vontade Divina é o mais soberano e predominante princípio no coração de Deus, acima de todas as outras coisas que Ele quer, de forma a realizar eficazmente e efetuar a Sua resolução de livre graça. Graça, como é o mais resoluto, assim é o princípio mais absoluto no coração de Deus; pois a ela pertence o domínio. O que mais significa “trono da graça” (Hebreus 4:16)? Por que outra razão é a graça dita “reinasse ... para a vida eterna” (Romanos 5:21)? A mesma coisa aparece no contexto de 1 Pedro 5:10:

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“Humilhai-vos [ou submetam-se], pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte” (v. 6); Ele “tem cuidado de vós” (v. 7); tudo isso é conduzido ao “Deus de toda graça” no versículo 10; que é seguido por “a ele seja a glória e o poderio para todo o sempre. Amém” (v. 11), ou seja, a ele como “o Deus de toda graça”. Mas é como o Deus de toda a graça por meio da execução ou desempenho que agora temos que contemplá-lO em Suas dispensações graciosas de todos os tipos, que são os efeitos do oceano de graça em Sua natureza e o propósito da graça em Seu coração. Nós podemos voltar, por um momento, para 1 Pedro 5:5: “Deus [...] dá graça aos humildes”, que se refere à Sua concessão real de graça. De modo semelhante, Tiago declara: “Ele dá maior graça” (4:6), onde ele cita a mesma passagem, como Pedro. Em Tiago isso é falado em referência a subjugar as concupiscências de Seu povo, particularmente cobiça segundo a inveja. Verdadeiramente isso é graça de fato, que quando a concupiscência se enfurece, a graça de Deus deve movê-lO a dar mais graça pela qual Ele a sujeita; aos que se humilham por suas paixões, Ele dá maior graça. Ajudar-nos-á a uma melhor compreensão deste título Divino “o Deus de toda graça”, se o compararmos com o “Deus de toda consolação” em 2 Coríntios 1:3. Agora, isso é falado em relação aos efeitos do consolo: como o salmista diz: “Tu és bom e fazes bem” [Salmos 119: 68]; assim, imediatamente após Ele ser chamado como “o Deus de toda consolação” segue-se, “que nos consola em toda a nossa tribulação”. Ele é o “Deus de toda consolação” em relação a todos os tipos de angústias, que os santos em qualquer tempo têm; da mesma maneira, Ele é o Deus de toda graça em relação aos seus efeitos graciosos. No entanto, isso pode ser adicionado — para a devida magnificação da graça — que os dois não são proporcionais, pois as dispensações de Sua graça são mais amplas do que as dispensações de Seu consolo. Deus muitas vezes dá a graça onde Ele não confere consolo, a fim de que Ele seja o Deus de toda a graça em uma extensão maior do que Ele é Deus de toda consolação. Agora, já que há uma plenitude, um oceano, toda a graça dispensatória a ser dada por Deus, o que se segue necessariamente? Isto, em primeiro lugar, que não há tentação que ocorra ou possa ocorrer a um santo que está sob o domínio da livre graça, a não ser que Deus tenha uma graça preparada para ser aplicada quando sua hora chegar. Isso implica claramente que Deus tem uma graça apropriada e adaptada quando cada necessidade e ocasião surgirem. Não há dor no coração, a não ser que Ele tenha um unguento pronto para isso, para ser posto sobre ela no momento devido. A própria palavra “graça” é relativa à necessidade e tentação, e por isso “toda a graça” deve ser relacionada a todos ou quaisquer necessidades de qualquer natureza. Se houvesse qualquer falta nos grandes sujeitos da livre graça de que lhes seja possível, e Deus não tivesse uma graça especial para isso,

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Ele não seria o Deus de toda graça. Mas nunca se pode dizer que a miséria de Seu povo é mais extensa do que o alcance da graça de Deus. Como Deus tem graça para todas as múltiplas necessidades de Seu povo, de modo que Ele é o Deus de toda graça em conceder ajuda conforme as ocasiões deles requerem, para os tais, a temporada de graça deve ser demonstrada. “Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” (Hebreus 4:16). Então, mais uma vez, “para que execute o juízo do seu servo e o juízo do seu povo Israel, a cada qual no seu dia” (1 Reis 8:59), o que deve ser visto como um tipo da intercessão do antítipo Salomão, o Príncipe da paz. Assim, o favor de Deus se manifesta ao Seu povo em todos os momentos de necessidade e em todos os tipos de formas. Se Deus falhasse com o Seu povo em qualquer época e não os ajudasse em qualquer necessidade, então Ele não seria o Deus de toda a graça, pois é a parte principal de ser gracioso o aliviar em tempo de maior necessidade. O fato de que Ele é o Deus de toda a graça no que diz respeito à dispensação da mesma, demonstra que Ele não leva este título sobre Si potencialmente, mas que Ele é assim em verdade, é simplesmente que Ele tem em Si mesmo a graça suficiente para atender toda a variada necessidade de Seu povo, mas também que Ele realmente o efetua. Para casos de todos os tipos, Deus dá prova completa disso. No dia vindouro, Ele terá a honra de ser não apenas o Deus de toda graça, potencialmente, mas será realmente assim no desempenho disso, pois será visto, então, que Ele bem realizou totalmente essa palavra “Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar” (1 Coríntios 10:13). A maior e mais aguçada necessidade dos Cristãos advém de seu pecado interior, ainda assim, ampla provisão é feita aqui, também, pois “onde o pecado abundou, superabundou a graça” (Romanos 5:20). Mas, aqueles que foram chamados eficazmente responderão: Ai de mim, os meus pecados, desde a conversão, têm sido maiores e mais densos do que qualquer outro que eu cometi antes. Resposta: em primeiro lugar, você pode ter sido muito jovem quando convertido primeiramente: desde então, como você tem se desenvolvido de acordo com o curso da natureza, a cobiça também tem crescido, e você está mais consciente delas do que na mocidade. Em segundo lugar, as suas circunstâncias podem ser responsáveis por elas, embora não as desculpem. Alguns pecam de forma pior após a conversão do que antes: Jó e Jeremias pecaram mais gravemente posteriormente na vida do que durante os anos anteriores, pois suas tentações cresceram muito maiores. Em terceiro lugar, considere não apenas os seus pecados terríveis, mas os seus arrependimentos sinceros também, seus clamores

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fervorosos a Deus contra eles, que não foram ignorados por Ele; demonstrando mais uma vez que Ele é “o Deus de toda graça”. Uma outra coisa que se poderia supor obstruir o curso da graça de Deus que começou em nós no chamado eficaz, fazendo com que o Seu coração se desviasse de nós, é o poder do pecado e fúrias no interior do Cristão. Mas, se Ele nos santificou a princípio como o Deus de toda a graça, então certamente isso proporciona um seguro fundamento de confirmação, com o que, não obstante os perigos de nossas corrupções remanescentes pareçam nos ameaçar, Ele certamente preservará a graça em nós, apesar de todas as tentações a que estamos sujeitos. Em sua santificação, Deus colocou na alma do Cristão as sementes de toda graça e disposição graciosa que ele alguma vez possuiu. Ele não é bem capaz de nutrir e preservar este jardim de Sua própria plantação? Ouça a Sua preciosíssima promessa: “Eu, o Senhor, a guardo, e cada momento a regarei; para que ninguém lhe faça dano, de noite e de dia a guardarei” (Isaías 27:3). “Ou cuidais vós que em vão diz a Escritura: O Espírito que em nós habita tem ciúmes? Antes, ele dá maior graça. Portanto diz: Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Tiago 4:5-6). Isto denota claramente que nossos conflitos mais ferozes e mais perigosos são com algum desejo ou tentação particular, pois tal o exemplo do apóstolo aqui transmite, a concupiscência da inveja. Mas quando uma alma regenerada é consciente desta corrupção e humilha-se sob ela e por ela, lamentando a mesma diante de Deus, isso mostra que a graça contrária está trabalhando dentro dele, opondo-se às atividades daquela luxúria, resistindo àquela inveja (e ao orgulho a partir do qual brota), e por isso é que ele busca por humildade (a graça contrária ao orgulho); e o Senhor como o Deus de toda a graça dálhe “mais graça”. Mas uma pobre alma responderá: infelizmente, temo muito que a minha condição seja muito pior agora do que jamais fora anteriormente. Resposta: considere a pior condição em que você já esteve após a conversão, e considere o quadro de seu coração nela e, em seguida, compare-a com o melhor estado de espírito em que você alguma vez já esteve antes da conversão. Honestamente, você se atreve a trocar isso agora, por aquilo que era no passado? Antes da conversão você não tinha o menor pingo de santa afeição em si, você não visava a glória de Deus; mas, desde a conversão você tem (considere todo o curso da sua vida Cristã) tido um olhar para Deus e procura agradar a Deus. É verdade, como Davi, você deve dizer: “Desgarrei-me como [não porco, mas apenas] a ovelha perdida”, ainda assim, você pode acrescentar com ele: “busca o teu servo, pois não me esqueci dos teus mandamentos” (Salmos 119:176). Antes de sua conversão nunca invocaste a Deus sem uma formalidade; mas agora você

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muitas vezes clama a Ele sinceramente. Antes, você não tinha verdadeiro ódio ao pecado e não buscava a santidade; mas agora busca, embora muito aquém do que deveria. Você fala sobre concupiscências assaltando-o com tentações; sim, porém uma vez você tinha o diabo habitando em si, como em sua própria casa, em paz, e tendo-o cativo segundo sua vontade. Você reclama da frieza no exercício dos deveres espirituais; sim, mas uma vez você esteve totalmente morto. Pode ser que suas graças não estejam brilhando, e ainda assim, há em você anseios por Deus, deseja temer o Seu nome. Há, então, uma criatura espiritual vivendo em você, a qual, como a toupeira subterrânea, está se esforçando em direção ao ar, levantando-se da terra. A prova adicional (em 1 Pedro 5:10) que o Deus de toda a graça conduzirá com segurança ao Céu, através de todos os sofrimentos e as tentações, aqueles a quem Ele chamou, está contida nas palavras “nos chamou para a sua glória eterna”. Embora nós ainda não estejamos na posse real e pleno gozo da mesma, no entanto, Deus já nos investiu com um direito pleno e imprescritível dela. Esta “glória” foi o primeiro de todos os pensamentos e intenções de Deus ao nosso respeito, pois era o fim ou resultado de Seus propósitos graciosos para conosco. Disse o Senhor Jesus: “Não temais, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o reino” (Lucas 12:32), e Ele exclamará no dia vindouro: “Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mateus 25:34), que se refere em si mesmo ao céu, onde Deus reina como Rei incontestado. Agora o coração de Deus está tão posto sobre esta glória como Sua primeira e última finalidade para o Seu povo que, quando Sua graça eletiva torna-se conhecida em nosso chamado, Ele, então, nos concede o pleno direito à mesma. Embora Ele suspende o darnos a plena posse dela por alguns anos, entretanto Ele não suspende o pleno título da mesma, pois a totalidade da salvação é, então, conferida a nós. Um belo (e proposital) tipo disso é encontrado em 1 Samuel 16:18. Aos olhos de seus irmãos, Deus enviou Samuel a Davi, enquanto ele ainda era jovem, e o ungiu rei, investindo-o assim do seguro direito ao reino de Israel, sendo esta unção o penhor e garantia de todo o restante. Mas, por muitos anos a posse do reino de Davi foi adiada e, durante esse tempo, ele sofreu muito nas mãos de Saul; no entanto, Deus milagrosamente o preservou e trouxe-o com segurança para o trono do reino. Mas, observe bem que Deus não somente nos chamou à Sua glória, mas para a “sua eterna glória”, no que está implícito não simplesmente que a glória é eterna como um complemento da mesma, mas que a nossa vocação e propriedade, assim, é para a eternidade daquela glória, bem como para a própria glória. Isto implica em duas coisas. Em primeiro lugar, aquele que é chamado de Deus tem uma vida ou glória espiritual iniciada em sua alma, que

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é eterna; observe como a imagem de Cristo operada no crente nesta vida é chamada de “glória” em 2 Coríntios 3:18. Esta glória da vida espiritual do Cristão é indestrutível: “quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (João 11:25). Em segundo lugar, importa que, quando um homem é chamado, ele é colocado na posse de um direito eterno de glória, e não um direito presente de glória apenas, mas um direito perpétuo; uma dádiva segura, que alcança a eternidade. “Para que, sendo justificados pela sua graça, sejamos feitos herdeiros segundo a esperança da vida eterna” (Tito 3:7). Há ainda uma outra frase em 1 Pedro 5:10, que deve continuar a ser considerada: “Em Jesus Cristo”. Há uma segurança que Jesus Cristo concedida, assim como a do Pai, para confirmar a fé do crente que ele será fortalecido e capacitado a perseverar. Deus é o Deus de toda a graça para nós por Jesus Cristo: todos os Seus atos de graça para conosco são em e por meio dEle. Ele elegeu-nos em primeiro lugar e, em seguida, amou-nos apenas enquanto considerando-nos em Jesus Cristo. Deus, tendo assim estabelecido Cristo como Mediador, ou melhor, como o Fundamento de Sua graça, é uma base segura da continuidade desta para nós. Todos os propósitos de graça foram feitos em Cristo, e todas as Suas promessas são estabelecidas e executadas em e por meio dEle. Há duas Pessoas engajadas na preservação dos santos para a glória: Deus, o Pai e Jesus Cristo. Nós temos visto que esta confirmação fornece à nossa fé os interesses de Deus o Pai para conosco; igualmente pleno e forte é aquele suprido pelo interesse que Jesus Cristo tem para com eles. A realização da nossa segura e firme salvação contra toda a oposição está diretamente fundamentada sobre Ele e relacionada a Ele. A respeito de Jesus Cristo, Deus diz: “Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido” (1 Pedro 2:6). Nós somos “chamados para serdes de Jesus Cristo” (Romanos 1:6). Temos “a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 6:23). Deus “nos confirma convosco em Cristo” (2 Coríntios 1:21). Pouco espaço nos resta para considerarmos a segurança que uma devida contemplação que a Pessoa de Cristo, a Sua relação conosco, e ofício por nós fornecem à nossa fé, de forma que sejamos divinamente fortalecidos para perseverar até o fim. Assim, apenas alguns detalhes podem ser mencionados. Em primeiro lugar, a Sua obra redentora. Esta é de tal infinito valor que Ele não somente comprou para nós o nosso primeiro chamado para a graça (Romanos 5:2), mas junto com isso, a nossa continuidade nesta graça. Cristo meritoriamente anulou todas as nossas tentações e há uma habilidade nEle mesmo para socorrer-nos e nos firmar até o fim. “O qual se deu a si mesmo por nossos pecados, para nos livrar do presente século mau” (Gálatas 1:4). “O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas

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obras” (Tito 2:14). Enquanto Seu precioso sangue conservar o seu valor infinito na estima de Deus, nenhuma de Suas ovelhas pode perecer. Em segundo lugar, a terna compaixão de Cristo. “Porque naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados” (Hebreus 2:18). No versículo anterior é declarado que Ele é “misericordioso Sumo Sacerdote”, para apiedar-se de nós, de forma que Ele tem um coração e disposição de ajudar o Seu povo; mas no verso 18 é adicionado que Ele é capaz de assim fazê-lo. E observe, não é afirmado que Ele é capaz em relação ao Seu poder pessoal, como Ele é Deus, mas que há uma possibilidade além e adquirida, dEle como sendo Homem. Ele ter sido feito um homem frágil, sujeito a tentações, e as dolorosas experiências pelas quais Ele passou nos dias de Sua humilhação, atrai o Seu coração à piedade por nós quando estamos em perigo, e por causa dessa ternura adquirida, Ele é capaz de nos socorrer na tentação. Em terceiro lugar, a Sua intercessão. “Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida” (Romanos 5:10), isto é, pela Sua vida por nós no Céu. “Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hebreus 7:25). Se, então, tu vens a Deus por meio dEle, a intercessão de Cristo efetivamente protege a tua salvação em extremo. Porque Ele tem te levado em Seu coração, Ele tem te levado em Suas orações. Uma vez que Cristo nos conduz em Suas orações, Ele nunca nos deixará, mas prevalece por nós, qualquer que seja a nossa situação, ou seja no que for que caiamos (1 João 2:1), uma clara prova disso foi fornecida pelo caso de Pedro. Um homem pode ser lançado fora das orações de um santo, como Saul foi lançado fora das de Samuel; mas ninguém jamais foi expulso das orações de Cristo, tendo uma vez estado em Suas orações. Suas orações prevalecerão para impedir-te de cair em tais pecados como os que Deus não perdoará. Em quarto lugar, o interesse de Cristo naquela glória para a qual somos chamados e nossa participação na glória de Cristo, pois elas são uma. “Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor” (1 Coríntios 1:9); ou seja, somos participantes das mesmas coisas (em nossa medida) que Ele é participante. “Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição” (Romanos 6:5). O apóstolo declara que Deus “vos chamou, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Tessalonicenses 2:14). É para a própria glória de Cristo — a recompensa dessa obra maravilhosa pela qual Ele de forma tão ilustre magnificou o Pai — que o Seu povo é trazido, pois nada menos do que isso satisfaria o coração de Cristo: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste” (João 17:24).

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Aqui, então, é como a eleição secreta de Deus na eternidade passada é manifestada abertamente ao Seu povo neste estado temporal: por meio de um chamado sobrenatural, e por milagrosamente conduzi-los através do mundo, que é tão hostil às suas almas quanto a fornalha da Babilônia era aos corpos dos três hebreus.

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9 • Sua Percepção Até agora temos permanecido principalmente no lado doutrinal da eleição; agora nos voltamos mais diretamente ao seu aspecto experimental e prático. Toda a doutrina da Escri-tura é uma unidade perfeita e harmoniosa, mas para nossa compreensão mais clara da mesma, ela pode ser considerada distintamente em suas partes componentes. Estritamente falando, é inadmissível falar de “doutrinas da graça”, pois há apenas uma grande e Divina Doutrina da Graça, embora o precioso diamante tenha muitas facetas em si. Nós não somos assegurados pela linguagem da Sagrada Escritura para empregar a expressão de doutrinas da eleição, da regeneração, da justificação e da santificação, pois na realidade elas são apenas partes de uma doutrina; entretanto, não é fácil encontrar um termo alternativo. Quando o plural “doutrinas” é usado na Palavra de Deus, isso faz alusão ao que é falso e errôneo: “doutrinas dos homens” (Colossenses 2:22), “doutrinas de demônios” (1 Timóteo 4:1), “doutrinas várias e estranhas” (Hebreus 13:9) — “diversas”, porque não há acordo entre elas. Ao contrário das doutrinas falsas e conflitantes dos homens, a verdade de Deus é um grande e consistente todo, e é uniformemente citado como “a doutrina” (1 Timóteo 4:16), “sã doutrina” (Tito 2:1). Sua marca distintiva é descrita como “a doutrina que é segundo a piedade” (1 Timóteo 6:3) — a doutrina que produz e promove a piedade. Cada parte desta doutrina é intensamente prática e experimental em todos os seus aspectos. Não é mera abstração dirigida ao intelecto, mas, quando devidamente apreendida, exerce uma influência espiritual no coração e na vida. Assim, é com essa fase particular da doutrina de Deus, que está agora diante de nós. A bendita verdade da eleição é revelada não para especulação carnal e controvérsia, mas para produzir os belos frutos da santidade. A escolha é de Deus, mas os efeitos salutares estão em nós. É verdade que a doutrina deve ser aplicada pelo poder do Espírito Santo para a alma antes que esses efeitos sejam produzidos; pois aqui, como em todos os lugares, somos totalmente dependentes de Suas operações graciosas. O primeiro efeito produzido na alma pela aplicação, pelo Espírito, da verdade da eleição Divina é a promoção da verdadeira humildade. O orgulho e a presunção agora recebem a sua ferida mortal, a auto-complacência é quebrada, e o sujeito desta experiência é abalado em seus próprios fundamentos. Ele pode, por anos passados ter feito uma profissão de fé Cristã, e não ter entretido quaisquer dúvidas sérias sobre a sinceridade e autenticidade da mesma. Ele pode ter tido uma forte e inabalável segurança de que ele estava peregrinando para o Céu; e durante esse tempo ele era completamente ignorante da verdade da eleição. Mas que mudança veio sobre ele! Agora que ele aprende que Deus fez uma escolha eterna

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dentre os filhos dos homens, ele está profundamente preocupado para saber se ele é ou não um dos favoritos do Céu. Percebendo algo das enormes questões envolvidas, e dolorosamente consciente de sua própria depravação total, ele fica cheio de temor e tremor. Isso é muitíssimo doloroso e inquietante, pois ele ainda não sabe que tais exercícios de alma são um sinal saudável. É exatamente por causa da pregação da eleição, quando acompanhada pelo poder do Espírito Santo (e que pregação é mais projetada para ter Sua bênção do que aquela que mais magnifica a Deus e humilha o homem!?) produz tal angústia de coração, que é muitíssimo desagradável para aqueles que desejam estar “à vontade em Sião”. Nada é mais projetado para expor uma profissão vazia, para despertar as adormecidas vítimas de Satanás. Mas, infelizmente, aqueles que não têm nada melhor do que uma segurança carnal não desejam ter sua falsa paz perturbada, e, consequentemente, eles são os mesmos que ficam mais exaltados em seus protestos contra a proclamação da graça distintiva. Mas o rosnar e o latido de cães não são nenhuma razão para que os filhos de Deus sejam privados de seu pão necessário. E não importa o quão desagradáveis sejam os primeiros efeitos produzidos nele pela recepção de coração desta verdade, não demorará muito para que a pessoa humilhada seja verdadeiramente grata por aquilo que faz com que ela cave mais profundamente e se certifique de que sua esperança está fundada sobre a Rocha Eterna. O castigo Divino é uma coisa dolorosa; no entanto, para os que são exercitados nele, ele depois produz um fruto pacífico de justiça (Hebreus 12:11). Por isso, é uma coisa grave para nossa complacência o sermos rudemente despedaçados, mas se a consequência for que trocamos uma falsa confiança por uma segurança biblicamente fundamentada, temos de fato motivo para fervoroso louvor. Pois, descobrir que o propósito da graça de Deus é restrito a um povo eleito, é alarmante para quem imaginou que Ele ama todos os homens igualmente. Ser levado a pensar seriamente se eu sou um daqueles que Deus escolheu em Cristo antes da fundação do mundo, levanta uma questão que não é fácil de responder de forma satisfatória; e ser levado a investigar diligentemente o meu estado atual, examinarme solenemente diante de Deus, é uma tarefa na qual nenhum hipócrita prosseguirá; ainda assim, é uma tarefa da qual o regenerado não retrocederá, pelo contrário, a buscará com zelo ardente e fervorosa oração a Deus por ajuda nisso. Não é (como alguns tolamente supõem) que aquele que está agora tão seriamente preocupado com sua condição espiritual e destino eterno está em tal alarme porque ele duvida da Palavra de Deus. Longe disso, é somente porque ele acredita na Palavra de Deus que ele duvida de si mesmo, duvida da validade de sua profissão de fé Cristã. É porque ele acredita nas Escrituras quando elas declaram que o rebanho do Senhor é um “muito pequeno” (em grego, Lucas 12:32), ele está com medo dele mesmo não pertencer a ele. É porque

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ele acredita em Deus, quando Ele diz: “Há uma geração que é pura aos seus próprios olhos, mas que nunca foi lavada da sua imundícia” (Provérbios 30:12), e por ele encontrar tanta sujeira em sua própria alma, que ele treme com medo de que isso seja verdade sobre ele. É porque ele acredita em Deus, quando Ele diz: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jeremias 17:9), que ele está profundamente exercitado para não ser fatalmente enganado. Ah, meu leitor, quanto mais firmemente cremos na Palavra de Deus, mais causa temos para duvidarmos de nós mesmos. Obter a segurança de que eles receberam um chamado sobrenatural de Deus, que os trouxe da morte para a vida, é uma questão de interesse fundamental para aqueles que realmente valorizam suas almas. Aqueles a quem Deus concedeu um coração honesto abominam a hipocrisia, a recusam-se a tomar qualquer coisa como garantido, e muitos temem que eles ponham sobre si mesmos um veredito mais favorável do que é justo. Outros podem rir de sua preocupação e zombar de seus temores, mas isso não os mobiliza. Muito está em jogo para um tal assunto ser de forma descontraída e apressadamente descartado. Eles sabem muito bem que esse assunto é aquele que deve ser resolvido na presença de Deus, e se eles estiverem enganados, eles Lhe pedem para fazê-los conscientes disso. É Deus quem os feriu, e somente Ele pode curá-los; é Deus quem tem perturbado a sua complacência carnal, e ninguém senão Ele pode dar descanso espiritual real. É possível que uma pessoa, nesta vida, realmente conheça a sua eleição eterna de Deus? Os papistas respondem dogmaticamente que nenhum homem pode certamente conhecer sua própria eleição, a menos que seja autenticada por alguma revelação especial, imediata e pessoal de Deus. Mas isso é manifestamente falso e errôneo. Quando os discípulos de Cristo voltaram de sua viagem de pregação e relataram-lhe as maravilhas que haviam feito e estando animados que até mesmo os demônios se sujeitaram a eles, Ele lhes ordenou: “Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” (Lucas 10:20). Não é perfeitamente claro nestas palavras de nosso Salvador que os homens podem alcançar um conhecimento seguro de sua eleição eterna? Certamente não podemos, nem iremos, nos alegrar com as coisas que são desconhecidas ou nem mesmo nas coisas incertas. Será que Paulo não ordenou aos Coríntios: Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos” (2 Coríntios 13:5)? Aqui isso é certamente tomado como garantido que aquele que tem fé pode saber que ele a tem e, portanto, também pode conhecer a sua eleição, pois a fé salvadora é uma marca infalível da eleição: “e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (Atos 13:48). Quem dera que mais ministros tomassem uma página do livro do apóstolo e exortasse os seus ouvintes ao real autoexame, é verdade, isso não aumentaria a sua atual popularidade, mas isso provavel-

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mente resultaria em ação de graças de alguns dos seus ouvintes em um dia futuro. Outro dos apóstolos não exorta os seus leitores: “Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição” (2 Pedro 1:10)? Mas que força tal injunção possui se a segurança for inatingível nesta vida? Seria completamente inútil usar diligência se o conhecimento da nossa eleição fosse impossível sem que tivéssemos uma revelação extraordinária de Deus. Mas como pode um homem vir a conhecer a sua eleição? Certamente não é ascendendo como se fosse para o Céu, para ali pesquisar nos conselhos de Deus, e depois descer por si mesmo. Nenhum de nós pode obter acesso ao livro da vida do Cordeiro, os decretos de Deus são secretos. No entanto, é possível que os santos saibam que estão entre aquele ajuntamento a quem Deus predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho. Mas como? Não por alguma revelação extraordinária de Deus, pois em nenhum lugar a Escritura promete qualquer coisa para as almas exercitadas. Spurgeon coloca isso francamente quando disse: “Nós sabemos de alguns que imaginam ser eleitos por causa de uma visão que eles viram quando estavam dormindo, ou quando eles estavam acordados, pois os homens têm tido sonhos quando acordados; mas estas são de tanto valor quanto teias de aranha seriam para uma veste, elas serão de tanta utilidade a eles no dia do juízo, quanto as convicções de um ladrão seria para ele se ele estivesse precisando de uma reputação para encomendá-lo à misericórdia” (Sermão em 1 Tessalonicenses 1:4-6). A fim de verificar a nossa eleição, temos de descer em nossos próprios corações, e, em seguida, subir de nós mesmos como se fosse pela escada de Jacó para o propósito eterno de Deus. É por meio dos sinais e testemunhos descritos nas Escrituras, que devemos procurar dentro de nós mesmos e, a partir deles descobrir o conselho de Deus concernente à nossa salvação. Ao fazer esta afirmação, não estamos esquecidos do comentário satírico com o que é provável encontrar-se em determinados locais. Há uma classe de Cristãos professos que não entretém quaisquer dúvidas sobre a sua salvação, que amariam dizer isso tanto quanto olhar para um iceberg em busca de calor ou para um túmulo para encontrar sinais de vida, ou como para buscar dentro de nós mesmos as provas do novo nascimento. Mas não é semelhante blasfêmia sugerir que Deus o Espírito pode fazer a Sua residência em uma pessoa e ainda assim que não haja evidências definitivas de Sua presença. Há dois testificadores para o crente a partir do que ele pode certamente aprender os conselhos eternos de Deus com respeito à sua salvação: o testemunho do Espírito de Deus e o testemunho de seu próprio espírito (Romanos 8:16). Por estes meios é que o Espírito de Deus fornece testemunho de uma consciência Cristã a partir da Palavra, senão, antes por Sua aplicação das promessas do Evangelho, na forma de um silogismo: Todo aquele que crê em Cristo é escolhido para a vida eterna. Essa proposição está claramente estabelecida

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na Palavra de Deus, e é expressamente proposta por Seus ministros do Evangelho. O Espírito de Deus acompanha a pregação deles com poder eficaz, para que os corações dos eleitos de Deus sejam abertos para receber a verdade, com os olhos iluminados para perceber a sua bem-aventurança, e suas vontades modificadas para renunciarem a todas as outras dependências e entregarem-se à misericórdia de Deus em Cristo. Mas, surge a pergunta: como posso distinguir entre o testemunho do Espírito e a imitação ilusória de Satanás disso? Pois, assim como há uma segura persuasão do favor de Deus a partir de Seu Espírito, há também fraudes do Diabo pela qual ele lisonjeia e acalma os homens em seus pecados. Além disso, existe em todos os homens presunção natural, que é muitas vezes confundida com fé, na verdade, há muito mais desta fé-zombadora no mundo do que há da verdadeira fé. É realmente trágico encontrar que há multidões no mundo religioso de hoje, que são conduzidas pelo “fogo estranho” do entusiasmo selvagem, supondo que o entusiasmo de seus espíritos carnais e emoções são prova segura de que eles receberam o “batismo do Espírito” e, assim, estão seguros do Céu. No outro extremo, há um grande número de pessoas que desdenha e desacredita de todos os sentimentos religiosos e fixa a sua fé em um: “Estou descansando em João 5:24”, e se vangloria de que eles não tiveram dúvida de sua salvação por muitos anos no passado. Ora, o verdadeiro testemunho do Espírito pode ser discernido da presunção natural e enganação satânica por seus efeitos e frutos. Primeiro, o Espírito concede aos eleitos de Deus corações que oram. “E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles?” (Lucas 18:7). Observe quão diretamente, após fazer essa declaração, o Senhor Jesus passou a dar uma ilustração da natureza de sua oração. É verdade que os formalistas e hipócritas oram, mas muito diferente é esta oração deles do clamor daqueles que estão conscientes do pecado, sobrecarregados de culpa, que fazem parte do aflito povo de Deus, como se evidencia a partir do vívido contraste entre o fariseu e o publicano. Ah, não faremos esta oração que caracteriza os eleitos de Deus até que sejamos levados a sentir a nossa indignidade absoluta e merecimento do Inferno, nossa ruína e desventura, nossa miséria e dependência absoluta da graça soberana de Deus, então, começamos a “clamar” a Ele e isso, “de dia e de noite”, orar experimentalmente, orar com perseverança, orar com “gemidos inexprimíveis”, e, portanto, orar eficazmente. Olhemos por um momento, para uma oração de um daqueles que pertencem ao povo de Deus, “Lembra-te de mim, Senhor, segundo a tua boa vontade para com o teu povo; visitame com a tua salvação” (Salmos 106:4). Agora meu leitor, ou você quer buscar sinceramente este favor pelo qual o Senhor se lembra de Seu povo, ou você não quer. É somente quando somos levados para o lugar onde somos pressionados para baixo com um senso de nossa pecaminosidade e vileza que podemos dizer em nossas almas diante de Deus:

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“Ó, visita-me com a tua salvação”. Mas o salmista não parou por aí, nem mais nós devemos; ele passou a dizer: “Para que eu veja os bens de teus escolhidos, para que eu me alegre com a alegria da tua nação, para que me glorie com a tua herança” (v. 5). Os eleitos de Deus oram e buscam pelo que nenhum outro homem ora e busca: eles querem ver o bem dos escolhidos de Deus, buscam ser salvos com a Sua salvação, e permanecer na condição de Sua aliança e fundamento eternos. Um segundo efeito do testemunho do Espírito é que ele nos leva a nos submetermos à soberania de Deus. Não somente os eleitos de Deus oram por algo que nenhum outro homem ora, mas o fazem de uma forma diferente de todos os outros. Eles se aproximam do Todo-Poderoso não como iguais, mas como mendigos; eles fazem “pedidos” a Ele, e não exigências; e apresentam as suas petições em estrita subserviência à Sua vontade imperial. Quão completamente diferentes são as suas humildes petições da arrogância e do ditatorialismo de professos vazios. Eles sabem que não têm direitos sobre o Senhor, que eles não merecem misericórdia de Suas mãos, e, portanto, eles não levantam protestos contra a Sua afirmação expressa, “Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (Romanos 9:15). Essa pessoa cujo coração é habitado pelo Espírito de Deus toma o seu lugar no pó, e diz com o piedoso Eli: “Ele é o Senhor; faça o que bem parecer aos seus olhos” (1 Samuel 3:18). Lemos em Mateus 20:3 sobre uma série de homens “que estavam ociosos no mercado”, o que entendemos significar que eles não estavam ativamente engajados no serviço do Diabo, mas que ainda não tinha entrado no serviço a Deus. Sua atitude era indicativa de um desejo de serem religiosos. “Muito bem”, disse o Senhor, “vão trabalhar na minha vinha”. Mas um pouco mais tarde, o Senhor da vinha exibiu Sua soberania, e eles ficaram muito descontentes. O Senhor deu ao último o mesmo que aos primeiros, e então murmuravam. O Senhor respondeu: “Não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?” (v. 15). Isso foi o que os ofendeu; eles não queriam se submeter à Sua soberania, não obstante, Ele a exerceu. “Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?”. Ele perguntou e ainda pergunta a cada um daqueles que, no orgulho e incredulidade de seu próprio coração, se levanta contra a distintiva graça de Deus. Mas não é assim com os eleitos de Deus, eles se curvam diante de Seu trono e entregam-se inteiramente em Suas mãos. Em terceiro lugar, os eleitos de Deus têm comunicado a eles um espírito filial, de forma que eles têm afeições de filhos obedientes ao seu Pai celestial. Isso inspira-os com um temor de Sua majestade, a fim de que eles estejam conscientes de todo caminho mau. Isso inclina os seus corações ao amor de Deus, de modo que eles desejam o gozo consciente de Seu rosto sorridente, estimando a comunhão com Ele acima de todos os outros privilégios. Esse

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espírito filial produz confiança para com Deus, de modo que eles suplicam as Suas promessas, contam com a Sua misericórdia, e confiam em Sua bondade. Sua elevada autoridade é respeitada e eles tremem da Sua Palavra. Esse espírito filial produz sujeição a Deus, de forma que eles desejam obedecê-lO em todas as coisas, e sinceramente se esforçam para andar de acordo com os Seus mandamentos e preceitos. É verdade que eles estão ainda muito longe de serem o que eles deveriam ser, e do que eles gostariam de ser, se seus sinceros anseios fossem realizados; no entanto, o seu fervoroso desejo é agradá-lO em todos os seus caminhos. “O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Romanos 8:16). O ofício de uma “testemunha” é testemunhar ou apresentar evidência tendo como objetivo produzir provas, seja de inocência ou de culpa. Isso pode ser visto a partir de: “Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” (Romanos 2:15). Embora os gentios não tinham recebido uma revelação escrita de Deus (como foi o caso com os judeus), no entanto, eles eram Suas criaturas, responsáveis a Ele, sujeitos à Sua autoridade, e ainda serão julgados por Ele. Os fundamentos em que a sua responsabilidade repousa são: a revelação que Deus fez de Si mesmo na criação que os torna “inescusáveis” (Romanos 1:19-20) e da obra da lei escrita em seus corações, que é a racionalidade ou “a luz da natureza”. Seus instintos morais os instruem na diferença entre o certo e o errado e alertam para um dia futuro de acerto de contas. Enquanto a sua consciência “testemunha”, isto é, fornece evidência de que Deus é o seu governador e juiz. Agora, o Cristão tem uma consciência renovada, e isso fornece a prova de que ele é uma pessoa renovada e, consequentemente, um dos eleitos de Deus. “Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que em tudo querem portar-se honestamente” (Hebreus 13:18), a inclinação de seu coração era para Deus e obediência a Ele. Não apenas o Cristão sinceramente deseja honrar a Deus e ser honesto com seus companheiros, mas ele faz um verdadeiro esforço para isso: “E por isso procuro sempre ter uma consciência sem ofensa, tanto para com Deus como para com os homens” (Atos 24:16). E é o ofício de uma boa consciência testemunhar favoravelmente para nós e a nós. A isso o Cristão pode recorrer. Paulo fez isso muitas vezes, por exemplo, em Romanos 9:1 nós o encontramos declarando: “Em Cristo digo a verdade, não minto (dando-me testemunho a minha consciência no Espírito Santo)”, o que significa que a sua consciência testemunhou a sua sinceridade no assunto. Assim, vemos mais uma vez como a Escritura interpreta a Escritura: Romanos 2:15 e 9:1 definem o significado de “nosso espírito carregando o testemunho” — produzindo evidência, estabelecendo a veracidade de um caso. Romanos 8:16 declara que o nosso espírito (auxiliado pelo Espírito Santo) fornece prova

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que somos “filhos de Deus”, e, como o apóstolo prossegue em mostrar que se somos filhos somos “logo herdeiros” (v. 17) e “escolhidos de Deus” (v. 33). Agora, este testemunho de nosso espírito é o testemunho do nosso coração e consciência, purificados e santificados pelo sangue de Cristo. Isso testifica de duas maneiras, por sinais interiores em si mesmos, e por provas externas. Como isso é tão pouco compreendido atualmente, devemos nos estender sobre este assunto. Esses sinais internos são certas graças especiais implantadas em nosso espírito no novo nascimento, pelo que uma pessoa pode ter, certamente, a certeza de sua adoção Divina, e, portanto, de sua eleição para a salvação. Esses sinais relacionam-se primeiro aos nossos pecados, e, segundo à misericórdia de Deus em Cristo. E por uma questão de clareza, consideraremos o primeiro em conexão com os nossos pecados passados, presentes e futuros. O testemunho ou sinal em nosso “espírito” ou coração, que diz respeito aos pecados passados é a “tristeza segundo Deus” (2 Coríntios 7:10), que é realmente uma graça mãe de muitos outros dons e graças de Deus. A natureza dela pode ser melhor concebida, se a compararmos com o seu oposto que é a tristeza segundo o mundo que emana do pecado, e nada mais é do que o terror de consciência e de uma apreensão da ira de Deus por causa da consciência do pecado; ao passo que a tristeza segundo Deus, embora seja de fato ocasionada por nossos pecados, nasce de uma dor de consciência causada por uma sensação daquela bondade e graça de Deus. A tristeza do mundo consiste em horror somente em relação ao castigo, ao passo que a tristeza segundo Deus é tristeza pelo pecado como pecado, que é aumentada pela percepção de que não haverá punição pessoal para ele, desde que tal punição foi infligida a Cristo em meu lugar. A fim de que ninguém enganese em discernir esta “tristeza segundo Deus”, o Espírito Santo em 2 Coríntios 7:11 deu sete marcas pelas quais ela pode ser identificada. A primeira marca é: “Porque, quanto cuidado não produziu isto mesmo [‘tristeza segundo Deus’] em vós”. A palavra para “cuidado” significa em primeiro lugar “pressa” e, em seguida, diligência — é o oposto de negligência e de indiferença. Não existe apenas lamentação, mas prosseguir para o esforço com uma vontade, de modo a corrigir a má conduta. Em segundo lugar, “que apologia”: a palavra grega significa “desculpar-se”, buscando o perdão — é o inverso da auto-atenuação. Em terceiro lugar, sim, “que indignação” em vez de indiferença, o penitente fica extremamente irado consigo mesmo por cometer tais delitos. Quarto, “que temor”, para que não haja qualquer repetição do mesmo, é uma ansiedade de espírito contra mais uma queda. Em quinto lugar, “que saudades” [ou “que desejos veementes” na KJV — N. do R.], pela Divina ajuda e força contra qualquer recorrência no mesmo. Sexto, “que zelo”, no cumprimento dos deveres sagrados que são o oposto daqueles pecados. Sétimo, “que vingança!”, sobre si mesmo, por diária mortificação de seus membros. Quando um homem encontra esses frutos em si mesmo, ele não precisa duvidar da “piedade” de seu arrependimento.

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O testemunho em nosso espírito com respeito aos pecados atuais é a resistência feita pela nova natureza contra a velha, ou o princípio da santidade contra aquele princípio do mal (cf. Gálatas 5:17). É próprio do regenerado na medida em que eles são criaturas duplas: filhos dos homens e filhos de Deus. É muito mais do que os controles de consciência que todos os homens, bons e maus, encontram em si mesmos quantas vezes ofendem a Deus. Não, isso é aquele esforço e luta da mente, afeições e com eles mesmos, sendo que na medida em que são renovados e santificados eles conduzem o homem de uma maneira, e como eles ainda são corruptos, levam-no para o lugar contrário. É esta guerra dolorosa e prolongada que o Cristão descobre estar acontecendo dentro de si, é que evidencia que ele seja uma nova criatura em Cristo. Se ele analisa e recorda o passado, ele nada encontrará como isso antes de sua experiência de regeneração. Tudo no natural prenuncia realidades espirituais, se nós apenas tivéssemos olhos para ver e entendimentos para interpretá-los corretamente. Existe uma doença chamada ephialtes (pesadelo) que faz com que suas vítimas, quando estão quase dormindo, sintam-se como se algum grande peso estivesse colocado sobre o seu peito, pressionando-os para baixo; e eles se esforçam com as mãos e os pés, com todas as suas forças, para remover esse peso, mas não conseguem. Tal é o caso do Cristão genuíno: ele está consciente de algo dentro que o arrasta para baixo, que corta as asas da fé e esperança, que dificulta suas afeições sendo estabelecidas sobre as coisas do alto. Isso o oprime e ele luta contra o mesmo, mas em vão. Isso é a “carne”, suas corrupções inatas, o pecado interior, contra a qual todas as graças da nova natureza se esforçam e lutam. É um fardo intolerável que perturba seu descanso, e impede-o de fazer as coisas que ele gostaria. O sinal em nosso espírito que relaciona-se aos pecados futuros é um grande cuidado para evitá-los. Que isso é uma marca dos filhos de Deus aparece em: “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca” (1 João 5:18). Observe cuidadosamente o tempo do verbo, não é “ele não peca”, mas “não peca”, como uma prática regular e curso constante. A partir disso ele “conserva-se a si mesmo”. Este cuidado consiste não apenas na ordenação de nossa conduta exterior, mas se estende aos próprios pensamentos do coração. Foi a isso que o apóstolo se refere quando disse: “Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão” (1 Coríntios 9:27), não o seu corpo físico, mas o corpo do pecado dentro dele. Quanto mais somos conscientes de maus pensamentos e imaginações ilícitas, mais nós estabelecemos um julgamento sobre os nossos motivos, menos provável é que o nosso comportamento externo seja desagradável a Deus. Passamos agora a considerar os testemunhos ou sinais no espírito do Cristão com relação à misericórdia de Deus, os sinais que evidenciam que ele seja um dos eleitos de Deus. O

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primeiro é quando um homem sente-se ser muito sobrecarregado e profundamente perturbado com a culpa e contaminação de suas iniquidades, e quando ele apreende o severo desprazer de Deus em sua consciência devido a eles. Isso supera em muito quaisquer males físicos ou calamidades temporais a que ele esteja sujeito. O pecado é agora o seu maior fardo de todos, tornando-o incapaz de desfrutar de prazeres mundanos ou saborear a associação com companheiros mundanos. Agora é que ele sente sua urgente necessi-dade de Cristo, e anela por Ele como o cervo brama pela corrente das águas. Ambições carnais e esperanças mundanas se desvanecem em insignificância absoluta diante deste anseio irresistível pela reconciliação com Deus através dos méritos do Redentor. “Dá-me a Cristo, senão eu morro”, é agora o seu clamor agonizante. Agora, para todas essas almas enfermas pelo pecado, com consciências atormentadas, convencidas do pecado pelo Espírito, Cristo fez algumas grandiosíssimas e preciosas promessas, promessas que não se relacionam a ninguém, senão aos eleitos vivificados por Deus. “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre” (João 7:37-38). Isso não é exatamente adequado às necessidades profundas de quem sente as chamas do inferno em sua consciência? Ele tem fome e sede de justiça, porque ele sabe que não tem nada de si mesmo. Ele tem sede de paz, pois ele não tem nenhuma, de dia ou de noite. Ele tem sede de perdão e purificação, pois ele vê-se como sendo um leproso criminoso. “Então, vinde a Mim”, diz Cristo, “e eu atenderei a todas as suas necessidades”. “A quem quer que tiver sede, de graça lhe darei da fonte da água da vida” (Apocalipse 2 1:6). E observe que se segue, assim, à sua vinda a Cristo: “Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna” (João 4:14). O segundo sinal é uma nova afeição que é implantada no coração pelo Espírito Santo, pelo que um homem assim estima, valoriza e estabelece um preço tão alto em relação ao sangue e a justiça de Cristo que ele considera as coisas mais preciosas do mundo apenas como escória e esterco em comparação àqueles. Essa afeição foi evidenciada por Paulo (veja Filipenses 3:7-8). Agora, é verdade que quase todos os professos dirão que eles valorizam a Pessoa e a obra de Cristo acima de todas as coisas deste mundo, quando o fato é que a grande maioria deles tem o ânimo de Esaú, preferindo um prato de lentilhas à porção de Jacó. Com pouquíssimas exceções aqueles que carregam o nome de Cristãos preferem muito mais as panelas de carne do Egito do que as bênçãos de Deus na terra prometida. Suas ações, suas vidas o demonstram, pois, onde está o tesouro de um homem, ali está o seu coração. Que nenhum homem possa enganar-se em relação a este sinal particular da regeneração e da eleição, Deus nos deu duas marcas de identificação e comprovação. Em primeiro lu-

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gar, quando há uma genuína valorização e deleite em Cristo acima de todos os outros objetos, há um amor sincero pelos Seus membros. “Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos” (2 João 3:14), ou seja, tais que são membros do corpo místico de Cristo, e porque eles assim o são. Aqueles que são valiosos para Deus devem ser valiosos para o Seu povo. Não importa que diferenças possam haver entre eles, na nacionalidade, posição social, temperamento pessoal, há um vínculo espiritual que os une. Se Cristo estiver habitando em meu coração, então meus afetos serão necessariamente inclinados a todos em quem eu percebo, embora fracamente, os contornos de Sua santa imagem. E na medida em que eu permito que o espírito de animosidade me afaste deles, a evidência de minha eleição será obscurecida. A segunda marca que evidencia uma verdadeira valorização de Cristo é um amor e anelo por Sua vinda, quer seja pela morte ou por Seu segundo advento. Embora a natureza retroceda da dissolução física, e embora o pecado que habita no Cristão faça-o desconfortável com a ideia de ser levado à presença imediata do Santo de Deus, no entanto, os atos da nova natureza elevam a alma acima desses obstáculos. Um coração renovado não pode ficar satisfeito com a sua comunhão presente, intermitente e imperfeita com o seu Amado. Ela anseia por comunhão plena e completa com Ele. Este foi claramente o caso com Paulo: “tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor” (Filipenses 1:23). Que isso não era peculiar a si mesmo, mas algo que é comum a todos os sujeitos da eleição da graça, aparece a partir de sua palavra: “Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda” (2 Timóteo 4:8). Em seguida, voltamos para o sinal externo de nossa adoção. Esta é a obediência evangélica, segundo a qual o crente sinceramente se esforça para obedecer aos mandamentos de Deus em sua vida diária. “E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos” (1 João 2:3). Deus não julga a desobediência pelo rigor da Lei pois, então, isso não seria sinal de graça, mas um meio de condenação. Antes, Deus estima e considera esta obediência de acordo com o teor da Nova Aliança. Quanto àqueles que O temem o Senhor declara: “poupá-los-ei, como um homem poupa a seu filho, que o serve” (Malaquias 3:17). Deus preza as coisas feitas não por seus efeitos ou por fazê-las, mas pela afeição de quem as faz. É para o coração que Deus olha principalmente. E, no entanto, para que ninguém se engane quanto a este ponto, que as seguintes qualificações sejam ponderadas, em oração. Essa obediência externa, que Deus requer de Seus filhos, e que, por amor a Cristo, Ele aceita deles, não é aquela que tem relação apenas a alguns dos mandamentos Divinos, mas a todos sem exceção. Herodes ouviu o Batista de bom grado, e fez muitas coisas (Mar-

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cos 6:20), mas se desviou da observância ao sétimo mandamento que o ordenava a deixar a mulher de seu irmão Filipe. Judas deixou o mundo por Cristo, e tornou-se um pregador do Evangelho, mas ele não conseguiu mortificar a concupiscência da cobiça, e pereceu. Pelo contrário Davi exclamou: “Então não ficaria confundido, atentando eu para todos os teus mandamentos” (Salmos 119:6). Aquele que se arrepende de um pecado verdadeiramente, se arrepende de todos os pecados, e aquele que vive em algum pecado conhecido, sem arrependimento, de fato não se arrepende de nenhum pecado em absoluto. Outrossim, para nossa obediência externa ser aceitável a Deus, deve estender-se a todo o curso da vida de um Cristão após a conversão. Nós não devemos julgar a nós mesmos (ou qualquer outra pessoa) por algumas ações ocasionais, mas pelo teor geral de nossas vidas. Como o curso da vida de um homem é, tal é o próprio homem; embora ele, por causa do pecado que ainda habita nele, falhe nesta ou naquela ação particular, ainda assim isso não prejudica sua condição diante de Deus, desde que ele renove seu arrependimento por suas ofensas, não se acomodando com qualquer pecado. Finalmente, é necessário que esta obediência externa proceda de todo o homem, tudo o que está dentro dele expressa louvor a Deus. No novo nascimento todas as faculdades da alma são renovadas, e, doravante, devem ser empregadas no serviço de Deus, como anteriormente foram no serviço ao pecado. Seja dito mais uma vez que é mui importante que o Cristão seja bastante claro à exatidão do que o seu espírito testemunha. Isso não é para qualquer melhoria em sua natureza carnal, nem para o pecado ser menos ativo dentro dele; antes, é para o fato de que ele é um filho de Deus, como é evidente a partir de seu coração buscando por Ele, anelando por ter comunhão com Ele, e seu sincero esforço para agradá-lO. Assim como um filho carinhoso e obediente tem dentro de seu próprio peito a prova da relação peculiar que ele representa para o pai, assim, as inclinações filiais e aspirações do crente provam que Deus é o seu Pai celestial. É verdade que ainda há muito nele que constantemente se levanta contra Deus, no entanto, há algo mais que não havia nele por natureza. Aqui, anteciparemos uma objeção: alguns dizem que é um pecado para o Cristão questionar sua aceitação diante de Deus, porque ele ainda é tão depravado, ou duvidar de sua salvação, porque ele pode perceber pouca ou nenhuma santidade interior. Eles dizem que tal dúvida é colocar a verdade e a fidelidade de Deus em dúvida, pois Ele nos assegurou de Seu amor e Sua prontidão para salvar todos os que creem em Seu Filho. Eles negam que é nosso dever examinar os nossos corações e dizem que nunca obteremos qualquer garantia ao fazê-lo; que devemos olhar para Cristo, e descansar em Sua pura Palavra. Mas este é um erro grave. Nós descansamos em Sua Palavra quando procuramos essas evidências que a própria Palavra descreve como as marcas de um filho de Deus. Disse o

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apóstolo: “Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência” (2 Coríntios. 1:12). “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade. E nisto conhecemos que somos da verdade, e diante dele asseguraremos nossos corações” (1 João 3:18-19). Mas, apesar das evidências que o Cristão tem de sua filiação Divina, ele descobre que não é questão fácil ter a certeza de sua sinceridade ou estabelecer conforto sólido em sua alma. Suas disposições são intermitentes, as suas formas variáveis. É neste exato ponto que o bendito Espírito de Deus ajuda as nossas fraquezas. Ele acrescenta Seu testemunho ao testemunho de nossa consciência renovada, de modo que, por vezes, o Cristão tem a garantia de sua salvação, e pode dizer: “Em Cristo digo a verdade, não minto (dando-me testemunho a minha consciência no Espírito Santo)” (Romanos 9:1). “A única forma designada por Deus pela qual podemos chegar a uma apreensão de sermos participantes na eleição é pelos frutos desta em nossas próprias almas. Também não é lícito para nós perguntarmos a Ele ou por qualquer outra maneira”. Com estas palavras do criterioso John Owen estamos em pleno acordo. De nossa parte, não nos atreveríamos a colocar qualquer dependência de uma esperança eterna em qualquer sonho ou visão que tenhamos recebido, ou qualquer voz que tenhamos ouvido. Mesmo que um ser celestial aparecesse diante de nós e declarasse que ele havia visto o nosso nome escrito no livro da vida do Cordeiro, não devemos colocar nenhuma credibilidade nisso, pois não teríamos nenhum meio de saber se ele não pode ser o próprio Diabo que “se transfigura em anjo de luz” (2 Coríntios 11:14) vindo para nos enganar. Nossa eleição deve ser certificada para nós pela infalível Palavra de Deus, e ali temos um firme fundamento sobre o qual descansar nossa fé. A obrigação que o Evangelho nos impõe de crer em algo relaciona-se à ordenação das mesmas e à ordenação de nossa obediência. Quando é declarado pelo Evangelho que Cristo morreu pelos pecadores, não sou imediatamente obrigado a crer que Cristo morreu por mim em particular — isso seria inverter a ordem Divina do Evangelho. A grandiosa e simples mensagem do Evangelho da graça de Deus é que Cristo Jesus veio ao mundo para adquirir um caminho de salvação para perdidos, que Ele morreu pelos ímpios, que Ele tão perfeitamente satisfez as reivindicações da justiça Divina que Deus pode retamente justificar cada pecador que verdadeiramente crê em Seu Filho, Jesus Cristo (Romanos 3:26). Consequentemente, uma vez que me encontro como sendo membro dessa classe, desde que eu reconheço que sou um pecador, uma pessoa ímpia e perdida, então eu tenho plena garantia para crer nas boas novas do Evangelho. Assim, o Evangelho exige de mim a fé e a obediência e tenho a obrigação de obedecê-lo completamente.

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Até que eu creia e obedeça ao Evangelho não estou sob nenhuma obrigação de crer que Cristo morreu por mim em particular; mas tendo feito isso, sou assegurado de desfrutar dessa garantia. Da mesma maneira, eu sou obrigado a crer na doutrina da eleição em minha primeira audição do Evangelho, porque ela está ali claramente declarada. Mas quanto à minha própria eleição pessoal, eu não posso crer biblicamente, nem sou obrigado a crer nela de qualquer outra forma, senão à medida que Deus a revela por seus efeitos. Nenhum homem pode justamente não crer ou negar a sua eleição até que ele esteja em uma condição em que é impossível que os efeitos da eleição sejam operados nele. Enquanto ele é um homem ímpio não pode ter nenhuma evidência de que ele seja eleito; portanto, que ele também não tenha nenhuma evidência de que ele não é eleito, enquanto é possível que ele seja santificado. Assim, se os homens são eleitos ou não, não é isso que Deus chama qualquer pessoa a imediatamente estar familiarizado; antes, a fé, a obediência e a santidade são requeridos de nós primeiramente. Antes de prosseguirmos, que seja salientado que os eleitos são normalmente encontrados onde os ministros de Cristo trabalham muito. Paulo disse: “Portanto, tudo sofro por amor dos escolhidos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus com glória eterna” (2 Timóteo 2:10). Isso ilustra o princípio: o apóstolo sabia que em seus trabalhos evangélicos, ele estava sendo utilizado na execução do propósito de Deus em levar a mensagem de salvação para o Seu povo. Para esse fim o apóstolo foi sustentado pela providência Divina e dirigido pelo Espírito do Senhor. Tome uma breve amostra do método em que ele foi Divinamente guiado. Em sua segunda viagem de anúncio das boas novas em terras pagãs, Paulo tinha passado pela Frígia e região da Galácia e gostaria de pregar a palavra na Ásia, mas foi “impedido pelo Espírito Santo” (Atos 16:6), por que razão? Apenas por que Deus não tinha nenhum dos Seus eleitos ali, ou se tivesse, o tempo ainda não havia chegado para a sua libertação espiritual. O apóstolo então intentou ir para Bitínia, mas novamente nos é dito: “o Espírito não lho permitiu” (Atos 16:7). Isso é muito impressionante de fato, embora parece fazer pouca ou nenhuma impressão sobre as pessoas atualmente. Em seguida, lemos: “E, tendo passado por Mísia [quão solene!], desceram a Trôade”. Ali o Senhor apareceu-lhe numa visão direcionando-o a ir para a Macedônia e, a partir disso, ele certamente entendeu que Ele o chamou para pregar o Evangelho ali. Ele então entrou naquele país e proclamou a boa nova e, em consequência, os eleitos de Deus em Tessalônica obtiveram salvação. Mais tarde, ele chegou a Corinto, onde se encontrou com muita oposição, e com pouco sucesso. Ele parece ter estado a ponto de partir, quando o Senhor lhe apareceu, fortaleceu o seu coração, e assegurou-lhe: “tenho muito povo nesta cidade” (Atos 18:10). Como resultado, ele permaneceu ali 18 meses e a Igreja de Corinto foi formada.

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Este grande princípio de assim o Senhor direcionar os Seus servos, de modo que Seus eleitos são levados ouvir o Seu Evangelho a partir de seus lábios, recebe muitas marcantes ilustrações nas Escrituras. A maneira notável pela qual Filipe foi conduzido com a Palavra de salvação ao eunuco Etíope, e Pedro, com a mesma Palavra para Cornélio e sua companhia, são casos deste ponto. Outro exemplo, talvez mais impressionante ainda, é a maneira pela qual os apóstolos obtiveram acesso ao carcereiro de Filipos com a Palavra da vida, que, por causa de sua vocação, provavelmente descobriria ser impossível ouvir a pregação pública deles. De modo muito bendito esses casos exemplificam as palavras do Salvador que, ao referir-se que ao grupo de pessoas que o Pai lhe dera nas terras dos gentios, declarou: “Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz” (João 10:16), ouvem a Sua voz através de Seus servos e são vivificados pelo poder do Seu Espírito. O Senhor Jesus, entretanto, nunca enviou os Seus servos para o labor onde Ele não tinha um povo, que sendo dado a Ele pelo Pai, devesse ser trazido por Ele ao rebanho. E Ele nunca assim os enviará. Mas onde Ele tem um povo, Ele dirigirá para ali os Seus servos, para chamar as pessoas para Si, e eles dirão como o velho Paulo: “tudo sofro por amor dos escolhidos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus com glória eterna” [2 Timóteo 2:10]. Apenas o Dia vindouro revelará plenamente o quanto — por Sua graça sustentadora — eles tanto suportaram para que os eleitos fossem salvos. Os eleitos, então, devem ser encontrados onde os ministros fiéis de Cristo trabalham muito. Agora, meu leitor, se você tem o privilégio de viver em um lugar assim, então, em seu próprio meio você pode olhar para o povo favorecido de Deus. O dia da oportunidade de ouro agora é seu, e é seu dever sagrado responder e entregar-se ao apelo feito pelos servos de Cristo. Agora, passemos para algo ainda mais específico. Deus não somente envia Seus servos para aqueles lugares onde Sua providência estabeleceu alguns dos Seus eleitos, mas Ele reveste a Sua palavra com poder e torna Sua obra eficaz. “Sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus; porque o nosso Evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza, como bem sabeis quais fomos entre vós, por amor de vós” (1 Tessalonicenses 1:4-5). Essa passagem é muito mais direta ao ponto, e cada cláusula nela chama a nossa mais cuidadosa atenção. Ela nos diz como o apóstolo se certificou de que os santos de Tessalônica estavam entre os escolhidos de Deus, e como por paridade de razão, eles também podem conhecer e se alegrar em sua eleição. Esses detalhes foram registrados para a nossa instrução, e se o Senhor se agradar de nos conceder uma compreensão espiritual deles, estaremos em um fundamento seguro e certo. Mas, para isso, temos que ponderar em oração estes versículos, palavra por palavra.

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“Sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus”. Como o apóstolo conhecia que a eleição deles era de Deus? Que seja mais particularmente observado que essa segurança dele não foi obtida por qualquer revelação imediata do Céu, e nem por uma visão sobrenatural ou mensagem angelical, nem pelo próprio Senhor, informando-lhes diretamente para este efeito. Não, antes isso foi pelo que ele testemunhou em e a partir deles. Foi pelos frutos visíveis de sua eleição, que ele percebeu que eles eram “irmãos amados”. Em outras palavras, ele rastreou esses efeitos da graça que foram forjados neles em sua conversão até a sua origem no eterno propósito de misericórdia de Deus. Aqueles pequeninos riachos de graça em seus corações foram rastreados pelo apóstolo até o oceano do amor eterno de Deus a partir do qual procediam. Nesse sentido, ele indicou-nos o caminho que devemos seguir, o método que devemos perseguir a fim de verificar a nossa predestinação para a glória. “Porque o nosso Evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder”. Todos os que fingem pregar o Evangelho, na verdade não o pregam. Admitir que eles o fazem, seria admitir que há muitos evangelhos diferentes, pois há partidos e sentimentos na Cristandade, todos reivindicando ser deles o verdadeiro Evangelho, com a exclusão de todos os outros. É, portanto, uma questão da mais alta importância que cada um de nós saiba o que o Evangelho de Cristo realmente é, e isso deve ser aprendido com as Sagradas Escrituras, sob a orientação de Deus, o Espírito. Existem numerosas falsificações dele no mundo de hoje, e sua fraudulência só pode ser descoberta através de pesá-los nas “balan-ças do Santuário”. Igualmente necessário e importante é que nós verifiquemos como o Evangelho deve ser recebido por nós se a alma deve ser permanentemente beneficiada por ele, pois de acordo com o apóstolo, há uma dupla recepção do Evangelho. “Porque o nosso Evangelho não foi a vós somente em palavras”. Pois quando o Evangelho vem a nós somente em palavras é porque Deus o deixou em sua eficácia natural, ou a força de seus argumentos e persuasão sobre a mente humana. Multidões, em muitos lugares ouviram o Evangelho, mas continuam em idolatria e em injustiça, não obstante a profissão que muitos deles fazem. Quando o Evangelho vem a nós “somente em palavras” ele atinge o intelecto e a compreensão, mas não faz nenhuma impressão real na consciência e no coração. Consequentemente, ele produz apenas uma fé fingida e presunçosa, uma fé que é inferior até mesmo a que os demônios têm, pois eles “creem, e estremecem” (Tiago 2:19). É apenas quando o Evangelho vem a nós “no poder e no Espírito Santo” é que ele é recebido com uma fé verdadeira e salvadora. Quão necessário é, então, testar-nos neste ponto. Há dois extremos em que os homens caem por falta do correto recebimento da Palavra de Deus. Em um, supõe que possui tanto a vontade e poder de realizar obras de justiça suficientes para recomendar-lhe ao favor de Deus, e por isso se lê que eles têm “zelo... mas não

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como convém” (Gálatas 4:17). Ele jejua, ora, dá esmola, frequenta a igreja e etc.; e onde ele acha que falha ou fica aquém, ele clama aos méritos de Cristo para suprir a sua deficiência. Isso é apenas tomar um pedaço de veste nova (expiação de Cristo) e aplicar em seu manto uma justiça legal, esperando assim apaziguar a consciência pesada. Ele continua suas performances religiosas durante todo o ano, mas nunca alcança um conhecimento vital e experimental do Evangelho. Todo o seu serviço são obras, porém mortas. O outro extremo é o inverso disso, mas igualmente perigoso. Em vez de labutar ao ponto de cansar-se, estes não se esforçam de maneira alguma. Estando mais ou menos conscientes, visto que todos os homens naturais estão conscientes, que são pecadores, e ouvindo sobre a salvação gratuita por Jesus Cristo, eles prontamente caem nisso, a saber, O recebem em suas mentes, mas não em suas consciências. Uma fé superficial e presunçosa é gerada, e por um único salto eles chegam a uma suposta garantia do Céu. Mas, diz Salomão: “A herança que no princípio é adquirida às pressas, no fim não será abençoada” (Provérbios 20:21). Essas pessoas são grandes oradoras, possuem grande parte de sua liberdade a partir da Lei, mas são eles mesmos escravos do pecado. Elas estão sempre aprendendo, mas nunca podem chegar ao conhecimento da verdade. Elas riem daqueles que têm dúvidas e medos, mas elas próprias têm os maiores motivos de todos para temer. Agora, em contraste marcante de ambas essas classes, são os que recebem o Evangelho não somente em palavras “mas em poder, e no Espírito Santo”. Este é um caminho do meio entre esses dois extremos, e um caminho que está escondido de todo não-regenerado, pois “o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1 Coríntios 2:14). Quando Deus começa a “obra da fé com poder” (2 Tessalonicenses 1:11), e leva a alma neste caminho do meio, ela pode, a princípio nem ver nem compreender isso. Como foi com o pai de todos os que creem, assim é com todos os seus filhos: quando Abraão foi eficazmente chamado, ele “saiu, sem saber para onde ia” (Hebreus 11:8). Os nascidos do Espírito são conduzidos por “veredas que não conheceram” (Isaías 42:16), e até que as tervas sejam transformadas em luz perante eles e as coisas tortas sejam endireitadas, eles não conseguem entender o caminho do Espírito; mas quando isso é feito, então, a estrada é “aplainada” para eles (Isaías 62:10). Então, a pergunta mais importante é: o Evangelho veio a mim somente em palavras, ou em poder salvador? Se veio somente em palavras, então, ele foi recebido sem angústia, nem tribulação ou aflição de consciência, pois estas são as marcas comuns do poder Divino operando na alma do pecador. Quando a Palavra de Deus vem até nós “em poder”, ela vem como uma “espada de dois gumes” (Hebreus 4:12), tendo o mesmo efeito sobre o coração como uma espada tem quando é empurrada para dentro do corpo. Se a ferida for profunda,

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a dor e os sofrimentos serão muito intensos. Semelhantemente, quando a Palavra de Deus penetra “até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração”, produz angústia real e aflição profunda. Disse Jó: “Porque as flechas do Todo Poderoso estão em mim, cujo ardente veneno suga o meu espírito; os terrores de Deus se armam contra mim” (6:4). E assim, também, Davi exclamou: “Porque as tuas flechas se cravaram em mim, e a tua mão sobre mim desceu” (Salmos 38:2). Foi assim na experiência de Paulo. Antes que o Espírito aplicasse a Lei ao seu coração, ele estava vivo aos seus próprios olhos, embora morto aos olhos de Deus; mas quando o mandamento veio a ele no poder Divino, reviveu o pecado, e ele morreu — em sua própria estima (Romanos 7:9). O fato é que ele, como qualquer outro fariseu, supunha que a Lei não ia além do que a letra externa, ao passo que ele se considerava inocente. Mas quando as elevadas demandas da Lei e sua espiritualidade esquadrinhadora foram reveladas a ele, e que ela abarcava os próprios pensamentos e intenções do coração, e lhe foram desveladas as profundezas terríveis da depravação que nele havia, mas que antes estavam ocultas. Ele descobriu que a Lei era espiritual, mas ele mesmo era carnal, vendido sob o pecado. Ele descobriu — como pouquíssimos o fazem — que o coração dele estava no mesmo estado descrito por Cristo em Marcos 7:21-22. Ele foi obrigado a acreditar no que Cristo declarou ali, porque agora ele via e sentia o mesmo dentro de si mesmo. O primeiro ato de fé leva um homem a acreditar que ele está no mesmo estado que a Escritura declara que ele está; em inimizade contra Deus (Romanos 8:7), sendo um filho da ira (Efésios 2:3), sob a maldição de uma Lei violada (Gálatas 3:10), levado cativo pelo Diabo (2 Timóteo 2:26). Um pesado fardo do pecado reside em sua consciência (Salmos 38:4), sendo uma fonte ativa de iniquidade como o mar bravo, lançando de si lama e lodo (Isaías 57:20), que confunde todos os esforços de um braço de carne, trazendo-o em terrível escravidão: “as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam” (Isaías 64:6). Ele encontrase de mãos e pés amarrados com as cordas do seu pecado, e ele clama fervorosamente a Deus para ter piedade dele, e segundo a Sua grande misericórdia, liberte-o. Ele agora não precisa de nenhumas formas estabelecidas de oração, mas de dia e de noite ele clama: “Deus, tem misericórdia de mim, pecador”. E como é que o Senhor o liberta? Pelo Evangelho vindo até ele “no poder e no Espírito Santo”. Deus expõe a ele em uma nova luz, os sofrimentos e a morte de Seu Filho, por meio de quem Sua justiça foi satisfeita, Sua Lei magnificada, Sua ira aplacada, e foi aberto um caminho de reconciliação entre Deus e os pecadores. É o ofício do Espírito operar a fé no coração e aplicar o sangue expiatório e justiça de Cristo à consciência, pelo que o peso do pecado e da morte é removido, o amor de Deus é feito conhecido, a paz é transmitida

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para a alma e alegria para o coração. Assim, o mesmo instrumento que feriu, traz a cura. Por isso o apóstolo aqui acrescenta: “Porque o nosso Evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza”, isso é, garantia de sua veracidade e autoridade Divina, de sua perfeita adaptabilidade e adequação ao nosso caso, de sua bem-aventurança inefável. “Lembro-me, também, quando a verdade veio ao meu coração, e me fez saltar com muita alegria, pois ela levou todo o meu fardo para longe; ela me mostrou o poder de Cristo para salvar. Eu conhecia a verdade antes, mas agora eu a sentia. Fui a Jesus, assim como eu estava, eu toquei a orla de Suas vestes, eu fui curado. Encontrei agora que a Palavra não era uma ficção, que era a única realidade. Eu tinha escutado dezenas de vezes, e aquele que falava era como aquele que tocava uma melodia com um instrumento; mas agora Ele parecia estar lidando comigo, colocando Sua mão direita em meu coração. Ele me trouxe primeiro ao trono de juiz de Deus, e ali estava eu e ouvi o barulho dos trovões; então Ele me trouxe para o propiciatório, e eu vi o sangue aspergido sobre ele, e eu fui para casa triunfante porque o pecado foi lavado” (C. H. Spurgeon). “Sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus” (1 Tessalonicenses 1:4). Como o apóstolo sabe que esses Tessalonicenses estavam entre os eleitos de Deus? Os próximos versículos nos dizem: pelos frutos visíveis da mesma que ele percebeu neles. Discernindo em suas vidas esses efeitos da graça que foram operadas neles em sua conversão, ele rastreou até o próprio eterno propósito de misericórdia de Deus relativo a eles. E, meu leitor, a maneira pela qual Paulo sabia que os crentes de Tessalônica eram “eleitos desde o princípio para a salvação” (2 Tessalonicenses 2:13) deve ser o método pelo qual cada Cristão, hoje, deve verificar sua eleição de Deus. “Porque o nosso Evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo” (1 Tessalonicenses 1:5). Tudo depende de como o (verdadeiro) Evangelho é recebido por nós: se é apenas apreendido pelo intelecto, ou se ele realmente atinge a consciência e o coração para somente então ser recebido com uma fé salvadora. Quando a Palavra de Deus vem até nós “em poder”, se trata de “uma espada de dois gumes” — cortando, ferindo, causando dor e angústia profundas. Quando a Palavra vem a nós em poder não é devido a qualquer erudição ou eloquência do pregador, nem a qualquer compaixão que ele possa empregar. O fato de que as emoções dos seus ouvintes são profundamente tocadas de forma que eles sejam levados às lágrimas, não é prova alguma de que o Evangelho é chegado a eles em termos de eficácia Divina, as paixões da criatura são frequentemente agitadas por atuações no palco e milhares são comovidos a chorar no

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teatro. Tal emocionalismo superficial é apenas evanescente, não tendo efeitos duradouros e nem espirituais. O teste é saber se estamos quebrantados e prostrados diante de Deus. O mesmo pensamento é expresso novamente no versículo seguinte, como sendo através deste detalhe especial que nós mais precisamos nos testar: “recebendo a palavra em muita tribulação, com gozo do Espírito Santo” (v. 6). Como isso expõe a inutilidade do “evangelismo” leve e espumoso dos nossos dias! Quão solene é lembrar que Cristo descreveu o ouvinte representado pela terra pedregosa como “o que ouve a palavra, e logo a recebe com alegria; mas não tem raiz em si mesmo” (Mateus 13:20-21). Muito diferente ocorreu com aqueles que foram convertidos no dia de Pentecostes, pois a primeira coisa registrada sobre eles é que “compungiram-se em seu coração” (Atos 2:37). Dores de parto precedem o nascimento e, então, vem a alegria (veja João 16:21). Estas são as perguntas que devem ser consideradas e respondidas diante de Deus: a Palavra me repreendeu e condenou-me? Ela me retirou de minha auto-complacência e justiça própria? Ela abateu as minhas esperanças, e me levou ficar como um criminoso autocondenado diante do propiciatório? As pessoas vêm ouvir sermões neste lugar e, então saem e dizem: “você gostou?” — como se isso significasse algo para alguém — “você gostou?”. E um diz: “Ah, sim, gostei muito”. E outro diz: “Ah, não tanto”. Você acha que vivemos na respiração de suas narinas? Você acredita que os pregadores, se realmente são dEle, se importam com o que pensam deles? Não, na verdade, mas se por acaso você responder: “eu gostei do sermão”, eles estarão inclinados a dizer: “então nós devemos ter sido infiéis, pois de outra maneira você estaria com raiva, nós devemos ter sido levados por alguma coisa, ou então a Palavra teria cortado sua consciência como as bordas afiadas de uma faca!”. Você teria dito: “eu não penso se gostei ou não — eu estava pensando como eu gostava de mim e sobre o meu estado diante de Deus. Este era o assunto em que refletia, não se o pregador pregava bem, mas se eu estava aceito em Cristo, ou se era um rejeitado”. Meus queridos ouvintes, vocês estão aprendendo a ouvir desse jeito? Se não estão, se ir à igreja ou à capela para vocês é como ir a um jogo, ou como ouvir um orador que fala sobre assuntos temporais, então vocês não têm a evidência da eleição — a Palavra não chegou às vossas almas com poder (C. H. Spurgeon, Eleição: Defesa e Evidências, Sermão Nº 2920). Entre as porções citadas acima a partir de 1 Tessalonicenses 1:5-6 há dois outros elementos: em primeiro lugar, “em muita certeza”. Quando a Palavra vem a nós, no poder de conversão para a alma de um homem, todas as suas dúvidas sobre a sua autenticidade e autoridade são removidas, e ele não precisa de argumentos humanos para convencê-lo de que seu autor é Deus. Todo o ceticismo dos racionalistas e críticos mais elevados será dissipado como a névoa diante do sol nascente, se o Espírito tiver o prazer de aplicar eficaz-

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mente a Palavra aos seus corações. Aqueles que têm sido levados a sentir a sua extrema necessidade de Cristo e percebido Sua perfeita adequação à sua condição desesperada, tem “muita certeza” do que o Evangelho afirma sobre Sua Pessoa e obra. Não importa o que tenha sido o caso com eles anteriormente, agora, eles não têm dúvida sobre a Sua Divindade absoluta, Seu nascimento virginal, Sua morte vicária, Sua dignidade preeminente como profeta, sacerdote e rei. Essas coisas muito importantes são estabelecidas para ele, firmadas para sempre e ele declarará a si mesmo de forma positiva e dogmática que chocará a sensibilidade do arrogante. Mais uma vez, é dito: “E vós fostes feitos nossos imitadores, e do Senhor” [1 Tessalonicenses 1:6]. Aqui está outra marca de eleição: os que são escolhidos pelo Senhor desejam ser como Ele. “E vós fostes feitos nossos imitadores”, não significa que eles disseram: “Eu sou de Paulo, eu sou de Silas, estou de Timóteo”, mas que eles imitaram esses evangelistas eminentes na medida em que eles seguiam o exemplo que Cristo nos deixou. Ah, este é o teste, meus leitores. Será que somos parecidos com Cristo? Ou nós honestamente desejamos ser assim? Então, isso é uma evidência segura de nossa eleição. Será que vivemos de toda a Palavra de Deus (Mateus 4:4)? — Cristo assim o fez. Levamos tudo a Deus em oração? — Cristo assim o fez. Oramos a Deus para abençoar os que nos maldizem? Não é que sejamos sem pecado, ou que sejamos perfeitos; mas nós, embora muitas vezes “de longe”, realmente seguimos a Cristo? Se seguimos, não é ostentação orgulhosa reconhecer isso, nem é auto-justificação derivar daí conforto, contanto que também soframos com nossas muitas deficiências e lamentemos sobre os nossos pecados. “Com gozo do Espírito Santo”, observe a linguagem qualificadora, não é alegria carnal, mas alegria espiritual. E observe também, que esta conclui a lista, pois reservar o melhor vinho para o final é, geralmente, a maneira de agir do Senhor. Infelizmente, como alguns professos nada sabem, experimentalmente, sobre esta alegria profunda e espiritual. A religião da grande maioria consiste em um atendimento servil a formas em que eles não se deleitam. Quantos vão para algum lugar de adoração, simplesmente porque não é respeitável ficar ausente, ainda que muitas vezes gostariam que fosse. Não é assim com o Cristão, quando ele está em seu juízo perfeito, ele vai cultuar ao Senhor, para ouvir a voz de seu Amado, procurando um sinal de ter seu amor por Ele revigorado, desejando aproveitar o sol de Sua presença. E quando ele é favorecido com a visita de Cristo, ele exclama com Jacó: “Este não é outro lugar senão a casa de Deus”, uma antecipação do Céu [Gênesis 28:17]. E agora na elaboração de uma conclusão de nossas observações sobre este aspecto fascinante do assunto, ainda há um outro versículo em que devemos ponderar: “Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição” (2 Pedro 1:10). Essas palavras foram terrivelmente distorcidas por propagadores de erros. Inimigos da verdade

