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Capítulo publicado no livro Qualidade de software: Teoria e Prática. Ed. Campinas: Makron, 2001.

Qualidade de Software Educacional Gilda Helena B. de Campos Universidade Santa Úrsula Gilda@openlink.com.br

Fernanda C. Alves Campos Universidade Federal de Juiz de Fora Fernanda@agrosoft.softex.br

Demanda e a Oferta de Software Educacional O software educacional deve ser determinado pelas teorias de aprendizagem que distinguem ambientes educacionais, mais ou menos interativos, com maior ou menor grau de participação e controle do aluno no processo de construção do conhecimento. As novas tecnologias evidenciam um questionamento dos modelos educacionais até hoje utilizados e apontam para possibilidades de rupturas na utilização dos modelos vigentes. O desenvolvimento de software educacional busca contemplar as características da educação que levam à formação global do aluno que necessita, aprender a aprender e a pensar, para melhor intervir, inovar e questionar, trabalhando desta forma com as funções da cognição. Os modelos tradicionais de desenvolvimento de software educacional baseiam-se principalmente nas modalidades exercício e prática, jogos e tutoriais. Apesar do avanço de estudos teóricos reconhecer a necessidade de modelos de aprendizagem como fenômenos socio-culturais, nota-se ainda uma tendência à elaboração de programas educativos voltados para o sistema educacional tradicional. As principais características dos produtos de software que representam o modelo tradicional são: definem objetivos educacionais mensuráveis; definem estratégias de ensino; promovem a avaliação objetiva; informam aos alunos os seus escores; fornecem reforço para as respostas corretas. Nos ambientes de aprendizagem construtivistas os estudantes possuem mais responsabilidade sobre o gerenciamento de suas tarefas e o papel do professor passa a ser também o de orientador, facilitador e/ ou mediador. Nestes ambientes interativos a ênfase está na autonomia do aluno que interage com o ambiente, que, por sua vez, tem o foco no processo de construção do conhecimento e não apenas num domínio prédefinido do conhecimento a ser adquirido (Akhras et al., 1995).

Um

critério

que

vem sendo usado na literatura especializada para classificar os tipos de software educacional é o grau de iniciativa permitido ao aluno ou o grau de direcionamento conferido a ele: Alta interatividade, permite a descoberta imprevista e a descoberta de exploração livre; Média interatividade, permite a descoberta guiada; Baixa interatividade, previlegia a aprendizagem de recepção direcionada, a exposição

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Capítulo publicado no livro Qualidade de software: Teoria e Prática. Ed. Campinas: Makron, 2001. indutiva, a exposição dedutiva. As características dos produtos de software que exemplificam o modelo contrutivista são: definem os macros objetivos e os contextos, para incentivar a construção do conhecimento e incentivar a participação do aluno no processo; a avaliação é qualitativa; consideram a não linearidade, a escolha de caminhos navegacionais por parte do estudante e a liberdade na busca da informação; propõem problemas realistas, interessantes e relevantes para os alunos e permitem testar diversas soluções; estimulam a colaboração, o diálogo e a negociação no trabalho em grupo. Qualidade de software A dificuldade para definirmos qualidade de software educacional baseia-se no fato de não ser este um conceito peculiar ao software. De acordo com a norma ISO (ISO/CD8402, 1990), “qualidade é a totalidade das características de um produto ou serviço que lhe confere a capacidade de satisfazer as necessidades implícitas de seus usuários”. Portanto, a qualidade está diretamente relacionada à satisfação do usuário ou cliente e é percebida de formas diferentes. A norma ISO/IEC 9126:1991 traz definições para qualidade de software e conceitos relacionados e pode ser classificada em externa e interna. A qualidade externa é visível aos usuários do sistema; qualidade interna é aquela pertinente aos desenvolvedores. Assim sendo, existem dois tipos de avaliação para o software: avaliação ao longo do processo de desenvolvimento e avaliação de produtos de software. A avaliação ao longo do processo de desenvolvimento é importante e exige a definição e implantação de um Programa de Qualidade que garanta a avaliação do software ao longo das etapas de desenvolvimento. A qualidade do processo é essencial para se ter qualidade do produto, mas ela não garante a qualidade do produto, que necessita ser também avaliado.

A qualidade de produtos é tratada, entre outras, na série de Normas

ISO/IEC 9126, na série ISO/IEC 14598 e na Norma ISO/IEC 12119, esta última focalizando os requisitos de qualidade de pacotes de software. Software educacional Para avaliar um software educacional temos que considerar, além das características citadas, os atributos inerentes ao domínio e as tecnologias específicas. Sabemos que as teorias de aprendizagem refletem visões profundamente diferentes sobre como ocorre a aprendizagem e estas visões têm impacto nos software educacionais. Defendemos que a avaliação de um software educacional inicie-se

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Capítulo publicado no livro Qualidade de software: Teoria e Prática. Ed. Campinas: Makron, 2001. pela identificação do seu ambiente educacional, ou seu potencial uso para um determinado ambiente educacional. Características do domínio educacional Para avaliar um software educacional temos que considerar, além destas , os atributos inerentes ao domínio. Alguns autores (Campos, G, 1994, Campos, 1994) especificaram características para os diversos tipos de software educacional, incluindo a diversidade tecnológica. Entretanto, ao avaliarmos um software educacional é importante ter como características mínimas: • Características

pedagógicas:

