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http://www.fabioguerra.net CONTO DO LIVRO “O CICLO DA VIDA” De Fábio Guerra http://www.fabioguerra.net

O FATOR EU TE AMO

I Eu te amo nunca foi tão expressivo. Como quando falado para a mãe ou para o pai. Eu te amo não é expresso, mas é contido em pequenos frascos e derramado em pequenas gotas, em forma de gestos. Esses gestos são, em sua maioria, mundanos, mas são os que nos diferenciam daquele macaco ali do lado, no zoológico da praça. Mesmo os macacos amam, de outra forma, mas amam. No princípio, sonhamos em amar, amar quem vai nascer. Criamos expectativas, afinal, é um filho. Meu filho. Eu. Te. Amo. Será no dia vinte de outubro, em 2016. Daqui três anos e alguns meses meu filho nascerá. E com ele, minha vida mudará. Nossas vidas, de fato. A minha e a da mãe dele. A atual desconhecida por mim. Eu vou amá-la. Ou não. É a mãe do meu filho ou filha, claro. Eu não sei ainda. Enfim, ele nascerá. E nesse vinte de outubro, eu estarei muito, mas muito feliz. E muito, muitíssimo assustado. Será às dezoito horas o nascimento. E, claro, eu presumo, tudo ocorrerá bem. Será cesariana. E ele nascerá.

II Eu te amo tem um poder tão imenso, que só percebemos quando dizemos na hora em que realmente sentimos necessidade de dizer. Eu, provavelmente, não disse eu te amo a mãe dele. Ou disse, não sei ainda. Eu e a mãe dele nos conhecemos. Não sei se foi no passado, presente ou no futuro. Mas foi, imagino, assim. Assim e nada mais. Só isso. Nos conhecemos e não me lembro, ainda não.

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http://www.fabioguerra.net III Ele será tão lindo. Tão pequeno e tão amado. E eu o amarei, e a mãe dele o amará, e os avós dele também e, quem sabe, até os tios dele também. Vamos estar todos lá, o admirando, o observando. E então começará. Eu e a mãe dele, enlouquecidos ficaremos. Não saberemos como lidar com a nova realidade. É nosso filho. Meu filho. E com ele, grandes poderes ele trará. E nos deixará com as grandes responsabilidades, é claro. Os primeiros dias, como sempre, será de admiração. E mais admiração. Sempre. Nos primeiros dias. Depois ele começará a sentir tudo: fome, frio, enjoo, nojo, náuseas, cólicas, medos e saudades. De sua mãe, é claro. A mãe que é apenas objeto dele. Ainda. Não, para sempre, será objeto dele. E, para cada sensação, um choro. Ou melhor, muitos choros, cada qual com seu significado. E, claro, nós, os pais, com certeza, saberemos o que cada choro significa. Ou tentaremos entender.

IV Eu te amo. No primeiro engatinhar, quando ele começar a se libertar para o mundo, tentará e conseguirá, muitas vezes, morder e lamber tudo o que ver pela frente. Tudo que for diferente ele tocará e à boca levará. Ele começará a engatinhar na sala e em seu quarto. Lugares seguros. Sempre com pessoas por perto, o observando, o admirando, o cuidando. Ele colocará na boca e nós vamos tirar. Ele vai chorar. Nem sempre, mas sempre, assim mesmo. Sempre assim será. No primeiro engatinhar, uma foto e um vídeo e assim, sempre será. Sempre nos primeiros momentos de algo. Será assim, quando falar sua primeira palavra, quando começará a caminhar. E a andar de bicicleta, não, skate, claro. Ou ambos.