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perverteram-nas dizendo que elas significam que o decreto Divino sobre a salvação é apenas provisório, condicional aos esforços do próprio pecador. Eles negam que a predestinação de qualquer homem para a vida eterna é absoluta e irrevogável, insistindo que é subordinada à nossa própria diligência pessoal. Em outras palavras, o próprio homem deve decidir e determinar se o desejo de Deus em relação a Ele deve ser realizado ou não. Não somente tal conceito é totalmente estranho ao ensinamento da Sagrada Escritura, mas dizer que a ratificação e realização do propósito eterno de Deus é deixado dependente de algo próprio da criatura, é pura blasfêmia; e se fosse verdade, não apenas tornaria nossa eleição incerta, mas totalmente sem esperança. “Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição”. Estas palavras também têm apresentado um problema real para não poucos do povo de Deus. Eles têm estado dolorosamente perplexos para compreender como alguma diligência da sua parte poderia fazer firme a vocação e eleição de Deus; e mesmo quando essa dificuldade é esclarecida, eles ficam quase perdidos quanto a saber de que forma a sua diligência é proveitosa. Ah, meus amigos, Deus muitas vezes Se expressou nas Escrituras, de tal forma a testar a nossa fé, humilhar os nossos corações e nos levar aos joelhos. Talvez possa proporcionar mais ajuda se nos concentrarmos nos seguintes pontos. Em primeiro lugar, as pessoas em particular aqui abordadas. Em segundo lugar, a ordem incomum de “vocação e eleição. Em terceiro lugar, o que significa o “procurar” aqui requerido. Em quarto lugar, em que sentido nós podemos fazer a nossa vocação e eleição “firme”? Em primeiro lugar, as pessoas abordadas. Se este princípio simples for apenas devidamente compreendido, que grande quantidade de exposições errôneas seriam evitadas. É a má aplicação da Escritura que é responsável por tanta interpretação defeituosa. Quando o pão dos filhos é lançado aos cachorrinhos, os primeiros são roubados e aos últimos é dado o que eles não conseguem digerir. Tomar uma exortação dirigida aos crentes e apropriar-se dela, ou melhor, apropriar-se indevidamente dela para os incrédulos, é uma ofensa indesculpável, ainda assim, tal coisa muitas vezes tem sido feita com o versículo diante de nós. Não há dificuldade alguma em determinar os destinatários da presente ordem Divina. O versículo de introdução da epístola nos diz que o apóstolo está aqui escrevendo para aqueles que “conosco alcançaram fé igualmente preciosa”, de modo que eles eram crentes; enquanto no próprio versículo eles são denominados “irmãos” e exortados como tais. Esta exortação, então, é dirigida a santos vivos e não aos pecadores mortos. Ensinar que o não-regenerado pode fazer algo para garantir a sua vocação e eleição, não é somente uma ignorância colossal, mas isso faz da Palavra de Deus mentira. Quando eles estão pregando uma mensagem Divina, o primeiro dever dos ministros de Deus é traçar definitivamente a linha de demarcação entre a Igreja e o mundo, é a falha neste ponto que faz com

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que tantos filhos do Diabo reivindiquem o relacionamento com o povo de Deus. Atenção para o contexto sempre deixará claro a quem pertence uma passagem, se aos filhos dos homens, em geral, ou aos filhos de Deus, em particular. A maneira mais simples e mais eficaz de evidenciar isso para seus ouvintes, é que eles delineiem cuidadosamente as características (as marcas de identificação) de um e de outro, observe como o apóstolo seguiu este próprio método nos primeiros quatro versículos da epístola. Em segundo lugar, a ordem incomum que se encontra aqui: “vossa vocação e eleição”. Embora à primeira vista isso represente uma dificuldade, contudo um estudo mais aprofundado mostrará o que realmente fornece uma importante chave para a abertura desta exortação. O que intriga o leitor atento é que “vocação” vem antes de “eleição”, pois como temos procurado mostrar tão longamente nos capítulos anteriores, o chamado eficaz é a consequência da eleição, como também é a manifestação da mesma. Como Romanos 8:28 declara, os crentes são “chamados segundo o seu propósito”, ou seja, o chamado é o cumprimento do propósito de Deus. Assim também em Romanos 8:30 é dito: “E aos que predestinou a estes também chamou”. Semelhantemente é dito que Deus “nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” (2 Timóteo 1:9). Por que, então, essas duas coisas estão invertidas na passagem que estamos considerando agora? Deve ser observado atentamente que Romanos 8:28,30 e 2 Timóteo 1:9 estão tratando dos atos de Deus, ao passo que 2 Pedro 1:10 menciona vocação e eleição, em conexão com a nossa diligência. É somente por devidamente observar tais distinções que nós podemos esperar chegar a um entendimento correto de muitos dos detalhes das Escrituras Sagradas. Em Romanos 8, o apóstolo está propondo doutrina, enquanto que em 2 Pedro 1:10 ele está fazendo uma exortação, e há uma diferença marcante entre essas coisas. Quando os caminhos de Deus estão sendo expostos, eles são apresentados em sua ordem natural ou lógica (como em Romanos 8:30), mas quando a experiência Cristã está sendo tratada, a ordem em que apreendemos a verdade é a que é seguida. Assim, é aqui: devemos ter a certeza de que fomos os destinatários de um chamado eficaz, pois isso, por sua vez, fornecerá a prova da nossa eleição. A ordem dos pensamentos de Deus para conosco foi, eleição e, em seguida, chamado; mas em nossa experiência apreendemos o chamado antes da eleição. Em terceiro lugar, o que é o “procurar” aqui necessário? Há multidões que imaginam ter recebido um chamado eficaz de Deus, mas isso é apenas fantasia; em vez de em oração e com diligência dedicarem-se ao dever aqui ordenado, eles se dão o benefício da dúvida. Provavelmente, muitos são bastante sinceros em sua suposição, mas eles estão sinceramente enganados, sendo desviados por seus corações enganosos. Está longe de ser o

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suficiente adotar a doutrina da eleição como um artigo do nosso credo. Como alguém laconicamente o colocou: “Embora a eleição de Deus seja uma verdade, Pequeno conforto ali eu vejo, Até que me seja dito pela boca do próprio Deus, Que Ele me escolheu.” E eu não tenho o direito ou autorização para esperar que Ele alguma vez fará tal coisa, até eu ter cumprido com os seus requisitos do versículo agora diante de nós. Isso a que sou aqui exortado é a primeiro certificar-me de minha “vocação” de Deus. Isso deve ser feito por meio de acumular e fortalecer a minha prova de que eu sou Seu filho, nascido de novo; e que, por sua vez, é realizado por cultivar o caráter e a conduta de um santo. E como isso deve ser alcançado? Ao utilizar os meios de graça que Deus providenciou como a leitura diária das Escrituras com meditação espiritual das mesmas; pela oração secreta e fervorosa por socorro Divino e graça; cultivando a comunhão com o povo de Deus, conforme a Sua providência o permita; mantendo vigilância fiel sobre nossos corações, desaprovando tudo o que é profano; pela estrita negação do eu e mortificação dos nossos membros. Mas receberemos mais ajuda neste momento, se atendemos a algo ainda mais específico no contexto. Nos versículos 5-7 somos exortados: “E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, e à ciência a temperança, e à temperança a paciência, e à paciência a piedade, e à piedade o amor fraternal, e ao amor fraternal a caridade”. Agora, o versículo 10 expressa o mesmo dever, mas com palavras diferentes. Há um paralelismo marcante neste capítulo, e é observando a repetição (em variação de pensamento) que encontramos a chave principal para o nosso versículo. Nos versículos 57 temos uma exortação, e no versículo 8 nos é mostrado o resultado de dar atenção a ele. No versículo 10, também temos uma exortação semelhante, e, em seguida, no verso 11, o resultado de seu cumprimento é mostrado. Assim, o nosso texto deve ser interpretado à luz do seu contexto. Qual é o “procurar” aqui necessário? Do que ele consiste? Os versículos 5-7 nos dizem. É por cultivar as graças espirituais neles mencionadas, de modo que eu possa verificar a minha vocação e eleição. Em quarto lugar, em que sentido devemos fazer a nossa vocação e eleição “firme”? Primeiro, observe que não é “segura”, elas já estão asseguradas para cada santo pela imutabilidade do propósito Divino, pois “os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” (Romanos 11:29). Isso não é fazer a nossa vocação e eleição firme em relação a Deus, mas em

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relação ao homem. Nem é algo futuro que está aqui em vista, é o gozo presente para nós mesmos de nossa vocação e eleição, e o evidenciar da mesma aos nossos irmãos. Ao prestar atenção à exortação dos versículos 5-7 devo provar a minha vocação e eleição, e demonstrar as mesmas para a Igreja. Um homem pode me dizer que acredita na eleição e está seguro que ele foi chamado por Deus, mas a menos que eu possa ver em seu caráter e conduta as graças espirituais dos versos 5-7, então eu tenho que dizer a ele (como Paulo disse aos Gálatas). “Estou perplexo a vosso respeito” [Gálatas 4:20]. Aqui, então, está o significado: façam firmes sua vocação e eleição em sua própria consciência, e demonstrem isso aos outros através do bom caráter da sua profissão de fé, por viver como um filho de Deus. Finalmente, duas consequências de cumprir essas exortações são apontadas. Em primeiro lugar, “porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis” (v. 10). Aqueles que empregam toda a diligência para cultivar as graças espirituais mencionadas nos versos 5-7 (tornando assim a sua vocação e eleição firme, tanto para si mesmos e para seus irmãos), nunca cairão do lugar de comunhão com Deus; nunca cairão da verdade em falsa doutrina e erro; nunca cairão em pecados graves, e assim desonrar sua profissão Cristã; nunca cairão em um estado de apostasia, de modo que eles percam seu gosto pelas coisas espirituais; nunca cairão sob a dolorosa disciplina de Deus; nunca cairão em um desânimo, de modo a perder toda a segurança; nunca cairão em uma condição de inutilidade espiritual. Mas, em segundo lugar, “Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (v. 11), isso, experimentalmente, aqui, e plena e honrosamente no futuro. Este é o resultado e a recompensa de “procurar”, a palavra grega para “concedida” no versículo 11 é a mesmo que “acrescentai” no verso 5! E agora, em resumo. Como pode um crente verdadeiro saber se ele é um dos eleitos de Deus? Ora, o próprio fato de que ele é um Cristão genuíno o evidencia, pois uma crença em Cristo é a consequência segura de Deus tê-lo ordenado para a vida eterna (Atos 13:48). Porém, para ser mais específico. Como posso conhecer a minha eleição? Em primeiro lugar, pela Palavra de Deus tendo chegado em poder Divino à alma, de forma que a minha auto-complacência é quebrada e minha justiça própria renunciada. Em segundo lugar, pelo Espírito ter me convencido de minha condição lamentável, de culpado e perdido. Em terceiro lugar, por ter me revelado a adequação e suficiência de Cristo para atender o meu caso desesperado, e por uma concessão Divina de fé, levando-me a lançar mão de e descansar sobre Ele como minha única esperança. Em quarto lugar, pelas marcas da nova natureza dentro de mim: o amor a Deus, um apetite pelas coisas espirituais, um anelo por santidade, uma busca por conformidade com Cristo. Em quinto lugar, pela resistência que a nova natureza faz à velha natureza, levando-me a odiar o pecado e abominar-me por is-so. Em sexto lugar, por diligentemente evitar tudo o que é condenado pela Palavra de Deus, e por

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sinceramente arrepender-me e humildemente confessar cada transgressão. A falha neste ponto mui certa e rapidamente trará uma nuvem escura sobre a nossa segurança, fazendo com que o Espírito retenha o Seu testemunho. Em sétimo lugar, empregando toda a diligência para cultivar as graças Cristãs, e usando todos os meios legítimos para essa finalidade. Assim, o conhecimento da eleição é cumulativo.

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10 • Sua Bem-Aventurança Em primeiro lugar, a doutrina da eleição magnifica o caráter de Deus. Ela exemplifica a Sua graça. A eleição torna conhecido o fato de que a salvação é dom gratuito de Deus, gratuitamente concedido a quem Ele quer. Isso deve ser assim, pois aqueles que a recebem são eles próprios não diferentes e nem melhores do que aqueles que não a recebem. A eleição permite que alguns vão para o inferno, para mostrar que todos mereciam morrer. Mas a graça vem como um arrastão e atrai de uma humanidade arruinada um pequeno rebanho, para ser por toda a eternidade o monumento de soberana misericórdia de Deus. Ela exibe Sua onipotência. A eleição torna conhecido o fato de que Deus é todo-poderoso, governando e reinando sobre a terra, e declara que ninguém pode resistir com êxito à Sua vontade ou frustrar Seus propósitos secretos. A eleição revela Deus quebrando a oposição do coração humano, subjugando a inimizade da mente carnal, e com poder irresistível atraindo os Seus escolhidos para Cristo. A eleição confessa que “nós O amamos porque Ele nos amou primeiro”, e que nós cremos, porque Ele nos fez mui voluntários no dia do Seu poder (Salmos 110:3). A doutrina da eleição atribui toda a glória a Deus. Ela não permite qualquer crédito para a criatura. Ela nega que o não-regenerado seja capaz de predizer um pensamento reto, gerar uma afeição correta ou originar uma volição certa. Ela insiste que Deus deve operar em nós tanto o querer como o efetuar. Ela declara que o arrependimento e a fé são eles próprios dons de Deus, e não algo que o pecador contribui para o preço da sua salvação. Sua linguagem é: “Não a nós, SENHOR, não a nós”, mas “Àquele que nos amou e nos lavou de nossos pecados em seu próprio sangue”. Esses parágrafos foram escritos por nós há quase um quarto de século, desde então, e até o dia de hoje nós nem os rescindimos nem os modificamos. O Senhor faz distinções entre os homens culpados de acordo com a soberania de Sua graça. “Porque eu não tornarei mais a compadecer-me da casa de Israel, mas tudo lhe tirarei. Mas da casa de Judá me compadecerei”. Judá não havia pecado também? Não poderia o Senhor ter desistido de Judá? Na verdade, Ele poderia justamente têlo feito, mas Ele se deleita na benignidade. Muitos pecaram, e justamente trouxeram sobre si mesmos o castigo devido pelo pecado: eles não creem em Cristo, e morrem em seus pecados. Mas Deus tem misericórdia, de acordo com a grandeza do Seu coração, de muitos que não podem ser salvos em qualquer outro fundamento, senão desta misericórdia imerecida. Alegando Seu direito real, Ele diz: “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia”. A prerrogativa de misericórdia é exercida pela soberania de Deus, esta prerrogativa que Ele exerce, Ele concede a quem Ele quer, e Ele

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tem o direito de fazê-lo, já que ninguém tem qualquer direito sobre Ele (C. H. Spurgeon: “A Salvação é Propriedade do Senhor”, um Sermão em Oséias 1:7). O que foi exposto acima torna suficientemente claro que não é coisa leve rejeitar esta parte abençoada da verdade eterna; não, é uma questão mui solene e séria fazer isso. A Palavra de Deus não nos é dada para selecionarmos e escolhermos, para destacarmos as partes que apelam para nós, e desprezar tudo o que em si não elogia a nossa razão e sentimentos. Ela nos é dada como um todo, e por ela cada um de nós ainda será julgado. Rejeitar a grande verdade que estamos aqui tratando é o cúmulo da impiedade, repudiar a eleição de Deus é repudiar o Deus da eleição. É uma recusa a se curvar diante de Sua elevada soberania. É o pregador corrupto opondo-se contra o santo Criador. É o orgulho presunçoso que insiste em ser o determinante de seu próprio destino. É o espírito de Lúcifer, que disse: “Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono... Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo” (Isaías 14:13-14). Em segundo lugar, a bem-aventurança dessa doutrina aparece em que tudo é importante no plano da salvação. Considere isto, primeiro, do lado Divino. A apresentação Escriturística desta grande verdade é indispensável se os atos distintivos do Deus Triuno em matéria de salvação devem ser reconhecidos, honrados e confessados. A salvação não procede de uma só Pessoa Divina, mas igualmente das três Pessoas Eternas. Jeová, então, ordenou as coisas de forma que cada Um na Divindade deve ser magnificado e glorificado igualmente. O Pai é tão real e verdadeiramente o Salvador do Cristão como é o Senhor Jesus, e assim também é o Espírito Santo, note como o Pai é expressamente designado “Deus, nosso Salvador” em Tito 3:4, como distinto de “Jesus Cristo, nosso Salvador” no versículo 5. Mas isso é ignorado e perdido de vista, se esta doutrina preciosa for omitida. A predestinação pertence ao Pai, a propiciação ao Filho, a regeneração ao Espírito. O Pai originou, o Filho efetuou nossa salvação, e pelo Espírito ela é consumada. Repudiar o primeiro é retirar o próprio fundamento. Considere isso, agora, do lado humano: a eleição está na própria base da esperança de um pecador. Por natureza, todos são filhos da ira. Na prática, todos se desviaram. O mundo inteiro tornou-se culpado diante de Deus, todos estão expostos à ira, e se deixados a si mesmos estariam envolvidos em uma ruína comum. Eles são “barro da mesma massa”, e continuando sob a mão formadora da natureza seriam todos “vasos para desonra” (Romanos 9:21). Quem quer que seja salvo, é pela graça de Deus (Romanos 11:4-7). Jesus Cristo, o redentor dos pecadores, Ele mesmo é o Eleito, como descrito pelo profeta (Isaías 42:1). E todos os que alguma vez serão salvos, são eleitos nEle, dados a Ele pelo Pai, escolhidos nEle antes da fundação do mundo. Foi para realizar a salvação que Deus entregou o Seu Filho unigênito, e que Jesus Cristo assumiu a nossa natureza e deu Sua vida em resgate.

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É para chamar os eleitos que as Escrituras são dadas, que os ministros são enviados, que o Evangelho é pregado, e que o Espírito Santo está aqui. É para realizar a eleição que os homens são ensinados por Deus, atraídos pelo Pai, regenerados pelo Espírito Santo, feitos participantes da fé preciosa, dotados com o espírito de adoção, de oração e de santidade. É em consequência de sua eleição que os homens são feitos obedientes ao Evangelho, são santificados pelo Espírito, e tornam-se santos e irrepreensíveis diante de Deus. Se não houvesse eleição Divina, não haveria salvação Divina. E isso não é uma afirmação meramente arbitrária de nossa parte: “E como antes disse Isaías: Se o Senhor dos Exércitos nos não deixara descendência, Teríamos nos tornado como Sodoma, e teríamos sido feitos como Gomorra” (Romanos 9:29). Pecadores perdidos não podem se salvar. Deus não tinha nenhuma obrigação de salvá-los. Se Ele Se agradou em salvar, Ele salva a quem quer.

A eleição não apenas está no fundamento da esperança de um pecador, mas também acompanha cada passo do progresso do Cristão para o Céu. Traz-lhe as boas novas de salvação. Ela abre seu coração para receber o Salvador. Ela é vista em cada ato de fé, em cada dever sagrado, e em cada oração eficaz. Ela o chama. Ela o vivifica em Cristo. Ela adorna a sua alma. Ela o coroa com justiça, vida e glória. Ela contém em si a garantia preciosa que “aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo” (Filipenses 1:6). Não havia nada neles que levou Deus a escolhê-los como Seu povo; e Ele então lida com eles, para não permitir que qualquer coisa neles ou a partir deles leve-os a reverter essa escolha. Como Romanos 8:30 então definitivamente indica, a predestinação envolve glorificação e, portanto, garante o suprimento de todas as necessidades dos escolhidos entre os dois. Em terceiro lugar, a bem-aventurança dessa doutrina aparece em seus elementos essenciais. Destacaremos três ou quatro dos principais dentre estes. Em primeiro lugar, a honra superlativa de ser escolhido por Deus. Em todas as escolhas que a pessoa faz, coloca um valor sobre o escolhido. Pois, ser selecionado por um rei a um ofício, ou ser chamado para algum emprego pelo Estado, será algo que dará dignidade para um homem. Assim ocorre nos assuntos espirituais. Foi um elogio especial sobre Tito que ele havia sido “escolhido das igrejas” (2 Coríntios 8:19). Mas que o grande Deus, o potentado bendito e único, escolha essas criaturas miseráveis, desprezíveis, inúteis e vis como nós somos, excede todo o entendimento. Pondere em 1 Coríntios 1:26-29, e veja como isso está ali colocado. Como a escolha de Deus deve nos maravilhar. Como ela deve nos humilhar. Observe como essa ênfase honrosa é colocada sobre o Senhor Jesus: “Eis o meu servo, a quem escolhi” (Mateus 12:18); assim sobre Seus membros também: “por causa dos eleitos que escolheu” (Marcos 13:20).

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Mais uma vez; a consequente excelência disso. Eles são os eleitos: os que Deus escolheu, e isso não lhes confere necessariamente uma excelência elevada, valiosa, honrosa? Os escolhidos de Deus, devem ser excelentes; é o ato de Deus que os torna assim. Observe a ordem em 1 Pedro 2:6: “pedra angular, eleita e preciosa”, preciosa porque eleita. Pegue o mais eminente dos santos de Deus, e qual é o seu maior título e honra? Este: “Por amor de Davi, meu servo, a quem escolhi” (1 Reis 11:34). “Enviou Moisés, seu servo, e Arão, a quem escolhera” (Salmos 105:26). Paulo “este é para mim um vaso escolhido” (Atos 9:15). “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido” (1 Pedro 2:9), ou seja, eleitos. Essa expressão é retirada de “sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos” (Êxodo 19:5). Isso implica o que é precioso a Deus: “Visto que foste precioso aos meus olhos, também foste honrado, e eu te amei” (Isaías 43:4).

Mais uma vez, observe a plenitude desse alto privilégio. “Bem-aventurado aquele a quem tu escolhes, e fazes chegar a ti, para que habite em teus átrios” (Salmos 65:4); sim, ele é “abençoado para sempre” (Salmos 21:6), ou como o Hebraico o apresenta: “separado para bênçãos”, isto é, separado ou nomeado para nenhuma outra coisa, senão para bênçãos. Como o Novo Testamento expressa: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; como também nos elegeu nele” (Efésios 1:3-4). Eleição, então, é a fonte do tesouro de toda bem-aventurança. Os eleitos são escolhidos para uma maior aproximação e união a Deus que é possível para as criaturas, para a maior comunhão com Ele próprio. Considere também o tempo em que Ele nos escolheu, Paulo o datou: “o princípio” (2 Tessalonicenses 2:13). Deus nos amou desde que Ele era Deus, e enquanto Ele for Deus, Ele continuará a nos amar. Deus é desde a eternidade e Ele continua sendo Deus pela eternidade (Salmos 90:2), e Seu amor por nós é muitíssimo antigo: “Com amor eterno te amei” [Jeremias 31:3]. E o Seu amor é como Ele mesmo: sem causa, imutável, infinito. A bem-aventurança da eleição aparece novamente na comparativa raridade dos eleitos. A escassez de homens desfrutando algum privilégio o magnifica, como no caso da preservação de Noé e sua família: “a arca; na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram” (1 Pedro 3:20). Que contraste foi isso, em relação a todo o mundo “dos ímpios”, pois todos pereceram! O mesmo fato e contraste foram enfatizados por Cristo em Lucas 12: “Porque as nações do mundo buscam todas essas coisas” (v. 30), ou seja, as coisas temporais e carnais, e Deus concede as tais para eles. Mas, em oposição a isso, o Senhor diz: “Não temais, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o reino” (v. 32). Seu propósito era mostrar a mais grandiosa misericórdia de Deus, visto que tão poucos são reservados aos favores espirituais e eternos, enquanto todos os outros têm apenas coisas materiais e temporais como a sua porção.

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Como esse fato solene deve afetar os nossos corações. Volte seus olhos, caro leitor, sobre o mundo de hoje, e olha para ele, o que você contemplará? Você não é compelido a dizer sobre a atual geração, em todas as nações semelhantemente, que Deus as deixou a caminhar “em seus próprios caminhos?”. Não devemos concluir tristemente sobre os homens e mulheres desta época que “todo o mundo está no maligno” (1 João 5:19)? O número escasso dos que são de Deus, são, na verdade poucos semeados, um pequeno punhado colhido em comparação com toda a grande safra da humanidade. E que não seja esquecido que o que aparece agora diante de nossos olhos, é apenas a realização daquilo que foi preordenado na eternidade. Não há um Deus frustrado e derrotado no trono do universo. Ele tem o Seu caminho “na tormenta e na tempestade” (Naum 1:3). E mais uma vez nós dizemos o quão profundamente esse contraste surpreendente deve afetar nossos corações. “Pois alguns serem escolhidos e salvos, quando uma multidão, sim, a generalidade dos outros devem padecer a perecer, como isso aumenta a misericórdia e a graça da salvação para nós; pois Deus, em Sua providência ordenou muitos meios exteriores para resgatar alguns, os quais Ele nega aos outros, que perecem. Como isso deve afetar as pessoas que são preservadas? Quanto mais quando essa é “uma tão grande salvação” (Thomas Goodwin). Isso aparece a partir do que eram tipos e meras sombras disso nos tempos do Antigo Testamento, como no caso de somente a única e pequena família de Noé sendo poupada do dilúvio universal. Assim, também, pelo exemplo de Ló, retirado de Sodoma pela mão dos anjos. E por quê? “Sendo-lhe o Senhor misericordioso”, diz Gênesis 19:16. Observe que profundo senso e valorização que Ló teve sobre o mesmo: “Eis que agora o teu servo tem achado graça aos teus olhos, e engrandeceste a tua misericórdia que a mim me fizeste, para guardar a minha alma em vida” (Gênesis 19:19). Porém, há mais isso a ser considerado: a nossa libertação de uma condição de semelhante miséria e ira, como a que pertence ao não-eleito, que não está mencionada nos casos acima. Noé era “homem justo e perfeito em suas gerações” (Gênesis 6:9), e Ló era “justo” e “enfadado da vida dissoluta dos homens abomináveis” (2 Pedro 2:7-8). Eles não eram culpados daqueles pecados terríveis pelos quais Deus enviou aos seus semelhantes a inundações e incêndios. Mas quando nós somos ordenados para a salvação, estamos diante de Deus em uma condição de semelhante corrupção e culpa como toda a humanidade. Foi apenas o decreto soberano de um Deus soberano que determinou o nosso ser trazido para fora de um estado de pecado e ira, para um estado de graça e justiça. Quão estupenda, então, foi a misericórdia de Deus para conosco, em fazer esta diferença (1 Coríntios 4:7) entre aqueles em quem não havia “nenhuma diferença” (Romanos 3:22)! Oh! que amor, que obediência de todo o coração, que louvor são devidos a Ele. Em quarto lugar, a bem-aventurança dessa doutrina aparece em que uma verdadeira apre-

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ensão da mesma é um grande promotor da santidade. De acordo com o propósito Divino, os eleitos são destinados a uma santa vocação (2 Timóteo 1:9). Na realização desse propósito, eles são real e efetivamente trazidos à santidade. Deus os separa de um mundo ímpio. Ele escreve no coração deles a Sua Lei e afixa neles o Seu selo. Eles são feitos participantes da natureza Divina, sendo renovados à imagem dAquele que os criou. Eles são uma habitação de Deus, seus corpos se tornam o templo do Espírito Santo, e eles são conduzidos por Ele. Uma mudança gloriosa é, portanto, neles operada, transformando seu caráter e conduta. Eles lavam as suas vestiduras e as branqueiam no sangue do Cordeiro. Para eles, as coisas velhas já passaram e tudo se fez novo. Esquecendo-se das coisas que atrás ficam, eles prosseguem para as coisas que estão diante. Eles são reis e sacerdotes para Deus e, ainda serão adornados com coroas de glória.

Há aqueles que, em sua ignorância, dizem que a doutrina da eleição é uma doutrina licenciosa, que a crença nela é avaliada como algo que leva a produzir descuido e uma sensação de segurança enquanto se vive em pecado. Essa acusação é uma reflexão blasfema sobre o seu autor Divino. Esta verdade, como nós mostramos longamente, ocupa um lugar de destaque na Palavra de Deus, e esta Palavra é santa, e toda ela útil para a instrução na justiça (2 Timóteo 3:16). Todos e cada um dos apóstolos criam e ensinavam essa doutrina, e eles foram os promotores de piedade e não incentivadores da vida relaxada. É verdade que esta doutrina, como todas as outras Escrituras, pode ser pervertida por homens ímpios e colocada em mau uso, mas até agora, enquanto militando contra a verdade, isso apenas serve para demonstrar a temível extensão da depravação humana. Nós também admitimos que homens não-regenerados podem intelectualmente defender essa doutrina e, em então, firmarem-se em uma inércia fatal. Mas nós enfaticamente negamos que uma recepção dela, de coração, produzirá qualquer efeito tal como este. Que fé, obediência, santidade são as consequências inseparáveis e frutos da eleição é inequivocamente claro a partir das Escrituras (Atos 13:48; Efésios 1:4; 1 Tessalonicenses 1:47, Tito 1:1), e tem sido totalmente estabelecido por nós nos capítulos anteriores. Como pode ser de outra forma? A eleição sempre envolve regeneração e santificação, e quando uma alma regenerada e santificada descobre que ela deve a sua renovação espiritual unicamente à soberana predestinação de Deus, o que ela pode ser, senão verdadeiramente agradecida e profundamente grata? E de que outra maneira ela pode expressar sua gratidão, do que em um santo caminhar de obediência frutífera? Uma apreensão do amor eterno de Deus por ela necessariamente despertará nela um amor sensível a Deus, e onde quer que este exista, haverá um esforço sincero para agradá-lO em todas as coisas. O fato é que um sentido espiritual da distintiva graça de Deus é o mais poderoso motivo de constrangimento para a piedade genuína.

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Se entrássemos em detalhes sobre os principais elementos da santidade neste capítulo, isso seria prorrogado por tempo indeterminado. Uma devida atenção ao fato de que não havia nada em nós que moveu Deus a fixar Seu coração sobre nós, e que Ele nos previu como criaturas arruinadas e merecedores do inferno, humilhará as nossas almas como nada mais o fará. A compreensão espiritual que todos os nossos interesses estão inteiramente à disposição de Deus, operará em nós uma submissão à Sua vontade soberana como nada mais pode. O fato de percebemos que Deus colocou Seu coração sobre nós desde a eternidade, nos escolhendo para ser Seu tesouro peculiar, operará em nós um desprezo pelo mundo. O conhecimento de que outros Cristãos são os eleitos e amados de Deus evocará amor e bondade por eles. A garantia de que o propósito eterno de Deus é imutável e assegura o suprimento de todas as nossas necessidades comunicará consolo sólido em cada tribulação.

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11 • Sua Oposição Onde quer que a doutrina da eleição seja biblicamente apresentada reunir-se-ão contra ela com oposição feroz e clamor amargo. Tem sido assim ao longo de todo o curso desta era Cristã, e isto, entre todas as raças e classes de pessoas. Deixe as altas prerrogativas de Deus serem estabelecidas, deixe a soberania de Sua graça ser proclamada, deixe ser dito aos homens que eles nada mais são do que barro nas mãos do Oleiro Divino para serem moldados em vasos de ira ou vasos de misericórdia, conforme bem parecer aos olhos de Deus, e no mesmo instante há um tumulto e gritos de protesto. Deixe o pregador insistir que a criatura caída não tem qualquer direito sobre o seu Criador, que ela está diante dEle como um criminoso condenado, e não possui nenhum direito, exceto o de ser eternamente condenado, e deixe-o declarar que todos os descendentes de Adão são tão absolutamente depravados que suas mentes estão em “inimizade contra Deus” e, portanto, em um estado de insubordinação desenfreada, que seus corações são tão corruptos que não têm desejo pelas coisas espirituais, e que suas vontades estão tão completamente sob o domínio do mal que eles não podem converterem-se ao Senhor, e tal pregador será denunciado como um herege. Mas isso não deve nem surpreender e nem ser estranho para o filho de Deus. À medida que ele se torna mais familiarizado com as Escrituras, ele descobrirá que em cada geração os fiéis servos de Deus têm sido odiados e perseguidos, alguns por proclamar uma parte da verdade, e alguns por proclamarem a outra parte. Quando o sol brilha sobre um monturo, um fedor odioso é a consequência; quando os seus raios caem sobre as águas estagnadas de um pântano, os germes insalubres são multiplicados. Mas neste caso o sol deve ser responsabilizado? Certamente que não. Assim, quando a espada do Espírito corta pela raiz o orgulho humano e revela que o homem é um ser caído e sujo, e o reduz a uma criatura impotente, colocando-o no pó como um mendigo miserável, e declara que ele é totalmente dependente do beneplácito de distinção de um Deus soberano, então há uma tempestade de oposição evocada, e um esforço resoluto é feito para silenciar tais ensino que são fulminantes para a carne. O método que é geralmente seguido por aqueles que rejeitam esta verdade é a deturpação. A doutrina da eleição é tão grande e gloriosa que para que seja produzida qualquer oposição contra ela deve ser por meio de sua perversão. Aqueles que a odeiam nem podem olhar para e nem falar dela como ela realmente merece. A eleição é tratada por eles como se não incluísse uma designação para a fé e para a santidade, como se através desta não fôssemos conformados à imagem de Cristo; sim, como se os eleitos de Deus pudessem continuar a cometer todo tipo de maldade e ainda ir para o céu; e que quanto aos não-

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eleitos, não importa quão virtuosos eles sejam, ou quão ardentemente eles desejem e lutem por justiça, eles certamente perecerão. Inferências falsas são esboçadas, paródias grotescas são exibidas e táticas inescrupulosas são empregadas para criar preconceitos. É por tais esforços diabólicos que os inimigos de Deus procuram distorcer e destruir esta bendita doutrina. Eles a mancham com lama, buscam sobrecarregá-la com as coisas odiosas, e apresentá-la ao olhar indignado de homens como algo a ser rejeitado e abominado. Um monstro de iniquidade é assim criado e chamado de “eleição”, e, em seguida, é apresentado ao mundo como algo a ser repudiado como maligno. Assim, as multidões foram enganadas a respeito de uma das porções mais preciosas da verdade Divina, e, assim, alguns do próprio povo de Deus têm sido extremamente perplexos e perseguidos. Que os adversários confessos de Cristo insultem a doutrina ensinada por Ele e Seus apóstolos é de se esperar; mas quando aqueles que professam ser Seus amigos e seguidores se juntam e falam contra esta verdade, isto serve apenas para demonstrar a astúcia da antiga serpente, o Diabo, que nunca está mais satisfeito do que quando ele pode persuadir Cristãos nominais a fazerem seu trabalho vil para ele. Então, que o leitor não se deixe ser abalado por tal oposição. A grande maioria desses opositores têm pouca ou nenhuma compreensão real a respeito daquilo contra o que eles se levantam. Eles são, em grande parte ignorantes do que as Escrituras ensinam sobre o mesmo, e são demasiado preguiçosos para fazer qualquer estudo sério sobre o assunto. Seja qual for a atenção que eles empregam para isso é em grande parte neutralizado pelo véu do preconceito que impede a sua visão. Entretanto, quando essas pessoas examinam a doutrina com diligência suficiente para descobrir que ela conduz somente à santidade — santidade de coração e de vida — então eles redobram seus esforços para arruiná-la. Quando Cristãos professos se unem com os detratores da doutrina da eleição, a caridade nos obriga a concluir que é por causa da incapacidade de compreender adequadamente esta doutrina. Eles têm uma visão unilateral desta verdade, eles a veem através das lentes distorcidas, eles a contemplam a partir do ângulo errado. Eles não conseguem ver que a eleição teve origem no amor eterno, que é a escolha de uma companhia para a salvação eterna, que de outra forma teríamos inevitavelmente perecido, e que esta doutrina faz com que esta companhia seja um povo disposto, obediente e santo. Não vamos agora tentar cobrir toda a gama de objeções que foram interpostas contra a doutrina da eleição, mas nossa discussão seria incompleta se as ignorássemos completamente. As ações da incredulidade são sempre infinitas em número. O filho de Deus precisa estar ocupado com algo mais proveitoso. No entanto, sentimos que devemos pelo menos considerar brevemente aquelas objeções que o inimigo supõe serem as mais poderosas e

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formidáveis. Não que nosso objetivo seja tentar convencê-los de seus erros, mas, nosso objetivo é tentar ajudar os companheiros de fé, que, porventura tenham sido abalados, senão tropeçado nisso. Nosso negócio não é refutar o erro, mas (em Deus) estabelecer os nossos leitores na verdade. Contudo, para fazer isso, às vezes é necessário expor os ardis de Satanás, e mostrar quão desprovidos de fundamentos são as mais insidiosas de suas mentiras, e procurar remover da mente do Cristão qualquer efeito prejudicial que estas possam ter tido sobre ele. Antes de iniciar esta tarefa indesejável permita-me salientar que a falta de habilidade da nossa parte para refutar as calúnias dos adversários não é uma prova de que a sua posição é inexpugnável. Como o renomado Joseph Butler pontuou há muito tempo em sua magistral “Analogia”: “Se a verdade está estabelecida, as objeções nada são. Esta (ou seja, a verdade) é fundada sobre o nosso conhecimento, e as outras em nossa ignorância”. Uma vez que se prove que dois e dois são quatro, nenhum subterfúgio ou malabarismo com números podem contestá-lo. “Nós nunca devemos suportar que o que sabemos seja perturbado pelo que não sabemos”, disse aquele mestre da lógica, William Paley. Uma vez que vemos algo ser claramente ensinado nas Escrituras Sagradas, não devemos permitir que tanto os nossos próprios preconceitos ou o antagonismo dos outros abalem nossa confiança em ou a adesão a tal ensinamento. Se estamos convencidos de que temos um “assim diz o Senhor” sobre o que descansaremos, em nada importa se não somos capazes de mostrar o sofisma e argumentar contra isto. Tenha a certeza de que Deus é verdadeiro, mesmo que isso signifique que seremos contados como mentirosos. Os piores inimigos contra a doutrina da eleição são os papistas, este é exatamente o que se poderia esperar, pois a verdade da eleição nunca pode ser conciliada com o dogma dos méritos humanos, pois este é diametralmente oposta à outra. Todo homem que é amante de si mesmo e busca a salvação por suas próprias obras, detestará a graça soberana, e procurará leva-la ao desprezo. Por outro lado, aqueles que foram eficazmente humilhados pelo Espírito Santo e foram levados a perceber que eles são completamente dependentes da misericórdia distinguidora de Deus, não desejarão e terão paciência com um sistema que coloca a coroa de honra sobre a criatura. A história dá amplo testemunho de que Roma detesta o próprio nome Calvinismo. “De todas as seitas pode haver alguma esperança de obter convertidos para Roma exceto do Calvinismo”, disse recentemente “O Cardeal” Manning. E ele estava certo, como a nossa própria época degenerada dá pleno testemunho, por enquanto nenhum Calvinista regenerado jamais vai ser fatalmente enganado pelos ardis da mãe das prostitutas, mas milhares de “protestantes” (?) Arminianos estão correndo anualmente para seus braços. É um fato irrefutável que à medida que o Calvinismo encontrou cada vez menos favoreci-

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mento nos principais círculos Protestantes, à medida que a soberania de Deus e Seu amor eletivo têm sido cada vez mais retirados de seus púlpitos, que Roma tem feito progresso significativo, ainda hoje ela deve ter, tanto na Inglaterra como nos EUA, um número maior de seguidores do que qualquer denominação evangélica individual. Mas o que é mais triste de tudo é que, a grande maioria dos que agora ocupam os chamados púlpitos protestantes estão pregando as mesmas coisas que interessam a Roma. Sua insistência na liberdade da vontade humana para fazer o bem deverá encher os líderes papistas de prazer. No Concílio de Trento, eles anatematizaram todos os que afirmaram o contrário. Até que ponto o fermento do papado se espalhou pode ser visto nestes “protestantes evangélicos” que se opõem à doutrina da eleição, os quais estão agora empregando as mesmas auto-objeções que foram usadas pelos doutores italianos há quatrocentos anos.

Mas, para chegar agora a algumas das objeções. Em primeiro lugar, tal doutrina é totalmente irracional. Quando se adequa ao seu propósito, Roma faz uma grande pretensão de apelar à razão humana, mas em outros momentos ela exige que seus filhos fechem os olhos mentais e aceitem cegamente tudo o que a sua “mãe” profana tem o prazer de impor sobre eles. No entanto, Roma não é de forma alguma a única criminosa neste momento, uma multidão de pessoas que se consideram protestantes são culpados da mesma coisa. Assim também quase a primeira resposta das pessoas que não fazem nenhuma profissão religiosa, quando esta verdade lhes é apresentada ao seu conhecimento, é exclamar: “Tal conceito definitivamente não me agrada. Se há um Deus, e se Ele tem absolutamente algo a ver com nossas vidas presentes, eu creio que Ele vai nos dar igualmente a mesma chance, equilibrar as nossas boas ações contra as nossas más, e ter misericórdia de nós. Dizer que Ele tem favoritos entre as Suas criaturas, e que Ele fixou o destino de cada um antes de seu nascimento, parece-me ser ultrajante”. Nossa primeira resposta a essa objeção é esta, isso está totalmente fora de questão. A única questão que exige uma decisão desde o princípio é: o que dizem as Escrituras? Se a eleição for claramente ensinada nelas, isso resolve o assunto para o filho de Deus, e o estabelece de uma vez por todas. Se ele a entende ou não, ele sabe que Deus não pode mentir, e que a Sua Palavra “é a verdade desde o princípio” (Salmo 119:160). Se o seu adversário não a admite, então não há nenhum terreno comum em que eles possam se fundamentar, e é totalmente inútil discutir o assunto com ele. Sob nenhuma circunstância deve o Cristão deixar-se afastar da sua posição sobre a rocha inexpugnável da Sagrada Escritura, e descer até o chão traiçoeiro da razão humana. Só nesse plano elevado, ele pode resistir com sucesso às investidas de Satanás. Releia Mateus 4 e observe como Cristo venceu o tentador. A santa Palavra de Deus não nos induz a desejar aceitação no tribunal da razão humana.

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Em vez disso, ela exige que a razão humana renda-se à sua autoridade Divina e receba sem murmurar seu conteúdo inerrante. Ela enfática e repetidamente adverte os homens que se eles desprezam a sua autoridade e rejeitam seus ensinamentos, devem estar certos de sua ruína eterna. É por esta Palavra que cada um de nós deve ser pesado, medido, julgado no dia vindouro; e, portanto, é parte da sabedoria humana o curvar-se para receber com alegria as suas declarações inspiradas. A atitude suprema da correta razão, meu leitor, é submeter-se sem reservas à sabedoria Divina e aceitar com simplicidade como de criança a revelação que Deus nos deu graciosamente. Qualquer atitude diferente quanto a isso é totalmente irracional — a loucura do orgulho. Como devemos ser gratos ao fato de que o Ancião de dias [Daniel 7:22] condescende em nos instruir. Nossa segunda resposta à objeção acima é que, em uma revelação escrita do céu devemos esperar totalmente encontrar muita coisa que transcende o alcance das nossas pobres mentes ligadas à terra. Qual seria o proveito de que Deus nos comunicasse apenas aquilo que já sabíamos? As Escrituras não nos foram dadas como um campo em que a razão pode ser exercida, o que elas exigem são a fé e a obediência. E a fé não é uma coisa ininteligível e cega, mas a confiança no Seu Autor, uma garantia de que Ele é muito sábio para errar, muito justo para cometer injustiça; e, portanto, uma confiança de que Ele é infinitamente digno de nossa confiança e submissão à Sua santa vontade. Contudo, justamente porque a Palavra de Deus é dirigida à fé, há muito nela que é contrário à natureza, muito do que é muito misterioso, tanto que nos deixa maravilhados. A fé deve ser testada, para que sua autenticidade deva ser provada. E Deus se deleita em honrar a fé: embora a Sua Palavra não tenha sido escrita para satisfazer a curiosidade, e apesar de que muitas perguntas não estão ali totalmente respondidas... onde os fundamentos da fé são exercidos a mais completa luz é concedida. O próprio Deus é profundamente misterioso. “Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos; e quão pouco é o que temos ouvido dele!” (Jó 26:14); “Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!” (Romanos 11:33). Devemos, portanto, esperar encontrar na Bíblia muitas coisas que nos parecem estranhas: as coisas “difíceis de entender” (2 Pedro 3:16). A criação do universo a partir do nada, com o simples decreto do Todo-Poderoso, está além da compreensão da mente finita. A encarnação Divina transcende a razão humana: “Grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne” (1 Timóteo 3:16). Que Cristo tenha sido concebido e nascido de uma mulher que não havia tido conhecido nenhum contato com homem, não pode ser explicado pela razão humana. A ressurreição de nossos corpos, milhares de anos depois de terem ido ao pó é inexplicável. Não é, portanto, mais razoável rejeitar a verdade da eleição, pelo fato de que a razão humana não pode compreendê-la! Em segundo lugar, uma outra objeção é que a doutrina da eleição é muito injusta. Rebeldes

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contra o Soberano supremo não hesitam em acusá-lO de injustiça, porque Ele tem o prazer de exercer Seus próprios direitos, e determinar o destino de Suas criaturas. Eles argumentam que todos os homens devem ser tratados em pé de igualdade, que deve ser dada igual oportunidade de salvação a todos. Eles dizem que, se Deus mostra misericórdia para um e a retêm de outro, tal parcialidade é extremamente injusta. Para tal objetor nós respondemos na linguagem da Sagrada Escritura: “Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (Romanos 9:20-21). E para ali nós o levamos. Porém, mesmo algumas daquelas pessoas que pertencem ao Senhor são perturbadas por essa dificuldade. Em primeiro lugar, então, gostaria de lembrar-lhes que Deus é “luz” (1 João 1:5), bem como “amor”. Deus é inefavelmente santo, bem como infinitamente misericordioso. Como o Santo Ser Ele abomina todo o mal, e como o governador moral de Suas criaturas, convém a Ele manifestar eternamente o Seu ódio pelo pecado. Como o Ser gracioso, Ele tem o prazer de conceder favores sobre quem não merece, e dar uma demonstração eterna que Ele é “o Pai das misericórdias”. Agora, na eleição esses dois propósitos são inequivocamente realizados. Na rejeição e condenação dos não-eleitos, Deus dá prova plena da Sua santidade e justiça, dando-lhes a devida recompensa das suas iniquidades. Na predestinação e salvação de Seu povo escolhido, Deus faz uma exposição clara das abundantes riquezas da Sua graça. Suponha que Deus tivesse desejado a destruição de toda a raça humana, o que teria acontecido? Isso teria sido injusto? Certamente que não. Não poderia haver nenhuma injustiça, qualquer que fosse, em impor aos criminosos a pena da lei que eles haviam desafiadoramente quebrado. Mas o que, então, teria acontecido com a misericórdia de Deus? Nada, mas a justiça inexorável teria sido exercida por um Deus ofendido, então cada descendente de Adão caído teria inevitavelmente sido lançado no inferno. Agora, por outro lado. Suponha que Deus decidisse abrir as comportas da misericórdia, e levar toda a raça humana para o céu, o que teria acontecido então? O salário do pecado é a morte, a morte eterna. Mas, se todos os homens pecassem, e ninguém morresse, isto seria prova de que a justiça Divina nada mais era do que um nome vazio? Se Deus tivesse salvado todos os pecadores, isso não necessariamente inculcaria leves concepções sobre o pecado? Se todos fossem levados ao céu, não concluiríamos que seria devido a nós, como um direito? Pelo fato de que todos são culpados, deveriam as mãos da misericórdia Divina serem amarradas? Se não, se a misericórdia pode ser exercida, então Deus está obrigado a renunciar totalmente à Sua justiça? Se Deus se apraz em exercer misericórdia sobre alguns, não tendo esta reivindicação alguma sobre aquela, não pode Ele também mostrar-se como justo

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juiz por infligir aos outros o castigo que merecem? Que mal há em um credor se ele perdoa a dívida de um e exige o pagamento da dívida de outro? Sou injusto porque eu mostro caridade a um mendigo, e recuso fazer o mesmo ao seu companheiro? Então, o grande Deus é menos livre para transmitir Seus dons a quem Lhe agrada? Antes que a objeção acima tenha qualquer vigor, deve ser provado que toda a criatura (pelo fato de ser uma criatura) tem direito à bem-aventurança eterna, e que mesmo que ela caia em pecado e torne-se rebelde contra o seu Criador, que Deus é moralmente obrigado a salvá-la. A tais absurdos o objetor é necessariamente reduzido. “Se a felicidade eterna fosse devida a cada homem, sem exceção, certamente a felicidade temporal deveria ser-lhe devida também, se eles têm direito à uma maior reivindicação dificilmente esta pode ser posta em dúvida. Se o Onipotente é obrigado, sob pena de tornar-se injusto, fazer tudo o que Ele for capaz para que cada indivíduo seja feliz na outra vida; Ele deve ser igualmente obrigado a fazer cada indivíduo ser feliz nesta. Mas todos os homens são felizes? Olhe ao redor do mundo e diga ‘sim’, se puder. O Criador é, portanto, injusto? ninguém, senão Satanás sugeriria isto, ninguém senão seus ecos afirmariam isso. O Senhor é um Deus de verdade, e não há nEle injustiça, justo e reto Ele é... A ordem constituída das coisas é misteriosa? Sim, impenetrável. No entanto, o mistério das dispensações de Deus evidencia não a injustiça do distribuidor soberano, mas a superficialidade da compreensão humana e a falta da visão humana. Vamos, então, abraçar e reverenciar as doutrinas bíblicas da predestinação e da providência, demos a Deus o crédito por Ele ser infinitamente sábio, justo e bom; embora no presente Seus caminhos sejam profundos, e Seus passos não sejam conhecidos” (Augustus Toplady, autor de “Rock of Ages”). Por fim, deixe-se salientar que Deus nunca recusa misericórdia para qualquer um que humildemente O busca. Os pecadores são livremente convidados a abandonarem seus maus caminhos e clamarem ao Senhor por perdão. O banquete do Evangelho está espalhado diante deles; se eles se recusam a participar do mesmo, se ao invés disso eles detestam e afastam-se dele com desdém, não está o sangue deles sobre suas próprias cabeças? Que tipo de “justiça” é a que exige que Deus traga para o céu aqueles que O odeiam? Se Deus fez um milagre da graça em você, meu leitor, e gerou em seu coração um amor por Ele, seja fervorosamente grato ao mesmo, e não perturbe a sua paz e alegria perguntando por que Ele não fez o mesmo aos seus companheiros transgressores. Em terceiro lugar, objetam que se a doutrina da eleição é verdadeira a oferta do Evangelho não tem sentido. Aqueles que se recusam a receber a verdade da eleição Divina gostam de dizer que a ideia de Deus ter eternamente escolhido algumas e rejeitado outras de Suas criaturas reduziria a pregação evangélica a uma farsa. Eles argumentam que, se Deus pre-

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destinou uma parte da raça humana para a perdição, a pregação do Evangelho não pode conter nenhuma boa oferta de salvação para eles. Permita-nos em primeiro lugar salientar que essa objeção não atinge somente o Calvinismo, mas aplica-se com a mesma força ao Arminianismo. Os defensores do livre-arbítrio negam o caráter absoluto dos decretos Divinos, mas eles afirmam a presciência de Deus. Então devolvamos a questão para eles: Como Deus, em boa fé, pode ordenar homens a se arrependerem e crerem no Evangelho, quando Ele infalivelmente conhece de antemão os que nunca o farão? Se os objetores supõem que a primeira objeção é irrefutável, eles encontrarão que a nossa pergunta é irrespondível considerando os seus próprios princípios. Seja qual for a dificuldade que possa ser apresentada neste momento — e o escritor não tem nenhum pensamento de menosprezar esta — uma coisa é clara: a quem o Evangelho vem, Deus é sincero ao ordenar aqueles que o ouvem a submeterem-se às suas exigências, receberem suas boas novas, e serem salvos desse modo. Se podemos ou não perceber como isso pode ser assim, isso é de nenhuma importância; mas a integridade do caráter Divino deve ser preservada a todo custo. O simples fato de que somos incapazes de discernir a consistência e harmonia entre duas linhas distintas da verdade, isto certamente não garante nossa rejeição a qualquer uma delas. A doutrina da eleição soberana é claramente revelada nas Escrituras; assim também como é a genuinidade da oferta do Evangelho a todos que o recebem, uma doutrina deve ser defendida, bem como a outra. Mas, nós não criamos a nossa própria dificuldade por supor que a salvação dos homens é o único objetivo de Deus, ou até mesmo seu propósito principal, ao enviar o Evangelho? Mas para que outros fins, pode-se perguntar, o Evangelho foi enviado? Muitos. O primeiro propósito de Deus no Evangelho, como em todo o mais, é a honra de Seu próprio grande Nome e a glória de Seu Filho. No Evangelho o caráter de Deus e da excelência de Cristo são mais plenamente revelados do que em qualquer outro lugar. Que um testemunho universal disso deve ser feito é infinitamente apropriado. Que os homens devem conhecer as inefáveis perfeições dAquele com quem eles têm que lidar é mui desejável. Deus, então, é magnificado e o valor incomparável de Seu Filho é proclamado, mesmo que nenhum pecador jamais creia e seja salvo por ele. Outrossim; a pregação do Evangelho é o instrumento designado nas mãos do Espírito Santo pelo qual os eleitos são trazidos a Cristo. Deus não desdenha das agências instrumentais, antes tem o prazer de empregá-las, Aquele que ordenou o fim, também nomeou os meios para o atingir. Justamente porque os eleitos de Deus estão “dispersos” (João 11:52) entre todas as nações, Ele ordenou “o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém” (Lucas 24:47). É por ouvir o Evangelho que eles são chamados para fora do mundo. Os eleitos de Deus por natureza são filhos da ira “como os

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outros também”, eles são perdidos pecadores que necessitam de um Salvador, e à parte de Cristo não há salvação para eles. Portanto, o Evangelho deve ser pregado e crido por eles antes que eles possam regozijar-se no conhecimento de que seus pecados estão perdoados. O Evangelho, então, é a grande pá de joeirar de Deus, separando o trigo do joio, e reunindo o trigo em Seu celeiro. Além disso, os não-eleitos ganham muito com o Evangelho, mesmo que ele não afete a sua salvação eterna. O mundo existe por causa dos eleitos, mas todos compartilham os benefícios disto. O sol brilha sobre os maus, assim como sobre os bons; chuvas refrescantes caem sobre as terras dos ímpios tão verdadeiramente como sobre o terreno dos justos. Assim, Deus faz com que o Evangelho chegue aos ouvidos de muitos dos não-eleitos, bem como aos ouvidos de Seu povo favorecido. Por quê? Por se tratar de um dos seus órgãos poderosos para manter sob controle a maldade dos homens caídos. Milhões de pessoas que nunca foram salvas por ele, são reformadas, suas paixões são refreadas, o seu exterior é claramente melhorado, e a sociedade torna-se mais adequada para que os santos vivam. Compare os povos sem o Evangelho e aqueles que o têm, no caso destes últimos será encontrado que há maior moralidade mesmo onde não há espiritualidade. Finalmente, deve-se salientar que o Evangelho é feito como um verdadeiro teste da personalidade de todos os que o ouvem. As Escrituras declaram que o homem é uma criatura caída, corrupta, amante do pecado. Elas insistem que a suas inclinações mentais são inimizade contra Deus, que ele ama mais as trevas do que a luz, que ele não estará sujeito a Deus em qualquer circunstância. No entanto, quem acredita em tais verdades humilhantes? Mas a resposta que os não-eleitos dão ao Evangelho demonstra a verdade da Palavra de Deus. Sua impenitência contínua, sua incredulidade e desobediência testemunham da sua depravação total. Deus instruiu Moisés a ir a Faraó e pedir que Israel fosse permitido adorar o Senhor no deserto; ainda no versículo seguinte Ele lhe disse: “Eu sei, porém, que o rei do Egito não vos deixará ir, nem ainda por uma mão forte” (Êxodo 3:18-19). Então, por que enviar Moisés em tal missão? Para fazer manifesta a dureza do coração de Faraó, a teimosia de sua vontade, e da justiça de Deus na destruição de tal miserável.

Em quarto lugar, os nosso objetores alegam que a doutrina da eleição destrói a responsabilidade humana. Os Arminianos reclamam que afirmar que Deus decretou, de maneira inalterável e fixa, a história e o destino de cada homem, aboliria a responsabilidade humana, e que, em tal caso, o homem não seria melhor do que uma máquina. Eles insistem que a vontade do homem deve ser livre, livre igualmente tanto para o bem como para o mal, ou de outra forma, ele deixaria de ser um agente moral. Eles argumentam que a menos que as ações de uma pessoa estejam livres de compulsão, e estejam de acordo com seus próprios desejos e inclinações, ele não poderia ser justamente considerado responsável

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por elas. A partir dessa premissa a conclusão a ser tirada é que ela, a criatura, e não o Criador, é quem escolhe e decide seu destino eterno, pois se seus atos são autodeterminantes, ou seja, estes não podem ser determinados por Deus. Tal objeção é realmente uma descida às regiões escuras da filosofia e da metafísica, uma tentativa ilusória do Inimigo para nos levar para longe do reino da revelação Divina. Enquanto nós respeitarmos as Sagradas Escrituras, estaremos seguros, mas assim que recorrermos ao raciocínio humano a respeito de questões espirituais estejamos certos de que erraremos. Deus já deu a conhecer tudo o que Ele julga como bom para nós sabermos nesta vida, e qualquer tentativa de ser sábio acima do que está escrito nada é senão loucura e impiedade. A partir das Escrituras é claro como um raio de sol que o homem — quer seja considerado como não caído ou caído — é um ser responsável, e que ele deverá colher tudo o que ele semeia, que ainda terá que prestar contas a Deus por todos os seus atos e ser julgado em conformidade com estes; e nada deve ser permitido que enfraqueça a impressão desses fatos solenes sobre nossas mentes. A mesma linha de raciocínio tem sido empregada por aqueles que rejeitam a inspiração verbal das Escrituras. Argumenta-se que tal postulado inteiramente elimina o elemento humano da Bíblia, que se insistirmos (como este escritor, por exemplo, muito enfaticamente o faz) que não só os pensamentos e sentimentos, mas em si a própria linguagem é Divina, que cada palavra e sílaba dos manuscritos originais foi Deus quem inspirou, então os escritores humanos empregados na transmissão da mensagem eram apenas autômatos. Mas sabemos que isso é falso. Da mesma forma, com tanta demonstração de razão pode o opositor declarar que Cristo não pode ser ao mesmo tempo Divino e humano, que se Ele é Deus, Ele não pode ser homem, e que se ele for verdadeiramente homem, segue-se que Ele não pode ser Deus [...]. Os livros da Bíblia foram escritos por homens, escritos por eles sob o livre exercício de suas faculdades naturais, de tal forma que a marca de sua personalidade é claramente deixada em suas várias contribuições. No entanto, eles não originaram nada do que foi escrito, eles eram “inspirados pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1:21), e assim eles estavam completamente controlados por Ele, que sem a menor sombra de um engano ou erro teria sido cometido por eles, e tudo o que eles escreveram eram “as palavras que... ensinadas pelo Espírito Santo” (1 Coríntios 2:13). O Redentor é o Filho do homem, que “em tudo era semelhante aos irmãos” (Hebreus 2:17); ainda porque Sua humanidade esteve em união com a Sua pessoa Divina tudo o que fazia possuía um valor único e infinito. O homem é um agente moral, agindo de acordo com os desejos e ditames de sua natureza, ele é ao mesmo tempo uma criatura, totalmente controlado e determinado por seu Criador. Em cada um destes casos, os elementos Divino e humano coalescem, mas o Divino domina, contudo, ele não excluiu o humano.

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“Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é mister que venham escândalos”. Então, certamente, pode um objetor replicar, que não pode haver culpa sobre aquele que introduz o que é inevitável. Porém, muito diferente foi o ensinamento de Cristo: “mas ai daquele homem por quem o escândalo vem” (Mateus 18:7). “Quando ouvirdes de guerras e de rumores de guerras, não vos perturbeis; porque assim deve acontecer” (Marcos 13:7). Há um “deve haver” para estes flagelos e acontecimentos mortais, mas que não altera a criminalidade dos causadores dos mesmos. Há um “até importa que haja entre vós heresias” (1 Coríntios 11:19), mas os próprios hereges são condenáveis. A absoluta necessidade e a responsabilidade humana são, portanto, perfeitamente compatíveis, quer possamos perceber sua consistência ou não. Em quinto lugar, é objetado contra a verdade da predestinação que esta substitui a utilização de meios e torna fúteis todos os incentivos para esforço humano. Afirma-se que, se Deus elegeu um homem para a salvação que ele será salvo, embora ele permaneça totalmente indiferente e continue a viver totalmente em pecado; que se ele não foi eleito, então qualquer esforço para alcançar a vida eterna seria totalmente inútil. Diz-se que ao anunciar aos homens que eles foram Divinamente ordenados ou para a vida ou morte por um decreto eterno e imutável, eles imediatamente concluirão que não faz diferença alguma a forma como se comportam, visto que nenhum destes atos podem minimamente impedir ou promover a predestinação de Deus. Assim, argumenta-se, que todos os motivos para diligência são efetivamente neutralizados, que esta doutrina é subversiva de toda exortação à moralidade e espiritualidade. Realmente esta é a mais absurda de todas as objeções. De modo algum está é uma oposição à doutrina bíblica da predestinação, mas contra um conceito totalmente diferente, idealizado nos cérebros da ignorância, ou concebido pela malignidade, a fim de levar a verdade a ser odiava. A única espécie de predestinação a que essa objeção é aplicável, seria uma pré-ordenação absoluta ao fim sem qualquer relação com os meios. Despojado de toda ambiguidade, esta objeção pressupõe que Deus assegura Seus propósitos sem empregar quaisquer agências instrumentais. Assim, quando a objeção é exposta em sua nudez vemos instantaneamente em que triste figura ela configura. Aqueles a quem Deus elegeu para a salvação, Ele escolheu para a “santificação do Espírito, e fé da verdade” (2 Tessalonicenses 2:13). O fato é que Deus decretou trazer Seus eleitos para a glória por um caminho de santificação, e por nenhum caminho além deste; e ao longo de todo o seu curso. Ele os trata como criaturas racionais e responsáveis, através de meios e motivos apropriados para atrair o seu coração para Si mesmo. Afirmar que se forem eleitos alcançarão o céu quer sejam santificados ou não, é algo tão tolo quanto dizer que Abraão poderia ter sido o pai de muitas

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nações, embora ele tivesse morrido na infância, ou que Ezequias poderia ter vivido seus 15 anos extras sem comer ou dormir. Antes da tomada de Jericó, foi Divinamente revelado a Josué que ele deveria ser o senhor daquele lugar (6:2), esta garantia era absoluta. Será que, então, o líder de Israel concluiu que nenhuma ação era necessária, e que todos podiam sentar-se e cruzar os braços? não; ele organizou a marcha em torno de suas muralhas em obediência ao mandamento de Deus, e então o evento foi realizado em conformidade com isso. Passamos agora a considerar brevemente algumas das principais Escrituras usadas por aqueles que resistem à verdade. “Entretanto, porque eu clamei e recusastes; e estendi a minha mão e não houve quem desse atenção, antes rejeitastes todo o meu conselho, e não quisestes a minha repreensão” (Provérbios 1:24-25). “Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos” (Isaías 65:2). “Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos... e tu não quiseste!” (Mateus 23:37). É-nos dito por Arminianos que estas declarações são irreconciliáveis com o Calvi-nismo, que estas passagens mostram claramente que a vontade de Deus pode ser resistida e frustrada por homens. Mas certamente um Deus frustrado e derrotado não é o Deus das Escrituras Sagradas. Extrair a partir destes versos a conclusão de que a realização dos decretos Divinos pode falhar é totalmente errônea: eles não têm nada a ver com o propósito eterno de Deus, mas ao invés disso, eles dizem respeito apenas Seus instrumentos externos, pela qual Ele reforça a responsabilidade do homem, testa seu caráter e torna evidente a maldade do seu coração. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito” (João 3:16). A partir destas palavras é insistido que se Deus ama o mundo, então Ele deseja a salvação de toda a raça humana, e que foi para este fim que Ele providenciou um Salvador para eles. Aqui é um caso no qual são enganados pelo mero som de uma palavra, em vez de apurar seu real significado. Dizer que Deus deu Seu Filho com o propósito de oferecer a salvação para todos os filhos de Adão é manifestamente um absurdo, pois a metade deles já havia morrido antes de Cristo nascer, e a grande maioria deles morreram na escuridão do paganismo. Onde existe o menor indício no Antigo Testamento que Deus amava os egípcios, os cananeus, os babilônios? E onde mais no Novo Testamento há qualquer declaração de que Deus ama toda a humanidade? O “mundo” em João 3:16 (como em muitos outros lugares) é um termo geral, usado em contraste com Israel, que imaginava ter um monopólio sobre a redenção. O amor de Deus se estende muito além dos limites do Judaísmo, envolvendo os Seus eleitos dispersos por todas as nações. “E não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5:40). Estranho é dizer que a este único versículo apelam aqueles que não creem na eleição de forma alguma. Eles supõem que

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este verso ensina a livre vontade do homem caído para o bem, e que Cristo seriamente pretende a salvação daqueles que O desprezam e rejeitam. Mas o que há nessas palavras declara que Cristo realmente deseja a sua salvação? Será que elas não significam antes que Ele estava aqui preferindo uma sentença solene contra eles? Assim, longe da elocução de nosso Senhor implicar que estes homens tinham o poder dentro de si para virem a Ele, elas declaram a perversidade e obstinação de suas vontades. Em vez de qualquer inclinação para o Santo, eles O odiavam. “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade... O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos” (Timóteo 2:4-6). Para entender essas palavras elas não devem ser consideradas separadamente, mas em conexão com a sua configuração. A partir do contexto, é inequivocamente evidente que estes “todos os homens” que Deus deseja a salvar e por quem Cristo morreu são todos os homens sem levar em conta as distinções nacionais. O ministério de Timóteo foi exercido principalmente entre judeus convertidos, muitos dos quais ainda mantiveram seus preconceitos raciais, de modo que eles não estavam dispostos a submeterem-se à autoridade dos governantes pagãos. Foi por isso que os Fariseus tinham procurado desacreditar Cristo perante todas as pessoas, quando Lhe perguntaram se era lícito pagar tributo a César. Paulo aqui diz a Timóteo que os Cristãos não deveriam apenas prestar obediência aos governantes gentios, mas que deveriam também orar por eles (vv. 1-2). Em 1 Timóteo 2 Paulo golpeou a própria raiz do preconceito que Timóteo foi chamado a combater. Essa lei de Moisés foi agora posta de lado, a distinção que tanto tempo havia prevalecido entre os descendentes diretos de Abraão e o restante da humanidade estava abolida, Deus quis a salvação dos gentios e judeus. Observe particularmente esses detalhes. Em primeiro lugar, “Há um só Deus [ver Romanos 3:29-30], e um só Mediador entre Deus e [não “os judeus”, mas] os homens” (v. 5). Em segundo lugar: “Qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos [indefinidamente], para servir de testemunho a seu tempo” (v. 6); quando Cristo foi crucificado, não foi geralmente entendido, nem mesmo entre os Seus discípulos, que Ele deu a Si mesmo por gentios e judeus; mas em “a seu tempo” (especialmente sob o ministério de Paulo), isso foi claramente “testemunhado”. Ter-ceiro: “Para o que... fui constituído pregador, e apóstolo, e doutor dos gentios” (v. 7). Em quarto lugar: “Quero, pois [com autoridade apostólica], que os homens orem em todo o lugar” (v. 8), aqueles que professam a fé em Cristo devem, imediata e definitivamente aca-bar com suas noções e costumes Judaicos; Jerusalém já não possuía qualquer santidade peculiar. “Vemos... Jesus... por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos” (Hebreus 2:9). Você já tomou o cuidado de verificar como essa expressão é usada em outras partes do Novo Testamento? “Então cada um receberá de Deus o louvor”

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(1 Coríntios 4:5). Isso se refere a todos da raça de Adão? Neste caso como poderia isto, a saber, “Apartai-vos de mim, malditos” [Mateus 7:23] ser a porção de muitos? “A cabeça de todo homem é Cristo” (1 Coríntios 11:3), ele era o Cabeça de Judas ou Nero? “Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um” (1 Coríntios 12:7). Mas alguns são “sensuais, que não têm o Espírito” (Judas v. 19 e cf. Romanos 8:9). É “todos” na família de Deus que são intencionados em todas essas passagens da Epístola, observe como o “cada um” de Hebreus 2:9 é definido como “muitos filhos” (v. 10), “irmãos” (v. 11), “filhos” (vv. 12-14). “Também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou” (2 Pedro 2:1). Este versículo é frequentemente citado como uma tentativa de refutar que Cristo morreu somente pelos eleitos, embora este só serve para mostrar que os recursos desesperados de nossos adversários são reduzidos. Porque o versículo não faz absolutamente nenhuma referência a Cristo, menos ainda à Sua morte! A palavra grega aqui não é kúrios — o que é comumente usada quando se refere ao Senhor Jesus; mas despotes. Os únicos lugares onde esta palavra ocorre, quando aplicada a uma pessoa Divina, são Lucas 22:9; Atos 4:24; 2 Timóteo 2:22; Judas 4 e Apocalipse 6:10, em todas estas passagens claramente a referência é a Deus Pai, e na maioria delas manifestamente distinto de Cristo. “Resgatar” aqui tem referência à libertação temporal, sendo tomado a partir de Deuteronômio 32:6. Pedro estava escrevendo para judeus que se vangloriavam em voz alta de que eles eram um povo resgatado pelo Senhor, e, portanto, ele usou esta expressão para agravar a impiedade desses falsos mestres que estavam entre os judeus. “Não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se” (2 Pedro 3:9). Aqui, novamente, um falso sentido é extraído por se tirar o texto de seu contexto. A chave para este versículo é encontrado na palavra “nós”: “o Senhor é... longânimo para convosco”, pois Ele não quer que “alguns” deles pereçam. E quem são eles? Ora, os “amados” do versículo 1 (aqueles que mencionei no início da primeira Epístola, “eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito”), e porque Ele propôs que “todos” destes cheguem ao arrependimento: Ele adia a segunda vinda de Cristo (vv. 3-4). Cristo não retornará até que o último integrante de Seu povo esteja em segurança na Arca da Salvação.

