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FIM DE UM REGIME POR PAULO MARRAFA


PREFÁCIO Fim de Um Regime é um livro que pretende dar a conhecer, ao público de todas as idades, em especial aos jovens que nasceram depois de 25 de Abril de 1974, o porquê do Feriado Nacional. Para que haja melhor compreensão do conteúdo deste livro, irei fazer uma pequena resenha. A primeira parte e mais pequena é um resumo histórico do que foi o SALAZARISMO. A segunda parte e do meio mostra o desencadear da operação que culminou com Abril. A terceira e ultima parte homenageia os Capitães de Abril, os que tentaram a sua sorte, mas não conseguiram, bem como critica o velho regime.

Homenagem a Salgueiro Maia


1ÂŞ Parte


I António Oliveira Salazar Filho do Vimieiro foi E ditador se veio a tornar, De belo nada fez Mas, muitas famílias Deixou a chorar, Quando seus entes queridos Viram ser capturados, Para nas mortíferas prisões Os instalarem, Por causa de uma simples E engenhosa frase, Que contra o “ESTADO NOVO” Proferida foi, De sua vida Um profundo isolamento fez, Preparando assim as Suas jogadas táticas Contra a rigidez Da forte oposição Que com a guerra colonial Queria acabar.


II As revoltas De mil novecentos e trinta e sete, Ao vinte e cinco de Abril, Muitas foram as revoltas, Mas todas elas falhadas. Algumas ficaram pelo caminho, Outras chegaram ao destino, Mas, todas elas foram repelidas, Pelas leais forças. Os cabecilhas tiveram, Como fado a deportação, Ou a prisão, Mas outros os políticos, A exilar-se foram obrigados, Mas, para sua sorte A política encontrava-se expiada Por agentes da Estatal Polícia, Que sempre disfarçados se encontravam.


III A Cadeira do Forte De São Brás Uma cadeira caiu, Um desastre acontece, Um homem fica perturbado, O acontecimento esse Passa despercebido. Foi assim que começou O fim de um regime, Tornado impiedoso E agora vulnerável, Foi o começo do fim De uma era cheia de opressão e medo, Que caminhava a passos largos E em perigos esforçados, Para o fim do mundo. Para o fim do mundo De um mundo sem consistência, Que ia desaparecendo Da velha Europa.


IV Morte de um ditador (27/7/70) Morreu um dos piores ditadores Que no mundo se ouviu falar, António de Oliveira Salazar Era o seu nome, e A vergonha de um povo Massacrado Pela polícia do Estado Novo, Morreu o homem Que prendia os inocentes E libertava os bandidos, Morreu o homem Que fez escolas elegantes E expulsou os militares, De cargos por ele empossados. Morreu Salazar, A ditadura está abalada, A sentença foi dada, Não há que temer.


V Quarenta e oito anos Quarenta e oito anos Durou o Salazarismo, Quarenta e oito anos Durou o absolutismo. Quarenta e oito anos Durou a opressão Da nobre classe, Quarenta e oito anos Durou a oposição Da classe portucalense Às poderosas forças. Quarenta e oito anos Durou o mais velho regime Europeu, Combatente da ordem do céu, Quarenta e oito anos Um regime permaneceu Fora do contexto mundial.


VI Uma esperança Renasceu Um ditador morreu, Um inimigo desapareceu E a esperança reapareceu. Eis a melhor altura Para a revolução ser preparada, E a liberdade ser recuperada. Um inimigo desapareceu, Uma pomba voltou para o céu, E o mundo percorreu. Para uma revolução ser preparada A melhor altura chegou, Mas, para que se concretize, É preciso ser cuidada.


2ÂŞ Parte


VII A Herdade do Sobral (9/9/73) No dia nove de Setembro Do ano de setenta e três, Uma reunião ocorreu: Era a primeira de muitas Pelo MFA realizadas, Era a primeira de muitas, Que ocorreu à vista Da PIDE fascista E de oficiais Salazaristas Sem desconfiarem de nada, Há reunião sagrada Cento e cinquenta oficiais Resolveram comparecer, Para discutir problemas laborais, Para espanto dos oficiais, Foi ali a sentença dada: A reunião seria feita Se fosse para uma revolução.


