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Florian贸polis, 2013


Floripa em versos

capa Duel Propaganda assistente de diagramação Juca Silva revisão Tony Rodrigues equipe de apoio Pedro Faccin Sandra Hemerich impressão Gráfica Pallotti

Ficha Catalográfica Catalogação na Publicação (CIP)

B869.1 S587f

Silveira, Martos Floripa em versos / Martos Silveira. Florianópolis: Ed. do autor, 2013. 64 p.: 21 cm. 1. Poesia brasileira. 2. Florianópolis. II. Título. CDD B869.1

Copyright © Martos Silveira. Todos os direitos reservados.


SUMÁRIO Apresentação Velha Desterro Vou-me embora pra Floripa Namorados Aquarela A última pescaria A casa é sua! Castelinho Praça XV Causo de pescador A ponte De verso e de luar Forte de São José Galheta Banco Redondo Comparação barata Dos dotes da rendeira A velha ilha Saberes Uma noite em Floripa Se um dia eu for pirata... Alma, de fora Quintal em Santo Antônio Novembro Sexta-feira, 13! Náufrago

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Joaquina A cruz daqui Olhar do Morro da Cruz Vento de outono Mistérios do Ribeirão da Ilha Quase um divã Preciso de um tempo, no Sambaqui Cidade de Ramos Barcos piratas em Canasvieiras Beira-Mar que fica Sobre a moça da praia Lagoa formosa Jurerê Mão única Ponta do Coral Praia Mole Lugar-comum Trágica lua-de-mel Ipê-amarelo, carente Lendas do Santinho Fantasmas da ilha Sobre a Floripa, que escrevi

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APRESENTAÇÃO “jamais algum poeta teve tanto pra cantar!” Zininho

Não tive a pretensão de descrever Florianópolis, que é muito mais do que aquilo que eu poderia dizer. Também posso dizer que estes versos não são uma mera homenagem, pois, na verdade, estes escritos não passam de mais uma das coisas boas que este “pedacinho de terra”, como diz Zininho, me dá de presente, pois dela emana toda a inspiração para o viver e para a poesia. Muito mais do que qualquer outra coisa, aqui está, como um retrato, aquilo que sinto e a forma que vejo a ilha e o povo que me acolheu. Portanto, não encare os meus versos como algo que vá dizer ou discutir com profundidade a condição de uma comunidade, encare como uma fotografia feita por alguém que passa e registra aquilo que o olho vê e agrada ao coração.


VELHA DESTERRO Velha Desterro foi um erro mudarem o seu nome em homenagem a um homem cujo legado foi o desamor à vida. Se mudar foi deselegante, desmudar não dá mais. Por isso, pra manter a paz, que fique assim! E que sirva pra que o povo, prevenido, fique unido e não deixe mais nascerem atitudes desse naipe.


VOU-ME EMBORA PRA FLORIPA Vou-me embora pra Pasárgada, – pra Pasárgada não, pra Floripa! Lá sou amigo do prefeito, do governador, sei lá de quem. Na verdade, o prefeito pouco importa, e o governador é um escroto. O que interessa é outra coisa, que me faz sonhar mais alto e ver mais longe, e viver mais forte. O que me interessa é que de lá poderei olhar o infinito e ver o que não foi possível ver de outros mundos. De lá poderei ver tudo, dos segredos da morte e seus cochichos até os caprichos da vida. E dos caprichos da vida eu pouco conheço, por isso vou-me à Floripa que é tão bonita e tem tanta gente boa.


Vou lá ficar um tempo e dependendo do vento fico mais um pouco. Ficarei sem bancar o cretino e dançarei as notas do seu hino pra agradar a gente de lá. Vou-me devagarinho, e não é pra Pasárgada, é pra Floripa! E não é sua magia, mas sua beleza que me encanta. Vou-me embora pra Pasárgada! Aliás! Pra Floripa!