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12 • Seu Anúncio Durante as últimas duas ou três gerações, o púlpito tem dado cada vez menos importância à pregação doutrinária, até mesmo hoje — com raríssimas exceções — ela não tem lugar. Em alguns lugares o clamor do banco era: queremos uma vívida experiência e não doutrina seca; em outros: precisamos de sermões práticos e não de dogmas metafísicos; e ainda em outros: dá-nos Cristo, e não teologia. É triste dizer, mas esses clamores insensatos foram geralmente atendidos; “insensatos”, dizemos, pois não há outra forma segura de experiência de testes, como não há fundamento sobre o qual construir práticas, se eles estiverem dissociados da doutrina Bíblica; assim como Cristo não pode ser conhecido, a menos que Ele seja pregado (1 Coríntios 1:23), e Ele certamente não pode ser “pregado” se a doutrina é engavetada. Várias razões podem ser dadas para a lamentável falha do púlpito, as principais dentre elas sendo a preguiça, desejo de popularidade, “evangelismo” superficial e unilateral, amor pelo sensacional. Preguiça. É uma tarefa muito mais exigente, algo que exige confinamento muito mais restrito em estudo, preparar uma série de sermões sobre, digamos, a doutrina da justificação, do que fazer pregações sobre oração, missões, ou obra pessoal. Isso demanda uma mais ampla familiaridade com as Escrituras, uma disciplina mais rígida da mente, e uma mais extensa leitura dos escritores mais antigos. Mas isso foi uma exigência muito grande para a maioria dos ministros, e por isso eles escolheram a linha de menor resistência e seguiram um curso mais fácil. É por causa de sua propensão a essa fraqueza que o ministro é particularmente exortado, “persiste em ler... tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas” (1 Timóteo 4:13, 16), e novamente: “procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2 Timóteo 2:15). Desejo por popularidade. É natural que o pregador queira agradar os seus ouvintes, mas é espiritual que ele deseje e vise a aprovação de Deus. Nenhum homem pode servir a dois senhores. Como o apóstolo expressamente declarou: “se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo” (Gálatas 1:10), estas são palavras solenes. Como elas condenam aqueles cujo objetivo principal é pregar para igrejas lotadas. Contudo, que graça é necessária para nadar contra a maré da opinião pública, e pregar o que é inaceitável para o homem natural. Mas, por outro lado, quão temível será a desgraça daqueles que, a partir de uma determinação para agradar os homens, deliberadamente retêm aquelas porções da verdade mais necessária aos seus ouvintes. “Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela” (Deuteronômio 4:2). Oh! poder dizer com Paulo: “Como nada,

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que útil seja, deixei de vos anunciar... Portanto, no dia de hoje, vos protesto que estou limpo do sangue de todos” (Atos 20:20, 26). A “evangelização” superficial e unilateral. Muitos dos pregadores dos últimos 50 anos atuaram como se o primeiro e o último objeto de sua vocação fosse a salvação das almas, tudo sendo feito para curvar-se a esse objetivo. Em consequência, a alimentação do rebanho, a manutenção de uma disciplina Bíblica na igreja, e a inculcação de piedade prática foram lançadas fora; e com muita frequência todos os tipos de dispositivos mundanos e métodos carnais foram empregados sob o argumento de que o fim justifica os meios; e, assim, as igrejas foram cheias de membros não-regenerados. Na realidade, esses homens destruíram o seu próprio objetivo. O coração duro deve ser arado e atribulado antes que ele possa ser receptivo à semente do Evangelho. Instrução doutrinária deve ser dada sobre o caráter de Deus, os requisitos de Sua lei, a natureza e a hediondez do pecado, se um fundamento deve ser colocado para o verdadeiro evangelismo. É inútil pregar a Cristo para as almas até que elas vejam e sintam a sua desesperada necessidade de Deus. Amor pelo sensacional. Em tempos mais recentes, o curso foi alterado. Uma geração surgiu, a qual era menos tolerante até mesmo à evangelização superficial, que hesitava diante de qualquer coisa na escuta do que fosse projetado para torná-los minimamente desconfortáveis em seus pecados. É claro, essas pessoas não seriam expulsas das igrejas, antes elas deveriam ser atendidas e supridas com algo que agradasse os seus ouvidos. O cenário da ação pública ofereceu material abundante. A guerra mundial e personagens como o Kaiser, Stalin, Mussolini eram muitos aos olhos do público, como Hitler e Abissínia foram desde então. Sob o pretexto de expor profecia, o púlpito voltou sua atenção para o que foi denominado de “os Sinais dos Tempos” e a membresia foi levada a acreditar que os “ditadores” estavam cumprindo as previsões de Daniel e Apocalipse. Não havia nada em tal pregação que atingisse a consciência, ainda assim dezenas de milhares foram iludidos a pensar que o próprio ouvir de tal lixo as tornava religiosas, e assim, as igrejas foram habilitadas a “seguir em frente”. Antes de prosseguir, que seja salientado que as objeções mais comuns feitas contra a pregação doutrinária são bastante inúteis. Tome, em primeiro lugar, o clamor pela pregação experimental. Em certos lugares — lugares que embora muito restritos, ainda se consideram os próprios defensores da ortodoxia e os mais altos expoentes da piedade vital — a demanda é por um rastreamento detalhado das variadas experiências de uma alma vivificada tanto sob a lei como sob a graça, e qualquer outro tipo de pregação, especialmente doutrinária, é desaprovada como sendo nada mais do que o fornecimento de casca. Mas, como um escritor laconicamente disse: “Apesar de que as questões doutrinárias são, por alguns, consideradas apenas como a casca da religião, e a experiência como a semente,

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contudo, que seja lembrado que não há acesso à semente, senão através da casca; e enquanto a semente dá valor à casca, a casca é a guardiã da semente. Destrua àquela e você fere esta”. Elimine a doutrina e você não tem mais nada pelo que testar a experiência, e o misticismo e fanatismo são inevitáveis. Em outros lugares a procura tem sido pela pregação sobre linhas práticas, supondo e insistindo essas pessoas que a pregação doutrinária é meramente teórica e impraticável. Tal conceito revela lamentável ignorância. “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa [primeiro] para ensinar, [e depois] para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça” (2 Timóteo 3:16). Estude as epístolas de Paulo e veja quão firmemente esta ordem é mantida. Os Capítulos 1-11 da Epístola aos Romanos são estritamente doutrinais, e os Capítulos de 12-16 são exortações práticas. Vejamos um exemplo concreto: em 1 Timóteo 1:9-10, o apóstolo elabora um catálogo de pecados contra os quais as denúncias da lei são iminentemente dirigidas, em seguida, ele acrescentou: “e para o que for contrário à sã doutrina”. Que evidente indicação é esta que o erro em princípios fundamentais tem uma influência mui desfavorável na prática, e que na proporção em que a doutrina de Deus é desacreditada, a autoridade de Deus é repudiada. É a doutrina que fornece motivos para a obediência aos preceitos. Em relação àqueles que clamam, pregamos a Cristo e não teologia, nós temos observado que eles nunca O pregam como Aquele com quem Deus fez uma aliança (Salmos 89:3), nem como Seu “eleito” em quem Sua alma se deleita (Isaías 42:1). Eles pregam um “Cristo” que é o produto de sua própria imaginação, a criação do sentimento. Se pregamos o Cristo das Escrituras devemos anunciá-lO como o servo da escolha de Deus (1 Pedro 2:4), como o Cordeiro “cordeiro imaculado e incontaminado, O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo” (1 Pedro 1:19-20), como Alguém “posto para queda e elevação de muitos em Israel” (Lucas 2:34), como “pedra de tropeço, e uma rocha de escândalo” [Romanos 9:33]. Cristo não deve ser pregado como separado de Seus membros, mas como a Cabeça do Seu corpo místico — Cristo e aqueles a quem Deus escolheu, nEle, são um só, eternamente e imutavelmente, um. Então não pregue um Cristo mutilado. Pregue-O segundo os conselhos eternos de Deus. Agora, se a pregação doutrinária, em geral, é tão impopular, a doutrina da eleição é particular e preeminentemente assim. Sermões sobre a predestinação são, com raríssimas exceções, acaloradamente ressentidos e amargamente denunciados. “Parece haver um preconceito inevitável na mente humana contra esta doutrina, e embora a maioria das outras doutrinas sejam recebidas por Cristãos professos, algumas com cautela, outras com prazer, contudo esta parece ser mais frequentemente desconsiderada e descartada. Em muitos de nossos púlpitos seria considerado um grande pecado e traição pregar um sermão

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sobre a eleição” (C. H. Spurgeon). Se esse era o caso há cinquenta anos, muito mais o é agora. Mesmo nos círculos declaradamente ortodoxos a simples menção da predestinação é como o acenar de um pano vermelho diante de um touro. Nada manifesta tão rapidamente a inimizade da mente carnal no presunçoso religioso e fariseu hipócrita quanto o faz a proclamação da Soberania Divina e Sua graça distintiva; e, agora, poucos de fato são os homens remanescentes que se atrevem a lutar bravamente pela verdade. Temíveis além das palavras são as extensões do horror e do ódio em relação à eleição que têm acompanhado líderes declaradamente evangélicos em seus discursos blasfemos contra esta bendita verdade; nós nos recusamos a contaminar estas páginas, citando seus discursos ímpios. Alguns foram tão longe a ponto de dizer que, mesmo que a predestinação seja revelada nas Escrituras é uma doutrina perigosa, criando dissensão e divisão, e, portanto, não deveria ser pregada nas igrejas; esta é a mesma objeção usada pelos Romanistas contra oferecer a Palavra de Deus para as pessoas comuns em sua própria língua materna. Se devemos negar a verdade, de modo a pregar apenas o que é aceitável para o homem natural, quanto sobraria? A pregação de Cristo crucificado para os Judeus é escândalo e loucura para os gregos(1 Coríntios 1:23). O púlpito deve silenciar-se quanto a isso? Porventura os servos de Deus deixarão de proclamar a Pessoa, ofício e obra de Seu Filho amado, simplesmente porque Ele é “uma pedra de tropeço e rocha de escândalo” (1 Pedro 2:8) para os réprobos? Muitas são as objeções apresentadas contra essa doutrina por aqueles que desejam desacreditá-la. Alguns dizem que a eleição não deveria ser pregada, porque é muito misteriosa, e coisas encobertas pertencem ao Senhor. Mas, ela não é um segredo, pois Deus claramente a revelou em Sua Palavra; e se não deve ser pregada por causa de seu mistério, então, pela mesma razão, nada deve ser dito sobre a unidade da natureza Divina subsistente em uma Trindade de Pessoas, nem sobre o nascimento virginal, nem da ressurreição dos mortos. Segundo outros, a doutrina da eleição corta o nervo de todos empreendimentos missionários, na verdade se opõe a toda pregação, tornando-a totalmente negatória. Então, nesse caso, a pregação do próprio Paulo era totalmente inútil, pois estava repleta desta doutrina: leia suas epístolas e será encontrado que ele proclamou a eleição continuamente, mas nunca lemos sobre ele deixar de prega-la porque ela tornou seu trabalho inútil. Paulo ensinou que “Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” (Filipenses 2:13), mas não acho que por causa disso ele deixou de exortar os homens à desejarem e a esforçarem-se pelas coisas que agradam a Deus, e labutarem, eles mesmos, com todas as suas forças. Se não somos capazes de perceber a consistência das duas coisas, isso não é motivo por que nos recusemos a crer e prestar atenção tanto a uma ou à outra. Alguns argumentam contra a eleição por que prega-la estremece a segu-

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rança e enche a mente dos homens com dúvidas e medos. Mas, especialmente nos dias de hoje devemos ser gratos por qualquer verdade que quebre a complacência de professos vazios e desperte os indiferentes a examinarem-se diante de Deus. Com tanta razão podese dizer que a doutrina da regeneração não deve ser promulgada, pois, é algo mais fácil certificar-me de que eu realmente nasci de novo do que é verificar se eu sou um dos eleitos de Deus? Não é. Outros ainda insistem que a eleição não deve ser pregada porque o ímpio fará um mau uso da mesma, que eles abrigarão atrás dela desculpa para a sua despreocupação e procrastinação, argumentando se eles foram eleitos para a salvação, enquanto eles vivem como eles querem e multiplicam seus pecados. Tal objeção é pueril, infantil ao extremo. Mas, que verdade há ali que os ímpios não perverteram? Por que, eles tornarão a graça de Deus em dissolução, e utilizarão (ou melhor, mal utilizarão) Sua própria bondade, Sua misericórdia, Sua longanimidade, para a continuarem em um curso de ação ímpia. Arminianos nos dizem que pregar a segurança eterna do Cristão incentiva a preguiça; enquanto no extremo oposto, hiper-Calvinistas opõem-se à exortação do regenerado para o arrependimento e a fé no fundamento de que isso inculca a capacidade da criatura. Não vamos fingir ser sábios acima do que está escrito, mas preguemos todo o conselho de Deus e deixemos os resultados por conta Ele. O servo de Deus não deve ser intimidado ou desencorajado de professar e proclamar a pura verdade. Sua comissão, hoje, é a mesma de Ezequiel no passado: “E tu, ó filho do homem, não os temas, nem temas as suas palavras; ainda que estejam contigo sarças e espinhos, e tu habites entre escorpiões, não temas as suas palavras, nem te assustes com os seus semblantes, porque são casa rebelde. Mas tu lhes dirás as minhas palavras, quer ouçam quer deixem de ouvir, pois são rebeldes” (Ezequiel 2:6-7). Ele deve esperar encontrar oposição, especialmente daqueles que fazem a mais alta profissão, e fortificar-se contra isso. O anúncio da soberana escolha Divina de homens evocou o espírito de maldade e perseguição desde os tempos remotos. Fê-lo assim, tão antigamente quanto nos dias de Samuel. Quando o profeta anunciou a Jessé sobre seus sete filhos “o Senhor não tem escolhido a estes” (1 Samuel 16:10), a ira de seu primogênito se acendeu contra Davi (1 Samuel 17:28). Assim também, quando o próprio Cristo enfatizou a graça de Deus ao distinguir aos Gentios, a saber, a viúva de Sarepta e Naamã, o Sírio, os adoradores da sinagoga ficaram “cheios de ira”, e procuravam matá-lO (Lucas 4:25-29). Mas o próprio ódio que esta verdade solene desperta é uma das provas mais convincentes de sua origem Divina. A eleição deve ser pregada e anunciada, em primeiro lugar, porque ela é expressa em totalidade através das Escrituras. Não há um único livro na Palavra de Deus, onde a eleição

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não é expressamente declarada, ou admiravelmente ilustrada, ou claramente implícita. Gênesis é cheio dela: a diferença que o Senhor fez entre Naor e Abraão, Ismael e Isaque, e entre Seu amado Jacó e Seu odiado Esaú são exemplos deste tema. Em Êxodo vemos a distinção feita por Deus entre os Egípcios e os Hebreus. Em Levítico a expiação e todos os sacrifícios eram para o povo de Deus, não sendo ordenados a ir e “oferta-los” os pagãos ao redor. Em Números, Jeová usou a Balaão para anunciar o fato de que Israel era “o povo” que “habitará só, e entre as nações não será contado” (23:9); e, portanto, ele foi obrigado a clamar: “Quão formosas são as tuas tendas, ó Jacó, as tuas moradas, ó Israel!” (Números 24:5). Em Deuteronômio está escrito “Porque a porção do Senhor é o seu povo; Jacó é a parte da sua herança” (32:9). Em Josué vemos a misericórdia distintiva que o Senhor derramou sobre Raabe, a meretriz, enquanto toda a sua cidade estava condenada à destruição. Em Juízes, a soberania de Deus aparece nos instrumentos improváveis selecionados, pelos quais Ele operou vitória para Israel: Débora, Gideão, Sansão. Em Rute temos Orfa beijando a sua sogra e retornando para os seus deuses, enquanto Rute se apegou a ela e obteve herança em Israel — quem as fez diferentes? Em 1 Samuel, Davi é escolhido para o trono, preferido a seus irmãos mais velhos. Em 2 Samuel, aprendemos sobre a eterna aliança “que em tudo será bem ordenada e guardada” (23:5). Em 1 Reis Elias torna-se uma bênção para uma única viúva escolhida dentre muitas; enquanto que em 2 Reis somente Naamã, dentre todos os leprosos, foi purificado. Em 1 Crônicas está escrito: “vós, filhos de Jacó, seus escolhidos” (16:13); enquanto que em 2 Crônicas somos feitos maravilhados com a graça de Deus concedendo arrependimento a Manassés. E assim poderíamos continuar. Salmos, Profetas, Evangelhos e Epístolas são tão repletos dessa doutrina, de forma que aquele que passa correndo consegue ler. Em segundo lugar, a doutrina da eleição deve ser pregada de forma proeminente porque o Evangelho não pode ser proclamado biblicamente sem ela. Infelizmente, tão profunda é a escuridão e tão difundida a ignorância que agora prevalece, que poucos de fato percebem que há alguma ligação vital entre a predestinação e o Evangelho de Deus. Pare, então, por um momento e reflita seriamente nestas perguntas: o sucesso ou fracasso do Evangelho é uma questão de sorte? ou, dito de outra maneira, são os frutos do empreendimento mais estupendo de todos — a obra expiatória de Cristo — deixados na dependência do capricho humano? Poderia ser afirmado positivamente que o Redentor ainda: “verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito” (Isaías 53:11), se tudo dependesse da vontade do homem caído? Deus tem tão pouca consideração pela morte de Seu filho que Ele a deixou incerta a respeito de quantos serão salvos por Ele? “O evangelho de Deus” (Romanos 1:1) só pode ser biblicamente apresentado como o Deus

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Triuno é reconhecido e honrado nele. O “Evangelho” atenuado de nossa época degenerada limita a atenção de seus ouvintes ao sacrifício de Cristo, ao passo que a salvação se originou no coração de Deus, o Pai, e é consumada pelas operações de Deus, o Espírito. Todas as bênçãos da salvação são comunicadas de acordo com os conselhos eternos de Deus, e foi por toda a eleição da graça (e por nenhum outro) que Cristo operou salvação. O primeiro capítulo do Novo Testamento anuncia que Jesus “salvará o seu povo dos seus pecados” [Mateus 1:21], não que Ele “pode”, mas que “salvará”; não oferecerá ou tentará, mas, de fato, os “salvará”. Mais uma vez; nem uma única alma jamais seria beneficiada com a morte de Cristo, se o Espírito não fosse concedido para aplicar Suas virtudes à semente escolhida. Qualquer homem, então, que omite a eleição do Pai, e as operações soberanas e eficazes do Espírito, não prega o Evangelho de Deus, não importa qual seja a sua reputação como um “ganhador de almas”. Temos exposto a falta de sentido dessas acusações que são feitas contra a pregação doutrinária, em geral, e os argumentos que são feitos contra a proclamação da predestinação, em particular. Em seguida, apontamos algumas das razões pelas quais esta grande verdade deve ser anunciada. Primeiro, porque as Escrituras, de Gênesis a Apocalipse, estão repletas dela. Em segundo lugar, porque o Evangelho não pode ser biblicamente pregado sem ela. A grande comissão dada aos servos públicos de Cristo, devidamente chamados e capacitados por Ele, diz assim: “pregai o evangelho” (Marcos 16:15), não partes dele, mas todo o Evangelho. O Evangelho não deve ser pregado em partes, mas em sua totalidade, de modo que cada pessoa da Trindade seja igualmente honrada. Na medida em que o Evangelho é mutilado, assim como qualquer ramo do sistema evangélico é suprimido, o Evangelho não é pregado. Começar no Calvário, ou até mesmo em Belém, é começar no meio: precisamos retornar para os eternos conselhos da graça Divina. Justamente um renomado reformador colocou: “A eleição é o fio de ouro que atravessa todo o sistema Cristão... é o vínculo que o liga e mantém unido, de forma que sem isso é como um sistema de areia sempre pronto a cair aos pedaços. É o cimento que mantém a construção unida; ou melhor, é a alma que anima todo o corpo. É tão misturado e entrelaçado com todo o esquema de doutrina do Evangelho que, quando o primeiro é excluído, o último sangra até a morte. Um embaixador deve entregar toda a mensagem que lhe é comissionada. Ele não deve omitir nenhuma parte dela, mas deve declarar a mente do soberano que ele representa, plenamente e sem reservas. Ele não deve dizer nem mais nem menos do que as instruções que seu juiz exigir, de outro modo, ele incorre no descontentamento de quem o enviou, talvez perca a cabeça. Que os ministros de Cristo ponderem bem nisso” (Jerome Zanchius, 1562). Além disso, o Evangelho deve ser pregado “a toda a criatura”, isto é, a todos os que frequen-

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tam o ministério Cristão, seja Judeu ou Gentio, jovem ou velho, rico ou pobre. Todos os que esperam as ministrações dos servos de Deus têm o direito de ouvir o Evangelho plena e claramente, sem qualquer parte dele sendo retido. Agora uma parte importante do Evangelho é a doutrina da eleição: a escolha eterna, livre e irreversível de Deus de certas pessoas em Cristo para a vida eterna. Deus previu que, se o sucesso da pregação de Cristo crucificado ficasse condicionado à resposta feita a ela por homens caídos, haveria um desprezo universal da mesma. Isso fica claro, “e todos à uma começaram a escusar-se” (Lucas 14:18). Por isso Deus determinou que um remanescente dos filhos de Adão seriam os eternos monumentos da Sua misericórdia, e, consequentemente, Ele decretou conferirlhes uma fé e arrependimento salvíficos. Isso é uma boa nova, de fato: tudo realizado correta e imutavelmente pela vontade soberana de Deus. Cristo é o supremo evangelista, e encontramos que esta doutrina estava em Seus lábios durante todo o Seu ministério. “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve” [Mateus 11:25-26]; “por causa dos escolhidos serão abreviados aqueles dias” [Mateus 24:22]”; “vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mateus 11:25; 24:22; 25:34). “E ele disse-lhes: A vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estão de fora todas estas coisas se dizem por parábolas” (Marcos 4:11). “Alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” (Lucas 10:20). “Todo o que o Pai me dá virá a mim”, “mas vós não credes porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo tenho dito”; “não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós” (João 6:37; 10:26; 15:16). O mesmo é verdade para o maior dos apóstolos. Tome a primeira e principal de suas epístolas, a que é expressamente dedicada a um desvelamento do “evangelho de Deus” (Romanos 1:1). No capítulo 8, ele descreve aqueles que são “chamados segundo o propósito de Deus” (v. 28), e em consequência do que eles eram os que “dantes conheceu” e os que “predestinou para serem conformes à imagem de seu filho” (v. 29). Todo o capítulo 9 é dedicado a isso: ali, ele mostra a diferença que Deus fez entre Ismael e Isaque, entre Esaú e Jacó, os vasos da ira e os vasos de misericórdia. Ali, ele nos diz que Deus “compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer” (v. 18). Essas coisas não foram escritas para algumas pessoas em algum canto obscuro, mas dirigidas para os santos em Roma “o que consistia, na verdade, em trazer esta doutrina sobre o palco do mundo inteiro, selando uma sanção universal sobre ela e anunciando-a aos crentes em geral em toda a terra” (Zanchius). A doutrina da eleição deve ser pregada, em terceiro lugar, porque a graça de Deus não pode ser mantida sem ela. As coisas estão agora a um passo tão lamentável que o restante

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deste capítulo realmente deve ser dedicado à elucidação e amplificação deste importante ponto; mas temos que contentar-nos com algumas breves observações. Existem milhares de evangelistas Arminianos na Cristandade hoje que negam a predestinação, direta ou indiretamente, e ainda acham que eles estão magnificando a graça Divina. A ideia é que Deus, por Sua grande bondade e amor, providenciou a salvação em Cristo para toda a família humana, e isso é o que Ele agora deseja e busca. O ponto de vista destes homens é que Deus faz uma oferta de Sua graça salvadora através da mensagem do Evangelho, fazendo-a ao livre-arbítrio de todos os que o ouvem, e que eles podem aceitar ou recusar. Mas isso absolutamente não é “graça”. A graça Divina e mérito humano são tão distantes um do outro como os polos são diretamente opostos. Mas não é assim com a “graça” do Arminiano. Se a graça é apenas algo que é oferecido para mim, algo que eu tenho que melhorar se isso tiver que fazer algum bem, então a minha aceitação da mesma é um ato meritório, e eu tenho motivo para gloriarme. Se alguns recusam a graça e eu a recebo, então isso deve ser (já que é totalmente uma questão de livre-arbítrio do ouvinte) porque eu tenho mais sensibilidade do que eles têm, ou porque o meu coração é mais flexível do que o deles, ou porque a minha vontade é menos obstinada; e fosse a pergunta colocada a mim “porque, quem te faz diferente?” (1 Coríntios. 4:7), então a única resposta verdadeira que eu poderia dar seria dizer: eu me fiz diferente, e, assim, coloco a coroa de honra e glória sobre a minha própria cabeça. A isso, pode ser respondido por alguns: Nós cremos que o coração do homem natural é duro e sua vontade obstinada, mas Deus em Sua graça envia o Espírito Santo e Ele convence os homens do pecado e, no dia da Sua visitação derrete seus corações e tenta atraí-los a Cristo; ainda assim, eles devem responder às suas “doces ofertas” e cooperar com Sua “graciosa influência”. Aqui o fundamento de que seja totalmente uma questão da vontade humana é abandonado. No entanto, também aqui não temos nada melhor do que um burlesco da graça Divina. Esses mesmos homens afirmam que muitos daqueles que são os sujeitos dessas influências do Espírito, resistem às mesmas e perecem. Assim, aqueles que são salvos, devem a sua salvação (em última análise) ao seu aprimorar as ofertas do Espírito, eles “cooperam” com Ele. Em tal caso, as honras seriam divididas entre as operações do Espírito e os meus aprimoramentos das mesmas. Mas isso não é “graça” de modo algum. Há ainda outros que procuram atenuar o gume afiado da espada do Espírito, dizendo: Cremos na doutrina da predestinação, mas não como vocês Calvinistas a ensinam. Uma única palavra serve para desatar este nó para nós, “presciência”: a eleição Divina baseiase na presciência Divina. Deus previu aqueles que se arrependeriam de seus pecados e aceitariam a Cristo como seu Salvador, e, assim, Ele os escolheu para a salvação. Aqui,

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novamente, méritos humanos são trazidos. A graça não é livre, a tenda é amarrada pela “decisão” da criatura. Tal conceito carnal como esse inverte a ordem da Escritura, que ensina que a presciência Divina é baseada no propósito divino, ou seja, Deus prevê o que ocorrerá porque Ele decretou o que ocorrerá. Observe cuidadosamente a ordem em Atos 2:23 e Romanos 8:28b e 29. Em lugar nenhum o Espírito Santo fala nas Sagradas Escrituras sobre Deus prevendo ou conhecendo de antemão o nosso arrependimento e fé, sempre é a presciência das pessoas e nunca dos atos: “os que dantes conheceu” e não “o que Ele dantes conheceu”. Mas a Escritura não diz “quem quiser, venha?”. Sim, ela diz, e a pergunta mais importante é, de onde vem a vontade de vir, no caso daqueles que respondem a esse convite? Homens em sua condição natural não estão dispostos: como Cristo declarou: “e não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5:40). Qual, então, é a resposta? Esta: “o teu povo [diz o Pai ao Filho, veja o contexto] será mui voluntário no dia do teu poder” (Salmos 110:3). É o poder Divino, isso e nada mais, é o que torna dispostos os indispostos, o que supera toda a sua inimizade e obstinação, que impele ou “chama-os” aos pés do Senhor Jesus. A graça de Deus, meus leitores, é muito mais do que um conceito agradável para cantar, é um poder onipotente, uma dinâmica invencível, um princípio vitorioso sobre toda a resistência. “A minha graça [diz Deus] te basta” (2 Coríntios 10:9); Ele não pede nenhuma assistência de nossa parte. “Mas pela graça de Deus [e não minha cooperação] sou o que sou” 1 (Coríntios 15:10), disse o apóstolo. A graça Divina fez muito mais do que tornar possível a salvação dos pecadores, ela assegura a salvação dos eleitos de Deus. Ela não somente provê a salvação para eles, ela opera a salvação para eles; e o faz de tal maneira que suas honras não são compartilhadas com a criatura. A doutrina da predestinação derruba este ídolo Dagon do “livre arbítrio” e os méritos humanos, pois nos diz que, se temos de fato resolvido e desejado apegar-nos a Cristo e à salvação por meio dEle, então, esta própria vontade e desejo são os efeitos do propósito eterno de Deus e o resultado do cumprimento eficaz de Sua graça, pois é Deus que opera em nós tanto o querer como o efetuar, segundo a Sua boa vontade; e, portanto, nós nos gloriamos somente no Senhor e atribuímos todo o louvor a Ele. Este escritor não procurou o Senhor, mas odiou, resistiu e esforçou-se para bani-lO de seus pensamentos; mas o Senhor o procurou, o derrubou ao chão (como fez com Saulo de Tarso), subjugou sua vil rebelião e fê-lo voluntário no dia do Seu poder. Isso é graça, de fato — graça soberana, maravilhosa, triunfante. Em quarto lugar, a doutrina da eleição deve ser anunciada porque rebaixa o homem. Os Arminianos imaginam que eles o fazem, declarando a depravação total da família humana, mas em sua própria próxima declaração eles se contradizem ao insistir na sua capacidade

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de realizar atos espirituais. O fato é que “depravação total” é apenas uma expressão teológica sobre os lábios deles, a qual repetem como papagaios, pois eles não entendem nem acreditam na terrível implicação deste termo. A queda radicalmente afetou, corrompeu, cada parte e faculdade de nosso ser, e, portanto, se o homem é totalmente depravado segue-se necessariamente que nossas vontades são completamente escravizadas pelo pecado. Como a apostasia humana em relação a Deus resultou no escurecimento de seu entendimento, profanação de suas afeições, endurecimento de seu coração, assim ela trouxe a sua vontade à escravidão completa a Satanás. Ele não pode libertar-se mais do que pode um verme libertar-se estando debaixo do pé de um elefante. Uma das marcas do povo de Deus é que eles não têm “confiança na carne” (Filipenses 3:3), e nada é tão bem projetado para trazê-los a esse estado como a verdade da eleição. Cale a predestinação Divina e você deve introduzir as obras da criatura, e isso torna a salvação contingente, e, portanto, não é nem por graça, nem pelas obras somente, mas uma mistura nauseante. O homem que pensa que pode ser salvo sem a eleição deve ter alguma confiança na carne, não importa o quão fortemente ele possa negar isso. Enquanto nós somos convencidos que está no poder de nossas próprias vontades o contribuir com algo para a nossa salvação, seja isso alguma vez tão pouco, nós permanecemos em confiança carnal, e, portanto, não somos verdadeiramente humildes diante de Deus. Isto não acontece até que sejamos trazidos para o lugar de auto-desespero, abandono de toda a esperança em nossas próprias habilidades, até que realmente olhemos para fora de nós mesmos buscando por libertação. Quando a verdade da eleição é Divinamente aplicada aos nossos corações, somos levados a perceber que a salvação advém apenas da vontade de um Deus soberano, que “isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” (Romanos 9:16). Quando nós somos assegurados de um sensível sentimento sobre aquelas palavras de Cristo “sem mim nada podeis fazer” (João 15:5), então o nosso orgulho recebe a sua ferida mortal. Enquanto nós entretemos a ideia louca de que podemos conceder uma mão de ajuda no empreendimento da nossa salvação, não há nenhuma esperança para nós; mas quando percebemos que somos barro nas mãos do Oleiro Divino, para sermos moldados em vasos de honra ou desonra, como Lhe aprouver, então devemos renunciar à nossa própria força, desesperar quanto a qualquer auto-ajuda, e orar, e submissamente esperar pelas operações poderosas de Deus; não oraremos e esperaremos em vão. Em quinto lugar, a eleição deve ser pregada, porque é um meio Divinamente designado de fé. Um dos primeiros efeitos produzidos em ouvintes sérios de espírito é agitá-los até fervorosamente indagarem: Eu sou um dos eleitos? e a diligentemente examinarem-se diante de Deus. Em muitos casos, isso leva à dolorosa descoberta de que a sua profissão

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é vazia, descansando em nada melhor do que alguma “decisão” feita por eles anos antes, sob estresse emocional. Nada é mais projetado para revelar uma falsa conversão do um anúncio Bíblico das marcas de nascimento dos eleitos de Deus. Aqueles que são predestinados para a salvação são feitos os sujeitos de uma obra milagrosa de graça em seus corações, e isso é uma coisa muito diferente de um ato da criatura de “decidir por Cristo” ou tornar-se um membro de alguma igreja. Muito mais do que uma fé natural é necessário para unir a alma a um Cristo sobrenatural. A pregação da eleição atua como um mangual ao separar o trigo do joio. “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Romanos 10:17), e como pode “a fé dos eleitos de Deus” (Tito 1:1) ser gerada e fortalecida, se a verdade da eleição for suprimida? A predestinação Divina não anula o uso de meios, mas garante a continuidade e a eficácia deles. Deus Se comprometeu a honrar aqueles que O honram, e a pregação que traz mais glória ao Senhor é a que Ele mais abençoa. Isso nem sempre é aparente agora, mas será totalmente manifesto no dia vindouro, quando será que muito do que a Cristandade considerou como ouro, prata e pedras preciosas não era nada além de madeira, feno e palha. A salvação e o conhecimento da verdade estão inseparavelmente ligados (1 Timóteo 2:4), mas como os homens podem chegar a um conhecimento salvador da verdade, se a parte mais vital e fundamental for retida deles? Em sexto lugar, a eleição deve ser pregada, porque incita à santidade. O que pode ser um incentivo mais poderoso à piedade do que um coração que está dominado por um sentimento da soberana e maravilhosa graça de Deus!? A percepção de que Ele estabeleceu Seu coração sobre mim desde toda a eternidade, que Ele me escolheu dentre muitos, quando eu não tinha mais direito sobre Sua atenção do que eles tinham, que Ele me escolheu para ser um objeto de Seu favor distintivo, dando-me a Cristo, escrevendo o meu nome no livro da vida, e em Seu tempo determinado trazendo-me da morte para a vida e dando-me a união vital com o Seu Filho amado; este fato me encherá de gratidão e fará com que eu busque honrar e agradar a Deus. O amor eletivo de Deus por nós gera em nós um amor sem fim por Ele. Nenhuns motivos tão doces ou tão poderosos quanto o amor de Deus nos constrangem. Em sétimo lugar, a eleição deve ser pregada, porque promove o espírito de louvor. Disse o apóstolo: “Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade” (2 Tessalonicenses 2:13). Como pode ser de outra forma? Gratidão deve culminar em adoração. Um senso da graça eletiva e amor eterno de Deus nos faz bendizer a Ele como nada mais o faz. Cristo elevou especial agradecimento ao Pai por Sua misericórdia distintiva (Mateus 11:25). A gratidão do Cristão flui por causa das operações regenera-

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doras e santificadoras do Espírito; ela é estimulada de forma revigorada pela obra redentora e intercessora de Cristo; mas deve subir ainda mais alto e contemplar a primeira causa, a graça soberana do Pai, que planejou toda a nossa salvação. Como, então, a eleição é a grande questão de ação de graças a Deus, ela deve ser pregada livremente ao Seu povo. O valor desta bendita doutrina aparece em sua adequação e suficiência para estabilizar e estabelecer os verdadeiros Cristãos na certeza da sua salvação. Quando as almas regeneradas são habilitadas a crer que a glorificação dos eleitos é tão infalivelmente fixa no propósito eterno de Deus de forma que é impossível que qualquer um deles se perca, e quando eles são habilitados a perceber biblicamente que eles próprios pertencem ao povo escolhido de Deus, como isso fortalece e confirma a sua fé. Tal confiança não é presunçosa — embora qualquer outra certamente o seja — pois cada pessoa genuinamente convertida tem o direito de considerar-se como pertencendo àquela companhia favorecida, uma vez que o Espírito Santo não vivifica ninguém, senão aqueles que foram predestinados pelo Pai e redimidos pelo Filho. Esta é uma esperança “que não traz confusão”, pois ela não pode evocar decepção quando entretida por aqueles em cujos corações o amor de Deus é derramado pelo Espírito (Romanos 5:5). A santa segurança que emana da apreensão crente desta grande verdade é forçosamente estabelecida pelo apóstolo nos versículos finais de Romanos 8. Ali ele nos assegura: “E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou” (v. 30). Tal princípio garante tal fim: a salvação que se originou desde uma eternidade passada deve ser consumada em uma eternidade futura. A partir de tais grandes premissas, Paulo evocou a bendita conclusão: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (v. 31). E, novamente: “Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica” (v. 33). E mais uma vez: “Quem nos separará do amor de Cristo?” (v. 35). Se esse precioso córrego emana dessa fonte, então quão grande é a loucura e quão hediondo o pecado daqueles que desejam vê-lo barrado. A segurança eterna das ovelhas de Cristo não pode ser apresentada em toda a sua força, até que ela se baseie no decreto Divino. Quão inclinado é o crente tremente a duvidar de sua perseverança final, pois ovelhas (tanto naturais e espirituais) são criaturas tímidas e auto-desconfiadas. Não são assim os bodes selvagens e rebeldes, equivalente ao seu tipo, eles são cheios de confiança e jactância carnal. Mas o crente tem um senso de sua própria fraqueza, tal visão de sua pecaminosidade, tal percepção da sua inconstância e instabilidade, que ele literalmente opera a sua própria salvação com “temor e tremor”. Além disso, como ele vê tantos que corriam bem não mais o fazendo, tantos que fizeram tal boa e promissora profissão, fazendo naufrágio da fé, a própria visão da apostasia deles o leva a questionar seriamente sua própria condi-

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ção e fim último. É para estabilizar seu coração que Deus revelou em Sua Palavra que aqueles que são capacitados a ver em si mesmos as marcas da eleição podem se regozijar na certeza da sua bem-aventurança eterna. Apontemos também que efeito estabilizador a apreensão desta grande verdade tem sobre o verdadeiro servo de Deus. Quanto há para desanimá-lo, o pequeno número daqueles que frequentam o seu ministério, e a oposição feita àquelas partes da verdade que mais exaltam Deus e humilham o homem, a escassez de quaisquer frutos visíveis que frequentam os seus trabalhos, a acusação apresentada por alguns dos seus oficiais ou amigos mais próximos, de forma que se ele continua ao longo dessas linhas, ele não terá absolutamente ninguém deixado a quem pregar, os sussurros de Satanás, que o próprio Deus está desaprovando tais esforços, que ele é um fracasso patente e que é melhor parar; estas e outras considerações têm uma poderosa tendência a enchê-lo de desânimo ou de tentá-lo a cortar suas velas e flutuar ao longo da onda do sentimento popular. Nós sabemos o que escrevemos, porque temos pessoalmente trilhado este caminho espinhoso. Ah, mas Deus tem graciosamente fornecido um antídoto para o veneno de Satanás, e um eficaz tônico para reavivar os espíritos caídos de Seus servos atribulados. O que é isso? O conhecimento de que seu Mestre não os enviou para desenhar uma curva ao acaso, mas sim para serem instrumentos em Sua mão, para realizar Seu decreto eterno. Embora Ele lhes ordenou pregar o Evangelho a todos os que frequentam o seu ministério, contudo Ele também deixou claro em Sua Palavra que não é o Seu propósito que todos, ou mesmo que muitos sejam salvos por isso. Ele já fez conhecido que o Seu rebanho é um rebanho (em Grego) “muito pequeno” (Lucas 12:32), que há apenas “um remanescente segundo a eleição da graça” (Romanos 11:5), que “muitos” encontrariam o caminho espaçoso que conduz à perdição, e que apenas “poucos” andariam pelo caminho estreito que conduz à vida. É para chamar esse remanescente escolhido para fora do mundo e para a alimentação e estabelecimento deles que Deus principalmente emprega Seus servos. É a devida apreensão e crença pessoal disso que tranquiliza e estabiliza o coração do ministro como nada mais o fará. Enquanto ele repousa sobre a soberania de Deus, a eficácia dos Seus decretos, a certeza absoluta de que os conselhos de Deus serão plenamente realizados, então ele está certo de que tudo o que Deus o enviou a fazer deve ser feito, que nem homem nem diabo podem impedi-lo. Mesmo consternado com a ruína à sua volta, humilhado por seus próprios tristes fracassos, contudo ele percebe que o desenrolar do plano Divino é infalivelmente assegurado. Aqueles a quem o Pai ordenou, crerão (Atos 13:48), aqueles por quem o Filho morreu serão salvos (João 10:16), aqueles a quem o Espírito vivifica serão efetivamente preservados (Filipenses 1:6).

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Quando o ministro recebe uma mensagem para entregar em nome de seu Mestre, ele pode descansar com confiança inabalável na promessa: “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará [não “poderá”] para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei” (Isaías 55:11). Ela pode não efetuar que o pregador deseja, nem prosperar na medida em que os santos desejam, mas nenhum poder na terra ou no inferno pode impedir o cumprimento da vontade de Deus. Se Deus traçou uma determinada pessoa a ser levada a um conhecimento salvador da verdade sob um sermão em particular, então não importa o quão enterrada no pecado aquela alma esteja, nem quão duramente ela poderá recalcitrar contra os aguilhões da consciência, ela deve (como Paulo, no passado) ser levada a clamar: “Senhor, que queres que eu faça?” [Atos 9:6]. Aqui, então, há um lugar de repouso seguro para o coração do ministro. Este era o lugar onde Cristo encontrou consolo, pois, quando a nação em geral O desprezou e rejeitou, Ele consolouse com o fato de que: “Todo o que o Pai me dá virá a mim” (João 6:37). O valor desta doutrina aparece novamente em que ela provê o incentivo real para almas orantes. Nada promove tanto o espírito de santa ousadia ao trono da graça, como a percepção de que Deus é o nosso Deus e que nós somos o povo de Sua escolha. Eles são Seu tesouro peculiar, a própria menina dos Seus olhos, e eles acima de todas as pessoas têm a Sua escuta. “E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite?” (Lucas 18:7). Seguramente Ele o fará, pois eles são os únicos que suplicam a Ele em mansidão, apresentando seus pedidos em sujeição à Sua vontade soberana. Ó, meus leitores, quando estamos de joelhos, como este fato de que Deus colocou Seu coração sobre nós desde a eternidade deve inspirar fervor e fé. Uma vez que Deus escolheu nos amar, Ele pode se recusar a nos ouvir? Então, tomemos coragem a partir de nossa predestinação para fazer súplica mais fervorosa. “‘Sabei, pois, que o Senhor separou para si aquele que é piedoso. Senhor ouvirá quando eu clamar a ele’ (Salmos 4:3). Mas saiba, tolos não aprenderão e, portanto, eles devem ser uma e outra vez informados sobre a mesma coisa, especialmente quando se é uma verdade tão amarga que deve ser ensinada a eles, a saber: o fato de que os piedosos são os escolhidos de Deus, e são, por graça distintiva, apartados e separados dentre outros homens. A eleição é uma doutrina que o homem nãoregenerado não pode suportar, todavia, mesmo assim, é uma verdade gloriosa e bem atestada, e que deve confortar o crente tentado. A eleição é a garantia da salvação completa, e um argumento para o sucesso diante do trono da graça. Aquele que nos escolheu para Si mesmo, certamente ouvirá as nossas orações. O eleito do Senhor não será condenado, nem o seu clamor deixará de ser ouvido. Davi foi rei por decreto Divino, e nós somos o povo do Senhor, da mesma maneira; vamos dizer aos nossos

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inimigos em seus rostos que eles lutam contra Deus e o destino, quando eles se esforçam para abater nossas almas” (C. H. Spurgeon). Não apenas o conhecimento da verdade da eleição concede encorajamento para almas orantes, mas ela fornece instruções e orientações importantes nisso. Nossas petições devem sempre ser enquadradas em harmonia com a verdade Divina. Se cremos na doutrina da predestinação, nós devemos orar em conforme. A linguagem que usamos deve estar de acordo com o fato de que acreditamos que há uma companhia de pessoas escolhidas em Cristo antes da fundação do mundo, e foi por eles, e por eles somente, que Ele sofreu e morreu. Se acreditamos na redenção particular (e não em uma expiação universal) devemos implorar ao Senhor Jesus para ter consideração aos tais que Ele comprou por meio das dores de Sua alma. Este será um meio de manter corretas apreensões em nossas próprias mentes, como também será o estabelecimento de um bom exemplo nesta questão diante de outros. Nos dias de hoje há muitas expressões deploráveis utilizadas em oração, que são totalmente injustificáveis, sim, que são completamente opostas à vontade ou Palavra do Senhor. Quantas vezes o púlpito moderno pede a salvação de todos os presentes, e o chefe de família pede que nenhum na família perca a glória eterna. Qual é o propósito disso? Direcionaremos o Senhor, a quem Ele salvará? Não sejamos mal interpretados: não somos contra que o pregador ore por sua congregação, nem que o pai ore pela salvação de sua família; aquilo a que nós nos opomos é aquela oração que está em oposição direta à verdade do Evangelho. A oração deve ser subordinada aos decretos Divinos, caso contrário, somos culpados de rebelião. Ao orarmos pela salvação dos outros, devemos sempre estar com a ressalva “se eles são Teus eleitos” ou “se for da Tua soberana vontade”, ou alguma qualificação similar. O Senhor Jesus nos deixou um exemplo perfeito nisto, como em todo o mais. Em Sua grandiosa oração sacerdotal, registrada em João 17, O encontramos dizendo: “Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus” (v. 9). Nosso Senhor sabia de toda a boa vontade e prazer de Seu Pai para com os eleitos. Ele sabia que o ato da eleição foi um ato soberano e irreversível em Sua mente. Ele sabia que Ele mesmo não poderia adicionar alguém ao número dos escolhidos. Ele sabia que Ele foi enviado pelo Pai para viver e morrer pelos eleitos, e por eles somente. E, em perfeito acordo com isso, Ele declarou: “Eu rogo por eles; eu não rogo pelo mundo”. Se, então, Cristo deixou de fora o mundo, se Ele não orou pelos não-eleitos, nem nós deveríamos. Devemos aprender dEle e seguir Seus passos e, em vez de nos ressentirmos, estejamos bem satisfeitos com toda a boa vontade da soberana vontade de Deus.

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Ser submisso à vontade Divina é a lição mais difícil de todas para aprender. Por natureza, somos obstinados e tudo o que nos contraria é ressentido. O perturbador dos nossos planos, o que frustra as nossas esperanças acarinhadas, o que esmaga os nossos ídolos, atiçam a inimizade da carne. Um milagre da graça é necessário, a fim de trazer-nos à aquiescência de Deus lidar conosco, de forma que possamos dizer de coração: “Ele é o Senhor; faça o que bem parecer aos seus olhos” (1 Samuel 3:18). E, ao operar esse milagre, Deus usa meios. Ele imprime em nossos corações, um sentido efetivo de Sua soberania, de modo que somos levados a perceber que Ele tem o total direito de fazer o que quiser com Suas criaturas. E nenhuma outra verdade tem tal poderosa tendência para nos ensinar esta lição vital como tem a doutrina da eleição. Um conhecimento salvífico do fato de que Deus nos escolheu para a salvação gera dentro de nós uma disposição para que Ele ordene todas as nossas ações, até que clamemos: “não a minha vontade, mas a Tua”. Ora, em vista de todas essas considerações, perguntamos ao leitor, não deveria a doutrina da eleição ser clara e livremente anunciada? Se a Palavra de Deus é repleta dela, se o Evangelho não pode ser biblicamente pregado sem ela, se a graça de Deus não pode ser mantida quando ela é suprimida, se o anúncio dela humilha o homem ao pó, se ela é um meio divinamente designado de fé, se ela é um poderoso incentivo à promoção da santidade, se ela incita na alma o espírito de louvor, se ela confirma o Cristão na certeza de sua segurança, se ela é uma tal fonte de estabilidade para o servo de Deus, se ela fornece encorajamento para almas orantes e fornece valiosas instruções na oração, se ela opera em nós uma doce submissão à vontade Divina; então devemos nos recusar a dar aos filhos de Deus este pão valioso apenas porque os cães o abocanham? Ou reteremos das ovelhas este ingrediente vital de sua alimentação simplesmente porque os bodes não o conseguem digerir? E agora, para concluir, algumas palavras sobre como essa doutrina deve ser anunciada. Primeiro, ela deve ser apresentada com uma doutrina básica. Esta não é uma verdade incidental ou secundária, mas de uma importância fundamental e, portanto, não deve ser empurrada para um canto, nem falada com respiração suspensa. A predestinação está na própria base de todo o esquema da graça Divina. Isso fica claro a partir de Romanos 8:30, onde é ela é mencionada antes do chamado eficaz, justificação e glorificação. Ela é clara, novamente, a partir da ordem que se segue em Efésios 1, em que a eleição (v. 4) precede a adoção, a nossa aceitação no Amado, e nossa obtenção da redenção, pelo Seu sangue (vv. 5-7). O ministro deve, portanto, deixar claro aos seus ouvintes que Deus primeiro escolheu um povo para ser o Seu tesouro peculiar, em seguida, enviou o Seu Filho para redimi-los da maldição da lei violada, e agora concede o Espírito para vivifica-los e trazêlos para a glória eterna.

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Em segundo lugar, ela deve ser pregada destemidamente. Os servos de Deus não devem ser intimidados pelas carrancas dos homens, nem impedidos de realizar o seu dever por qualquer forma de oposição. O ministro do Evangelho é chamado a sofrer “as aflições, como bom soldado de Jesus Cristo” (2 Timóteo 2:3), e os soldados que temem o inimigo ou fogem não são de nenhuma utilidade para o seu rei. O mesmo é valido para aqueles que são oficiais do Rei dos reis. Quão destemido foi o apóstolo Paulo! Quão valentes pela verdade foram Lutero e Calvino, e os milhares de pessoas que foram queimadas na fogueira por causa de sua adesão a esta doutrina. Então, que aqueles a quem Cristo chamou para pregar o Evangelho não permitam esconder esta verdade por causa do temor do homem, pois o Mestre claramente avisou: “Porquanto, qualquer que, entre esta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai, com os santos anjos” (Marcos 8:38). Em terceiro lugar, ela deve ser pregada humildemente. Destemor não requer que sejamos bombásticos. A santa Palavra de Deus deve sempre ser tratada com reverência e sobriedade. Quando o ministro está diante de seu povo, eles deveriam sentir, pelo seu comportamento, que ele veio até eles da câmara de audiência do Altíssimo, de forma que o temor do Senhor repousa sobre sua alma. Pregar sobre a soberania de Deus, sobre Seus conselhos eternos, sobre Sua escolha de uns e não de outros, é uma questão muito solene para ser anunciada no poder da carne. Existe um feliz meio termo entre uma atitude servil, apologética, e o adotar o estilo de um político tirano. A seriedade não deve se degenerar em vulgaridade. É em “mansidão” que devemos instruir aqueles que se opõem, “a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade” (2 Timóteo 2:25). Em quarto lugar, ela deve ser pregada proporcionalmente. Embora o fundamento seja de primeira importância, é de pouco valor, a menos que uma superestrutura seja erguida sobre ele. O anúncio da eleição deve abrir caminho para as outras verdades cardeais do Evangelho. Se qualquer doutrina for pregada exclusivamente, é distorcida. Há um equilíbrio a ser preservado em nossa apresentação da verdade; enquanto nenhuma parte dela deve ser suprimida, nenhuma parte dela deve receber indevidamente a proeminência. É um grande erro tocar harpa usando somente uma corda. A responsabilidade do homem deve ser aplicada, bem como a soberania de Deus insistida. Se por um lado o ministro não deve se intimidar com os Arminianos, por outro, ele não deve ser amedrontado por hiperCalvinistas, que se opõem ao chamado aos não-convertidos a se arrependerem e crerem no Evangelho (Marcos 1:15). Em quinto lugar, ela deve ser pregada experimentalmente. Isto é como os apóstolos lidaram com ela, como fica claro em “procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição” (2 Pedro 1:10). Mas como isso pode ser feito a não ser que nós ensinemos a doutrina da

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eleição, instruindo quanto à sua natureza e uso? A verdade da eleição pode ser um pequeno consolo para qualquer homem, até que ele tenha uma garantia bem fundamentada de que ele seja um dos eleitos de Deus; e isso só é possível pela verificação de que ele possui (em alguma medida) as marcas Bíblicas das ovelhas de Cristo. Como já lidamos com este aspecto de nosso assunto durante algum tempo, não diremos mais nada. Que agrade ao Senhor usar estas palavras para a Sua própria glória e para a bênção de Seus queridos santos.

Sola Scriptura! Sola Gratia! Sola Fide! Solus Christus! Soli Deo Gloria!

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ApĂŞndices

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A Soberania de Deus na Salvação dos Homens Um Sermão por Jonathan Edwards

“Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer.” (Romanos 9:18)

O apóstolo, no início deste capítulo, expressa sua grande preocupação e tristeza de coração pela nação dos judeus, que foram rejeitados por Deus. Isso o leva a observar a diferença que Deus fez por eleição entre alguns e outros dentre os judeus, e entre a maior parte daquele povo e os Cristãos gentios. Ao falar isso, ele entra em uma discussão no ponto mais específico da soberania de Deus na eleição de alguns para a vida eterna, e rejeição dos outros, que é encontrado em qualquer outra parte da Bíblia. Durante seu discurso Paulo cita várias passagens do Antigo Testamento, confirmando e ilustrando esta doutrina. No versículo 9, ele nos remete ao que Deus disse a Abraão, mostrando a eleição de Isaque ao invés de Ismael: “Porque a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei, e Sara terá um filho”, então o que Deus disse a Rebeca, mostrando a sua eleição de Jacó ao invés de Esaú: “O maior servirá ao menor”. No verso 13, há uma passagem de Malaquias: “Amei a Jacó, e odiei a Esaú”. No verso 15, para o que Deus disse a Moisés: “Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia”. E o verso anterior do texto, para o que Deus diz a Faraó: “Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra”. Isto que o apóstolo diz no texto, parece referir-se especialmente aos dois últimos trechos citados: o que Deus disse a Moisés no versículo 15, e o que Ele disse a Faraó no versículo imediatamente anterior. Deus disse a Moisés: “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia”. A isso o apóstolo se refere na primeira parte do texto. E nós sabemos o quão frequentemente é dito que Deus endureceu o coração de Faraó. É a isso que o apóstolo parece ter se referido na última parte do texto: “e endurece a quem quer”. Podemos observar no texto: 1. O tratamento diferente de Deus para com os homens. Ele se compadece de alguns, e endurece a outros. Quando Deus é mencionado aqui como endurecendo alguns dos filhos dos homens, não devemos entender que Deus por alguma eficiência positiva endurece o coração de qualquer homem. Não há ato positivo em Deus, por meio do qual Ele empregue Seu poder para endurecer o coração. Supor tal coisa seria fazer de Deus o autor imediato do pecado. É dito que Deus endurece o coração dos homens de duas formas: através da retenção das poderosas influências do Seu Espírito, sem a qual o coração do homem per-

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manecerá endurecido, e endurecendo cada vez mais; neste sentido, Ele os endurece, isto é, não impede que os homens endureçam. E, também, ao ordenar as coisas na Sua providência, de modo que, por meio do abuso de sua própria corrupção, os homens tenham ocasiões para seu endurecimento. Assim, Deus envia Sua Palavra e ordenanças aos homens que, pelo seu abuso, provocam uma ocasião de seu próprio endurecimento. Por isso, o apóstolo disse, que para alguns ele era “um cheiro de morte para morte” [2 Coríntios 2:16]. Assim, Deus é representado enviando Isaías sobre esta incumbência, a saber, engordar o coração do povo, e fazer-lhe pesados os ouvidos, e fechar-lhe os olhos; para que ele não veja com os seus olhos, e não ouça com os seus ouvidos, nem entenda com o seu coração, nem se converta e seja sarado (Isaías 6:10). A pregação de Isaías era, em si mesma, de uma tendência contrária, ou seja, tendia a torná-los melhores. Porém o fato do povo ter abusado da pregação de Isaías, tornava esta uma ocasião de seu endurecimento. Como Deus é dito aqui endurecendo os homens, assim é dito que Ele pôs um espírito de mentira na boca dos falsos profetas (2 Crônicas 18:22). Ou seja, Ele tolerou um espírito de mentira entrar neles. E assim Ele se diz ter ordenado Simei amaldiçoar Davi (2 Samuel 16:10). Não que Ele diretamente lhe ordenara, pois é contrário aos mandamentos de Deus. Deus proíbe expressamente amaldiçoar o governante do povo (Êxodo 22:28). Mas Ele, naquele tempo, suportou a corrupção das obras de Simei, e ordenou aquela ocasião agitada como uma manifestação do seu descontentamento contra Davi. 2. O fundamento de Seu diferente tratamento para com a humanidade: a saber, Sua soberana vontade e prazer. “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia”. Isso não significa, simplesmente, que Deus nunca mostra misericórdia ou a nega contra a Sua vontade, ou que Ele está sempre disposto a fazê-lo quando Ele faz isso. Um sujeito disposto ou servo, quando ele obedece as ordens de seu senhor, ele pode nunca fazer qualquer coisa contra a sua vontade, mas ele pode não fazer de bom grado e com prazer; embora ele não possa dizer que fez a sua vontade no sentido do texto. Mas a expressão implica que é mera vontade de Deus, vontade soberana, que supremamente ordena este acontecimento. A vontade Divina não possui restrição, limitação ou obrigação. Doutrina. Deus exerce Sua soberania na salvação eterna dos homens. Ele não somente é soberano e tem o direito soberano de dispor e ordenar cada acontecimento; e Ele não somente pode proceder de uma maneira soberana, se quiser, e ninguém pode acusar este Seu direito como excessivo; mas Ele realmente faz isso, Ele exerce o direito que Ele tem. No seguinte discurso, proponho a mostrar: I. O que é a soberania de Deus. II. Em que a soberania de Deus na salvação dos homens implica.

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III. Que Deus realmente exerce Sua soberania neste caso. IV. As razões para este exercício. I. Irei mostrar o que é a soberania de Deus. A soberania de Deus é o Seu direito absoluto e independente de dispor de todas as criaturas de acordo com Seu próprio prazer. Vou considerar esta definição por suas partes: A vontade de Deus é chamada de: o Seu mero prazer. 1. Em oposição a qualquer restrição. Os homens podem fazer as coisas de forma voluntária, e ainda pode haver um grau de restrição. De um homem pode ser dito fazer uma coisa voluntariamente, isto é, ele mesmo faz, considerando todas as coisas, ele pode optar por fazêla; no entanto, ele pode fazê-la por medo, e a coisa em si pode ser considerada cansativa para ele, e dolorosamente contra a sua inclinação. Quando os homens fazem coisas assim, não pode ser dito que eles as fizeram de acordo com seu mero prazer. 2. Em oposição a ela estar sob a vontade de outrem. Um servo pode cumprir as ordens de seu mestre, e pode fazer isto por vontade própria, e alegremente, e pode deleitar-se em fazer a vontade do seu senhor; mas quando ele faz isso, ele não o faz de seu próprio mero prazer. Os santos fazem a vontade de Deus voluntariamente. Eles optam por fazê-la; ela é sua comida e bebida. No entanto, eles não fazem isto por seu mero prazer e vontade arbitrária, porque a sua vontade está sob a direção de uma vontade superior. 3. Em oposição a qualquer obrigação própria. Um homem pode fazer muito voluntariamente uma coisa que ele é obrigado a fazer, mas não pode ser dito que ele agiu a partir de sua própria mera vontade e prazer. Aquele que age a partir de seu próprio mero prazer está em plena liberdade, mas aquele que está sob qualquer obrigação propriamente dita, não está em liberdade, mas está obrigado. Ora, a soberania de Deus supõe, que Ele tem o direito de dispor de todas as Suas criaturas de acordo com Seu mero prazer no sentido explicado. E o Seu direito é absoluto e independente. Os homens podem ter o direito de dispor de algumas coisas de acordo com seu prazer. Entretanto este direito não é absoluto e nem ilimitado. Os homens podem dizer que têm o direito de dispor de seus próprios bens como bem entenderem. Mas o direito não é absoluto, antes possui limites e obrigações. Eles têm o direito de dispor de seus próprios bens como bem entenderem, desde que não façam isso de forma contrária à lei do Estado a que estão sujeitos, ou contrária à Lei de Deus. O direito dos homens de dispor de suas coisas como querem, não é absoluto, porque não é independente. Eles não possuem um

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direito independente, mas em algumas coisas dependem da comunidade a que pertencem, para o direito que eles têm, e em tudo dependem de Deus. Eles recebem todo o direito que eles têm de qualquer coisa a partir de Deus. Mas a soberania de Deus implica que Ele tem um direito absoluto, ilimitado e independente de dispor das Suas criaturas como Ele quiser. Agora, me proporei a inquerir:

II. Em que a soberania de Deus na salvação dos homens implica. Em resposta a esta questão, eu observo: implica que Deus pode conceder a salvação a qualquer um dos filhos dos homens, ou recusá-la, sem qualquer prejuízo para a glória de qualquer um de Seus atributos, exceto quando Ele tem se agradado de declarar, que Ele vai ou não concedê-la. Isto não pode ser dito absolutamente, como o caso está agora, que Deus pode, sem qualquer prejuízo para a honra de qualquer um de Seus atributos, conceder a salvação para qualquer um dos filhos dos homens, ou recusá-la; porque, em relação a alguns, Deus se agradou de declarar que Ele quer ou não conceder a salvação a eles; e assim obriga a Si mesmo em relação à Sua própria promessa. E em relação a alguns Ele se agradou de declarar, que Ele nunca vai conceder salvação a eles; a saber, aqueles que cometeram o pecado contra o Espírito Santo. Assim, conforme o caso está agora, Deus está obrigado; Ele não pode dar a salvação em um caso, ou recusá-lo em outro, sem prejuízo para a honra de Sua verdade. Porém Deus exerceu Sua soberania ao fazer estas declarações. Deus não era obrigado a prometer que iria salvar todos os que creem em Cristo; nem Ele foi obrigado a declarar que aquele que cometeu o pecado contra o Espírito Santo nunca será perdoado. Mas agradouLhe assim declarar. E se não fosse por isso, isto é, que Deus tomou prazer de obrigar-Se, nestes casos, Ele ainda podia conceder ou recusar a salvação, sem qualquer prejuízo de qualquer um de Seus atributos. Se o conceder ou recusar a salvação fosse por si só prejudicial a qualquer um dos Seus atributos, então Deus não faria este ato como Soberano absoluto. Porque então deixa de ser uma coisa meramente arbitrária. Isto deixaria de ser uma questão de liberdade absoluta, e tornar-se-ia uma questão de necessidade ou obrigação. Pois Deus não pode fazer qualquer coisa em detrimento de qualquer um de Seus atributos, ou contrário ao que Ele é em Si mesmo, excelente e glorioso. Portanto, 1. Deus pode, sem prejuízo para a glória de qualquer um de Seus atributos, conceder a salvação para qualquer um dos filhos dos homens, exceto para aqueles que cometeram o pecado contra o Espírito Santo.

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Semelhante foi o caso quando o homem caiu, e diante disso Deus revelou o Seu eterno propósito e um plano para resgatar os homens por Jesus Cristo. Provavelmente o ato de salvar qualquer um dos filhos dos homens era visto pelos anjos como uma coisa totalmente inconsistente com os atributos de Deus. Era totalmente inconsistente com a honra dos atributos Divinos salvar qualquer um dos filhos caídos dos homens, como eram em si mesmos. Isto não poderia ter sido feito se Deus não tivesse idealizado uma forma consistente com a honra de Sua santidade, majestade, justiça e verdade. Mas uma vez que Deus no Evangelho, revelou que nada é demasiado difícil para Ele fazer, nada está além do alcance de Seu poder, sabedoria e suficiência; e uma vez que Cristo operou a obra da redenção, e cumpriu a Lei, obedecendo-a, não há ninguém da humanidade a quem não possa salvar sem qualquer prejuízo de qualquer de Seus atributos, exceto aqueles que cometeram o pecado contra o Espírito Santo. E aqueles que cometeram o pecado contra o Espírito Santo, Deus poderia salvar sem contrariar qualquer de Seus atributos, se Ele não tivesse tido o prazer de declarar que Ele não o faria. Não era porque Ele não poderia tê-los salvo de forma consistente com a Sua justiça, e de forma consistente com a Sua Lei, ou porque o Seu atributo da misericórdia não era grande o suficiente, ou o sangue de Cristo não é suficiente para purificar deste pecado. Mas aprouve a Ele por razões sábias declarar que este pecado nunca será perdoado neste mundo nem no mundo por vir. E agora é contrário à verdade de Deus salvar tais. Mas por outro lado, não há pecador que seja tão grande, que Deus não possa salvá-lo, sem prejuízo de qualquer dos Seus atributos; se alguém tem sido um assassino, adúltero, perjuro, idólatra ou blasfemo, Deus pode salvá-lo, se Ele quiser, e em nenhum aspecto prejudicar a Sua glória. Embora as pessoas tenham pecado por muito tempo, tenham sido obstinadas; tenham cometido pecados hediondos mil vezes; até mesmo se eles tiverem envelhecido no pecado, e tenham pecado com grandes agravos, deixem os agravos serem o que puderem; se eles pecaram mesmo sob tão grande luz; se eles se desviaram, e pecaram até mesmo contra as numerosas e solenes advertências e esforços do Espírito, e misericórdias de Sua providência comum; embora o perigo de tais seja muito maior do que o de outros pecadores, ainda assim Deus pode salvá-los se isto Lhe agradar, por causa de Cristo, sem qualquer prejuízo a qualquer um de Seus atributos. Deus pode ter misericórdia de quem Ele tiver misericórdia. Ele pode ter misericórdia do maior dos pecadores, se Ele quiser, e a glória de nenhum de Seus atributos será minimamente manchada. Tal é a suficiência da satisfação e justiça de Cristo, que nenhum dos atributos Divinos se interpõe no caminho da salvação de qualquer um deles. Assim, a glória de qual-quer atributo não sofre absolutamente nenhum dano por Cristo salvar alguns daqueles que O crucificaram.

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2. Deus pode salvar qualquer um deles, sem prejuízo da honra de Sua santidade. Deus é um ser infinitamente santo. Os céus não são puros aos seus olhos. Ele é tão puro de olhos que não pode contemplar o mal, e não pode olhar para a iniquidade. E se Deus devesse, de qualquer maneira tolerar o pecado, e não desse testemunhos próprios de Seu ódio, e desprazer em relação a ele, seria um prejuízo para a honra da Sua santidade. Mas Deus pode salvar o maior pecador, sem dar a menor aprovação ao pecado. Se Ele salva alguém, que por muito tempo ficou sob os apelos do Evangelho, e pecou em agravos terríveis; se Ele salva aquele que, contra a luz, tem sido um roubador ou blasfemo, Ele pode fazê-lo sem dar qualquer aprovação de sua maldade; porque sua aversão e descontentamento contra ela já foram suficientemente manifestados nos sofrimentos de Cristo. Foi um testemunho suficiente da aversão de Deus contra a maior maldade, o fato de que Cristo, o Filho Eterno de Deus, morreu por conta dela. Nada pode demonstrar a aversão infinita de Deus por qualquer maldade mais do que isso. Se o próprio homem ímpio deverá ser lançado no Inferno, e deverá suportar os tormentos mais extremos que sempre serão sofridos ali, isto não seria uma maior manifestação da aversão de Deus pelo pecado, do que os sofrimentos do Filho de Deus por causa do pecado. 3. Deus pode salvar qualquer um dos filhos dos homens, sem prejuízo da honra de Sua majestade. Se os homens têm afrontado Deus, sempre e tanto; se lançaram sempre tanto desprezo em Sua autoridade, ainda assim, Deus pode salvá-los, se Ele quiser, e a honra de Sua Majestade não sofre o mínimo dano. Se Deus salvar aqueles que O têm ofendido, sem satisfação, a honra de Sua majestade sofreria dano. Pois, quando o desprezo é lançado sobre Sua infinita majestade, Sua honra sofre dano e o desprezo deixa uma obscuridade sobre a honra da majestade Divina, caso o dano não seja reparado. Mas os sofrimentos de Cristo repararam integralmente o dano. Deixe o desprezo ser muitíssimo grande, no entanto se tão honrável pessoa como Cristo se compromete a ser um Mediador para o ofensor, e na mediação sofrer em seu lugar, é totalmente reparado o dano causado pelo maior pecador à Majestade do Céu. 4. Deus pode salvar qualquer pecador em consistência com a Sua justiça. A justiça de Deus exige a punição do pecado. Deus é o Juiz Supremo do mundo, e Ele deve julgar o mundo de acordo com as regras da justiça. Não é o papel de um juiz mostrar favor à pessoa julgada; mas Ele deve julgar de acordo com a regra da justiça, sem se afastar para a direita nem para a esquerda. Deus não mostra misericórdia como Juiz, mas como um Soberano. E, portanto, quando a misericórdia procurou a salvação dos pecadores, a questão era a forma de fazer concordar o exercício da misericórdia de Deus como um Soberano, e de Sua estrita justiça como Juiz. E isso é feito através dos sofrimentos de Cristo, nos quais o pecado é punido completamente, e a justiça satisfeita. Cristo sofreu o suficiente para a punição dos pecados do maior pecador que já viveu. Para que Deus, quando julgar, possa agir de acordo

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com uma regra de estrita justiça, e ainda assim absolver o pecador, se este está em Cristo. A justiça não pode exigir mais pelos pecados de qualquer homem, do que os sofrimentos de uma das pessoas da Trindade, como Cristo sofreu: “Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Romanos 3:2526). 5. Deus pode salvar qualquer pecador, sem qualquer prejuízo para a honra de Sua verdade. Deus aprovou em Sua palavra, que o pecado deve ser punido com a morte, que deve ser entendida não apenas como a primeira, mas também como a segunda morte. Deus pode salvar o maior pecador de forma consistente com esta Sua verdade ameaçadora. Porque o pecado é punido nos sofrimentos de Cristo, na medida em que Ele é o nosso Fiador, e por isso é legalmente a mesma pessoa, e carrega a nossa culpa, e nos Seus sofrimentos suportou o nosso castigo. Pode-se objetar que Deus disse: “Se tu comeres, tu morrerás” [Gênesis 2:17]; como se a mesma pessoa que pecou deve ser punida; e, portanto, por que a verdade de Deus não O obriga a isso? Eu respondo, que a palavra, então, não se destinava restritamente a ele, que em sua própria pessoa pecou. Adão provavelmente compreendeu que a sua posteridade foi incluída, se eles pecassem na sua própria pessoa ou não. Se eles pecaram em Adão, a veracidade dessas palavras, “se comeres”, significava, se comeres em ti mesmo, ou confiando em ti mesmo. E, portanto, a última palavra, “morrerás”, também suficientemente permite uma tal construção como: “tu morrerás em ti mesmo, ou na tua garantia”. “O Senhor se agradava dele por amor da sua justiça; engrandeceu-o pela lei, e o fez glorioso” (Isaías 42:21). Mas, Deus pode recusar a salvação a qualquer pecador que seja, sem prejuízo à honra de qualquer um de seus atributos. Não há uma pessoa qualquer que esteja em uma condição natural, a quem Deus não pode recusar-Se a conceder a salvação, sem prejuízo de qualquer parte da Sua glória. Deixe que uma pessoa natural seja sábia ou insensata, de um temperamento natural bom ou mau, de parentesco inferior ou honroso, seja nascido de pais ímpios ou piedosos; que ela seja uma pessoa moral ou imoral, tudo de bom que ela possa ter feito, embora esta pessoa tenha sido religiosa, tenha feito muitas orações, e quaisquer sofrimentos que tenha tido para que ele pudesse ser salva; qualquer que seja a preocupação e angústia que essa pessoa tema de que ela será condenada; ou qualquer circunstância em que ela possa estar; Deus pode negar-lhe a salvação sem o menor menosprezo a nenhuma das Suas perfeições. Sua glória não irá em qualquer instância ser minimamente obscurecida por isto.

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1. Deus pode negar a salvação a qualquer pessoa natural, sem qualquer prejuízo para a honra de Sua justiça. Se Ele faz isso, não há injustiça nem deslealdade nEle. Não há homem natural vivo, deixe seu caso ser o que quiser, contudo, Deus pode negar-lhe a salvação, e lançá-lo no inferno, e ainda assim não ser acusado da menor injustiça ou deslealdade em qualquer aspecto que seja. Isto é evidente, porque todos eles merecem o inferno, e não há qualquer injustiça em um juiz justo infligir a qualquer homem o que ele merece. E como o homem natural tem merecido a condenação, e ele nunca fez qualquer coisa para remover sua culpa, ou para expiar o pecado; ele nunca fez qualquer coisa pela qual ele colocasse quaisquer obrigações em Deus para não puni-lo como ele merece. 2. Deus pode negar a salvação a qualquer pessoa não-convertida seja ela quem for, sem qualquer prejuízo para a honra da Sua bondade. Os pecadores são, por vezes, prontos para vangloriarem-se que, embora possa não ser contrário à justiça de Deus condená-los, contudo, isto não será consistente com a glória da Sua misericórdia. Eles pensam que será desonroso para a misericórdia de Deus lançá-los no inferno, e não ter nenhuma piedade ou compaixão deles. Eles pensam que isso seria muito duro e severo, e que não seria consistente com um Deus de infinita graça e terna compaixão. Entretanto, Deus pode negar a salvação a qualquer pessoa natural, sem qualquer depreciação à Sua misericórdia e bondade. Aquilo que não é contrário à justiça de Deus também não é contrário à Sua misericórdia. Se a condenação for justa, então a misericórdia pode escolher Seu próprio objeto. Eles confundem a natureza da misericórdia de Deus, e pensam que é um atributo, que, em alguns casos, está contrário à Sua justiça. Não, a misericórdia de Deus é adornada por ela, como está no vigésimo terceiro versículo do contexto. “Para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou”. 3. Negar a salvação para pessoas naturais e não-convertidas não é de forma alguma prejudicial para a honra da fidelidade de Deus. Porque Deus não tem, de modo algum obrigado a Si mesmo em relação ao homem natural, pela Sua Palavra, para conceder salvação a ele. Homens em uma condição natural não são os filhos da promessa; mas estão expostos à maldição da Lei, o que não seria o caso se tivessem qualquer promessa à qual apegarem-se.

III. Deus realmente exerce a Sua soberania na salvação dos homens. Mostrarei como Deus exerce esse direito em diferentes particularidades. 1. Ao chamar um povo ou nação, e dar-lhes os meios da graça, e deixando outros sem estes. De acordo com a determinação Divina, a salvação é oferecida em conexão com os meios de graça. Às vezes, Deus pode fazer uso de meios muito improváveis, e conceder a

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salvação dos homens que estão sob mui grandes desvantagens; mas Ele não concede graça sem absolutamente nenhum meio, antes Deus exerce Sua soberania ao conceder esses meios. Toda a humanidade está, por natureza, em circunstância semelhante diante de Deus. No entanto, Deus distingue grandemente alguns dos outros pelos meios e vantagens que Ele de concede. Os selvagens, que vivem em partes remotas do continente e estão sob a mais grosseira escuridão pagã, bem como os habitantes da África, estão, naturalmente, em circunstâncias exatamente semelhantes para com Deus, como nós nesta terra. Eles não estão mais alienados ou distantes de Deus em sua natureza do que nós; e Deus não tem mais causas para acusá-los do que a nós. E, contudo, que grande diferença Deus fez entre nós e eles! Nisso, Ele exerceu Sua soberania. Ele fez isso no passado, quando Ele escolheu apenas um povo, para torná-los Seu povo da Aliança, e dar-lhes os meios de graça, e deixou todos os outros, e os entregou à escuridão pagã e à tirania do Diabo, Deus os deixou a perecer de geração em geração por muitas centenas de anos. A terra que no passado estava povoada por muitas grandes e poderosas nações. Havia os egípcios, um povo famoso por sua sabedoria. Havia também os assírios e caldeus, que eram nações grandes, sábias e poderosas. Havia os persas, que por sua força e política sujeitaram uma grande parte do mundo. Havia as nações renomadas dos gregos e romanos, que eram famosos por todo o mundo por seus excelentes governos civis, por sua sabedoria e habilidade nas artes da paz e da guerra, e que por sua destreza militar subjugarão e reinaram sobre o mundo. Porém, todos aqueles foram rejeitados. Deus não os escolheu para serem o Seu povo, mas deixou-os por muitas eras na grosseira escuridão pagã, a perecer por falta de visão; e escolheu um único povo, a posteridade de Jacó, para ser o Seu próprio povo, e para dar-lhes os meios de graça: “Mostra a sua palavra a Jacó, os seus estatutos e os seus juízos a Israel. Não fez assim a nenhuma outra nação; e quanto aos seus juízos, não os conhecem” (Salmo 147:19-20). Esta nação era um povo pequeno e desprezível em comparação com muitas outras pessoas: “O Senhor não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos... Sabe, pois, que não é por causa da tua justiça que o Senhor teu Deus te dá esta boa terra para possuí-la, pois tu és povo obstinado” (Deuteronômio 7:7; 9:6). Deus lhes dá a entender, que não era por nenhuma outra causa, senão o Seu livre amor eletivo, que O levou a escolhê-los para ser Seu povo. A razão dada ao porquê Deus os amava foi: porque Ele os amava (Deuteronômio 7:8). Que é o mesmo que dizer que foi agradável à Sua vontade soberana, colocar o Seu amor sobre você. Deus também mostrou a Sua soberania na escolha das pessoas, quando outras nações foram rejeitadas, que vieram dos mesmos progenitores. Assim, os filhos de Isaque foram

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escolhidos, quando a posteridade de Ismael e dos outros filhos de Abraão foram rejeitadas. Assim os filhos de Jacó foram escolhidos, quando a posteridade de Esaú foi rejeitada; como o apóstolo observa em Romanos 9:7: “Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência”. E novamente nos versículos 10-13. “E não somente esta, mas também Rebeca, quando concebeu de um, de Isaque, nosso pai; porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito a ela: O maior servirá ao menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú”. O apóstolo não se refere apenas à eleição das pessoas de Isaque e de Jacó ao invés de Ismael e Esaú; mas de sua posteridade. Na passagem, já citada de Malaquias, Deus tem o respeito às nações, que foram os descendentes de Esaú e Jacó; Malaquias 1:2-3: “Eu vos tenho amado, diz o Senhor. Mas vós dizeis: Em que nos tens amado? Não era Esaú irmão de Jacó? disse o Senhor; todavia amei a Jacó, e odiei a Esaú; e fiz dos seus montes uma desolação, e dei a sua herança aos chacais do deserto”. Deus mostrou a Sua soberania, quando Cristo veio, ao rejeitar os judeus, e chamar os gentios. Deus rejeitou essa nação que eram os filhos de Abraão segundo a carne, e que tinha sido seu povo peculiar por tantos séculos, e que exclusivamente possuía o único Deus verdadeiro, e escolheu o pagão idólatra ao invés deles, e os chamou para ser Seu povo. Quando o Messias veio e nasceu de sua nação, e a quem tanto esperavam, Ele foi rejeitado por eles. Ele veio para os seus, e os seus não o receberam (João 1:11). Quando a dispensação gloriosa do Evangelho veio, Deus passou pelos judeus, e chamou aqueles que tinham sido pagãos, para desfrutar dos privilégios do mesmo. Eles foram cortados, para que os gentios fossem enxertados em seu lugar (Romanos 11:17). Agora é chamada amada, a que não era amada. E mais são os filhos da mulher solitária, do que os filhos da casada (Isaías 54:1). Os filhos naturais de Abraão, são rejeitadas, e Deus suscita das pedras filhos a Abraão. Essa nação, que foi tão honrada por Deus, tem sido agora, por muitas eras, rejeitada, e permanece dispersa por todo o mundo, um monumento notável da vingança Divina. E agora Deus distingue grandemente algumas nações dos gentios em relação a outras, e tudo de acordo com a Sua vontade soberana. 2. Deus exerce Sua soberania nas vantagens que Ele concede a pessoas particulares. Todos precisam de salvação da mesma forma, e todos são, naturalmente, não merecedores dela; mas Ele dá algumas vantagens maiores para a salvação a uns do que a outros. Para alguns, Ele designa o seu lugar em famílias piedosas e religiosas, onde eles podem ser bem instruídos e educados, e têm pais religiosos para dedicar-lhes a Deus, e fazer muitas orações por eles. Deus coloca alguns sob um ministério mais poderoso do que os outros, e em locais onde há mais das efusões do Espírito de Deus. Para alguns, Ele dá muito mais dos esforços e influências despertadoras do Espírito, do que para outros. Isto acontece de acordo com a Sua mera vontade soberana.

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3. Deus exerce Sua soberania algumas vezes concedendo salvação aos pequenos e medíocres, e a nega aos sábios e grandes. Cristo em Sua soberania passa pelas portas de príncipes e nobres, e entrar em alguma casa e ali faz morada, e tem comunhão com os seus obscuros habitantes. Deus em Sua soberania reteve a salvação do homem rico, que se regalava esplendidamente todos os dias, e a concedeu ao pobre Lázaro, que estava sentado mendigando em seu portão. Deus desta forma lança o desprezo sobre os príncipes, e em todo o seu esplendor fulgurante. Então, Deus às vezes passa por homens sábios, homens de grande entendimento, eruditos e grandes estudiosos, e dá salvação aos outros de pouco conhecimento, que só compreendem algumas das partes mais claras das Escrituras, e os princípios fundamentais da Religião Cristã. Sim, parece haver poucos grandes homens que são chamados, em relação aos outros. E Deus em Sua ordenação faz que assim se manifeste a Sua soberania: “Porque, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; e Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são” (1 Coríntios. 1:26–28) 4. Concedendo salvação a pessoas que tiveram poucas vantagens. Às vezes Deus vai abençoar meios fracos para produzir efeitos surpreendentes, quando os mais excelentes meios não são bem sucedidos. Deus, às vezes, retêm a salvação daqueles que são os filhos de pais muito piedosos, e a concede a outros, que foram criados em famílias ímpias. Assim, lemos de um bom Abias na família de Jeroboão, e de um piedoso Ezequias, filho de ímpio Acaz; e de um piedoso Josias, filho de um ímpio Amon. Mas, ao contrário, também lemos a respeito dos perversos Amnon e Absalão, filhos do santo Davi, e de um vil Manassés, filho de um bom Ezequias. Às vezes, alguns, que tiveram meios eminentes de graça, são rejeitadas, e deixados a perecer, e outros, sob muito menos vantagens, são salvos. Assim, os escribas e fariseus, que tinham tanta luz e conhecimento das Escrituras, foram em sua maioria rejeitados, e os pobres publicanos ignorantes foram salvos. A maior parte das pessoas, entre os quais Cristo estava muito familiarizado, e que O ouviram pregar, e O viram fazer milagres cotidianamente, foram deixados; e a mulher de Samaria foi tomada, e muitos outros samaritanos, ao mesmo tempo, que só ouviram pregar Cristo quando Ele ocasionalmente passou por sua cidade. Assim, a mulher de Canaã, que não era do país dos judeus, foi tomada e viu Jesus Cristo uma única vez. Então os judeus, que tinham visto e ouvido Cristo, e visto Seus milagres, e por quem os apóstolos trabalharam tanto, não foram salvos. Mas os gentios, muitos deles, que, por assim dizer, não ouviram as boas novas de salvação senão transitoriamente, abraçando-as, foram convertidos.