VIII A vivenda de um comerciante (8/12/73) Foi na vivenda do ilustre João Ribeiro da Silva, Que em oito de Dezembro Ocorreu a primeira reunião, Da coordenadora comissão De um movimento ilustre, Por MFA denominado. Foi também a primeira Da carreira Do ilustre coronel Vasco Gonçalves, E o mais recente a ingressar No movimento dos descontentes.


IX A prisão de Vasco Lourenço (Dezembro de 1973) Este fundador do movimento Por revolucionário conhecido, Foi detido e enviado Para o forte da Trafaria Onde o aguardavam Ribeiro da Silva e Pinto Soares, Também pertencentes ao movimento. Mas, o inesperado sucedeu Vasco Lourenço pedia, Ao assustadiço tenente, Que tinha como fado Ser homem temente, Para cuidar daquela cela Pois ser usada iria, Pelo General Andrade e Silva, Quando a revolução chegasse.


X A denuncia Um oficial interrompe Um curso que frequentava, No Instituto de Altos Estudos Militares E denunciava O golpe De Kaúlza de Arriaga. Vasco Fabião era seu nome, Major o seu posto, E fazer gorar pretendia Contactos entre kaulzistas E spinolistas, Para uma maior vitória Da democracia. Para uma maior vitória Da democracia, Para alegria de uma Pátria, Que se encontrava com medo Da velha guarda salazarista.


XI As pequenas reuniões Durante os meses que antecederam A esperada vitória da democracia, Em casa de vários oficiais Com assídua frequência, Pequenas reuniões ocorreram. Eram pequenas reuniões Com um único ponto: Organização das tropas no terreno Durante o desencadear do movimento, A elas compareceram De entre os valorosos do acontecimento, Vítor Alves e Vasco Lourenço, Sanches Osório e Otelo Saraiva de Carvalho, Hugo dos Santos e outros MFAS, Que sem descanso Eram guardados por sentinelas.


XII A saída de casa (23/4/74) O comandante operacional Receando denuncia ocasional, Decidiu não dormir em casa Na véspera do grande acontecimento, Meteu o uniforme no saco E disse à mulher o que fazer iria, E saiu de casa Mas, esquecera-se da pistola, E a casa teve de retomar E a mulher foi encontrar, Caída na cama e em grande pranto, Já com a arma na mão A sair voltou, E para o Regimento de Engenharia Numero um, Se deslocou Para coordenar a operação. É de Otelo Saraiva de Carvalho Que meu peito vos fala, Cheio de alegria e felicidade Para que haja um pouco de caridade, Para este homem Nascido do orvalho, E diretamente encaminhado Para o meio da revolta.


XIII O começo da Revolução (24/5/74) Os homens leais ao regime São presos por seus vassalos, E seguem-se dois avisos Dando ordem para que se prepare A desejada saída dos quartéis. De repente ouve-se um som fundo Era a “Grândola Vila Morena”, Era hora de atacar, Era hora de avançar, Foi assim que o braço armado Veio para as ruas, Para enfrentar sem tréguas, O reduto das trevas.


XIV A fragata do Tejo O telefone soa, O comandante atende E recebe a ordem, Mas, discute-a primeiro Com seus vassalos, Que lhe respondem uníssonos: “Trata-se da Revolução”, E o velho comandante democrata Cheio de emoção, Opta pela desordem Deixando as tropas avançar Contra o aristocrata. A revolução prossegue Até ao seu destino: A libertação do ostracismo, Imposto a um País Há muito deprimido E também amedrontado, Pelo imperial fascismo.