NAMORADOS Em um final de tarde qualquer, à Beira-mar, sentamo-nos engatados um ao cheiro do outro, um ao calor do outro, numa espécie de conexão total. Enquanto isso, o sol tentava a todo custo adiar sua partida pro outro lado do mundo, deixando um beijo abrasivo sobre as águas. Nessa dança sincrônica a água balançava os últimos e insistentes raios do rei do universo, como quem diz “fica mais um pouco!” Então, também percebi que te amar significa manchar-me de ti, daí que nunca mais sairás de mim totalmente, e eu gosto de saber disso.


AQUARELA Esta aquarela é desigual, por mais igual que a queiram pintar. Porque este paraíso não é só paraíso, como pensa o senso comum. Este paraíso é um misto de fedor, dor e beleza sem fim.


A ÚLTIMA PESCARIA

Seu Maneca, lá da Armação do Pântano do Sul, depois de tirar uma soneca, e o sol quase ter rodeado o céu azul, pega a baleeira, e seu pequeno arsenal. Dá um grito pro Juquinha e saem pra pescar. Depois de se distanciarem da praia vão soltando a rede enquanto Maneca mata a sede com uma cachacinha Armazem Vieira.


Maneca conta um causo, Juquinha conta outro. Passam a tarde relembrando outro tempo, mais medonho, onde tantos perigos quase os comeram no mar. Vai-se a tarde, entre os tantos balanços e as tantas lembranças de uma vida de pesca. Um conta, o outro relembra, e assim as lembranças recuperam tantos fatos vividos no mar. Daí, um vento frio, que bate das bandas do sul, faz os dois querem se aconchegar. Mãos aos remos e, num ritmo profissional, fazem o barco na areia encalhar. Um estranho, que na praia os observa, não os entende, parece que os dois estão prestes a brigar: – Ô, ixtepô, dá esse, que eu vô levá! Então os dois se agridem, dividem e se despedem, com um amor tão fraterno e real como quem já dividiu, por décadas, a mesma vida todos os dias. E assim foi, pela última vez, porque no outro dia, no mesmo horário, seu Maneca foi sepultado no cemitério local.


A CASA É SUA! A casa é sua e não há porque morrer de saudade, basta sentir-se à vontade e voltar quando quiser! Enquanto estiveres, porém, navegando em felicidade, e por aí se deliciando, alguém estará suando para que tenhas o melhor. A casa é sua, mas fiques advertido, que, quando o verão acabar e tu tiveres partido, a casa que aqui ficará será a minha. Vá, e volte quando puder. E se for para levar algo, que leve meu jeito de amar. E mais não precisa dizer, pois, uma ponte aqui vai ficar, construída entre eu e você.


CASTELINHO Olho para esta arquitetura, hoje modesta, e minha imaginação que gosta de contar histórias perscruta todos os cantos buscando por elas. A primeira impressão é de que o modesto, pelo qual hoje ela se faz passar, não existia naquele passado em que ela surgiu. O formato de castelo não foi desenhado para servir ao olhar cansado a que hoje serve. Se foi castelo, foi para impressionar apesar de hoje, um olhar desatento nem percebê-lo.


PRAÇA XV Lá tem uma figueira gigante, igual tromba de elefante e quando sentamos embaixo a sombra faz cócegas na gente. Olho o transeunte apressado, o artista malogrado, que faz da praça sua pista e de quem passa sua plateia. E a praça começa e termina e sempre combina de no outro dia nascer novamente. Assim, vai-se uma praça junto com o sol que se deita, e no outro dia, nasce outra...


CAUSO DE PESCADOR! Conta um causo, pescador! Conta um causo pra entreter esta gente que se põe em frente de ti. Conta um causo, conta outro! Tudo causo de pescador. Alguns dirão que é mentira, ora, onde se viu! Pescador é que nem poeta, conta o que não viu, porém, mentir jamais! Contar o que não vê não é mentir é apenas usufruir do imaginário pra entreter. Conta um causo, pescador, conta um causo! Estou louco pra ouvir. Conta um causo, daqueles que por muitos anos jamais esquecerei. Conta um causo da baleia assassina, do tubarão que tu domastes, do naufrágio que viveste.