V Nos primeiros anos, tudo começa e tudo começa a aumentar. A tensão, a dor, o medo. Em seu olhar, a gente vê o futuro se abrindo, como em um passe de mágica, mas em um caminho árduo. O primeiro ano da escola, os primeiros amigos, os primeiros desentendimentos. A primeira liberdade. A primeira liberdade, aquela em que eu te amo se torna menos corriqueiro do que antes. É a liberdade que meu filho terá. Não precisará espernear e nem dizer eu te amo para ganhar o jogo. Um jogo natural, de percurso natural, chamado vida. A liberdade dele se dará, ao entrar na escola, e com outros interagir. Terá amigos, muitos nem vão saber o que isso significa e, outros, serão apenas colegas, de passagem, como tudo na vida. Na verdade, não há distinção, não aos seis ou sete anos de idade, entre amigo de verdade e colega. Meu filho terá ambos, é claro. Todos os direitos reservados à Fábio Guerra. Proibida a cópia, distribuição ou divulgação deste documento fora do ambiente em que se encontra.


http://www.fabioguerra.net Algumas vezes os colegas ou amigos, serão meninas. E a partir daí, é claro, com o convívio social, terá de aprender a diferença: meninos e meninas são muito diferentes entre si. E assim, a descoberta do gênero e, talvez, da sexualidade humana. Que, ao passar dos anos, se torna mais animalesca e menos humanista, é claro. Especialmente entre os meninos.

VI Passado a primeira infância. É chegado à segunda infância. Ou ao fim dela e à pré-adolescência. Onde todas as crianças ficam sérias. Tudo para elas é sério: a escola, o namoro, a família. E, claro, meu filho também achará isso. Tudo é sério. Mas o namoro é mais. É assunto em pauta, diariamente discutido entre amigos e colegas. É a época dos blocos, quase carnavalescos, mas não tanto, de pessoas que se identificam. Agora, meu filho não se identifica mais comigo ou com sua mãe ou com a família apenas, mas com seus pares, ou seja, se identifica com pessoas de sua idade, seu gênero, sua série escolar e até mesmo seu esporte ou matéria favorito. Na questão gênero é mais forte: meninos de um lado, meninas de outro. Nos blocos femininos, paira as listas de mais bonitos, quem beijar, qual o defeito de cada menino e até, os defeitos das próprias amigas: é na escola que começam a se mostrar, tanto quanto no futuro se mostrarão. Algumas são poderosas, ocupando posições de respeito e poder igual à vida adulta, outras são mais fechadas ou, ainda, tradicionais, mas independentemente do que as meninas forem, os meninos sempre caem ou deveriam cair aos seus pés. Afinal, seus papéis vão se definindo de maneiras muito mais rápidas do que com os meninos. Nos blocos masculinos, paira as listas das mais lindas, de quem vai ser a primeira e qual o mais virgem entre eles mesmos. Virgem, palavra mais falada por meninos nesta idade, que vai dos nove aos 14 anos. Eles conversam sobre esportes, quem tirou a pior nota e fazem bullyng, que as meninas também fazem, com menos intensidade que eles, claro, com os nerds, cdfs e com quem for. Brigam entre eles. Palavrões, máfia e outros tipos aparecem entre eles. São diversos, mas juntos, parecem uma bola de neve que sempre cresce, mas não aprendem nada. Mas assim é a vida, e só aprenderão os seus papéis, diferentes das mulheres, no futuro, na vida em si. Não se preparam como elas. E aqui, o eu te amo muda, totalmente.

VII Eu te amo, agora aqui é fator para conseguir mulher. Ou para perdê-las. Aos 15 anos, as mulheres são o objetivo, afinal, o vestibular que pode definir o seu futuro é só no futuro, dentro de um ou três anos. Um para mulheres, que recebem o eu te amo como convite, é claro, para ficarem. Três para os homens, ou melhor, meninos, pois não amadureceram muito ainda, pois, ficam obsessivos e pensam mais com a cabeça de baixo do que a de cima, a com cérebro. E meu filho também usará esse artífice. Ou seja, eu te amo, é reduzido, ao número de meninas que se pega. Ou diz que pega. E começa os aniversários de 15 anos Todos os direitos reservados à Fábio Guerra. Proibida a cópia, distribuição ou divulgação deste documento fora do ambiente em que se encontra.


http://www.fabioguerra.net delas, e começa os primeiros contatos com a vida adulta: os contatos sociais, ou meramente aparentes.