XV O primeiro confronto de Salgueiro Maia Encontrava-se a Escola Prรกtica De Cavalaria, Dirigida por Salgueiro Maia No velho Terreiro do Paรงo Quando se encontrou Com os da cavalaria sete, Mas, resolveu o incidente Ao ordenar o apagar dos rรกdios E tomar novos posicionamentos. Absorvia-se assim O primeiro grande ataque, Pelo regimental tanque Feito, Sem que o luso peito Tivesse ficado no chรฃo.


XVI O Tenente - Coronel Ferrand d’ Almeida Um homem tenta frente fazer À tropa revolucionária, Mas, acaba por se render Com as palavras do povo, Representado por Salgueiro Maia. E lá seguiu a força revolucionária Sempre em frente, Trazendo consigo a salvação De um País cheio de audácia E da sua cultura temente.


XVII A rendição de um brigadeiro Eram dez da manhã Quando a respiração se sustia, Perante um comandante Que dialogar não queria, E por ser incompetente Dá ordem de prisão, A um subordinado Por não ter disparado. Mas, o inevitável aconteceu O cabo apontador não cedeu, E a ordem ficou por cumprir Devido à sublevação, De toda a guarnição. E assim foi aniquilado, O Brigadeiro Junqueira Reis Que sozinho estando, A render-se foi obrigado.


XVIII A etapa final Os carros chegaram Ao quartel do Carmo Comandados pelo capitão Salgueiro Maia Sobre grande tensão. Demorava o cerco Há várias horas Quando Marcelo Caetano Optou pela rendição Após serem cumpridas Suas exigências. Para tal salgueiro Maia Através do código secreto “Rádio Charlie oito” Ao General Spínola pedia A sua comparência No local em questão.


XIX O assalto à RTP Era ainda madrugada Quando o batalhão chegou, E da RTP se apoderou Sem a mínima resistência, Da segurança destacada. O primeiro passo estava dado A guerra vencida estava, Apenas bastando Atingir o reduto Do velho regime despreocupado, Que desarmado se encontrava Por morte do seu mentor. Passavam cinquenta minutos Das duas da manhã, Quando a velha guardiã Tomou sem contratempos, A emissora televisiva.


XX Os homens de engenharia Três foram os regimentos, Ousaram desafiar Sem se acobardar, Um regime cheio de buracos. Três foram os valorosos, Três foram os aventureiros, Três foram os audazes, Três foram os valentes, Que sem piedade Acabaram com a indignidade, Dos governantes. Regimento Um de Engenharia, Batalhão de Engenharia três, Escola de Engenharia, Foram os três gloriosos Agrupamentos de engenheiros, Que deram asas à liberdade.


XXI O Rádio Clube Português e a casa da moeda Ninguém esperava Que as instalações, Do Rádio Clube Português, E a Casa da Moeda Sofressem ocupações Pela tropa revoltada. Nove capitães revoltosos, Por centena e meia de homens Acompanhados, Da Escola Prática de Engenharia Oriundos, De dois pontos estratégicos Conta tomavam Sem grande monta, Para tal ajudados foram, Por um Major À engenharia pertencente, E em férias no continente. A revolução estava quase finda, A guerra tinha sido vencida, Só faltava esperar Pela prisão dos fugitivos.


XXII A vinda para Lisboa A madrugada estava a meio Quando de Estremoz, E sem receio O regimento de Cavalaria Três, À estrada se fez Rumando a Setúbal, Em Vendas Novas pararia Para os depósitos encher. Tal precaução Se devia, A possíveis manobras Que, durante a operação Ocorrer deveria, Por fim a Lisboa chegadas Tomaram sua posição, Na história Da lusa Pátria.


XXIII A contra-ordem Seguia um grupo de soldados A caminho da Trafaria Quando receberam Pela radiofonia Uma contra-ordem, Segundo o posto de comando Foram mobilizados, Para o lisboeta emaranhado E a direção ao Carmo Tomaram, Para auxiliar os que lá estavam. Entretanto outro grupo, Que na Rua Nova do Trindade Estava estacionado, Recebeu o mesmo mando Do posto de comando, Tendo a toda a velocidade Se juntado aos demais.