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5. Deus exerce Sua soberania em chamar alguns para a salvação, que têm sido muito horrendamente ímpios, e deixando outros, que foram pessoas morais e religiosas. Os fariseus eram uma seita muito rigorosa entre os judeus. Sua religião era extraordinária. Eles não eram como os demais homens, roubadores, injustos ou adúlteros (Lucas 18:11). Havia moralidade neles. Eles jejuavam duas vezes por semana, e davam o dízimo de tudo que possuíam. Eles eram religiosos. Mas ainda assim eles foram, em sua maioria, rejeitados, e os publicanos, as meretrizes e um tipo abertamente vicioso de pessoas entraram no reino de Deus diante deles (Mateus 21:31). O apóstolo descreve a sua justiça, enquanto fariseu: “segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível” (Filipenses 3:6). O jovem rico veio e ajoelhou-se diante de Cristo, dizendo: “Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?”. Ele era uma pessoa moral. Quando Cristo ordenou-lhe guardar os mandamentos, ele disse, e em seu próprio ponto de vista com sinceridade: “Mestre, tudo isso guardei desde a minha mocidade” [Marcos 10:20]. Ele, obviamente, tinha sido criado em uma boa família, e era um jovem de tais maneiras amáveis e conduta correta, que é dito: “E Jesus, olhando para ele, o amou” [Marcos 10:21]. Ainda assim, ele foi deixado; enquanto o ladrão, que foi crucificado com Cristo, foi escolhido e chamado, mesmo na cruz. Às vezes Deus mostra Sua soberania, mostrando misericórdia para com o principal dos pecadores, por aqueles que foram assassinos, profanadores e blasfemos. E mesmo quando eles estão velhos, alguns são chamados na última hora. Deus, por vezes, mostra a soberania de Sua graça ao mostrar misericórdia para com alguns, que passaram a maior parte de suas vidas a serviço de Satanás, e tem pouco para gastar no serviço de Deus. 6. Na salvação de alguns daqueles que buscam a salvação, e não outros. Alguns dos que buscam a salvação, como se sabe, tanto a partir das Escrituras e da observação destas são logo convertidos; enquanto outros procuram por longo tempo, e, contudo, não a obtêm por fim. Deus ajuda alguns a atravessarem as montanhas e as dificuldades que estão no caminho, Ele subjuga Satã, e os livra de suas tentações, mas os outros são arruinados pelas tentações com as quais eles se encontram. Alguns nunca são completamente despertos; enquanto para outros, Deus tem o prazer de dar as convicções completas. Alguns são deixados aos seus corações inconstantes; a outros, Deus os sustenta até o fim. Alguns são libertos de uma confiança em sua justiça própria; outros nunca superam essa obstrução em seu caminho, enquanto eles vivem. E alguns são convertidos e salvos sem nunca terem empregado tão grandes esforços como alguns que, não obstante, perecem. IV. Venho agora para dar as razões, por que Deus, assim, exerce Sua soberania na salvação eterna dos filhos dos homens.

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1. É agradável para o desígnio de Deus na criação do universo exercer cada atributo, e, assim, manifestar a glória de cada um deles. O desígnio de Deus na criação foi o de glorificar a Si mesmo, ou fazer manifesta a glória essencial de Sua natureza. Foi ajustado que Sua infinita glória deveria brilhar; e era o desígnio original de Deus fazer uma manifestação de Sua glória, como ela é. Não que era Seu desígnio manifestar toda a Sua glória para a apreensão das criaturas; pois é impossível que as mentes das criaturas possam compreendê-la. Mas foi o Seu desígnio fazer uma verdadeira manifestação de Sua glória, como representante de todos os Seus atributos. Se Deus glorifica um atributo, e não outro, quão defeituosa seria a manifestação da Sua glória; e a representação não estaria completa. Se todos os atributos de Deus não são manifestados, a glória de nenhum deles se manifesta como ela é; pois os atributos Divinos refletem a glória uns dos outros. Assim, se a sabedoria de Deus se manifestar, e não a Sua santidade, a glória de Sua sabedoria não iria se manifestar como ela é; pois uma parte da glória do atributo da sabedoria Divina é que ela é uma sabedoria santa. Semelhantemente, se a Sua santidade se manifestar, e não a Sua sabedoria, a glória de Sua santidade não iria se manifestar como ela é; pois uma coisa que pertence a glória da santidade de Deus é que ela é uma santidade sábia. Assim é com relação aos atributos de misericórdia e justiça. A glória da misericórdia de Deus não aparece como ela é, a não ser que seja manifesta como uma misericórdia justa, ou como uma misericórdia consistente com a justiça. E assim é com respeito à soberania de Deus, ela reflete a glória de todos os Seus outros atributos. E esta mesma soberania de Deus faz parte da glória da misericórdia de Deus, que é uma misericórdia soberana. Portanto, todos os atributos de Deus refletem a glória uns dos outros. A glória de um atributo não pode ser manifestada, como ela realmente é, sem a manifestação de outro atributo. Um atributo é defeituoso sem outro, e, por conseguinte, a manifestação será defeituosa. Por isso, foi da vontade de Deus manifestar todos os Seus atributos. A glória declarativa de Deus nas Escrituras é muitas vezes chamada de: o nome de Deus, porque ele declara Sua natureza. Mas, se o Seu nome não significar a Sua natureza como ela é, ou não declarar qualquer atributo, ele não é um nome verdadeiro. A soberania de Deus é um dos Seus atributos, e uma parte da Sua glória. A glória de Deus eminentemente aparece em Sua soberania absoluta sobre todas as criaturas, grandes e pequenas. Assim como a glória de um príncipe está em seu poder e domínio, assim também a glória de Deus é a Sua soberania absoluta. Aqui aparece a infinita grandeza e majestade de Deus acima de todas as criaturas. Portanto, é da vontade de Deus manifestar a Sua soberania. E a Sua soberania, assim como seus outros atributos, é manifestada nos exercícios do mesmo. Ele glorifica o Seu poder no exercício do poder. Ele glorifica Sua misericórdia no exercício da misericórdia. Da mesma forma, Ele glorifica a Sua soberania no exercício da soberania.

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2. A mais excelente criatura está sob Deus, que é soberano; e quanto maior for a posição em que ela aparece, mais gloriosa é a Sua soberania. A soberania de Deus em seu ser soberano sobre os homens, é mais gloriosa do que o ser soberano sobre as criaturas inferiores. E a Sua soberania sobre anjos é ainda mais gloriosa que a Sua soberania sobre os homens. Pois quanto mais nobre a criatura é, ainda maior e mais alta foi a manifestação de Deus em Sua soberania sobre ela. É uma honra maior para um homem ter o domínio sobre outros homens do que sobre animais; e uma honra ainda maior ter domínio sobre príncipes, nobres e reis, do que sobre os homens comuns. Então a glória da soberania de Deus é demonstrada em Seu ser soberano sobre as almas dos homens, que são criaturas tão nobres e excelentes. Deus, portanto, vai exercer a Sua soberania sobre eles. E quanto mais o domínio de alguém se estende sobre um outro, maior será a honra. Se um homem tem domínio sobre outro apenas em alguns casos, ele não está ali muito exaltado, como em ter domínio absoluto sobre sua vida e fortuna, e tudo o que ele tem. Assim, a soberania de Deus sobre os homens se mostra gloriosa por se estender a todas as coisas que lhes dizem respeito. Ele pode dispor delas em relação a tudo o que lhes diz respeito, de acordo com o Seu próprio prazer. Sua soberania se mostra gloriosa no que abrange as suas questões mais importantes, até mesmo o estado eterno e condição das almas dos homens. Aqui vemos que a soberania de Deus é sem obrigações ou limites, na medida em que abrange a um caso de tamanha e infinita importância. Deus, portanto, em conformidade com o Seu desígnio manifestar a Sua própria glória, irá exercer a Sua soberania em relação aos homens, sobre as Suas almas e corpos, mesmo na mais importante questão de sua salvação eterna. Ele tem misericórdia de quem quer ter misericórdia, e endurece a quem quer. APLICAÇÃO. 1. Assim aprendemos que somos absolutamente dependentes de Deus nesta grande questão da salvação eterna de nossas almas. Somos dependentes não só da Sua sabedoria para planejar uma maneira de realizá-la, e de Seu poder para efetuá-la, mas nós somos dependentes de Sua mera vontade e prazer em fazer isto. Nós dependemos da vontade soberana de Deus para todas as coisas que pertencem a ela, desde a fundação até à pedra do pináculo. Foi da vontade soberana de Deus, que Ele planejasse uma maneira de salvar qualquer um dentre a humanidade, e nos desse Jesus Cristo, Seu Filho unigênito, para ser o nosso Redentor. Por que Ele olhou para nós, e nos enviou um Salvador, e não aos anjos caídos? Foi por causa da vontade soberana de Deus. Foi de Seu soberano prazer escolher que meios empregar. O fato dEle ter nos concedido a Bíblia, e as ordenanças da Religião,

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foi por Sua soberana graça. O Seu oferecimento destes meios para nós, mais do que quaisquer outros, o Seu oferecimento de influências de despertamento por meio de Seu Espírito, e Sua concessão de graça Divina, todos se dão apenas por Seu soberano prazer. Quando Ele diz: “Haja luz na alma de um alguém”, esta é uma palavra de poder infinito e graça soberana. 2. Vamos com a maior humildade adorar a terrível e absoluta soberania de Deus. Como acabamos de mostrar, é um atributo eminente do Ser Divino, a saber, que Ele é soberano sobre esses excelentes seres tais como as almas dos homens, e que, em todos os aspectos, inclusive no de sua salvação eterna. A grandeza infinita de Deus, e a Sua exaltação acima de nós, não aparece em nada mais do que em Sua soberania. Fala-se dela na Escritura como uma grande parte da Sua glória: “Vede agora que eu, eu o sou, e mais nenhum deus há além de mim; eu mato, e eu faço viver; eu firo, e eu saro, e ninguém há que escape da minha mão” (Deuteronômio 32:39). “Mas o nosso Deus está nos céus; fez tudo o que lhe agradou” (Salmo 115:3). “Cujo domínio é um domínio sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. E todos os moradores da terra são reputados em nada, e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem possa estorvar a sua mão, e lhe diga: Que fazes?” (Daniel 4:34-35). Nosso Senhor Jesus Cristo louvou e glorificou o Pai pelo exercício de Sua soberania na salvação dos homens: “Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve” (Mateus 11:25-26). Vamos, portanto, dar a Deus a glória da Sua soberania, assim como adorar Aquele, cuja soberana vontade ordena todas as coisas, vendo a nós mesmos como sendo nada em comparação com Ele. Domínio e soberania exigem reverência humilde e honra. A soberania absoluta, universal e ilimitada de Deus requer que devamos adorá-lO com toda a humildade possível e reverência. É impossível que possamos exceder em humildade e reverência diante deste Ser, que pode dispor de nós, por toda a eternidade, da maneira que Lhe agradar. 3. Aqueles que estão em um estado de salvação atribuem à graça soberana somente, e dão todo o louvor Ele, que os faz diferente dos outros. Piedade não é motivo para se gloriar, a não ser em Deus: “Para que nenhuma carne se glorie perante ele. Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção; para que, como está escrito: Aquele que se gloria glorie-se no Senhor” (1 Coríntios 1:29-31). Tal não é, por qualquer meio, em qualquer grau atribuído à sua piedade, seu estado e condições seguras e felizes, a qualquer diferença natural entre eles e os outros homens, ou a qualquer força ou justiça própria. Eles não têm nenhum motivo para exaltarse, no mínimo grau; mas Deus é o Ser a quem eles devem exaltar. Eles devem exaltar a

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Deus, o Pai, que os escolheu em Cristo, que pôs o Seu amor sobre eles, e deu-lhes a salvação, antes deles nascerem e mesmo antes que o mundo existisse. Se perguntarem, por que Deus colocou Seu amor sobre eles, e os escolheu, em vez de outros, se eles pensam que podem ver qualquer causa fora de Deus estão muito enganados. Eles devem exaltar a Deus o Filho, que levou seus nomes em Seu coração, quando Ele veio ao mundo, e foi pendurado na cruz, e em Quem somente eles possuem justiça e força. Eles devem exaltar a Deus, o Espírito Santo, que por graça soberana os chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz; que por Sua própria operação imediata e livre, levou-os a uma compreensão do mal e do perigo do pecado, e os resgatou de sua justiça própria, e abriu-lhes os olhos para contemplarem a glória de Deus, e as maravilhosas riquezas de Deus em Jesus Cristo, e os santificou, e os fez novas criaturas. Quando eles ouvirem da maldade dos outros, ou olharem para pessoas viciosas, eles devem pensar quão ímpios uma vez foram, e quanto eles provocaram a Deus, e como eles mereciam para sempre serem deixados por Ele a perecer no pecado, e que é somente a graça soberana que tem feito a diferença. Em 1 Coríntios 6:10 estão enumerados muitos tipos de pecadores: fornicadores, idólatras, adúlteros, efeminados, abusadores de si mesmos com a humanidade. E então, no versículo décimo primeiro, o apóstolo lhes diz: “E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus”. O povo de Deus tem o maior motivo de gratidão, e a maior razão para amar a Deus, que tem lhes concedido tão grande e inefável misericórdia meramente por Sua vontade soberana. 4. Assim aprendemos por que causa temos de admirar a graça de Deus, pois Ele condescendeu a se ligar a nós por Pacto; pois Ele, que é, naturalmente, em Seu supremo domínio sobre nós, o nosso proprietário absoluto, e pode fazer conosco o que Lhe agrada, e não tem qualquer obrigação para conosco; pois deve, por assim dizer, abrir mão de Sua liberdade absoluta, e deixar de ser meramente soberano em Suas dispensas para com os crentes, quando uma vez eles têm crido em Cristo, e para sua mais abundante consolação, se ligam a Deus. Para que eles possam pleitear a salvação deste soberano; eles podem exigi-la por meio de Cristo, como uma dívida. E seria prejudicial para a glória dos atributos de Deus, negá-la a eles; seria contrário à Sua justiça e fidelidade. Que condescendência maravilhosa é a de tal Ser, ao assim, tornar-se vinculado a nós, vermes do pó, para o nosso consolo! Ele se comprometeu, por Sua Palavra e por Sua promessa. Mas Ele não ficou satisfeito; mas para que possamos ter consolação ainda mais forte, Ele obrigou a Si mesmo por Seu juramento: “Porque, quando Deus fez a promessa a Abraão, como não tinha outro maior por quem jurasse, jurou por si mesmo, dizendo: Certamente, abençoando te abençoarei, e multiplicando te multiplicarei. E assim, esperando com paciência, alcançou a promessa.

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Porque os homens certamente juram por alguém superior a eles, e o juramento para confirmação é, para eles, o fim de toda a contenda. Por isso, querendo Deus mostrar mais abundantemente a imutabilidade do seu conselho aos herdeiros da promessa, se interpôs com juramento; para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta; a qual temos como âncora da alma, segura e firme, e que penetra até ao interior do véu, onde Jesus, nosso precursor, entrou por nós, feito eternamente sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque” (Hebreus: 6:13-20). Vamos, portanto, nos esforçar para nos submetermos à soberania de Deus. Deus insiste, que a Sua soberania seja reconhecida por nós mesmo neste grande assunto, um assunto que tão de perto e infinitamente nos interessa, como a nossa própria salvação eterna. Esta é a pedra de tropeço na qual milhares caem e perecem; e se continuarmos discutindo com Deus sobre a Sua soberania, isto será nossa ruína eterna. É absolutamente necessário que nós venhamos a nos submeter a Deus, como nosso soberano absoluto, e o soberano sobre as nossas almas; como alguém que pode ter misericórdia de quem quer ter misericórdia, e endurecer a quem Ele quiser. 5. E, por último. Podemos fazer uso dessa doutrina para proteger aqueles que buscam a salvação de dois extremos opostos: presunção e desânimo. Não presuma sobre a misericórdia de Deus, para deste modo incentivar a si mesmo a continuar no pecado. Muitos ouvem que a misericórdia de Deus é infinita, e, portanto, acham que, se eles demorarem a procurar a salvação no presente, poderão buscá-la futuramente, pois assim Deus concederá Sua graça a eles. Mas considero que, embora a graça de Deus seja suficiente, contudo, Ele é soberano, e agirá por Seu próprio prazer se Ele irá salvar ou não. Se você adiar a salvação até daqui por diante, a salvação não estará em Seu poder. E se você deverá obtêla ou não, será como um Deus soberano se agradar. Vendo, pois, que neste caso você está tão absolutamente dependente de Deus, é melhor seguir sua direção na busca, isto é, ouvir a Sua voz hoje: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais seu coração”. Cuidado também com o desânimo. Acautele-se dos pensamentos de desespero, porque você é um grande pecador, porque você tem continuado por tanto tempo no pecado, tem se desviado, e resistido ao Espírito Santo. Lembre-se disto, que seja qual for o seu caso, e você um tão grande pecador, se você não tiver cometido o pecado contra o Espírito Santo, Deus pode conceder misericórdia a você sem o menor prejuízo para a honra da Sua santidade, que você tem ofendido; ou à honra de Sua majestade, que você tem insultado; ou à Sua justiça, que você se tem feito seu inimigo; ou de Sua verdade; ou de qualquer um de Seus atributos. Seja você o que puder, pecador, Deus pode, se Ele quiser, glorificar grandemente a Si mesmo na Sua salvação.

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[Serm찾o IV de Dezessete Serm천es Ocasionais, nas Obras de Jonathan Edwards, Volume II, The Banner of Truth Trust, Reimpresso 1995, pp 849-854].

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Quem São Os Eleitos? (Sermão Nº 638)

Pregado na manhã de Domingo, 9 de julho de 1865. Por C. H. Spurgeon, no Tabernáculo Metropolitano, Newington.

“E disse o Senhor: Levanta-te, e unge-o, porque é este mesmo.” (1 Samuel 16:12) SAMUEL foi enviado a Belém para descobrir o objeto da eleição de Deus. Isto teria sido uma tarefa muito difícil se o Deus que o enviou não o acompanhasse, e falasse com voz segura de inspiração dentro dele, assim que o objeto escolhido estivesse diante dele. Irmãos e irmãs não é a sua tarefa, nem a minha adivinhar quem são os eleitos de Deus, à parte das marcas e evidências. O que foi feito nos conselhos da eternidade antes que o mundo fosse feito está escondido na mente de Deus, e não devemos curiosamente nos intrometer onde a porta é fechada pela mão da Sabedoria. Contudo na pregação da Palavra é feita uma descoberta da eleição secreta de Deus. Nós pregamos o Evangelho a toda criatura debaixo do céu, nós anunciamos as ameaças e promessas de Deus a cada pecador e clamamos: “Olhai para Jesus e sejais salvos, vós todos os confins da terra”. Esse Evangelho é, por si só, através de Deus, o Espírito Santo, apto para discernir os escolhidos de Deus, quando sentem o seu poder vivificante e são espiritualmente ressuscitados dentre os mortos. O Evangelho é um ventilador que, ao mesmo tempo em que afasta a palha, deixa o trigo no chão. O Evangelho é como o fogo do ourives e como o sabão do lavadeiro, removendo tudo o que é estranho e sem valor, mas revelando as preciosas e puras. Nós, os ministros, não temos outra maneira pela qual discernir os santos de Deus, e para separar o precioso do vil, senão por fielmente pregar a verdade de Deus como ela é em Jesus, e observar seus efeitos. Quanto a nós, podemos descobrir a nossa própria vocação e eleição, e fazê-las firme. Paulo disse dos Tessalonicenses que ele reconhecia a sua eleição de Deus, e podemos descobrir a eleição de outros homens com um alto grau de probabilidade, pela sua conduta e conversa, e ser certificados de nossa própria eleição, até a infalibilidade, pelo testemunho do Espírito de que nascemos de Deus. Se o nosso coração é renovado pelo Espírito, se somos feitos novas criaturas em Cristo Jesus, se somos reconciliados com Deus e redimidos das obras mortas, podemos saber que nossos nomes foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro antes da fundação do mundo. Esta manhã eu estou prestes a falar sobre a maneira em que podemos descobrir os escolhidos, fazendo do caso de Davi, em algum grau, a nossa estrela guia.

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I. Eu terei que destacar logo no início, a SURPRESA DE TODOS, quando descobriram que Davi, o menor na casa de seu pai, era o objeto de escolha do Senhor como rei de Israel. Observa-se que os irmãos não tinham ideia de que Davi seria selecionado. Tal pensamento nunca tinha entrado em suas mentes. Se a questão fosse perguntada a eles: “Quem entre vós alguma vez alcançará o reino?”, eles teriam escolhido qualquer um dos outros sete, mas eles certamente teriam passado pelo seu irmão Davi. Ele parece ter sido completamente desprezado por seus irmãos. Eliabe se dirige a ele em tom de desprezo quando ele vem para o vale de Elá: “Bem conheço a tua presunção, e a maldade do teu coração, que desceste para ver a peleja” [1 Samuel 17:28]. Este modo de expressão foi, sem dúvida, como ele geralmente se dirigia ao jovem. Suponho que Davi havia sido alguém por si mesmo. Os esportes dos sete eram muitas vezes tais que ele não poderia se envolver neles. Ele não era um companheiro para eles. Se a qualquer momento perpetrasse qualquer ato injusto ou perverso, como, provavelmente, um bando de sete jovens no apogeu da juventude é susceptível de fazer, eles eram ousados em cursos de alegria pecaminosa, Davi seguiria o exemplo de José, e agiria como um reprovador no meio deles e, consequentemente, ele caiu sob o seu desprezo. Ele estava com o seu rebanho no lado da montanha, quando eles estavam se alegrando com sua bebida; seu livro e sua harpa eram seu consolo, a contemplação era o seu grande prazer, e seu Deus, sua melhor companhia, enquanto seus irmãos não encontravam prazer nas coisas Divinas. Ele, como nosso Senhor, podia dizer: “Porque por amor de ti tenho suportado afrontas; a confusão cobriu o meu rosto. Tenho-me tornado um estranho para com meus irmãos, e um desconhecido para com os filhos de minha mãe” (Salmos 69:7-8). Como José, ele era “o sonhador” da família na estima dos outros. Eles pensavam dele [como sendo] “lunático” quando ele considerava os céus, e chamaram-no louco, quando ele meditava dia e noite na Lei de Deus. Agora, queridos amigos, a quem me dirijo, vocês podem ser um daqueles a quem Deus tem olhado com olhos de amor desde antes da fundação do mundo, e ainda assim, na família a que pertencem podem ser negligenciados e esquecidos. Seus próprios irmãos formaram uma opinião muito baixa de suas habilidades, e eles têm um perfeito desprezo pela singularidade de seu caráter. Você é como um pássaro salpicado entre sua própria parentela, você não pode desfrutar do que eles gostam; seus amores e seus desejos correm em um canal diferente do deles. Não permita que seu desprezo quebrante o seu coração. Lembre-se de que Davi esteve uma vez em sua posição, e ainda havia um outro nos dias anteriores sobre a coroa da cabeça de quem a bênção das colinas eternas descende embora ele foi separado de seus irmãos; e assim pode um enriquecedor sorriso do Céu, no entanto, descansar sobre você, porque o Senhor não vê como o homem vê. Os mais rejeitados entre os homens são muitas vezes os amados do Senhor.

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É mais doloroso perceber que o pai de Davi não deveria ter ideia da excelência de Davi. Um pai tem, naturalmente, mais amor ao seu filho do que um irmão por seu irmão e, frequentemente, o filho mais novo é o queridinho, mas Davi não parece ter sido alguém querido de seu pai. Jessé o chama o menor, e se eu compreendo a palavra que ele usa no original, há algo mais implícito do que ele ser o mais jovem, ele era o menor na estimativa do mau julgamento do pai. É estranho que ele tivesse sido deixado de fora quando os outros foram convocados para o banquete, e eu não posso absolver Jessé da culpa por ter se omitido de chamar seu filho, quando esse banquete era um serviço religioso especial. Em um sacrifício todos devem estar presentes, quando o profeta vem, ninguém deve ser afastado, e ainda não se considerou que valia a pena chamar Davi, embora alguém poderia ter pensado em um servo que pudesse apascentar as ovelhas, e assim toda a família poderia teria sido encontrada santificada na ocasião. No entanto, nenhum filho foi deixado no campo, senão Davi, todos os outros estavam reunidos. Às vezes acontece, (mas, quão injustamente!) que alguém na família é negligenciado, até mesmo por seu pai, em suas esperanças e orações. O pai parece pensar: “Deus pode Se agradar em converter William, Ele poderá chamar Mary, eu confio em Sua providência que veremos John crescer para ser uma honra para nós, mas quanto a Richard ou Sarah, eu não sei o que virá sobre eles”. Como, muitas vezes, os pais devem confessar que têm julgado mal, e que o único sobre o qual eles criaram a marca negra foi, afinal, a alegria e o consolo de suas vidas, e lhes deram mais satisfação do que todos os outros juntos! Você é um tal, meu jovem? Você é dolorosamente consciente de que você tem uma parte estreita nos corações dos seus pais? Não te deixes abater afligido ou com o coração partido com isso. Você passará como Davi antes de você, e se ele, o servo favorecido de Deus, o homem segundo o coração de Deus, pôde aguentar a sua posição, não seja você orgulhoso demais para [recusar] permanecer nela, pois mesmo se o seu pai e sua mãe o abandonarem, se o Senhor te conduzir ao alto, Ele será melhor para você do que o melhor dos pais! É claro, também, que Samuel, servo de Deus, não tinha a princípio nenhuma ideia da eleição de Davi. Os irmãos avançaram um por um, e Samuel, usando seu julgamento humano, estava pronto para selecionar qualquer outro, em vez de Davi. O ministro de Deus, se ele é verdadeiramente chamado e enviado, tem um desejo em sua alma para trazer para fora o escolhido de Deus de seu estado oculto. Seus olhos são rápidos em discernir os primeiros sinais da graça Divina em uma alma renovada. Mas, às vezes, o ministro Cristão é enganado. Ele consulta com carne e sangue, e seleciona Eliabe, que é uma boa pessoa, cujo semblante nobre evidencia algo acima do nível normal, cuja inteira estrutura é tão admiravelmente elegante, que ele é bom de olhar. Quão verdade é que o Senhor não tem prazer nas pernas de um homem. Os dons da aparência pessoal muitas vezes se tornam armadilhas em vez de bênçãos, “enganosa é a beleza e vã a formosura” [Provérbios 31:30]. O Senhor não escolheu Eliabe. Então posições virão perante o ministro, e se ele vê uma

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pessoa de elevada característica alegremente ouvindo o Evangelho, ele é muito rápido para pensar: “certamente o Senhor o escolheu”. Mas quantas vezes, porém estes são aves de arribação em nossa congregação que nunca demorarão o tempo suficiente para construir um ninho no santuário. Mera curiosidade os traz, e uma nova curiosidade os leva a outro lugar. Certamente o Senhor não tem frequentemente escolhido estes Abinadabes. Mais uma vez, os outros são tão bem educados que quando a Palavra é pregada, eles apreciam o estilo em que ela é entregue, e os comentários que eles fazem a respeito dela são tão sensíveis e tão judiciosos, que o pregador é capaz de dizer: “certamente o Senhor escolheu a estes!”. E, no entanto, como muitas vezes os educados são orgulhosos demais para acreditar nas simplicidades de Cristo, e o intelectual vira-se em seus calcanhares, porque o Evangelho é pouco refinado o suficiente para o seu gosto. Em outros momentos, temos a certeza que temos agora lançado sobre o homem certo, pois estamos encantados com a disposição da amabilidade natural do nosso ouvinte, e estamos animados pela sua ternura e sensibilidade da mente para impressões religiosas, e ainda ficamos desapontados. Muitas flores encantadoras nunca se tornam frutos e mudas de esperança não se revelam plantas de plantio da destra do Senhor, e, portanto, são arrancados. Às vezes, também, nós ouvimos tal conversa admirável sobre religião, que concluímos: “agora, temos encontrado o escolhido do Senhor”. Nós sentamos em companhia, e ouvimos os homens jovens usarem expressões devotas o que implicava num conhecimento incomum das Escrituras, ouvimos as pessoas orarem, e admiramos o seu grande dom na oração, pois eles têm se dirigido a assembleias religiosas, e falado com um alto grau de fluência, e nosso coração, disse: “certamente o Senhor escolheu a estes!”, e, no entanto, meus irmãos do ministério vão te dizer que frequentemente fora dos muitos candidatos que passaram diante deles, eles encontraram muitos como sendo “corações-contritos”, e poucos que lhes deram qualquer satisfação real quanto à sua conversão a Deus. Enquanto isso, os mesmos a quem nós negligenciamos, os mais pequeninos na assembleia, têm sido os Davis sobre quem a bênção de Deus caiu. Alguns de vocês já ouviram a nossa palavra estes 10 anos e mais, e vocês têm ficado impressionados novamente e novamente, e ainda assim vocês não são convertidos! Muitas vezes pensei que vocês seriam os escolhidos de Deus, quando marcados por suas lágrimas e seu sentimento aparente, mas até agora vocês estão sem qualquer evidência de eleição. Por outro lado, tem caído neste lugar um bêbado, e se desviado para esses corredores uma prostituta, e a poderosa graça de Deus os converteu, e eles estão se regozijando agora no perdão completo de seus pecados enquanto você está ainda “em fel de amargura, e em laço de iniquidade”. Quão verdadeira é essa palavra, “os publicanos e as meretrizes entram no reino dos céus antes de você”. Quão incomparável é a soberania de Deus! “Os seus caminhos são insondáveis”. Os mais pobres, os mais iletrados, o mediano e o mais obscuro,

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os tolos, os bebês, as coisas desprezadas, sim, “as coisas que não são” são as que Ele escolheu, para reduzir a nada as coisas que são, para que nenhuma carne se glorie na Sua presença. Parece-me que havia uma pessoa mais espantada quando Davi foi ungido do que até mesmo os seus irmãos, ou seu pai, ou o profeta, e este foi Davi! Isso foi uma maravilha para muitos, mas principalmente para si mesmo. Ele tinha comunhão com Deus somente sob as árvores espessas, ele havia cantado os louvores do Senhor no deserto onde levara seus rebanhos, e à beira da água havia afinado a sua harpa, e fez as rochas ecoarem com a música doce de sua grata alma, mas ele nunca sonhou em ser um rei! Se um profeta houvesse dito a ele: “eu te tomei da malhada, de detrás das ovelhas, para que fosses o soberano sobre o meu povo, sobre Israel. E fui contigo, por onde quer que foste, e destruí a teus inimigos diante de ti; e fiz grande o teu nome, como o nome dos grandes que há na terra” [2 Samuel 7:8-9], ele teria clamado: “quem sou eu, Senhor DEUS, e qual é a minha casa, para que me tenhas trazido até aqui? E ainda foi isto pouco aos teus olhos, Senhor DEUS, senão que também falaste da casa de teu servo para tempos distantes; é este o procedimento dos homens, ó Senhor DEUS?” [2 Samuel 7:18-19]. Então, caro amigo, você pode ser um verdadeiro filho de Deus, mas você pode, por enquanto, não ter uma visão clara do chamado alto e nobre para a qual Deus ordenou-lhe. Sua fé tremente colocou sua mão sobre a cabeça de Jesus, e você confiou, você está perdoado, mas ainda não sabe a grandeza e a dignidade a que a fé exalta cada herdeiro do Céu. Agora, deixe-me sussurrar em seu ouvido palavras a respeito de sua grandeza presente e a glória que ainda está para ser revelada em você. “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” [1 João 3:2]. Você está justificado pela fé, e você tem paz com Deus, e você não sabe que: “a quem Ele justifica, estes também glorifica”? Você certamente será glorificado! Você sabe a razão para isso? É porque você é “eleito segundo a presciência de Deus, em santificação do Espírito, e fé da verdade”. Sim, pobre tremente, os pensamentos de Deus foram exercidos sobre você antes que as estrelas começassem a refletir seus raios através das densas trevas; Jeová-Jesus escreveu seu nome em Seu coração, e Ele o gravou nas palmas das Suas mãos antes que os céus fossem estendidos. Esforça-te, há um reino para ti! As fiéis misericórdias de Davi decretaram você a superar e a sentar-se no trono de Jesus, assim como Ele venceu e está assentado com o Pai em Seu trono. Seja feliz, por isso, pois o bom prazer do Pai deu-lhe o Reino. Eu imagino ver todos surpresos, e você diz: “como pode ser? Eu! Escolhido de Deus! Meus muitos pecados, minhas grandes enfermidades, minhas dúvidas, minha esterilidade no serviço de Deus, a frieza do meu coração, tudo isso me faz lamentar. Será que ainda assim Ele tem me ordenado para um Reino?”. É isto mesmo. Deixe sua fé compreender a verdade, e siga o seu caminho regozijando-se.

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Lembre-se, caro amigo, que não importa o que sua ocupação possa ser, você ainda pode ter o privilégio do Reino de Deus. Davi era apenas um pastor e ainda assim ele foi elevado ao trono, e assim deve ser com cada crente. Você pode ser pouco visto e desconhecido, na casa de seu pai, o menor, e ainda assim você pode compartilhar uma parte filial no coração Divino. Você pode estar entre aqueles que nunca seriam mencionados, exceto como meras unidades do recenseamento geral, sem partes, sem posição, você pode pensar de si mesmo como quase possuindo menos do que um único talento, você pode conceber de si mesmo como sendo um verme e não homem, e como Davi, você pode dizer: “fiquei como um animal perante ti” [Salmos 73: 22]. E ainda pense nisso: a maravilhosa eleição de Deus pode inclinar-se desde o mais alto trono de glória para levantar o mendigo do monturo e colocá-lo entre os príncipes!

II. Vamos agora voltar nossos pensamentos para o SINAL DA ELEIÇÃO, a marca secreta que o Senhor põe no devido tempo sobre o eleito. No devido tempo, cada pessoa eleita recebe o selo da graça Divina. Esse selo é um novo coração e um espírito reto. Que todos os homens compreendam que um novo coração é o selo secreto do Único Deus, a grande seta do Rei dos reis. Os homens olham para a aparência exterior como a marca de favor, mas Deus olha para o coração como o sinal de Sua escolha. Não devemos supor que Davi foi escolhido para a salvação por causa da bondade natural do seu coração, pois ele mesmo nos diz que ele “nasceu em pecado e formado em iniquidade” [Salmo 51]. Apesar de estarmos dispostos a conceder que, quando Deus tinha renovado seu coração como resultado de Sua graça soberana, a bondade de coração constituiu uma qualificação para o Reino, assim como a graça é uma aptidão para a glória, mas a justiça de coração foi em si o dom da graça soberana, e foi o efeito e não a causa da eleição primária e eterna, fixada em Davi. Não temos a intenção de discutir a razão da eleição de Deus, não sejamos mal interpretados, disso não sabemos nada, acreditamos que Deus escolhe sabiamente, mas Ele escolhe a partir de razões não conhecidas pelos homens, provavelmente, razões que não poderiam ser entendidas por nós. Tudo o que sabemos é: “Sim, ó Pai, porque assim te aprouve” [Mateus 11: 26]. Nós agora estamos falando da maneira pela qual Deus sela Seus Eleitos e distingue Seus escolhidos depois que Sua Graça tem operado em neles. Eles distinguem-se por ter um coração que difere dos de outros homens. Que possamos, assim, descobrir se estamos entre eles ou não! Que tipo de coração teve Davi? Podemos encontrá-lo por seus Salmos. Não podemos dizer quando alguns dos Salmos foram escritos, mas se alguns deles foram escritos em sua juventude, o Salmo 23 foi certamente um. Esse belo poema pastoral abre uma janela para o coração de Davi, vamos olhar através dele, e logo perceberemos que ele possuía um

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coração crente. Como é doce a frase: “O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará”. Bemaventurado Davi! Ele resumiu todas as suas necessidades e cuidados, ele sabia que precisava de perdão para o pecado, e graça Divina para preservá-lo do mal, sabedoria para guiá-lo nos caminhos perigosos da juventude, força para ajudá-lo nos conflitos que estavam diante dele, em vez de olhar para si mesmo ou para os amigos, ele se afasta de todos os bens criados por Deus, e pela fé, ele diz: “O Senhor é meu pastor, nada me faltará”. Aqui está uma grande marca da eleição Divina. Caro amigo, você descansa em Deus para tudo? O seu coração desistiu de toda a confiança em si mesmo? “O que confia no seu próprio coração é insensato” [Provérbios 28: 26]. O seu coração tem abandonado toda a confiança em seu companheiro? “Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço” [Jeremias 17:5]. Você já viu o vazio de suas próprias ações, e vontades, e existência, e desejos, e você tomou o Senhor como Ele se revela nas páginas da Escritura, Pai, o Filho e o Espírito, para ser seu tudo em todos? Se você fizer isso confiantemente, você não precisa temer a sua eleição, pois quando Deus olha para o seu coração, Ele vê em sua fé o símbolo e o sinal de Sua graça soberana. Nunca houve uma fé simples em Sua Pessoa onde Sua mão não tenha trabalhado, e Seu coração ordenado para a vida eterna. Notamos, como lemos no Salmo, que o coração de Davi era também um coração meditativo. Note as palavras: “Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas”. Ele escreve em outro lugar: “a minha meditação acerca dele será suave” [Salmos 104:34]. Todo o livro de Salmos, que é a vida de Davi escrita em caracteres poéticos, prova que ele foi muito dado à meditação sobre temas celestiais. Sozinho lá nas montanhas, abaixo pelos riachos ondulantes, onde quer que ele esteve para conduzir os rebanhos, lá ele levantou um altar ao seu Deus, e fez um oratório para si mesmo. Mui doce comunhão foi desenvolvida entre Davi e seu Deus, da qual Eliabe não sabia nada, e na qual Abinadabe não podia entrar. Leia o Salmo 119, e você verá que ele ganhou para si todas as bênçãos que por inspiração ele cantou no Salmo primeiro. Ele meditou sobre a Lei do seu Deus de dia e de noite. Caro amigo, este é o seu caso? Quando seus pensamentos se libertam, eles voam para longe como a pomba faz ao seu pombal, imediatamente para Deus? Você pode dizer com Davi que Suas palavras são doces para o seu paladar? É o próprio nome de Deus querido por você? Você se deleita nEle? Você medita muito sobre a Pessoa de Jesus Cristo? Lembre-se que por seus pensamentos que você poderá julgar seu estado, e se o seu coração não meditar sobre os estatutos de Deus, certamente falta a você um dos sinais da eleição Divina, pois almas eleitas são levadas, no devido tempo a encontrar um deleite nos caminhos e Palavra de Deus. Prossigamos com o Salmo e eu penso que você ficará impressionado com o coração humilde que Davi tinha, ao longo de todo o caminho ele não elogia a si mesmo. “Guia-me mansamente a águas tranquilas, refrigera a minha alma”. Veja, ele não tem coroa para a

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sua cabeça, a coroa é toda para o Único Poderoso que é o seu Pastor. Sua alma estava em sua pena, quando escreveu: “Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória” [Salmos 115:1]. Davi não era um de seus pavões ostentosos que não podem estar contentes sem todos os olhares sobre eles; ele cantou louvores a Deus como o rouxinol cantará no escuro quando nenhum ouvido humano está ouvindo e nenhum olho está admirando, ele estava contente em florescer invisível, sabendo que a doçura de um coração renovado nunca é desperdiçada no ar do deserto. Ele ficou satisfeito com Deus somente como seu Ouvinte, e ele não cobiçava a boa opinião do homem. Diante de seu Deus, o quão alto ele se elevou, e ainda o quão baixo ele se curvou. Quão profundamente ele sentiu a sua dívida para com Aquele que lhe deu tudo, e quão zelosamente ele atribui a sua salvação, e a glória, e a força, a Ele que havia sido desde o início ao fim seu Ajudador. Ele teria desfrutado do versículo em que Asafe faz alusão à sua humilhação: “Também elegeu a Davi seu servo, e o tirou dos apriscos das ovelhas; e o tirou do cuidado das que se acharam prenhes; para apascentar a Jacó, seu povo, e a Israel, sua herança” [Salmos 78:7071]. Oh, que tivéssemos um coração livre de todo o orgulho. Nós falharíamos completamente em descrever Davi se estivéssemos a omitir outras qualificações. Seu coração era santo. Observe no mesmo Salmo: “guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome”. Davi não tinha prazer na iniquidade; ele afastou-se dos homens de Belial: “o que fala mentiras não estará firme perante os meus olhos” [Salmos 101:7], disse ele. Ele amava o povo de Deus, ele descreveu-os como, “os santos que estão na terra, e aos ilustres em quem está todo o meu prazer” [Salmos 16:3]. A santidade que convêm à Casa de Deus era muito agradável para a alma de Davi. Ele amava os mandamentos de Deus por causa da sua santidade. “A tua Palavra é muito pura, por isso o teu servo a ama” (Salmos 119:140). Eu admito que ele uma vez caiu em pecado grave, mas isso foi uma exceção à uma regra graciosa. Sua regra era a santidade. Os melhores dos homens são no máximo homens e, portanto, eles podem cair, mas, quão amargamente Davi lamentou até o dia de sua morte a maldade em que ele caiu. “Ele era um homem segundo o coração de Deus, e ao seu caminho foi ordenado de acordo com a santidade”. Observe um coração valente batendo em seu peito. Onde você encontrará um homem mais corajoso do que Davi? “Assim feria teu servo o leão, como o urso; assim será este incircunciso filisteu como um deles” [1 Samuel 17:36]. É assim que Davi, enquanto o exército encolhido de Israel voa do combate, entra na batalha com o Filisteu ostentoso, e traz livramento a Israel. Ouça a voz valorosa do jovem: “Tu vens a mim com espada, e com lança, e com escudo; porém eu venho a ti em nome do Senhor dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem tens afrontado” [1 Samuel 17:45]. Quão ousado foi Davi na maioria dos casos! Houve momentos em que ele, como os filhos de Efraim, virou as costas no dia da batalha, tomemos, por exemplo, quando ele se fez de bobo diante de Aquis, mas em outros

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casos, a sua alma estava ordenada contra os inimigos do Senhor, e apesar de um acampamento estabelecer-se contra ele, seu coração não temia; ainda que a guerra se levantasse contra ele, nEle ele estava confiante, pois ele usava a couraça da coragem destemida. O Salmo correta e bravamente diz, “ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam”. Deixe-me lembrá-lo que ele tinha um coração muito contente e agradecido. Eu não sei de um retrato melhor de Davi em seus primeiros dias do que aquele que Bunyan nos concede do pastor que estava cantando no Vale da Humilhação: “Aquele que está em baixo não necessita temer nenhuma queda; Ele está por baixo, sem orgulho; Aquele que é humilde sempre deverá Ter Deus por seu Guia. Estou contente com o que tenho, Quer seja pouco ou muito; E Senhor, contentamento eu ainda almejo, Porque Tu salvaste tal.” Aqui é a versão de Davi do mesmo sentimento: “Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda” [Salmos 23:5]. Ele tinha tudo o que seu coração poderia desejar. Eu confio, queridos amigos, nós podemos, alguns de nós, humildemente afirmar que possuímos tal coração como esse, e, que minha língua fosse capaz de dizer, sem engano, “sim, Senhor, a minha alma está satisfeita com o que Tu ordenares, seja qual for a Sua vontade, será a minha vontade”. Você deve observar ainda mais a constância do coração de Davi. Ele diz: “certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor por longos dias”. Ele não era um dos inconstantes que partiram e voltaram atrás no primeiro lamaçal em que eles caíram, ele não era Demas, pronto para abandonar a profissão [de fé] para ganhar este presente mundo mau, mas todos os dias de sua vida ele habitava próximo ao caminho do Senhor, e manteve-se como um servo na Casa de Deus. Por tais marcas podemos reconhecer a nossa eleição. Queira Deus que aqueles que são tão otimistas de sua eleição sejam condescendentes, às vezes, para experimentarem-se por marcas evidências Bíblicas. Somos informados, por certos teólogos, que nunca devemos duvidar da nossa segurança. Amados, nunca devemos duvidar de Deus, mas estou inclinado a pensar que nenhum homem que exerce uma santa vigilância sobre si mesmo, e um zelo santo foi encontrado aceito no passado, pode estar em todos os momentos sem dúvidas quanto ao seu próprio interesse em Cristo. Estou convencido de que o hino:

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“Até um ponto anseio conhecer Muitas vezes isto causa o pensamento ansioso” é a experiência de cada filho de Deus, mais ou menos, e que há épocas em que esse é o melhor hino que um homem pode cantar. É raro que eu duvide do meu interesse em Cristo Jesus, mas é muito frequente que eu me pergunte: “será que esta confiança é bem fundamentada?”. E se eu estivesse com medo de me questionar, se eu estivesse com medo de voltar para o fundamento e esquadrinhar meu próprio eu a fundo, se eu sempre fui cegamente confiante, e nunca me examinei se estava na fé, eu acho que seria um presságio de que estaria indo de uma forte ilusão para o acreditar em uma mentira. Eu tenho me esforçado em sua presença para pregar sobre o privilégio de uma fé forte, eu lhes exortei para lutarem em busca de uma plena certeza de fé, mas nunca deixe que esses lábios digam uma palavra ou uma sílaba contra esse cuidado que faz uma grande distinção entre presunção e segurança. Confiem nisso, o privilégio pregado sem preceito produzirá uma plenitude e letargia no povo de Deus; o que precisamos em determinadas épocas do ano não é uma promessa, mas uma narrativa, a palavra ardente do autoexame, o sabor deste podemos não gostar, mas devemos trabalhar em nossas almas bem espiritual de um tipo mais duradouro do que os doces confortos trariam para nós. Examinem-se, queridos amigos, portanto, por isso. Eu não lhes pergunto se os seus corações são perfeitos, eles não são; eu não lhes pergunto se os seus corações nunca se desviam, pois eles são propensos a vaguear; mas eu lhes pergunto: o seu coração está descansando sobre Jesus Cristo? É um coração crente? Será que o seu coração medita sobre as coisas Divinas? Será que ele encontra seu melhor consolo ali? O seu coração é um coração humilde? Você está constrangido a atribuir tudo à graça soberana? O seu coração é um coração santo? Você deseja santidade? Você encontra o seu prazer nisso? O seu coração é ousado por Deus? Será que o seu coração atribui louvores a Deus? É um coração agradecido? E é um coração que é totalmente posto em Deus, desejando nunca errar? Se for, então você tem marcas da eleição. Procure por estes, e adicione esta oração a todos os seus autoexames: “sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno” [Salmos 139:23-24]. Deixe-me te aconselhar a orar a Deus para retirar os seus confortos em partes, se eles são falsos confortos. Eu implorei com meu Deus de joelhos por muitas vezes para me deixar saber o pior do meu caso, e se eu estiver enganado, iludido, ou equivocado, eu oro para que Ele rasgue a atadura dos meus olhos e tire todos os bálsamos do meu coração ferido, exceto o bálsamo de Gileade, e nunca me deixe descansar até que eu esteja bem fundamentado e fundado em Cristo Jesus, e em nenhum outro lugar, senão nEle. Certifique-se de seu trabalho neste caso. Se você tiver “mas” e “ses” e “talvezes”, tenha-os sobre suas propriedades e seus

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bens, mas não sobre as suas almas. Que o Espírito Santo os ajude a estar frequentemente usando o cadinho para ver se sua profissão é ouro verdadeiro ou não.

III. O terceiro ponto é muito interessante. É A MANIFESTAÇÃO, ou a maneira pela qual os eleitos de Deus são feitos aparentes a nós mesmos e aos outros. Nós não podemos ver o coração de nossos semelhantes e, portanto, o coração nunca pode ser para nós a maneira de distinguir os eleitos de Deus, exceto na medida em que é visto em atos e palavras. Agora, o primeiro sinal de que esta eleição foi dada a conhecer ao próprio Davi, e a alguns outros que provavelmente não sabiam muito sobre ele, foi por ele ser ungido. Samuel tomou um vaso de azeite, e o derramou sobre Davi. Eu não acho que Jessé sabia o significado pleno do mesmo. Tenho certeza de que os sete irmãos não o sabiam, pois se o soubesse, um ou outro teria dito a Saul. Mestre Trapp diz: sete só podem guardar um segredo quando seis deles não sabem nada sobre isso. Estou inclinado a pensar que embora o viram ungido com óleo, que não podiam pensar que um tal desprezado como Davi estava realmente ungido para o Reino. Eles viram o símbolo, mas provavelmente não entenderam a graça interior. Mas Davi sabia, Davi sabia que ele agora deveria ser um rei, e embora ele nunca estendeu a mão ou levantou um dedo para conseguir o trono para si, embora muitas vezes ele poupou seu inimigo Saul quando a morte deste poderia tê-lo levado subitamente para a coroa, mas ele sabia que um dia reinaria sobre Israel. Amados, há uma época em que Deus unge o Seu povo. Eles acreditaram, mas pode decorrer algum tempo entre o crer e a consciência da unção, mas, de repente, quando o Senhor tem iluminado o coração para conhecer e compreender as coisas Divinas claramente, o Espírito de Deus vem com o poder selador sobre eles, e daquele dia em diante eles se regozijam em saber que eles têm a habitação do Espírito, e que eles são separados para Deus. Eu oro para que alguns de vocês que têm sido recentemente convertidos possam obter o seu selamento deste dia em diante. Se vocês o receberem, vocês serão homens e mulheres diferentes do que vocês eram. Já salvos pela graça, então vocês começarão a sentir essa força, e poder, e vigor, o que torna o homem de fé o mestre do mundo. Se vocês estão ungidos, vocês sentirão o sangue real dentro de suas veias. Até agora vocês não sabem de seu reinado, mas se o Espírito de Deus descer sobre vocês em medida abundante, vocês saberão da sua dignidade, e vocês agirão como reis, reinando sobre pecados inatos, e buscando, tanto quanto está em vocês exercer o sacerdócio real que o Mestre vos conferiu. Este selamento interior pode ser reconhecido entre os santos; alguns podem ser capazes de ver em vocês o selamento, não esperem que muitos o farão, pois é apenas para si mesmo que isso se torna a testemunha infalível de que vocês são um dos eleitos de Deus. A manifestação, no entanto, continuou de outra maneira. Após a unção parece que Davi se tornou um homem distinto para o valor de suas ações. Servo de Saul por recomendação;

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este diz a respeito dele, que ele era “valente e vigoroso, e homem de guerra” [1 Samuel 16:18]. Sua eleição será descoberta por isso, você fará o que os outros não podem fazer. Uma alma eleita, quando o Espírito de Deus está sobre ela, pode responder a essa pergunta: “o que você faz mais do que os outros?”. Não com orgulho, mas ainda calmamente ele pode dizer: “há muitas coisas que os outros não podem fazer, que são fáceis para mim através de Cristo que me fortalece”. Vocês serão capazes agora, queridos amigos, de romper as labutas de costume, para lutar com o leão do mundanismo, para expor a paciência sob o sofrimento, para perdoar o seu pior inimigo em dificuldade, para servir a Deus em atos de fé, vocês serão capazes, em Sua força, de contentarem-se em ver o seu bom nome trilhado na vala se isso pode exaltar a Cristo. Através do Espírito Santo você fará e ousará onde outros são lentamente covardes, você correrá para a frente do conflito esperando a vitória, porque Deus está com você, ou você estará disposto a sofrer, porque o Senhor lhe fortaleceu para suportar todas as coisas por Sua causa. Sua eleição será melhor conhecida por seus companheiros por seus atos de bravura. Parece, também, que Davi era muito prudente. A mesma testemunha disse que ele era “um homem prudente nos assuntos”. Tal será você, quando, como eleito de Deus, o Espírito de sabedoria repousar sobre você. Você não estará com pressa, você não tem nada a ganhar, você não se alarmará, você não tem nada a perder, você tem Deus e, portanto, você tem todas as coisas, você não pode perder o seu Deus, e, portanto, você não pode perder nada; e estando sem pressa, você terá tempo para julgar e pesar as coisas. “Aquele que crê não se apresse”. A vida não será para você uma disputa confusa. Você não ficará desajeitado por um erro, nem por outro, porque você levará as suas questões diante de Deus em oração. Você consultará as Escrituras, e seu coração será guiado pelo Senhor. Você saberá, se você vive perto de Deus, quando você chegar a um ponto de dificuldade para onde se virar, você ouvirá uma voz que diz: “Este é o caminho, andai nele” [Isaías 30:21]. Você saberá, quando enfrentar uma dificuldade, que a sabedoria humana é totalmente sem valor, como cair com o rosto no chão e esperar até que o braço forte venha livrá-lo. Você será ensinado nas coisas de Deus e ousado para ensinar a outros, e assim, diariamente, sua eleição será feita conhecida aos seus companheiros. Note também que uma das maneiras pelas quais a sua eleição se tornará clara e firme para todo o povo de Deus será esta: se você está ungido rei como Davi foi antes de você, você entrará em conflito com Saul! Não pode ser possível que o escolhido de Deus viva para sempre em paz com os herdeiros do Inferno. Foi Ele quem colocou uma inimizade entre a semente da mulher e a semente da serpente, cuide para que essa velha inimizade nunca morra. Os dois primeiros homens nascidos de mulher eram inimigos um do outro, por essa razão, e até que Cristo venha, essa mesma inimizade existirá. Saul pode gostar de você por um pouco de tempo, se você pode tocar bem um instrumento, e afastar sua melancolia,

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mas quando Saul encontrá-lo lá fora e descobrir que você foi o rei ungido, ele lançará seu dardo sobre você. O mundo está muito satisfeito com alguns ministros, e com alguns Cristãos, porque muito se assemelham entre si, mas assim que o mundo descobre, “este é um homem separado de nós, de uma natureza diferente, de um país diferente”, eles não podem deixar de odiar o homem, devem fazê-lo. Você espera boa palavra do mundo? Então siga o seu caminho, lisonjeie-o, e curva-se a ele, e encolha-se, e seja seu servo, e você terá sua recompensa no desprezo eterno. Mas você está disposto a assumir sua sorte fora do acampamento com Jesus, e ser reconhecido como não sendo deste mundo, porque Ele te escolheu para fora do mundo? Então espere receber medidas duras, espere ser mal interpretado e mal representado, e será desprezado, pois sua recompensa será quando Ele vier, mas esta recompensa deverá superar tudo o que você aguentar aqui em baixo! Eu acho que Davi nunca manifestou de forma mais clara ser um eleito de Deus, do que no passado, quando ele era um fora-da-lei. Ele nunca pareceu um grande homem, como quando ele estava entre as veredas das cabras montesas de En-Gedi, nunca tão grande como quando ele está passando pelo deserto, enquanto Saul estava caçando-o, ou de pé à meia-noite sobre o corpo adormecido de seu inimigo, e dizendo: “eu não vou tocá-lo, pois ele é o ungido do Senhor”. Nós não lemos de muitas falhas, e deslizes, e erros até então. O fora-da-lei Davi é certamente manifestado a todo o Israel ser o escolhido de Deus, porque o escolhido do homem não pode suportá-lo. Os mais felizes e melhores dias, eu acredito, para o povo de Deus são quando eles estão mais banidos dos homens, quando eles são colocados para fora da sinagoga, e quando aquele que os matasse pensaria que fez um serviço para Deus. Os dias mais brilhantes para a piedade Cristã foram os dias de martírio e perseguição. A Escócia tem muitos santos, mas ela nunca teve tais valorosos santos como aqueles que viveram nos tempos da aliança. Inglaterra teve muitos bons teólogos que ensinaram a Palavra, mas a Era Puritana foi a idade de ouro da literatura Cristã da Inglaterra. Confie nisso, você encontrará que em sua própria vida você pode ter muitos dias de céu sobre a terra, mas o lugar de perseguição e rejeição será o local onde Jesus Cristo mais se manifesta a você. Você está decidido a não se conformar com este mundo? Você está disposto a suportar com Cristo o peso da batalha, e como os peixes vivos nadar contra a corrente? Você está pronto para se destacar como os outros santos filhos nos dias de Nabucodonosor, e dizer, como os apóstolos nos dias de sumos sacerdotes: “julgai vós se é justo, diante de Deus, ouvir-vos antes a vós do que a Deus”? [Atos 4:19]. Você abandonou o temor do homem? Você já tomou a cruz para usar como seu ornamento e tesouro maior e melhor? Se assim for, você está dando a melhor evidência de ter sido escolhido do mundo, porque você não é do mundo. Lembre-se, para concluir, que depois que todos os conflitos foram finalizados, Davi foi coro-

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ado. Todo o Israel e todo o Judá enviaram para buscar Davi, e eles o fizeram rei; em meio ao ressoar dos chifres, e a homenagem e músicas, e alegria do povo, Davi, o eleito, foi reconhecido publicamente. A coroa foi colocada sobre a sua cabeça, o manto imperial enfeitou a sua pessoa, ele assinou os decretos, e a sua palavra era lei desde Dã até Berseba. O dia vem quando semelhante deverá ser verdadeiro em relação ao comum e o mais desprezado dos eleitos de Deus! “Em verdade”, disse o apóstolo, “que ainda não vemos”, não podemos vê-lo, só a fé pode discernir, mas deverá aparecer, Ele vem! A aparição se aproxima! Nossa cabeça deve ainda usar a coroa, quando nós reinaremos com Cristo Jesus! Acho que até esta terra, que nos tem desprezado, há de saber que nós [somos] como reis quando reinarmos com Ele. Nós ainda deveremos ser colocados sobre a púrpura imperial, a partir do rio, até aos confins da terra, os santos hão de possuir o Reino, e quando Jesus voltar para julgar o povo, haveremos de julgar os anjos, sentados como avaliadores com Ele, dando o nosso veredito e adicionando os nossos “améns” a todas as Suas sentenças. Nem, mesmo no próprio Céu, os anjos deverão ser nossos servos, os quais devem ser espíritos ministradores aos herdeiros da salvação, e nos assentaremos no trono. Ó Cristão, você não conhece a pompa que ainda deverá cercá-lo! Você teve algum vislumbre da glória do Salvador, e dignidade do Salvador, mas você não esqueceu que tudo isso é seu? Lembre-se, seremos semelhantes a Ele, quando então O veremos. “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver” [João 17:24]. O mesmo lugar para você como para o Salvador, e você deverá contemplar a Sua glória, e você deverá ser participante do mesmo! Por que, então, você temeria? Por que você deve estar abatido e desanimado por causa das provações no caminho? Venha! Crie coragem! Uma hora com o seu Deus compensará tudo. Um vislumbre dEle, e o que parecerá a perseguição? Você foi chamado de nomes feios. Más palavras foram atiradas sobre você, mas o que serão elas quando você deverá ouvi-lO dizer: “Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” [Mateus 25:34]? Não! O trovão do mundo se vai como um sussurro no meio do rol mais glorioso de aclamações angelicais, e o sibilar de inimizade está todo esquecido em meio ao beijo de amor que o Salvador dará em todos os Seus fiéis. Animados pela recompensa, eu oro para que vocês prossigam adiante! Maior riqueza do que todos os tesouros do Egito vocês terão por renunciar tudo por amor a Cristo! “Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida” [Apocalipse 2:10]. Queira Deus que possamos ser encontrados entre o número dos eleitos da graça Divina, e nenhum de nós seja lançado fora, e Seu será o louvor para todo o sempre. Amém.

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Eleição e Vocação Por R. M. M’Cheyne [Este texto é uma compilação de Escolhidos Para a Salvação & Chamados Com Uma Santa Vocação]

I. ELEIÇÃO – Escolhidos Para a Salvação

“Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade.” (2 Tessalonicenses 2:13) Quando viaja por países papistas, onde o povo se curva diante de imagens de madeira e pedra, e onde a Palavra de Deus é esquecida, a mente de um crente se volta para as temíveis palavras nos versículos precedentes com um sentimento de tristeza inexprimível; e, novamente, quando a mente vagueia a partir destas desoladas regiões para o pequeno rebanho de queridos crentes na bem-aventurada Escócia, isto proporciona algo do deleitável sentimento com o que Paulo escreveu estas palavras: “devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor”. 1. Aqui nós somos ensinados que Deus é soberano ao escolher as almas que são salvas. (i) Ele é soberano em escolher homens, e não anjos rebeldes. Nós lemos na Bíblia sobre duas grandes apostasias contra Deus. A primeira ocorreu no céu. Lúcifer, filho da alva, um dos mais brilhantes anjos que estavam ao redor do trono, rebelou-se por meio do orgulho juntamente com miríades de santos anjos. “E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação” [Judas 1:6]. “Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo” (2 Pedro 2:4). A próxima rebelião foi no paraíso. O homem confiou mais em Satanás do que em Deus, e comeu do fruto proibido. “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores” [Romanos 5:19]. Ambas as linhagens pecaram contra o mesmo Deus, quebraram a mesma santa Lei, caíram sob a mesma maldição, e foram condenados ao mesmo fogo. Agora, agradou a Deus, em infinita compaixão, providenciar um meio de perdão para algumas destas criaturas perdidas. Ele determinou salvar alguns “para louvor da glória de sua graça”.

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Mas, a quem Ele salvará; os homens ou os anjos rebeldes? Talvez os exércitos não caídos do Céu suplicaram que os seus antigos anjos irmãos fossem salvos, e os homens deixados. Eles podem ter dito que a natureza angélica era mais elevada e nobre, que o homem era um verme. “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus!”. Ele não poupou os anjos. Ele passou pelo portão do inferno; Ele não ergueu a cruz do Calvário ali. “Porque, na verdade, ele não tomou os anjos, mas tomou a descendência de Abraão” (Hebreus 2:16). (ii) Ele é soberano em escolher os países que têm a luz do Evangelho. Todas as nações são igualmente perdidas, e desprezíveis aos olhos de Deus. “E de um só sangue fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra”. E ainda quão distintamente Ele trata com diferentes povos. Porque Deus escolheu a Israel para ser a Sua herança peculiar, e para ter os oráculos de Deus confiados a eles? Foi por que eles eram mais justos do que outros? Não; isto é expressamente negado: “Sabe, pois, que não é por causa da tua justiça que o Senhor teu Deus te dá esta boa terra para possuí-la, pois tu és povo obstinado” (Deuteronômio 9:6). Nem foi por causa de sua grandeza: “O Senhor não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos; mas, porque o Senhor vos amava” (Deuteronômio 7:7-8). Outrossim, porque a China, com seus abundantes milhões, tem sido cercada pelos séculos, e deixada nas trevas dos seus ídolos vãos? Por que a Índia foi deixada sob os cruéis grilhões do Hinduísmo? Por que a África tem sido em grande parte entregue à bruxaria e superstição? Por que a própria face da Europa tem sido em grande parte entregue às desilusões do homem do pecado; e porque a nossa própria ilha gelada foi escolhida para ser um tão resplandecente repositório da verdade em todo o mundo? Somos nós melhores do que eles? Não, de forma nenhuma. Existem pecados cometidos em nosso meio que poderiam até mesmo envergonhar os pagãos. “O teu caminho é no mar” [Salmos 77:19]. “Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer” [Romanos 9:18]. (iii) Deus é soberano no que diz respeito a escolher as pessoas mais improváveis para serem salvas. Vocês poderiam esperar que a maioria dos ricos fossem salvos. Eles têm mais tempo para as coisas de Deus; eles não são incomodados pelos temores da pobreza; eles podem adquirir todas as vantagens. E ainda, ouçam a Palavra de Deus: “Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam?” (Tiago 2:5). Vocês também poderiam ter pensado que Deus escolheria os sábios e eruditos para serem salvos. O Evangelho é um assunto de profunda sabedoria. A Bíblia foi escrita em Línguas antigas, difíceis de serem aprendidas. E homens mais educados são geralmente livres de desvan-

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tagens, das quais as pessoas comuns são sujeitas. E ainda, ouçam a palavra de nosso Senhor: “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve” [Mateus 11:25-26]. Vocês poderiam ter pensado que certamente Deus salvará as pessoas mais virtuosas do mundo. Ele é o Deus da pureza, que ama o que é santo; e embora ninguém seja justo, nem mesmo um só, contudo, alguns são menos manchados com o pecado do que outros. Certamente Ele escolherá esses. O que o Senhor Jesus diz aos Fariseus? “Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus”. O irrepreensível jovem rico é deixado ir embora entristecido, enquanto o Rei da glória entra em um portão de pérola da Nova Jerusalém com um ladrão lavado em Seu sangue ao Seu lado. Se a minha alma é salva, eu não sou compelido a dar ações de graças? Se os ministros são compelidos a agradecer a Deus pela livre salvação do seu povo, quanto mais nós mesmos somos obrigados a louvá-lO por nos salvar. Eu não sou melhor do que um anjo rebelde. Os demônios nunca rejeitaram a Cristo como eu o fiz, e ainda assim, Ele passou por eles e salvou-me. Eu não sou melhor do que um Chinês ou um Hindu, e ainda assim, a graça passou por milhões deles e veio até mim. Eu não era melhor do que os pecadores ao meu redor, talvez pior do que a maioria, e ainda assim, eu creio que posso dizer: “Tu livraste a minha alma do inferno mais profundo” [Salmos 86:13]. Glória a Deus ao Pai, pois Ele me escolheu antes da fundação do mundo. Glória a Jesus, pois Ele passou por milhões e morreu por mim. Glória ao Espírito Santo, pois Ele veio com livre amor e despertou-me. 2. Nós somos ensinados que Deus escolhe os meios bem como os fins. “Ele vos elegeu desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade”. O primeiro passo que Deus escolhe para que Seu povo chegue é a “fé da verdade”. Deus não escolhe homens para saltar dos seus pecados para a glória. Mas Ele envia o livre Espírito para ungir seus olhos e derreter seus corações, para convencer e habilitá-los a abraçar a Cristo como Ele livremente é oferecido no Evangelho. Uma simples fé sincera na verdade é o primeiro sinal de que nós fomos escolhidos para a salvação. “Todo o que o Pai me dá virá a mim” [João 6:37]. Eu fui a Jesus? Então, sei que eu sou um daqueles a quem o Pai deu a Ele antes que o mundo existisse. Eu realmente acredito na verdade como ela é em Jesus? Então, Deus me escolheu para a salvação. O segundo passo que Deus escolhe para que o Seu povo chegue, é a “santificação do Espírito”. Está escrito: “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Efésios 1:13). No momento em que a alma se abre para o

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Senhor Jesus, o Espírito Santo faz o Seu repouso nesta alma; Ele permanece ali para sempre. Ele transforma a gaiola das aves imundas em um templo de louvor a Jeová. Ele faz com que toda a alma seja gloriosa. Ele destrói o domínio do pecado; Ele enche, renova, vivifica todo o homem interior. Eu recebi o Espírito Santo? Este selo celestial foi aplicado ao meu coração, imprimindo sobre mim as características e mente de Jesus? Eu tenho a santificação do Espírito? Então, eu tenho a clara evidência que o meu chamado e eleição são seguros. Eu posso olhar para trás, para minha eleição antes da existência do mundo; e olhar adiante para minha salvação quando o mundo passar. Quão tola é a presunção daqueles que dizem: “Se eu não sou eleito, eu não posso ser salvo, independentemente do que eu faça; e se eu sou um eleito, eu serei salvo independente da forma que eu viva”. A simples resposta é esta: Se você é eleito ou não, você não pode ser salvo sem a fé na verdade, e santificação pelo Espírito. O que está escrito no Livro da Vida do Cordeiro, eu não sei; mas o que está escrito na Santa Bíblia, eu sei, a saber: “Quem crer será salvo; mas quem não crer será condenado”. E que “sem a santificação ninguém verá o Senhor”.

II. VOCAÇÃO – Chamados Com Uma Santa Vocação

“Que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos.” (2 Timóteo 1:9) Existem duas formas pelas quais os homens são chamados a crer no evangelho. Há uma chamada exterior e uma chamada interior, uma chamada terrena e uma celestial. Todos os crentes são “participantes da vocação celestial” (Hebreus 3:1). O chamado exterior vem a todos que ouvem o som do evangelho: “Muitos são chamados, mas poucos os escolhidos”. Toda vez que o sino da igreja soa é um chamado. Este diz: “Venham pecadores, teus Sabaths estão contados. A eternidade está à mão. O povo de Deus se apressa para a casa de Deus, os ministros de Deus estão distribuindo o pão da vida. Pecador, não permaneça para trás, Jesus está chamando por ti, convidando-te, atraindo-te. Se tu pudesses ao menos ouvir, isto soaria tão jubiloso quanto um sino de casamento”. Há multidões na Escócia, que não mais ouvem o Evangelho do que o barulho do sino, e isto será o suficiente para condená-los no grande Dia. A porta aberta da igreja é um chamado, esta parece dizer: “Porfiai por entrar pela porta estreita, pois muitos procurarão

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entrar, e não poderão”. “Ide, antes, aos que o vendem e comprai-o”, antes que o noivo venha e a porta seja fechada. “Entre, entre glória eterna tu ganharás.” As janelas iluminadas da igreja, à noite, são um chamado solene. Elas clamam ao seus ouvidos: “Jesus é a luz do mundo”; “ainda por um pouco a luz está convosco”; “andai enquanto tendes a luz, para que as trevas não vos apanhem”. Jesus acendeu uma candeia, e está varrendo a casa, e buscando diligentemente para encontrar as dracmas de prata perdidas. “O pináculo da vila que aponta o caminho para o céu” é um apelo silencioso, este diz: “Olhem fixamente para o céu, e vejam a glória de Deus, e Jesus, que estava à direita de Deus. “Busquem pelas coisas que são do alto. Coloquem suas afeiçoes nas coisas lá de cima, não nas coisas da terra”. A voz do pregador é um chamado, esta diz: “arrependamse e creiam no evangelho, pois o reino dos céus está próximo”. “Nós somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus”. Cada folheto deixado em sua porta é um chamado Divino, este diz: “Eu tenho uma mensagem de Deus para ti”. “Eis que estou à porta e bato”. Cada página de sua Bíblia é uma chamado, elas dizem: “Examinai as Escrituras. Eu sou capaz de fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus. Eu fui dada por inspiração de Deus, e sou útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e instrução na justiça”. A morte de cada amigo não-convertido é uma apelo ruidoso, que diz: “Se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis”. “Está ordenado a todos os homens morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo”. “Prepara-te para encontrares com o teu Deus”. Pode ser verdadeiramente dito para todo pecador que lerá estas palavras, que você foi agora chamado, advertido, convidado a escapar da ira vindoura, e para lançar-se a Cristo, que está posto diante de você. Se você não obteve o suficiente para salvar-se, você teve o suficiente para condenar-te. Entretanto, todos os que estão em Cristo receberam o chamado interior. Todos os que, como Timóteo, têm “fé não fingida”, e receberam “o Espírito de poder, de amor e de moderação”, foram “salvos e chamados com uma santa vocação”. Esta é a obra do Espírito Santo; e portanto, este é denominado um chamado santo. É o chamado do invisível Espírito do Todo-Poderoso que docemente inclina a vontade, e derrete o coração do pecador. Este também é um chamado salvífico. Quando Jesus disse

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a Mateus: “segue-me”, o Espírito soprou sobre seu coração e o fez disposto: “Ele se levantou e seguiu Jesus”. Quando Paulo pregou aos Tessalonicenses, ele fez um chamado exterior. Se Paulo estivesse sozinho, eles teriam permanecido tão duros quanto as rochas que colidem na encosta com as ondas do Mar Egeu. Mas o Espírito soprou sobre os seus corações, e assim o “evangelho não chegou até eles somente em palavra, mas, sobretudo, em poder, no Espírito Santo e em plena convicção” (1 Tessalonicenses 1:5). Quando Paulo pregou em Filipos, junto do rio, muitas mulheres gregas tiveram o chamado exterior. Suas palavras lhes foram agradáveis aos ouvidos. Todas permaneceram impassíveis; menos uma, cujo coração foi aberto, uma estrangeira cujo olho escuro nos dizia que ela vinha das planícies ensolaradas da Ásia. “O Senhor abriu o coração de Lídia” ( Atos 16:14). Oh, pecador! não pense que a sua leitura e o ouvir do Evangelho salvarão, por si mesmos, a sua alma. Não pense que pelo fato de ter uma Bíblia, um pastor e um lugar na Casa de Deus, que, portanto, você está em um caminho para o céu. Lembre-se que Deus deve salvá-lo, e chamá-lo com uma santa vocação. Se você não for vivificado do alto, seus chamados exteriores serão apenas cheiro de morte para a morte para sua alma. Esta será uma das principais misérias do inferno: lembrar os textos e sermões que ouviu na terra, quando você não foi a Cristo para ter vida. Bendito Deus, Tu tens “salvado, e chamado com uma santa vocação”, pois esta é “não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos” [2 Timóteo 1:9]. Toda alma salva pode dizer: “Ele não me tratou segundo os meus pecados, nem me retribuiu consoante as minhas iniquidades” [Salmos 103:10]. Ele me chamou das trevas para a maravilhosa luz, de sob a ira e maldição para o perdão e paz com Deus, da morte para a vida. Por quantos Ele passou, os quais anteriormente eram menos piores do que eu. Mas Ele se dispôs a tornar conhecidas as riquezas de Sua glória em mim, um vaso de misericórdia, que Ele, de antemão, preparou para a glória. Quão convicta da glória é a minha alma pecadora. Deus chama do Céu, e chama para o Céu. “E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” [Romanos 8:30]. Bendize o Senhor, oh, minh’alma!

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A Gloriosa Predestinação (Sermão Nº 1043)

Pregado na manhã do Dia do Senhor, 24 de março de 1872. Por C. H. Spurgeon, no Tabernáculo Metropolitano, Newington.

“Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Romanos 8:29) Você deve ter notado que, neste capítulo, Paulo havia exposto uma profunda experiência espiritual interior. Ele escreveu sobre o espírito de escravidão e o espírito de adoção, as fraquezas da carne e a ajuda do Espírito Santo. Ele escreve sobre a espera pela redenção do corpo e os gemidos inexprimíveis. Era muito natural, portanto, que uma profunda experiência espiritual deveria levá-lo a uma percepção clara das Doutrinas da Graça, pois tal experiência é uma escola em que só as grandes verdades de Deus são efetivamente aprendidas. A falta de profundidade na vida interior representa a maior parte do erro doutrinário na Igreja. Som de convicção do pecado, profunda humilhação por causa dele e uma sensação de completa fraqueza e indignidade naturalmente conduzem a mente à crença nas Doutrinas da Graça enquanto superficialidade nessas questões deixa um homem contente com um credo superficial. Esses ensinamentos, que são comumente chamados de doutrinas Calvinistas são geralmente mais amados e melhor recebidos por aqueles que tiveram muitos conflitos da alma e por isso aprenderam a força da corrupção e da necessidade de graça. Observe, também que Paulo neste capítulo estava tratando dos sofrimentos do tempo presente e embora, por fé, ele fale deles como muito insignificantes em comparação com a glória que há de ser revelada, contudo, sabemos que eles não eram pequenos em seu caso. Ele era um homem de muitas provações. Ele passou de uma tribulação para outra, por causa de Cristo. Ele nadou por muitos mares de aflição para servir à Igreja. Não me admira, portanto, que em suas epístolas ele sempre discorre sobre as doutrinas da presciência, predestinação e amor eterno, porque estes são um rico tônico para um espírito desfalecido. Para estar animado em muitas coisas que de outra forma o deprimiriam, o crente pode valerse dos mistérios incomparáveis da graça de Deus que são vinhos puros, bem purificados! Sustentado pela graça distintiva um homem aprende a gloriar-se nas tribulações, e fortalecido no amor eletivo, ele desafia o ódio do mundo e as provações da vida. O sofrimento

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é a escola da ortodoxia. Amiúde um Jonas que rejeita as Doutrinas da Graça de Deus só precisa ser colocado na barriga do grande peixe para que ele venha a clamar como o mais firme defensor da livre graça: “Ao SENHOR pertence a salvação!” (Jonas 2:9, ARA). Professos prósperos que não fazem nenhum negócio entre as ondas e vagas de Davi podem depositar um pequeno estoque pela ancoragem abençoada do propósito eterno e amor eterno, mas aqueles que estão arrojados com a tormenta e desconsolados são de outra mente. Deixe estas poucas sentenças bastarem para um prefácio. Eu não as proferi no espírito de controvérsia, mas o inverso. O nosso texto começa com a expressão: “os que dantes conheceu também os predestinou”, e muitos sentidos foram dados para esta palavra: “dantes conheceu”, embora, neste caso, um louva a si mesmo mais do que qualquer outro. Alguns têm pensado que isso significa simplesmente que Deus predestinou homens cuja história futura de antemão conheceu. O texto diante de nós não pode ser assim entendido, porque o Senhor conhece o histórico de cada homem, anjo e diabo. Por mera presciência cada homem é conhecido de antemão e ainda ninguém afirmará que todos os homens são predestinados a serem conforme à imagem do Senhor Jesus. Mas é ainda afirmado que o Senhor previu que exerceriam arrependimento, quem creriam em Jesus, e que perseverariam em uma vida coerente até o fim. Isto é facilmente concedido, mas um leitor deve usar lentes de aumento muito poderosas antes que ele seja capaz de descobrir o sentido no texto! Ao olhar atentamente para a minha Bíblia, novamente, eu não percebo tal declaração. Onde estão as palavras que você adicionou “os que dantes conheceu arrepender-se, crer e perseverar na graça?”. Eu não as encontro nem na versão em Inglês nem no original em Grego. Se eu pudesse lê-los assim, a passagem certamente seria muito fácil e alteraria grandemente as minhas opiniões doutrinárias! Mas, como eu não encontro essas palavras lá, implorando seu perdão, eu não acredito nelas. Todavia, não importa quão sábia e aconselhável uma interpolação humana possa ser, ela não tem autoridade conosco, nós nos curvamos à Sagrada Escritura, e não ao que os lustrosos teólogos podem optar por colocar sobre ela. Nenhum indício é dado no texto de virtude prevista mais do que de pecado previsto, e, portanto, somos levados a encontrar um outro significado para a palavra. Nós entendemos que a palavra “conhecer” é frequentemente usada nas Escrituras, não apenas como “conhecimento”, mas também para favor, amor e complacência. Nosso Senhor Jesus Cristo dirá, no julgamento, concernente a determinadas pessoas: “Eu nunca vos conheci” [Mateus 7:23], mas isso não significa que Ele não os conhecia, pois Ele conhece cada homem! Ele conhece os maus, assim como os justos. O significado desta passagem é: “Nunca vos conheci de modo a sentir qualquer complacência em você ou qualquer favor para contigo”. Veja também João 10:14-15 e 2

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Timóteo 2:19. Em Romanos 11:2, lemos: “Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu”, onde o sentido, evidentemente, tem a ideia de primeiro amor, e é por isso deve ser entendido aqui. Aqueles a quem o Senhor olhou com favor como Ele os previu, Ele predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho. Eles são, como Paulo coloca em sua carta aos Efésios: “predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” [Efésios 1:11]. Estou ansioso não para me demorar sobre assuntos controversos, mas para alcançar o tema do meu sermão desta manhã. Aqui temos, de acordo com o texto, que a nossa conformidade com Cristo é o objetivo da predestinação. Temos, por outro, a predestinação como a força impulsora pela qual esta conformidade será alcançada. E temos, em terceiro lugar, o Primogênito diante de nós como o fim último da predestinação e da conformidade: “a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos”.