VIII Na época de vestibular, do término da escola, do início da vida adulta, os jovens estão perdidos: entre o estudar e o pegar devem se submeter a rígidos controles. E, com esses controles, começam as pressões. E com essas pressões vem as brigas e os outros tipos de choros. Começo brigando com meu filho por ter passado a noite na casa do amigo e, tendo que estudar cedo no outro dia. Apenas brigo. E irritado ele fica. Se for menina, o choro começa. Ou melhor, independente do gênero, o choro pega, no último ano do ensino médio. Há vários tipos de choro: os de medo do futuro, os de desespero pelo não saber o que fazer no futuro, os de negação do fim do ensino médio e os choros de desespero e medo juntos, além da raiva, pelo simples fato de ouvir uma palavra: vestibular. Aqui o eu te amo começa a inverter. Eu e a mãe dele brigamos com ele, depois, arrependidos, tentamos explicar o porquê e, claro, tudo termina com um eu te amo ou nós te amamos. Mas. Sempre tem um mas, um porém. Normalmente é: você deve fazer isso, você tem que terminar aquilo. O porém muda a relação entre pais e filhos. O porém, o mas, muda o eu te amo. Para sempre.

IX O ensino superior traz medo ao eu te amo, pois, quando estamos na faculdade, o eu te amo se torna algo sagrado que não deve ser maculado durante sua estadia na faculdade. Estadia, pois, a faculdade é um estado. E, normalmente, é em outra cidade. Trazendo experiências como a de morar sozinho e de se virar sozinho, e a das festas, bebedeiras e noites curtas e dias longos. Meu filho irá à faculdade. Mas aqui, em nossa cidade. Então, o máximo de liberdade a que terá é ir a festas de sua turma e outras raras vezes, sempre e apenas, para experimentar o gosto de ser adulto e responsável por si. Festas, bebedeiras, madrugadas adentro de estudo. E muito pouco tempo, em quatro, cinco ou seis anos, para outras coisas. Outras coisas como um eu te amo, que se transformou em uma espécie de amuleto imaculado que não se deve dizer, nem mesmo para os pais, pois seria considerado brega, cafona e coisa de criança. Mas todos têm vontade de dizer. E dizem. Sempre por telefone, em algum lugar escondido dos amigos e colegas de faculdade que, muitas vezes, são mais velhos do que ele.

X Quando, do fim da faculdade, meu filho enfrentará outro dilema, aparentemente não tão grande, mas imenso, na realidade. O dilema da vida adulta e o dever de se ter Todos os direitos reservados à Fábio Guerra. Proibida a cópia, distribuição ou divulgação deste documento fora do ambiente em que se encontra.


http://www.fabioguerra.net uma vida adulta. A liberdade começa a se metamorfosear para outro tipo de liberdade. A total liberdade. A liberdade que significa responsabilidade. E unicamente dele. Ele terá de decidir que tipo de vida quer levar e se quer crescer ou continuar sua vida universitária, como um não universitário, e isso não é algo bom. E mais uma vez: eu não sei o que ele decidirá. Ainda não.

XI E então, chegou o momento: independente da vida que ele escolher ou que aparecer perante ele, meu filho com certeza fará aquilo que todo filho faz. Amará mais alguém além de seus pais. Amará alguém, um terceiro no meio de três: pai, mãe, filho. E a relação mudará novamente. E o eu te amo agora é para outra pessoa.

XII E então, ele terá de deixar a casa dos pais, a nossa casa. Independente das escolhas que ele deve fazer, esta é uma que ele fará. Ou não, ainda não sei, mas, presumindo que sim, ele irá sair de casa, deixando seu quarto vazio: um ninho vazio. E eu e a mãe dele esperaremos, até morrer, ou não, não prevejo tão bem o futuro, o último eu te amo. E, quando este vier, será dele ou de nossos netos? Ou será de um para o outro, apenas? E então, eu te amo, na verdade, nunca foi tão inexpressivo.

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O fator eu te amo  

Conto do livro O ciclo da vida, de Fábio Guerra. Todos os direitos reservados.

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