XXIV O alerta Eram oito e meia Deste inesquecível dia, Quando do esquadrão Membros da população Se aproximaram, Alertando os soldados Para graves acontecimentos. Tais acontecimentos No comando da PIDE Ocorriam, Levando à mortandade De jovens inocentes Que só queriam Comemorar a liberdade. E para lá se dirigiram Alguns soldados Fortemente armados, Que tremeriam O coração da polícia Que Marcelo Caetano Chamaria De DGS.


XXV A Junta de Salvação Nacional Os oficiais generais são convocados, E para o Quartel da Pontinha Se encaminham, Daí são transportados Para os estúdios, Que a RTP detém no Lumiar, Quando chegaram o CEMGFA Com Spínola se quis reunir, E logo lhe ofereceram A sala de Ramiro Valadão, Mas, tal reunião Só no dia seguinte terminou, Para permitir Ecoar a voz da Junta de Salvação, Mas, quando se pensava Que seria Costa Gomes a falar, Eis que legava Com tamanha coerência, A presidência Para espanto do MFA, Spínola tornou-se assim O sucessor de Almirante, Do velho regime pertencente, E que por nome tinha Américo Tomaz.


3ª PARTE


XXVI O mundo é composto de mudança A Primavera dá lugar ao Verão, O Verão ao Outono, O Outono ao Inverno, O Inverno... Tudo é composto de mudança, Muda-se a mentalidade Ganha-se a liberdade, Muda-se o ser Renova-se o viver, Descobre-se a confiança. Mas que mudança esta E que tanta dor de cabeça dá, A quem a prepara E a vida lhe dá. Será mudança para melhor, Mudança para pior, Mudança para quê?


XXVII Voa, voa aviãozinho Voa, voa aviãozinho Devagar, devagarinho, Leva contigo A voz da livre democracia, Com um sorriso de alegria. Voa, voa aviãozinho Voa bem levezinho, Leva contigo A tua mensagem de glória, De glória infinita Ao povo amigo. Voa, voa aviãozinho Devagar, devagarinho.


XXVIII Homenagem a um capitão (Henrique Galvão) Foste comandante Da operação Dulcineia: Operação destinada A assaltar o paquete “SANTA MARIA”. Foste coordenador De um grande feito, Que não deu o seu efeito, Porque a brasileira diplomacia Teve mais eficácia. Foste um gigante A combater gigantes, Mas por morrer acabaste Sem que a arma galante, Pudesse destruir o FASCISMO.


XXIX Carlos Vilhena (Morte de um Rebelde) Tu que agora morreste A monarquia destruíste, Mas, coragem não tiveste, De o Estado Novo implantar E o parlamento fechar. Foste preso várias vezes, E para os Açores Foste deportado, E proibido foste Durante vinte anos De exercer teu fado. Mas, no Exército Foste reintegrado, Durante o Salazarismo, Mas, só serias reconhecido Quando vários anos Passados, Sobre tua morte A liberdade reviveu.


XXX Homenagem a José Afonso Com tuas mãos, Aos libertadores caminhos A vida deste, Ajudando os soldados Na sua sorte. Com tuas mãos, O caminho traçaste Da ditosa liberdade, Com tuas mãos, O povo chamaste À lealdade, E à fidelidade Do regime reconquistado. Com tuas mãos, Ajudaste a fazer a história De um povo, Que a liberdade pedia Dentro de seu coração, Com palavras de encorajamento. Com tuas mãos, O perdido mundo Modificaste, Com tuas mãos, Escreveste Na tortuosa emancidão, De teu coração


O iniciar da revolução.


XXXI Fim de um Regime Um regime foi deposto, Uma pedra foi posta Num infindável buraco: Era o buraco do Estado Novo, Durante cinco décadas encoberto Pela era salazarista. Foi deposto um regime Que massacrou Portugal, Prendendo e levando Homens de renome, Para a famosa Tarrafal, De onde muitos Não saíram vivos. Mas, muitos outros, Que para o exílio tiveram de ir Para da prisão fugir, E só voltaram Quando os Capitães de Abril A eles apelaram.