Conta um causo de assombração em alto mar. Conta uma tragÊdia de pescaria e como tu sobreviveu nesse mar de rebeldia. Conta, pescador!


A PONTE Cá está ela, num sentido mais lúdico, mais convidativo, desenhada para que você atravesse o imaginário para um mundo que não é o seu. Nela há aquele convite que diz "venha, entre através de mim para ver coisas fora do seu cotidiano comum!"


DE VERSO E DE LUAR Amanhã é outro dia e a lua não vai estar desse jeito, por mais que o prefeito faça encomenda. Melhor é que tu pegues a mão dela e vás caminhando, maciosamente, com um falar envolvente para que possas realizar teu sonho. Se ela preferir o luar a ti, será uma disputa injusta, mas, e se ela, astuta querer os dois? Vai caminhando com ela e pensamento positivo. Senta e lê, do livro, aquele verso de amor. A mágica do verso e do luar, podem ter influência e tu vais gostar.


FORTE DE SÃO JOSÉ

Mostra a foto de um tal Leandro, que não é malandro nem turista; – é quase artista! que passou pela lente a vista e fotografou. A cena teria sido encomendada, – quase, não fosse o acaso que por vezes acaba contando uma verdade. E o clique real de agora mostrou a emoção que sentiam, de antemão, nossos compatriotas de outrora.


GALHETA Galheta, tuas tretas são demais. Quando chove um paraíso que comove nasce em ti. Quando anoitece a lua tece um crepúsculo muito puro, de luar. Quando dia, sem malícia no olhar. Pareces um pequeno mundo resguardado em um frasco onde todos podem, aos poucos, se refrescar. Teu mar azul, envidraçado, dá vontade de beber. Tua paisagem é uma pintura daquilo que aos poucos o homem acabou por perder. Um mundo que não existe mais, a não ser uma amostra nua neste recanto de natureza.


BANCO REDONDO Amor, pegue minha mão e vamos caminhando até a praça do Banco Redondo – e lá, por mais medonho que seja meu assunto, me deixe dizer. Gostaria de falar pouca coisa mas o que há guardado dentro de mim está há muito tempo e não é possível mentir nem falar pelas metades. É que minha alma é feita de tudo que tenho pra dizer e minha vida não tem sido outra coisa senão calar tudo isso. Vamos à praça do Banco Redondo, amor...


COMPARAÇÃO BARATA Um dia, sem se quer planejar, transplantei meu coração a sangue frio. Mudei o curso da estrada e caminhei pra cá. Então, como a velha figueira da Praça XV, cravei meus pés neste chão e a ideia que tenho é que daqui só me transportarão pro além.


DOS DOTES DA RENDEIRA A arte tem cheiro! Cheiro de moça bonita que tece com linha e fita uma renda trazida de longe, da tradição. Suzete é a moça que tece, com fios, uma renda que prenda a ela, muito mais. Aprendeu com a mãe que aprendeu com a avó que aprendeu com a bisa que aprendeu... Muito mais do que tecer rendas a Suzete tece versos com linhas coloridas e os vende em formatos diversos pra quem quer levar pra casa algo charmoso. Na Casa da Alfândega, qualquer um pode encontrar a Suzete, que é moça elegante, e encomendar uma poesia, tecida em linha, por mãos habilidosas, e tecer uma prosa daquelas de deixar a alma faceira...


A VELHA ILHA Eis aqui a velha ilha do velho pirata, onde nem tudo o que reluz é prata, e pensar que aqui tudo funciona bem é uma fantasia que jamais convém. Eis aqui a velha ilha... ...da moça rendeira que o poeta disse, da sedução inocente e da crendice. Ilha dos encantos que não se acabam e dos problemas que nem se fala. Mas eis que a velha ilha... ...em dias de brilho tem o azul do céu e quarenta e duas praias são o troféu para quem conseguir nelas chegar. Daí que a velha ilha dos manezinhos... ...tem fantasmas que são iguaizinhos aos tantos que rondam todo o país, só que aqui, sobre estes, nada se diz.


