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A cidade dos números

Era uma vez uma cidade chamada Numerática. Seu rei, o número Três, era o mais alegre, generoso e elegante do reino. No entanto, era celebérrimo pelos seus defeitos, dos quais o maior era julgar-se o mais inteligente. Usava, normalmente, uma majestosa capa coberta de pequenos diamantes em formas variadas. Sua mulher era a número Seis. Tinha uma barriguinha muito redondinha, pois estava grávida de seis meses. Certo dia, a rainha foi até aos aposentos do rei Três, onde reinava uma desarrumação total, e perguntou-lhe: — Três, já puseste em prática o plano do π? Não te esqueças que é o que tem a etiqueta 3,14… — Ainda não, querida. Já agora, sabes onde estão os papéis da Declaração das áreas? Tenho de os encontrar, porque senão temos mais um problema matemático. O nosso filho ainda nasce sem eu saber a área necessária para fazer o quarto dele! Nem imaginas a surpresa que vai ser… — Ficheiros da letra A, secção das áreas, gaveta 7— respondeu a rainha. — Obrigado. E também já pensaste no nome para o nosso filho? — Não, ainda tenho tempo para pensar nisso. Passado um mês o palácio já estava enriquecido com o novo quarto, construído com a forma de um cilindro. Então, o rei Três fez um aparatoso anúncio a toda a cidade: — Cidadãos, quero anunciar-vos que os nossos cientistas descobriram uma coisa extraordinária! Conseguiram construir um quarto para o príncipe, diferente do normal. O nosso principezinho vai dormir num quarto com a forma de um cilindro!!!! O quarto tem 20m de diâmetro na base e 10m de altura. Para que o nosso herdeiro, o príncipe, tenha um quarto confortável, mandei comprar um tapete nas Arábias com 50m2. O pequeno vai poder brincar sem sentir o frio da pedra do chão! Quanto às paredes vão ser forradas com 300 m2 de bonitos tecidos. Ora, na Cidade dos Números vivia o número Oito, conhecido por ser o mais mesquinho e convencido da cidade. Tinha começado por ser um zero, mas pôs um cinto, que lhe modelou a cintura, e agora achava-se superior, pois ganhara a forma de um 8.


— Com mil fracções, isso é impossível! Eu não me acredito! Onde já se viu um quarto em forma de cilindro? Ainda se eu tivesse já divulgado os meus cálculos…— Disse o número Oito para a sua emproada mulher, a número 2. Espero que o filho não seja tão mau como é o seu pai, que se julga o maior a fazer cálculos. Então, o Oito foi fazer uma visita ao palácio do rei Três, para ver a se era verdade o que fora anunciado. — Quem devo apresentar? — Perguntou o mordomo. — Escusa de me apresentar. Eu sou o número mais conhecido deste reino! — Quem devo apresentar? — Insistiu o mordomo, com muita paciência. — Você não percebeu, seu zero à esquerda. Já lhe disse que não precisa de me apresentar… — Que barulheira é esta?! – Disse o rei descendo as escadas, enervadíssimo. — A rainha está a dormir. Ela precisa de descansar! — Majestade, é este zero à esquerda, que você chama de mordomo, que não me deixa entrar! — respondeu o Oito. — Senhor Oito, eu não quero ser mal-educado, mas não tenho tempo a perder! — Disse o rei fechando a porta na cara do Oito, que ficou muito aborrecido. Convencido de que era impossível construírem um quarto em forma de cilindro, ele voltou para casa, para pensar na maneira de entrar no palácio sem ser visto. — Já sei! Vou vestir-me de mordomo! Mais tarde, o número Oito vestiu-se de mordomo e trocou de turno com o mordomo da manhã, sem que ele desconfiasse da artimanha. Sem perceber a troca de mordomos, o rei mandou: — Mordomo, chega aqui! Precisam de ti no piso de cima. Seguindo o rei, o Oito descobriu onde era o quarto do futuro príncipe. Então o rei ordenou: — Chama as empregadas e diz-lhe que façam a limpeza do quarto. O rei Três saiu, deixando Oito sozinho, e ele aproveitou para investigar. — Afinal sempre é verdade! Conseguiram construir um quarto com a forma de um cilindro sem a minha ajuda. Agora, quando eu revelar a minha descoberta já será tarde. Vão todos pensar que copiei os cálculos!


Desanimado, começou a descer a escada… — E eu que pensava que a minha investigação sobre as áreas era um segredo! — Mas será que os cálculos estão certos? O rei disse que o tapete de 50 m2 ia tapar o chão e a mim parece-me que para tal, o tapete teria de ser maior! Saiu a correr para que não o descobrissem, pois o mordomo da tarde estava a chegar, e foi para o seu escritório verificar os cálculos. — A minha fórmula para a área do chão, que é circular, é π r2. Por isso, se o quarto tem as medidas que o rei anunciou, algo está errado! Segundo os meus cálculos o quarto vai ficar uma desgraça! A área da base está mal calculada! A Área da parede está mal calculada! Oh, com mil fracções, o chão do quarto vai ficar a descoberto, o quarto vai ficar frio e desconfortável e o pobre príncipe pode ter maleitas! No dia seguinte o rei estava a fazer um discurso na Avenida dos Numerados. — Convoquei-vos aqui para vos dizer que o meu filho, que está para nascer em breve, vai para o quarto magnífico que eu mandei construir… — PARE! Desculpe interromper mas os seus cálculos estão errados! De acordo com os MEUS cálculos, o tapete deverá ter 314 m2 e as paredes devem ser forradas com 628 m2 de tecido, pois a Área da parede é igual a cxl, e a largura neste caso é igual ao perímetro do círculo que forma o chão! Com as medidas que Vossa Senhoria indica, o quarto não vai ficar quente e confortável e o pobre príncipe pode ficar doente! — afirmou o 8. — Agradeço imenso ao senhor Oito pelo aviso, mas isso e impossível. Foi revisto pelo grande cientista da cidade… — Rei Três, lamento discordar, mas até mesmo o melhor cientista às vezes pode errar. O melhor será confirmar. Verificados os cálculos, ficou confirmado que o 8 tinha razão. Como recompensa pelo serviço prestado ao rei Três, este prometeu que o príncipe se casaria com a filha do 8 e da número 2, a donzela 4. Ao príncipe, a rainha 6 chamou 9, porque 6 + 3 = 9. No final desta história confirmámos o maior defeito do rei e percebemos que o 8 bem podia ser convencido… Afinal ele era perito em ÁREAS!

Ana Rita Moreira, 6º C


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