XXXII Voa avezinha Voa, voa avezinha Pelo caminho luso, Voa, voa avezinha Espalha o novo feito luso, Que tanto tardou a chegar. Voa, voa avezinha Anuncia a nova meta: A Conquista de Abril; Voa, voa avezinha Voa liberta. Voa, voa avezinha Leva teu canto A todo o Portugal, Voa, voa avezinha Nesta era de encanto.


XXXIII A manhã da Liberdade A manhã nasce, O povo acorda Para um novo dia, Para uma nova vida Coberta de alegria, Amor e esperança. O povo acorda E depara-se com o fim De uma era, Que de fim Não ter parecia, De uma era Cheia de infelicidade, Ódio, raiva e medo, De uma era Onde falar não se podia, Onde não se elegia Aquele por quem Se queria ser governado. O povo acorda E vê seus entes Libertarem-se dos cárcere, E serem justiçados, Vê seus entes Libertarem-se de culpas Que nunca tiveram,


De crimes Que nunca cometeram.


XXXIV Venham todos... Venham todos, venham ver, Venham todos para a rua Ver a caravana da liberdade, Que avança sem piedade Com a faca nua, Contra o velho regime. Venham todos, venham ver O último reduto Do velho Novo Estado, Que se tenta esconder No aquartelamento Que no Carmo fica situado, Mas, que acaba de ser apanhado. Venham todos, venham ver Os tanques de Abril, A atravessar Lisboa Perante os olhos do País gentil. Venham todos, venham ver, Venham escutar A Grande Vila Morena, Que Zeca Afonso está a cantar. Venham todos, venham ver, A alegria que o povo libertou, Venham todos, venham ver, A vida nova que se alcançou.


XXXV Glória de um povo Um pássaro voa, Uma banda ecoa, Pelas ruas da cidade Com vivacidade, Por seu público clamando Com as forças todas: Venham todos, venham ver, As tropas abençoadas, Que a liberdade trouxeram, Venham todos, venham ver, Os nossos irmãos exilados Que vêm com esperanças. Venham ver meus amigos O que a boa nova nos traz, Será glória? Será tristeza? Tristeza não é de certeza.


XXXVI Voar Um pássaro voa, Uma canção ecoa, Clamando com ardor O amor, Que guardava no coração À espera da revolução. Um pássaro voa, Uma canção ecoa, Espalhando com alegria, A nova experiência Pela revolução adquirida, Dando ao povo nova vida. Um pássaro voa, Uma música ressoa, E a tristeza do mundo Vai desaparecendo, Enquanto a liberdade Se vai libertando, Com bastante agilidade E algum fervor.


XXXVII A reconquista da Liberdade Um pássaro esvoaça, Uma cantiga nasce, E a vida recomeça Numa alegria crescente. É a alegria da liberdade, De uma liberdade cativa Num cativeiro sem fim, E que um dia Ajudada pelo marinheiro Elevou a voz, e disse assim: “Força, força, Que o rei foi deposto”. E a uma só voz todos Avançaram, Sempre esperançados Reconquistando enfim, O que perderam.


XXXVIII Homenagem àquele que Nasceu em Abril Abril ledo acordou E cantando bem alto, A todos anunciou: Em meu ventre Um menino se ergueu, Em meu ventre Um bebé nasceu, E aos pássaros se dirigiu Suplicando: Acordem o povo deste País, Acordem o arco-íris, Porque chegou a liberdade. Em meu ventre Um menino se ergueu, Em meu ventre Um bebé nasceu, Trazendo no seu peito A palavra libertadora, Trazendo no seu peito A força tentadora. Em meu ventre Um menino se ergueu, Em meu ventre Um bebé nasceu, E a alegria veio trazer A um povo


Que não sabe perder. Em meu ventre Um menino se ergueu, Em meu ventre Um bebé nasceu, E da gaiola retirou A pomba que um País Libertou.