I. Observe então, com cuidado, que NOSSA CONFORMIDADE A CRISTO É O OBJETO SAGRADO DA PREDESTINAÇÃO. A predestinação em si mesma não vou sondar agora. As coisas mais profundas devem ser deixadas com Deus. Penso que foi Bispo Hall, que uma vez disse: “Dou graças a Deus, pelo fato de que, eu não sou de Seu conselho, mas sou de Sua corte”. Se eu não consigo entender, eu não vou questionar, porque não sou Seu conselheiro, contudo vou adorar e obedecer, porque eu sou, por Sua graça, Seu servo. Ora, hoje, vendo que estamos aqui para ensinar o objetivo de Sua predestinação, será o nosso negócio ao trabalho isto: bendizer a Deus por Ele ter estabelecido tal objetivo, e oramos para que sejamos participantes no mesmo. Aqui está o caso. O homem foi originalmente criado à imagem de Deus, mas por causa do pecado essa imagem foi desfigurada e agora, nós nascemos neste mundo trazendo, não a imagem celestial de Deus, mas na imagem terrena do Adão caído. “Nós trouxemos”, diz o Apóstolo, na primeira Epístola aos Coríntios, “a imagem do terreno” [1 Coríntios 15:49]. O Senhor, em infinita graça, decidiu que uma multidão a qual nenhum homem não pode contar, chamada aqui de “muitos irmãos”, deve ser restaurada à imagem e forma particular que o Seu Filho Eterno exibe. Para isso Jesus Cristo veio ao mundo e nasceu à nossa imagem, para que, através de Sua graça, possamos ter Sua imagem. Ele se tornou um participante das nossas fraquezas e enfermidades para que possamos ser participantes da natureza Divina em toda a sua excelência e pureza. Portanto, a única coisa a que o Senhor está trabalhando em nós através do Seu Espírito, tanto pela providência quanto pela graça, é a semelhança do Senhor do Céu. Ele está cada vez mais transformando o eleito, para remover sua contaminação do pecado e moldá-lo segundo o modelo perfeito de Seu Filho,

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Jesus Cristo — o segundo Adão, que é o primogênito entre os “muitos irmãos” [Veja 1 Coríntios 15:45-49]. Agora, observe que esta conformidade com Cristo encontra-se em vários aspectos: Em primeiro lugar, devemos ser conformados a Ele em nossa natureza. Qual era a natureza de Cristo, então, como Divino? Não devemos nos intrometer nisto, mas sabemos que Ele era, na verdade, da natureza de Deus. “Gerado, não criado”, diz o Credo de Atanásio, e ele, em verdade, também diz: “de uma só substância com o Pai”. Ora, nós também, ainda que em nossa conversão sejamos feitos novas criaturas, somos também descritos como sendo: “gerados de novo para uma viva esperança” [1 Pedro 1:3]. Pois ser gerado é algo mais do que ser feito — este é um trabalho mais pessoal de Deus — e o que é gerado está em mais proximamente ligado a Deus do que alguém que apenas é criado. Assim como Cristo estava, como o Unigênito do Pai, muito acima das meras criaturas, assim também o ser gerado de Deus, no nosso caso, significa muito mais do que até mesmo a primeira e perfeita criação poderia implicar. A humanidade nosso bendito Senhor, quando Ele veio a este mundo, passou por um parto que era um tipo notável do nosso segundo nascimento. Ele nasceu para este mundo em um lugar muito humilde, em meio a bois e na manjedoura. Mas Ele não careceu nem das canções dos anjos nem da adoração das hostes celestiais! Contudo, nós também nascemos do Espírito, sem a observação humana, homens deste mundo não viam nenhuma glória em nossa regeneração, pois não foi realizada por rituais místicos ou com pompa sacerdotal. O Espírito de Deus nos encontrou em nossa humilhação, e vivificou-nos sem pompa exterior. No entanto, nesse mesmo momento, em que os olhos humanos não viram nada, os olhos seráficos contemplaram as maravilhas da graça, e anjos no Céu se regozijaram por um pecador que se arrependeu, cantando mais uma vez: “Glória a Deus nas alturas!”. Quando nosso Senhor nasceu, alguns espíritos escolhidos saudaram o Seu nascimento. Uma Ana e um Simeão estavam prontos para tomar a criança recém-nascida em seus braços e bendizer a Deus por ela. E da mesma forma, havia alguns que saudaram nosso novo nascimento com muita gratidão. Amigos e simpatizantes que assistiram à nossa salvação se alegraram quando viram em nós a verdadeira vida celestial, e de bom grado eles nos levaram para os braços da edificação dos crentes! Talvez, também, havia alguém que teve dores de parto, até que Cristo, a esperança da glória, fosse formado em nós; e quão feliz foi quando o Espírito nos fez ver que nascemos de Deus! Como o nosso pai espiritual ponderou cada palavra gentil que pronunciamos em agradecimento a Deus pelos bons sinais da graça que poderiam ser encontrados em nossa conversação!

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Então, também, um pior do que Herodes procurou matar-nos. Satanás estava ansioso que a criança recém-nascida da graça fosse condenada à morte, e, portanto, enviou ferozes tentações para nos matar. Mas o Senhor encontrou um abrigo para a nossa vida espiritual infantil e preservou a criancinha viva. Em nós a viva e incorruptível semente habitou e cresceu. Muitos de vocês que nasceram de novo e se tornaram conformes à imagem de Cristo por causa de seu novo nascimento, e agora vocês são participantes de Sua natureza. Não é possível para nós sermos Divinos, mas está escrito que somos feitos “participantes da natureza divina” [2 Pedro 1:4]. Nós não podemos ser exatamente como Deus é, contudo, assim como trouxemos a imagem do terreno assim também traremos a imagem do celestial, seja o que essa imagem possa ser. No novo nascimento nos confere a imagem de Cristo assim como o nosso primeiro nascimento nos marcou com uma semelhança com os nossos pais segundo a carne. Nosso primeiro nascimento nos deu a humanidade, nosso segundo nascimento nos aliançou com a Divindade. À medida que fomos concebidos em pecado, no primeiro, e formados em iniquidade, no entanto, na regeneração nosso novo homem se renova para o pleno conhecimento, segundo a imagem dAquele que nos criou. Aquele que santifica e os que são santificados, vêm todos de um mesmo, por cuja causa Ele não se envergonha de chamar-lhes irmãos. Além disso, essa conformidade com Cristo encontra-se em relacionamento assim como na natureza. Nosso Senhor é o Filho do Altíssimo, o Filho de Deus! E, na verdade, amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser, mas sabemos que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos como Ele é. Jeová declarou que Ele será um Pai para nós e que nós seremos Seus filhos e filhas. Tão certo como Jesus é um Filho, assim certamente nós seremos, pois o mesmo Espírito dá testemunho de ambos, como está escrito: “E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai” [Gálatas 4:6]. Quando Jesus veio ao mundo como o Filho de Deus, Ele não ficou sem provas atestadas. Em Sua primeira aparição pública, quando Ele veio para as águas do Batismo, foi assinalado por uma voz excelente que veio da glória, que dizia: “Este é meu Filho amado” e descendo o Espírito, como uma pomba, pousou sobre Ele. Assim é também conosco. A voz de Deus na Palavra testemunhou a nós o amor de nosso Pai celestial, e o Espírito Santo deu testemunho com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Quando pela primeira vez nós ousamos vir a público e dizer: “nós estamos do lado do Senhor”, alguns de nós tiveram símbolos sagrados de filiação que nunca foram esquecidos por nós. E muitas vezes, desde então, temos recebido selos renovados de nossa adoção do Grande Pai de nossos espíritos. “Aquele que crê no Filho tem em si o testemu-

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nho”, de modo que ele pode, com seus irmãos, dizer claramente: “sabemos que já passamos da morte para a vida” [1 João 3:14]. Deus nos deu a plena certeza e testemunho infalível, e em tudo isso nos alegramos. Nós acreditamos em Jesus, e está escrito: “A todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” [João 1:12]. Nosso Senhor foi declarado ser o Filho de Deus pelas ações que Ele realizou, tanto para com Deus e para com o homem. A medida que o Filho serviu Seu Pai — você pode ver a natureza de Deus nEle — em Sua profunda simpatia para com Deus e em Sua imitação exata de Deus. Tudo o que Deus teria feito sob as circunstâncias, Jesus fez. Você percebe de uma vez, por Seus feitos, que Sua natureza era Divina. Suas obras deram testemunho dEle. Era sempre evidente que Ele agia para com Deus como um filho para com um pai. Agora na proporção em que a determinação de Deus foi realizada em nós, agimos em relação a Deus como filhos para um pai amoroso. E enquanto os filhos das trevas falam de si próprios, e como seu pai, que é um mentiroso, falam a mentira; e como seu pai, que é um assassino, agem com ira e amargura. Contudo os filhos de Deus falam a verdade, pois Deus é a verdade. E eles são cheios de amor, pois Deus é amor. E sua vida é luz, pois o seu Deus é luz. Eles sentem que eles devem agir, nas circunstâncias em que são colocados, como eles supõem que Jesus teria agido, que é o sempre bendito Filho do Pai. Além disso, Cristo operou milagres de misericórdia para com os homens que provaram ser Ele o Filho de Deus. É verdade que podemos não operar milagres, mas nós podemos fazer obras que caracterizam os filhos de Deus. Nós não podemos partir o pão e multiplicá-lo. Podemos, no entanto, generosamente distribuir o que temos e assim, em alimentar os famintos, provaremos que somos filhos de nosso Pai que está nos céus. Nós não podemos curar o doente com nosso toque, contudo, podemos cuidar dos doentes e assim, em amor para com o sofrimento nós podemos provar que somos filhos do terno e sempre compassivo Deus. Mas o nosso Senhor nos disse que obras maiores do que as Suas próprias faremos porque Ele se foi para Seu Pai, e essas maiores obras nós fazemos. Nós podemos fazer milagres espirituais. Hoje, não podemos ir ao túmulo do pecador morto, e dizer: “Lázaro, vem para fora”? E não tornou Deus muitas vezes os mortos a ressuscitá-los pela nossa palavra, pelo poder do Seu Espírito? Hoje, também, nós podemos pregar o Evangelho de Jesus Cristo, lançando-o sobre nós como se fosse a nossa capa, e aquele que toca a orla do mesmo, não deverá ele também ser curado hoje, como quando Jesus estava entre os homens? Este dia, se não partimos peixes e pães de cevada, trazemos-lhe melhor comida! Este dia, se não podemos dar aos homens a abertura dos olhos e os ouvidos, ainda no ensino do

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Evangelho de Jesus, pelo poder do Espírito, o olho mental é clareado e ouvido da alma também é purgado, de modo que em cada filho de Deus, na proporção em que ele trabalha com o poder do Espírito para Cristo, as obras que ele faz dão testemunho de que ele é um filho de Deus! Seu zelo em fazê-las prova que ele tem o espírito de um filho de Deus. E o resultado dessas obras prova que Deus opera nele como Ele nunca operar em alguém, senão em Seus próprios filhos. Portanto, em relação, à natureza, nós somos conformes à imagem de Cristo! Em terceiro lugar, devemos ser conformes à imagem de Cristo em nossa experiência. Esta é a parte do assunto a partir do qual o nosso espírito covarde muitas vezes recua, mas se fôssemos sábios, não seria assim. Qual foi a experiência de Cristo neste mundo? tal será a nossa! Podemos resumir como se referindo a Deus, aos homens, ao Diabo, e a todos os males. Sua experiência no que diz respeito a Deus, o que foi isso? “Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu” [Hebreus 5:8]. Embora sem pecado, Ele não esteve sem sofrimento. O primogênito da família Divina esteve mais severamente castigado do que qualquer outro da casa. Ele foi ferido de Deus e oprimido até que, como o clímax de tudo, Ele clamou Eloi, Eloi, lama sabactâni? Oh! a amargura daquele grito: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” [Marcos 15:34]. Isto foi o Pai esmagando o Primogênito! E, se você e eu, irmãos e irmãs, devemos ser conformes à imagem do Primogênito, embora possamos esperar de Deus amor mui paternal, também podemos contar que Ele mostrará Sua disciplina paterna. Se vocês estiverem sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, são então bastardos, e não filhos! Mas, se vocês são verdadeiros filhos, como o Primogênito, a vara fará vocês inteligente e às vezes você vai ter que dizer: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”, “Porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho. Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija?” [Hebreus 12:6-7]. Se estamos predestinados para sermos conformes à imagem de Seu Filho, o Senhor nos predestinou para muitas tribulações, e, através delas herdaremos o Reino! Vejamos agora nossa querida Cabeça Pactual em Sua experiência em relação aos homens. “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” [João 1:11]. “Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens” [Isaías 53:3]. Ele disse: “Afrontas me quebrantaram o coração, e estou fraquíssimo” [Salmos 69:20]. Agora, os irmãos, na própria proporção em que estamos conformes à imagem de Cristo, teremos de “sair, pois, a ele fora do arraial, levando o nosso vitupério” [Hebreus 13:13]. O discípulo, se é verdadeiro não está acima do seu mestre, nem o servo acima do seu Senhor. Se chamaram o dono da casa Belzebu, muito mais eles chamarão os de Sua casa por algum título ainda mais infame se eles pude-

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rem inventar. Os santos de Deus não devem esperar coroas onde Cristo encontrou uma cruz! Eles não devem achar que andarão em triunfo por aquelas ruas, que viram o Salvador apressado para a morte de um malfeitor. Devemos sofrer com Ele, se quisermos ser glorificados com Ele. A comunhão em Seus sofrimentos é necessária para a comunhão em Sua glória. Em seguida, considere a experiência de nosso Senhor no que diz respeito ao príncipe das potestades do ar. Satanás não era amigo de Cristo, mas encontrando-O no deserto, ele veio a Ele com esse maldito “se”: “Se você é o Filho de Deus” [Lucas 4:3]. Com que ataque à Sua filiação o demônio começou a batalha. “Se você é o Filho de Deus”. Você sabe como três vezes ele atacou-o com as tentações que são mais susceptíveis para poder atrair a pobre humanidade, mas Jesus venceu todos elas. O arqui-inimigo, o velho dragão, sempre foi mordiscando o calcanhar do nosso grande Miguel, que para sempre esmagou sua cabeça. Estamos predestinados a sermos conforme a Cristo a esse respeito — a sutileza e crueldade da serpente nos atacarão, também — uma cabeça tentada envolve membros tentados. Satanás deseja ter-nos e nos peneirar como trigo. Ele atacou o Pastor e ele nunca deixará de se preocupar com as ovelhas. Na medida em que somos da descendência da mulher, deve haver inimizade entre nós e a semente da serpente. E, contra o mal, toda a vida de nosso Senhor foi uma batalha perpétua. Ele estava lutando contra o mal em lugares altos e em baixo; o mal entre os sacerdotes e entre as pessoas; o mal da religiosidade, no farisaísmo e o mal vestido de filosofia entre os saduceus. Ele lutou em todos os lugares. Ele era o inimigo de tudo o que havia de errado, falso, egoísta, profano ou impuro. E você e eu devemos ser conformados com Cristo a este respeito. Devemos ser santos, inocentes, incontaminados e separados dos pecadores. Vós sois de Deus, filhinhos, e o mundo inteiro jaz no maligno. Em quarto lugar. Devemos ser conformes a Cristo Jesus em Seu caráter. Tempo e habilidade igualmente não nos deixam falar disso. Eu só oro para que o Espírito de Deus possa fazer nossas vidas falarem a este respeito. Ele foi consagrado a Deus, assim devemos ser. O zelo da casa de Deus o consumiu, por isso deve nos consumir também. Ele entrou na casa de Seu Pai, por isso devemos sempre estar ocupados. Em relação ao homem, Ele era todo amor, façamos o mesmo. Ele era gentil, amável e terno, e como Ele foi, devemos ser neste mundo. Ele não quebrou a cana quebrada, nem apagou o pavio que fumegava, nem nós deveríamos. No entanto, Ele foi severo na denúncia de todos os males, assim devemos ser. Pureza, santidade, altruísmo, todas as virtudes devem brilhar em nós como elas brilhavam nEle. Ah, e bendito seja o Deus que elas também brilharão pela obra do Espírito!

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Nosso texto fala não só do que deveríamos ser, mas o que havemos de ser, por que estamos predestinados a ser conformes à imagem do Filho de Deus! Meus irmãos e irmãs, este é um modelo glorioso! Eis que maravilho-me nele! E graças a Deus por isso! Você não deve conformar-se com o mais poderoso dos apóstolos, um dia você será mais puro do que foram Paulo ou João, enquanto aqui em baixo! Você não será conformado com o mais sublime dos profetas, vocês serão como Mestre dos profetas! Você não deve se contentar com a sua própria concepção do que é belo e encantador, a concepção perfeita de Deus encarnado em Seu próprio Filho é ao que você certamente será trazido pela predestinação de Deus! Apenas mais uma sentença sobre outro ponto. Devemos ser conformes a imagem de Seu Filho, em quinto lugar, quanto à nossa herança, pois Ele é herdeiro de todas as coisas, e porque somos menos herdeiros, uma vez que todas as coisas são nossas? Ele é herdeiro deste mundo. “Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés: todas as ovelhas e bois, assim como os animais do campo, as aves dos céus, e os peixes do mar, e tudo o que passa pelas veredas dos mares” [Salmos 8:68]. Nós não vemos, ainda, todas as coisas postas sob o homem, mas vemos Jesus que fora feito um pouco menor que os anjos pelo sofrimento da morte, foi coroado de glória e honra! E na Pessoa de Jesus Cristo neste dia, nós, os homens feitos à Sua imagem, teremos domínio sobre todas as coisas, sendo todos feitos reis e sacerdotes para Deus, e em Cristo Jesus seremos ordenados a reinar com Ele para todo o sempre! “Se nós somos filhos, somos logo herdeiros também” [Romanos 8:17], diz o apóstolo. Portanto, tudo o que Cristo tem, nós temos, e embora possamos ser muito pobres e desconhecidos, no entanto, tudo o que pertence a Cristo pertence a nós. “O melhor de toda a terra do Egito será vosso”, disse José a seus irmãos. E Jesus diz isso para todo o Seu povo: “Tudo é vosso, porque sois de Cristo, e Cristo é de Deus” [1 Coríntios 3:23]. Devo concluir este ponto, o tempo passou rápido demais nesta manhã quando me estendi sobre este tema deleitoso, observando que devemos ser conformados com Cristo na Sua glória. Vamos pensar em nossos corpos, por que é um ponto cercado de consolo, uma vez que Ele transformará o nosso corpo abatido e a o fará semelhante ao Seu corpo glorioso! Nós somos como Adão, agora, na fraqueza e dor, e seremos em breve como ele na morte, retornaremos ao pó de onde fomos tirados. Mas ressuscitaremos para uma vida melhor! E então nos vestiremos de glória e incorrupção à imagem do segundo Adão, o Senhor do Céu! Conceba as belezas do Redentor ressuscitado! Deixe sua fé e sua imaginação operarem juntas para retratarem as glórias indizíveis do Emanuel, Deus conosco, como Ele está sentado à direita do Pai! Tal e tão brilhante serão as nossas glórias no dia da redenção do corpo! Vamos contemplar a Sua glória! Vamos estar com Ele onde Ele está, e nós sere-

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mos, nós mesmos, gloriosos em Sua glória! Ele está exaltado? Você também deverá ser exaltado! Ele é o Rei? Você não estará descoroado! Ele é um vencedor? Você também terá uma palma! Ele é cheio de alegria e regozijo? Assim também, sua alma transbordará com delícias! Onde Ele está, cada santo estará por longos tempos! Desta maneira, em grande medida, o sagrado fim da predestinação.

II. Agora, observe que a PREDESTINAÇÃO É A FORÇA IMPULSORA PARA ESTA CONFORMIDADE. Esta verdade de Deus se divide assim: É a vontade de Deus que nos conforma à imagem de Cristo, em vez de nossa própria vontade. É nossa vontade agora, mas era a vontade de Deus quando não era a nossa vontade, e isso só se tornou de acordo a nossa vontade quando estas se converteram, porque a graça de Deus nos fez dispostos voluntariamente no dia do Seu poder. Nós não podemos ser feitos como Cristo a contragosto, o consentimento da vontade é essencial para a semelhança com Cristo! Recusar-se à obediência seria desobediência. Naturalmente, nunca faremos o bem sem Deus, mas Deus opera em nós o querer e o efetuar. Deus nos trata como homens responsáveis e inteligentes, e não como pedra ou metal. Ele nos fez agentes livres e Ele nos trata como tal. Estamos dispostos agora a sermos conformados à imagem de Jesus. Sim, estamos mais do que dispostos, estamos ansiosos e desejosos por isso! Mas, contudo, a força motriz principal e primeira não estava em nossa vontade, mas na vontade de Deus, e hoje a força imutável que é melhor para ser dependente não está em nossa inconstante, débil vontade, mas na vontade imutável e onipotente de Deus. A força que está nos conformando a Cristo é a vontade de Deus na predestinação! E assim também, é antes uma obra de Deus do que nossa obra. Estamos trabalhando com Deus na questão de nos tornarmos semelhantes a Cristo. Não devemos ser passivos como a madeira ou mármore, devemos estar sempre em oração, vigilante, fervorosos, diligentes, obedientes, sinceros e crendo, mas ainda assim a obra é de Deus. A santificação é a obra do Senhor em nós. “Tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” [Isaías 26:12]. Desde o início, e agora, e até o fim: “Aquele que tem trabalhado em nos a mesma coisa é Deus, que também nos deu o penhor do Espírito”. Não há santidade em nós como que originado em nós mesmos. Não há coisa boa em nós de nossa própria feitura. “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto” [Tiago 1:17]. “Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória” [Salmos 115:1]. Entretanto, a verdade é que somos agentes livres, mas o Senhor é o Oleiro, nós somos o barro sobre a roda, e é Sua obra, e não a nossa, que nos torna semelhantes a Cristo. Se existir um contato do nosso dedo em qualquer parte sobre o recipiente, este contato estra-

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ga, e não embeleza. É só onde a mão de Deus esteve que o vaso começa a assumir a forma do modelo. Assim, amados, toda a glória deve ser dada Deus não a nós. É uma grande honra para qualquer homem ser semelhante a Cristo, Deus não tem a intenção de que Seus filhos não devam ter nenhuma honra, pois Ele coloca honra sobre Seu próprio povo. Mas, a verdadeira glória está com Ele, pois Ele nos fez e não a nós mesmos. Não podemos dizer, nesta manhã, com o coração agradecido: “Pela graça de Deus sou o que eu sou”? E nós não sentimos que vamos colocar todas as nossas honras sejam elas quais forem, aos Seus queridos pés que, de acordo com a Sua grande misericórdia, nos predestinou para sermos conformes à imagem de Seu Filho?

III. Agora eu devo ir para o terceiro ponto com brevidade. Ele docemente transparece que o FIM ÚLTIMO DE TUDO ISSO É CRISTO. “Predestinados para sermos conformes à imagem de seu Filho, para que Ele”. “Ele”, Deus está sempre dirigindo em algo para Ele, Seu Filho bem-amado. Ele visa a sua própria glória na glória de Seu Filho amado. Embora, Ele nos abençoe, o texto do último domingo, ainda é verdade: “Por amor de mim, por amor de mim o farei, porque, como seria profanado o meu nome? E a minha glória não a darei a outrem” [Isaías 48:11]. É por causa de um superior, Alguém melhor do que nós, é “para que Ele seja o primogênito”. Agora, se eu entendi a passagem que está diante de nós, esta significa que: Em primeiro lugar, Deus nos predestina para sermos como Jesus para que Seu Filho amado possa ser o primeiro de uma nova ordem de seres elevados acima de todas as outras criaturas, e mais próximos de Deus do que quaisquer outras existências. Ele era o Senhor dos anjos, serafins e querubins que obedeciam seus decretos. Mas o Filho desejava estar na cabeça de uma raça de seres maiores mais próximos a Ele do que quaisquer espíritos existentes. Não havia nenhum parentesco entre o Senhor Jesus e os anjos, pois a qual dos anjos o Pai disse a qualquer momento: “Tu és meu Filho?” [Hebreus 1:5]. Eles são, por natureza, servos, e Ele é o Filho, esta é uma grande distinção. O Filho Eterno desejou associação com os seres que deveriam ser filhos como Ele era, no sentido de que Ele poderia estar em uma relação estreita como sendo para eles na natureza e filiação. E o Pai, por isso, ordenou que uma semente de quem Ele escolheu que deveria ser conforme à imagem do Filho, que Seu Filho pudesse ser cabeça e ser o primeiro entre uma ordem de seres mais próximos de Deus do que qualquer outra. A serpente disse a Eva: “Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal” [Gênesis 3:5]. Essa mentira, tinha nela, algo de verdadeiro, pois pela graça soberana nos tornamos tal. Não houve criaturas obedientes do mundo desse tipo, conhecendo o bem e o mal, nos dias de glória do Éden. Os anjos do

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Céu tinham conhecido o bem, e somente o bem, e preservados pela graça não caíram. O espírito maligno tinha caído, e ele conhecia o mal, mas ele tinha esquecido do bem e era incapaz de alguma vez escolhê-lo novamente. Ele agora está para sempre banido da esperança de restauração. Mas aqui estamos nós que conhecemos o bem e o mal! Nós conhecemos tanto um quanto o outro. E agora está gerada em nós uma natureza que ama a santidade e não pode pecar, porque é nascida de Deus, no tornamos agentes livres, sim, nós somos mais livres do que jamais fomos. E ainda nesta vida, e na vida por vir, nosso caminho é como o dos justos que brilha mais e mais até ser dia perfeito! Os anjos não conhecem o mal. Eles nunca tiveram que lutar com o mal conhecido e sentido interiormente. Eles ainda não experimentaram os caminhos do prazer pecaminoso. E, pela graça que eles são transformados a partir deles, de modo com pleno propósito de coração eles se apegarão à santidade para sempre. Jesus agora prossegue em uma corrida assediada, mas vitoriosa, extremamente tentado, mas capacitado a superar! Com júbilo e alegremente para sempre deverá ser o nosso prazer em fazer a vontade do Pai. Para sempre com Cristo, à nossa frente, estaremos muito próximos do trono eterno, os mais achegados dos servos, porque também filhos, os mais firmemente inclinados para o bem, porque uma vez conhecemos a amargura do mal! Embora Cristo tenha tido que beber o cálice de sofrimento pelo pecado, nós também tomamos um gole dele. Nós conhecemos o horror causado pela culpa e, portanto, no futuro seremos por toda a eternidade uma raça mais nobre, mais livre para servir, e servindo a Deus de certo modo mais nobremente do que qualquer outra criatura no universo! Suponho que este é o significado do texto: que o Senhor quer que Cristo seja o primeiro de uma ordem mais nobre de seres. Mas, em segundo lugar, o objetivo da graça é que haja alguém no Céu com quem Cristo possa manter uma conversa fraternal. Observe a expressão, “muitos irmãos”, não que Ele seja o primogênito entre muitos, mas entre os “muitos irmãos”, que devem ser como Ele. Nosso bendito Senhor se deleita na comunhão, tal é a grandeza de Seu coração que Ele não quis estar sozinho em Sua glória, mas associado em Sua felicidade. Agora, eu falo com a respiração suspensa. Deus pode fazer todas as coisas, mas eu não vejo nenhuma maneira pela qual Ele poderia dar ao Seu Filho Unigênito seres que deveriam ser semelhantes a Ele, exceto através dos processos que descobrimos na economia da graça. Aqui estão os seres que conhecem o mal, e também conhecem o bem. Aqui estão os seres colocados sob obrigações infinitas por laços de amor e gratidão a escolher sempre o bem. Aqui estão os seres com uma natureza tão renovada que sempre serão seres santos, e esses seres podem comungar com o Deus encarnado mediante o sofrimento, de uma maneira que os anjos não podem. Eles podem discutir sobre a pena de culpa como os anjos

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não podem, sobre as crises do coração, sobre conflitos, acusações e quebrantamento de espírito como os anjos não podem, e para eles o Senhor Jesus pode revelar a glória da santidade, a felicidade de vencer o pecado e a doçura da benevolência, como só eles podem compreender! Homens renovados são feitos companheiros aptos para o Filho de Deus! Ele deve festejar com tanto mais alegria, porque comerão o pão com Ele em Seu reino! Ele se alegra quando declara o nome do Senhor a Seus irmãos! Ele se alegra em sua alegria, e nos alegraremos na alegria dEle. Sem dúvida, no entanto, o texto significa que estes irão sempre amar e honrar o Senhor Jesus Cristo. Os filhos olham para o primogênito. No Oriente, o primogênito é o senhor e rei da casa. Nós amamos Jesus agora, e O estimamos como o nosso Cabeça e Chefe. Como nós, quando uma vez chegarmos ao Céu, O amaremos e adoraremos como o nosso querido Irmão mais velho com quem estaremos em termos de familiaridade mais próximos em obediência reverente! Quão alegremente vamos servi-lO! Como O adoraremos com entusiasmo! Não precisaremos altear nossas vozes até que se tornem como trovão, ou como muitas águas, ou certamente não seremos capazes de louvá-lO como gostaríamos? Se há trabalho a fazer para Ele em eras futuras, seremos os primeiros a nos oferecer para o serviço. Se houver batalhas a serem travadas nos tempos vindouros com outras raças rebeldes; se houver servos necessários para voar ao longo dos vastos domínios do infinito para levar mensagens de Jeová, que voarão tão rapidamente como veremos quando uma vez estivermos em Seus átrios, nós habitaremos não como meros servos, mas como membros da família real, participantes da natureza Divina, mais próximos ao próprio Deus. Que felicidade saber que Ele, que é “Deus, verdadeiramente”. E assenta-se no trono eterno, é também da mesma natureza que nós, de nossa parentela, que não se envergonha, mesmo em meio aos direitos de glória, de chamar-nos irmãos! Ó irmãos, que honras são as nossas! Que tal herança está diante de nós! Quem entre nós iria querer trocar de lugar com Gabriel? Nós não teremos nenhuma necessidade de invejar os anjos, pois o que eles são, senão espíritos ministradores, servidores nos salões de nosso Pai? Somos filhos, e filhos que de maneira nenhuma pertencem a ordem inferior! Não há filhos de uma ordem secundária como os filhos de Abraão nascidos de Quetura, ou como o filho da escrava, mas somos Isaques de Deus nascido segundo a promessa! Somos herdeiros de tudo o que Ele tem, uma semente amada do Senhor para sempre! Oh! que alegria deve encher nossos espíritos, nesta manhã, com a perspectiva que este texto revela, que assegura a predestinação! Talvez o nosso pensamento mais amplo sobre o texto é este: Deus era tão bem satisfeito com o Seu Filho, e via tais belezas nEle que Ele determinou multiplicar a Sua imagem: “Meu amado”, Ele disse, “Tu serás o modelo pelo qual eu vou formar minhas mais nobres criatu-

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ras. Vou, por Tua causa, fazer homens capazes de conversar conTigo, e ligados a Ti por laços de amor, devem ser os mais próximos e semelhantes a mim mesmo, em todas as coisas Tu és”. Eis que, a partir da cunha do Céu, peças de ouro de valor inestimável são enviadas, e cada um tem a imagem e a inscrição do Filho de Deus. O rosto de Jesus é mais agradável a Deus do que todos os mundos! Seus olhos são mais brilhantes do que as estrelas! Sua voz é mais doce do que a felicidade, por isso, o Pai quis que a beleza de Seu Filho fosse refletida como que em 10.000 espelhos, nos santos, bem como Ele e Seus louvores cantados por milhares de vozes daqueles que O amam, porque Seu sangue os salvou. O Pai sabia o quão feliz Seu Filho seria ao associar Seus escolhidos com Ele, pelas Suas antigas delícias com os filhos dos homens. Como o pastor ama as suas ovelhas, como um rei ama seus súditos, assim Jesus ama ter o Seu povo à Sua volta. Mas ainda mais profundo é o mistério, uma vez que não é bom para o homem ficar sozinho. E quanto a esta causa que o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher e eles serão uma só carne, assim é com Cristo e Sua Igreja. Ele foi feito como ela para sua salvação, e agora ela é feita como Ele para Sua honra. De que maneira poderia o Pai dar maior honra a Seu Filho do que através da formação de uma raça semelhante a Ele que serão os muitos irmãos, entre os quais Ele é o bem amado Primogênito? Agora, irmãos e irmãs, dir-lhes-ei esta palavra e lhes enviarei para casa. Retenha o seu Modelo diante você! Você vê o que você está para tornar-se, portanto, coloque Cristo diante de seus olhos sempre. Você vê para o que você está predestinado a ser, anele a isso! Olhe para isto todos os dias. Deus trabalha, e Ele opera em você o querer e o efetuar segundo Sua própria boa vontade. Irmãos, lamentem por seus fracassos! Quando vocês verem algo em si mesmos que não é semelhante a Cristo, lamentem por causa disto, pois isso deve ser retirado. Há muitas escórias que devem ser consumidas. Você não pode mantê-las, pois a predestinação de Deus não deixará você reter alguma coisa sobre você que não está de acordo com a imagem de Cristo. Clamem veementemente ao Espírito Santo para continuar a Sua obra santificadora em vocês! Roguem a Ele para não ficar ofendido e indignado, e, portanto, em qualquer medida detenha Sua mão. Clame: “Senhor, me molde! Derramame como cera e ponha o Teu selo sobre mim até que a imagem de Cristo seja claramente formada ali”. Acima de tudo, comunguem muito com Cristo. Comunhão é a fonte de conformidade. Viva com Cristo e em breve você crescerá à imagem de Cristo. Dizem de Aquiles, o maior dos heróis gregos que quando ele era criança o alimentaram com medula de leão e isso o fez corajoso. Alimente-se de Cristo e serás como Cristo. Dizem, por outro lado, do sanguinário Nero que tornou-se assim por que foi amamentado por uma mulher de feroz natureza

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bárbara. Se tomarmos nossa nutrição do mundo, seremos mundanos, mas se vivermos em Cristo e habitarmos nEle, nossa conformidade com Ele será facilmente conseguida, e seremos reconhecidos como irmãos daquela família abençoada da qual Jesus Cristo é o primogênito. Como eu gostaria que todas as pessoas presentes tivessem uma porção no texto! Eu lamento que alguns não tenham, pois aquele que não crê no Filho não tem a vida, e, portanto, não pode ter a conformidade com um Cristo vivo! Deus conceda a todos o crer em Cristo, agora e para sempre. Amém e amém.

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Eleição e Santidade (Sermão Nº 303)

Pregado numa manhã de Sabath, 11 de março de 1860. Por C. H. Spurgeon, em Exeter Hall, Strand.

“Eis que os céus e os céus dos céus são do Senhor teu Deus, a terra e tudo o que nela há. Tão-somente o Senhor se agradou de teus pais para os amar; e a vós, descendência deles, escolheu, depois deles, de todos os povos como neste dia se vê. Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz.” (Deuteronômio 10:14-16) Aquele que prega toda a verdade de Deus como ela é em Jesus irá trabalhar sob desvantagens contínuas, embora a grande vantagem de ter a presença e a bênção de Deus mais do que compensará a maior perda! Tem sido meu sério esforço, desde que eu tenho pregado a Palavra, nunca deixar de sustentar uma única doutrina que eu acredito ser ensinada por Deus. Este é o momento que deveríamos ter findado com velhos e enferrujados sistemas que há tanto tempo restringem a liberdade do discurso religioso. O Arminiano treme por ir um centímetro além de Armínio ou Wesley e muitos Calvinistas se referem a John Gill ou João Calvino, como a autoridade final. Esta é a hora em que os sistemas foram divididos e que não havia graça suficiente em todos os nossos corações para cremos em tudo que é ensinado na Palavra de Deus, tenha sido ensinado por qualquer um destes homens ou não. Tenho frequentemente encontrado, quando eu prego, o que é chamado de Alta Doutrina, porque eu encontrei no meu texto, que algumas pessoas tendo sido ofendidas, não poderiam apreciá-la, não poderiam suportá-la e foram embora. Geralmente, foi melhor que essas pessoas tenham ido. Eu nunca me arrependi de sua ausência. Por outro lado, quando eu tomei meu texto por algum convite doce e preguei a gratuidade do amor de Cristo ao homem, quando eu adverti os pecadores que eles são responsáveis, enquanto ouvem o Evangelho e que, se eles rejeitam a Cristo, o seu sangue será sobre suas próprias cabeças, acho que uma outra classe de, sem dúvida, excelentes pessoas, não conseguem ver como essas duas coisas se agregam. E, portanto, eles também se desviam a percorrer os pântanos lamacentos e enganosos do Antinomianismo! Só posso dizer em relação a eles, que eu também preferiria que eles saíssem para a sua própria sorte do que eles devessem permanecer com a minha congregação. Procuramos manter a verdade de Deus. Não conhecemos diferença entre Alta Doutrina e a Baixa Doutrina. Se Deus ensina algo, é o suficiente! Se não está na Palavra fora com isto! Fora com isto! Mas se está na Palavra, agradável ou desagradável, sistemática ou desor-

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denada, eu acredito! Pode parecer-nos como se uma verdade de Deus estivesse em oposição à outra, mas estamos plenamente convencidos de que isto não pode ser assim, isto é um erro em nosso julgamento. Que as duas coisas concordam nós somos bastante claros, embora onde elas se encontram não sabemos ainda, mas espero saber futuramente. Que Deus tem um povo que Ele escolheu para Si mesmo e que deve mostrar o Seu louvor, acreditamos ser uma doutrina legível na Palavra de Deus para todo homem que se preocupa em ler esse Livro com um julgamento honesto e sincero. Que, ao mesmo tempo, Cristo é livremente apresentado a toda criatura debaixo do céu e que os convites e exortações do Evangelho são convites honestos e verdadeiros, e não ficções ou mitos, não enganações e zombarias, mas realidades e fatos, nós também acreditamos sem temor! Nós concordamos com ambas as verdades de Deus, com o nosso assentimento caloroso e consentimento! Agora, nesta manhã, pode ser que alguns de vocês não aprovarão o que eu tenho a dizer. Vocês devem lembrar, porém, que eu não procuro a sua aprovação, que será suficiente para mim se eu tiver limpado minha consciência a respeito de uma grande verdade de Deus e pregado o Evangelho com fidelidade. Eu não sou responsável por você, nem você por mim! Você é responsável perante Deus, se você rejeita a Sua verdade. Eu sou responsável diante dEle se eu pregar um erro. Eu não tenho medo de estar diante de seu tribunal em relação às grandes doutrinas que pregarei a você neste dia. Agora, duas coisas nesta manhã. Em primeiro lugar, tentarei expor a eleição de Deus. Em segundo lugar, mostrarei os seus aspectos práticos. Vocês têm a ambos no texto “Eis que os céus e os céus dos céus são do Senhor teu Deus, a terra e tudo o que nela há. Tãosomente o Senhor se agradou de teus pais para os amar; e a vós, descendência deles, escolheu, depois deles, de todos os povos como neste dia se vê”, e então, em segundo lugar seus aspectos práticos, “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz”.

I. Na exposição sobre a ELEIÇÃO, você deve observar, em primeiro lugar, a sua singularidade extraordinária. Deus escolheu para Si um povo que nenhum homem pode contar, dentre os filhos de Adão, para fora dos caídos e da raça apóstata que surgiu a partir dos lombos de um homem rebelde! Agora, isso é a maravilha das maravilhas, quando passamos a considerar que o Céu, o céu dos céus, é do Senhor. Se Deus deve ter uma raça escolhida, por que Ele não selecionou uma das ordens majestosas dos anjos, ou a partir dos querubins e serafins flamejantes que estão em torno de Seu trono? Por que isso não foi estabelecido sobre Gabriel? Por que

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ele não constituiu que a partir de seus lombos poderia surgir uma poderosa raça de anjos e por que não foram estes os escolhidos de Deus desde antes da fundação do mundo? O que poderia haver no homem, uma criatura menor que os anjos, para que Deus o escolhesse ao invés dos espíritos angelicais? Por que os querubins e serafins não foram dados a Cristo? Por que Ele não tomou os anjos? Por que Ele não assumiu a sua natureza e os levou à união com Ele? Um corpo angelical pode estar mais de acordo com a Pessoa da Divindade, do que um corpo de franqueza e sofrimento de carne e osso! Haveria algo congruente se Ele tivesse dito aos anjos: “Vocês serão meus filhos”. Mas, não! Embora todos estes eram Seus, Ele passa pela hierarquia dos anjos e se inclina para o homem! Ele toma um verme apóstata e diz-lhe: “Você será meu filho”, e para miríades da mesma raça Ele clama: “sereis para mim filhos e filhas, por meio de uma Aliança eterna”. “Mas”, diz alguém, “parece que Deus pretendia escolher um povo caído para que pudesse neles manifestar Sua graça. Agora, os anjos, é claro, seriam inadequados para isso, uma vez que eles não caíram”, eu respondo: “há anjos que caíram; havia anjos que não guardaram o primeiro estado, mas caíram de sua dignidade! E como que estes são consignados à escuridão das trevas para sempre? Responda-me, vocês que negam a soberania de Deus e odeiam a Sua eleição: como é que os anjos estão condenados ao fogo eterno, enquanto para vocês, os filhos de Adão, o Evangelho de Cristo é pregado livremente?”. A única resposta que pode, eventualmente, ser dada é esta: a vontade de Deus fez assim! Ele tem o direito de fazer o que quiser com a Sua própria misericórdia! Anjos não merecem misericórdia, e nós também não! No entanto, Ele a deu a nós e Ele negou a eles. Eles estão presos em correntes, reservados ao fogo eterno para o último grande dia, mas nós somos salvos! Perante a Sua soberania, eu me curvo, grande Deus, e reconheço que será como Tu o farás e que Tu não dás conta de Teus assuntos. Por que, se houvesse alguma razão para mover Deus em relação às Suas criaturas, Ele certamente teria escolhido demônios ao invés de homens! O pecado do primeiro dos anjos caídos não foi maior do que o de Adão! Não é o momento de entrarmos nesta pergunta. Eu poderia, se a oportunidade fosse necessária, provar que é um pouco menos do que o maior, se houvesse graus no pecado. Se os anjos fossem tomados, eles poderiam ter glorificado a Deus mais do que nós. Eles poderiam ter cantado louvores mais alto do que podemos, obstruídos como estamos pela carne e o sangue. Mas passando pelo maior, Ele escolheu o menor, para que pudesse manifestar a Sua soberania, que é a mais brilhante joia da coroa da Sua Divindade! Nossos antagonistas Arminianos sempre deixam os anjos caídos fora de questão, pois não é conveniente para eles recordarem essa antiga instância da eleição. Eles chamam isso de injusto, que Deus deve escolher um homem e não o outro. Por qual razão isso pode ser injusto quando eles admitirão que era justo o suficiente Deus escolher uma raça, a raça dos homens e deixar uma outra raça, a raça dos anjos, a serem afundados na miséria por causa

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do pecado? Irmãos e irmãs, vamos nos fazer como acusadores Deus em nosso pobre tribunal falível? Ele é bom e faz justiça! O que quer que Ele faça, podemos saber que é certo, quer possamos ver a justiça ou não. Eu dei-lhe, então, algumas razões, no início, pelas quais devemos considerar a eleição de Deus como sendo singular. Mas eu tenho que lhe oferecer outras. Observe, o texto não apenas diz: “Eis que o céu, o céu dos céus é do Senhor”, mas acrescenta: “a terra e tudo o que nela há”. Agora, quando pensamos que Deus nos escolheu, quando vocês, meus irmãos e irmãs, a quem pela graça têm colocado vossa confiança em Cristo, leiam o seu “título claro nas mansões nos céus”, vocês podem muito bem fazer uma pausa e dizer na linguagem desse hino: “Silêncio, minh’alma! Adore e admire! Pergunte: ‘oh, por que tal amor para comigo?’” Reis passaram e mendigos foram escolhidos; sábios deixados, mas os insensatos feitos conhecedores das maravilhas do Seu amor redentor, e os publicanos e as meretrizes docemente compelidos a vir para a festa da misericórdia, enquanto os fariseus orgulhosos autorizados a confiar em sua própria justiça e perecer em suas vãs jactâncias! A escolha de Deus sempre parece ser, aos olhos dos homens não regenerados, muito estranha. Ele tem passado por aqueles a quem nós teríamos selecionados e Ele escolheu apenas as probabilidades e extremidades do universo, os homens que se achavam os menos prováveis de alguma vez provar de Sua graça! Por que fomos escolhidos como um povo que têm o privilégio do Evangelho? Não há outras nações tão grandes como temos sido? Um povo cheio de pecado como esta nação Inglesa tem manifestado a ser, por que Deus escolheu a raça anglo-saxã para receber a pura verdade de Deus, enquanto as nações que poderiam ter recebido a Luz de Deus com alegria ainda maior do que nós mesmos, ainda estão envoltas na escuridão, o sol do Evangelho nunca subiu sobre eles? Porque, mais uma vez, eu digo, no caso de cada um, por que o homem escolhido é escolhido? Poderia qualquer resposta ser dada, senão apenas a resposta de nosso Salvador: “Sim, ó Pai, porque assim te aprouve”? No entanto, um outro pensamento, faz a eleição de Deus maravilhosa, de fato. Deus tem poder ilimitado de criação. Agora, se Ele quis fazer pessoas que deveriam ser Seus favoritos, que deveriam ser unidas à Pessoa de Seu Filho e que deveriam reinar com Ele, por que Ele não fez uma nova raça? Quando Adão pecou, isso teria sido fácil o suficiente para tirar o mundo da existência. Tivesse Ele apenas falado, e esta terra redonda teria sido dissolvida, como a bolha morre na onda que a carrega. Não teria havido nenhum traço de pecado deixado de Adão, todos poderiam ter morrido distantes e sido esquecidos para

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sempre. Mas não! Em vez de fazer um novo povo, um povo puro, que não poderia pecar, em vez de tomar para Si criaturas que eram puras, imaculadas, sem manchas, Ele toma um povo depravado e caído e os levanta e isso, também, por meios caros: pela morte de seu próprio Filho; pelo trabalho de Seu próprio Espírito! E pensar que estas devem ser as joias da Sua coroa para refletir a Sua glória para sempre, oh, escolha surpreendente! Oh, eleição estranha, a minha alma se perde em Suas profundezas e só posso parar e clamar: “Oh! a bondade, a misericórdia, a soberania da graça de Deus!” Tendo assim falado sobre sua singularidade, dirijo-me a outro assunto. Observe a gratuidade irrestrita da eleição do amor. Em nosso texto isso é sugerido pela palavra, “SOMENTE”. Por que Deus ama seus pais? Porque, somente porque Ele assim o fez! Não há outra razão. “Somente o Senhor se afeiçoou a teus pais para os amar e escolheu a sua descendência depois deles, a vós, dentre todos os povos, como hoje se vê”. Houve, sem dúvida, alguma razão sábia para os atos do Senhor, pois Ele faz todas as coisas segundo o conselho de Sua vontade, mas certamente não poderia haver qualquer razão relativa à excelência ou virtude da criatura a quem Ele escolheu! Agora, apenas me debruço sobre isso por um momento. Observemos que não há nenhuma bondade original naqueles a quem Deus escolhe. O que havia em Abraão para que Deus o escolhesse? Ele saiu de um povo idólatra e dizse sobre a sua posteridade: um Sírio pronto a perecer era seu pai. Como se Deus quisesse mostrar que não era a bondade de Abraão, Ele diz: “Olhai para a rocha de onde fostes cortados, e para a caverna do poço de onde fostes cavados. Olhai para Abraão, vosso pai, e para Sara, que vos deu à luz; porque, sendo ele só, o chamei, e o abençoei e o multipliquei”. Não havia mais nada em Abraão do que em qualquer um de nós por que Deus deveria têlo escolhido, pois qualquer bem que estava em Abraão Deus o colocou ali! Agora, se Deus o colocou ali, o motivo deste ato não pode ser o fato da mesma ação! Você não pode encontrar um motivo para um fato em si mesmo, deve haver algum motivo encontrado maior do que qualquer coisa que pode ser encontrada no simples ato de Deus. Se Deus escolheu um homem para fazer aquele homem santo, justo e bom, Ele não pode tê-lo escolhido porque era bom e justo. Seria absurdo raciocinar assim! Ele estaria fazendo de uma causa um efeito e fazendo um efeito de uma causa! Se eu alegasse que o botão da rosa fosse o autor da raiz, bem, eu poderia, de fato, ser ridicularizado! Porém, se eu insistisse que qualquer bondade no homem é o fundamento da escolha de Deus, quando eu lembro que a bondade é o efeito da escolha de Deus, eu seria tolo de fato! Assim, o eleito não pode ser a causa. Mas que bem original está ali em algum homem? Se Deus nos escolhesse por algo de bom em nós mesmos, todos nós seríamos deixados não-eleitos! Não temos nós todos um coração perverso de incredulidade? Não temos nós todos nos apartado de seus caminhos? Não somos todos nós, pela natureza corrupta, inimigos de Deus por obras más? Se Ele nos escolhe, não pode ser por causa de alguma bondade original em nós.

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“Mas”, diz alguém, “talvez, seja por causa da bondade prevista. Deus escolheu o Seu povo porque Ele prevê que eles crerão e serão salvos”. Uma ideia singular, de fato! Aqui estão um certo número de pessoas pobres e um príncipe entra no lugar. Para cerca de 90 dos 100 ele distribui ouro. Alguém faz a pergunta: “Por que o príncipe deu este ouro aos noventa? Um louco em um canto, cujo rosto nunca deveria ser visto, responde: “Ele deu a eles porque ele previu que iriam tê-lo!” Mas como ele poderia prever que eles teriam isso além do fato de que ele deu a eles? Agora, você diz que Deus dá a fé, o arrependimento, a salvação, porque Ele previu que os homens os teriam. Ele não previu isso além do fato de que Ele pretendia lhes dar! Ele previu que Ele lhes daria graça. Mas qual foi a razão pela qual deu a eles? Certamente, não Sua previsão! Na verdade, isso seria absurdo! E ninguém senão um louco iria raciocinar assim. Ó Pai, se Tu me deste vida, luz, alegria e paz, a razão, o motivo só é conhecido a Ti mesmo, por razões que em mim que eu nunca poderia encontrar, porque eu ainda sou um errante em relação a Ti e muitas vezes a minha fé oscila e meu amor cresce escurecido. Não há nada em mim para merecer estima ou dar-Lhe deleite, é tudo por Sua graça, Sua graça somente, que eu sou o que sou! Assim dirá cada Cristão. Assim, cada Cristão de fato confessará! Mas não é tudo conversa vã, até mesmo contestar por um único momento, com a ideia absurda de que o homem pode algemar o seu Criador? Deverá o propósito do Eterno ser deixado dependente da vontade do homem? Pode o homem ser realmente o senhor de seu Criador? Deverá seu livre-arbítrio tomar o lugar do poder Divino? Pode o homem tomar o Trono de Deus e definir o que lhe agrada em todos os propósitos de Jeová, obrigando-O por mérito a escolhê-lo? Haverá algo que o homem possa fazer que deverá controlar as ações de Jeová? Diz-se por alguém que os homens dão livre-arbítrio para todos menos para Deus e falam como se Deus devesse ser o escravo dos homens. Sim, nós cremos que Deus deu ao homem o livre-arbítrio, o que não negamos, mas nós teremos que Deus tem uma livre-arbítrio também, o que, aliás, Ele tem o direito de exercê-lo e não exercê-lo! E assim nenhum mérito do homem pode ter qualquer compulsão para com o Criador. Mérito, por um lado, é impossível, e mesmo se o possuísse, não poderia ser possível que possamos possuí-lo em tal grau de modo a merecer o dom de Cristo! Lembre-se, se nós merecemos a salvação, o homem deve ter virtude suficiente para merecer o céu, mérito para a união com Jesus, mérito, de fato, para a glória eterna! Você voltará para a velha ideia Romana, uma vez que você desliza sua âncora e corta o cabo, e fala sobre qualquer coisa no homem que poderia ter movido a misericórdia de Deus. “Bem”, diz alguém, “este é o vil Calvinismo!” Que assim seja, se você quiser chamá-lo desta forma. Calvino encontrou sua doutrina nas Escrituras. Sem dúvida, ele também pode ter recebido alguma instrução das obras de Agostinho, mas aquele poderoso doutor da graça aprendeu com os escritos de São Paulo. E São Paulo, o apóstolo da graça, a recebeu por inspiração de Jesus, o Senhor! Podemos traçar nossa linhagem diretamente ao próprio Cristo! Portanto, não temos vergo-nha

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de qualquer título que possa ser anexado a uma verdade gloriosa de Deus! A eleição é livre e não tem nada a ver com qualquer bondade original do homem, ou bondade previs-ta, ou qualquer mérito que o homem possa, eventualmente, trazer diante de Deus! Eu venho para a parte mais difícil da minha tarefa nesta manhã; eleição em sua justiça. Agora, defenderei esta grande verdade, que Deus escolheu homens para Si mesmo e vou considerá-la a partir de um ponto de vista diferente daquele que normalmente é tomada. Minha defesa é apenas isso. Você me diz que, se Deus escolheu alguns homens para a vida eterna, então Ele foi injusto. Peço-lhe para provar isso. O ônus da prova recai sobre você, pois eu gostaria que você se lembre que ninguém merecia tudo isso. Há um homem em todo o mundo que teria a impertinência de dizer que ele merece alguma coisa de seu Criador? Se assim for, seja conhecido de vós que ele deverá ter todos os méritos! E sua recompensa será as chamas do inferno, para sempre, pois esse é o máximo que qualquer homem já mereceu de Deus; Deus não está em dívida para com nenhum homem e, no último grande dia todo homem deve ter tanto amor, tanta piedade e tanta bondade, quanto ele merece! Até mesmo os perdidos no inferno terão o que todos eles merecem, sim, e ai, o dia para eles quando eles terão a ira de Deus, que será o ápice do que eles merecem! Se Deus dá a cada um tanto quanto ele merece, Ele é, por isso, acusado de injustiça, porque Ele dá a alguns infinitamente mais do que eles merecem? Onde está a injustiça de um homem que faz o que quiser com o que é seu próprio? Ele não tem o direito de dar o que lhe agrada? Se Deus está em dívida para com alguém, então haveria injustiça, mas Ele não está em dívida com ninguém e se Ele dá Seus favores de acordo com a sua vontade Soberana, que é este que deve encontrar a falha? Você não foi injuriado, Deus não o ofendeu, traga as suas reivindicações e Ele as executará até o último jota. Se você é justo e pode reivindicar algo de seu Criador, se levante e pleiteie suas virtudes e Ele te responderá! Embora vocês cinjam os seus lombos como homens, e diante dEle pleiteiem sua própria justiça, Ele fará vocês tremerem e abominarem-se e rolarem em pó e cinzas, porque a vossa justiça é uma mentira e suas melhores obras como como trapo da imundícia! Deus não prejudica nenhum homem para abençoar alguns. Estranho é que haja qualquer acusação movida contra Deus, como se Ele fosse injusto! Eu a defendo novamente em outro fundamento. Pois a qual de vocês Deus alguma vez já recusou a Sua misericórdia e amor, quando vocês buscaram a Sua face? Será que Ele não proclamou livremente o Evangelho a todos vocês? Não é Sua Palavra oferecida para que vocês venham a Jesus? E Ele não disse solenemente: “Quem quiser, venha”? Vocês não são, todos os Sabaths, convidados a vir e colocar a vossa confiança em Cristo? Se vocês não farão isso, mas destruirão as suas próprias almas, de quem é a culpa? Se vocês colocaram a sua confiança em Cristo, vocês serão salvos, Deus não vai voltar atrás em Sua

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promessa. Prove-O, experimente-O! No momento que você renunciar ao pecado e confiar em Cristo, naquele momento você pode conhecer a si mesmo como sendo um dos Seus escolhidos, mas se você vai colocar maldosamente o que é seu no Evangelho, que é diariamente pregado, se você não será salvo, então, sobre a sua própria cabeça está o seu sangue. A única razão pela qual você pode se perder é porque você vai continuar em pecado e não clamará para ser salvo dele. Vocês O rejeitaram, vocês O colocaram para longe de vocês e para trás de vocês mesmos, vocês não querem recebê-lO. “Bem, mas”, diz alguém, “eu não posso ir a Deus”. Sua impotência para vir reside no fato de que você não tem vontade de vir. Se você fosse, porém uma vez disposto, você não careceria de nenhum poder. Você não pode vir, porque você está tão apegado às suas paixões, gosta tanto de seu pecado, é por isso que você não pode vir. Naquela mesma sua incapacidade está o seu crime, a sua culpa! Você poderia vir se o seu amor ao mal e a si mesmo fossem quebrados. A incapacidade não está na sua natureza física, mas em sua natureza moral depravada. Oh, se você estivesse apenas disposto a ser salvo! Esse é o ponto, este é o ponto! Você não está disposto, nem você nunca estará, até que a graça faça com que você queira! Mas de quem é a culpa, porque você não está disposto a ser salvo? De ninguém a não ser de você mesmo, você tem toda a culpa. Se você se recusar à vida eterna, se você não vai olhar para Cristo, se você não vai confiar nEle, lembre-se que a sua própria vontade condena você! Já houve um homem que tinha uma vontade sincera de ser salvo à maneira de Deus, a quem foi negada a salvação? Não, não, mil vezes NÃO, pois é um homem já ensinado por Deus! Aquele que concede a vontade, não negará o poder! Incapacidade reside principalmente na vontade. Quando uma vez que um homem é feito disposto no dia do poder de Deus, ele também é feito capaz. Portanto, a sua destruição está à sua própria porta. Então deixe-me fazer outra pergunta. Você diz que é injusto que alguns deverão ser perdidos enquanto outros são salvos. Quem faz se perderem aqueles que estão perdidos? Será que Deus os leva a pecar? Será que o Espírito de Deus já convenceu você a fazer uma coisa errada? Será que a Palavra de Deus alguma vez reforçou a sua justiça própria? Não! Deus nunca exerceu qualquer influência sobre você para fazê-lo ir para o lado errado. Toda a tendência da Sua Palavra, toda a tendência da pregação do Evangelho, é persuadilo a abandonar o pecado para a justiça, a partir de seus maus caminhos para o Senhor! Digo mais uma vez, Deus é justo. Se você rejeitar o Salvador proclamado a você, se você se recusa a confiar nEle, se você não vier a Ele e for salvo, você está perdido! Deus é soberanamente justo em sua perdição, mas se Ele quiser exercer a influência sobrenatural do Espírito Santo sobre alguns de vocês, Ele é certamente justo em conceder a misericórdia a qual ninguém pode reivindicar, e assim que através dos séculos eternos nunca deve ser encontrado nada de novo em Seus atos, mas o “Santo, Santo, Santo” Deus deve ser louvado pelos redimidos e por querubins e serafins, e até mesmo os perdidos no inferno

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podem ser obrigados a proferir um involuntário grave à essa canção de pavor: “Santo, Santo, Santo, Senhor Deus dos Exércitos”. Tendo, assim, tentado defender a justiça de eleição, dirijo-me agora a observar a veracidade. Eu possivelmente tenho aqui alguns homens de Deus que não podem receber esta doutrina. Bem, meus amigos, eu não estou com raiva de vocês por não serem capazes de recebê-la, porque nenhum homem pode recebê-la, a menos que lhe seja concedido por Deus. Nenhum Cristão jamais se alegrará nisto a menos que ele tenha sido ensinado pelo Espírito. Mas, afinal, meus irmãos e irmãs, se você é um homem regenerado, você acredita nela. Você está se levantando para discutir comigo. Venha e eu me permitirei argumentar com você mesmo e antes de cinco minutos se passarem você vai, com sua própria boca, provar o meu ponto! Venha, meu querido irmão, você não acredita que Deus pode justamente dar a alguns homens mais graça do que para os outros. Muito bem. Vamos, nos ajoelhemos e oremos juntos. Você deve orar primeiro. Você nem bem começa a orar e você diz: “Ó Senhor, se agrade, em Sua infinita misericórdia, em enviar o Seu Espírito Santo para salvar esta congregação e se agrade em abençoar os meus parentes segundo a carne.” Pare! Pare! Você está pedindo a Deus para fazer algo que, de acordo com sua teoria, não está certo! Você está pedindo-Lhe para dar-lhes mais graça do que eles têm! Você está pedindo a Ele para fazer algo especial! Positivamente, você está rogando a Deus para que Ele dê graça aos seus parentes e amigos e à esta congregação! Como você pode fazer isso e estar certo em sua teoria? Se seria injusto Deus dar mais graça a um homem do que para o outro, quão extremamente injusto é você pedir a Ele para fazer isso! Se tudo é deixado ao livre-arbítrio do homem, por que você pede ao Senhor para interferir? Você clama: “Senhor, atraia-os Senhor; quebrante seus corações, renove seus espíritos”. Agora, eu muito sinceramente uso esta oração, mas como você pode fazer isso, se você pensa ser injusto que o Senhor conceda a este povo mais graça do que Ele concede para o restante da raça humana? “Oh, mas”, você diz, “eu sinto que é certo e eu vou pedir-Lhe”. Muito bem, então, se é certo que você peça, deve ser certo que Ele o conceda! Deve estar correto nEle conceder misericórdia aos homens e a alguns homens tais misericórdia, de modo que eles serão compelidos a serem salvos. Assim, você tem provado meu ponto e eu não preciso de uma prova melhor. E agora, meu irmão, nós cantaremos uma música juntos e vamos ver como podemos chegar lá. Abra o seu hinário e cante na língua de seu hinário Wesleyano:

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“Oh, sim, eu amo Jesus Porque Ele me amou primeiro.” Não, irmão, isto é Calvinismo! Você tem que deixá-lo fora novamente, você ama Jesus porque Ele primeiro amou você. Bem, como é que você vem a amá-lO, enquanto outros são deixados a não amá-lO? Isso é a sua honra ou a honra dEle? Você diz: “É para o louvor da graça. Deixe a graça ter o louvor”. Muito bem, irmão. Vamos começar muito bem, depois de tudo, pois, embora não possamos concordar na pregação, contudo estamos de acordo, como você vê, na oração e no louvor! Pregando há alguns meses, no meio de uma grande congregação de Metodistas, os irmãos e irmãs estavam vivos, dando todos os tipos de respostas ao meu sermão, balançando a cabeça e clamando: “Amém!”, “Aleluia”, “Glória a Deus!” e semelhantes. Eles completamente concordaram comigo! Meu espírito foi agitado e eu preguei com uma força e vigor incomuns. E quanto mais eu pregava, mais eles gritavam: “Amém!”, “Aleluia”, “Glória a Deus!”. Finalmente, uma parte do texto me levou ao que é denominado Alta Doutrina. “Então”, eu disse, “isso me leva à doutrina da eleição”. Puxei o fôlego profundamente. “Agora, meus amigos, vocês acreditam nisso”, eu disse. Eles pareciam dizer: “Não, nós não”. Sim, vocês acreditam e vou fazer vocês cantarem “Aleluia” a respeito desta doutrina. Então, vou pregar isto para que vocês a reconheçam e creiam! Então eu o coloquei assim: “Será que não há diferença entre você e os outros homens?”, “Sim, sim! Glória a Deus, glória!”, “Há uma diferença entre o que você era e o que você é agora?”, “Sim! Sim!”. Não está sentado ao seu lado um homem que foi à mesma capela que vocês; ouviu o mesmo Evangelho, porém ele não é convertido e vocês são convertidos. Quem fez a diferença, você ou Deus?” “O Senhor!”, disseram, “o Senhor! Glória! Aleluia”. Sim, clamei, e isto é a doutrina da eleição! Isso é tudo pelo que eu pleiteio, se há uma diferença, o Senhor fez a diferença. Um bom homem veio até mim e disse: “Você está certo, rapaz! Você tem razão. Acredito na sua doutrina da eleição. Eu não acredito nisso, como é pregado por algumas pessoas, mas eu acredito que devemos dar a glória a Deus, devemos colocar a coroa sobre a cabeça dEle, certamente”. Afinal, há um instinto em cada coração Cristão que faz com que ele receba a substância desta doutrina, mesmo que ele não vá recebê-la na forma peculiar em nossa colocação. Isso é suficiente para mim. Eu não me importo com as palavras ou a fraseologia, ou a forma de credo, em que eu possa ter o hábito de afirmar a doutrina. Eu não quero que você subscreva o meu credo, mas eu quero que você subscreva um credo que dá glória a Deus por Sua salvação. Cada santo no Céu canta: “A graça fez isso”.

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E eu quero que todos os santos na terra a cantem a mesma canção: “Àquele que nos amou e nos lavou de nossos pecados no Seu sangue, a Ele seja a glória para todo o sempre”. As orações, os louvores, a experiência daqueles que acreditam nesta doutrina prova ser uma doutrina melhor do que qualquer coisa eu posso dizer! Eu não me importo em prová-la melhor, e eu a deixo como ela é.

II. Passamos agora para ELEIÇÃO EM SUAS INFLUÊNCIAS PRÁTICAS. Você verá que preceito é anexado à doutrina: Deus te amou acima de todas as pessoas que estão sobre a face da terra, portanto, “circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz”. Sussurra-se que eleição é uma doutrina licenciosa. Diga em voz alta e então eu te responderei! Eleição é uma doutrina licenciosa? Como você prova isso? É o meu negócio provar para você que é o inverso. “Bem, mas”, grita alguém, “eu conheço um homem que acredita na eleição e ainda vive em pecado”. Sim e eu suponho que você desaprova isso? De modo que se eu posso passar por Londres e encontrar algum companheiro bêbado maltrapilho que acredita nesta doutrina e vive em pecado, o fato de sua crença nela desaprova-a? Lógica surpreendente, essa! Eu me comprometerei a refutar qualquer verdade de Deus no mundo, se somente eu tomar isso como a minha regra! Por que, eu posso trazer alguma criatura vil e imunda que duvida da bondade universal de Deus. Então, eu acho que irei desaprová-la? Eu poderia trazer até você algum infeliz que está deitado no pecado, que ainda acredita que, se ele estivesse a clamar: “Senhor, tem piedade de mim, pecador”, a partir de seu coração, ele seria salvo, mesmo que ele estivesse em seu leito de morte! Suponho que a sua crença o desaprove, é isso? Não! Você sabe muito bem, apesar de você usar essa lógica como que contra nós, você não iria usá-la contra você mesmo! O fato de que são más ou boas as vidas de alguns indivíduos não pode ser tomado como uma prova a favor ou contra qualquer conjunto de doutrinas. Há homens santos que estão enganados. Há homens ímpios que recebem a verdade de Deus! Isso pode ser visto em qualquer dia por qualquer homem que vai candidamente fazer a observação. Se, no entanto, qualquer uma seita fosse peculiarmente cheia de professores ímpios e hipócritas, então eu gostaria de admitir a força de seu argumento! Mas eu te desafio a provar. Os homens que acreditaram nesta doutrina têm sido por todo o mundo — embora, talvez, não é minha função dizer, exceto que eu vou gloriar-me nisso como Paulo o fez — os mais zelosos, mais sinceros, os mais santos dos homens! Lembrem-se, senhores, vocês que zombam desta doutrina, que vocês devem suas liberdades aos homens que a sustentaram! Quem esculpiu para a Inglaterra as suas liberdades? Eu não hesito em dar a palma da mão para os braços fortes de Ironsides e a poderosa vontade de Oliver Cromwell! Mas o que os

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fez correr para a batalha como eles fizeram, senão uma firme convicção de que eles eram os escolhidos de Deus e poderiam varrer tudo diante deles, porque o Senhor, seu Deus estava com eles? Dizia-se de Charles, do segundo período, que, se você queria encontrar crentes no Arminianismo, você poderia encontrá-los em todas as tavernas, mas se você quisesse encontrar aqueles que acreditavam nas Doutrinas da Graça, você deveria ir para as masmorras onde os santos de Deus foram trancafiados, devido à rigidez de suas vidas e da austeridade peculiar de sua conversa. Nunca houve homens mais celestiais de espírito do que os Puritanos. E que Puritano você pode encontrar que detém qualquer outra doutrina além da que eu prego hoje? Você pode encontrar algum doutor moderno que ensina o contrário, mas marchem através dos séculos e com poucas exceções, onde estão os santos que negavam a eleição de Deus? O estandarte tem sido passado de uma mão para outra. Mártires morreram por isso! Eles selaram a verdade de Deus com o seu sangue, e esta verdade de Deus subsistirá, quando rolamento dos anos deixar de se mover; esta verdade de Deus deve ser crida quando cada erro e superstição deve desintegrar-se ao pó de onde surgiu! Mas eu volto para a minha prova. Está estabelecido como uma questão de teoria que esta doutrina é licenciosa. Nós nos opomos a essa teoria. A aptidão das coisas prova que não é assim. A eleição ensina que Deus escolheu alguns para serem reis e sacerdotes para Deus. Quando um homem acredita que ele é escolhido para ser um rei, seria uma inferência legítima ouvir dele: “Eu sou escolhido para ser um rei, por isso serei um mendigo, eu sou escolhido para sentar em um trono, portanto vou usar trapos”? Assim, você poderia dizer: “Não haveria nenhum argumento, não há sentido nisso”. Mas há tanto sentido nisto quanto em sua em sua suposição, que Deus escolheu o Seu povo para ser santo e contudo o conhecimento deste fato fará com que seja profano. Não! O homem, sabendo que uma dignidade peculiar foi colocada sobre ele por Deus, sente operar em seu peito um desejo de viver de acordo com a sua dignidade. “Deus me amou mais do que outros”, diz ele, “então, eu vou amá-lO mais do que outros. Ele me colocou acima do restante da humanidade por Sua graça soberana, deixe-me viver acima deles, deixe-me ser mais santo, deixe-me ser mais eminente em graça do que qualquer um deles”. Se há um homem que pode abusar da dignidade da graça que Cristo lhe deu e que a perverte em um argumento para a licenciosidade, ele não é deve ser encontrado entre nós! Ele deve ser algo menos do que o homem, caído como o homem é, quem inferir, a partir do fato de que ele tornou-se um Filho de Deus pela livre graça de Deus, que, portanto, ele deve viver como um filho do diabo! Ou, quem deve dizer: “Porque Deus ordenou-me a ser santo, por isso serei profano”. Isso seria o mais estranho, incomum, mais pervertido, mais abominável raciocínio que jamais poderia ser utilizado. Eu não acredito que há uma criatura viva, que poderia ser capaz de usá-lo. Mais uma vez, não somente a aptidão das coisas, mas a coisa, em si, prova que não é

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assim. A eleição é uma separação. Deus separou aquele que é piedoso para Si mesmo; separou um povo para fora da massa da humanidade. Será que a separação nos permitem extrair a inferência assim: “Deus me separou, portanto, viverei como os outros homens vivem”. Não! Se eu acredito que Deus tem me escolheu pelo Seu amor distintivo e me separou, então eu ouço o brado: “Saí do meio deles, e apartai-vos, diz o Senhor; e não toqueis nada imundo, E eu vos serei por Pai”. Seria estranho se o decreto de separação gerasse uma união profana. Não pode ser! Eu nego, de uma vez por todas, em nome de todos os que defendem a verdade de Deus, eu nego solenemente, como na presença de Deus, que nós tenhamos qualquer pensamento que, porque Deus nos separou, por isso devemos viver como os outros vivem. Não, Deus me livre! Nossa separação é um fundamento e motivo da nossa separação completa dos pecadores. Eu ouvi um homem dizer uma vez: “Senhor, se eu acreditasse nesta doutrina, eu viveria em pecado”. Minha resposta a ele foi esta: “Eu ouso dizer que você viveria! Ouso dizer que você iria!”, “E por que”, ele perguntou, “eu o faria mais do que você. Simplesmente porque você é um homem e eu confio que eu sou um novo homem em Cristo Jesus. Para o homem que é renovado pela graça, não há nesta doutrina o que poderia fazê-lo amar o pecado! Se um homem, por natureza, é como um porco que chafurda na lama, transforme-o em uma ovelha e não há nenhuma doutrina que você possa ensinar a ele que possa fazê-lo ir e chafurdar na lama de novo! Sua natureza é alterada. Há um corvo transformado em uma pomba. Eu darei a pomba para você e você pode ensiná-la o que quiser, mas a pomba não mais comerá carniça. Ela não pode suportar isto, sua natureza está totalmente mudada! Aqui está um leão rugindo por sua presa. Vou transformá-lo em um cordeiro, e eu desafio você a fazer esse cordeiro, por qualquer doutrina, avermelhar seus lábios com sangue. Ele não pode fazê-lo, a sua natureza está transformada. Um amigo a bordo de um barco a vapor, quando estávamos chegando em frente à Irlanda, perguntou a um dos marinheiros, “você gostaria de uma música picante?”. “Não”, ele disse, “eu não gosto dessas coisas”. “Gostaria de uma dança?” “Não” ele disse, “Eu tenho uma graça que me permite jurar e estar bêbado tão frequentemente quanto me agrade, e isto é nunca, porque eu odeio todas essas coisas com ódio perfeito. Cristãos evitam o pecado, porque a sua natureza abomina o pecado, não imagino que são guardados de voltar ao pecado porque estão aterrorizados com ameaças de condenação; não temos medo, exceto o medo de ofender o nosso Pai amoroso. Nós não queremos pecar, a nossa sede é por santidade e não pelo vício. Mas se você tem uma espécie de religião, que sempre mantém você em restrição, de modo que você diz: “Eu gostaria de ir ao teatro esta noite, se eu ousasse, se é isso que você diz, depender dela, de sua religião não é de muito valor! Você deve ter uma graça que faz você odiar as coisas que você uma vez amou e amar o que uma vez você odiou, uma graça que o atrai para fora de sua antiga vida e o coloca em uma nova vida! Agora, se um homem tiver uma nova natureza, o que a doutrina da eleição pode

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fazer para que essa nova natureza aja de forma contrária aos seus instintos? Ensine o homem que você quiser, o homem não tornará à vaidade. A eleição de Deus dá uma nova natureza, por isso, mesmo que a doutrina fosse perigosa, a nova natureza iria mantê-la sob controle. Mas, mais uma vez, me traga aqui o homem, eu devo chamá-lo? Traga-me a besta ou o diabo que dizia: “Deus colocou Seu amor sobre mim desde antes de todos os mundos, o meu nome está sobre o coração de Jesus, Ele me comprou com o Seu sangue, meus pecados estão todos perdoados; verei a face de Deus com alegria e aceitação, por isso, eu odeio a Deus, por isso eu vivo no pecado”. Traga-me o monstro, eu digo, e quando você tiver trazido o tolo, mesmo assim, eu não admitirei que há uma razão nesta mentira vil, essa calúnia condenável, que você tem lançado sobre esta doutrina, que ela faz os homens viverem em licenciosidade. Não há verdade de Deus, que possa, assim encorajar um homem à piedade como o fato de que ele foi escolhido por Deus antes dos tempos começarem! Amado por Ti com um amor ilimitado que nunca se move e que persevera até o fim, ó, meu Deus! Eu desejo gastar-me em Seu serviço: “O amor, tão admirável, tão Divino, Requer minha vida, minha alma, meu tudo.” A gratidão a Deus, por esta rica misericórdia, nos compele a andarmos no temor de Deus e a amá-lO e servi-lO com toda a nossa vida! Agora, duas lições e, em seguida, eu lhes deixarei seguir o seu caminho. A primeira lição é esta: irmãos e irmãs Cristãos, escolhidos por Deus e ordenados para a salvação, lembrem-se que esta é uma doutrina que em toda parte se fala contra ela. Não a esconda, não a oculte, pois lembrem-se, Cristo disse: “Porque, qualquer que de mim e das minhas palavras se envergonhar, dele se envergonhará o Filho do homem”. Mas tome cuidado para que você não a desonre. Seja você santo, assim como Ele é santo. Ele o chamou, permaneça em sua vocação, seja diligente para fazer firme a sua vocação e eleição! Estabeleça, como eleito de Deus, coração de compaixão, santidade e amor, e deixe que o mundo veja que os escolhidos de Deus são feitos, pela graça, os mais preciosos dos homens; os quais vivem mais perto de Cristo e são mais semelhantes a Cristo, do que qualquer outro povo sobre a face da terra. E deixe-me acrescentar, se o mundo zomba de você, você pode olhar o seu inimigo no rosto e nunca tremer, pois este é um grau de nobreza, uma patente da dignidade Divina pelo que você nunca precisa corar, mas que irá guarda-lo sempre de ser um covarde, ou curvar o joelho ante a pompa e o status, quando eles estão associados com o vício. Esta doutrina nunca foi apreciada, porque é um martelo contra os tiranos!