SABERES Vai remando, marinheiro, vai remando, que quando chegar ao porto terás férias! Vai pescando, pescador, vai pescando, que quando chegar janeiro terás férias! Férias, para esses dois, não existem e o mês de janeiro é ilusão. Quem não olha a lua desconhece a sua estação. Quem não lê a maré que bate na areia não interpreta a navegação e quem errar um detalhe desses vai naufragar a embarcação. Vai remando marinheiro, vai...


UMA NOITE EM FLORIPA Quando as luzes se acendem sobre a negra cidade a branqueza da areia que tanto alegra tantos sob o sol escaldante não mais reluzirá, e assim cederá espaço pra outro tipo de diversão onde DJ e garçom são quase reis. Quase!? Quase porque reis de verdade são outros com outros tipos de ocupação.


SE UM DIA EU FOR PIRATA... Um dia me embalarei docemente nesse encanto que faz um canto nascer dentro de mim. Porque um dia eu serei vento e viajarei por esses mares buscando lugares lindos pra morar. Um dia o pirata que existe no meu corpo vai ficar louco e despir-se da preguiça que impede qualquer civilizado de descivilizar-se. E quando isso acontecer, os mares que me esperem e as ilhas perdidas, que vagueiam desiludidas por não verem seus piratas, me verão. Começarei por Ratones, quiçá construir meu forte e erguer minha bandeira. Assim serei eu, pirata, na pequena ilha que tem lá seus mil encantos!


ALMA, DE FORA Dona Alma, que era de São Paulo, capital, resolveu querer ares mais puros e, num impulso, largou tudo de uma vida de quarenta e tantos anos e veio morar aqui. Agora, toda manhã quando sai à padaria da esquina, dá um suspiro, de alívio. E quando chega o último dia do ano, Alma veste-se como uma lua cheia e sai alegre de seu edifício à Beira-mar, que tem nome de música. Cumprimenta o porteiro e vai ver os fogos que recebem o ano novo sobre as águas do mar. Depois estende seu passeio, segura do que está fazendo, e, madrugada adentro, remexe seu corpo ao som do Dazaranha.


QUINTAL EM SANTO ANTÔNIO Como eu queria ter um quintal na principal de Santo Antônio de Lisboa. Levaria vida boa como levam os boas-vidas de lá. Todas as tardes sairia pra remar numa canoa, no embalo que só aquele mar sabe embalar. Se garoasse teria uma rua ladrilhada pra pisar; se sol, uma rede pra armar. E se acaso não desse nada disso e viesse a noite com luar eu, mesmo assim, teria um barzinho aconchegante pra relaxar. E se o barzinho não tivesse tudo, ao menos, teria na cozinha uma Antônia, com encantos na mão, e dentro de poucos segundos me daria o melhor gozo do mundo com uma tigela de camarão. E se eu tivesse um quintal na rua principal, ali recolheria meu barco pra, no outro dia, outra vez, uma outra pescaria.


NOVEMBRO Novembro de novo é tudo novo e cheira recomeço. Novembro, quando o flamboyant da praça se veste com graça com o manto da iniciação. Vou te ver passar e te namorar em pensamento. Afinal, é o mês de novembro que chama em voz baixa o mês do natal. E passarei por ti sem que me percebas. Mais! Sem que saibas que eu existo. E assim minha esperança não morrerá, jamais.


SEXTA-FEIRA, 13! Tinha um viajante que chegava interessado em alcançar uma praia. À todos, pelo caminho, perguntava, para onde é que aquele caminho ia. Havia uma menina que o caminho enfeitava, e o viajante, inoportuno, olhou o enfeite que ali estava com seu coração vagamente noturno. – Aonde vai dar este caminho? Perguntou o viajante. – Este caminho, respondeu a informante, vai dar nas estrelas! Pois, para a menina, o caminho era de sonhos! ...que foram interrompidos naquela data.