XXXIX O vinte e cinco de Abril O sol ledo e cego nascia, Quando o movimento popular Às ruas descia, Com firmeza na vitória. A firmeza era tal Que ninguém os conseguia parar, Tinham de dar final A uma guerra custosa de acabar. Tinham de pôr fim A um regime que desonrou a Pátria, Tinham que dizer sim À restauração da democracia.


XL Fim de uma época Um reinado chegou ao fim, Um rei foi deposto, Um pássaro voltou a voar, E a velho clarim Há muito interdito Voltou a soar, Cheio de força e vitalidade. Um reinado terminou, Um regime acabou, Abril saiu vencedor Da guerra infinita, E sem esplendor E também mortal. A liberdade foi escutada Com afinco, E Tarrafal foi aprisionada.


XLI O mês do cravo Pai, quem é aquele senhor, Que está a comprar um cravo, E o enfia naquele grande buraco Escuro e infindável. Filho, é o filho da nova era Que se avizinha cheia de alegria, É o fruto que traz a vida, É a força que destrói a ira E que abre uma nova via. Pai, para onde vai aquele rio, Que insaciável parece, Para onde vai aquele tanque Que está perto do mulherio. Filho, aquele rio que vês, É a vida que renasce, É o calor que aquece O coração do português, Aquele tanque em que reparaste, É supervisor e, comandante De um mar descontente, Que quer libertar a pomba da Paz. Pai, porque se querem levantar Contra os governantes e a constituição, Porque tanta gente tenta arrombar O velho portão.


Filho, o que vês É o fim de uma era, Encoberta de tristeza E temor, De prisões e terror, De PIDE e GGS Provocando a incerteza. Pai, se eles eram infiéis à Pátria, Se eles apenas pensam em si, Deveriam ser julgados e exilados, Deveriam ser castigados. Pai, se eles não tinham piedade, Se eles não tinham coração, Se eles desconheciam a amizade, Se eles não tinham emoção, Não deveriam voltar à Pátria.


XLII Viajando pelos Caminhos de um mês Viajei pelos recantos de um mês, Que viu chegar a sua vez De conquistar sua liberdade. Viajei sem parar Por mundo encoberto pelo preto, Que precisava de acordar, De ser redescoberto, De reviver A sua própria liberdade. Viajei por um mundo Que se dizia tiranizado, Cheio de restrições, Sempre esperando De ser preso por nada, E por tudo. Agora quando viajo Pelos seus caminhos, Paro uns minutos, E vejo Que não sinto o cheiro Por que outrora eram encobertos: O cheiro da tiranizarão.


XLIII Homenagem a Otelo Saraiva de Carvalho Sou aquele Que a liberdade reconquistou, Que as antigas políticas Venceu, Que à vida devolveu, E a amizade Recuperou, Às pessoas injustiçadas. Sou aquele Que deu a liberdade A um povo inconformado, E agora eis-me encarcerado No cárcere da liberdade. Sou o reviver de um mundo Que parecia perdido, E que comigo foi devolvido A uma nova vida, A uma nova época.


XLIV Onde está Otelo Onde está Otelo, Onde está o salvador, E Comandante operacional Do velho regime vencedor. Onde está o homem Que o País chefiou, Presidindo à salvação, E sua reestruturação, Que a vida perigou Pelos oprimidos, E que desencarcerou Os desesperados. Onde está o homem Que deu voz à população, Que os opressores calou Em troca da livre comunicação, Onde está o homem Que o mundo libertou, Onde está o homem Que em si concentrou Todos os poderes Da chefia republicana.


BIBLIOGRAFIA: REVISTA EXPRESSO; REVISTA JORNAL ILUSTRADO; HISTÓRIA DE PORTUGAL VOL. III de José Hermano Saraiva

Fim de um regime  

Fim de um regime conta a história que levou à revolução dos cravos em 1974

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