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Homens escolhem os seus próprios eleitos, seus reis, duques e condes e a eleição de Deus interfere com eles. Há alguns que não dobrarão os joelhos diante de Baal, que sustentarão ser a verdadeira aristocracia de Deus, que não renunciarão às suas consciências pelo ditado de outro. Homens xingam, falam irracionalmente e se enfurecessem porque esta doutrina faz um bom homem forte em seus lombos, e não vai deixá-lo dobrar o joelho, ou voltar e ser um covarde. Os Ironsides foram feitos poderosos porque mantiveram-se como sendo homens destinados. Eles se curvaram diante de Deus, porém diante dos homens não podiam e não iriam se curvar! Permanecei firmes, portanto, nisto, a sua liberdade, e não sejam movidos da esperança da vossa vocação. Uma outra palavra de exortação é a segunda lição. Há alguns de vocês que estão fazendo uma desculpa para rechaçarem a doutrina da eleição, uma desculpa, uma apologia para seus próprios corações incrédulos e ímpios. Agora lembre-se a doutrina da eleição não exerce nenhuma restrição qualquer que seja sobre vocês! Se vocês são ímpios, vocês serão assim, porque vocês irão ser assim. Se vocês rejeitarem o Salvador, vocês o farão, porque você irão fazê-lo. A doutrina não faz você rejeitá-lO! Você pode fazer disto uma desculpa, mas é uma inútil, é uma peça de roupa de teia de aranha que será arrancada no Último Dia! Rogo-vos, coloquem-na de lado e lembrem-se que é a verdade de Deus, que o que vocês têm a fazer é isso: “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo”. Se vocês creem, vocês estão salvos. Se você confiar em Cristo, seja você quem você for, ou o que você possa ser, o vasto mundo acabou, você está salvo! Não diga: “Eu não vou crer, porque eu não sei se sou eleito”. Você não pode saber que até que você tenha crido. Seu negócio é com a crença. “Quem”, não há nenhuma limitação nisto, “quem crê em Cristo será salvo”. Você, assim como qualquer outro homem! Se você confiar em Cristo, seus pecados serão perdoados, as suas iniquidades apagadas. Oh, que o Espírito Santo sopre uma nova vida em você! Curve o joelho, eu te suplico, beije o Filho para que Ele não se ire. Receba a Sua misericórdia, agora, não endureça seu coração contra a influência graciosa de Seu amor. Renda-se a Ele e você deve então descobrir que você se rendeu porque Ele fez você se render, que você veio a Ele, porque Ele chamou você! E que Ele chamou você, porque Ele te amou com um amor eterno. Que Deus possa ordenar a Sua bênção por amor de Jesus. Amém.

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A Doutrina da Eleição Artigo por A. W. Pink

Como a doutrina da eleição é uma parte do alto tema da soberania de Deus, uma breve palavra sobre ela primeiro. Em Apocalipse 19:6 nos é dito, “o Senhor Deus onipotente reina”. No céu e na terra, Ele é o controlador e ordenador de todas as criaturas. Como o Altíssimo, Ele governa entre os exércitos dos céus e ninguém pode deter a mão ou dizerlhe: “Que fazes?” (Jó 9:12). Ele é o todo-poderoso, que faz todas as coisas segundo o conselho da Sua própria vontade. Ele é o Oleiro celestial, que toma conta de nossa humanidade caída como um pedaço de barro, e para fora dela forja um como vaso para honra e outro vaso para desonra. Em suma, Ele é o decisivo e determinante do destino de cada homem e o controlador de cada detalhe na vida de cada indivíduo, o que é apenas outra maneira de dizer que Deus é Deus. Ora, eleição e predestinação são apenas o exercício da soberania de Deus nos assuntos da salvação, e tudo o que sabemos sobre elas é o que tem sido revelado a nós nas Escrituras da verdade. A única razão para que alguém acredite na eleição é que ela se acha claramente ensinada na Palavra de Deus. Nenhum homem ou grupo de homens nunca originou esta doutrina. Como o ensino da punição eterna, ela entra em conflito com os ditames da mente carnal e é incompatível com os sentimentos do coração não regenerado. E, como a doutrina da Santíssima Trindade e do nascimento milagroso de nosso Salvador, a verdade da eleição deve ser recebida com fé simples, inquestionável. Vamos agora definir os nossos termos. O que a palavra eleição significa? Significa destacar, selecionar, escolher, tomar um e deixar o outro. Eleição significa que Deus escolheu alguns para serem os objetos de Sua graça salvadora, enquanto outros são deixados a sofrer a justa punição por seus pecados. Isso significa que, antes da fundação do mundo, Deus escolheu para fora da massa de nossa humanidade caída um determinado número, e os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho. “Simão relatou como primeiramente Deus visitou os gentios, para tomar deles um povo para o Seu Nome” (Atos 15:14). Não podemos fazer melhor aqui do que amplificar a nossa definição de eleição, citando um sermão do falecido C. H. Spurgeon (1834-1892) em “As Coisas que Acompanham a Salvação” [Sermão de Nº 152]: Antes da salvação vir a este mundo, a eleição marchou na vanguarda, e tinha por seu trabalho o aquartelamento da salvação. A eleição atravessou o mundo e marcou as casas para a salvação que deveria ir e os corações em que o tesouro deveria ser depositado. A eleição olhou através de toda a raça humana, desde Adão até o último,

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e assinalou com selo sagrado aqueles para quem a salvação foi designada. “E eralhe necessário passar por Samaria” (João 4:4) disse a eleição; e a salvação deve ir para lá. Depois veio a predestinação. A predestinação não se limitou a marcar a casa, mas mapeou a estrada pela qual a salvação deve viajar para aquela casa. A predestinação ordenou cada passo do grande exército de salvação; esta ordenou o momento em que o pecador deve ser levado a Cristo, a maneira como ele deve ser salvo, os meios que devem ser empregados; marcou a hora exata e o momento em que Deus, o Espírito, deverá vivificar os mortos em pecado, e quando a paz e o perdão devem ser proclamados através do sangue de Jesus. A predestinação marcou o ca-minho de forma tão completa que a salvação nunca ultrapassa os limites, e nunca erra o caminho. No decreto eterno de Deus soberano, os passos da misericórdia foram, cada um deles, ordenados. Por que Deus escolheu esses indivíduos em particular, em vez de outros, nós não sabemos. Sua escolha é soberana, totalmente gratuita e não depende de nada fora de Si mesmo. Certamente não foi porque esses indivíduos particulares eram, em si, melhores do que os outros que Ele deixou. A Escritura é muito enfática sobre esse ponto: eles também “eram por natureza filhos da ira, como os outros também” (Efésios 2:3). Eles também não tinham justiça inerente. Nem Deus escolheu aqueles que Ele escolheu por causa de tudo o que Ele previu que haveria neles, pela simples razão, mas suficiente, que Ele não previu alguma coisa boa neles, senão o que Ele próprio operou neles. Tudo o que podemos dizer é que Deus escolheu alguns para serem salvos somente porque Ele escolheu elegê-los, pois tal era o beneplácito de Sua vontade soberana (Efésios 1:5). 1. O Mistério da Eleição Essa eleição é um mistério profundo, nós prontamente admitimos; que está completamente além do poder da mente finita compreender plenamente, nós livremente reconhecemos. O nosso sentimento e nossa faculdade de raciocínio não podem nos ajudar nesta investigação. No entanto, isso não é motivo pelo qual devamos nos recusar a acreditar no que não podemos compreender plenamente. Estamos cercados de mistério por todos os lados. Não podemos entender por que Deus, que é perfeito e onisciente, que no início previu claramente todas as terríveis consequências disto, deveria mesmo ter permitido que o pecado entrasse neste mundo. Mas Ele o fez! Dizer, como muitos fazem, que se Deus criou o homem como um agente moral livre, Ele não podia impedi-lo, é uma afirmação que é totalmente desprovida de qualquer fundamento na Palavra de Deus; e não somente isso, mas ela contradiz Suas declarações explícitas. Por exemplo: “Certamente a cólera do homem redundará em teu louvor; o restante da cólera tu o restringirás” (Salmo 76:10). Se Deus pode restaurar a justiça àqueles que são os dispostos escravos do pecado e há muito tempo

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indulgentes na comissão dele, sem interferir com a responsabilidade do homem, por que então Ele não poderia ter preservado os seres sem pecado, em um estado de pureza? E se estava em Seu poder fazê-lo, por que Ele não o fez? Tudo o que podemos dizer é: “Não sabemos”. Deus não achou por bem dizer-nos. A permissão Divina do pecado é um mistério profundo. Tampouco este é o único mistério relacionado com a história da nossa raça. As desigualdades gritantes no todo da existência humana são igualmente insolúveis. Um é cego de nascença, outro é abençoado com vista. Um entra no mundo dotado de uma constituição forte e goza de saúde quase ininterrupta, enquanto outro herda uma doença incurável e afunda em uma morte prematura. Um nasce para a riqueza e todos os seus confortos, outro para a pobreza e para suas consequentes misérias. Um é nascido de pais criminosos ou infiéis, enquanto a outro é filho de verdadeiros crentes e é criado no temor do Senhor. Um nasce em meio à escuridão pagã, outro goza dos privilégios da luz do Evangelho. Agora, essas diferenças não afetam apenas a felicidade nesta vida, mas elas estão entre os fatores determinantes de caráter e destino, e ainda assim elas não são de todo dependentes do caráter ou conduta dos interessados. Quando nós perguntamos: “Por que é permitido existir essas diferenças? Por que Deus permite essas desigualdades?” Novamente nós temos que responder: “Não sabemos”. No entanto, acreditamos firmemente que Ele tem alguma razão boa e sábia para todos os Seus procedimentos providenciais, mas para o homem na sua condição presente, eles são profundamente misteriosos. Que esses procedimentos de Deus são misteriosos, Sua própria Palavra afirma. “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor. Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos” [Isaías 55:8-9]. E mais uma vez o Espírito Santo, através do apóstolo Paulo, declara: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!” (Romanos 11:33). A nossa posição verdadeira, então, na investigação de um assunto como este, é de discípulos — alunos — sentados aos pés do Senhor Jesus para que sejamos ensinados por Ele. Se aceitamos a Bíblia como a Palavra de Deus, devemos esperar encontrar nela algumas coisas “difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição” (2 Pedro 3:16). 2. A Verdade da Eleição A doutrina da eleição é claramente ensinada na Palavra de Deus; de capa a capa, a Bíblia está cheia daquela. Esta é uma das grandes doutrinas fundamentais das Escrituras. O primeiro livro da Bíblia tem a soberania de Deus como o seu tema central. Caim, o mais velho

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é deixado, enquanto Abel, o mais novo é aceito. Cão e Jafé são ignorados, enquanto Sem o mais jovem é selecionado para a linhagem a partir da qual o Messias havia de vir. A Abrão, o menor, e não a Naor, o irmão mais velho, é dada a herança de Canaã. Ismael, o primogênito é expulso sem bênção, enquanto Isaque o filho da velhice de seus pais é abençoado. A Esaú, de coração generoso e tolerante de espírito é negada a bênção, ainda que a buscou diligentemente com lágrimas, enquanto que Jacó o traiçoeiro, maquinador dissimulado é formado um vaso de honra. Embora sendo o décimo primeiro filho, José é aquele que recebe a porção dobrada; quando Jacó, guiado por Deus, está abençoando os filhos de José, Efraim, o mais novo é posto na frente de Manassés, o mais velho. Os limites de nosso espaço não nos permite ir adiante por toda a Bíblia; só podemos agora citar alguns textos como prova, mas eles são suficientes. “Assim os derradeiros serão primeiros, e os primeiros derradeiros; porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mateus 20:16). “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós” (João 15:16). “Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus” (João 17:9). “E creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (Atos 13:48). “Ficou um remanescente, segundo a eleição da graça” (Romanos 11:5). “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele” (Efésios 1:4). Durante os tempos do Antigo Testamento, o princípio da eleição Divina foi claramente exposto nos tratamentos de Deus com a raça humana. Na Torre de Babel, Deus, por um tempo, abandonou o Seu trato direto com a humanidade como um todo, e selecionou um homem — Abraão — de quem descendeu a nação de Israel. Esta nação é o Seu povo escolhido. Ele se revelou a eles como a nenhum outro. Israel era o Seu tesouro peculiar. Eles gozaram de comunhão direta com Jeová, enquanto outras nações foram deixadas em seus pecados. Mas por quê? Por que Deus deveria escolher os descendentes de Abraão para serem os destinatários de Seus favores especiais? Eles tinham uma maior reivindicação natural do que os outros? Certamente que não. Os egípcios eram uma raça muito mais sábia do que os hebreus nômades. Os caldeus eram mais antigos, mais numerosos, mais civilizados, e ainda exerceram uma influência muito maior sobre o resto do mundo. Ah! Mas Deus passa pela sábios e cultos e escolhe os fracos e desprezados. Por quê? Para demonstrar Sua soberania e exemplificar Sua graça. Por quê? “Para que nenhuma carne se glorie perante ele” (1 Coríntios 1:29). 3. A Justiça da Eleição Em todas as épocas houve aqueles que argumentaram que a doutrina da eleição atribui injustiça a Deus. Eles dizem que não é justo que Ele deve escolher certas pessoas para a

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vida eterna e permitir que o restante seja eternamente condenado. Mas tal acusação evidencia ignorância crassa e perverte os princípios fundamentais do Evangelho. A salvação não é uma questão de justiça, mas de graça. Se o assunto deve ser resolvido na base de mera justiça, então, cada filho de Adão deve perecer, pois: “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Romanos 3:23). Dizer que Deus não tem o direito de escolher apenas alguns para serem conformes à imagem de Seu Filho, é para repúdio cardial da verdade do Evangelho. A salvação não é um salário que temos que ganhar, nem uma recompensa que devemos merecer. É um dom gratuito concedido a quem não merece. Mas, a partir do momento em que admitimos que a salvação é um dom de Deus, somos logicamente obrigados a aceitar o princípio da eleição. Não tem Deus todo o direito de dispensar o Seu dom como lhe agrada? Certamente Ele tem. E esta não é somente Sua prerrogativa, mas Ele a exerce: “Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (Romanos 9:15). Deus não está em dívida com ninguém. Ele não está sob a obrigação de salvar ninguém. Se Ele livra alguém da ira vindoura é unicamente devido à Sua graça. Ele não está sob nenhuma restrição para salvar a todos, se Ele quiser salvar quem quer que seja. Se Ele escolhe passar por alguns, retendo o dom da salvação, então não há motivo para reclamação. No último grande Dia cada homem receberá toda a misericórdia a que tem direito. Não deverá o Juiz de toda a terra fazer justiça? Certamente. A sentença pronunciada sobre aqueles que estiverem à sua esquerda será perfeitamente justa. Quanto a esta prerrogativa [Sua soberania] pode-se dizer, primeiro, que a Deus pertence o direito de exercê-la. Este direito nasce, em primeiro lugar, de ser Ele o Criador. Ele diz, “todas as almas são minhas” (Ezequiel 18:4). Ele tem o direito absoluto de fazer conosco o que Lhe agrada, visto que “foi ele que nos fez, e não nós a nós mesmos” (Salmo 100:3). Os homens esquecem o que são, e se vangloriam de grandes coisas; embora realmente nada sejam, senão barro na roda do oleiro, e Ele pode formá-los ou quebrá-los como lhe agrada. Eles não pensam assim, mas Ele conhece seus pensamentos que são vãos. Ó, a dignidade do homem! Que tema para um discurso sarcástico! Como o sapo da fábula que se inchou até que explodiu, assim o faz o homem em seu orgulho e inveja contra o seu Criador, que, não obstante, está assentado sobre o círculo da terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos, e atenta para nações inteiras delas como o pó da balança. A prerrogativa do Senhor sobre a criação é manifestamente ampliada moralmente pela nossa perda de qualquer consideração que possa ter surgido por obediência e retidão se os tivéssemos possuído. Nossa culpa envolveu perda de reivindicações por parte da criatura, qualquer que elas pudessem ter sido. Somos todos culpados de alta traição, e cada um de nós é culpado de rebelião pessoal; portanto, não temos os direitos dos cidadãos,

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mas jazemos sob sentença de condenação. O que diz a voz infalível de Deus? “Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las” (Gálatas 3:10). Viemos sob essa maldição; a justiça pronunciounos culpados, e, por natureza, nós permanecemos em condenação. Se, então, o Senhor terá o prazer de nos livrar da morte, isto permanece com Ele para fazê-lo; mas não temos direito a tal libertação, nem podemos usar qualquer argumento que seria proveitoso nos tribunais de justiça para a reversão da pena ou suspensão da execução. Antes, no tribunal de justiça deve ser difícil estabelecer o nosso caso sob qualquer alegação de direito. Seremos expulsos com o desdém do juiz imparcial, se nós pleitearmos o nosso processo sobre essa linha. Nosso procedimento mais sábio é apelar para a Sua misericórdia e Sua graça soberana, pois somente isto é a nossa esperança. Compreenda-me claramente: Se o Senhor fizer com que padeçamos a perecer, nós apenas receberemos o que merecemos, e nós não temos, nenhum de nós, sequer uma sombra de reivindicação em Sua misericórdia; nós estamos, portanto, absolutamente nas mãos de Deus, e a Ele pertencem as questões da morte (C.H. Spurgeon, A Prerrogativa Real — Salmo 68:20-21 [Sermão de Nº 1523, Publicamos este sermão em português, baixe-o gratuitamente em nosso site]). Finalmente, convém lembrar que Deus nunca recusa misericórdia para com aqueles que honestamente a procuram. É verdade que os não-eleitos serão perdidos, deixe-os fazer o que quiserem. O pecador é ordenado: “Provai e vede que o Senhor é bom” (Salmo 34:8). Ele é livremente convocado a ser um convidado na festa Evangelho. A promessa é ampla e simples: “o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (João 6:37). Mas se o pecador não vier a Cristo para que ele possa ter vida, então seu sangue será sobre a sua cabeça. Se ele não vai crer, então é a sua própria vontade que o condena. 4. Os Corolários da Eleição A doutrina da eleição magnifica o caráter de Deus. Ela exemplifica a Sua graça. A eleição torna conhecido o fato de que a salvação é dom gratuito de Deus, livremente concedida a quem Ele quer. Isso deve ser assim, pois aqueles que a recebem, eles próprios, não são diferentes e nem melhores do que aqueles que não recebem. A eleição permite alguém ir para o inferno para mostrar que todos mereciam morrer. Mas a graça vem como um arrastão e atrai da humanidade arruinada uma grande multidão, que nenhum homem pode contar, para ser por toda a eternidade os monumentos da misericórdia soberana de Deus. Ela exibe Sua onipotência. A eleição torna conhecido o fato de que Deus é todo-poderoso, governando e reinando sobre a terra; e declara que ninguém pode resistir com êxito à Sua vontade ou frustrar Seus propósitos secretos. A eleição revela Deus quebrando a oposição

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do coração humano, subjugando a inimizade da mente carnal, e com o poder irresistível atraindo Seus escolhidos para Cristo. A eleição confessa: “Nós o amamos a ele porque ele nos amou primeiro” (1João 4:19), e nós acreditamos, porque Ele nos fez dispostos no dia do Seu poder (Salmo 110:3). Ela atribui toda a glória a Deus. Ela não permite qualquer crédito para a criatura. Ela nega que os não regenerados são capazes de derivar um pensamento reto, gerar uma afeição correta, ou originar uma volição correta. Ela insiste em que Deus deve operar em nós tanto o querer como o efetuar. Ela declara que o arrependimento e a fé são, eles próprios, dons de Deus, e não algo que o pecador contribui para o preço da sua salvação. Sua linguagem é: “Não a nós, Senhor, não a nós” (Salmo 115:1), mas, “Àquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados” (Apocalipse 1:5). “O Senhor faz distinções entre os homens culpados de acordo com a soberania de Sua graça. “Porque eu não tornarei mais a compadecer-me da casa de Israel, mas tudo lhe tirarei” (Oséias 1:6). Não tinha Judá pecado também? Não poderia o Senhor ter desistido de Judá também!? Na verdade, Ele poderia justamente tê-lo feito, mas Ele se deleita na benignidade. Muitos pecaram, e justamente trouxeram sobre si mesmos o castigo devido ao pecado: eles não creem em Cristo, e morrem em seus pecados. Mas Deus tem misericórdia, de acordo com a grandeza do Seu coração, sobre multidões que não poderiam ser salvas em qualquer outro fundamento senão o da misericórdia imerecida. Vindicando Seu direito real, Ele diz: “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (Romanos 9:15). A prerrogativa de misericórdia é exercida pela soberania de Deus: Ele exerce esta prerrogativa. Ele concede a quem Ele quiser, e Ele tem o direito de fazê-lo, já que ninguém tem qualquer direito sobre Ele (C. H. Spurgeon, Salvação, A Propriedade do Senhor — Oséias 1:7). Finalmente, a doutrina garante preservação eterna de todos os santos de Deus. Nas Sagradas Escrituras, a questão da nossa salvação é traçada antes (no propósito de Deus) e não ao momento em que cremos, isto é, quando ela se torna nossa experimentalmente, mas em um ponto anterior ao começo do tempo. Antes da fundação do mundo, Deus nos escolheu em Cristo (Efésios 1:4). “Com amor eterno te amei, por isso com benignidade te atraí” (Jeremias 31:3). Isso levanta a questão de nossa salvação do tempo para a eternidade. Se fosse apenas uma coisa de tempo, ela pereceria. Mas, porque é uma coisa da eternidade, deve durar para sempre. É impossível imaginar uma vara com apenas uma extremidade nela; o que é eterno deve ser assim em ambas as extremidades. Assim, a Palavra de Deus afirma que “aos que predestinou [na eternidade passada], a estes também chamou: e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou [na eternidade futura]” (Romanos 8:30).

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5. A Certeza da Eleição Antes de abordar o que é o lado mais experimental do nosso assunto, vamos rever o fundamento que já foi abordado. Vimos que a doutrina da eleição é uma das coisas mais profundas de Deus e deve ser recebida com fé simples, inquestionável; que, como o assunto da Santíssima Trindade é um mistério profundo que transcende a compreensão da mente finita. Então, temos procurado mostrar por uma livre citação das Escrituras que a verdade da eleição é claramente ensinada na Palavra de Deus; mais ainda, que é uma das verdades mais importantes da revelação Divina. Além disso, vimos que o princípio da eleição atravessa todas as relações de Deus com o Seu povo; que, tanto na época do Antigo e Novo Testamento, Deus passa por alguns e chama outros. Em seguida, consideramos brevemente a justiça da eleição, e descobrimos que em abençoar alguns, Deus não mostrou nenhuma injustiça para com os outros, porque ninguém tem qualquer direito sobre Ele. E que, como a salvação é o Seu dom gratuito, ele dispensa Seus favores de acordo com Sua própria boa vontade. Finalmente, observamos os corolários desta doutrina e mostramos como ela atribui toda a glória a Deus, e garante da forma mais enfática a segurança eterna de todos os que foram escolhidos em Cristo antes da fundação do mundo. E agora, com uma humilde vontade de buscar remover algumas das dificuldades que naturalmente surgem a partir de uma reflexão sobre este assunto, vamos observar algumas das perguntas que normalmente ocorrem a todas as mentes que refletem quando esta doutrina é trazida perante eles, pela primeira vez. 6. As Dificuldades da Eleição 1 — As Escrituras não declaram que Deus não faz acepção de pessoas? Sim, é verdade (Atos 10:34), e a eleição é a prova disto. Os sete filhos de Jessé, embora mais velhos e fisicamente superiores a Davi, são deixados por ela, enquanto o jovem pastor é exaltado ao trono de Israel. Os escribas e doutores são ignorados, e pescadores ignorantes são escolhidos para serem os apóstolos do Cordeiro. A verdade Divina é oculta dos “sábios e entendidos”, mas é revelada aos “pequeninos” (Mateus 11:25). A maioria dos poderosos e nobres são ignorados, enquanto os fracos e desprezados são chamados e salvos. Prostitutas e publicanos são docemente compelidos a vir para a festa de casamento, enquanto os fariseus orgulhosos são deixados a perecer em sua própria autojustiça. Verdadeiramente, Deus não faz acepção de pessoas, ou Ele não teria salvado você, meu amigo. 2 — Mas o homem não é um ser responsável, dotado de livre-arbítrio?

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O homem é, sem dúvida, um ser responsável. Ele não é uma mera máquina ou autômato. A Escritura uniformemente se refere a ele como quem colhe de acordo com o que semeia, e como alguém que ainda terá de prestar contas pelas coisas feitas no corpo. Mas em nenhum lugar a Bíblia prega o livre-arbítrio do homem natural. O homem por natureza é sujeito a Satanás e escravo do pecado, e não se torna livre até que o Filho de Deus o liberte (João 8:36). “Ninguém pode vir a mim, [mas ele poderia, se ele fosse livre], se o Pai que me enviou não o trouxer” (João 6:44), mas não haveria necessidade de “trazer” se ele fosse livre. Isto é inequívoco. Quando a misericórdia vem para abençoar, ela encontra-nos inclinados à maldição. Nós não receberíamos o benefício proferido; rejeitamos a misericórdia e a graça deve superar a nossa vontade. Deve levar-nos cativos em laços de seda, ou do mesmo modo não pode nos abençoar. O homem, enquanto sua vontade é livre, é desgraçado; é somente quando a sua vontade é presa pelos grilhões da graça soberana, que ele é gracioso em absoluto. Se há uma coisa como livre-arbítrio, Lutero realmente o definiu quando chamou o livre-arbítrio de escravo. É apenas a nossa vontade presa que é verdadeiramente livre. Nossa vontade constrangida, então alcança a liberdade; quando a graça liga-a, então, verdadeiramente, é livre, e somente então, quando o Filho a tornou livre (C. H. Spurgeon, A Glória da Graça - Efésios 1:6 [Sermão de Nº 2763]). 3 — Mas a Escritura não diz: Todo aquele que quiser, pode vir? Ele diz, e Cristo ainda não rejeitou nenhuma alma disposta. Se, na undécima hora, ao ladrão moribundo que se converteu ao Senhor foi assegurado um lugar no paraíso, e se Saulo, o perseguidor da Igreja — “o principal dos pecadores” (1 Timóteo 1:15) — encontrou misericórdia, em verdade, todo aquele que quiser, pode vir (Atos 2:21; Apocalipse 22:17). Mas nem todos estão dispostos. A grande maioria das pessoas não tem o desejo de vir a Cristo. Se Deus deixasse isto inteiramente à vontade do homem, ninguém jamais O teria aceitado. Consequentemente, Deus tem que operar em nós “tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” (Filipenses 2:13). Mas Deus não opera assim em todos, e isto é feito na eleição. 4 — Mas por que pregar o Evangelho a toda a criatura, se apenas uns “poucos” são escolhidos? Porque o sacrifício expiatório de Cristo seria suficiente para todos, se todos o aceitassem. Porque Deus quis anunciar a mui grande e incomparável graça e amor insondável do Seu Filho amado. Porque o sacrifício de Cristo é eminentemente adaptado a todos, o que serve

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para um pecador deve atender às necessidades de outro. Porque é pela pregação do Evangelho que os eleitos são chamados para fora do mundo. Finalmente, porque somos ordenados a pregar o Evangelho a todas as nações, e “não é para que nós entendamos o porquê; não é para que repliquemos; isto é para nós fazermos — e morrermos.” 5 — Mas esta doutrina não cortará o nervo do esforço evangelístico? Mais uma vez vamos deixar que o Sr. Spurgeon dê a resposta. “Bem, então”, diz alguém, “isso vai fazer as pessoas sentarem e cruzarem os braços”. Senhor, não vai! Mas se os homens o fizerem, eu não poderei ajudá-los — meu negócio — como eu já disse muitas vezes neste lugar, não é provar a você a razoabilidade de qualquer verdade, nem defender qualquer verdade das suas consequências. Tudo o que faço aqui — e eu quero dizer para sustentá-lo — é apenas afirmar a verdade porque está na Bíblia! Então, se você não gosta, você deve resolver a disputa com meu Mestre, e se você acha que não é razoável, você deve discutir com a Bíblia. Permita que os outros defendam a Escritura e provem que é verdade. Eles podem fazer o seu trabalho melhor do que eu; o meu é apenas a simples obra de proclamar. Eu sou o mensageiro. Falo a mensagem do meu Mestre. Se você não gosta da mensagem, discuta com a Bíblia, não comigo! Enquanto eu tenho a Escritura do meu lado, eu vou ousar e desafiar você a fazer qualquer coisa contra mim! “Ao SENHOR pertence a salvação!”. O Senhor tem que aplicá-la, para fazer o relutante, disposto; fazer o ímpio, piedoso; e trazer o desprezível rebelde aos pés de Jesus; caso contrário a salvação nunca será cumprida! Deixe esta coisa desfeita e você terá quebrado o elo da cadeia, a própria ligação que era necessária para a sua integridade. Tire o fato de que Deus começa a boa obra e que Ele nos envia o que os antigos teólogos chamam de graça preservadora, tire isso e você terá estragado toda a salvação; você tomou a pedra angular para fora do arco e abaixo ele cai!”. (C. H. Spurgeon, A Salvação Pertence ao Senhor — Jonas 2:9 [Publicamos este sermão em português, baixe-o gratuitamente em nosso site]). 7. Os Sinais da Eleição Como os crentes podem saber que estão entre o número de eleitos de Deus? É verdade que eles não têm acesso ao Seu livro da vida; que eles não podem ler Seus decretos secretos; eles são ignorantes de Seus eternos conselhos. No entanto, é possível que os santos saibam que estão entre aqueles que Deus predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho. Há pelo menos cinco maneiras pelas quais Deus dá testemunho de que Ele nos escolheu desde toda a eternidade.

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1 — Ao chamar-nos para Ele mesmo “Aos que predestinou, a esses também chamou” (Romanos 8:30). A predestinação aconteceu na eternidade; o chamado acontece no tempo. Este chamado é aos eleitos, com força irresistível: eles O ouvem e não pode deixar de responder. “As ovelhas ouvem a sua voz, e chama pelo nome às suas ovelhas, e as traz para fora” (João 10:3). Temos uma ilustração disto, no caso de Zaqueu. “Zaqueu, desce depressa... E, apressando-se, desceu, e recebeuo alegremente” (Lucas 19:5-6). A ovelha foi chamada pelo nome e respondeu à voz do Pastor! “E as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz” (João 10:4). Nós temos uma outra bela ilustração disto registrada em João 20:16: “Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltandose, disse-lhe: Rabôni” Anteriormente ela não O conheceu; ela O confundiu com o jardineiro; mas o Bom Pastor chama as Suas ovelhas pelo nome, “Maria” e instantaneamente ela conheceu Sua voz! Aqui, então, está o primeiro sinal de eleição, como ilustram os casos acima. O Pastor chama, e aqueles que são Suas ovelhas (os eleitos) ouvem, reconhecem e respondem. 2 — Ao recriá-los em Cristo Ou, por outras palavras, tornando-os Seus filhos. Nem todos são filhos de Deus. Pelo contrário, todos são por natureza “filhos da ira” (Efésios 2:3), e somente pela graça soberana nos tornamos filhos de Deus. Todos são Suas criaturas, mas nem todos são Seus filhos. A regeneração é a consequência da eleição. “Segundo a sua vontade, Ele nos gerou” (Tiago 1:18). “Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (João 1:13). Eu já nasci de novo? Eu fui feito uma nova criatura em Cristo? Há evidências inequívocas em minha vida que eu tenho sido feito um participante da natureza Divina? Então esta é uma das marcas da minha eleição. 3 — Ao nos conformarmos à Sua vontade “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser” (Romanos 8:7). A vontade não-regenerada é totalmente contrária a tudo o que verdadeiramente santo. Mas é diferente com aqueles a quem Deus chama e vivifica. Ele renova as suas vontades. Ele opera neles tanto o querer quanto o realizar, segundo a Sua boa vontade. O que diferencia um filho do diabo de um filho de Deus é que o primeiro é governado por sua própria vontade, ao passo que a vontade deste último está sujeita a Deus. A linguagem do santo é: “Ele é o Senhor; faça o que bem parecer aos Seus olhos” (1 Samuel 3:18). Se, então, a sua vontade está quebrada, se você está dizendo com o coração: “todavia não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lucas 22:42), então esta é uma das marcas e sinais de sua eleição.

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4 — Ao comunicar o Seu amor aos seus corações Os ímpios não têm amor a Deus, nenhuma capacidade de apreciar Suas perfeições, nenhuma preocupação com a Sua glória. Eles não veem nEle nenhuma beleza para que O desejem, sim, Ele é desprezado e rejeitado por eles (Isaías 53:2-3). Mas o Espírito Santo derrama o amor de Deus nos corações daqueles que creem (Romanos 5:5). Para eles, Deus é mui excelente, eles dizem: “Quem tenho eu no céu senão a ti? e na terra não há quem eu deseje além de ti” (Salmo 73:25). Para eles, Cristo é o mais formoso entre dez mil, o “totalmente desejável” (Cânticos 5:16). Se, então, o amor de Deus brilha em seu coração, esta é uma das marcas e evidências de sua eleição. 5 — Por cultivar neles o fruto do Espírito Na parábola do semeador, existem quatro tipos de solo em que a semente cai, mas apenas um tem algum fruto. Os três primeiros representam várias classes de incrédulos que ouvem a Palavra de Deus, e uma coisa é comum a eles, todos eles são estéreis. Mas a quarta classe, o solo dos bons ouvintes, produz fruto em graus variados. Aqui, então, está mais um sinal infalível, outra característica peculiar dos crentes: eles dão fruto. O que é o fruto, aprendemos em Gálatas 5:22-23. Tenho o “amor”, o amor a Deus, por Sua Palavra, pelo Seu povo? Tenho “alegria”, aquela profunda, permanente, maravilhosa alegria, sobre a qual o mundo nada sabe? Eu tenho “paz”, paz de consciência que vem do conhecimento dos pecados perdoados? Eu tenho “longanimidade”, para “tudo suportar por amor dos eleitos” (2 Timóteo 2:10)? Eu sou “benigno”, de modo que, à semelhança de uma verdadeira ovelha, eu nunca me mostro contencioso? Tenho “bondade”, de modo que aqueles que me rodeiam tomam conhecimento que tenho estado com Jesus? Tenho “fé”, de modo que eu descanso com inabalável confiança nas promessas de Deus? Tenho “mansidão”, de forma que eu considero os outros superiores a mim mesmo? Tenho “temperança”, de modo que minha moderação é notória a todos os homens (Filipenses 4:5)? Então este é o fruto do Espírito. Por esses e outros sinais semelhantes, Deus nos indica nossa eleição eterna. 8. Os Frutos da Eleição Não somente Deus nos concede estes sinais infalíveis pelos quais podemos descobrir Sua escolha, mas os eleitos fazem firme a sua própria eleição para si mesmos. “Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição” (2 Pedro 1:10). Na mente de Deus, a minha vocação e eleição está “firme” antes da fundação do mundo; mas quanto à minha própria consciência e garantia delas estão em causa; eu devo ser diligente para torná-las firmes para mim. Como os eleitos fazem isso?

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1 — Ao abandonarem-se a Cristo “Todo o que o Pai me dá virá a mim” (João 6:37). Quando perdemos toda a confiança na carne; quando chegamos inteiramente ao fim de nós mesmos; quando percebemos que na carne não habita coisa boa; quando nos tornamos conscientes de que todas as nossas justiças como trapo da imundícia; quando estamos preparados para clamar: “Senhor, salvame! que pereço” (ver Mateus 8:25); quando fugimos para Cristo como o único refúgio da ira vindoura, então daremos o primeiro passo para fazer firme a nossa vocação e eleição. 2 — Por uma caminhada em obediência Pedro se dirige aos “estrangeiros” como “eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência” (1 Pedro 1:2). Se estamos caminhando contrário aos preceitos de Deus, então nós não temos nenhuma razão para nos considerar como estando entre os eleitos de Deus. O bom Pastor guia as Suas ovelhas nas “veredas da justiça” (Salmo 23:03), e se nos encontramos no “caminho dos pecadores” (Salmo 1:1), então não temos autorização para chamar-nos de Suas ovelhas. Mas, se estamos orando por isso e lutando diariamente por uma obediência mais perfeita do que aquela que nós ainda redemos, então nós estamos fazendo firme a nossa vocação e eleição. “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus antes ordenado que andássemos nelas” (Efésios 2:10). 3 — Por uma santificação progressiva “Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hebreus 12:14). Se estamos crescendo na graça e no conhecimento do Senhor (2Pe 3:18); se estamos esquecendo-nos das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão adiante (Filipenses 3:13); se estamos limpando-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, e estamos aperfeiçoando a santificação no temor de Deus (2 Coríntios 7:1), então estamos fazendo a nossa própria “vocação e eleição”. “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos” (Efésios 1:4). 4 — Por uma perseverança continua na fé Nisto os falsos professos são distinguidos dos eleitos de Deus. Há aqueles que ouvem a Palavra e logo a recebem com alegria, mas não têm raiz em si mesmo, antes são de pouca duração (Mateus 13:20-21). Mas os eleitos de Deus perseveram até o fim. Eles “prosseguem em conhecer ao Senhor” (Oséias 6:3). Eles podem, por vezes, estar abatidos em si mesmos; eles às vezes podem ser apanhados em falta; eles têm que confessar que eles

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são “servos inúteis” (Lucas 17:10), mas, ao final, cada um deles, em alguma medida, será capaz de dizer: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé” (2 Timóteo 4:7). Ao perseverar até o fim, nós fazemos firme a nossa vocação e eleição para nós mesmos. “Aos que predestinou... a esses também glorificou” (Romanos 8:30). Irmãos, se estamos entre os escolhidos de Deus, mostremos por nossa caminhada diária que somos de fato os mais escolhidos dentre os homens. “Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade; suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também” (colossenses 3:12-13).

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A Doutrina da Eleição Por João Calvino

“Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos; e que é manifesta agora pela aparição de nosso Salvador Jesus Cristo, o qual aboliu a morte, e trouxe à luz a vida e a incorrupção pelo Evangelho.” (2 Timóteo 1:9-10) Nós mostramos nesta manhã, de acordo com o texto de São Paulo, que se nós quisermos conhecer a livre misericórdia de nosso Deus em nos salvar, devemos nos achegar ao Seu conselho eterno pelo qual Ele nos escolheu antes da fundação do mundo. Pois aqui podemos ver que Ele não tinha nenhuma estima às nossas pessoas, nem à nossa dignidade, nem a quaisquer méritos que poderiam haver em nós. Antes de nascermos, estávamos inscritos em Seu registro; Ele já havia nos adotado por Seus filhos. Portanto, vamos atribuir tudo à Sua misericórdia, sabendo que não podemos nos orgulhar de nós mesmos, a não ser que roubemos a honra que pertence a Ele. Os homens têm se esforçado para inventar sofismas, para obscurecer a graça de Deus. Pois eles têm dito: embora Deus escolheu homens antes da fundação do mundo, no entanto, foi de acordo com a Sua previsão de que um seria diferente do outro. A Escritura demonstra claramente que Deus não esperou para ver se os homens eram dignos ou não, quando Ele os escolheu, mas os sofistas achavam que poderiam denegrir a graça de Deus, dizendo: embora Ele não considerava os méritos do passado, Ele olhava para aqueles que estavam por vir. Pois, dizem que, apesar de que Jacó e seu irmão Esaú não tivessem feito nem bem nem mal, e Deus escolheu um e reprovou a outro, isso se deu porque Deus previu, (como todas as coisas estão presentes com Ele) que Esaú seria um homem ímpio, e que Jacó seria como ele mais tarde se mostrou. Mas estas são especulações tolas, pois claramente fazem de São Paulo um mentiroso, pois este diz: Deus não retribuiu nenhuma recompensa às nossas obras quando Ele nos escolheu, porque Ele fez isso antes que o mundo viesse a existir. Mas, se porventura, a autoridade de São Paulo fosse abolida, a questão ainda seria muito simples e clara, não somente na Sagrada Escritura, mas na razão; de modo que aqueles que gostariam de escapar desta ordem, mostram-se homens vazios de todas as habilidades. Porque, se nós investigarmos a fundo, que bem podemos encontrar? Não são todos os homens malditos? O que trazemos do ventre da nossa mãe, exceto o pecado?

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Portanto, nós não diferimos nem um pouco uns dos outros; mas agrada a Deus escolher aqueles a quem Ele próprio deseja. E por isso, São Paulo usa estas palavras em outro lugar, quando ele diz: os homens não têm do que se alegrar, pois nenhum homem se acha numa condição melhor do que os seus companheiros, a não ser porque Deus os diferencia [1 Coríntios 4:7]. Então, se nós confessamos que Deus nos escolheu antes dos tempos eternos, segue-se necessariamente que Deus nos preparou para receber a Sua graça; que Ele derramou sobre nós esta bondade, de forma que ela não estava em nós antes; que Ele não somente nos escolheu para sermos herdeiros do reino dos céus, mas Ele também nos justifica e nos governa pelo Seu Espírito Santo. O Cristão deve ser tão bem resolvido nesta doutrina, que ela esteja acima de qualquer dúvida para ele. Há alguns homens neste dia, que ficariam felizes se a verdade de Deus fosse destruída. Tais homens lutam contra o Espírito Santo, como animais furiosos, e esforçam-se para abolir a Sagrada Escritura. Há mais honestidade nos Papistas, do que nestes homens: pois a doutrina dos Papistas é muito melhor, mais santa e mais agradável para com a Sagrada Escritura, do que a doutrina desses homens vis e malvados, que desprezam a santa eleição de Deus; estes cães que latem diante disso, e porcos que a arrancam pela raiz. No entanto, retenhamos o que nos é aqui ensinado: Deus nos escolheu antes que o mundo iniciasse seu curso, devemos atribuir a causa da nossa salvação à Sua bondade gratuita; devemos confessar que Ele não nos toma para sermos Seus filhos por quaisquer de nossos méritos; pois não tínhamos nada para nos recomendar ao Seu favor. Por isso, devemos colocar a causa e a fonte da nossa salvação em Deus somente. Este deve ser nosso único fundamento, caso contrário, tudo o que construímos e da forma como construirmos, acabarse-á em nada. Devemos observar o que São Paulo aqui une; a saber, a graça de Jesus Cristo, com o conselho eterno de Deus, o Pai, e, em seguida, ele nos traz a nossa vocação, para que possamos ter a certeza da bondade de Deus, e da Sua vontade, que teria permanecido escondida de nós, a menos que tivéssemos uma testemunha disso. São Paulo diz, em primeiro lugar, que a graça que estava sobre o propósito de Deus, e é compreendida nEle, é dada a nós em nosso Senhor Jesus Cristo. Como se dissesse: vendo que merecíamos ser lançados fora, e odiados como inimigos mortais de Deus, era necessário que fôssemos enxertados, por assim dizer, em Jesus Cristo; para que Deus pudesse nos reconhecer, e nos aceitar como Seus filhos. De outra forma, Deus não poderia olhar para nós, apenas nos odiar; porque não há nada mais do que miséria em nós; estamos cheios de pecado, e como que mergulhados em todos os tipos de iniquidades. Deus, que é a própria justiça, não pode ter acordo conosco, enquanto considerar a nossa

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natureza pecaminosa. Portanto, como Ele nos adotou antes que o mundo existisse, era necessário que Jesus Cristo ficasse entre nós e Ele; que nós fossemos escolhidos em Sua Pessoa, pois Ele é o mui amado Filho: quando Deus nos uniu a Ele, Ele nos fez agradáveis a Si mesmo. Vamos aprender a vir diretamente a Jesus Cristo, caso possamos duvidar da eleição de Deus, pois Ele é o espelho verdadeiro, no qual devemos contemplar nossa adoção. Se Jesus Cristo for tirado de nós, então Deus é juiz dos pecadores, de modo que não podemos esperar por qualquer bondade ou favor em Suas mãos, mas somente por vingança, por estarmos sem o testemunho de Cristo. Sua majestade será sempre terrível e temível para nós. Se ouvirmos menção de Seu propósito eterno, não podemos deixar de temer, como se Ele já estivesse armado para nos mergulhar na miséria. Mas quando sabemos que toda a graça repousa em Jesus Cristo, então podemos estar certos de que Deus nos ama, apesar de sermos indignos. Em segundo lugar, é preciso observar que São Paulo não fala simplesmente da eleição de Deus, por que esta não nos tiraria a dúvida; mas antes, permaneceríamos na perplexidade e angústia, porém ele acrescenta, a vocação; pela qual Deus abriu Seu conselho, que antes era desconhecido para nós, e que não poderíamos compreender. Como saberíamos então que Deus nos elegeu, para que possamos nos alegrar nEle, e nos gloriarmos na bondade que Ele nos concedeu? Os que falam contra a eleição de Deus, partindo do Evangelho sozinho [e negligenciam os meios]; deixam tudo o que Deus espalha diante de nós, para nos conduzir a Ele, todos os meios que Ele tem determinado para nós, e sabe serem adequados para nosso uso. Não podemos continuar assim; mas de acordo com a regra de São Paulo, devemos juntar a vocação com a eleição eterna de Deus. Está dito que somos chamados; e, portanto, temos esta segunda palavra, vocação. Portanto Deus nos chama; mas como? Certamente, quando agrada a Ele e para nos certificar de nossa eleição; a qual nós não poderíamos por nenhum outro meio discernir, pois quem pode entrar no conselho de Deus? Como diz o profeta Isaías; e também o apóstolo Paulo. Mas quando agrada a Deus revelar-Se a nós familiarmente, então vamos receber aquilo que ultrapassa o conhecimento de todos os homens, porque temos uma boa e fiel testemunha, que é o Espírito Santo; que nos faz ascender acima do mundo, e nos revela os maravilhosos segredos de Deus. Não devemos falar precipitadamente da eleição de Deus, e dizer, que somos predestinados; mas se vamos estar seguros da nossa salvação, não devemos falar levianamente dela; se Deus nos tomou por Seus filhos ou não. Que faremos então? Olhemos para o que está estabelecido no Evangelho. Ali Deus nos mostra que Ele é nosso Pai; e que Ele vai nos

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levar para a herança da vida, depois de ter-nos selado com o selo do Espírito Santo em nossos corações, que é um testemunho incontestável de nossa salvação, se nós a recebermos pela fé. O Evangelho é pregado a um grande número de pessoas, as quais, não obstante, são reprovadas; sim, e Deus desnuda e mostra que Ele lhes amaldiçoou, que eles não têm parte nem porção em Seu reino, pois eles resistem ao Evangelho, e rejeitam a graça que lhes é oferecida. Mas quando recebemos a doutrina de Deus, com obediência e fé, e descansamos em Suas promessas, e aceitamos a oferta que Ele faz de tornar-nos Seus filhos, isso, eu digo, é uma certeza de nossa eleição. Mas temos aqui a observação, que, quando temos conhecimento da nossa salvação, quando Deus nos tem chamado e iluminado na fé de Seu Evangelho, não é para invalidar a predestinação eterna que foi feita antes. Há muitos nestes dias que dirão: quem são aqueles a quem Deus escolheu, senão apenas os fiéis? Eu admito isto; mas eles fazem um mau uso disso; e dizem que a fé é a causa, sim, e a primeira causa de nossa salvação. Se eles chamam de uma causa mediadora, seria de fato verdadeiro; porque a Escritura diz: “Pela graça sois salvos, mediante a fé” (Efésios 2:8). Mas devemos ir mais acima; pois se eles atribuem a fé ao livre-arbítrio do homem, eles blasfemam contra Deus perversamente e cometem sacrilégio. Devemos vir ao que mostra Escritura; a saber, quando Deus nos dá a fé, devemos saber que não somos capazes de receber o Evangelho, senão apenas quando Ele nos tem moldado pelo Espírito Santo. Não é o suficiente que nós ouçamos a voz do homem, a menos que Deus trabalhe em nós interiormente e nos fale de uma forma secreta pelo Espírito Santo e assim, consequentemente, vem a fé. Mas o que é a causa disso? Por que a fé é dada para um e não para outro? São Lucas mostra-nos, dizendo: “e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (Atos 13: 48). Havia um grande número de ouvintes, e ainda assim apenas alguns deles receberam a promessa de salvação. E quem eram esses poucos? Aqueles que foram nomeados para a salvação. Mais uma vez, São Paulo fala tão amplamente sobre este assunto, em sua epístola aos Efésios, que os inimigos da predestinação de Deus não podem ser senão estúpidos e ignorantes, e que o Diabo lhes tenha arrancado os olhos; e que eles tornaram-se destituídos de toda a razão, se eles não podem ver uma coisa tão simples e evidente. São Paulo diz: Deus nos chamou, e nos fez participantes dos Seus tesouros e riquezas infinitas, que nos foram dadas através do nosso Senhor Jesus Cristo, assim como Ele nos escolheu antes da fundação do mundo. Quando dizemos que somos chamados à salvação porque Deus deu-nos a fé, isto não é porque não existe uma causa superior; e todo aquele

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que não pode vir à eleição eterna de Deus, tira algo dEle, e diminui Sua honra. Isto é encontrado em quase todas as partes da Sagrada Escritura. Para que possamos fazer uma breve conclusão sobre este assunto, vejamos de que maneira devemos nos portar. Quando nos perguntam sobre nossa salvação, nós não devemos começar a dizer, somos escolhidos? Não, nós nunca podemos subir tão alto; seremos confundidos mil vezes, e teremos os nossos olhos ofuscados, antes que possamos vir ao conselho de Deus. O que faremos então? Vamos ouvir o que é dito no Evangelho: quando Deus tem sido tão gracioso para fazer-nos alcançar a promessa oferecida, nós conhecemos que é tanto como se Ele tivesse aberto todo o Seu coração para nós, e houvesse registrado nossa eleição em nossas consciências! Devemos nos certificar que Deus nos tem tomado como Seus filhos, e que o reino dos céus é nosso; porque somos chamados em Jesus Cristo. Como podemos saber isso? Como vamos permanecer sobre a doutrina que Deus pôs diante de nós? Precisamos magnificar a graça de Deus, e saber que não podemos trazer nada para nos recomendar ao Seu favor; devemos nos tornar como nada aos nossos próprios olhos, para que nós não possamos reivindicar qualquer louvor; mas saibamos que Deus nos chamou para o Evangelho, tendo nos escolhido antes que o mundo viesse a existir. Esta eleição de Deus é, por assim dizer, uma carta selada; porque ela é consistente em si, e em sua própria natureza, mas podemos lê-la, pois Deus deu um testemunho: quando Ele nos chamou para Si mesmo por meio do Evangelho e pela fé. Pois, assim como o original ou cópia primeira não tira nada da letra ou escrita que é lida, semelhantemente devemos estar sem dúvidas da nossa salvação. Quando Deus nos certificou pelo Evangelho que Ele nos toma por Seus filhos, este testemunho traz paz consigo; sendo assinado pelo sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, e selado pelo Espírito Santo. Quando temos este testemunho, nós não temos o suficiente para contentarmos nossas mentes? Portanto, a eleição de Deus está muito longe de ser contra isso, pois confirma o testemunho que temos no Evangelho. Não devemos duvidar que Deus tem registrado os nossos nomes, antes que o mundo fosse feito, entre Seus filhos escolhidos, porém o conhecimento certo disso Ele reservou para Si mesmo. Devemos sempre vir para o nosso Senhor Jesus Cristo, quando nós falamos da nossa eleição; pois sem Ele (como já foi mostrado), não podemos nos aproximar de Deus. Quando falamos de Seu decreto, bem podemos ser surpreendidos, como homens dignos de morte. Mas se Jesus Cristo for o nosso guia, podemos com alegria depender dEle; sabendo que há mérito suficiente nEle para fazer de todos os Seus membros amados de Deus Pai; sendo suficiente para nós que sejamos enxertados em Seu corpo, e feitos um com Ele. Assim,

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devemos meditar sobre esta doutrina, se quisermos desfrutar dela corretamente, como está previsto por São Paulo; quando diz que, esta graça da salvação nos foi dada antes que o mundo começasse. Precisamos ir além da ordem da natureza, se quisermos saber como seremos salvos, e por que causa, e de onde vem a nossa salvação. Deus não nos deixaria em dúvida, nem Ele esconde Seu conselho, a ponto de nós não podermos saber como a nossa salvação foi assegurada; antes nos chamou a Ele por Seu Evangelho, e selou o testemunho de Sua bondade e amor paterno em nossos corações. Então, tendo tal certeza, glorifiquemos a Deus, pois Ele nos tem chamado por Sua livre misericórdia. Descansemos em nosso Senhor Jesus Cristo, sabendo que Ele não nos tem enganado, quando Ele fez com que fosse pregado que Ele deu a Si mesmo por nós, e testemunhou isto pelo Espírito Santo. Pois a fé é um sinal indubitável de que Deus nos toma por Seus filhos; e, assim, somos levados à eleição eterna, segundo Ele de antemão nos escolheu. Ele não diz que Deus nos escolheu porque ouvimos o Evangelho, mas, por outro lado, ele atribui a fé que nos é dada a uma maior causa, a saber, porque Deus tem preordenado que Ele nos salvaria; vendo que estávamos perdidos e extraviados em Adão. Há certos tolos, que, para cegar os olhos dos símplices, tais como o são eles mesmos, dizem que a graça da salvação nos foi dada, porque Deus ordenou que Seu filho deveria redimir a humanidade e, portanto, ela é comum a todos. Mas São Paulo falou de outra forma; e os homens não podem por tais argumentos infantis estragar a doutrina do Evangelho, porque é dito claramente, que Deus nos salvou. Isto se refere a todos, sem exceção? Não; ele fala somente dos fiéis. Mais uma vez, São Paulo inclui todo o mundo? Alguns foram chamados pela pregação, e ainda assim eles se fizeram indignos da salvação que foi oferecida a eles, por isso eles foram reprovados. Deus deixou outros em sua incredulidade, os quais nunca ouviram a pregação do Evangelho. Portanto São Paulo dirigiu-se de forma clara e precisa àqueles a quem Deus tinha escolhido e reservado para Si mesmo. A bondade de Deus nunca será vista em sua verdadeira luz, nem honrada como merece, a menos que saibamos que Ele não quer nos fazer permanecer na destruição geral da humanidade; na qual Ele deixou aqueles que são semelhantes a nós, de quem nós não diferimos, pois não somos melhores do que eles, mas assim aprouve a Deus. Portanto, todas as bocas devem ser silenciadas; os homens não devem presumir tomar nada para si mesmos, a não ser louvar a Deus, ao confessarem-se devedores a Ele por toda a sua salvação. Façamos agora algumas observações sobre as outras palavras utilizadas por São Paulo

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nesta passagem. É verdade que a eleição de Deus jamais poderia ser proveitosa para nós, nem ela poderia vir até nós, a não ser que nós tomássemos conhecimento dela por meio do Evangelho; por esta causa aprouve a Deus revelar o que Ele tinha mantido em segredo antes dos tempos dos séculos. Mas, para declarar seu significado mais claramente, acrescenta que esta graça nos é revelada agora. E como? “Pela aparição de nosso Salvador Jesus Cristo”. Quando ele diz que esta graça nos é revelada pela aparição de Jesus Cristo, Ele mostra que devemos ser mui ingratos, se não conseguimos nos contentar e descansar na graça do Filho de Deus. O que podemos procurar mais? Se pudéssemos subir além das nuvens, e procurar os segredos de Deus, qual seria o resultado disso? Não seria para verificar que somos Seus filhos e herdeiros? Ora, conhecemos essas coisas, porque são claramente trazidas à luz em Jesus Cristo. Por que se diz que todos os que nEle creem gozam o privilégio de serem filhos de Deus. Portanto, não devemos desviar destas coisas nem um jota, se quisermos nos certificar de nossa eleição. São Paulo já nos mostrou, que Deus nunca nos amou, nem nos escolheu, senão apenas na pessoa de Seu Filho amado. Quando Jesus Cristo apareceu Ele revelou-nos a vida, caso contrário, nunca poderíamos ter sido participantes da mesma. Ele nos fez conhecer o conselho eterno de Deus. Mas é presunção que os homens tentem saber mais do que Deus quer que eles saibam. Se andarmos com sobriedade e reverentemente em obediência a Deus, dando ouvidos e recebendo o que Ele diz na Sagrada Escritura, o caminho será aplainado diante de nós. São Paulo diz que quando o Filho de Deus apareceu no mundo, Ele abriu os nossos olhos, para que pudéssemos saber que Ele foi gracioso para conosco, antes da fundação do mundo. Fomos recebidos como Seus filhos, e contados como justos; de modo que não precisamos duvidar de que o reino dos céus está preparado para nós. Não que nós o tenhamos ganhado pelos nossos próprios méritos, mas porque ele pertence a Jesus Cristo, que nos torna participantes com Ele mesmo. Quando São Paulo fala da revelação de Jesus Cristo, diz: “trouxe à luz a vida e a incorrupção pelo Evangelho” (2 Timóteo 1:10). Aqui não só é dito que Jesus Cristo é o nosso salvador, mas que Ele é enviado para ser um mediador, para nos reconciliar com o sacrifício da Sua morte; Ele é enviado para nós, como um Cordeiro sem mácula; para nos purificar e fazer satisfação por todas as nossas transgressões; Ele é o nosso penhor, para nos livrar da condenação da morte; Ele é a nossa justiça; Ele é o nosso advogado, que intercede junto a Deus para que Ele ouça nossas orações. Devemos reconhecer que, todas essas qualidades pertencem a Jesus Cristo, se quisermos compreender corretamente por que Ele apareceu. Temos de olhar para a substância contida no Evangelho. Devemos saber que Jesus Cristo apareceu como nosso salvador, e que Ele sofreu para a nossa salvação; e

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que fomos reconciliados com Deus Pai através de Seus meios; que fomos purificados de todos os nossos defeitos, e libertos da morte eterna. Se nós não soubermos que Ele é o nosso advogado, que Ele nos ouve quando oramos a Deus, a fim de que nossas orações possam ser respondidas, o que será de nós, que confiança podemos ter ao recorrer ao nome Deus, que é a fonte da nossa salvação? Mas São Paulo, diz: Jesus Cristo tem cumprido todas as coisas que eram necessárias para a redenção dos homens. Se o Evangelho for rejeitado, de que vantagem seria para nós que o Filho de Deus sofreu a morte e ressuscitou ao terceiro dia para nossa justificação? Tudo isso seria inútil para nós. Portanto, o Evangelho nos põe na posse dos benefícios que Jesus Cristo comprou para nós. E, por isso, ainda que esteja ausente de nós no corpo, e não esteja familiarizado conosco aqui na terra, isto não significa que Ele se retirou, como se não fosse possível encontrá-lO, pois o sol que brilha não ilumina mais o mundo do que Jesus Cristo revela-Se abertamente para aqueles que têm os olhos da fé para olhar para Ele, quando o Evangelho é pregado. Por isso São Paulo fala daqueles a quem Jesus Cristo trouxe à luz da vida, sim, à vida eterna. Ele diz, o Filho de Deus aboliu a morte. E como Ele a aboliu? Se Ele não tivesse oferecido um sacrifício eterno para apaziguar a ira de Deus, se Ele não tivesse entrado no abismo para nos tirar de lá; se Ele não tivesse tomado a nossa maldição sobre Si mesmo, se Ele não tivesse tirado o fardo com o qual fomos esmagados debaixo, o que teria sido de nós? Será que a morte teria sido destruída? Não, o pecado reinaria em nós, e a morte também. E, de fato, que cada um examine a si mesmo, e veremos que somos escravos de Satanás, que é o príncipe da morte. Assim nós permaneceremos encerrados nesta escravidão miserável, a menos que Deus destrua o Diabo, o pecado e a morte. E isso é feito, mas como? Ele aboliu os nossos pecados pelo sangue de nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, embora sejamos pobres pecadores, e em perigo do julgamento de Deus, entretanto o pecado não pode nos ferir; a picada, que é venenosa, está tão embotada que não pode ferir-nos, pois Jesus Cristo trinfou vitoriosamente sobre ele. Ele não sofreu o derramamento do Seu sangue em vão; mas foi uma lavagem com que fomos lavados através do Espírito Santo, como é mostrado por São Pedro. E assim vemos claramente que quando São Paulo fala do Evangelho, no qual Jesus Cristo apareceu, e aparece diariamente para nós, ele não se esquece de Sua morte e paixão, nem das coisas que dizem respeito à salvação [...]. Podemos estar seguros de que na Pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo, temos tudo o que podemos desejar; temos confiança total e perfeita na bondade de Deus, e amor que Ele nos dá. Mas vemos que os nossos pecados nos separam de Deus, e causam uma guerra

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em nossos membros; embora tenhamos uma expiação por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. E por que isso? Porquanto derramou Seu sangue para lavar os nossos pecados; Ele ofereceu um sacrifício pelo qual Deus reconciliou-se conosco; para ser breve: Ele tomou a maldição, para que sejamos abençoados por Deus. Além disso, Ele venceu a morte, e triunfou sobre ela; para que Ele possa nos livrar da tirania dela; que de outra forma totalmente nos subjugaria. Assim, vemos que todas as coisas que pertencem à nossa salvação são realizadas em nosso Senhor Jesus Cristo. E para que possamos entrar em plena posse de todos esses benefícios nós devemos reconhecer que Ele se revela a nós diariamente por Seu Evangelho. Embora Ele habite em Sua glória celestial, se abrirmos os olhos da nossa fé iremos contemplá-lO. Devemos aprender a não separar o que o Espírito Santo tem unido. Observemos o que São Paulo quis dizer com a comparação para magnificar a graça que Deus mostrou para o mundo depois da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo; como se dissesse, os antigos pais não tinham essa vantagem, de ter Jesus Cristo revelado a eles, como Ele apareceu para nós. É verdade, eles tinham a mesmíssima fé; e a herança do céu é deles, assim como nossa; Deus revelou Sua graça para eles, assim como para nós, mas não em semelhante medida, pois eles viram Jesus Cristo ao longe, sob as figuras da lei, como São Paulo diz aos Coríntios. O véu do templo estava ainda estendido, pelo que os judeus não podiam aproximarse do santuário, isto é, o santuário material. Mas agora, o véu do templo sendo removido, nós nos aproximamos à majestade do nosso Deus, chegamos mais familiarmente a Ele, em Quem habita toda a perfeição e glória. Em suma, temos a substância, ao passo que eles tinham, somente a sombra (Colossenses 2:17). Os antigos pais submeteram-se inteiramente a suportar a aflição de Jesus Cristo; como é dito no capítulo 11 de Hebreus; por isso não é dito que Moisés suportou a vergonha de Abraão, mas de Jesus Cristo. Assim, os antigos pais, embora tenham vivido sob a lei, ofereceram-se a Deus em sacrifício, por suportar mais pacientemente as aflições de Cristo. E agora, Jesus Cristo tendo ressuscitado dos mortos, é quem trouxe à luz a vida. Se somos tão delicados que não podemos suportar as aflições do Evangelho, não somos dignos de sermos riscados do livro de Deus, e rejeitados? Portanto, devemos ser constantes na fé, e prontos para sofrer pelo nome de Jesus Cristo, tudo o que a Deus aprouver; porque a vida é colocada diante de nós, e nós temos um conhecimento mais familiar do que do que os antigos pais tiveram. Nós sabemos como os antigos pais eram atormentados por tiranos e inimigos da verdade, e como eles sofriam constantemente. A condição da Igreja não é mais grave nestes dias,

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do que era então. Pois, agora Jesus Cristo trouxe a vida e a imortalidade à luz, através do Evangelho. Todas as vezes que a graça de Deus é pregada para nós, é tanto como se o reino dos céus se abrisse para nós; como se Deus estendesse a mão, e nos assegurasse de que a vida está próxima; e que Ele nos fará participantes de Sua herança celestial. Mas quando olhamos para esta vida, que foi comprada por nosso Senhor Jesus Cristo, não devemos hesitar em abandonar tudo o que temos neste mundo, para alcançarmos o tesouro de cima, que está nos Céus. Portanto, não sejamos cegos voluntariamente; vendo Jesus Cristo expressando diariamente diante de nós a vida e a imortalidade mencionadas aqui. Quando São Paulo fala da vida, e acrescenta a imortalidade, é como se ele dissesse, nós já entramos no reino do Céu, pela fé. Apesar de sermos tão estranhos aqui abaixo, à vida e à graça de que somos feitos participantes por nosso Senhor Jesus Cristo, devemos dar o seu fruto no tempo conveniente; a saber, quando Ele for enviado de Deus Pai para nos mostrar o efeito das coisas que são diariamente pregadas, que foram cumpridas em Sua Pessoa quando Ele estava revestido de humanidade.

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Feliz és Tu, ó Israel! Por Robert Murray M´Cheyne

“Bem-aventurado tu, ó Israel! Quem é como tu? Um povo salvo pelo Senhor, o escudo do teu socorro, e a espada da tua majestade; por isso os teus inimigos te serão sujeitos, e tu pisarás sobre as suas alturas.” (Deuteronômio 33:29) Estas são as últimas palavras de Moisés, o homem de Deus. Ele estava agora com cento e vinte anos; seus olhos não estavam obscurecidos nem lhe fugira o vigor. Por quarenta anos ele liderou o povo em meio ao deserto. Ele cuidou deles, e orou por eles, e os liderou como um pastor lidera seu rebanho. E agora, quando Deus disse que ele deveria deixá-los, ele determinou separar-se deles abençoando-os. E, a esse respeito, como em muitos outros, ele prenunciou o Salvador, de quem está escrito, que “e levou-os fora, até Betânia; e, levantando as suas mãos, os abençoou. E aconteceu que, abençoando-os ele, se apartou deles e foi elevado ao céu” [Lucas 24:50-51]. Em primeiro lugar, podemos entender essas palavras literalmente como a bênção de Moisés ao povo de Israel. Ele olhou por cima do deserto através do qual ele os levou, e este era todo brilhante cravejado com as coisas maravilhosas que Deus fizera por eles. Ele se lembrou da mão elevada e do braço estendido com os quais Ele os tirara do Egito. Lembrou-se também de como abriu um caminho para eles através do Mar Vermelho, quando seus inimigos afundaram como chumbo nas águas impetuosas, permaneceu lembrando como Ele foi adiante deles em uma coluna de nuvem de dia, e uma coluna de fogo à noite. Moisés lembrou-se de como Ele adoçou as águas de Mara, pois eles estavam sedentos e também lembrou-se de como Ele os alimentou com maná do alto, o homem comeu a comida dos anjos. Moisés recordou como ele feriu a rocha em Refidim, e águas jorraram; como ele ergueu as mãos para o pôr-do-sol, e Israel prevaleceu contra Amaleque; como ele recebeu a Lei da própria mão de Deus para eles. Ele feito brotar de novo a água da pederneira em Meribá e também lembrou-se de como ele erguera a serpente de bronze no deserto. E olhando para trás sobre toda esta trajetória de maravilhas de quarenta anos, durante a qual as suas vestes não tinham envelhecido, nem a fraca sola de seu pé havia inchado, como poderia ele apenas abençoá-los? Ele sentiu-se como Balaão: “Benditos os que te abençoarem, e malditos os que te amaldiçoarem”. E nesse sentido, quando ele tinha visto a cada uma das tribos separadamente, deixando a cada uma a sua bênção profética, ele resume o todo nestas palavras gloriosas: “Não há outro, ó Jesurum, semelhante a Deus” [Deuteronômio 33:26].

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Mas, em segundo lugar, estas palavras podem ser entendidas tipicamente como a bênção de Moisés ao povo de Deus para o fim dos tempos. Nenhum homem pode ler o Antigo Testamento de forma inteligente, sem ver que o povo de Israel era um povo típico, que a retirada de Seus escolhidos para fora do Egito, o trazê-los através do Mar Vermelho, e através do deserto e sua condução à terra da promessa, eram todos tipos da maneira com a qual Deus traz Seus escolhidos para fora de seus pecados, e os conduz através mundo de pecado e miséria para a Canaã celestial, o descanso que resta para o povo de Deus. Se, então, a escravidão, a libertação, a incredulidade, os inimigos, as jornadas, a orientação e o remanescente dos israelitas, eram todos tipos do relacionamento de Deus com o Seu próprio povo para o fim dos tempos, estamos bastante justificados por compreender estas palavras como a bênção de Moisés, o homem de Deus, a todos os verdadeiros filhos de Deus. “Bem-aventurado tu, ó Israel! Quem é como tu? Um povo salvo pelo Senhor, o escudo do teu socorro, e a espada da tua majestade; por isso os teus inimigos te serão sujeitos, e tu pisarás sobre as suas alturas”. A partir destas palavras, eu extraio o seguinte: Doutrina. Que o povo de Deus é um povo feliz, porque eles são salvos pelo Senhor.

I. Israel é um povo feliz porque é escolhido pelo Senhor. 1. Isto foi verdadeiro no que se refere ao antigo Israel. Moisés lhes disse claramente: “O Senhor não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos; mas, porque o Senhor vos amava, e para guardar o juramento que fizera a vossos pais” [Deuteronômio 7:7-8a]. Aqui há algo estranho que o mundo não pode entender. Ele os amou porque Ele os amou, não porque eles eram melhores, ou maiores, ou mais dignos do que outra nação, mas por que Ele os amou. Peculiar, soberano, inexplicável amor! Ele não presta contas de Seus assuntos, assim, “pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” [Romanos 9:16]. 2. Isto é verdadeiro para todo o povo de Deus até os dias atuais. Davi diz: “Bem-aventurado aquele a quem tu escolhes, e fazes chegar a ti” [Salmos 65:4]. Cristo diz: “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós” [João 15:16]. E Paulo diz: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Efésios 1:3-4).

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Ah! sim, meus amigos, o nosso Deus é um Deus soberano: “Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer” [Romanos 9:18]. Cada crente é uma testemunha disso. Existe algum crente aqui? Bem, eu tomo você para testemunhar. Você era morto e descuidado com sua alma, você poderia ser feliz com o mundo, embora estivesse não perdoado e não santificado. Como você foi levado a fugir da ira vindoura? Você despertou a si mesmo do sono? Ah! não, você sabe bem que se Deus o tivesse deixado você estaria disposto a permanecer dormindo. Como o preguiçoso, você teria dito: “Um pouco a dormir, um pouco a cochilar; outro pouco deitado de mãos cruzadas, para dormir” [Provérbios 24:33]. Mas Deus despertou você, pela Sua Palavra, pelos Seus ministros, ou pela Sua providência; e Ele não o teria deixado ir até que clamasse: “O que devo fazer para ser salvo?”. Outrossim, você foi trazido da convicção de pecado à convicção de justiça; de uma consciência perturbada a um coração em paz ao crer. Como ocorreu isso, você veio por si mesmo a Jesus, ou você foi trazido pelo Pai? Ah! Vocês bem sabem que não receberam isto de um homem, nem por meio de um homem Deus os conduziu à visão de Jesus. Ele que, primeiro, trouxe às trevas a luz que brilhou em seus corações, e incitou vocês ao ato de fé em Jesus; e assim, vocês foram salvos; pois, “ninguém pode ir a Cristo se o Pai não o trouxer”. Do início ao fim, a obra é de Deus. Pela graça sois salvos; e bem-aventurado, de fato, é “aquele a quem tu escolhes, e fazes chegar a ti”. Objeção. Mas alguém pode objetar que esta doutrina ministra ao orgulho; que fazer um homem acreditar que ele é um escolhido e favorito de Deus faz com ele fique inchado de orgulho. A isto eu respondo que esta é própria verdade que corta o orgulho pelas raízes. Como está escrito: “Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido?” [1 Coríntios 4:7]. Se há um crente dentre vocês: (1) Eu proponho a ele olhar em volta daqueles da sua própria família que permanecem sem Cristo e sem Deus no mundo. Talvez você seja o único em sua casa que conhece e ama o Salvador. Agora, eu pergunto a você: Quem te fez diferente? Você é por natureza algo melhor do que sua parentela, para que fosse escolhido e eles deixados? Como, então, você pode ser orgulhoso? (2) Ou, olhe em volta de sua vizinhança, você verá embriaguez e contaminação, você ouvirá perjúrios e profanidade. Agora eu pergunto: Quem te fez diferente? Ou em que você era melhor do que eles? Pode você, então, ser orgulhoso?

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(3) Ou, olhe em volta do mundo Papista e Pagão afogado na mais tenebrosa ignorância sem ninguém para lhes falar sobre o claro caminho de Salvação por Jesus. Olhe sobre nove décimos do mundo que carecem da pura luz do Evangelho, e diga-me: Quem te fez sobressair? E como você pode ser orgulhoso? (4) Ou, olhe além deste horizonte mundano, olhe para baixo para os reinos das trevas e da morte eterna, e veja os anjos que caíram “Longe outra vez contemple em êxtase, Milhões de espíritos que por uma só falta foram banidos do Céu, e dos esplendores eternos arremessados por sua rebeldia”. Olhe para estas inteligências majestosas “guardado sob tervas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia”, e diga-me: Quem te fez diferente? Em que melhor é você, por natureza, do que demônios? Homens não-convertidos são filhos do Diabo. Não há luxúria no coração do Diabo que não esteja em cada coração natural. E ainda assim Deus passou por eles, e veio para salvar-te. Deus veio e o acordou quando você estava em uma condição natural, e não melhor do que demônios, sim, ele passou pelos Pagãos, assim ele tem deixado seus vizinhos em seus pecados, seus próprios filhos não despertados, mas ele tem despertado você. Oh! mui misterioso amor eletivo! Você bem pode clamar com Paulo: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!” [Romanos 11:33]. E isto o faz orgulhoso? Antes, isto não faz você enterrar a sua cabeça no pó, e nunca mais erguer os seus olhos? E isto não o faz feliz? “Bem-aventurado tu, ó Israel! Um povo salvo pelo Senhor”. Não oferece a você nenhum júbilo, sentir que Deus pensou sobre você em amor antes da fundação do mundo? Que quando Ele estava sozinho desde toda a eternidade, Ele deu a você o Seu Filho para ser redentor? “Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei” [Jeremias 1:5]. Não dá nenhuma alegria a você pensar que o Filho de Deus pensou em você com amor antes que o mundo existisse: “achando as minhas delícias com os filhos dos homens” [Provérbios 8:31], que ele veio ao mundo carregando o seu nome sobre o Seu coração, que Ele orou por você na noite de Sua agonia: “E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela tua palavra hão de crer em mim”? [João 17:20]. Não oferece júbilo saber que Jesus pensava em você durante o Seu suor sangrento; que Ele pensou em você quando estava na cruz, e intencionou aqueles sofrimentos para estar em seu lugar? Ó, filhinhos como isto deveria elevar os seus corações em santo arrebatamento acima do mundo; acima de seus cuidados irritantes; de suas brigas mesquinhas; de seus prazeres contaminantes; se vocês guardassem esta santa alegria interiormente; acolhendo a própria palavra de seu Senhor: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo” [João 17:24].

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Ó mundo incrédulo! Vocês não conhecem nada desta alegria. É tudo presunção frenética aos seus olhos, e isso é exatamente o que a Bíblia diz: Um estranho não participa da alegria do crente. Isto é exatamente o que Cristo disse: “Mas vós não credes porque não sois das minhas ovelhas” [João 10:26]. Levem esta coisa com vocês: “Nós erámos uma vez exatamente o que você é agora (cada crente falará a você) nós éramos exatamente tão insensíveis e incrédulos como você é. Nós, uma vez, desprezamos e rimos de cada pessoa com as quais nós somos um agora no Senhor; mas nós fomos despertados por Deus, e fugimos para Cristo, e somos redimidos e felizes conhecendo a nossa eleição de Deus”. Oh! que esta seja a sua história, e então, você conhecerá o significado destas palavras: “Bemaventurado tu, ó Israel!”.

II. Israel é um povo feliz, porque eles são justificados pelo Senhor: “O Deus eterno é a tua habitação” (v. 27). “Ele é escudo que te socorre” (v. 29). Antes de tudo, isto é verdade por que Cristo é o nosso refúgio e proteção, e Cristo é Deus. (1) É dito sobre Ele: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. (2) E outra vez, é dito sobre Ele: “...O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; e: Cetro de equidade é o cetro do seu reino” [Hebreus 1:8]. (3) Também está escrito: “Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele” [Colossenses 1:16-17]. (4) Novamente, é dito sobre Ele: “o qual é sobre todos, Deus bendito eternamente” [Romanos 9:5]. (5) Mais uma vez, Tomé disse sobre Ele: “Meu Senhor, e meu Deus”. (6) E Ele é chamado Deus “manifestado na carne” [1 Timóteo 3:16]. Assim, então, Ele é de fato, “Emanuel, Deus conosco”. Ele é o Criador do mundo, o Deus de provisão, o Deus dos anjos. E este é o Ser que veio para ser o Salvador de pecadores, até mesmo do principal! Agora, irmãos, eu desejo que vejam a utilidade do Salvador sendo Deus, e quanto do pleno consolo e júbilo do crente é encontrado nisto. Tudo o que Deus faz é infinitamente perfeito: Ele nunca falha em nada que Ele promete. Tudo, portanto, que o Salvador fez foi infinitamente perfeito. Ele não podia, e nem poderia, falhar em algo que Ele prometeu. (1) Cristo Jesus prometeu suportar a ira de Deus em lugar dos pecadores. Seu coração foi estabelecido sobre isso desde toda a eternidade, pois, antes que o mundo fosse feito, Ele nos diz: “achando as minhas delícias com os filhos dos homens” [Provérbios 8:31]. Para este fim Ele tomou sobre si a nossa natureza; tornou-se um homem de dores e experimentado no sofrimento. De Seu berço na manjedoura até a cruz, a nuvem escura da ira de Deus

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esteve sobre Ele, e, especialmente, em direção ao fim de Sua vida, a nuvem passou a ser a mais escura, ainda assim, ele alegremente sofreu tudo “como me angustio até que venha a cumprir-se!” [Lucas 12:50]. O cálice da ira de Deus foi dado a Ele sem mistura; ainda assim Ele disse: “não beberei eu o cálice que o Pai me deu?” [João 18:11]. Agora, nós podemos estar bem certos que desde que Ele é o Filho de Deus, Ele sofreu tudo o que os pecadores deveriam ter sofrido. Se Ele tivesse sido um anjo, Ele poderia ter deixado alguma parte inacabada; mas desde que Ele era Deus, Sua obra deve ser perfeita. Ele mesmo disse: “Está consumado”; e uma vez que Ele era Deus que não pode mentir, nós estamos bem seguros que todo o sofrimento é consumado, que nem Ele nem seu corpo podem sofrer algo mais por toda a eternidade. (2) Porém, mais uma vez, ficou comprometido a obedecer à Lei em lugar dos pecadores. O homem não só tinha quebrado a Lei de Deus, mas havia falhado em obedecê-la. Agora, como o Senhor Jesus veio para ser um Salvador completo, Ele não apenas sofreu a maldição da Lei quebrada, mas obedeceu a Lei em lugar dos pecadores. Através de toda a Sua vida e fez do fazer a vontade de Deus Sua comida e bebida. Agora, podemos ter a certeza de que uma vez que Ele era o Filho de Deus, Ele fez tudo o que os pecadores deveriam ter feito. Sua justiça é a justiça de Deus; assim, que nós podemos estar certos, que cada pecador que obtém esta justiça é mais justo do que se o homem jamais houvesse caído; mais justo do que os anjos, tão justo quanto Deus. “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica” [Romanos 8:33]. Ó pecadores descuidados! Este é o Salvador que nós estamos sempre pregando para vocês, este é o Divino Redentor a quem vocês têm sempre pisoteado. Você pensaria ser uma grande coisa se o rei deixasse o seu trono, e batesse à sua porta, e lhe suplicasse para aceitar um pouco de ouro; mas, oh! quanto maior coisa há aqui. O Rei dos reis deixou Seu trono, e morreu, o justo pelos injustos, e agora bate à sua porta. Pecador descuidado, você ainda permanece resistente? Almas despertadas e ansiosas! Este é o Salvador que sempre vos oferecemos; Este é o refúgio, a rocha que tem seguido você. Você está ansioso por sua alma; e por que, então, não vem se esconder aqui? Você acha que honra a Cristo por duvidar se o Seu sangue e justiça são suficientes para cobri-lo? Você acha que honra a Deus, fazendo-O de mentiroso, e recusando-se a acreditar no testemunho que Ele tem dado de seu Filho? Oh! Não duvide mais dEle. Outro dia, e pode ser tarde demais. Fuja como os homens que têm um inferno eterno perseguindo-os, e um refúgio eterno diante deles. Tome o céu por violência. “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não poderão”.