NÁUFRAGO Sou um náufrago de mim mesmo: ora, aonde vim parar!? Naufragados é onde me encontro com outros que continuam a navegar. Faixa longa, de areia farta, que me seduz, e de um isolamento surreal. As histórias por aqui contadas causam arrepios e espanto e não é pra qualquer um que dá pra contar. Assim é Naufragados!


JOAQUINA Na Joaquina tem uma casinha, bem lá em cima que é um charme! Na Joaquina tem as dunas que até nem parecem coisa deste planeta. Lá tem gente que curte a vida de um modo despojado, com seu lado educado em alta! O seu tamanho, é que é estranho: sabe-se onde ela começa, mas não onde termina. Detalhe que não afeta sua sina, pois quem vai lá não costuma se preocupar com isso. Então, irmão, se puseres os pés neste chão, curte! – com cuidado, claro, mas curte, porque a Joaca é sob medida pra ti.


A CRUZ DAQUI Não se espante com o símbolo de adiante porque cruz, aqui, significa, inclusive, poesia. As cruzes que você vê, e o Morro da Cruz que você visita, e as tantas catedrais que aqui avista, são marcas de uma fé plantada em uma gente que ainda pratica o amor. O amor que aqui encontrará, dos tantos encontros que viverá, é um amor que jamais poderás esquecer. Porque este amor está cravado no peito e na história daqui do mesmo modo que cravaram simbolicamente as tantas cruzes por aí.


OLHAR DO MORRO DA CRUZ

Dirijo meu olhar deste lugar e vejo uma cidade que se mostra esfuziante, flamejante, incandescente. Então, a alma da cidade brota na noite escura e sai pelos ares a procura das borboletas do dia. Daí que minha agonia é não saber ser merecedor de tamanho espetáculo.


VENTO DE OUTONO E o vento do outono balança a copa das árvores enquanto o jardineiro prepara-se para a última poda da temporada. Depois vai vir o inverno de manga arregaçada pra surrar todos aqueles que foram cigarras durante o verão. E as formiguinhas que fizeram seu trabalho terão pão. E os pombos que voavam por sobre as cabeças continuarão soltando suas cacas...


MISTÉRIOS DO RIBEIRÃO DA ILHA No Ribeirão da Ilha tem um sino que toca toda vez que o ponteiro do relógio toca o imaginário. No Ribeirão, tem duas torres e um carrilhão. O carrilhão é encantador e faz qualquer um calar enquanto o badalo fala. As duas torres são de uma misteriosa igrejinha onde o povo reza quando quer que a pesca renda. Das três janelas da igrejinha misteriosa, um misterioso olhar sonda o mar, e então todo mundo pesca. No Ribeirão da Ilha tem uma banda que quando anda a tocar todo mundo para porque não consegue fazer outra coisa se não ver a banda.


E um zilhão de misteriosas coisas acontecem ainda naquele lugar. Não tem sentido ficar assim descrevendo, e mesmo, tem coisas que só vendo pra crer. Por isso, mexa seu esqueleto e vá você mesmo, de perto ver.


QUASE UM DIVÃ O tempo marreteia-me enquanto tuas ondas vão e vêm em forma de solavancos, – como a vida! Tuas brancas espumas, vomitadas na areia, são só o que meus pés alcançam de ti, porque o resto está todo tão distante. Mesmo assim és tão rude, – como o tempo – que, implacavelmente, persegue-me querendo arrancar uma confissão daqueles pecados que não cometi. Por isso, são várias as vezes que me sento de frente pra ti e confesso, em pensamento, todas as minhas desolações por estarem consumindo meus sonhos. Porque sei que sou um ser que não consegue viver sem sonhos, e por isso, por horas, me coloco livre, oh Atlântico, de frente para ti, e conto tudo sobre mim.