conjunto

de

atributos

que

evidenciam

a

conveniência e a viabilidade de utilização do software em situações educacionais. Inclui as sub-características: • ambiente educacional: o software deve permitir a identificação do ambiente educacional e do modelo de aprendizagem que ele privilegia; • pertinência ao programa curricular : o software deve ser adequado e pertinente a um dado contexto educacional ou disciplina específica; • aspectos didáticos: o software deve contribuir para o atendimento de um objetivo educacional e para isso deve ser fácil de usar, dever ser amigável ao usuário, possuir aspectos motivacionais e respeitar as individualidades. Inclui atributos como: clareza dos conteúdos, correção dos conteúdos, recursos motivacionais, carga informacional e tratamento de erros; • Facilidade de uso: conjunto de atributos que evidenciam a facilidade de uso do software. Inclui as sub-características: • facilidade de aprendizado: avalia a facilidade dos usuários aprenderam a usar o software; • facilidade de memorização: avalia a facilidade dos usuários memorizarem informações importantes para o seu uso; • robustez: avalia se o software mantém o processamento corretamente a despeito de ações inesperadas. • Características da interface: conjunto de atributos que evidenciam a existência de um conjunto de meios e recursos que facilitam a interação do usuário com o software Inclui as subcaracterísticas:

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Capítulo publicado no livro Qualidade de software: Teoria e Prática. Ed. Campinas: Makron, 2001. • condução: avalia os meios disponíveis para aconselhar, informar e conduzir o usuário na interação com o computador. Inclui atributos como: presteza, localização, feedback imediato e legibilidade; • afetividade: avalia se o software promove uma relação afetuosa com o aluno na sua interação, e os aspectos psicológicos que o software pode vir a desencadear; • consistência: avalia se a concepção da interface é conservada idêntica em contextos idênticos e diferentes para contextos diferentes; • significado dos códigos e denominações: avalia a adequação entre objeto ou informação apresentada ou pedida e sua referência; • gestão de erros: avalia os mecanismos que permitem evitar ou reduzir a ocorrência de erros, e quando eles ocorrem, que favoreçam sua correção. Inclui oa atributos: proteção contra erros, qualidade das mensagens de erro e correção dos erros e reversão fácil das ações; • adaptabilidade: conjunto de atributos que evidenciam a capacidade do software se adaptar as necessidades e preferências do usuário e ao ambiente educacional selecionado. Inclui atributos como: • customização: avalia se a facilidade da interface ser customizada para o uso por diferentes usuários; • adequação ao ambiente: avalia a facilidade do software ser adequado ao modelo e aos objetivos educacionais adotados; • documentação: conjunto de atributos que evidenciam que a documentação para instalação e uso do software deve ser completa, consistente, legível e organizada. Inclui atributos como: • help on line: avalia a disponibilidade de auxílio on line; • documentação do usuário: avalia se a documentação sobre o uso do sistema e sua instalação é de fácil compreensão. • portabilidade: conjunto de atributos que evidenciam a adequação do software aos equipamentos do laboratório de Informática Educativa. Inclui subcaracterísticas como: • adequação tecnológica: avalia se as tecnologias de hardware e software utilizadas no software são compatíveis com as facilidades disponíveis no mercado;

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Capítulo publicado no livro Qualidade de software: Teoria e Prática. Ed. Campinas: Makron, 2001. • adequação aos recursos da escola: avalia se as tecnologias de hardware e software necessárias para a utilização do software são compatíveis com as facilidades disponíveis na escola; • retorno do investimento: conjunto de atributos que evidencia a adequação do investimento na aquisição do software. Inclui as subcaracterísticas: • preço compatível: avalia se a taxa de retorno da utilização do software é compatível com o investimento feito em sua aquisição; • taxa de retorno.: avalia se a taxa de retorno é compatível com o investimento feito em sua aquisição. Para ambientes e sites apoiados na Web é importante avaliar a característica qualidade da informação que inclui as sub características: conteúdos corretos,fontes fidedignas,carga informacional compatível,pertinência,temas transversais. Considerações Finais O processo de seleção de software inclui vários atores entre eles podemos citar: o professor da disciplina, direção e/ou entidade mantenedora, coordenação pedagógica, coordenação de informática educativa e pessoal técnico de informática. A qualidade do software educacional é uma questão que diz respeito em especial aos pesquisadores, desenvolvedores e usuários. Os desenvolvedores precisam se atualizar em relação às normas, modelos, testes e atributos específicos deste domínio para buscar a qualidade dos produtos. As escolas, notadamente os professores, precisam ter cursos sobre avaliação e seleção de software educacional para que possam avaliar criticamente os produtos a serem adquiridos e utilizados. Para tal devem utilizar métodos já definidos ou mesmo uma simples check list. Referências Bibliográficas CAMPOS, F. & CAMPOS, G. H. B., 1997, “Design Instrucional, Novas Tecnologias e Desenvolvimento de Software Educacional”. In: Anais VIII Simpósio Brasileiro de Informática na Educação, V. I, pp. 289-311, São José dos Campos, SP, Brasil, Novembro. CAMPOS, F. C. A., 1994, Hipermídia na Educação: Paradigmas e Avaliação da Qualidade. Tese de M.Sc., COPPE/Sistemas - UFRJ. Rio de Janeiro, RJ, Brasil. CAMPOS, F., CAMPOS, G. H. & ROCHA, A. R. C., 1999, “Tradicionalismo e Inovação. A Informática Educativa nas Escolas Brasileiras”, In: Workshop de Informática nas Escolas. Congresso da Sociedade Brasileira de Computação. Rio de Janeiro, Brasil., Junho. CAMPOS, F.C.A., 1999, Informática Educativa: Características e Padrões para Projetos. Tese de D.Sc. COPPE/Sistemas - UFRJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. CAMPOS, G. H. B. , 1994, Metodologia para avaliação da qualidade de software educacional. Diretrizes para desenvolvedores e usuários. Tese de D.Sc. COPPE/Sistemas - UFRJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. ISO/CD8402, 1990, Quality Concepts and Terminology - Part One: Generic Terms and Definition, International Standards Organization.

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