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E você que já correu para o refúgio, para o Salvador: “Bem-aventurado tu, ó Israel! Quem é como tu? Um povo salvo pelo Senhor”. O Deus eterno é teu refúgio; e a quem você pode temer? Lembre-se, habite nEle. Nas horas escuras do pecado e tentação, Satanás sempre tenta fazer você sair deste refúgio. Ele tentará fazer você duvidar se Cristo é Deus; se a Sua obra é uma obra consumada; se pecadores podem esconder-se nEle; se um apóstata pode esconder-se nEle; mas não lance fora a sua confiança. Rapidamente corra para Cristo; e então, o Deus eterno será teu refúgio. Na hora da morte, você pode terá um vale sombrio para atravessar; você pode perder de vista todas as suas evidências; você pode sentir que todas as suas graças partiram, e clamar: “Todas estas coisas estão contra mim”. Permaneça, como um necessitado pecador, corra para o Deus Salvador. Jogue fora a questão se você jamais acreditou ou não, e diga: “Eu acreditarei agora”; e assim, agora à noite, raiará a luz, e você morrerá com o Deus eterno e seu refúgio. Os seus olhos fecharão para este mundo apenas para abrirem para o mundo aonde não há dúvida, e nem medo, e nem morte.

III. Israel é um povo feliz, porque é santificado pelo Senhor: “por baixo estão os braços eternos” e “a espada da tua majestade”. No capítulo anterior (32:11-12), Deus compara o Sua condução de Israel a uma águia e seus filhotes: “Como a águia desperta a sua ninhada, move-se sobre os seus filhos, estende as suas asas, toma-os, e os leva sobre as suas asas, assim só o Senhor o guiou; e não havia com ele deus estranho”. Novamente, em Isaías, é dito: “Em toda a angústia deles ele foi angustiado, e o anjo da sua presença os salvou; pelo seu amor, e pela sua compaixão ele os remiu; e os tomou, e os conduziu todos os dias da antiguidade” [63:9]. Mais uma vez, na história da ovelha perdida, encontramos que o Salvador não apenas encontrou a ovelha perdida, mas, “achando-a, põe-na sobre os ombros, cheio de júbilo”. Este é exatamente o mesmo significado como o do texto: “por baixo estão os braços eternos”, e, novamente, “a espada da tua majestade”. Quando um novo crente encontrou a paz em Jesus, ele, então, começa a anelar por caminhar santamente. Tão logo ele encontre a doce calma de uma alma perdoada, ele começa a conhecer a amarga ansiedade de uma alma que teme o pecado: “É verdade, eu vim a Cristo, e devo ter paz, mas agora eu começo a temer que não serei capaz de confessar a Cristo diante dos homens. Agora começo a ver que o mundo inteiro está contra mim, que todas as coisas estão me tentando a pecar, e eu temo voltar para o mundo. Temo ser enlaçado novamente. Meus companheiros, como posso resisti-los? e Satanás, como posso lutar contra ele?”.

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Este é o momento em que o novo crente começa a fazer um grande número de resoluções em sua própria força. Se ele somente pudesse manter-se fora do caminho da tentação, e separar-se do mundo, ele acha que poderia manter-se santo, mas Deus logo lhe ensina a insuficiência de sua própria força. Suas resoluções são todas quebradas inteiramente; seus hábitos de andar estreitamente desaparecem como fumaça diante do sopro da tentação; e o filhinho de Deus senta-se para chorar por causa da chaga de seu próprio coração, e a clamar: “Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?”. Se aqui há alguém assim me ouvindo, permita-me, peço-te, recomendar um novo plano, de longe um caminho melhor. Entregue a si mesmo aos braços eternos. Quando o pecado surgir; quando o mundo vem como uma inundação; quando a tentação chega de repente sobre você; se incline para trás sobre o Espírito todo-poderoso, e você está seguro. O que faz uma criancinha que tem sido colocada sobre o chão para caminhar, quando percebe que seus pequenos membros estão se desequilibrando, de forma que o primeiro sopro do vento a derrubará? Será que ela não se lança aos braços da de sua mãe? Quando ela não consegue ir, ela consente em ser conduzida; e assim deve ser com você, débil filho de Deus. Deus concedeu a você que pela fé se apegue a Cristo somente por justiça; e assim obter a paz do justificado. Ore agora, para que Deus dê a você fé resignada, para que você possa confiar nEle somente por força, para que você possa render a si mesmo aos braços eternos. Vá e aprenda o que isto significa: Jeová Nossa Justiça é o mesmo Jeová Nossa Bandeira. Então, mas não até então, você conhecerá plenamente o significado desta bênção: “Bemaventurado tu, ó Israel! Quem é como tu? Um povo salvo pelo Senhor”.

Objeção: Eu não vejo, nem ouço ou sinto o Espírito, como posso render-me aos Seus braços? Resposta. Esta é a própria descrição Bíblica da obra do Espírito: “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito” [João 3:8]. Você não vê o vento, nem compreende como ele sopra, e ainda assim você estende a vela para pegar a brisa; e assim, o alto navio é sustentado sobre um mar muito agitado até o porto de descanso. Somente incline-se sobre o Espírito, embora você não compreenda o Seu agir. Embora, agora, você não O veja, ainda assim creia nEle. E você se alegrará com júbilo inefável e cheio de glória; você será sustentado sobre as ondas ásperas deste mundo até o porto de descanso. Você também não conhece como o manancial brota; você não compreende o funcionamento pelo qual os mananciais de água não falham; e ainda assim, você leva o cântaro até a fonte, e nunca volta com ele vazio. Então, dependam do suprimento invisível do Espírito; tomem uma provisão diária para necessidades diárias; vão confiantes aos mananciais da salvação, e vós tirareis água

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com alegria. “Se alguém tem sede, venha a mim e beba”. “Bem-aventurado tu, ó Israel! Quem é como tu?”. Tende bom ânimo. Nós confiamos que Aquele que começou a boa obra em vós, há de aperfeiçoá-la até o Dia de Cristo Jesus. Mas, ah! pobres almas sem Cristo, não há promessa do Espírito para vocês. Todas as promessas são sim e amém em Cristo. Fora de Cristo não há promessa; não há outra coisa senão ira. Não há braços eternos debaixo de vocês. Vocês são sensuais, não têm o Espírito. Não há pecado no qual vocês não possam incorrer, até naquelas que fazem os homens estremecerem e empalidecerem. Em nenhum lugar Deus prometeu guarda-los destes pecados. Vocês não têm o Espírito, não podem amar a Deus, ou fazer qualquer boa obra, vocês podem apenas pecar. Ó almas miseráveis! que continuam pertencendo à linhagem do velho Adão, vocês não podem deixar de dar maus frutos; e o fim será a morte. Oh! que vocês fossem embora e chorassem por sua miserável condição, e clamassem a Deus para trazê-los para fazer parte de Seu bem-aventurado Israel, que é escolhido, justificado, santificado e salvo pelo Senhor!

Igreja de São Pedro, 29 de Janeiro de 1837.

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Graça, Eleição e Glória Por Arthur Walkington Pink [Capítulo 8 do livro A Guide to Fervent Prayer • Editado]

“E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória, depois de havemos padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça. A ele seja a glória e o poderio para todo o sempre. Amém” (1 Pedro 5:10-11) “E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou”. No último capítulo (utilizando a análise de Thomas Goodwin) foi apontado que este título mui abençoado tem relação com o que Deus é em Si mesmo, o que Ele é em Seu propósito eterno, e o que Ele é em Suas atuações em relação ao Seu povo. Aqui, nas palavras que acabamos de citar, vemos as três coisas unidas em uma referência ao chamado eficaz de Deus, pelo que Ele traz uma alma das trevas da natureza para a Sua própria maravilhosa luz (1 Pedro 2:9). Esta especial chamada interior do Espírito Santo, que produz imediata e infalivelmente arrependimento e fé em seu objeto, fornece, assim, a primeira prova evidente ou exterior que o novo crente recebe de que Deus é, em verdade, para ele “o Deus de toda graça”. Embora esta não tenha sido a primeira saída do coração de Deus para ele, no entanto, está é a prova de que o Seu amor fora estabelecido sobre ele desde a eternidade. “E aos que predestinou a estes também chamou” (Romanos 8:30). Deus tem “elegido desde o princípio [o Seu povo] para a salvação” (2 Tessalonicenses 2:13-14). No devido tempo, Ele opera a salvação deles pelas operações invencíveis do Espírito, que capacita e faz com que eles creiam no Evangelho. Eles creem através da graça (Atos 18:27), pois a fé é o dom da graça Divina (Efésios 2:8), e ela é dada a eles, porque eles pertencem à “eleição da graça” (Romanos 11:5). Eles pertencem a essa eleição favorecida porque o Deus de toda a graça, desde a eternidade passada, os escolheu para serem os monumentos eternos da Sua graça. A Regeneração é o Fruto da Eleição, Não a Sua Causa A graça que havia no coração de Deus, que O levou a chamar-nos é evidente a partir de 2 Timóteo 1:9: “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos”. A regeneração (ou chamada eficaz) é a consequência e não a causa, da predestinação Divina. Deus resolveu nos amar com um amor imutável, e este amor designou que fôssemos participantes de Sua glória eterna. Sua boa vontade por nos O moveu de modo infalível a realizar todas as resoluções da Sua livre graça para conosco,

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de modo que nada pode impedi-lO, embora no exercício de Sua graça Ele sempre age de uma maneira que seja consistente com as Suas demais perfeições. Ninguém magnifica a graça de Deus mais do que Goodwin; no entanto, quando perguntado: “Será que a prerrogativa Divina da graça significa que Deus salva os homens, mesmo que eles continuem a ser o que quiserem?”, ele respondeu: Deus me livre. Nós negamos tal soberania assim compreendida, como se ela salvasse qualquer homem sem regra, muito menos contra regra. O próprio versículo que fala de Deus como “o Deus de toda graça” em relação à nossa salvação acrescenta “que nos chamou”, e nosso chamado é um chamado santo (2 Timóteo 1:9). Embora o fundamento do Senhor permaneça, ainda assim é acrescentado: “e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade” (2 Timóteo 2:19), ou ele não pode ser salvo. Ajuda-nos a obter uma melhor compreensão deste título Divino: “o Deus de toda graça”, se o compararmos com outro encontrado em 2 Coríntios 1:3: “o Deus de toda a consolação”. A principal distinção entre os dois está em sendo este último mais restrito ao aspecto da dispensação da graça de Deus, como as palavras que se seguem mostram: “Que nos consola em toda a nossa tribulação” (2 Coríntios 1:4). Como “o Deus de toda a consolação”, Ele não somente é o Doador de toda a real consolação e o Sustentador em todas as tribulações, mas também o Doador de todos os confortos temporais ou misericórdias. Pois, qualquer refrigério natural ou benefício que nós derivamos de Suas criaturas é devido somente a Sua bênção para nós. Da mesma forma, Ele é o Deus de toda a graça: graça buscadora, graça vivificante, graça perdoadora, graça purificadora, graça da provisão, graça da restauração, graça da preservação, graça da glorificação, graça de todo tipo, e em plena medida. No entanto, embora a expressão “o Deus de toda a consolação” sirva para ilustrar o título que estamos aqui considerando, no entanto, fica aquém daquele. Pois, as dispensações da graça de Deus são mais extensas do que as de Seu conforto. Em certos casos, Deus dá a graça onde Ele não dá conforto. Por exemplo, a Sua graça iluminadora traz consigo as dores da convicção do pecado, o que às vezes duram uma temporada longa antes que qualquer alívio seja concedido. Além disso, sob Sua vara de correção, a graça sustentadora é concedida, onde o conforto é retido. Deus Dispensa todos os Tipos de Graça Precisamente de Acordo com a Necessidade Não apenas há em Deus todos os tipos concebíveis de graça disponíveis para nós, mas Ele sempre a concede justamente na hora de nossa necessidade; pois, nessa ocasião, o Seu favor concedido gratuitamente obtém a melhor oportunidade em que mostrar-se. Somos livremente convidados a chegar com confiança ao trono da graça, para que possamos “alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” (He-

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breus 4:16), ou como Salomão o expressou, que o Senhor Deus sustentasse a causa de Seu povo Israel “a cada qual no seu dia” (1 Reis 8:59). Esse é o nosso gracioso Deus, ministrando a nós em todos os momentos, assim como em todas as questões. O apóstolo Paulo declara (falando para os crentes): “Não veio sobre vós tentação, senão humana [ou seja, apenas tal que é comum à natureza humana decaída, pois o pecado contra o Espírito Santo só é cometido por tais que têm como que uma afinidade incomum com Satanás e seus maus desígnios para impedir o reinado da graça de Cristo]; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar” (1 Coríntios 10:13). O Senhor Jesus Cristo declarou: “Todo o pecado e blasfêmia [com exceção exatamente da mencionada acima] se perdoará aos homens” (Mateus 12:31). Pois, o Deus de toda graça opera arrependimento e perdoa todos os tipos de pecados, aqueles cometidos após a conversão, bem como aqueles antes, como os casos de Davi e Pedro demonstram. Diz Ele: “Eu sararei a sua infidelidade, eu voluntariamente os amarei” (Oséias 14:4). Plena causa cada um de nós tem para dizer ternamente a partir da experiência: “a graça de nosso Senhor superabundou” (1 Timóteo 1:14). A Prova Infalível de Sua Abundante Graça em Direção Àqueles que São Seus “E o Deus de toda a graça... nos chamou à sua eterna glória”. Aqui está a maior e mais grandiosa prova de que Ele é realmente o Deus de toda graça para o Seu povo. Nenhuma evidência mais convincente e bendita é necessária para manifestar a boa vontade que Ele tem por eles. A graça abundante que há em Seu coração em relação a eles e o propósito beneficente que Ele tem para eles são feitas claramente evidentes aqui. Eles são “os [únicos] chamados de acordo com o seu propósito” (Romanos 8:18), a saber, aquele “eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” (Efésios 3:11). O chamado eficaz que traz da morte para a vida é a primeira abertura irrompendo a graça eletiva de Deus, e é a base de todos os atos de Sua graça por eles, posteriormente. É então que Ele começa aquela Sua “boa obra” naqueles em que Ele finalmente completará no “dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1:6). Por meio disso, eles são chamados a uma vida de santidade aqui e a uma vida de glória no porvir. Na cláusula “nos chamou à sua eterna glória”, somos informados sobre aqueles de nós que uma vez já foram “por natureza filhos da ira” (Efésios 2:3), mas agora, pela graça de Deus são “participantes da divina natureza” (2 Pedro 1:4), também serão participantes da glória eterna de Deus. Embora o chamado eficaz de Deus não os traga para a posse real disso, de uma vez, ainda assim, os qualifica totalmente e capacitaos a participar de Sua glória para sempre. Assim, o apóstolo Paulo diz aos Colossenses que está “Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz” (Colossenses 1:12). Mas, olhemos para além do mais delicioso dos fluxos de graça para a sua Fonte comum. É

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a infinita graça que há na natureza de Deus, que se compromete a fazer bom o Seu propósito beneficente e que fornece continuamente estes fluxos. Deve ser bem observado que quando Deus proferiu essa grande carta da graça “[Eu] me compadecerei de quem eu me compadecer”, Ele a prefaciou com estas palavras: “Eu farei passar toda a minha bon-dade por diante de ti, e proclamarei o nome do Senhor diante de ti” (Êxodo 33:19). Toda esta graça e misericórdia que está no próprio Jeová, e que deve ser feita conhecida de Seu povo, era para atrair a atenção de Moisés antes que a sua mente se voltasse a considerar a soma dos Seus decretos ou graça designada. O verdadeiro oceano de bondade que está em Deus está empenhado em promover o bem de Seu povo. Foi essa bondade que Ele fez passar diante dos olhos de Seu servo. Moisés foi animado pela contemplação de uma riqueza tão ilimitada de benevolência, tanto que ele estava completamente certo de que o Deus de toda graça seria realmente gracioso para aqueles a quem Ele escolheu em Cristo antes da fundação do mundo. E é esta graça essencial enraizada no próprio ser de Deus que deve ser o primeiro objeto da fé; e quanto mais a nossa fé é direcionada para a mesma, mais nossas almas serão sustentadas na hora da tribulação, convencidas de que tal Pessoa não falhará conosco. O Argumento em que Pedro Baseia Sua Petição Em quarto lugar, examinemos o fundamento sobre o qual o apóstolo Pedro baseia sua petição: “E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória”. Esta cláusula é, sem dúvida, trazida para engrandecer a Deus e para exemplificar Sua maravilhosa graça. Ainda assim, considerada separadamente, em relação à oração como um todo, é o apelo feito pelo apóstolo em apoio à petição que segue. Ele estava fazendo pedido para que Deus aperfeiçoe, confirme, fortaleça e estabeleça os Seus santos. Isso foi equivalente a dizer: “Desde que Tu já fizeste o maior, conceder-lhes o menor; vendo que eles devem ser participantes da Tua glória eterna em Cristo, dê-lhes o que eles precisam enquanto permanecerem neste mundo passageiro”. Se nossos corações fossem mais engajados com quem nos chamou, e com o que Ele nos designou, não só nossas bocas se abririam mais, mas seríamos mais confiantes, sendo cheias de louvores a Deus. Ele não é outro senão Jeová, que está sentado no Seu trono resplandecente, cercado pelas adoradoras hostes celestes, Quem em breve dirá a cada um de nós: “Vinde a Mim e deleita-te em Minhas perfeições”. Você pensa que Ele reterá qualquer coisa que seja verdadeiramente para o seu bem? Se Ele me chamou para o céu, há alguma coisa necessária na terra que Ele me negará? Que apelo poderosíssimo e predominante é este! Em primeiro lugar, é como se o apóstolo dissesse: “Tu tens atentado para as obras das Tuas mãos. Tu realmente os chamaste das trevas para a luz, mas eles ainda são terrivelmente ignorantes. É Teu gracioso prazer que

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eles passem a eternidade em Tua presença imediata no alto, mas eles estão aqui no deserto, e estão rodeados de fraquezas. Então, tendo em vista tanto um quanto o outro, continue todas as outras obras da graça em direção a eles e neles, que são necessárias a fim de trazê-los para a glória”. O que Deus já fez por nós, não somente deve ser um motivo de confiante expectativa do que Ele ainda fará (2 Coríntios 1:10), mas isso deve ser usado por nós como um argumento ao fazer nossos pedidos a Deus. “Visto que Tu me regeneraste, faça-me agora crescer na graça. Visto que puseste em meu coração um ódio ao pecado e uma fome de justiça, intensifica os mesmos. Posto que Tu me fizeste um ramo da Videira, faça-me um ramo mui frutífero. Pois que me uniste ao Teu Filho amado, permita-me manifestar os Teus louvores, para honrá-lO em minha vida diária, e, portanto, para recomendalO àqueles que não O conhecem”. Entretanto, estou antecipando um pouco o próximo ponto. O Nosso Chamado e a Justificação são Motivos de Grande Louvor e Expectativa Nesta obra única do chamado, Deus Se mostrou ser o Deus de toda graça para você, e isso deve grandemente fortalecer e confirmar a sua fé nEle. “Aos que chamou a estes também justificou” (Romanos 8:30). A justificação é composta de duas coisas: (1) Deus perdoando-nos e declarando-nos ser “inocentes”, como se nunca tivéssemos pecado; e (2) Deus nos declarando ser “justos”, exatamente como se tivéssemos obedecido perfeitamente a todos os Seus mandamentos. Para estimar a plenitude de Sua graça no perdão, você deve calcular o número e a atrocidade de seus pecados. Eles eram mais do que os cabelos da sua cabeça; pois você “nasce como a cria do jumento montês” (Jó 11:12), e desde as primeiras auroras da razão, toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente (Gênesis 6:5). Quanto à criminalidade, a maioria de seus pecados foram cometidos contra a voz da consciência, e consistiam em privilégios desprezados e misericórdias abusadas. No entanto, a Sua Palavra declara que Ele lhe perdoou “todas as ofensas” (Colossenses 2:13). Como isso deve derreter o seu coração e levá-lo a adorar “o Deus de toda graça”. Como isso deve fazê-lo plenamente convencido de que Ele continuará a lidar com você não de acordo com as suas transgressões, mas segundo a Sua própria bondade e benignidade. É verdade, Ele ainda não o livrou da corrupção que habita no seu interior, mas isso concede nova ocasião para Ele mostrar a Sua paciente graça para com você. Embora maravilhoso como é tal favor, ainda assim o perdão dos pecados é apenas metade do lado legal da nossa salvação, e a parte negativa e inferior dela. Embora, por um lado, tudo que estava registrado contra mim no que diz respeito ao débito tenha sido apagado, contudo, por outro lado, não há um único item em meu crédito. Desde a hora do meu nascimento até o momento da minha conversão nenhuma boa ação foi registrada na minha conta, pois nenhuma das minhas ações ocorreu em um princípio puro, não sendo realizada para glória de Deus. Fluindo de uma fonte suja, os fluxos de minhas melhores obras eram

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poluídos (Isaías 64:6). Como, então, Deus poderia me justificar, ou declarar-me ter alcançado o padrão exigido? Esse padrão é uma conformidade perfeita e perpétua à Lei Divina, pois nada menos assegura a sua recompensa. Aqui, novamente as riquezas maravilhosas da graça Divina aparecem. Deus não somente apagou todas as minhas iniquidades, mas creditou em minha conta uma justiça plena e sem falhas, tendo imputado a mim a perfeita obediência de Seu Filho encarnado: “Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo... Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos [ou seja, legalmente constituídos] justos” (Romanos 5:17, 19). Quando Deus efetivamente lhe chamou, o revestiu “com o manto de justiça [de Cristo]” (Isaías 61:10), e essa veste concede a você um direito inalienável à herança (Romanos 8:17). A Glorificação, Desde o Princípio, Era o Objetivo Final de Deus Para Nós “Que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória”. Quando Deus regenera uma alma Ele lhe dá fé. Ao exercer fé em Cristo, aquilo que a desqualificava para a glória eterna (ou seja, a sua contaminação, culpa e amor ao pecado) é removida, e um título seguro para o céu é concedido. O chamado eficaz de Deus é tanto a nossa qualificação quanto um pagamento inicial pela glória eterna. Nossa glorificação era o grande objetivo que Deus tinha em vista desde o princípio, e tudo o que Ele faz por nós e opera em nós aqui, são apenas os meios e os pré-requisitos para esta finalidade. Depois de Sua própria glória nisso, a nossa glorificação é o propósito supremo de Deus ao eleger-nos e chamar-nos. “Por vos ter Deus elegido desde o princípio... para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Tessalonicenses 2:13-14). “E aos que predestinou... também glorificou” (Romanos 8:30). “Não temais, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o reino” (Lucas 12:32). “Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mateus 25:34). Cada um desses textos estabelece o fato de que o povo crente em Cristo deve herdar o reino celestial e eterna glória da parte do Deus Triuno. Nada menos do que isso foi em que o Deus de toda graça estabeleceu o Seu coração como a porção de Seus filhos amados. Assim, quando a nossa eleição é feita manifesta inicialmente por Seu chamado eficaz, Deus é tão decidido quanto a essa glória que Ele imediatamente nos concede um título a ela. Goodwin deu um exemplo notável do que acabamos de dizer, a partir do relacionamento de Deus com Davi. Enquanto Davi era apenas um simples menino pastor, Deus enviou Samuel para ungi-lo rei abertamente diante de seu pai e irmãos (1 Samuel 16:13). Por esse ato solene Deus o investiu com um direito visível e irrevogável ao reino de Judá e Israel. Deus adiou por muitos anos a sua posse real do trono do reino, no entanto, seu título Divino

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ao mesmo foi dado em Sua unção, e Deus Se ocupou em fazer isto firme, jurando não Se arrepender. Então Deus suportou Saul (uma figura de Satanás), que ordenou todas as forças militares de seu reino e a maioria de seus súditos, para fazer o seu pior. Deus fez isso para demonstrar que nenhum conselho Seu pode ser frustrado. Embora por um período Davi esteve exposto como uma perdiz nas montanhas e tinha que fugir de um lugar para outro, no entanto, ele foi milagrosamente preservado por Deus e, finalmente, trazido ao trono. Assim, na regeneração, Deus nos unge com o Seu Espírito, nos separa e nos concede um título para a glória eterna. E embora posteriormente, Ele deixe os inimigos ferozes soltos contra nós, deixando-nos a enfrentar as mais difíceis lutas e contendas com eles, ainda assim a Sua poderosa mão está sobre nós, nos socorrendo, fortalecendo e restaurando quando somos temporariamente vencidos e levados cativos. Não Há Nada de Transitório em Relação à Glória Para a Qual Somos Chamados Deus não nos chamou para uma [glória] evanescente, mas para uma glória eterna, dandonos um título a ela no novo nascimento. Naquele momento, uma vida espiritual foi comunicada à alma, uma vida que é indestrutível, incorruptível e, portanto, eterna. Além disso, nessa ocasião recebemos “o Espírito de glória” (1 Pedro 4:14) como “o penhor da nossa herança” (Efésios 1:13-14). Além disso, a imagem de Cristo está sendo progressivamente moldada em nossos corações durante esta vida, o que o apóstolo Paulo chama ser “transformados de glória em glória “(2 Coríntios 3:18). Assim, nós não somente somos feitos “idôneos para participar da herança dos santos na luz” (Colossenses 1:12), mas é-nos, então, concedido um direito eterno de glória. Porque pela regeneração ou chamado eficaz, Deus nos gera para a herança (1 Pedro 1:3-4); um título desta nos é dado nesse momento, o qual é válido para sempre. Esse título é nosso, tanto pela estipulação do pacto de Deus quanto pela herança testamentária do Mediador (Hebreus 9:15). “E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e coerdeiros de Cristo”, diz Paulo (Romanos 8:17). Thomas Goodwin o resume da seguinte forma: Coloque essas três coisas juntas: em primeiro lugar, que essa glória a que somos chamados é em si mesma eterna; segundo, que a pessoa que é chamada tem um nível de glória que começou nela, a qual nunca morrerá ou perecerá; terceiro, que ela tem o direito à eternidade, e isso a partir do momento de seu chamado, e o argumento está completo. Essa “glória eterna” são “as abundantes riquezas da sua graça” que Ele derramará sobre o Seu povo nos séculos vindouros (Efésio 2:4-7), e como esses versículos nos dizem, mesmo agora, nós, jurídica e federalmente, nos assentamos “nos lugares celestiais, em Cristo Jesus”.

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“Que [em Cristo Jesus] nos chamou à sua eterna glória”. Deus não somente nos chamou para um estado de graça, “esta graça na qual estamos firmes”, mas a um estado de glória, glória eterna, Sua glória eterna, de modo que “nos gloriamos na esperança da glória de Deus” (Romanos 5:2). Essas duas coisas estão inseparavelmente ligadas: “o Senhor dará graça e glória” (Salmos 84:11). Embora sejamos as pessoas que serão glorificadas por isso, é a Sua glória que é colocada sobre nós. Obviamente assim, pois somos criaturas totalmente miseráveis e vazias, as quais Deus encherá com as riquezas da Sua glória. Na verdade é “o Deus de toda graça” que faz isso por nós. Nem criação nem providência, nem mesmo o Seu lidar com os eleitos nesta vida, mostram plenamente a abundância de Sua graça. Somente no céu sua altura máxima será vista e apreciada. É lá que a manifestação definitiva da glória de Deus será feita, ou seja, a própria honra e glória inefável com o qual Divindade investe a Si mesmo. Não apenas contemplaremos aquela glória para sempre, mas ela será comunicada para nós. “Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai” (Mateus 13:43). A glória de Deus encherá tão completamente e irradiará nossas almas que ela irradiará de nossos corpos. Então, o propósito eterno de Deus será plenamente cumprido. Nessa ocasião, todas as nossas esperanças mais queridas serão perfeitamente realizadas. Então, Deus será “tudo em todos” (1 Coríntios 15:28). A Glória Eterna é Nossa Por meio de Nossa União com Cristo “Que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória”. A primeira parte desta cláusula é melhor traduzida “em Cristo Jesus”, o que significa que o nosso chamado para fruir da glória eterna de Deus existe em virtude de nossa união com Cristo Jesus. A glória pertence a Ele, que é a nossa Cabeça, e é comunicada a nós somente porque somos Seus membros. Cristo é o primeiro e grande Proprietário dela, e Ele a compartilha com aqueles a quem o Pai deu a Ele (João 17:5, 22, 24). Cristo Jesus é o centro de todos os conselhos eternos de Deus, os quais são “segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” (Efésios 3:11). Todas as promessas de Deus “são nele [Cristo] sim, e por ele o Amém” (2 Coríntios 1:20). Deus nos abençoou com todas as bênçãos espirituais em Cristo (Efésios 1:3). Somos herdeiros de Deus, porque somos coerdeiros com Cristo (Romanos 8:17). Como todos os propósitos da graça Divina foram formados em Cristo, assim, eles são efetivamente executados e estabelecidos por Ele. Pois, Zacarias, enquanto bendizendo a Deus por ter “levantado uma salvação”, acrescentou, “Para manifestar misericórdia a nos-sos pais, e lembrar-se da sua santa aliança” (Lucas 1:68-72). Estamos “conservados por Cristo Jesus” (Judas 1). Desde que Deus nos chamou “para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor” (1 Coríntios 1:9), ou seja, para participar (na devida proporção) de tudo o que Ele é participante em Si mesmo, Cristo nosso Coerdeiro e Representante entrou em posse dessa herança gloriosa e em nossos nomes está guardando-a para nós (Hebreus 6:20).

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Toda a Nossa Esperança Está Vinculada Somente a Cristo Parece bom demais para ser verdade que “o Deus de toda graça” é o seu Deus? Há momentos em que você dúvida se Ele, pessoalmente, te chamou? Será que ultrapassa a sua fé, leitor Cristão, que Deus, em verdade, chamou você à Sua glória eterna? Então permitame deixar este pensamento de encerramento a você. Tudo isso é por e em Cristo Jesus! Sua graça está estesourada em Cristo (João 1:14-18), o chamado eficaz vem por Cristo (Romanos 1:6), e a glória eterna é alcançada por meio dEle. O Seu sangue não foi suficiente para comprar bênçãos eternas para pecadores merecedores do inferno? Então, não olhe para sua indignidade, mas, para a infinita dignidade e méritos dAquele que é o Amigo de publicanos e pecadores. Se a nossa fé compreende ou não, infalivelmente segura é que esta Sua oração será respondida: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória” (João 17:24). Essa contemplação não será transitória, como a que os apóstolos apreciaram no monte da transfiguração, mas eterna. Como muitas vezes tem sido apontado, quando a rainha de Sabá contrastou sua breve visita à corte de Salomão com o privilégio daqueles que residiam ali, ela exclamou: “Bem-aventurados os teus homens, bem-aventurados estes teus servos, que estão sempre diante de ti” (1 Reis 10:8). Essa será a nossa porção feliz ao longo dos séculos sem fim.

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O Som Alegre do Evangelho da Graça de Deus Por Augustus Montague Toplady

A essência de um discurso pregado na Lock Chapel, Nas proximidades de Hyde Park Corner, no Domingo, 19 de Junho de 1774.

“Quão preciosa é, ó Deus, a tua benignidade, pelo que os filhos dos homens se abrigam à sombra das tuas asas” (Salmos 36:7). “Bem-aventurado o povo que conhece o som alegre; andará, ó Senhor, na luz da tua face. Em teu nome se alegrará todo o dia, e na tua justiça se exaltará” (Salmos 89:15-16).

Muitas vezes maravilhei-me diante da dureza daqueles escritores que presumiram ao afirmar que o Evangelho, ou mensagem da livre e plena salvação, pelo sangue e justiça do Filho coeterno de Deus, era desconhecida daqueles que viviam sob a dispensação legal. Nada pode ser mais falso. Nós podemos tão razoavelmente afirmar que o sol não brilhou durante a dispensação legal. E, como era o mesmo sol que agora brilha, este que então iluminava o mundo, assim era o mesmo Sol da justiça, que agora resplandece sobre as almas de Seu povo trazendo cura em suas asas (Malaquias 4:2), que então brilhou sobre os eleitos de Deus, visitou-os com as irradiações de Seu amor, e os salvou pela fé em Sua própria futura justiça e expiação. Até nós, como diz o apóstolo, o Evangelho é pregado, assim como a eles (Hebreus 4:2). E, novamente, aqueles todos morreram na fé, tendo visto as promessas de longe; e creram nelas [πεισθεντες, foram assegurados do interesse por elas], e saudaram-nas (Hebreus 11:13). Então, isto podemos afirmar com confiança, no que diz respeito a todas as pessoas iluminadas por Deus que viveram antes da encarnação do Messias, que como Abraão (João 8:56), elas viram o dia de Cristo em perspectiva, e alegraram-se na crente antecipação daquela bendita visão. Como a depravação da natureza humana é intrinsecamente a mesma em todas as épocas e os homens em e de si mesmos não eram nem melhores nem piores, durante a economia Mosaica, assim eles têm sido desde então, e o são neste dia; isso segue que a desordem deve ser a mesma, o remédio também deve ser o mesmo; e, é evidente, que não há duas formas de salvação, uma para os judeus crentes, e outra para os gentios crentes; senão aquela declaração que nosso Senhor nosso já fez, e deve sempre permanecer boa: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14:6). Suponha que nós carregamos o nosso apelo para este salmo, para a verdade da obser-

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vação feita aqui. O que você acha que Davi canta neste texto? Certamente ele canta aqueles consolos sobrenaturais, transmitidos por meio do Espírito Santo, e os quais o salmista sabia que seriam adquiridos para todos os eleitos, pelo sangue de Cristo. Portanto, ele, de mesmo modo, celebra os louvores daquela justiça, em que, e em que somente, os remidos do Senhor são exaltados a um estado de comunhão com Deus, e à herança dos santos na luz. Não admire, portanto, que um salmo tão ricamente carregado de verdade evangélica deva abrir em um ímpeto de louvor e gratidão ao Deus de toda graça, cujo amor ao Seu povo os envolve, sem começo e os seguirá sem fim. “As benignidades do SENHOR cantarei perpetuamente; com a minha boca manifestarei a tua fidelidade de geração em geração” [Salmos 89:1]. Agora, você acha que Davi não apreciava o que já foi chamado da plena segurança de fé? Ou você pode imaginar que Davi não estava familiarizado com o que tem sido chamado de doutrina da perseverança final? Certamente ele foi conduzido à clara percepção de ambas destas verdades; ou ele não poderia ter dito: As benignidades do SENHOR cantarei perpetuamente; não apenas hoje e amanhã, se eu viver; não só este ano e no próximo, se eu viver; não somente na vida, mas quando eu vier a morrer; e não apenas quando eu passar pelas correntezas da morte, mas quando eu pousar em segurança do outro lado; os altos louvores de Sua misericórdia e fidelidade devem estar sempre na minha boca. Davi estava flagrantemente equivocado em suas opiniões, se o que alguns, de forma blasfema, afirmam for verdade, que “aquele que é um filho de Deus hoje, pode ser um filho do diabo amanhã”. Você deve ou negar que o salmista escreveu sob a orientação infalível do Espírito de Deus, ou deve admitir que a preservação final do regenerado povo de Deus é uma doutrina do Livro de Deus. Mas não é o suficiente para os verdadeiros crentes que estejam sensíveis à misericórdia do Senhor, e à perpetuidade da Sua graça; eles anelam difundir a fragrância do Seu nome por toda parte, e efetuar a resolução de Davi: “com a minha boca manifestarei a tua fidelidade de geração em geração”. Alguns que conhecem a verdade evitam declará-la, e têm medo de falar; eles escondem a marca de Cristo na palma de suas mãos, em vez de usála em suas testas; e embrulham o seu Cristianismo em um manto de sigilo; como se eles considerassem ser sua maior desonra o serem vistos com a farda de Cristo em suas costas. Ao contrário, tais crentes enquanto são fortes na fé, dando glória a Deus, (ao invés de ocultarem-se através de estradas e caminhos privados, escondidos numa liteira coberta com as cortinas fechadas sobre eles) preferem desejar ir para ali, sobre a via pública de uma profissão declarada, numa carruagem aberta, com para serem vistos e conhecidos de todos os homens. Mas os ministros do Evangelho, acima de toda a humanidade, ao lado, deveriam, com a boca, fazer a fidelidade de Deus conhecida; e, ao invés de desejar escapulir para o céu pela porta de trás (se houver qualquer porta ali), marchar publicamente,

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com cores ondulantes, e com som de trombeta para o grande portão da cidade celestial, e labutar para levarem para lá tantas almas com eles quanto seja possível. Por isso, eles devem ser urgentes e inoportunos, em tempo e fora de tempo; repreendendo, corrigindo, exortando, com toda a longanimidade e doutrina (2 Timóteo 4:2); o ministério da Palavra, sendo a principal foice que o Espírito de Deus faz uso para cortar as excrescências venenosas da autojustiça, para cortar as ervas daninhas perniciosas de licenciosidade prática, e para reunir os pecadores eleitos para a santificação e conhecimento salvífico de Si mesmo. Deixe, no entanto, ser observado que as chamadas ministeriais e exortações dos embaixadores de Deus, impelidas e dirigidas, para o despertado bem como para o não despertado de maneira nenhuma implicam que, na intenção Divina, a graça é universal, como os Arminianos falam; nem que o homem, pelo uso apropriado de suas faculdades razoáveis, vem a arquitetar a sua própria Salvação. Não. Muito pelo contrário. Um pescador que permanece sobre a costa, e lança a sua rede no mar em geral, não é tão desvairado a ponto de pensar que pescará todos os peixes do mar, embora ele lance a rede indefinidamente, e sem exceção. Assim, quando o ministro Cristão espalha a rede do Evangelho, ele prega para todos que adentram na esfera de sua intervenção; não com a expectativa de resgatar a todos, mas de pescar tantos quanto Deus se agradar, sabendo que é o Espírito Santo, somente, que pode conduzir as almas à rede, e efetivamente alcança-las para Jesus Cristo. O que foi aquilo que fez Davi tão desejoso de cantar as misericórdias do Senhor? O que foi aquilo que o aqueceu e o encorajou em todos os eventos para fazer conhecida a fidelidade de Jeová de uma geração para outra? Foi o Evangelho da glória do Deus bendito, visto à luz do Espírito Santo, e experimentado através da influência da graça. Aqui está a razão do zelo de Davi: “Pois disse eu: a tua benignidade será edificada para sempre; tu confirmarás a tua fidelidade até nos céus” [Salmos 89:2]. O que é essa misericórdia, que está edificada para sempre, senão o gracioso plano, a gloriosa e graciosa obra de nossa salvação, fundada no propósito eterno de Deus, levado à execução, pelo labor e morte de Jesus Cristo, e, então, aplicado e trazido para o interior do coração, pela iluminação e poder de conversão do Espírito Santo? Esta é aquela misericórdia que é edificada para sempre. Foi planejada desde a eternidade, e não conhecerá a ruína nem a decadência através da linha ilimitada da própria eternidade. Quem é o construtor desta obra? Não é o livre-arbítrio do homem. Não é a justiça própria, nem a sabedoria do homem. Não é o poder humano, nem a capacidade humana. Todo verdadeiro crente reunir-se-á com Davi: é Deus, e somente Deus, quem constrói o templo de Sua igreja; e quem, como o construtor da mesma, é soz-nho intitulado de toda a glória. Os eleitos compõem e formam uma grande casa de misericórdia; uma casa, erguida para demonstrar e perpetuar as riquezas da livre graça do Pai, o mérito da expiação do Filho; e a eficácia da ação do Espírito Santo. Esta casa, ao contrário do destino de todos os edifícios

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terrestres, nunca cairá, nem alguma vez será lançada para baixo. Como nada pode ser acrescentado (Eclesiastes 3:14) a ela, assim, nada pode ser tirado dela. O fogo não pode prejudicá-la; as tempestades não podem desfazê-la; o tempo não pode danifica-la. Ela está sobre uma rocha (Mateus 7:25, 16:19), e é imóvel como a rocha em que se encontra; a tríplice rocha do decreto inviolável de Deus, da redenção consumada de Cristo e da fidelidade infalível do Espírito. Deus não é um arquiteto imprudente, nem fraco nem caprichoso. Ele não forma um sistema miserável, passível de ser frustrado, e que, na melhor das hipóteses, dificilmente permanecerá consistente; mas está tudo bem ordenado; tudo é eterno; tudo está seguro; nada expedido por pensamento posterior ou porventura. Deus, irreversivelmente, desenhou o Seu plano, e Cristo, tendo completamente cumprido a obra redentora, o assina-la; o Espírito sagrado tem apenas que soprar sobre os corações de Seu povo no chamado eficaz, dar-lhes a fé, imbui-los com a santidade interior, preservar e aumentar a santidade que Ele comunica, faze-los prosseguir nos caminhos do dever e da obediência exterior, exercitá-los com deserções, visitá-los com Seus consolos; guardá-los de cair, ou restaurá-los quando caírem, selá-los para o dia de Cristo, e conduzi-los de forma segura através da morte para o céu. Assim, a benignidade será edificada para sempre. E tão certo como este livro é o Livro de Deus; tão certo como o Espírito de Deus o inspirou, e inclinou Davi a escrever estas palavras; assim, certamente, é uma verdade o que as próprias palavras transmitem. Nenhuma parte da salvação é deixada em seis ou sete; mas tudo é um plano que honra a sabedoria infinita; um plano, concebido e oculto (Efésios 3:9) na mente onisciente de Deus desde os tempos eternos, mas depois feito conhecido externamente na Palavra escrita, ou Evangelho da graça; e desdobrado salvíficamente nas almas dos homens, quando o bendito Espírito começa a nos converter das trevas para a luz, e do poder de Satanás para Deus (Atos 26:18). Eu estava, ontem, há alguma pequena distância da cidade; e tive um entretenimento muito refinado, indo a uma soberbíssima e elegante mansão que, dentro e fora, exibia tal combinação de imponência, beleza e perfeição de gosto, que eu não podia deixar de sentir uma curiosidade de saber em quanto tempo aquele edifício magistral fora construído! E, ao ser informado de que ela foi tanto fundada quanto finalizada no período de apenas 10 meses; eu não pude deixar de observar, para alguns amigos que estavam comigo, que se a arte humana e mãos humanas poderiam realizar tão transcendente obra como aquela, em tão curto tempo, porque seria estranho pensar que Jesus Cristo foi capaz de finalizar, e Ele de fato consumou, a obra da salvação humana em um período de trinta e três anos? Bendito seja Deus, a nossa salvação é uma obra consumada. Ela não precisa, nem admitirá, suplemento. E aqui, lembremo-nos de que, quando falamos de uma salvação consuma-

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da, nós queremos dizer a completa e infalivelmente efetiva redenção realizada pelo mérito propiciatório da própria obediência pessoal de Cristo e dos próprios sofrimentos pessoais de Cristo; tanto um quanto o outro dos quais têm a perfeição infinita da expiação e eficácia da justificação, que está absolutamente fora do nosso poder o acrescentar algo ao mérito ou validade de qualquer uma. Cada indivíduo da humanidade, por quem Cristo obedeceu, e por quem Ele sangrou, certamente será salvo por Sua justiça e morte, e sem a exceção de nenhum dos redimidos; considerando que Cristo pagou, totalmente pagou, a dívida da perfeita obediência e o sofrimento penal; assim, aquela justiça Divina deve transformar-se em injusta, se fosse possível para uma única alma perecer por todas ou qualquer uma daquelas dívidas que Cristo tomou sobre Si mesmo para libertação, e que Ele absolutamente libertou conforme o acordo. O Arminianismo não consegue digerir esta grandiosa verdade Bíblica. Assim, aquela pobre, maçante, cega criatura, o Bispo Taylor, nos diz em algum lugar, se não estou enganado, que “devemos expiar os nossos grandes pecados pelo choro; e os nossos pequenos pecados por um suspiro”. Se nossos pecados não têm outra expiação além dessa, vamos continuar chorando, e lamentando, e rangendo os dentes, por toda a eternidade. Mas, graças à Divina graça, a obra da expiação não é feita agora. Cristo já lançou fora os nossos pecados pelo sacrifício de Si mesmo (Hebreus 9:26). Estamos absolvidos de culpa e reconciliados com Deus, não por nossas próprias lágrimas, mas pelo precioso sangue de Jesus Cristo, como de um Cordeiro sem mancha ou defeito (1 Pedro 1:19); não os nossos próprios suspiros, e lágrimas e tristezas; mas a humilhação, a agonia, o suor sangrento, e a morte amarga dAquele que não cometeu pecado, dAquele que foi feito na forma de homem, e tornou-Se obediente até à morte e morte de cruz; isto, e isto somente, é a propiciação pelos nossos pecados (1 João 2:2). E tão certo como Cristo obedeceu, tão certo como Cristo expirou, tão certo como Ele ressuscitou novamente, tão certo como Ele intercede por todo o povo de Seu amor; assim, certamente serão todos eles, o primeiro e o último, capacitados a cantar a Sua fidelidade por todas as gerações; e esta misericórdia, a qual será edificada para sempre em sua glorificação plena, livre e final. Isto é mais confirmado por estas palavras do salmista: “Tu confirmarás a tua fidelidade até nos céus” [Salmos 89:2]. Como para dizer: “Quando todo o Teu povo escolhido, redimido e convertido for reunido ao redor de trono; então Tu darás, nos céus, uma prova eterna da Tua fidelidade eterna”. Tão longe estará Deus de deixar o Seu povo perecer em sua passagem pelo deserto da vida, ou através do rio da morte, que Ele apresentará a todos eles, imaculados, diante da presença de Sua glória com exultante alegria (Judas 1:24). Deus ama mui bem as Suas joias, e Cristo as comprou com um mui querido preço, e o Espírito Santo as lustra com muita atenção, quer para jogá-las fora, quer para perdê-las

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finalmente. Não, eles serão poupados (Malaquias 3:17); o seu número será cumprido; e em sua glorificação toda a Trindade será glorificada. Agora, após levantamento de alguns dos ramos, olhemos para a grande raiz de onde eles brotam. Tendo tomado uma visão apressada desses ribeiros, pelos quais a Igreja de Deus é enriquecida para a salvação; esforcemo-nos para contemplá-los em sua grande Fonte e Cabeça. Isto você encontrará no terceiro versículo; onde Deus, o Pai diz: “Fiz uma aliança com o meu escolhido, e jurei ao meu servo Davi, dizendo: A tua semente estabelecerei para sempre, e edificarei o teu trono de geração em geração” [Salmos 89: 3-4]. Você acha que isto foi dito a Davi, apenas para sua própria pessoa? Não, em verdade, mas para Davi como o antitipo, figura e precursor de Jesus Cristo. Por isso, a versão Septuaginta o torna: Fiz aliança τοις εκλεκοις μω, com o meu povo eleito, ou com os meus escolhidos; ou seja, com eles em Cristo, e com Cristo em seu nome. “Jurei ao meu servo Davi”, ao Messias, que foi tipificado por Davi; ao meu Filho coeterno, que aceitou tomar sobre si a forma de servo; “a tua descendência”, ou seja, todos aqueles a quem eu tenho dado a Ti no decreto da eleição, todos aqueles por quem Tu vives e morres para redimir, “para sempre os estabelecerei”, de modo a tornar irreversível e irrevogável a sua salvação; “firmarei o teu trono”, o Teu trono de mediação, como Rei dos santos, e Cabeça da Aliança dos eleitos, “de geração em geração”, sempre haverá uma sucessão de pecadores favorecidos a serem chamados e santificados, em consequência da Tua obediência federal até a morte; e a cada período de tempo, recompensará os Teus sofrimentos da aliança com o aumento da renovação de almas convertidas, até que tantos quanto estejam ordenados para a vida eterna (Atos 13:48) sejam reunidos. Observe-se, aqui, que quando Cristo recebeu esta promessa do Pai, relativa ao estabelecimento do Seu trono [ou seja, de Cristo] por todas as gerações; o significado claro é, que Seu povo será assim estabelecido; pois considere Cristo em Sua capacidade como o Filho de Deus, e o Seu trono já foi estabelecido, e havia sido desde a eternidade; e continuaria a ser estabelecido sem fim, mesmo que Ele nunca tivesse encarnado em absoluto. Portanto, a promessa indica que Cristo reinará, e não simplesmente como uma pessoa da Divindade (o que Ele sempre fez, e deve sempre fazer); mas relativamente, mediatorialmente e em seu caráter de ofício, como o Libertador e Rei de Sião. Por isso, segue-se que o Seu povo não pode ser perdido, porque Ele seria um pobre tipo de rei miserável que não tinha, ou não poderia ter, súditos sobre quem reinar. Consequentemente, aquele trono de glória, em que Cristo está sentado, já está cercado, em parte e, finalmente será completamente cercado, e feito ainda mais glorioso, por inumeráveis companhias, desta assembleia geral, e igreja dos primogênitos, que estão arrolados no céu (Hebreus 12:23); para a remissão de cujos pecados o Seu sangue foi derramado; para a justificação de pessoas cuja a Sua justiça foi operada; para a preservação de quem, em estado de graça, a Sua intercessão é

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ainda exercida no céu; e para restaurar e resgatar aqueles da desonra pessoal de pecado, o Espírito Santo desce e faz morada em seus corações, e nunca deixará a Sua graciosa tutela até que Ele os santifique para o reino de Deus. Bem pode o salmista acrescentar: “E os céus louvarão as tuas maravilhas, ó Senhor, a tua fidelidade também na congregação dos santos” (Salmos 89:5). O que devemos entender aqui pelos céus? Devo supor que os habitantes primários do céu; a saber, os anjos de luz. Bondade eletiva, misericórdia redentora, graça santificadora, e poder preservador, tão beneficamente demonstrados na salvação do homem caído, são maravilhas, mesmo para os próprios anjos. Mas os anjos são os únicos seres que devem admirar-se com essa demonstração de amor? Não. “E na assembleia dos santos, a tua fidelidade”. Na congregação dos santos crentes abaixo, e dos santos glorificados acima. Para santos e anjos, no grandioso resultado das coisas, quando as transações da graça e providência forem reveladas e definidas, claramente desveladas para a vista deleitosa; em um augusto perío-do, santos e anjos, os remidos e os espíritos não-redimidos (mas ambos eleitos, um bem como o outro), que foram sempre incorpóreos e os santos cujas almas foram por um tempo desalojadas do corpo em consequência do pecado original, mas que receberão seus corpos novamente na ressurreição dos justos; todos estes, quando eles se levantarem e brilharem acima, deverão reunirem-se com suas coroas de fundição, e tocarão as suas harpas douradas para louvar a Ele, que amou o Seu povo, e os redimiu para Deus, por meio de Seu sangue (Apocalipse 5:9). O tempo não me permite considerar, como eu projetei todos os versos preliminares que conduzem ao texto. Eu espero que tenha sido suficiente para justificar a declaração em que o texto começa: “Bem-aventurado o povo que conhece o som alegre”! É terrivelmente insinuando que há alguns que sentam-se na esfera do som jubiloso, mas que, não o conhecem, sentem e apreciam. É para eles uma vox, et præterea nihil: um som e nada mais que um som. Mas, a bem-aventurança resulta para aqueles que conhecem o som alegre e cujas almas crentes podem dizer: “As bênçãos gratuitas do Evangelho são toda a nossa salvação e todo o nosso desejo”. Isto é uma coisa muito comum, quando falamos do conhecimento das coisas que pertencem à nossa paz espiritual e eterna, que pessoas não-convertidas bradem: “Ó, como você é presunçoso!” Eu repudio totalmente a acusação. Não é presunçoso tomar Deus em Sua Palavra, e crer e ter certeza de que haverá um cumprimento das coisas que são ditas e prometidas pelo Senhor (Lucas 1:45). Assim, quando Deus assegura ao pecador penitente: “Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim, e dos teus pecados não me lembro” (Isaías 43:25); não é humildade, mas a própria presunção, e a própria quintessência da incredulidade, que nos ordena colocar um negativo na afirmação

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solene de Deus, e nos induzir a questionar se Ele bem cumprirá, de fato, a Sua promessa. Eu sou firmemente da opinião que o homem que lê e professa crer na Bíblia deve ter um grande estoque de segurança, no pior sentido da palavra (ou seja, de audácia e desfaçatez), se ele se atreve a negar esta garantia, no melhor sentido da palavra, ou uma clara percepção e convicção de interesse no amor perdoador de Deus, é o privilégio possível ao povo convertido de Cristo. Estes certamente concordarão com Davi, em defini-los como bem-aventurados em conhecer o som alegre: os que conhecem o som festivo, cujos corações têm sido lavrados pelo Espírito Santo, para receber a semente do Evangelho; e em quem esta brota para justiça e paz e alegria no Espírito Santo (Romanos 14:17). Disto, e disto somente, surge a plena concepção de conhecer o som alegre. Por isso, podemos aprender que pessoas têm este conhecimento de fato. Não a Igreja do Povo da Inglaterra, em detrimento de outras; Não os Romanistas; não os membros da Igreja da Escócia; nem, em suma, os partidários de qualquer denominação em particular. Mas os muitos indivíduos que, pela graça, são habilitadas a conhecer o som alegre, são aqueles que Deus toma daquelas e de outras denominações, para ser um povo para o Seu nome (Atos 15:14); a saber, os eleitos de cada época, local e parte. Todos os convertidos de Deus, todo o Seu povo penitente, crente, obediente, através de toda a extensão da terra, abaixo, de uma extremidade do céu a outra; todos cujos corações são todos tocados pelo poder atrativo de seu Divino Espírito são as pessoas que conhecem o som alegre. O som alegre de quê? Aquele da livre graça, que é o empreendimento dos ministros de Deus proclamar, dizendo: “Paz, paz para o que está longe, e para o que está perto” (Isaías 57:19). Esse som alegre que diz: “Ah, todos (sem exceção de tempo, ou lugar, ou pessoa), vós, os que tendes sede, vinde às águas” (Isaías 55:1) da vida, alegria e salvação. Mas, observe que mesmo isto não é uma chamada universal. Deus me livre de ser mal interpretado por alguém que me escuta hoje. Não pense que eu estou içando as cores Arminianas, e erguendo a falsa bandeira Arminiana. Não, de maneira nenhuma. Acho que não há praticamente uma chamada mais indefinida, em toda a Palavra de Deus, do que a que eu citei por último. Mas, em seguida, note, que se destina apenas para os que têm sede, ou seja, àqueles que tanto conhecem o som alegre quanto desejam uma participação experimental das bênçãos que ele proclama. Seria leviano chamar às águas os que não têm sede. Seria ridícula zombaria, se convidássemos os mortos para sentarem-se à mesa, e colocar um prato, uma faca e um garfo, diante deles, e perguntar-lhes porque eles não comem? O fato é: eles não podem comer nem beber. Eles devem, antes, serem feitos vivos para que possam ter algo como qualquer apetite. Há uma passagem mui frequentemente, porém muito ociosamente, insistida pelos Arminianos, como se fosse um martelo que poderia a um só golpe esmagar ao pó toda a obra da livre graça. A passagem é: “Por que morrereis, ó casa de Israel” (Ezequiel 18:31).

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Mas acontece que a morte aqui aludida não é nem a morte espiritual, nem morte eterna; como abundantemente aparece em todo o teor do capítulo. A morte intencionada pelo profeta é uma morte política; a morte de prosperidade, tranquilidade e segurança nacionais. E o sentido da pergunta é justa e precisamente este: O que é isto que faz você se apaixonar pelo cativeiro, banimento e ruína civil? A abstinência da adoração de imagens pode, como um povo, isentá-los daquelas calamidades, e mais uma vez fazer de vocês uma nação respeitável. São as misérias da devastação pública tão sedutoras como para atrair a vossa busca determinada? Por que morrereis? Morrer como a casa de Israel e considerada como um corpo político? Assim, razoavelmente, o profeta argumentou o caso. Adicionando, ao mesmo tempo, esta declaração não menos razoável: “Porque não tenho prazer na morte do que morre, diz o Senhor DEUS; convertei-vos, pois, e vivei” (Ezequiel 18:32). O que implica nestas duas coisas: 1. Que o cativeiro nacional dos judeus não acrescentou nada à felicidade de Deus. Isto não lhe trouxe qualquer adesão de lucro ou prazer. E eu me pergunto (filosoficamente falando) se seria possível adicionar o que quer que seja à felicidade Divina, já que é infinita; e, consequentemente, insuscetível de aumento. 2. Que, se os judeus se convertessem da idolatria, e lançassem fora as suas imagens, eles não morreriam em um país hostil estrangeiro, mas viveriam em paz em sua própria terra, e desfrutariam de suas liberdades como um povo independente. E agora, o que tem tudo isto tem a ver com as bênçãos da graça e glória? Não mais do que isto tem a ver com Gogue e Magogue. Não seria muito absurdo se eu permanecesse no jardim da igreja e dissesse para os corpos enterrados ali: “Por que morrereis?” Não, em meu pensamento, seria menos do que se eu dissesse a um pecador morto espiritualmente: “Por que morrereis?” Ai, ele já está morto; e colocar tal questionamento para alguém nesta condição, seria, na realidade, perguntar para um homem que já está caído em Adão (como todo homem está): “Por que tu caíste em Adão?” Deixe os Arminianos falarem desta maneira se o consideram adequado. Eles terão, para mim, todo o falatório, não invejado e não rivalizado, para eles mesmos. Eu acho que isto não suportará água. Uma coisa muito diferente é o som alegre do Evangelho da graça. Ele transmite a vida aos mortos, e saúde para os vivos. Ele vos deu vida, estando vós mortos em vossos delitos e pecados (Efésios 2:1). E, diz Deus a respeito da vivificação de sua Igreja: “Eis que lhe trarei [não a provocarei com uma oferta vazia; mas, verdadeiramente] saúde e cura” (Jeremias 33:6). A regeneração dá vida espiritual e a santificação dá saúde espiritual, para a alma. Como a saúde espiritual é evidenciada para nós mesmos e para outros? Não por pender no encosto da cadeira da preguiça; mas por abundar na obra do Senhor. Pois, embora algumas pessoas nos chamem Antinomianos (como o próprio Cristo e os apóstolos eram, então — Mateus 11:19 e Romanos 3:8 — chamados antes de nós, pelos desenvergonhados fariseus daquela época), e falsamente acusam nossa boa conversação (1 Pedro 3:6),

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como se fôssemos inimigos da lei moral; estamos tão longe disso, que (eu declaro isto ousadamente, e deixe que qualquer um o contradiga, se puder), nós que cremos que a salvação é o dom absoluto da graça absoluta somos as únicas pessoas que reafirmam as devidas honras da lei, e estabelecemos sua autoridade de forma inabalável. 1. Afirmamos suas honras, por considerá-las como uma transcrição da própria santidade de Deus; como absolutamente perfeitas em todas as Suas requisições; como o padrão invariável de excelência moral; como a sublime regra pela qual o próprio Cristo ajustou Sua própria obediência incomparável; e como o instrutor que, em subserviência à influência do Espírito Santo, nós prepara (pela severidade da sua disciplina) para a recepção de Cristo, e para ouvirmos, para um bom propósito, aquele som da graça do Evangelho que é jubiloso apenas para aqueles a quem a lei, assim vista, tem instrumentalmente (Gálatas 3:24; Romanos 3:20) convencido do pecado. 2. Estabelecemos sua autoridade (Romanos 3:31), por enxertar a nossa obediência sobre o princípio perpétuo (1 Coríntios 13:8 e Mateus 27:40) do amor a Cristo; por objetivar a conformidade prática aos Seus preceitos, como o grande prova visível da nossa parte na eleição de Deus e na redenção do Messias (1 Pedro 1:2); acreditando e afirmando que ela ainda permanece em pleno vigor, e assim permanecerá enquanto o sol e a lua existirem, como a regra moral da nossa caminhada; e suplicando a Deus pelo Espírito Santo (Hebreus 8:10) para escrevê-la em nossos corações adequadamente. Pois, qualquer que seja a obrigação absolutamente moral, é e deve ser, em sua própria natureza, irrevogável. Assim, o som festivo proclama a majestade, e até mesmo acrescenta às sanções da lei moral. Para cumprir toda a justiça dessa lei, e suportar a sua terrível pena, como um pacto de obras, o Filho de Deus Altíssimo inclinou-se dos céus e desceu, para fazer o Seu povo resgatado amar essa lei como uma diretriz de conduta; e para torná-la realmente transcrita ao seu máximo em suas vidas, como um meio de sua conformidade a Deus; o Espírito incriado desce sobre suas almas como uma pomba, e opera neles tanto o querer quanto o efetuar. Mas ainda devemos considerar a lei como na mão de Cristo (1 Coríntios 9:21): E lembrese, que o amor de Deus, graciosamente derramado (Romanos 5:5) no coração é o único princípio pelo qual os crentes agem. Agora, aquele som alegre que as pessoas são ditas bem-aventuradas em conhecer, consiste grandemente, no que a Palavra de Deus traz à luz sobre (Efésios 3:11) aquele propósito eterno da eleição de graça que Ele estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor. Pois, não obstante os esforços profanos de alguns em deturpar essa grande e preciosa

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verdade como uma doutrina obscura, desconfortável, aqueles cujos olhos Deus iluminou, e aqueles cujos corações Deus tocou, sabem que este não é um som triste, mas jubiloso; e o desejo de todos os seus corações é: oh, que eu pudesse, com fé mais desanuviada, contemplar meu nome brilhando no Livro da vida do Cordeiro! O próprio Cristo, o grande pregador da predestinação, e que certamente foi um juiz competente desta questão, considerou a eleição uma doutrina reavivadora do coração; ou Ele nunca ordenaria aos Seus discípulos que se alegrassem por terem Seus nomes escritos no céu (Lucas 10:20). Qualquer que prega o Evangelho sem considerar a eleição absoluta, este ministro dá as costas para a árvore da vida, apaga uma das principais luzes que ele deveria elevar no velador, e retém de Seu povo a própria raiz e essência do som alegre. O qual é a livre remissão do pecado, por meio do sangue precioso e expiação de Jesus Cristo; o qual é incondicional e irreversível justificação, através da imputada justiça de Cristo; o qual é aquela verdade que nos diz que o Espírito de Cristo é o regenerador, o habitante, o iluminador e o eterno consolador dos filhos de Deus; o qual é essa palavra que nos assegura que o Senhor não ficará longe das pessoas de Seu amor, nem Se compadece para finalmente afastar-Se deles, mas que Ele os selará como Seus para sempre, e os preservará durante a vida e a morte, para a glória, embora cada passo que deem sobre a terra esteja cheio de armadilhas, e, se deixados por si mesmos um momento, eles cairiam no inferno mais baixo; o qual é a contínua advocacia de Cristo, pelo qual Ele veste Seu sacerdócio em Seu trono, e intercede por Seu povo militante, de modo que, enquanto eles estão peregrinando, ou lutando, ou enfraquecendo, Ele está orando, com a apresentação perpétua de Si mesmo diante de Deus, como um Cordeiro recém-assassinado; o qual são as promessas que se relacionam com o socorro, apoio e libertação da alma, na morte; que garantem uma ressurreição corporal para a glória, honra e imortalidade; e que certifica-o em beatificação sem fim, da alma e corpo juntos, no reino de Deus; digo eu, o são todos esses, senão as muitas porções e ramos do som alegre? E um som alegre isto é. Que Deus o faça assim para nós! Fosse a questão deixada na mão da nossa livre-agência, o som alegre logo escureceria em um som funesto. Nunca entraríamos em um estado de graça em absoluto. E, se Deus nos colocasse nisto, e depois nos entregasse à nossa própria gestão, deveríamos rapidamente naufragar em absoluto. Adão, no estado de inocência, não permaneceu, provavelmente, por 24 horas. E como deve o crente, que está em um estado misto de pecado e graça, e em quem estão (Cantares 6:13) a fileira de dois exércitos, a carne e o espírito, em guerra perpétua entre si; como poderia uma pessoa possivelmente continuar, mesmo por vinte de quatro minutos, se o mesmo amor Todo-Poderoso, que o colocasse na Aliança, não o sustentasse na mesma?

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Um bom homem do século passado, diz, e com grande verdade “o crente mais forte dentre todos nós é como um copo sem uma base, que não pode permanecer um momento a mais do que ele seja mantido”. E nosso Senhor tinha uma visão semelhante sobre o assunto, quando Ele declarou, que Ele mantém todas as Suas ovelhas em Sua mão (João 10:28; Veja também Deuteronômio 33:8); se Eu te deixasse por um instante, tu cairias; portanto, Eu te seguro firme, e ninguém pode arrebatar-te da Minha mão. Oh, quão confortável é isso, quando o Senhor faz essas verdades conhecidas ao coração, pelo Seu Espírito! Quão bem-aventuradas são as pessoas que, assim, conhecem o som alegre! Quem podem ver que Deus as amou em Seu Filho; podem sentir que Cristo morreu por elas, para ser a sua paz eterna; que estão convencidas de que a paz não está por ser realizada agora, mas foi completamente cumprida e selada pelo precioso sangue da Sua cruz, eras e eras antes que eles puxassem a respiração; que estão docemente seguros de que o Espírito Santo, que já começou a mostrar-lhes as grandes coisas de Cristo, prosseguirá mais claramente a mostrar-lhes que Ele nunca os deixará, nem os abandonará, na vida, na morte, nem mesmo em sua jornada final! Este é aquele som alegre que Deus permite que Seu povo conheça. E qual é a consequência de conhecê-lo? Bem-aventurado é o povo que conhece o som alegre. Por que eles são bem-aventurados, ou felizes? E em que a sua bem-aventurança consiste? Eles andarão, ó Senhor, na luz da Tua face. Como para dizer, nós precisamos somente conhecer este som alegre para sermos felizes. Nós precisamos apenas saber o que é ser amado, escolhido, redimido e santificado dentre os homens; e então, este conhecimento nos fará (Habacuque 3:19) andar sobre as suas alturas, e triunfar em o nome de nosso Deus. Nós vamos experimentar o sorriso, nós fruiremos da luz do sol, da face de Deus sobre as nossas almas. Qual é o significado dessa frase: “andará, ó Senhor, na luz da tua face”? Suponha que qualquer grande personagem apadrinhou um homem sombrio, e o favoreceu com sua peculiar intimidade e amizade. Seria, nesse caso, natural que nós disséssemos: “tal pessoa é grandemente contemplada por este ou aquele nobre”. Assim aqui: Eles andarão na luz da Tua face, ou seja, estarão, sensivelmente, no favor de Deus. Eles fruirão de confortável comunhão e amizade com Deus. Eles terão uma persuasão satisfatória de que o Senhor está em paz com eles, através do sangue de Cristo; e que (Romanos 5:1), sendo justificados pela fé, estão também, por sua parte, em paz com o Senhor. Eles (Romanos 5:11) recebem a expiação (pois o verdadeiro assunto da fé é, não fazer a expiação, mas simplesmente receber e descansar sobre a expiação de Cristo, já feita, a qual a fé em si mesma não a torna mais eficaz do que intrinsecamente é). Às vezes, a maré da segurança rola tão ricamente sobre a alma, como a subir quase (se assim posso dizer) até a marca d’água, e não deixa tanto como a sombra de uma dúvida sobre a mente. Quando é assim com o

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crente, ele pode ser eminentemente dito que anda na luz da face de Deus. A fé olha (Hebreus 6:19) dentro do véu. A cena interposta se abre. Nós quase ouvimos os anjos cantarem. Nós quase vemos as almas dos glorificados prestando homenagens à graça, e lançando as suas coroas no escabelo Divino. Nós quase contemplamos o Rei dos santos (Isaías 33:17) em Sua beleza, brilhando como (Apocalipse 5:6) o Cordeiro no meio do trono. Estes são momentos preciosos! Mas, logo a cena se fecha. Nós descemos do topo da montanha, e encontramo-nos de novo no vale. Se Deus, no entanto, ainda não lhe deu qualquer garantia de Seu amor, não imagine que você é, portanto, um estrangeiro e um bastardo. Pois, eu imagino, que a face de Deus, ou favor, e a luz da Sua face, ou o conhecimento claro e confortável de Seu favor, são duas coisas distintas. Deus pode ter um favor para conosco, Ele pode nos amar, e estar resolvido a nos salvar; e ainda não nos saciar com a luz imediata de Sua face. Mas sobre uma coisa eu sou tão claramente positivo, quanto agora estou pregando na Capela Lock: a saber, que ninguém cujo coração, é em absoluto operado pelo do dedo do Espírito de Deus, pode sentar-se, muito fácil e contentemente, sem visitar a experiência do que a luz da face de Deus significa. Seu desejo é conhecê-la, andar nela, e andar digno dela. Você nunca observou, depois que o sol tem brilhado, talvez por horas a fio, uma névoa difusa surge da terra, ou uma nuvem flutuante interpõe-se no céu, e sombreia o grande luminar de seu ponto de vista? Ainda assim, é a realidade, o sol ainda brilhava como antes, embora a sensação de seu brilho fora suspensa. Assim, nas épocas mais obscuras de angústia espiritual, a face de Deus, ou favor, ainda está em sua direção para o bem; e brilha, não apenas com intensidade inextinguível, mas também não diminuível. Esta não é, no entanto, uma felicidade mais desejável; para ver e sentir a luz do Seu rosto, sorrindo plenamente sobre nós, como um sol quando se levanta na sua força (Juízes 4:31); isto é, o que quer indicar o apóstolo, onde diz: “Porque Deus, que disse que das trevas resplande-cesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus” [ou seja, para nos iluminar no conhecimento da gloriosa graça do Pai, como demonstrada] εν προσωπω, na Pessoa, [e conforme exibida na salvação final] de Jesus Cristo (2 Coríntios 4:6). E isto é, igualmente, o que o salmista indica no texto: Andarão, ó Senhor, na luz da Tua face. Você pergunta: “Como esta comunhão feliz com Deus deve ser alcançada?”. Eu respondo: isto não é de realização humana, mas da concessão do Espírito Santo. Donde Davi, em outro lugar, ora: “Senhor, exalta sobre nós a luz do teu rosto” (Salmos 4:6). Você pergunta mais: “Como esta doce iluminação e amizade devem ser buscadas, cultivadas e acalentadas?”. Eu respondo que a sabedoria e a vontade de Deus, neste ordenado

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encadeamento de uma bênção a outra, que Ele estabeleceu em Sua Aliança da graça, tudo concorre para nos assegurar de que, se quisermos desfrutar dos raios não in-terceptáveis dentro de Sua presença, devemos cultivar a santidade, abundar em boas o-bras, estar muito na companhia de Deus, através da oração e súplica com ações de graças, beber continuamente da fonte da Sua Palavra escrita e conversar com frequência, e comparar experiências, com os outros dos filhos de Deus, mais especialmente com aqueles ou eminentemente vivificados, ou notavelmente exercitados em deserções; tais conversa-ções são sempre proveitosas, e frequentemente fazem (Lucas 24:32) nossos corações arderem interiormente, enquanto nós mutuamente abrimos as Escrituras, e (Malaquias 3:18) falamos uns com os outros, sobre (Atos 10:3) as coisas concernentes ao reino de Deus. Os doentes e os em leitos de morte do povo de Cristo são, em um grau muito emi-nente, as escolas de instrução e consolo. Muitas vezes fui para eles tão frio (espiritualmente falando), como uma pedra, e retornei deles tão aquecido quanto um anjo. Em uma palavra: a comunhão com Deus requer que nós sejamos encontrados em todos os meios de graça, e no caminho do dever universal; e nós evitarmos, como faríamos com veneno ou a peste, tudo o que tende a lançar um pano úmido sobre a nossa relação com o Espírito Santo, para manchar nossas graças, ou escurecer nossas evidências. Se você descobrisse que até mesmo a travessia de uma palha favorecesse a vinda de uma nuvem sobre sua alma e obstruiria a sua comunhão com Deus, seria o seu máximo dever o absterse de cruzar essa palha como se, “tu não atravessarás uma palha” fosse um dos dez mandamentos. Mas em todos estes aspectos cada homem deve julgar por si mesmo, em particular. Deus tem, em geral ligado bem com o bem e o mal com o mal. Se, portanto, você sofre por estar fora de Sua guarda, e fora de Sua vigilância, embora você não possa (se você é um verdadeiro crente) cair e quebrar seu pescoço, ainda assim você pode quebrar seus membros de forma a ir hesitante para o dia de sua morte. O Senhor graciosamente “fortalece (Litania), bem como suporta”, e efetivamente “levanta (Litania) até os que caem”; fazendo tanto estes quanto aqueles mais ardentes e mais cuidadosos praticamente do que nunca, para caminhar na luz de Sua face! Porque, certamente, próximo do amor do coração de Deus, os crentes valorizam os sorrisos de Sua face; a partir dos quais, como a partir da ação do sol, surgem as construções de alegria consciente; as folhas da profissão imaculada; a variada floração dos temperamentos santos; e os frutos benéficos da justiça moral. Estão totalmente enganados aqueles que supõem que a luz da face de Deus, e os privilégios do Evangelho, e os consolos do Espírito, nos conduzem à indolência e inatividade no caminho do dever. O texto corta esta suposição pelas raízes. Pois não diz que eles devem sentar-se à luz de Tua face; ou que eles se deitarão a luz de Tua face; mas que andarão na luz da Tua face. O que é andar? É um movimento progressivo de um ponto para outro do espaço. E o que é esta caminhada santa a qual o Espírito de Deus capacita

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a todo o Seu povo observar? É um movimento contínuo, progressivo, do pecado à santidade; de tudo o que é mau para toda a boa palavra e obra. E a mesma luz da face de Deus, na qual você, ó crente, é habilitado a andar, e que a princípio lhe deu pés espirituais com os quais andar, irá mantê-lo em um andar e em um estado de trabalho até o fim de sua guerra. Assim que o caminho deverá, sob as iluminações de seu Espírito (pois não podemos fazer nada, senão enquanto Ele nos concede a Sua graça a cada momento), brilhar mais e mais até ser dia perfeito (Provérbios 4:18). Os verdadeiramente justos prosseguirão em seu curso, e aqueles que têm as mãos puras irão crescendo em força (Jó 17:9). Eles não somente andarão, ó Senhor, na luz da Tua face; eles deverão também, às vezes, até mesmo correr e não se cansarão (Isaías 39:31), ou seja, quando eles são eminentemente inclinados para Deus. Leva-nos; correremos após ti (Cânticos 1:4). Embora Deus encontre todos os Seus filhos natimortos ou mortos espiritualmente, antes que Ele os vivifique por Seu próprio poder eficaz e graça, ainda assim Ele os vivifica, a fim de que eles possam viver posteriormente para Sua honra e glória (1 Pedro 2:9). Ele levanta a luz de Sua face sobre a mente humana, com uma visão análoga ao que Ele faz com a luz do sol natural, que sobe sobre o mundo. Com que finalidade o sol brilha sobre nós em uma manhã? Não é para que possamos continuar a fechar os olhos e pálpebras, e pressionemos o dia todo a cama da indolência; mas para que levantemos e estejamos agindo. E por que a luz do Espírito de Deus brilha interiormente sobre o Seu povo? Para que eles possam levantar e caminhar na luz de Sua face e fazer as obras de Deus enquanto é dia (João 9:4), como Jesus Cristo deu-lhes o exemplo: ande de modo digno dAquele que lhes chamou para Sua glória e virtude. Pois não é santo falar, mas santo caminhar, o que prova que somos filhos de Deus. No entanto, depois que fizemos o máximo, e tenhamos andando tão longe, nos caminhos de Deus como sua graça nos permitiu, o que é o tema de nossa confiança e alegria? Não nós mesmos, nem os nossos próprios desempenhos, mas a livre misericórdia do Pai, e o todo-perfeito mérito dAquele que morreu e ressuscitou. Como o bom Sr. Hervey pergunta: “Podem os nossos atos de caridade expiar os nossos inúmeros crimes? Como uma gota de água fresca pode corrigir e adoçar a salmoura insondável do oceano. Podem nossas performances defeituosas satisfazer as exigências de uma lei perfeita, ou os nossos erros nos ocultar do desagrado de um Deus irado? Assim como a nossa mão erguida pode eclipsar o sol, ou interceptar o raio quando se arremessa através da nuvem prestes a romper. Nós podemos ser reconciliados com Deus apenas por Jesus Cristo (veja o sermão do Sr. Hervey, intitulado ‘O Ministério da Reconciliação’)”. É o doce emprego da fé que faz tantas boas obras quanto puder; e renuncia a elas tão rápido quanto ela possa lhes dizer: “Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer…?” [Mateus 25:37].