PRECISO DE UM TEMPO, NO SAMBAQUI Preciso de um tempo pra recriar meus delírios, pra me reencontrar, e pensar com meus botões. Preciso de um tempo que não seja lá tão cor de rosa, mas que, mesmo rubro, me deixe espelhar nas águas deste mar a minha insignificância. Porque a vida não é linear e o existir não é constante. Ora temos mais força, mais clareza, ora quase abandonamos o barco. É que as vezes o horizonte se aproxima em demasia e a nossa vista não consegue ver o que há para além dele. Por isso, preciso de um tempo pra sentar-me, só, em algum trapiche no Sambaqui e olhar, de lá, para outro horizonte que não é o meu. Esse olhar, que darei, de um trapiche no Sambaqui, me fará ver que há coisas muito mais belas do que os pobres horizontes sombrios e vagos que criei na minha mente de homem desvairado.


CIDADE DE RAMOS Amigo, não me peças pra informar porque, sinceramente, não vou conseguir. Se tu precisas ir, que vá. Mas, eu não sei... É que aqui são tantos Ramos que é difícil dizer se onde precisas ir é o Ramos que poderia saber.


BARCOS PIRATAS EM CANASVIEIRAS Deu no Jornal do Almoço: “– Praia de Canasvieiras é tomada por navios piratas!” E eu acreditei, e muita gente acreditou. Muitos, inclusive, foram lá para ver com os próprios olhos e voltaram calados. Ninguém falava nada, ninguém contava nada. Era um gelo total! Como se os piratas houvessem raptado todas as falas deixando todo mundo mudo... E nunca mais a TV falou alguma coisa sobre isso.


BEIRA-MAR QUE FICA Eis a avenida Beira-Mar, onde todo mundo passa, passa e para pra beber um pouco do encanto da azulada Ilha da Magia. Eis aí, desenhada, a via que leva tantos para tantos rumos mas que no fundo não é nada sem aqueles que ela leva. A beleza que ela hospeda é a beleza da prosperidade, e a cidade não seria tão cidade não fosse por ela.


SOBRE A MOÇA DA PRAIA A onda dança na praia e a esperança se espraia no coração dela. Tudo estava tão certo que tão profundamente ela pensava, pronta para fugir dali para um outo mundo … se houvesse! Enquanto isso... A onda dança na praia e a esperança se espraia no coração dela.


LAGOA FORMOSA Ela é onde a lua vem se espelhar toda noite. E a lua que é menina boa, quando vê sua imagem refletida na lagoa, chora feliz lágrimas de luar. Ela é onde as moças vão tomar sol, todo dia, e o bronze aumenta nas moças a alegria. Por isso a Lagoa da Conceição é considerada a mais bela na canção que o poeta fez pra falar dela.


JURERÊ Diria algum tupi-guarani, que passasse por aqui, que essa terra é um jerê-jerê. Num movimento que não cessa a noite se processa dentro dessa verdade. Coisas acontecem em teus verões e a riqueza transborda de dentro dos teus portões oh, cidade das coisas lindas! Onde tudo é organizado e o mais minúsculo alambrado suporta a mais suntuosa mansão. À tarde, enquanto o sol ainda arde, saem mulheres cor-de-rosa e vão pisar a areia divina. E, assim, vão-se os meses mais quentes enquanto tanta gente faz o mundo girar.


MÃO ÚNICA Vou e venho e por onde venho não vou mais. Mas, não faz mal, pois, tanto faz porque a rua que ia ficou só vinda, e aquela linda de olhos de mar não vejo mais, porque a rua não me leva mais e se eu for ela só me traz. Então, o que perco se o que tinha não era meu? Só perco a ida porque a vinda continua lá.


PONTA DO CORAL A Ponta do Coral, é fato certo de que um dia mais longe ou mais perto vai virar faturamento, e sem ressentimento o povo que viver nessa época vai ser feliz igualmente. Porque esse é o mal que perpetrará nosso tempo e com o advento de uma outra geração, um pouco mais amortecida que a nossa, o sonho morrerá de vez. E o entusiasmo de quem vai faturar com isso não tem pressa, pois confia na promessa que o futuro lhe fez. A não ser que uma força do além interfira e faça com que o bem, – que é minoria – vença. Só assim, para que o encanto bucólico, da Ponta do Coral não vire negócio.