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Assim, aprendemos, a partir do texto, que as mesmas pessoas que andam na luz da face de Deus, e são ativas nas observações do dever moral, têm, quando elas têm feito de tudo, algo infinitamente melhor pelo que se alegrar e para depender do que a santidade da sua caminhada, e os vários deveres que efetuam. Em Seu nome, e não em sua própria retidão, se alegrará todo o dia, e na Sua justiça, e não em suas próprias obras, se exaltará. Durante o dia da vida terrestre, eles devem cantar, com o apóstolo: “Mas longe esteja de mim gloriarme, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Gálatas 6:14); e quando, tendo o seu último respirar na terra, eles voam para praia da imortalidade, são, então, incoativamente (o início de uma ação), e serão (após a auditoria final) completa e eternamente, elevados para o reino de Deus, na e através da justiça imputada, somente, de seu Salvador, o seu Fiador e a sua Cabeça. Pelo nome de Cristo, no qual os eleitos são aqui ditos alegrarem-se, eu entendo o próprio Cristo: a Pessoa bendita, representada por esse Nome. O qual é o brilho, o  a emanação, ou exterior feixe luz radiante, da glória do Pai (Hebreus 1:4), e é, pela virtude desta derivação eterna e incompreensível ( ς  ). Deus de Deus; Luz da Luz; verdadeiro Deus de Deus verdadeiro, gerado, não criado; co-igual participante de uma substância [ou seja, da mesma natureza e essência numérica] com o Pai, e por quem todas as coisas foram feitas. Em Seu Nome, ou seja, na Divindade de Sua Pessoa, e em Seus ofícios como mediador; em Sua expiação consumada, na perfeita justiça de Sua obediência, e na Sua intercessão infalível por todos os eleitos; este é o privilégio do humilde, do contrito, do fraco, do tentado e do crente caído (se retornando), pelo que se alegrar; porque foi para tais homens, e para a sua salvação, que este Ser adorável desceu do Céu, e derramou a Sua alma na morte. Não imagine que Davi era um Antinomiano, porque ele não faz nenhuma menção de boas obras como objetos de alegria e de dependência. A verdade é que não se diz, “os santos se alegrarão em sua fidelidade, em suas mortificações emocionadas, ou mesmo naquelas obras que brotam da graça genuína”. Não; não nestes, mas em Seu nome, os gentios creem (Mateus 12:21), e apenas de Sua única justiça eles farão a Sua glória. Graças inerentes e deveres pessoais são os ornamentos, mas não a fundação, nem os pilares, do templo místico de Deus. Como a justiça de Cristo é o único mérito que pode nos exaltar à presença e ao reino de Deus; assim esta doutrina sozinha deve ser considerada tão evangélica, de forma que abate a justiça do homem, e exalte a justiça de Cristo; o que nos leva a confiar, não no que fazemos, mas individualmente sobre o que Ele fez e sofreu por nós. O trabalho da Lei é nos derrubar do pedestal da autoconfiança, e nos moer; como Moisés reduziu ao pó, e disper-

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sou os materiais dos ídolos israelitas. A obra da graça é nos erguer do pó, e estabelecernos em Cristo, a Rocha Eterna, para colocar um cântico novo de salvação gratuita em nossas bocas, e ordenar os nossos passos no caminho dos mandamentos de Deus. Isto é (mesmo o poder do Espírito Santo, que pela primeira vez nos quebra em pedaços pelo martelo da Lei, e, em seguida, nos restaura pela graça do Evangelho) que nos permite nos gloriemos em nome de Cristo, todo o dia. Não que a alegria de um crente seja ininterrupta, a partir do momento de sua conversão até o momento de sua chegada ao céu; pois os eleitos têm o seu choro, bem como a sua temporada de triunfo, e sua peregrinação é sabiamente contrastada e diversificada, tanto com alegrias e tristezas que o mundo não conhece. O significado, portanto, do texto, é que um pecador não é mais cedo nascido de novo do que quando Cristo, e Cristo somente, torna-se o objeto da dependência deste pecador; que possa, a partir daí, dizer com o Dr. Watts, “Enquanto judeus de suas próprias obras dependem, “E os gregos da sabedoria se vangloriam; Eu amo Teu mistério encarnado, E ali eu fixo a minha confiança.” O pecador convertido tendo assim, por meio da boa mão de Deus sobre ele, fixado todas as suas esperanças em Jesus Cristo, o Justo, viaja o restante de seu caminho, encostado nos méritos (Cantares 8:5) do amado mediador; e é, enfim, exaltado à participação efetiva da herança celestial acima, em e pela virtude desta justiça Divina, a qual Deus Filho operou, que Deus o Pai imputa, que Deus o Espírito aplica, e sentindo-se esvaziar, recebe a fé. O erudito e evangélico Sr. Thomas Cole, um renomado e útil ministro de Cristo, no século passado, tinha uma observação ou duas, em sua última doença plena para o sentido da cláusula com a qual o texto conclui: Na tua justiça eles se exaltarão. “Seria uma infeliz morte, se não tivéssemos algo de cada forma adequado às exigências da lei, para fundamentar as nossas esperanças de vida eternal. Nós temos uma entrada abundante no Reino de Deus, pelo caminho da justiça de Cristo. O Diabo e a Lei podem nos encontrar; ainda assim não podem nos impedir de entrar no céu por aquela Justiça. Devemos estar certos de encontrar com o Diabo, com a consciência, com homens ímpios e com a Lei de Deus, em nosso caminho para o céu; e não podemos lidar com nenhum deles, senão através da justiça que foi toda satisfeita. Vamos trazer isso junto conosco, e todos eles fugirão diante desta. Se um pecador vem em sua própria justiça, “expulse-o”, diz Deus; assim diz a consciência, assim diz a Lei. Mas, quando alguém vem vestido com a Justiça de Cristo, “deixo-o entrar”, diz Deus; assim diz a consciência; assim diz a Lei; e deixe que o Diabo e o mundo digam o contrário, se ousarem”.

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Eu não deveria me atrever a olhar a morte de frente, se não fosse a garantia confortável que a fé me dá sobre a vida eterna em Cristo Jesus, e pelas emanações confortáveis e abundantes desta vida. Isto não é o que eu trago para Cristo, mas, o que eu recebo dEle. Os primórdios do que eu vejo saltando para a vida eterna. Algumas pessoas pensam em triunfarem elas mesmas como um todo, por sua própria justiça moral, mas este é o caminho pronto para morrer no horror da consciência. “Se você quer a manifestação do perdão de todos os pecados, leva-os para a livre graça; que tendo-os apagado, sabe dar-lhe uma percepção disto. O Evangelho de nossa salvação é um Evangelho da livre graça, e aqueles que gostariam de outra forma podem reunir o que puderem, e vão ostentando para as portas do céu; mas eles voltarão novamente”. E como foi com este grande homem de Deus apoiado pela justiça de Cristo, quando na visão imediata da morte? Aprenda o que esta justiça pode fazer por nós, pelo seguinte discurso memorável, que ele dirigiu a um dos seus visitantes: “Você está vindo para ouvir os meus últimos gemidos agonizantes, mas saiba, quando você os ouvir, que eles são a respiração mais doce eu jamais aspirei desde que eu conheci Cristo Jesus”. Ó bendito Filho de Deus, exalta-nos em Tua justiça, e retira de nós a nossa própria! Vós, que hoje me ouvem, oh, o que vós estais procurando? Serem encontrados e exaltados na obediência de Cristo? Ou herdarem perdição e condenação em sua própria? Deus vos capacite e leve-os a escolher a boa parte! Corte fora, tanto quanto o homem pode fazê-lo, todos os fundamentos de orgulho, incredulidade hipócrita, deixe-me concluir com duas ou três observações pertinentes. 1. Porque a notícia do Evangelho da salvação é chamada de “o som alegre”? Não, por tempo indeterminado, uma alegria, mas peculiarmente, e exclusivamente de todos os outros regimes que sejam, o som alegre? Porque ele é o veículo de fazer conhecido a nós que Deus é amor, e que Ele (no sangue e justiça de Cristo) abriu um canal para o Seu amor exercitar-se na salvação do indigno. Os perdidos são encontrados; os cegos veem; os surdos ouvem; os coxos andam; os leprosos são limpos; os mortos são vivificados, e tudo isso sem dinheiro e sem preço (Isaías 4:1). 2. Você tem alguma parte ou porção nesta bem-aventurança de que o texto fala? Alguma visão confortável, ou esperança de proveito na eleição de Deus, e na propiciação de Cristo, e na graça regeneradora do Espírito? Pedi, e isto (não é vendido a você pelos seus

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trabalhos e pelo seu cumprimento imaginário das pretendidas condições, mas um sentimento de interesse) vos será dado; procurai, somente pelo Nome e somente pela justiça por amor de Cristo, e achareis as misericórdias que desejam; batei, mas deixe que isto seja com a mão vazia, na porta da clemência divina, e esta vos será aberta. “Pedi, e dar-se-vosá; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á. Porque, aquele que pede, recebe; e, o que busca, encontra; e, ao que bate, abrir-se-lhe-á” (Mateus 7:7-8). Tão certo como Deus inclina você para Cristo, tão certamente Cristo, ao Seu tempo determinado, fará de você um participante da bem-aventurança dos que conhece o som alegre. 3. Você, que crê com o coração para justiça (Romanos 10:10) dê toda a glória; e ore para que você possa ter continuamente visões mais vivificantes desta justiça imputada, na qual Ele levou você a confiar. Como, por um lado, nada pode garantir e animar a sua alegria; tanto, por outro (para usar a expressão de um bom homem, agora com Deus), “Nada pode efetivamente matar o pecado, senão uma contemplação clara da justiça de Cristo”. Apeguese a essa âncora segura e firme, e você finalmente subirá mais elevado, tanto das ondas de aflição, e da lama de suas próprias concupiscências e corrupções. 4. Faça disto o seu objeto predominante de ambição, o caminhar na luz da face de Deus. Se você é bem-aventurado com o Seu sorriso, não importe-se mesmo que toda a criação possa franzir a testa. 5. Mas se você anda na luz ou escuridão, no conforto ou sofrimento, lembre-se que você não tem nada, senão o Nome, a Aliança, a Pessoa e a Obra de Cristo, em que alegrar-se e no que depender. Nós, diz o apóstolo, somos a circuncisão, nós que adoramos a Deus no Espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos na carne. 6. Saiba de onde toda a sua salvação espiritual e eterna surge. Não vem de vocês mesmos, em nenhum aspecto, nem em qualquer grau. A livre-agência, até ser santificada pela regeneração, é um dente quebrado, e um pé fora da articulação. E obras “feitas antes da graça de Cristo e da inspiração de seu Espírito são”, como a nossa igreja justamente os pronuncia ser, “pecaminosas e desagradáveis a Deus”. Não, mesmo as melhores obras que podem ser executadas após a conversão caem imensamente aquém do que a Lei de Deus requer, no ponto, tanto de matéria e de forma, de quantidade e qualidade, de número, extensão, pureza e peso. O que, então, seria de nós, se não fosse a justiça de Cristo? O próprio São Paulo, com todo o seu séquito incomparável de obras santas e trabalhos úteis, teria afundado, do próprio andaime do martírio, no inferno mais baixo. Bendita, portanto, seja a livre graça de Deus, por esta preciosa palavra de promessa infalível: Na Tua justiça o Teu povo se exaltará!

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7. O que é isto que fez, e para sempre continuará a fazer, a justiça de Cristo, tão infinitamente meritória e eficaz? A Divindade de Sua Pessoa. Todos os seres criados no universo, seja angélico ou humano, não caídos, caídos ou restaurados, nunca, por seus maiores esforços unidos, seriam capazes de fornecer e operar uma justiça de valor suficiente para reivindicar o favor de Deus sobre o fundamento da justiça e mérito, ou de apresentar qualquer uma das sementes escolhidas irrepreensível diante dos olhos flamejantes de infinita santidade. Tal poder pertence apenas à justiça do Deus-homem, Jeová encarnado. Nada além deste mérito todo-perfeito e eterno, o qual é o resultado complexo de Sua obediência e do Seu sacrifício, pode nos exaltar e resgatar para a dignidade e felicidade do céu. A Divindade de Cristo dificilmente pode receber a prova mais forte da Escritura do que aquela que nosso texto fornece. Pois o conjunto de dois versículos, que têm sido objeto de nossa meditação, nesta manhã, é um endereço solene ao Messias; não como Homem e Messias, mas, em Sua mais elevada capacidade, como Deus com Deus, ou como o eterno e unigênito do Pai. Vamos dar ao texto uma breve revisão, e nós imediatamente percebemos que não é nem mais nem menos do que uma aplicação devocional, explicitamente direcionada para a segunda Pessoa da Trindade: uma aplicação formada nos termos mais estritos de culto, até mesmo de adoração absoluta e devidamente Divina; e que não pode, sem a idolatria mais grosseira e condenável, ser oferecida a qualquer ser inferior ao próprio Deus. Bem-aventurado o povo que conhece o som alegre, por Ti; Eles andarão, ó Jeová, na luz da Tua face; em Teu nome se alegrarão todo o dia, e na Tua justiça se exaltarão. Agora, o que você pensaria do homem que ofereceria, tal discurso todo como este para o mais elevado arcanjo no céu? E o que foi Davi, se pudesse solene e deliberadamente escrever este discurso para uma inteligência criada; e fazer com que isto fosse cantado publicamente pelos levitas, e pelos principais cantores de Israel, e até mesmo deixá-lo no registro para a sedução da posteridade? E ao mesmo tempo, também, quando a nação judaica era particularmente cuidadosa para execrar e evitar tudo o que tinha a menor tendência à idolatria? Ou Cristo é verdadeiramente Deus, ou Davi foi o sacrílego adorador de alguém falso. Se, portanto, qualquer um de vocês for assediado pela astúcia dos homens que ficam à espreita para enganar; você deve encontrar com tais quem dizem que Cristo não é Jeová, ou verdadeiro e eterno Deus; lembre-se, se houvesse nenhuma outra passagem da Escritura, ainda assim estes dois versos, e seu contexto; irão, por si só, a qualquer momento, bastar para colocar em fuga o sofisma dos párias.

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Nós podemos nos exaltar na justiça de uma criatura? Será que Deus, o Pai aceitaria, e nos ordenaria confiar na expiação de um ser finito? Pela mesma regra, poderíamos (com os Papistas insolentes) confiar nos supostos méritos da Virgem Maria, ou de São alguém. E pela mesma regra, poderíamos descer um degrau mais baixo, e (com os ainda mais descarados Pelagianos) confiar em nossos supostos próprios méritos, e queimar incenso para o braço murcho do nosso próprio maldito livre-arbítrio. Em suma, não há fim para as impiedades horríveis, que fluem pelo atropelamento da Divindade e da justiça de Cristo sob os pés. Além disso, se Cristo não era Deus sobre todos, bendito para sempre, cada indivíduo da humanidade que confia no mérito do Messias entraria no circuito daquela tremenda maldição denunciada pelos lábios dAquele que é capaz de salvar e destruir. “Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor! Porque será como a tamargueira no deserto, e não verá quando vem o bem” (Jeremias 17:5, 6). A fé em Cristo seria o pecado mais condenável sob a cúpula do céu, e a Lei de Deus pronunciar-nos-ia amaldiçoados por confiar nEle, se Ele não fosse tão absolutamente Jeová como o Pai. E devo acrescentar que este impressionante texto conclui igualmente forte contra os Fariseus de todos os tipos e tamanhos que confiam tanto em anjos, ou em espíritos dos mortos, ou em seus próprios miseráveis “eus”, para qualquer parte da salvação, se pouco ou muito. Cristo somente deve ser crido para perdão, para a justificação, para a vida eterna e para toda a nossa segurança e felicidade, do começo ao fim. De onde isto é imediatamente adicionado, no capítulo acima de Jeremias: “Bendito o homem que confia no Senhor, e cuja confiança é o Senhor. Porque será [isto é, o homem que confia e espera em Jesus somente] como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro, e não receia quando vem o calor, mas a sua folha fica verde; e no ano de sequidão não se afadiga, nem deixa de dar fruto” [Jeremias 17:7-8]. Percebo os elementos que estão sobre os sacramentos! Mesa. E eu não duvido que muitos de vocês pretendem apresentar-se naquele trono da graça, que Deus misericordiosamente ergueu na justiça e sofrimentos de Seu Filho co-igual. Oh, cuidem de não vir com um sentimento em seus lábios e outro em seus corações! Acautelai-vos de dizer, com a boca: “Nós não viemos à esta mesa, ó misericordioso Senhor, confiando em nossa justiça própria”; embora talvez vocês tenham, na realidade, algumas reservas secretas em favor daquela mesma justiça própria que vocês professam renunciar; e pensem que o mérito de Cristo por si só não irá salvá-los, a menos que vocês adicionem uma coisa ou outra para torná-lo eficaz. Não sejam tão enganados; porque Deus não será assim, ridicularizado, nem Cristo, será assim insultado com impunidade. Chamem os seus labores que quiserem, se os termos, causas, condições ou suplementos; o assunto vem para o mesmo ponto, e Cristo é igualmente lançado fora do Seu trono mediador, por estes ou quaisquer outros pontos de

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vista semelhantes de obediência humana. Se vocês não dependerem inteiramente de Jesus como o Senhor a sua justiça (Jeremias 23:6); se vocês misturarem a sua fé nEle com qualquer outra coisa; se a obra consumada do Deus crucificado não for sozinha a sua âncora reconhecida e fundamento de aceitação junto do Pai, tanto aqui como para sempre; cheguem à sua mesa e recebam os símbolos de Seu corpo e sangue para o seu perigo! Deixem a sua justiça própria para atrás de vocês, ou vocês não têm parte ali. Vocês estão sem a veste nupcial; e Deus dirá a vocês: amigo, quão sinceramente você está aqui? Se vocês vão mais adiante, vivem e morrem neste estado de incredulidade, vocês serão encontrados sem palavras e indesculpáveis no Dia do Juízo; quando o Salvador desprezado dirá aos Seus anjos a vosso respeito: Amarrai-o de pés e mãos, levai-o, e lançai-o nas trevas exteriores [ali haverá pranto e ranger de dentes]. Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mateus 22:12, 14). Pelo contrário, vocês que podem realmente dizer: “nós não viemos a Ti, confiando em nossa própria justiça”, mas sentem e confessam ser, vocês mesmos: “indignos mesmo de recolher as migalhas sob tua mesa”; em Ti somente procuramos ser justificados, e em Ti somente (Isaías 14:25) nos gloriamos; deixe os tais “aproximarem-se com fé, e tomar este santo sacramento para seu consolo”. O Senhor lhes permita trazer seus pecados e seus deveres, e vocês e seu tudo, à grande Propiciação! Que Ele nos lave em Seu próprio sangue, vistanos com a Sua própria justiça, e sele-nos um povo santo para Si mesmo, pelo Seu Espírito! Então seremos convidados aceitáveis em Sua mesa abaixo; e amadureceremos rapidamente para a casa da glória acima; enquanto tudo isso for o nosso apelo e toda a nossa canção: “Senhor, eu não sou digno que entrar debaixo de tua morada, em que tu possas entrar na minha; mas (Apocalipse 5:12) o Cordeiro que foi morto é digno; e cada partícula da minha esperança centra-se nEle, em Sua Aliança, em Sua obediência, cruz, humilhação e exaltação. Por causa de Suas agonias, retire as minhas iniquidades. Por causa de Sua Justiça, receba-me graciosamente. E no manto de Seu mérito imputado, que eu possa (Filipenses 3:9) ser achado vivendo, estando antes morrendo, no tribunal do julgamento, e por toda a eternidade”.

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O Mito do Livre-Arbítrio Walter J. Chantry

A maioria das pessoas diz que acredita em “livre-arbítrio”. Você tem alguma ideia do que isso significa? Eu acredito que você encontrará uma grande quantidade de superstição sobre este assunto. A vontade é tida como o grande poder da alma humana que é completamente livre para dirigir as nossas vidas. Mas de que ela é livre? E qual é o seu poder?

O MITO DA LIBERDADE CIRCUNSTANCIAL Ninguém nega que o homem tem uma vontade, ou seja, a faculdade de escolher o que ele quer dizer, fazer e pensar. Mas você já refletiu sobre a fraqueza lamentável de sua vontade? Embora você tenha a capacidade de tomar uma decisão, você não tem o poder de levar a cabo o seu propósito. A vontade pode elaborar um plano de ação, mas não tem poder para executar sua intenção. Os irmãos de José o odiavam. Eles o venderam para ser um escravo. Mas Deus usou suas ações para fazer dele um governante sobre eles mesmos. Eles escolheram agir daquela maneira para prejudicar José. Mas Deus, em Seu poder, direcionou os eventos que aconteceram com José para o seu bem. Ele disse: “Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem” (Gênesis 50:20). E como muitas de suas decisões são miseravelmente frustradas? Você pode optar por ser um milionário, mas a providência de Deus provavelmente o impedirá. Você pode optar por ser um estudioso, mas problemas de saúde, um lar instável ou a falta de recursos financeiros podem frustrar a sua vontade. Você escolhe sair de férias, mas um acidente de automóvel pode mandá-lo para o hospital em vez disso. Ao dizer que sua vontade é livre, nós certamente não queremos dizer que ela determina o curso da sua vida. Você não escolheu a doença, a tristeza, a guerra e a pobreza que têm estragado a sua felicidade. Você não escolheu ter inimigos. Se a vontade do homem é tão potente, por que não escolhe viver para sempre? Antes, você deve morrer. Os principais fatores que moldam sua vida não se dão por causa de sua vontade. Você não escolheu seu status social, cor, inteligência e etc. Qualquer reflexão sóbria sobre a sua experiência produzirá a conclusão: “O coração do homem planeja o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos” (Provérbios 16:9). Ao

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invés de exaltar a vontade humana, deveríamos humildemente louvar ao Senhor cujos propósitos moldam nossas vidas. Como Jeremias confessou: “Eu sei, ó Senhor, que não é do homem o seu caminho; nem do homem que caminha o dirigir os seus passos” (Jeremias 10:23). Sim, você pode escolher o que você quer, e você pode planejar o que você fará. Mas sua vontade não é livre para realizar nada contrário aos propósitos de Deus. Nem você tem algum poder para alcançar seus objetivos, senão aqueles que Deus lhe permite. A próxima vez que você estiver tão encantado com a sua própria vontade, lembre-se da parábola de Jesus sobre o homem rico. O homem rico disse: “Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens... Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma” (Lucas 12:18-21). Ele era livre para planejar, mas não era livre para realizar; a mesma coisa acontece com você.

O MITO DA LIBERDADE ÉTICA Mas a liberdade da vontade é citada como um fator importante na tomada de decisões morais. A vontade do homem é dita ser livre para escolher entre o bem e o mal. Mas devemos perguntar novamente, a partir do que ela é livre? E o que a vontade do homem é livre para escolher? A vontade do homem é o seu poder de escolha entre alternativas. Sua vontade decide suas ações a partir de uma série de opções. Você tem a faculdade de dirigir seus próprios pensamentos, palavras e ações. Suas decisões não são formadas por uma força externa, mas por uma força que está dentro de você mesmo. Nenhum homem é compelido a agir contra a sua vontade, nem forçado a dizer o que ele não deseja. Sua vontade guia suas ações. No entanto, isso não significa que o poder de decidir está livre de qualquer influência. Você faz escolhas com base no seu entendimento, seus sentimentos, seus gostos e desgostos e seus apetites. Em outras palavras, sua vontade não é livre de você mesmo! Suas escolhas são determinadas por seu próprio caráter básico. A sua vontade não é independente de sua natureza, antes é escrava dela. Suas escolhas não moldam o seu caráter, mas o seu caráter é que orienta as suas escolhas. A vontade é bastante parcial para o que você sabe, sente, ama e deseja. Você sempre escolhe com base em sua disposição, de acordo com a condição do seu coração. É apenas por esta razão que a sua vontade não é livre para fazer o bem. Sua vontade é escrava do seu coração, e seu coração é mau. “E viu o Senhor que a maldade do homem

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se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente” (Gênesis 6:5). “Não há quem faça o bem, não há nem um só” (Romanos 3:12). Nenhum poder força o homem a pecar contra a sua vontade, antes os descendentes de Adão são tão maus que sempre escolhem o mal. Suas decisões são moldadas pelo seu entendimento, e a Bíblia diz o seguinte a respeito de todos os homens: “o seu coração insensato se obscureceu” (Romanos 1:21). O homem só pode ser justo quando ele deseja ter comunhão com Deus, mas, “não há ninguém que busque a Deus” (Romanos 3:11). Seus apetites anseiam o pecado, e assim você não pode escolher o bem. Pois escolher o bem é contrário à natureza humana. Se você escolhe obedecer a Deus, isto é o resultado de uma compulsão externa. Mas você é livre para escolher, e, portanto, sua escolha está escravizada à sua própria natureza maligna. Se carne fresca e uma salada mista fossem colocados diante de um leão faminto, ele escolheria a carne. Isto porque sua natureza dita a sua escolha. É exatamente assim com o homem. A vontade do homem é livre de força exterior, mas não da inclinação da natureza humana. Essa inclinação é contrária a Deus. Os poderes de decisão do homem são livres para escolher o que o coração humano dita; portanto, não há possibilidade de um homem escolher agradar a Deus sem uma obra prévia da graça Divina. O que a maioria das pessoas entende por livre-arbítrio é a ideia de que o homem é, por natureza, neutro e, portanto, capaz de escolher o bem ou o mal. Isso simplesmente não é verdade. A vontade humana e de toda a natureza humana é inclinada para o mal continuamente. Jeremias perguntou: “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” (Jeremias 13:23). É impossível. É contrário à natureza. Assim os homens precisam desesperadamente da transformação sobrenatural de suas naturezas, do contrário as suas vontades são escravizadas para escolher o mal. Apesar do grande louvor que é dado ao “livre-arbítrio”, vimos que a vontade do homem não é livre para escolher agir de forma contrária aos propósitos de Deus, nem livre para agir contra a sua própria natureza moral. Sua vontade não determina os acontecimentos de sua vida, nem as circunstâncias da mesma. Escolhas éticas não são formadas por uma mente neutra, mas sempre ditadas pela sua personalidade.

O MITO DA LIBERDADE ESPIRITUAL No entanto muitos afirmam que a vontade humana faz a escolha final da vida espiritual ou morte espiritual. Aqui a vontade é totalmente livre para escolher a vida eterna oferecida em

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Jesus Cristo ou rejeitá-la. Diz-se que Deus dará um novo coração a todos que escolherem receber a Jesus Cristo pelo poder de seu próprio livre-arbítrio. Não pode haver dúvida de que receber Jesus Cristo é um ato da vontade humana. É muitas vezes chamado de “fé”. Mas como os homens vêm a receber o Senhor de boa vontade? É geralmente respondido: “a partir do poder de seu próprio livre-arbítrio”. Mas como pode ser isso? Jesus é um profeta. Recebê-lO significa crer em tudo o que Ele diz. Em João 8:41-45 Jesus deixou claro que você nasceu de Satanás. Este pai maligno odeia a verdade e transmitiu a mesma inclinação ao seu coração por natureza. Assim disse Jesus: “Mas, porque vos digo a verdade, não me credes” [João 8:45]. Como a vontade humana salta da escolha do homem para crer no que a mente humana odeia e rejeita? Receber a Jesus também significa abraçá-lO como um sacerdote, ou seja, confiar e depender dEle para pleitear a paz com Deus por meio de Seus sacrifícios e intercessão. Paulo nos diz que a mente com a qual nascemos é hostil a Deus (Romanos 8:7). Como poderei escapar da influência da natureza humana, que nasce com uma violenta inimizade para com Deus? Seria insano para a vontade escolher a paz quando cada osso e gota de sangue clamam por rebelião. Outrossim, receber a Jesus significa recebê-lO como um rei. Isso significa escolher obedecer Seus comandos, confessar o Seu direito de governar e adorar diante do Seu trono. Mas a mente humana, as emoções e os desejos todos clamam: “Não queremos que este reine sobre nós” (Lucas 19:14). Se todo o meu ser odeia a Sua verdade, odeia o Seu governo e odeia a paz com Deus, como minha vontade pode ser responsável por receber a Jesus? Como pode um pecador ter fé? Não é a vontade do homem, mas é por causa da graça de Deus que um pecador alcança um novo coração. A menos que Deus mude o coração, crie um novo espírito de paz, verdade e submissão, o homem não optará por receber a Jesus Cristo e a vida eterna nEle. Um novo coração deve ser dado antes que um homem venha a crer, ou então a vontade humana está irremediavelmente escravizada à maligna natureza humana, mesmo no que diz respeito à conversão. Jesus disse: “Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo” (João 3:7). A menos que você nasça de novo, você jamais verá o Seu reino. Leia João 1:12 e 13. Ali é dito que aqueles que creem em Jesus têm “nascido, não da vontade do homem, mas de Deus”. Assim como sua vontade não é responsável pela sua própria

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vinda a este mundo, assim também não é responsável pelo novo nascimento. É o Seu Criador, que deve ser agradecido por sua vida, e se alguém está em Cristo, é uma nova criatura (2 Coríntios 5:17). Quem já escolheu ser criado? Quando Lázaro ressuscitou dos mortos, ele escolheu atender à chamada de Cristo, mas ele não escolheu ressuscitar. Então Paulo disse em Efésios 2:4-5: “Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)”. A fé é o primeiro ato de uma vontade renovada pelo Espírito Santo. Receber a Cristo é um ato do homem, assim como a respiração o é, no entanto Deus deve primeiramente dar-lhe a vida. Não admira que Martinho Lutero escreveu um livro intitulado “A Escravidão da Vontade”, que ele considerava um de seus mais importantes tratados. A vontade está presa nas cadeias da maligna natureza humana. Vocês, que exaltam o livre-arbítrio como uma grande força estão se agarrando a uma raiz de orgulho. O homem, como caído no pecado, está totalmente desamparado e sem esperança. A vontade do homem não oferece nenhuma esperança. Foi a vontade de escolher o fruto proibido que nos trouxe à miséria. A poderosa graça de Deus oferece libertação. Lance-se à misericórdia de Deus para a salvação. Peça ao Espírito da graça para criar um espírito novo dentro de você.

SOBRE O AUTOR: Walter J. Chantry nasceu em 1938 em Norristown, Pensilvânia, foi criado na Igreja Presbiteriana e foi convertido a Cristo quando ainda era um adolescente. Graduou-se em História, no Dickinson College, Carlisle, em 1960, e obteve um B. D. [Bacharel em Divindade/Teologia] do Seminário Teológico de Westminster, em 1963. Neste mesmo ano, ele foi chamado para ser pastor da Igreja Batista da Graça, em Carlisle, Pensilvânia, onde ele serviu ao Senhor pelos próximos 39 anos. Ele é casado e tem três filhos. Logo após sua aposentadoria, em 2002, ele foi convidado para ser o editor da revista The Banner of Truth e continuou neste ministério por sete anos. Walter e sua esposa Joie residem agora em Waukesha, Wisconsin, EUA. (Fontes: Reformedreader.org • BannerOfTruth.org)

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Objeções à Soberania de Deus Respondidas Por A. W. Pink

Uma das crenças mais populares de hoje é que Deus ama a todos, e o próprio fato de que isso é tão popular entre todas as classes deve ser o suficiente para despertar as suspeitas daqueles que são sujeitos à Palavra da verdade. O amor de Deus por todas as Suas criaturas é o princípio fundamental e favorito dos Universalistas, Unitarianos, Teosofistas, Cientistas Cristãos, Espíritas, Russellitas e etc. Não importa como um homem possa viver em desafio aberto ao Céu, sem nenhuma preocupação com os interesses eternos de sua alma, e menos ainda para a glória de Deus, morrendo, talvez com uma blasfêmia nos lábios — não obstante, somos informados que Deus o ama. Tão amplamente este dogma tem sido proclamado, e é tão reconfortante para o coração que está em inimizade contra Deus que temos pouca esperança de convencer muitos de seus erros. Que Deus ama a todos é, podemos dizer, uma crença bastante moderna. Os escritos dos pais da Igreja, dos Reformadores ou dos Puritanos serão (nós acreditamos) procurados em vão por qualquer conceito como este. Talvez o recente D. L. Moody cativado por “A Melhor Coisa do Mundo”, de Drummond, mais do que qualquer outra pessoa no século passado, popularizou esse conceito. Tem-se habitualmente dito que Deus ama o pecador, embora Ele odeie o seu pecado. Mas essa é uma distinção sem sentido. O que há em um pecador, senão o pecado? Não é verdade que “toda a cabeça está enferma e todo o coração fraco. Desde a planta do pé até a cabeça não há nele coisa sã”? (Isaías 1:5-6). É verdade que Deus ama a pessoa que está desprezando e rejeitando o Seu Filho bendito? Deus é luz, bem como amor, e, portanto, Seu amor deve ser um amor santo. Dizer a quem rejeita a Cristo que Deus o ama é cauterizar a sua consciência, bem como fornecer-lhe uma sensação de segurança em seus pecados. O fato é: o amor de Deus é uma verdade apenas para os santos, e apresentá-lo para os inimigos de Deus é tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos. Com a exceção de João 3:16, nenhuma vez lemos nos quatro Evangelhos sobre o Senhor Jesus, o Mestre perfeito, dizendo aos pecadores que Deus os ama! No livro de Atos, que registra os trabalhos evangelísticos e mensagens dos apóstolos, o amor de Deus nunca é referente a todos! Mas quando chegamos às Epístolas, que são dirigidas aos santos, temos uma apresentação completa desta preciosa verdade: o amor de Deus é para os Seus. Busquemos manejar bem a Palavra de Deus e, então, não seremos achados tomando as verdades que são dirigidas aos crentes e as aplicando mal para os incrédulos. O que os pecadores precisam que seja trazido diante deles é a inefável santidade, a exigente retidão, a inflexível justiça e a terrível ira de Deus. Arriscando o perigo de que sejamos mal interpretados, permita-nos dizer, e nós gostaríamos de dizer isso a cada evangelista e pregador

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no país: há demasiada apresentação de Cristo aos pecadores atualmente (por aqueles que são saudáveis na fé), e pouquíssima demonstração aos pecadores de sua necessidade de Cristo, ou seja, a sua condição absolutamente arruinada e perdida; o perigo iminente e terrível de sofrer a ira vindoura; a temível culpa pendente sobre eles, aos olhos de Deus; apresentar Cristo a quem nunca foi demonstrado a sua necessidade dEle, parece-nos ser culpável de lançar pérolas aos porcos. Se é verdade que Deus ama a todos os membros da família humana, então por que nosso Senhor disse aos discípulos: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai”, “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará” (João 14:21, 23). Por que dizer: “Aquele que me ama será amado de meu Pai?” se o Pai ama a todos? A mesma delimitação é encontrada em Provérbios 8:17: “Eu amo aos que me amam”. Mais uma vez, lemos: “odeias a todos os que praticam a maldade” — não apenas as obras de maldade. Aqui, então, está um preciso repúdio do ensino atual que Deus odeia o pecado, mas ama o pecador, a Escritura diz: “odeias a todos os que praticam a maldade” (Salmos 5:5)! Deus está irado com o ímpio todos os dias (Salmos 7:11). “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas”, não “permanecerá”, mas mesmo agora, “a ira de Deus sobre ele permanece” (João 3:36). Pode Deus “amar” alguém sobre quem a Sua “ira” permanece? Mais uma vez, não é evidente que as palavras: “amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 8:39), assinalam uma limitação, tanto na abrangência e objetos de Seu amor? Novamente, não é claro a partir das palavras: “Amei a Jacó, e odiei a Esaú” (Romanos 9:13), que Deus não ama a todos? Mais uma vez, está escrito: “Porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho” (Hebreus 12:6). Esse versículo não ensina que o amor de Deus é restrito aos membros de Sua própria família? Se Ele ama a todos os homens, sem exceção, então, a distinção e limitação aqui mencionadas são completamente sem sentido. Finalmente, nós gostaríamos de perguntar, é concebível que Deus amará os condenados ao Lago de Fogo? Ainda assim, se Ele os ama agora, Ele os amará depois, sendo que o Seu amor não conhece mudança. NEle “não há mudança nem sombra de variação”! Passando agora para João 3:16, deveria ser evidente a partir das passagens que acabamos de citar que este versículo não carrega a interpretação que é geralmente colocada sobre ele. “Porque Deus amou o mundo”; muitos supõem que isso significa toda a raça humana. Mas “toda a raça humana” inclui toda a humanidade desde Adão até o fim da história terrena: isto abrange o passado e o que está adiante! Considerem, então, a história da humanidade antes de Cristo nascer. Incontáveis milhões viveram e morreram antes do Salvador

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vir até a terra, viveram aqui “não tendo esperança, e sem Deus no mundo”, e, portanto, adentraram em uma eternidade de aflição. Se Deus os “amou”, onde há a menor prova disso? A Escritura declara: “O qual [Deus] nos tempos passados [da torre de Babel até depois de Pentecostes] deixou andar todas as nações em seus próprios caminhos” (Atos 14:16). A Escritura declara: “E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm” (Romanos 1:28). Para Israel, Deus disse: “De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido” (Amós 3:2). Considerando estas claras passagens, quem será tão tolo a ponto de insistir que Deus, no passado, amou toda a humanidade! O mesmo se aplica com igual força ao futuro. Leiam o livro de Apocalipse, observando especialmente os capítulos de 8 a 19, onde temos a descrição dos julgamentos que serão derramados do Céu sobre a terra. Leiam sobre as desgraças temíveis, as pragas terríveis, os cálices da ira de Deus que serão esvaziados sobre os ímpios. Por fim, leiam o vigésimo capítulo de Apocalipse, o julgamento do grande trono branco, e vejam se podem descobrir ali o mínimo vestígio deste amor. Mas o objetor volta para João 3:16 e diz: “Mundo significa mundo”. É verdade, mas nós mostramos que “o mundo” não significa toda a família humana. O fato é que “o mundo” é usado de uma forma geral. Quando os irmãos de Cristo disseram “manifesta-te ao mundo” (João 7:4), eles quiseram dizer “manifesta-te a toda a humanidade”? Quando os fariseus disseram “Eis aí vai o mundo após ele” (João 12:19, ARA), eles quiseram dizer que “toda a família humana” estava reunida após ele? Quando o apóstolo escreveu: “em todo o mundo é anunciada a vossa fé” (Romanos 1:8), ele quis dizer que a fé dos santos em Roma, foi o tema da conversação de cada homem, mulher e criança na Terra? Quando Apocalipse 13:3 nos informa que “toda a terra se maravilhou após a besta”, nós devemos entender que não haverá exceções? Estas e outras passagens que poderiam ser citadas mostram que o termo “o mundo” frequentemente tem uma força relativa, em vez de absoluta. Agora, a primeira coisa a observar em conexão com João 3:16, é que o nosso Senhor estava ali falando com Nicodemos, um homem que acreditava que as misericórdias de Deus estavam limitadas à sua própria nação. Cristo ali anunciou que o amor de Deus em dar Seu Filho tinha um objeto maior em vista, de forma que fluiu para além da fronteira da Palestina, chegando a “regiões além”. Em outras palavras, este foi o anúncio de Cristo: que Deus tinha um propósito de graça tanto gentios quanto para judeus. “Porque Deus amou o mundo”, então, significa que o amor de Deus é internacional em seu escopo. Mas isso significa que Deus ama cada indivíduo entre os gentios? Não necessariamente, pois, como vimos, o termo “mundo” é o geral em vez de específico, relativo em vez de absoluto. O termo “mundo” em si não é conclusivo. Para verificar quem são os objetos do amor de Deus, outras passagens em que o Seu amor é mencionado devem ser consultadas.

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Em 2 Pedro 2:5 lemos sobre “o mundo dos ímpios”. Assim, se há um mundo dos ímpios, deve haver também um mundo dos piedosos. É este último que está em vista nas passagens que consideraremos agora, brevemente. “Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo” (João 6:33). Agora, observem bem isso, Cristo não disse, “oferece vida ao mundo”, mas “dá”. Qual é a diferença entre os dois termos? Esta: uma coisa que é “oferecida” pode ser recusada, mas uma coisa “dada” implica, necessariamente, em sua aceitação. Se Ele não é aceito, não é “dado”, é simplesmente oferecido. Aqui, então, é uma Escritura que afirma positivamente que Cristo dá vida (espiritual, a vida eterna) “para o mundo”. Agora, Ele não dá a vida eterna ao “mundo dos ímpios”, pois eles não a terão, eles não a querem. Por isso, somos obrigados a compreender a referência em João 6:33 como sendo para “o mundo dos piedosos”, a saber, o próprio povo de Deus. Mais uma: Em 2 Coríntios 5:19, lemos: “Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo”. O que se entende por isso é claramente definido nas palavras imediatamente seguintes: “não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação”. Aqui, novamente, “o mundo” não pode significar “o mundo dos ímpios”, pois seus “pecados” são “imputados” a eles, como o julgamento do grande trono branco ainda mostrará. Mas, 2 Coríntios 5:19 ensina claramente que há um “mundo” que é “reconciliado”, reconciliado com Deus porque os seus pecados não são imputados em sua conta, tendo sido suportados pelo seu Substituto. Quem, então, são eles? Apenas uma resposta é razoavelmente possível: o mundo do povo de Deus! De forma semelhante, o “mundo” em João 3:16 deve, em última análise, referir-se ao mundo do povo de Deus. Deve, dizemos, pois não há outra solução alternativa. Isto não pode significar toda a raça humana, pois uma parte da raça já estava no inferno, quando Cristo veio à terra. É incorreto insistir que isto significa todo o ser humano vivendo agora, pois toda outra passagem no Novo Testamento, onde o amor de Deus é mencionado, o limita ao Seu próprio povo; examinem e vejam! Os objetos do amor de Deus em João 3:16 são precisamente os mesmos objetos do amor de Cristo em João 13:1: “Ora, antes da festa da páscoa, sabendo Jesus que já era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim”. Nós podemos admitir que a nossa interpretação de João 3:16 não é um romance inventado por nós, mas uma interpretação quase uniformemente feita pelo Reformadores e Puritanos, e muitos outros desde então. É estranho, mas é verdade, que muitos que reconhecem o governo soberano de Deus sobre as coisas materiais contestarão e tergiversarão quando insistimos que Deus também é soberano no reino espiritual. Mas a contenda é com Deus e não conosco. Nós oferecemos a Escritura em apoio a tudo que foi desenvolvido nestas páginas, e se isso não satisfará os

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nossos leitores, é ocioso para nós que busquemos convencê-los. O que escrevemos agora é designado para aqueles que se curvam à autoridade da Sagrada Escritura, e para o benefício destes, nos propomos a examinar várias outras porções da Escritura que foram propositalmente mantidas para este capítulo. Talvez a única passagem que tem apresentado a maior dificuldade para aqueles que viram que passagem após passagem a Sagrada Escritura ensina claramente a eleição de um número limitado para a salvação, é 2 Pedro 3:9: “não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se”. A primeira coisa a ser dita sobre a passagem acima é que, como toda Escritura, deve ser entendida e interpretada à luz de seu contexto. O que citamos no parágrafo anterior é apenas uma parte do versículo, e a última parte dele! Certamente deve ser consentido por todos que a primeira metade do versículo precisa ser levada em consideração. A fim de estabelecer o que essas palavras são presumidas significar por muitos, a saber, que as palavras “alguns” e “todos” devem ser aceitas sem qualquer qualificação, deve ser mostrado que o contexto está se referindo a toda a raça humana! Se isso não puder ser mostrado, se não houver uma premissa para justificar isso, então a conclusão também deve ser injustificada. Vamos, então, refletir sobre a primeira parte do versículo. “O Senhor não retarda a sua promessa”. Observem, “promessa”, no singular, e não “promessas”. Que promessa está em vista? A promessa de salvação? Onde, em toda a Escritura, Deus alguma vez prometeu salvar toda a raça humana? Onde, de fato? Não, a “promessa” aqui referida, não é sobre salvação. Sobre o que é então? O contexto nos diz. “Sabendo primeiro isto, que nos últimos dias virão escarnecedores, andando segundo as suas próprias concupiscências, E dizendo: Onde está a promessa da sua vinda?” (vv. 3-4). O contexto, então, refere-se à promessa de Deus de enviar de volta o Seu Filho amado. Porém, muitos séculos se passaram e essa promessa ainda não foi cumprida. É verdade, todavia, longa como a demora pode parecer para nós, o intervalo é curto na consideração de Deus. Como prova disso, somos lembrados: “Mas, amados, não ignoreis uma coisa, que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia” (v. 8). Em consideração ao tempo de Deus, menos de dois dias já se passaram desde que Ele prometeu enviar de volta a Cristo. Ainda mais, o atraso do Pai no envio de volta de Seu Filho amado não é devido a nenhuma “negligência” de Sua parte, mas é também ocasionada por Sua “longanimidade”. Sua longanimidade em relação a quem? O versículo que estamos considerando agora nos diz: “mas é longânimo para conosco”. E quem é o “conosco”? A raça humana, ou o próprio povo

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de Deus? À luz do contexto, esta não é uma questão em aberto sobre a qual cada um de nós é livre para formar uma opinião. O Espírito Santo a definiu. O versículo de introdução do capítulo diz: “Amados, escrevo-vos agora esta segunda carta”. E, novamente, o versículo imediatamente anterior declara: “Mas, amados, não ignoreis uma coisa” (v. 8). O “conosco”, então, são os “amados” de Deus. Aqueles a quem a sua epístola é dirigida são os que “alcançaram fé [não “exerceram”, mas “alcançaram” como um dom da soberania de Deus] igualmente preciosa pela justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo” (2 Pedro 1:1). Portanto, dizemos que não há espaço para uma dúvida, um trocadilho ou um argumento: o “conosco” são os eleitos de Deus. Citaremos agora o verso como um todo: “O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se”. Poderia algo ser mais claro? Os “alguns” a quem Deus não quer que pereçam são os “conosco” por quem Deus é “longânimo”, os “amados” dos versículos anteriores. 2 Pedro 3:9 significa, então, que Deus não enviará de volta o Seu filho, “até que a plenitude dos gentios haja entrado” (Romanos 11:25). Deus não enviará de volta a Cristo até que aquele “povo” a quem Ele está agora “tomando dentre os gentios” (Atos 15:14) seja reunido. Deus não enviará de volta o Seu Filho até que o corpo de Cristo esteja completo e isto não ocorrerá até que aqueles a quem Ele elegeu para serem salvos nesta dispensação sejam trazidos a Ele. Agradeço a Deus por Sua “longanimidade” para “conosco”. Se Cristo tivesse voltado há 20 anos, o escritor havia sido deixado para trás a perecer em seus pecados. Mas isso não poderia ocorrer, de modo que Deus graciosamente atrasou a Segunda Vinda. Pela mesma razão, Ele ainda está atrasando Seu advento. Seu propósito e decreto é que todos os Seus eleitos venham a arrepender-se, e arrepender-se eles irão. O presente intervalo de graça não findará até que a última das “outras ovelhas” de João 10:16 seja seguramente agregada, então Cristo voltará. Ao expor a soberania de Deus o Espírito na salvação, nós expusemos que o Seu poder é irresistível, que, por meio de Suas operações graciosas sobre eles e neles, Ele “compele” os eleitos a virem a Cristo. A soberania do Espírito Santo é apresentada não apenas em João 3:8, onde nos é dito: “O vento assopra onde quer (Lhe agrada) [...] assim é todo aquele que é nascido do Espírito”, mas é também afirmada em outras passagens. Em 1 Coríntios 12:11 lemos: “Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer”. E, novamente, lemos em Atos 16:6-7: “E, passando pela Frígia e pela província da Galácia, foram impedidos pelo Espírito Santo de anunciar a palavra na Ásia. E, quando chegaram a Mísia, intentavam ir para Bitínia, mas o Espírito não lho permitiu”. Assim, vemos como o Espírito Santo interpôs Sua vontade imperial, em oposição à determinação dos apóstolos.

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Mas, é objetado contra a afirmação que a vontade e poder do Espírito Santo são irresistíveis, que há duas passagens, uma no Antigo Testamento e outra no Novo, que parecem militar contra tal conclusão. Deus disse no passado: “Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem” (Gênesis 6:3); e aos judeus, Estevão declarou: “Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais. A qual dos profetas não perseguiram vossos pais? (Atos 7:5152). Se, então, os judeus “resistiram” ao Espírito Santo, como podemos dizer que o Seu poder é irresistível? A resposta é encontrada em Neemias 9:30: “Porém estendeste a tua benignidade sobre eles por muitos anos, e testificaste contra eles pelo teu Espírito, pelo ministério dos teus profetas; porém eles não deram ouvidos”. Foram às operações externas do Espírito que Israel “resistiu”. Foi ao Espírito falando por e através dos profetas a que eles “não deram ouvidos”. Não foi a nada que o Espírito Santo operou neles a que “resistiram”, mas aos motivos que lhes foram apresentados pelas mensagens inspiradas dos profetas. Talvez, ajudará o leitor a compreender melhor o nosso pensamento, se compararmos Mateus 11:20-24: “Então começou ele a lançar em rosto às cidades onde se operou a maior parte dos seus prodígios o não se haverem arrependido, dizendo: Ai de ti, Corazim!...”. Nosso Senhor aqui pronuncia um ai sobre estas cidades pela sua incapacidade de se arrepender por causa dos “grandes prodígios” que Ele havia operado à sua vista, e não por causa de qualquer operação interna de Sua graça! O mesmo é verdade sobre Gênesis 6:3. Pela comparação com 1 Pedro 3:18-20, será visto que foi por e através de Noé que o Espírito de Deus “contendeu” com os antediluvianos. A distinção observada acima foi hábilmente assim resumida por Andrew Fuller (outro escritor falecido há muito, de quem nossos modernos poderiam aprender bastante): “Há dois tipos de influência pelas quais Deus opera nas mentes dos homens. Em primeiro lugar, a que é comum, e que é efetuada pelo uso normal dos motivos apresentados à mente, para apreciação; em segundo lugar, a que é especial e sobrenatural. A primeira não contém nada de misterioso, mais do que a influência de nossas palavras e ações sobre o outro; a outra é um mistério da qual não conhecemos nada, senão por seus efeitos. A primeira pode ser eficaz; a última assim o é”. A obra do Espírito Santo sobre ou em direção aos homens é sempre “resistida” por eles; Sua obra interior é sempre bem sucedida. O que dizem as Escrituras? Isto: “Aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará” (Filipenses 1:6). A próxima questão a ser considerada é: Por que pregar o Evangelho a toda criatura? Se Deus Pai predestinou apenas um número limitado para ser salvo, se Deus o Filho morreu para efetuar a salvação de apenas aqueles dados a Ele pelo Pai, e se Deus o Espírito não está buscando vivificar a ninguém, exceto os eleitos de Deus, então qual é a utilidade de

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anunciar o Evangelho amplamente, e onde está a razão de dizer aos pecadores: “Todo aquele que crer em Cristo não perecerá, mas terá a vida eterna”? Em primeiro lugar, é de grande importância que devemos ser claros sobre a natureza do próprio Evangelho. O Evangelho são as boas novas de Deus a respeito de Cristo e não a respeito dos pecadores: “Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o Evangelho de Deus... acerca de seu Filho... Jesus Cristo, nosso Senhor” [Romanos: 11-3-4]. Deus teria proclamado em toda parte e amplamente o fato surpreendente de que o Seu próprio filho bendito foi “obediente até à morte, e morte de cruz” [Filipenses 2:8]. Um testemunho universal deve ser trazido pelo valor incomparável da Pessoa e Obra de Cristo. Observem a palavra “testemunho” em Mateus 24:14. O Evangelho é o “testemunho” de Deus sobre as perfeições de Seu Filho. Observem as palavras do apóstolo: “Porque para Deus somos o bom perfume de Cristo, nos que se salvam e nos que se perdem” (2 Coríntios 2:15)! Em relação ao caráter e conteúdo do Evangelho, a mais extrema confusão prevalece hoje. O Evangelho não é uma “oferta”, a ser atirada ao redor pelos mascates evangélicos. O Evangelho não é um mero convite, mas uma proclamação a respeito de Cristo; verdadeira quer os homens acreditem ou não. Nenhum homem é convidado a crer que Cristo morreu por ele em particular. O Evangelho, em resumo, é isto: Cristo morreu pelos pecadores, você é um pecador, creia em Cristo, e você será salvo. No Evangelho, Deus simplesmente anuncia os termos pelos quais os homens podem ser salvos (ou seja, arrependimento e fé) e, de forma indiscriminada, todos são ordenados a cumpri-los. Em segundo lugar, o arrependimento e a remissão dos pecados devem ser pregados em o nome do Senhor Jesus “a todas as nações” (Lucas 24:47), pois os eleitos de Deus estão “dispersos” (João 11:52) entre todas as nações, e é pela pregação e ouvir do Evangelho que eles são chamados para fora do mundo. O Evangelho é o meio que Deus usa na salvação de Seus próprios escolhidos. Por natureza, os eleitos de Deus são filhos da ira “como os outros homens também”, eles são pecadores perdidos que necessitam de um Salvador, e à parte de Cristo não há solução para eles. Assim, o Evangelho deve ser crido por eles antes que eles possam regozijar-se no conhecimento dos pecados perdoados. O Evangelho é o joeirar de Deus: ele separa o joio do trigo, e reúne este último ao Seu celeiro. Em terceiro lugar, deve ser notado que Deus tem outros fins na pregação do Evangelho além da salvação de Seus escolhidos. O mundo existe por amor dos eleitos, e ainda assim, outros têm o benefício dele. Assim, a Palavra é pregada por causa dos eleitos, contudo, outros têm o benefício de uma chamada exterior. O sol brilha embora os cegos não o vejam. A chuva cai sobre montanhas rochosas e desertos dispersos, bem como sobre os vales

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fecundos; assim também, Deus faz com que o Evangelho caia nos ouvidos dos não-eleitos. O poder do Evangelho é uma das agências de Deus para refrear a impiedade do mundo. Muitos que nunca foram salvos por ele são reformados, suas concupiscências são freadas, e eles são impedidos de se tornarem piores. Além disso, a pregação do Evangelho aos não-eleitos é feita uma prova admirável de seus caráteres. Ela exibe a obstinação de seu pecado; demonstra que o seu coração está em inimizade contra Deus; justifica a declaração de Cristo de que “os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más” (João 3:19). Finalmente, é suficiente que nós saibamos que somos ordenados a pregar o Evangelho a toda criatura. Não devemos argumentar sobre a consistência entre isto e o fato de que “poucos são escolhidos”. Devemos obedecer. É uma questão simplória o fazer perguntas relacionadas aos caminhos de Deus, que nenhuma mente finita pode sondar plenamente. Nós, também, podemos voltar e recordar ao objetor o que nosso Senhor declarou: “Na verdade vos digo que todos os pecados serão perdoados aos filhos dos homens, e toda a sorte de blasfêmias, com que blasfemarem; qualquer, porém, que blasfemar contra o Espírito Santo, nunca obterá perdão, mas será réu do eterno juízo” (Marcos 3:28-29), e não pode haver qualquer dúvida de que alguns dos judeus eram culpados deste mesmo pecado (ver Mateus 12:24, e etc.) e, portanto, a sua destruição era inevitável. No entanto, não obstante, menos de dois meses depois, Ele ordenou aos Seus discípulos a pregar o Evangelho a toda criatura. Quando o opositor conseguir nos mostrar a consistência dessas duas coisas — o fato de que alguns dos judeus haviam cometido o pecado imperdoável, e o fato de que o Evangelho devia ser pregado para eles — nós nos comprometemos a fornecer uma solução mais satisfatória do que a acima indicada para a harmonia entre a proclamação universal do Evangelho e uma delimitação do Seu poder salvífico somente para aqueles que Deus predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho. Mais uma vez, podemos dizer, não devemos discutir sobre o Evangelho; o nosso empreendimento é pregá-lo. Quando Deus ordenou a Abraão que oferecesse seu filho em holocausto, ele poderia ter objetado que esta ordem era inconsistente com a Sua promessa: “Em Isaque será chamada a tua descendência”. Mas em vez de argumentar ele obedeceu, e deixou que Deus harmonizasse Sua promessa e Seu preceito. Jeremias poderia ter argumentado que Deus lhe pedira para fazer o que era totalmente irracional, quando disse: “Dirlhes-ás, pois, todas estas palavras, mas não te darão ouvidos; chamá-los-ás, mas não te responderão” (Jeremias 7:27), mas em vez disso, o profeta obedeceu. Ezequiel, também, poderia ter se se queixado de que o Senhor estava lhe pedindo para fazer uma coisa difícil, quando Ele disse: “E disse-me ainda: Filho do homem, vai, entra na casa de Israel, e dizelhe as minhas palavras. Porque tu não és enviado a um povo de estranha fala, nem de língua difícil, mas à casa de Israel; nem a muitos povos de estranha fala, e de língua difícil,

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cujas palavras não possas entender; se eu aos tais te enviara, certamente te dariam ouvidos. Mas a casa de Israel não te quererá dar ouvidos, porque não me querem dar ouvidos a mim; pois toda a casa de Israel é de fronte obstinada e dura de coração” (Ezequiel 3:4-7). “Mas, ó minha alma, se a verdade tão resplandecente Ofuscasse e confundisse teus olhos, No entanto, ainda obedeça a Sua Palavra escrita, E espere o grandioso dia decisivo.” — Watts Isto foi bem dito: “O Evangelho não perdeu nada de seu antigo poder. Ele é, tanto hoje como quando foi pregado primeiramente, ‘o poder de Deus para a salvação’. Ele não precisa de compaixão, nem da ajuda de nenhum servo. Ele pode superar todos os obstáculos, e quebrar todas as barreiras. Nenhum dispositivo humano precisa ser experimentado para preparar o pecador para recebê-lo, pois se Deus o enviou, nenhum poder consegue impedi-lo; e se Ele não o enviou, nenhum poder consegue torna-lo eficaz” — Dr. Bullinger.

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Como Toda a Doutrina da Predestinação é Corrompida pelos Arminianos Por John Owen

A causa de todas essas contendas, com as quais os Arminianos e seus cúmplices têm incomodado a igreja de Cristo, vem a seguir à nossa consideração. A predestinação eterna do Deus todo-poderoso, esta fonte de todas as bênçãos espirituais, de todos os efeitos do amor de Deus derivados a nós por meio de Cristo, a demolição desta rocha da nossa salvação tem sido o principal esforço de todos os patronos da autossuficiência humana; assim, de forma a reivindicarem para si mesmos um poder e habilidade independente de fazerem o bem, de fazerem-se diferentes dos outros, de alcançarem a felicidade eterna, sem andar um passo sem ser a partir deles mesmos. E esta é a sua primeira tentativa para atingir o seu segundo propósito final, a construção de uma torre alta a partir da qual eles se empilhem até o céu, cuja fundação nada é, senão a areia de seu livre-arbítrio e esforços próprios. Quase de repente (o que eles fizeram de fato) removeram a predestinação Divina, nome e substância, tem sido uma tentativa observada como notória, e não susceptível de atingir o menor sucesso entre os homens que professam crer no evangelho de Cristo; portanto, padecendo que o nome permanecesse, eles aboliram a coisa em si, e substituíram por um outro muito diferente disso no seu lugar, de forma que qualquer um pode ver que eles ficaram com uma Lia de olhos tenros em vez de Raquel, e abraçam uma nuvem em vez da Deidade. A verdadeira doutrina em si tem sido tão excelentemente anunciada por diversos teólogos eruditos, assim libertos de todas as acusações, de forma que eu somente de forma breve e claramente, o demonstrarei, e isso com especial referência ao artigo XVII da nossa igreja, onde isso é claramente declarado; mostrando, além disso, o que é a minha intenção principal: como isso é contrariado, oposto, e subvertido pelos Arminianos. A predestinação, no sentido usual em que é tomada, é uma parte da providência de Deus em relação às Suas criaturas, distinguida da providência por uma dupla restrição: Primeiro, em relação aos seus objetos; pois, enquanto o decreto da providência compreende Suas intenções para com todas as obras das Suas mãos, a predestinação atenta apenas para as criaturas racionais. Em segundo lugar, a respeito de suas finalidades; pois, enquanto a Sua providência se dirige a todas as criaturas, em geral, para aqueles variados fins para os quais longamente eles são trazidos, sejam eles proporcionais à sua natureza ou excedendo a esfera de sua atividade natural, a predestinação é exercida apenas em dirigir criaturas racionais para fins sobrenaturais: o que, em linhas gerais, é o conselho, decreto ou propósito do Deus todopoderoso sobre o fim último e sobrenatural de Suas criaturas racionais, para que seja cum-

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prido para o louvor da Sua glória. Mas isso também deve receber uma restrição dupla antes de chegarmos precisamente ao que nós almejamos aqui: e isso novamente se refere aos objetos ou suas finalidades. O objeto da predestinação são todas as criaturas racionais. Agora, estes são ou anjos ou homens. Dos anjos não tratarei. Em segundo lugar, a finalidade fornecida pela predestinação para eles ou é a felicidade eterna ou a miséria eterna. Falo apenas sobre a primeira, — o ato da predestinação de Deus transmitindo aos homens a felicidade eterna e, neste sentido restrito, isso não difere em absoluto da eleição, e podemos usá-los como sinônimos, como termos de mesma importância; embora, por alguns afirmarem que Deus predestinou à fé àqueles que Ele escolheu, eles parecem ser distinguidos como os decretos da finalidade e os meios conducentes para isso, dos quais o primeiro é a eleição, intencionando a finalidade, e a seguir, ocorre a predestinação, proporcionando os meios. Mas esta distinção exata não aparece diretamente na Escritura. Esta eleição é apresentada na Palavra de Deus como o gracioso decreto imutável do Deus todo-poderoso, pelo que, antes da fundação do mundo, a partir de Seu próprio prazer, Ele escolheu certos homens, determinando libertá-los do pecado e da miséria, conferir-lhes a graça e a fé, dar-lhes a Cristo, trazê-los à bem-aventurança eterna, para o louvor da Sua gloriosa graça; ou, como isso é expresso em nossos artigos da igreja: “A predestinação para a vida é o eterno propósito de Deus, pelo qual (antes de lançados os fundamentos do mundo) tem constantemente decretado por Seu conselho, a nós oculto, livrar da maldição e condenação os que elegeu em Cristo dentre o gênero humano, e conduzi-los por Cristo à salvação eterna, como vasos feitos para a honra. Por isso os que se acham dotados de um tão excelente benefício de Deus, são chamados segundo o propósito de Deus...” e etc. [Os Trinta e Nove Artigos da Religião, Artigo XVII: Predestinação e Eleição. Fonte: Monergismo.com – N. R.] Agora, para evitar prolixidade, anexarei apenas essas observações como as que possam esclarecer o sentido e confirmar a veracidade do artigo pelas Escrituras, e mostrar brevemente como isso é subvertido pelos Arminianos em todos os detalhes do mesmo: Em primeiro lugar, o artigo, em conformidade com as Escrituras, afirma que este é um decreto eterno, feito antes da fundação do mundo; de modo que por ele, nós necessariamente fomos escolhidos antes de nascermos, antes de termos feito o bem ou o mal. As palavras do artigo são claras, e assim também é a Escritura: “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo” (Efésios 1:4); “porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal” e etc. [Romanos 9:11-12]; “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que

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nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” [2 Timóteo 1:9]. Agora, a partir disso, sem dúvida, segue-se que nada de bom em nós pode ser a causa da nossa eleição, pois qualquer causa deve, em ordem, preceder o seu efeito; mas todas as coisas de que nós por qualquer meio somos participantes, na medida em que são nossas, são temporárias, e por isso não podem ser a causa do que é eterno. Coisas com esta qualificação devem relacionarem-se apenas à vontade e prazer de Deus; cuja referência quebraria o pescoço da eleição Arminiana. Portanto, para evitar uma ruína tão fatal, eles negam o princípio, a saber, que a eleição é eterna1. Assim falam os Remonstrantes em sua Apologia2: “A eleição completa não se refere a ninguém, senão àquele que está morrendo; pois esta eleição peremptória decreta todo o cumprimento e consumação da salvação, e, portanto, requer no objeto o curso acabado de fé e obediência”, diz Grevinchovius; o que é fazer a eleição de Deus nada, senão um ato de sua justiça, aprovação de nossa obediência, e tal ato como é incidente a qualquer homem fraco, que não sabe o que acontecerá na próxima hora que ainda está por vir. E é essa pósdestinação que nos é proposta na Escritura como fonte insondável do amor de Deus para com todos nós em Cristo? “Sim”,3 dizem eles, “nós não reconhecemos nenhuma outra predestinação que é revelada no evangelho além daquela pela qual Deus decreta salvar aqueles que devem perseverar na fé”, ou seja, a determinação de Deus sobre a sua salvação está pendente, até que Ele encontre pela experiência que eles perseverarão em obediência. Mas, pergunto-me por que — vendo que a eleição é reconhecidamente uma das maiores expressões da infinita bondade, amor e misericórdia de Deus por nós —, se ela segue a nossa obediência, nós não a temos, como todas as outras bênçãos e misericórdias prometidas a nós. Não é porque tais proposições como estas: “Creia, Pedro, e persevere na fé até o fim, e eu vou escolher-te antes da fundação do mundo”, são mais aptas para os escritos dos Arminianos do que para a Palavra de Deus? Nem seremos seus rivais em tal eleição, a partir de onde nenhum fruto 4, nenhum efeito e nenhum consolo podem ser derivados a qualquer mortal, enquanto ele vive neste mundo. Em segundo lugar, o artigo afirma que ela é constante, ou seja, um decreto imutável; também em conformidade com as Escrituras, ensinando sobre um propósito único, contudo algo pré-conhecido, uma boa vontade, um decreto de Deus, a respeito da ordenação infalível dos Seus eleitos à glória; apesar deste decreto poder ser considerado como dois atos: um relativo ao meio, o outro relacionado à finalidade, mas ambos unem-se na “imutabilidade do conselho de Deus” (Hebreus 6:17). “Todavia o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus” [2 Timóteo 2:19]; “Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” [Romanos 11:29]. Agora, o que dizem os nossos Arminianos sobre isso? Ora, eles têm inventado toda uma

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multidão de noções e termos para obscurecer a doutrina. “Eleição”, dizem eles 5, “é legal ou evangélica, geral ou particular, completa ou incompleta, revogável ou irrevogável, peremptória ou não peremptória”, com não sei mais quantas distinções de um único ato eterno do Deus todo-poderoso, a respeito das quais não há nem “vola nec vestigium,” sinal ou vestígio, em toda a Bíblia, ou qualquer autor aprovado. E a estas trêmulas divisões, eles acomodam a sua doutrina, ou melhor, eles propositadamente as inventam para fazer seus erros ininteligíveis. Ainda assim, agradavelmente eles assim dizem6: “Há uma eleição completa que não pertencente a ninguém, senão àqueles que estão morrendo; e há outra, incompleta, comum a todos os que creem: como as boas coisas da salvação estão incompletas, as quais continuam enquanto a fé é continuada, e [são] revogadas quando essa [fé] é negada, assim, a eleição é incompleta nesta vida, e revogável”. Mais uma vez eles dizem em sua confissão7: “Há três ordens de crentes e arrependidos na Escritura, os quais alguns são neófitos, outros permaneceram por um tempo, e alguns perseveraram. As duas primeiras classes são escolhidos verè, verdadeiramente, porém não absolutè prorsus, absolutamente, mas apenas por um tempo, desde que eles permaneçam como estão; a terceira [classe] são dos escolhidos final e peremptoriamente: pois este ato de Deus ou é continuado ou interrompido, à medida que nós cumprimos a condição”. Mas de onde os Arminianos aprenderam esta doutrina? Nenhuma palavra desta afirmação foi extraída a partir da Palavra da Verdade; nenhuma menção de qualquer eleição inconstante, nem nenhum discurso sobre fé, senão como a consequência de um eterno decreto irrevogável da predestinação: “creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (Atos 13:48). Sem distinção de homens meio ou inteiramente eleitos, onde é afirmado que é impossível que o eleito seja enganado (Mateus 24:24); que ninguém arrebataria as ovelhas de Cristo das mãos de Seu pai (João 10:28-29). O que eles querem mais? O propósito da eleição de Deus está selado (2 Timóteo 2:19), e, portanto, não pode ser revogado; deve permanecer firme (Romanos 9:11), apesar de toda a oposição. Nem a razão nos permite pensar qualquer ato imanente de Deus como incompleto ou revogável, por causa da mera Aliança que Ele tem com Sua própria natureza. Entretanto a razão, a Bíblia e o próprio Deus devem ceder lugar a tais absurdos, se eles estiverem no caminho dos Arminianos quando estes estiverem trazendo o seu ídolo com brados e preparando seu trono, pela alegação de que a causa de sua predestinação está neles mesmos. Em terceiro lugar, o artigo evidencia que o objeto desta predestinação é alguns homens particulares, escolhidos dentre a humanidade; ou seja, este é um ato de Deus concernente a alguns homens em particular, tomando-os, por assim dizer, dentre o meio de seus irmãos, e projetando-os a alguma finalidade e propósito especial. A Escritura também transborda em afirmar esta verdade, chamando os que são assim escolhidos de “poucos”, (Mateus 20:16), o que deve denotar algumas determinadas pessoas; e o “remanescente segundo a

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eleição”, (Romanos 9:5); aqueles a quem “o Senhor sabe que são Seus” (2 Timóteo 2:19); homens “ordenados para a vida eterna” (Atos 13:48); “nós” (Romanos 8:39); aqueles que estão “inscritos no livro da vida do Cordeiro” (Apocalipse 21:27). Todas estas passagens, e diversas outras, provam claramente que o número dos eleitos é certo, não só materialmente, como eles dizem8, que eles são tantos, mas formalmente também, de forma que essas pessoas particulares, e nenhumas outras, são aquelas, que não podem ser alteradas. Não, a mesma natureza da própria coisa em si demonstrativamente assim o evidencia, de modo que eu me pergunto se isso pode, eventualmente, ser concebido sob qualquer outra noção. Apreender sobre uma eleição de homens não circunscritos com a circunstância de pessoas determinadas é uma abstração pretensiosa e Platônica, como parece estranho que alguém se atreva professar entender que deve haver uma predestinação, e nenhum predestinado; uma eleição, e nenhum eleito; uma escolha entre muitos, mas ninguém a ser deixado ou tomado; um decreto para salvar os homens, e ainda assim a salvação não ser destinada a homem nenhum, mas seja somente “re aut spe”, em realidade ou em expectativa. Em uma palavra, que haja um propósito de Deus para trazer os homens para a glória, permanecendo inviolável, embora nunca qualquer pessoa atinja o fim proposto, é como um enigma como o que nenhum Édipo pode desvendar. Agora, tal eleição e tal predestinação, os Arminianos têm substituído no lugar do decreto eterno de Deus. “Nós negamos”,9 dizem eles, “que a eleição de Deus se estende a quaisquer pessoas singulares como pessoas particulares”, ou seja, que quaisquer pessoas particulares, como Pedro, Paulo, João, são por isso eleitos. Não; como, então? Porque 10: “Deus designou, sem diferença, dispensar o meio da fé; e como Ele vê essas pessoas crerem ou não crerem no uso desses meios, assim, longamente, Ele determina sobre eles”, como diz Corvinus. Pois bem, então, [segundo os Arminianos], Deus não escolhe nenhum homem em particular para a salvação, senão a quem Ele vê crendo por seu próprio poder, com a ajuda apenas dos meios, como os que são oferecidos aos outros que nunca creem; e como ele assim faz a si mesmo diferente dos outros pelo bom uso de suas próprias habilidades, assim também ele pode ser reduzido novamente à mesma situação, e depois de sua eleição, que não diz respeito à sua pessoa, mas apenas à sua qualificação, muito desvanecente. Mas este é o decreto da eleição de Deus? “Sim”, eles dizem; e apresentam uma triste queixa que qualquer outra doutrina seja ensinada na igreja 11. “É intrusivo”, dizem os verdadeiros filhos nascidos de Armínio “para a igreja como uma doutrina mui sagrada, que Deus, por intermédio de um decreto imutável absoluto, desde toda a eternidade, segundo o Seu próprio prazer, escolheu certas pessoas, e aqueles poucos em comparação, sem nenhum respeito tido a partir de sua fé e obediência, e os predestinou para a vida eterna”. Mas a que tão grande exceção esta doutrina é responsável, que impiedade ela inclui, que ela não deva ser considerada santíssima? Não, não é apenas a questão, mas os próprios termos dela contidos na Escritura? Porventura ela não diz que os eleitos são poucos, e que

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eles são escolhidos antes da fundação do mundo, sem qualquer consideração à sua obediência ou qualquer coisa que eles tenham feito, mas por mera graciosa boa vontade de Deus, para que o Seu livre propósito, segundo a eleição, permaneça firme, mesmo porque assim aprouve a Ele; e isto para que eles fossem santos, isto é, cressem e fossem santificados, de modo que eles vêm a Cristo, e por Ele são preservados para a vida eterna? Sim, isto é o que lhes irrita12: “Nenhuma tal vontade pode ser atribuída a Deus, pela qual Ele assim deseja que qualquer um seja salvo como que a partir disso a sua salvação seja segura e infalível”, diz o pai desses filhos. Bem, então, que a definição de Agostinho seja completamente rejeitada 13: “Que a predestinação é uma preparação de tais benefícios em que alguns são certamente libertados e resgatados a partir do pecado e trazidos para a glória”, e que seja rejeitada também a declaração de São Paulo: “Porque (por este motivo) nada nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” [Romanos 8:38-39]. O que é esta eleição em seu julgamento?14 “Nada senão um decreto pelo qual Deus destinou salvar os que creem em Cristo”, diz Corvinus, “sejam eles quem forem; ou um propósito geral de Deus, no qual Ele ordenou a fé em Cristo para ser o meio de salvação. Sim, mas isso pertence a Judas, bem como a Pedro. Este decreto diz respeito igualmente àqueles que são condenados como aos que são salvos”. Se a salvação, sob a condição de fé em Cristo, também foi proposta a eles; mas foram eleitos Judas e toda a sua companhia? Como vieram, então, a ser enganados e a perecer? Que qualquer um dos eleitos de Deus vá para o inferno é ainda uma afirmação estranha no Cristianismo. Não obstante este decreto, ninguém pode acreditar, ou todos os que o fazem podem cair, e por isso mesmo ninguém é salvo de modo algum. Este é um tipo estranho de predestinação: ou todos podem crer, perseverar na fé e serem salvos; o que é um tipo mais estranho de eleição. Nós, pobres almas, pensávamos até então que poderíamos ter crido, de acordo as Escrituras, que alguns por esse propósito foram de uma maneira peculiar feitos do Pai (“eram teus”), e por Ele dados a Cristo, para que Ele pudesse levá-los à glória; e que estes homens eram de tão certo e imutável número, que não apenas Deus “os conhece” como sendo “Seus”, mas também que Cristo “chama-os pelo nome” (João 10:3), e atente: de forma que ninguém os arrebata de Sua mão. Nós nunca imaginamos antes que Cristo foi o Mediador de uma aliança incerta, pelo fato de certas pessoas não estarem na aliança, ou por haver tais pessoas que podem ou não cumprir a condição. Nós sempre pensamos que alguns tinham sido separados antes pelo propósito de Deus dentre o restante do mundo que perece, que Cristo pode dar a vida por Seus “amigos”, por Suas “ovelhas”, para os que foram “dados a Ele” por Seu Pai. Mas agora nos dizem que Ele foi ordenado para ser um Rei, quando era totalmente incerto

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se Ele alguma vez teria quaisquer súditos; para ser uma Cabeça sem corpo, ou de uma tal igreja cujo conjunto e continuidade dependem total e exclusivamente da vontade dos homens. Estas são doutrinas que eu acredito que os examinadores da Escritura dificilmente já conheceram, se não houvessem tido tal iluminação de tais expositores como aqueles que os ensinam15: “Que a única razão pela qual Deus ama” (ou escolhe) “qualquer pessoa é, por causa da honestidade, fé e piedade com que, de acordo com a ordem de Deus e seu próprio dever, ele é dotado, aceitável a Deus”. Nós admitimos que isso seja verdade quanto à consequência ou evidência do amor de Deus, mas certamente há um amor Divino com o qual Ele olha para nós de outra forma quando Ele nos dá a Cristo, de outro modo, o dom de Cristo não é por amor, ou nós somos piedosos, justos e fiéis antes de vir a Ele, ou seja, não temos necessidade dEle de modo algum. Embora possamos apagar esses testemunhos de nossos corações, ainda assim eles estarão registrados na Sagrada Escritura, a saber, que Deus assim nos amou, quando éramos seus “inimigos” (Romanos 5:10), “pecadores” (v. 8), “estando nós ainda fracos” (v. 6); de modo que “deu o seu Filho unigênito” para morrer “para que não pereçamos, mas tenhamos a vida eterna” (João 3:16). Isto é o bastante. Em quarto lugar, outra coisa que o artigo afirma, de acordo com as Escrituras, é que não há nenhuma outra causa de nossa eleição, senão o próprio conselho de Deus. Ele não se volta a nenhum motivo em nós, nada impulsiona a vontade de Deus para escolher alguns dentre a humanidade, rejeitando outros, senão o Seu próprio decreto, ou seja, a Sua absoluta e boa vontade; assim, não existe absolutamente nada, em qualquer coisa fora dE