PRAIA MOLE A Mole não dá mole, e se alguém, um dia, pisar lá que fique do lado de cá do aviso. A Mole parece fofa mas é marota, de um jeito terrível. Mesmo assim, há quem não viva sem ela! É mole!?


LUGAR-COMUM Um olhar mais a fundo, talvez, outro olhar, e então verás que há um outro mundo dentro desse que já viste. Olha bem, pra dentro, com calma, com a alma e sempre verás novidade. Eu sei que esta cidade esconde em suas dobras matizes não vistos a olho nu. Então, escapas ao lugar-comum, deixa de ser mais um e veja o que não se vê sem algo chamado paixão.


TRÁGICA LUA-DE-MEL A moça era de Descanso e o marido também. Mas vieram descansar, sossegadamente, de frente para o mar, como faz tanta gente. Mas a moça voltou tomada de um cansaço fúnebre, enquanto que o marido, pervertido, descansou, para sempre!


IPÊ-AMARELO, CARENTE Daqui de casa consigo ver as flores do ipê-amarelo que toda a primavera presenteia-me lá do bosque do condomínio vizinho. Sei que os que moram lá, que são donos, deram um abandono a essa árvore, e por isso, talvez, ela me adotou. E todo o ano, na primavera ela vem me presentear com flores de um colorido lindo de suspirar.


LENDAS DO SANTINHO Lá pras bandas do Santinho, conta a lenda, – de tantas lendas que há – que construíram um castelo a Céu aberto e lá andam princesas e príncipes, a Céu aberto também. Andam assim, de um modo que é possível vê-los a olho nu. Quase nus!


FANTASMAS DA ILHA Desde o primeiro dia que pus os pés na ilha me disseram que ela era “da magia”. Entendi que mágico, aqui, teria a ver com encanto, que teria a ver com sedução, que, por sua vez, teria a ver com fascínio, devido à esta beleza natural. Mas não. Depois, foram me contando umas histórias de bruxas. Chegaram ter a crueldade de me dizer que algumas voavam em vassouras, lá pras bandas da Barra da Lagoa. Pensei que aquilo era folclore. Mas não. Depois me apresentaram Franklin Cascaes, – homem nativo que com suas origens me identifiquei e, na sua obra, lendas de Florianópolis conheci. Então, me contaram mais histórias. Mais e mais, té que um dia cansei e inocentemente fui investigar.


Comecei por ver se encontrava alguma bruxa, ou vassoura, ou coisa similar. Sentei-me na Praça XV como um Sherlock Holmes a observar. E cada moça que passava eu quase lhe perguntava sobre a arte de voar. Naquele dia não deu em nada e da minha investigação cheguei à conclusão que só beleza haveria. Mas, foi de tanto perambular por lugares hostis em busca de uma confirmação que num dia sombrio tive uma constatação: Estava ali, firme e forte... – e real! Uma assombração. Tão firme e tão rígido. Ali, como um vampiro que suga toda a vitalidade de quem cruza seu caminho. Ali, imponente, à entrada da cidade que todos precisam cruzar.


O fantasma de Florianópolis, que há décadas, como um morto-vivo, faz as pessoas terem a doce ilusão de que aquilo serve para alguma coisa e, enquanto isso, traças, cupins, ferrugens e outros bichos vão se nutrindo e nutrindo seus bolsos às custas do povo, que paga pra manter o fantasma de pé.


SOBRE A FLORIPA, QUE ESCREVI Se duvidares das coisas que vim falar, há provas, e não há como contestar. E se as provas não forem suficientes, ou significantes ao teu olhar, então tens uma universidade toda pra juntar-se à ciência e com ela pesquisar. Não me há dúvida, ou receio, de que com qualquer meio vai apenas chegar onde eu consegui, e com minha singela poesia disse tudo aqui.


Este livro foi impresso em Cambria 12 e Courier New 16 sobre papel P贸len Soft 80g/m2 da Suzano, pelo grupo Pallotti de Santa Maria, RS, sob encomenda do editor.



Floripa em versos